FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout  
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout
 

(Pesquisar fics e autores/leitores)

 


 

ATENÇÃO: Esta fic pode conter linguagem e conteúdo inapropriados para menores de idade então o leitor está concordando com os termos descritos.

::Menu da Fic::

Primeiro Capítulo :: Próximo Capítulo :: Capítulo Anterior :: Último Capítulo


Capítulo muito poluído com formatação? Tente a versão clean aqui.


______________________________
Visualizando o capítulo:

1. Sem Limites


Fic: Sem Limites - FemmeSlash


Fonte: 10 12 14 16 18 20
______________________________

Casal: Helena/Luna
Itens utilizados: Briga, rir até chorar, tempestade, sangue, sutiã lilás e seção reservada. 

________________________

SEM LIMITES

Para seres como eu, existindo por séculos demais no mesmo lugar, o tempo pode ser terrivelmente monótono. Mesmo que este lugar seja Hogwarts com um contingente inesgotável e diferenciado de alunos. Depois de algum tempo tudo parece igual e raras vezes me vi tentada a interagir de qualquer modo com alunos ou mesmo professores. É claro que, como fantasma da Torre da Corvinal, tentei sempre manter uma convivência agradável com os alunos da casa fundada por minha mãe, e por convivência agradável entendo educação e bom-senso.


Mas, por vezes, vi bruxos extraordinários adentrarem o castelo que já na cerimônia de seleção despertavam meu interesse. Esses eu discretamente acompanhava nos anos que aqui passavam. Observei o pequeno Nicolas Flamel na Torre da Corvinal já então tomado por suas ideias sobre alquimia e eternidade; nas masmorras, a ambiciosa Ana Bolena e, mais tarde, sua filha Elizabeth, tramaram para tornarem-se rainhas entre os trouxas; alguns séculos depois vi o notável Alvo Dumbledore impressionar a todos com sua rara inteligência e liderança; no início deste século fiquei extremamente intrigada a respeito de Olivaras e sua memória incomum, e poucos anos depois apareceu o encantador Tom Riddle que, de maneira astuta, me ludibriou, arrancando-me segredos há muito enterrados.


Apesar da excepcionalidade, poucas vezes me senti tentada a falar com eles, e nessas ocasiões me afastava. Tom Riddle foi o único com quem interagi, o que posteriormente se mostrou um erro e prometi jamais me aproximar novamente de qualquer aluno, independente de quais fossem seus atrativos.


Até que ela chegou, com seu jeito sonhador e hábitos estranhos, para testar todas as minhas defesas.


Luna Lovegood. Uma criança curiosa, em todas as acepções da palavra.


Eu a observava sem deixar que ela ou qualquer outra pessoa notasse. Mas, com o passar dos anos, tive a sensação de que ela sabia, que sentia minha presença mesmo quando seus olhos não estavam em mim. Às vezes, tinha a impressão de que, mesmo quando eu a olhava dormir, ela sabia da minha presença. Isso me desagradava, e inúmeras vezes me afastei dela sentindo uma mistura de irritação e medo. Medo por não saber o que tudo isso significava.


Ela se tornou a minha doce e torturante obsessão. Em algumas ocasiões, sentia ânsia de protegê-la da tristeza e da solidão, em outras, era quase uma necessidade de confrontá-la por fazer as coisas mais inacreditáveis que eu já vira. Mas, por mais tentador que fosse, e era, eu me abstinha de falar com ela.


Então ela chegou ao sétimo ano de sua educação e me desesperei. Travei uma guerra sem sentido algum entre um coração e um cérebro que eu já nem tinha mais. Eu não podia deixá-la ir assim.


E por mais uma noite meus olhos não desgrudavam dela, acompanhando cada mínimo movimento de suas mãos. E não fazia sentido. Definitivamente não fazia sentido. Quanto mais ela rabiscava a folha, menos sentido fazia. Começara como uma reprodução inocente do diadema de minha mãe. Observei enquanto ela erguia aqueles enormes olhos azuis para a estátua de mármore ao canto da sala comunal, e voltava-os para o papel. Vi-a desenhar o diadema perfeitamente, traço por traço. Reproduzindo as curvas delicadas que eu conhecia tão dolorosamente bem. Então, quando a obra parecia terminada, surgiram os acréscimos.


Agora o diadema de Rowena Ravenclaw ganhara o que pareciam dois chifres curvos, saídos dos dois lados da cabeça, pequenas asas esvoaçantes e algo grande e pontudo se projetava da testa, rompendo a harmonia do diadema com tanta violência que parecia poder furar o próprio papel onde fora desenhado. Não fazia sentido.


