O dia amanhecia tão escuro e chuvoso como era de costume nos primeiros dias de Hogwarts. Na sala comunal da Corvinal, o pouco de luz que penetrava no ambiente, vinha das frestas das cortinas que escondiam a fraca luminosidade do lado de fora do castelo. Os alunos continuavam aconchegados em suas camas, poucos se aventuraram a enfrentar o ar frio que circulava pelo interior da sala comunal. Penélope Clearwater fora uma das poucas pessoas a descer tão cedo naquele primeiro dia de aula.
Acostumara a tomar seu café-da-manhã bem cedo para evitar o barulho dos outros alunos, mas hoje havia um motivo especial. Por estar no quinto ano, esperava ser nomeada monitora este ano.
O salão principal estava repleto de alunos, cada um contando sobre suas férias e mostrando as fotos e lembranças das viagens. Era algo nada emocionante para ela, pelo simples fato de ter passado boa parte das férias com suas irmãs e quase não poder ver a sua melhor amiga, Cleraency Witman. Naquele no ano em Hogwarts era possível sentir alguns olhares para Penélope, quando entrou pelo salão. Nessas férias, em especial, ela mudara bastante desde o ano passado.
Crescer alguns centímetros pareceu ter chamado a atenção de alguns, o que fes o rosto pálido – quase translúcido – corar. Sua mão tremeu, quando percebeu a distância que faltava de onde ela estava para a mesa da Corvinal. O coração deu um pulo e uma conta surgiu em sua mente. Onze passos. Não era muito se pudesse correr, mas pareceram quilômetros naquela situação.
A sorte, por um segundo, pareceu sorrir para ela. Na verdade, não era a sorte em si, mas seu colega de casa Van Wilder. Um rapaz de olhos brilhantes cor-de-mel e cabelos espetados que estava no sexto ano de Hogwarts. Ele acenou mais uma vez até perceber que ela caminhava em sua direção. O alívio foi maior quando a garota passou a perna para o lado de dentro da mesma e largou a mochila no lugar desocupado do banco.
-Bom dia? – Um sorriso torto apareceu no rosto de Van, como um sinal claro de dúvidas sobre o primeiro dia de aula.
-Vamos ver. – respondeu Penélope num tom agourento.
Ainda tinha tempo de se distrair. A mesa estava farta e sua mochila cheia de livros novos para serem devorados em um ano inteiro, mas havia tempo para aquilo tudo, o que não havia era fome. O perfume das torradas de leite quentinhas era a única coisa aconchegante naquele momento. Seus olhos ainda vagaram por sua mochila e se prendeu em um livro novinho com ilustrações douradas. O livro de Feitiços avançados para o quinto ano.
Em menos de dois segundos, já estava presa sobre o que iria aprender com ele, com os dedos percorrendo cada linha do feitiço. Até que, ao longe – na entrada do salão – podiam-se ouvir os passos apressados e o burburinho dos alunos. Van tinha o olhar cauteloso para a direção dos passos chamando por Penélope como um sinal de aviso.
-Penny, eu acho bom você dar uma olhada...
-Depois eu olho. – respondeu indiferente, sem pelo menos olhar para Van
-Penélope... é melh... – Avisou Van mais uma vez, mas foi interrompido por ela.
-O que foi Wilder?
Tarde de mais. Uma voz a cinco passos de distância dela gritou pelo salão, fazendo boa parte olhar para a mesa da Corvinal.
-PENÉLOPE!
O rosto de Penélope deixara o branco habitual para um vermelho arroxeado. Tentando se esconder atrás do livro de feitiços, mas era tarde demais. A voz era inconfundível, uma voz meiga e alegre, a voz de Clearency – sua melhor amiga. Ela ainda percorreu a distância dos cinco passos até a mesa, empurrou a mochila de Penny para o lado e se sentou, olhando para os dois amigos com os