- O que está fazendo? - questionei, por fim, quebrando a concentração da garota. Ela balançou de leve a cabeça, focando os olhos em mim.


Por um segundo ponderei se não deveria sair dali, mas, antes que eu pudesse decidir, ela respondeu tranquila:


- Estou tentando reproduzir o diadema de Rowena Ravenclaw.


- Não está indo muito bem, não acha?


- Bom, isso é só um rascunho. Eu e meu pai tínhamos uma réplica perfeita, mas explodiu junto com a nossa casa.


Não havia nenhuma surpresa em seus gestos ou palavras, quem a visse se dirigir a mim com tamanha naturalidade imaginaria que éramos próximas, e isso me alegrou. Mas essa alegria logou transformou-se em medo. E minhas palavras, tentando suprimir esse descabido temor, saíram ríspidas.


- Você tem uma réplica do diadema bem na sua frente, menina. Seu desenho passa longe de ser uma reprodução dele.


- Oh, mas essa réplica não está completa. - ela exclamou, como se estivesse surpresa que eu não percebesse aquele fato.


- Ah, não? - questionei, a ironia escorrendo das palavras, mas ela não notou.


- Obviamente estão faltando os sifões zonzóbulos. - disse, indicando para as trompas curvas que saíam das laterais do diadema que desenhara - A hélice de gira-gira. - indicou as asinhas - E a ameixa dirigível! - o terrível objeto pontudo foi sua última explicação.


- Ameixa dirigível?


Era uma daquelas ocasiões nas quais ela dizia coisas bizarras. E eu estava confrontando-a? Estava.


- Sim, para aumentar a capacidade de aceitar o extraordinário.


- Céus! - revirei os olhos, sem saber qual de nós duas estava fazendo papel de idiota naquela conversa. Entretanto, não havia nenhum sinal de sarcasmo naqueles olhos azuis.


- O que acha? Está faltando mais alguma coisa?


- Que tal algo para incrementar a capacidade de observação do óbvio? - sugeri, sarcasticamente. A garota coçou o queixo por um momento, suas sobrancelhas franzidas.


- Hm... Acha que o olho de uma acromântula resolveria? - ela perguntou, genuinamente curiosa. Encarei-a por um momento, tentando descobrir algo além daquela ingenuidade sem fim. A garota continuou a me olhar de volta, esperando a resposta.


- Continue tentando. - respondi, por fim, sacudindo a cabeça e atravessando a parede para deixar a sala comunal.


 


Lá estava ela de novo, na noite seguinte. Observei-a de longe. Fingi não notar quando seus grandes olhos me percorriam, vez ou outra. Continuei próxima à janela, me revezando entre correr os olhos pela noite, fora do castelo, e me concentrar em conversas aleatórias dos alunos sussurrantes da sala comunal. Belo passatempo, me distrair em escutar os segredos fúteis de meninas de dezesseis anos. Acho que você simplesmente deixa de ser exigente quanto a entretenimento, depois de alguns séculos.


A garota loira de grandes olhos azuis estava sentada no mesmo lugar. Novamente havia uma grande folha de desenho estendida sobre seu colo, e um pedaço de carvão manchava seus dedos, enquanto ela rabiscava o papel. Talvez estivesse acrescentando os olhos de acromântula a seu bizarro desenho, mas não acreditava que algo no mundo pudesse aprimorar sua capacidade de enxergar o óbvio.


Aproximei-me devagar, e ela continuou aquele ritual cíclico de erguer os olhos para mim, voltá-los para o papel, rabiscar sofregamente, e mais uma vez olhar para mim. Não se distraiu, nem mesmo ao perceber que eu encurtava a distância entre nós e que a encarava de volta a cada vez que ela fixava o olhar em mim. O que estava querendo?


- Mais algum acréscimo importante ao diadema? - questionei, assim que estava próxima o bastante para que ela me escutasse.


- Ah! Não... eu só estava me distraindo. - Lovegood respondeu. Estiquei o pescoço para espiar o desenho daquela noite e o choque me deixou paralisada por um minuto inteiro.


- Mas o que é isso?! - praticamente gritei, atraindo a atenção de alguns alunos ao redor.


- Bom, isso aqui é o diadema de Rowena Ravenclaw... - ela começou, indicando o pequeno objeto em forma de coroa - E essa aqui é você. - esclareceu, indicando a mulher que ela desenhara ao longo de toda a folha e sobre a cabeça da qual descansava o diadema.


Sim, aquela era eu. Eu, em cada mínimo detalhe. Meus olhos fundos, meus cabelos embaraçados, minhas vestes longas e soltas, até mesmo meus pés pequenos. Era a minha cabeça, minha boca curvada em um pequeno sorriso que eu sabia não ter dado em anos. Para ninguém. O desenho era uma reprodução tão vívida de mim que levei a mão à minha cabeça por um momento, procurando pelo diadema. Não estava lá, é claro. Há mais de um milênio, ele não estava lá. Nunca mais estaria.


A sensação me voltou como uma onda, sem possibilidade de resistência. A sensação embriagante de poder, de possuir o mundo nas mãos, todas as ideias na cabeça. A sensação de vaidade ensandecida de quando me olhei no espelho pela primeira vez, usando o diadema. Como eu era alta, forte, jovem e bonita. Como eu podia possuir o que quisesse, tudo, nada, todos e ninguém. Ali estava de novo, eu, viva, lúcida, perfeita, sorrindo, com o diadema perfeitamente acomodado sobre meus cabelos volumosos, como se tivesse sido feito para encaixar-se ali. Aquele desenho era como uma fotografia que recordava o momento da minha vida que eu passara séculos tentando apagar.


- O que você pensa que está fazendo? - bradei, a raiva subindo tão forte por mim que estranhei o sentimento quente.


- Desenhando. Achei que ficaria bonito. Quero dizer, olho para Rowena usando o diadema todos os dias... e fiquei imaginando como ele ficaria em você.


- Pois não imagine! Existe um motivo para o diadema estar na cabeça de Rowena, não na minha!


- Mas eu só...


- Você só não pensa! Acha que é a primeira a cobiçar o diadema? A primeira a tentar reproduzi-lo? - exclamei, mesmo sabendo que o silêncio tomara conta da sala e apenas minha voz raivosa ecoava pelas paredes circulares - Pois não é! Eu tenho visto, século após século, menininhas pretensiosas se sentarem nessas poltronas e olharem para o diadema como se pudessem alcançá-lo só por desejá-lo tanto. Não podem! E você não é nem um pouco diferente delas. Apenas mais idiota!


- Mas...


- Queime esse desenho agora! E preste atenção nas blasfêmias que faz contra sua própria casa! Garota insolente! - terminei, deixando a sala em um rompante de fúria.


Não havia nada, nada pior que recobrar a vida depois de tanto tempo. As sensações humanas eram fortes demais. E agora não havia sangue em mim para pulsar tudo aquilo. Não havia toque, pele, fogo, lágrima para expulsar, para purgar tudo aquilo. Rodeei pelos corredores, tonta, atordoada pela mistura corrosiva de sentimentos. A vontade de ouvir o eco dos meus passos pelo chão cresceu dentro de mim daquele jeito doentio que eu não sentia há décadas. Mas meus passos não mais faziam eco.


- Srta. Ravenclaw. - ouvi o chamado tímido e me voltei para a garota, bufando. Ela não pareceu se intimidar, mesmo que eu soubesse quão assustadora podia ser a visão de um fantasma contrariado - Sinto muito se meu desenho a perturbou.


- Queime-o.


- Já queimei. - ela respondeu, enfiando a mão no bolso das vestes e tirando um punhado de cinzas que deixou escorrer de seus dedos para o chão.


- E nunca mais...!


- Nunca mais vou fazê-la se lembrar de tudo isso. - Lovegood disse, cortando minha frase ao meio e me deixando idiotamente muda.


- Mas o que é que você...?


- Sabe, srta. Ravenclaw, acho que seria bom aumentar o tamanho daquela ameixa dirigível. - ela acrescentou, com um pequeno suspiro conclusivo, e então me deu as costas, e eu fiquei ouvindo seus passos morrerem conforme ela se afastava corredor afora.


Corri como o vento para a Seção Reservada da biblioteca. Se eu tivesse um coração, nesse momento ele estaria explodindo devido a torrente de emoções que, não sei como, me acometia. Eu não sabia o que pensar. Eu não sabia o que fazer. E depois de todos esses anos eu não sabia quem era Luna, mas ela sabia exatamente quem eu era.


Passei horas e horas pensando sem chegar a conclusão alguma. Sabendo que deveria manter-me longe dela para manter a sanidade. E sabendo também que enlouqueceria.


 


Talvez eu tivesse ajudado se estivesse ali quando o primeiro aluno ficara para fora. Agora estava apenas divertido demais para que eu me intrometesse. Pelo menos uns dez alunos se amontoavam na entrada da Corvinal, tentando decifrar a charada que era particularmente capciosa naquela noite. Eles se agrupavam, sussurrando informações, repassando e repetindo a charada a cada vez que um novo aluno se aventurava na resposta. A frustração e os resmungos não comoviam nem um pouco a aldraba de bronze em forma de águia que se recusava terminantemente a abrir a passagem para permitir a entrada dos alunos cansados.


Fiquei observando do alto, rindo de suas respostas incoerentes e de como bufavam sem paciência a cada vez que a voz musical da águia lhes dizia que a resposta estava incorreta. De novo. Ainda estava assistindo a toda aquela comoção, quando a garota loira se aproximou. Luna Lovegood. Parecia distraída, como sempre. A pequena multidão perto da porta não pareceu lhe causar nenhum estranhamento. Ela simplesmente passou pelas pessoas, como se o corredor estivesse vazio. Ou como se fosse absolutamente comum toda aquela reunião do lado de fora da sala comunal.


Ela tocou a aldraba inocentemente e a águia repetiu para ela a charada que vinha murmurando há horas:


- Por que uma estrela sobe e um raio cai? - questionou a voz melodiosa da estátua de bronze.


Luna Lovegood desfiou despreocupadamente os fios louros, mordendo o canto do lábio por um momento, antes de responder.


- Bom, o norte e o sul são apenas questão de opinião.


- Bem pensado, querida. - a águia replicou, deslizando para o lado para que, finalmente, todos pudesse adentrar a sala comunal.


Luna se sobressaltou apenas quando as pessoas ao redor gritaram vivas e a empurraram porta adentro, dando-lhe tapinhas nas costas. Seus olhos azuis se encheram de surpresa por um momento, então ela deu de ombros e sorriu, atravessando a passagem junto com seus colegas de casa.


Meus olhos permaneceram nela e eu também adentrei a sala, para não perdê-la de vista. Aquela garota era diferente de tudo que já havia visto. E eu já havia visto muita coisa. Ela não era a mais bonita. Ela sequer seguia o padrão clássico de beleza. Havia um exotismo latente em sua aparência, o qual ela fazia questão de acentuar com suas roupas e acessórios extravagantes. Seus olhos ocupavam quase a metade de seu rosto delicado, e o tom de azul era perturbadoramente claro. Seus cabelos eram de um louro pálido, não dourado ou acobreado. Mas um platinado reluzente, liso e longo. E havia toda aquela despreocupação... Aquela ingenuidade. Luna Lovegood parecia estar constantemente alheia ao mundo real. Parecia ser uma completa alienada, perdida. Parecia habitar uma realidade paralela onde coisas inexistentes eram absolutamente críveis. E, no entanto, quando abria sua pequena boca em formato de coração, sua percepção de mundo chocava a todos. Me chocara. Meus olhos seguiram-na pela sala comunal. Permaneceram nela enquanto ela fazia os exercícios do dia. Eu a assisti subir as escadas para o dormitório feminino, horas mais tarde.


É, eu passei anos decorando cada ínfimo detalhe dessa garota e ela ainda me surpreendia.


 


Eu estava olhando para ela, na manhã seguinte, vendo-a derramar suco de abóbora no cereal matinal e servir leite em um copo separado. Segui seus passos pelos corredores do castelo, entre uma aula e outra. Queria estar perto para ouvi-la falar, para vê-la respirar, para assisti-la viver. Ela era uma experiência única em cada momento do dia, sempre fora. E não era como se eu estivesse com a agenda cheia, de qualquer maneira...


Cada dia que passava era, para mim, um dia a menos. Logo ela iria embora.


Agora, mais do que em todos os anos que passara em Hogwarts, Luna ocupava as horas do meu dia, os dias da minha semana. Sua rotina era a minha. Me aproximei perigosamente dela. Sabia a hora que acordava, como gostava de rechear seu pão, quais aulas eram suas preferidas. Conheci seus amigos - grifinórios, em maioria. Isso não me fez questionar, em momento algum, se ela estaria na casa errada. Minha mãe teria escolhido aquela garota pessoalmente, se pudesse. Tinha certeza disso. Teria apontado para ela no meio de uma multidão e a reconhecido como sua igual, sua herdeira. Luna Lovegood era espontânea à beira da inconsequência, irresistível. E eu a seguia pelo castelo, até o momento em que seus grandes olhos azuis piscavam pesadamente de sono e ela subia, meio trôpega, os degraus para seu dormitório.


 


Em uma noite, esperei alguns minutos e subi atrás dela, silenciosamente. Atravessei a porta e deslizei por entre as camas até encontrá-la, estendida sobre o último colchão. Os lençóis azuis enrolavam-se em suas pernas claras e seus cabelos louros caíam em desalinho pelo travesseiro. Fiquei parada em frente àquela cama, com os olhos fixados nela, tentando decifrá-la, entendê-la, me entender. Talvez eu estivesse apenas entediada demais. Nenhuma distração dura tempo o bastante quando você estará entre as mesmas quatro paredes para sempre. Mesmo em um lugar como Hogwarts, a história se repete, uma vez atrás da outra. E aquela garota... aquela pequena garota era apenas uma brisa quente quando eu vivia invernos há tempo demais.


- Por que você está me olhando? - ela questionou de súbito, sem sequer abrir os olhos para encarar minha figura pálida no escuro. Se eu ainda tivesse um coração batendo, ele teria disparado com o susto.


- Não estou. - repliquei. Ela abriu seus grandes olhos e me encarou demoradamente.


- Sim, você está. Tem estado me olhando mais do que o normal, ultimamente. - constatou e talvez a única coisa que me impediu de sair rapidamente do cômodo foi a completa falta de acusação naquela voz.


- Estava apenas procurando...


- O que?


- Ora, não é da sua conta!


- Posso imaginar que, com o passar o tempo, você não tenha mais muita coisa para se distrair. - Luna continuou, sentando-se na cama - Mas fiquei um pouco curiosa por você ter me escolhido.


- Garota, você sequer sabe do que está falando. - disse, virando-lhe as costas para deixar o quarto.


- "O espírito sem limites é o maior tesouro do homem."


- O que você disse?!


- É o lema de Ravenclaw.


- Eu conheço muito bem o lema de Ravenclaw! - exclamei, irritada - O que você pretende, citando-o para mim?


- Eu só acho que, às vezes, você se limita demais.


- O que quer dizer com isso? - Eu havia deslizado novamente para perto dela, nossos olhos fixados, sem piscar.


- Você está mais viva do que imagina, Helena.


- Você está enganada. - abri minha capa para revelar a ferida, a única e fatal ferida que manchava minhas vestes com aquele sangue prateado.


Prateado agora, frio e inerte para sempre. Mas fora vermelho, quente e denso, escorrendo por minhas mãos levando minha vida com ele. Os grandes olhos de Luna focaram o ferimento e pareceram enxergar e absorver a sua dor, a minha dor, a dor daquela ferida que nunca cicatrizaria.


- Eu estou morta. - disse, dessa vez deixando o dormitório sem hesitação.


 


Revirei os olhos ao som da nova risada. Aquilo só podia ser algum tipo de ironia cruel. Eu passara anos rastreando os passos daquela garota por cada metro do castelo. Então, quando eu finalmente queria voltar à minha solidão silenciosa, ela invadia o único espaço de Hogwarts que eu podia chamar de seguro. O que podia haver de tão engraçado em um livro, afinal? Espiei mais uma vez por trás de uma estante.


Luna estava sentada em uma das pequenas mesas escuras da seção reservada da biblioteca. A iluminação era fraca, embora fosse dia. Aquela área da biblioteca era demasiado entulhada para que o sol alcançasse muito espaço. Ela apoiara um grosso volume de capa preta sobre a mesa e seus olhos percorriam página por página, enquanto o som da sua risada tilintava pelas paredes. Observei-a demoradamente, reparando no modo como seus lábios se curvavam em um sorriso, como seu cabelo girava no ar quando ela balançava a cabeça. Mesmo tendo visto isso diversas vezes, eu ainda admirava como se fosse a primeira.


Uma página lhe pareceu particularmente engraçada e eu assisti à gargalhada dela crescer como uma onda se avolumando na praia. Aquele som de divertimento simples, puro. O peito dela subia e descia com os arquejos da risada e ela apenas continuou a rir até que seus olhos azuis se enchessem de lágrimas grossas que escorreram despreocupadamente pelo rosto claro. Aquela garota era tão viva que olhá-la naquele momento me pareceu quase ofensivo.


- Silêncio! - exclamei, saindo das sombras. Ela ergueu seus olhos marejados para mim, sem nenhum sobressalto. - Isso aqui é uma biblioteca! O que pensa que está fazendo? Sua histeria é uma falta de respeito para com os demais! - continuei e Luna olhou em volta, constatando, é claro, que ela era a única naquela sala, além de mim.


- Desculpe ter te incomodado, devia saber que estava aí.


- Mas é claro que não sabia, menininha egoísta. Estava entretida demais consigo mesma. Pois você está em um lugar público, então comporte-se como manda a boa educação!


- Sim, srta. Raven...


- Mas que barulheira é essa aqui? - uma terceira voz nos interrompeu - Você perdeu o juízo, menina? Dá para ouvir suas risadas lá da recepção! - Madame Pince repreendeu - Você pensa que está na sua casa?


- Desculpe, Madame Pince. - Respondeu Luna, naquele voz calma, limpando os olhos.


- Assim terei que cancelar seu vale para a seção reservada! É preciso fazer silêncio, os outros estão...


- Deixe a garota em paz, Pince. - me intrometi. Só então a mulher pareceu reparar em minha presença e arregalou os olhos na minha direção - Não está vendo que essa é a seção reservada e que ela é a única aqui? Quem a menina poderia estar incomodando? Aos fantasmas? Pois digo que não está!


- Mas Dama Cinzen...


- Não tem "mas"! Você, como bibliotecária que se preze, não devia privar uma leitora dos sentimentos despertados pela melhor literatura do século! Quem pensa que é? Deixe que a menina aproveite sua leitura em paz e ocupe-se de coisas mais importantes!


- Sim senhora. - ouvi-a resmungar, baixando seu nariz e caminhando de volta para a recepção.


- Hm... - o murmúrio baixo fez com que eu me voltasse novamente para a mesa - Obrigada? - Luna arriscou, seus grandes olhos divertidos e curiosos.


- Ora, saia daqui! Você já me perturbou demais! - resmunguei, voltando a me enredar pelas estantes que conhecia tão bem. Ouvi os ruídos de Luna juntando seus livros e do som de seus passos se afastando mais uma vez.


 


O som dos trovões era ensurdecedor. Os raios partiam o céu em dezenas de pedaços. Costumava ter tanto medo de tempestades... mas o tempo passara, é claro, e eu percebera que nem raios nem trovões poderiam me atingir. Que nada poderia me atingir. Quase nada. A tempestade desabando do lado de fora ladeou meus passos silenciosos até aquele dormitório. Eu teria toda a eternidade para me perguntar o que estava fazendo e não encontraria a resposta.


Parei diante da cama dela, como fizera em todas as noites anteriores. Fiquei imóvel, como uma estátua de plasma, acompanhando o ir e vir de sua respiração. Se pudesse sugar apenas um pouco daquela vida que ela transpirava... Era isso? Era sede da vitalidade que ela esbanjava? Era a reação do resquício de vitalidade que havia em mim? Dessa vez não me surpreendi quando ela abriu seus olhos azuis, sem nenhum aviso, e focou-os em mim. Como sempre, ela não pareceu surpresa. Luna Lovegood parecia ter um sexto sentido aguçado, como se sempre pudesse prever o que se aproximava.


- Você pode deitar, se quiser. - ela disse, arrastando-se para um canto da cama e enroscando-se melhor nos lençóis.


- Não me diga que está com medo dos trovões. - Debochei. Na verdade estava procurando um meio de ignorar sua tentadora proposta.


- Hum, não. Na verdade, vejo certa beleza nessa fúria toda.


Eu não soube o que responder e ela mirou as vidraças com aquele olhar sonhador.


- Veja a força com que essas gotas batem nas janelas, e como fica lindo quando o azul do raio corta o céu negro...


Ela estava imersa em seus pensamentos. E quase assustei-me quando ela falou novamente.


- Você vem?


Hesitei por um momento e então deslizei até ela, me sentando na beirada do colchão que ela desocupara. Luna estava deitada de lado, virada de costas para mim. Seu cabelo platinado escorria desorganizadamente por seu ombro. Deitei-me no colchão, também de lado, tão encolhida quanto pude. Não era capaz de sentir o calor que se desprendia dela ou dos lençóis, mas ela sentiria a frieza do meu toque se lhe encostasse.


Recostei a cabeça no mesmo travesseiro que ela. Observei a curva suave de seus ombros, seu braço longo, suas mãos pequenas. Voltei o olhar para sua nuca, bem diante do meu rosto. Seu cabelo escorrera para longe, deixando seu pescoço nu. Antes de pensar em me conter, ergui uma das mãos e deslizei a ponta do dedo pela pele alva. A reação foi tão humana, tão imediata. Luna ficou completamente arrepiada. Ela virou a cabeça, me olhando por sobre o ombro e eu me senti corar. Como se isso fosse possível...


- Perdão. Sei que é gelado.


- Não. - ela balançou a cabeça despreocupadamente, os olhos límpidos - Foi quente.


 


- Por que está toda encolhida aí?


- Não quero tocar em você. - respondi monotonamente. Por mais que eu me encolhesse, apenas alguns centímetros separavam nossos corpos naquela cama pequena. Não sei, não sei que loucura se apossara de mim para criar aquele hábito infame de deitar na cama dela todas as noites.


- Por que não?


- Você provavelmente não conseguiria dormir, se eu tocasse. - disse e ela pareceu analisar a resposta por um momento.


- Você deve ter razão.


- Eu tenho.


- Mesmo assim, quero que você me toque. - eu levantei meus olhos para fixá-los aos dela. Não havia nenhum temor, pudor ou hesitação naquelas íris azuis. Estavam claríssimas, como sempre. Diziam tudo com uma sinceridade indolor, como sempre. Por isso, soube o que ela estava pedindo naquele momento e isso me assustou como nada assustara em séculos.


- O que?


- Sim...


- Você sabe que eu não posso.


- Você pode. - ela disse, levando as mãos calmamente ao seu suéter e desabotoando-o até o fim. Fiquei olhando, quase em transe, quando ela despiu a peça de vez, relevando um delicado sutiã lilás.


- Luna...


- Sim?


- Eu... - não sabia o que dizer. Luna desceu as mãos por seu corpo magro, delgado, tão menina ainda, tão mulher, e empurrou o short que usava por suas pernas brancas, até despi-lo completamente.


Muda, rolei na cama, saindo do lado onde estivera deitada e passando a flutuar sobre o corpo dela, a apenas centímetros de distância. Luna ergueu a cabeça, alinhando seus olhos aos meus e sorriu.


- Helena.


- Diga.


- É a minha primeira vez. - ouvi-a sussurrar e nós duas rimos. Aquela garota era completamente louca. E estava me arrastando irresistivelmente para sua insanidade. Oferecer aquilo para um corpo seco como o meu era como oferecer água para alguém perdido no deserto. Eu beberia dela até a última gota.


- Eu vou ser carinhosa. - respondi e o sorriso de Luna aumentou, honesto e confiante. Baixei a cabeça, aproximando minha boca de seu ouvido o máximo que pude. - Vou despir você devagar... - sussurrei e pude olhar as mãos dela se movendo na direção do fecho do sutiã.


Luna abriu a peça e a fez deslizar por seus braços calmamente, até descartá-la, desnudando seus seios pequenos e redondos, perfeitos. Então seus dedos correram seu corpo até a calcinha branca, empurrando-a gentilmente pelas coxas.


- Vou deslizar as mãos pela sua cintura, sentindo a curva do seu corpo até cobrir seus seios... - descrevi, e as mãos dela seguiram minha sugestão obedientemente - Quero sentir sua pele arrepiada nos meus dedos, sentir que você está quente, está com vontade.


- Eu estou. - ela gemeu baixinho, seus dedos circulando os mamilos intumescidos sofregamente. Meu corpo, do que quer que fosse feito, pareceu começar a se derreter. Senti-me quente como não sabia que era possível ficar. Viva como não sabia que podia ser.


- Eu vou arranhar sua barriga e seu ventre, deixar você sentir que estou chegando perto, cada vez mais perto... - as unhas dela encenaram minha narrativa com uma precisão dolorosa.


- Hm... - a respiração dela era ruidosa e pesada. Esperei que seus olhos se fechassem languidamente, mas eles permaneceram em mim.


- Você vai sentir minhas mãos por entre suas coxas, apertando sua pele até marcar meus dedos...


- Você me quer. - ela murmurou, subitamente. Não pensei em nenhuma tangente pela qual escapar e apenas balancei a cabeça positivamente.


- Eu quero você. - confirmei, rouca - Vou tocar você com a ponta dos dedos... Vou sentir você.


- Estou molhada.


- Eu sei. Você me quer.


- Eu quero você.


- Vou rodear seu clitóris lentamente até que...


- Ah!


- Sim, até isso... - sorri quando o corpo dela se arqueou de prazer - Minha outra mão vai deslizar até...


- Entra agora!


- Assim?


- Ah! Isso...


- Mais rápido, vou fazer mais rápido. - disse, sentindo o corpo dela reagir a cada palavra, as mãos dela obedecendo como se eu ditasse ordens irrefutáveis.


- Não para!


- Não vou parar. Mais rápido.


- Eu vou gozar!


- Goza. Eu vou te fazer gozar.


- Eu vou... eu vou... ah! - Luna tremeu inteira, o espasmo balançando seu corpo. Sua respiração quente desenhava halos de vapor no ar. Desejei inspirá-los todos, até sorver seu prazer, sua preguiça, sua entrega.


- Luna...


- Você me tocou. - ouvi-a dizer, ofegante.


Balancei a cabeça, voltando encolhida para o lado da cama - Você me tocou.


 


Estava silencioso. Nem um único ruído perturbava a calmaria plácida daqueles corredores. Os livros repousavam empoeirados nas prateleiras. As cadeiras estavam sob as mesas, metodicamente arrumadas. E fazia silêncio, continuamente. Eu sabia o motivo, é claro. Àquela hora não havia uma viva alma rondando aquele castelo - apenas eu. Era o último dia do ano letivo e alunos e professores estavam partilhando um café da manhã suntuoso no Salão Principal.


Era o último dia do ano letivo do último ano letivo de Luna Lovegood. Aquela manhã nascera tão rápido que eu mal tive tempo de piscar. Em um segundo era noite e Luna dormia a apenas alguns centímetros, os lençóis enroscados em suas pernas brancas. No momento seguinte o sol nascera e eu me esgueirei sem fazer barulho para fora da cama, sem fôlego para uma iminente despedida.


Estava tentando, de todas as formas, não ser dramática demais. Não agir como se o único sopro de vida que eu tivesse sentido no último milênio estivesse, por fim, se desvanecendo. Flutuei por entre as estantes da sessão reservada da biblioteca, onde eu vivera boa parte dos últimos séculos. Tão saudosista passear por entre os livros que eu ajudara a organizar naquelas prateleiras... Os livros que observava minha mãe devorar e escrever tão avidamente.


- Helena. - estava silêncio o bastante para que a voz dela soasse como uma trovoada. Não soou.


- O que está fazendo aqui? Vai perder o trem.


- Eu vou voltar. - foi a resposta dela, seus grandes olhos azuis mirando fixamente os meus - Vou dar um jeito de voltar assim que possível. Eu posso ser professora aqui. Ou secretária da diretora. Ou...


- Não volte. - interrompi-a. Flutuei para perto dela e percebi, pela primeira vez, a agitação borbulhante em suas íris. - Você não quer ficar presa entre essas quatro paredes para sempre, acredite. Fazia muito tempo que eu mesma tinha me arrependido dessa escolha.


- Tinha? - ela arqueou sua sobrancelha loira - Não se arrepende mais?


Eu sorri fracamente.


- Algumas poucas coisas fazem a vida valer a pena. - murmurei, erguendo uma das mãos e desejando poder tocar-lhe o rosto. Ao invés disso, deixei meu braço cair novamente ao lado do corpo - Você, minha querida, vale até a morte.

 ________________________________

Clichê: primeiro amor.
Inversão: uma fantasma, mano!
Clichê: primeira transa.
Inversão: com uma fantasma, mano! (e na verdade a Luna que se toca)
Clichê: um amor impossível.
Inversão: que continua impossível! (nas fics, sempre o amor impossível dá certo no final)


Primeiro Capítulo :: Próximo Capítulo :: Capítulo Anterior :: Último Capítulo

Menu da Fic

Adicionar Fic aos Favoritos :: Adicionar Autor aos Favoritos

 

_____________________________________________


Comentários: 2

Páginas:[1]
:: Página [1] ::

Enviado por Lai Prince Slytherin em 30/01/2013

*relendo* Olha, eu li essa fic na época do challenge e nem comentei... *mal-criada* mas tipo, eu nem sei se tenho palavras agora... bem aí vai: Você escreveu e contou a história exatamente como um fantasma contaria. O jeito da Helena de pensar ficou MUITO FODA, muito perfeito como ela esqueceu certas sensações de estar viva. E sério, nunca vi uma Luna tão bem caracterizada! (isso porque dizem que é a mais difícil de escrever de todas). O jeito como a Luna reviveu todas essas sensações nela. O jeito ingênuo diante do medo (ir)racional da Helena de se relacionar com um aluno de novo ficou incrível... E na parte da briga, quando ela reviveu estar com o diadema de novo... PQP, ERICA! Muito foda. "As sensações humanas eram fortes demais. E agora não havia sangue em mim para pulsar tudo aquilo." AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH D: E a orange... jesus amado, crendeuspai! Se eu resolvesse escrever uma fic com um fantasma, empacaria de cara na orange. Você arranjou uma 'solução' perfeita! MEU DEUS, QQ FOI AQUILO? 1tesãoabsoluto!
Sorry, Manu, baby, mas a Erica merecia o 1º lugar :/ 

Nota: 1

Páginas:[1]
:: Página [1] ::

Enviado por MiSyroff em 01/12/2011

Li muito com a N/A!

ahushaushuahsuahs

Já leio a fic ♥

Nota: 5

Páginas:[1]
:: Página [1] ::

_____________________________________________

______________________________


Potterish.com / FeB V.4.1 (Ano 22) - Copyright 2002-2026
Contato: clique aqui

Moderadores:



Created by: Júlio e Marcelo

Layout: Carmem Cardoso

Creative Commons Licence
Potterish Content by Marcelo Neves / Potterish.com is licensed under a Creative Commons
Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported License.
Based on a work at potterish.com.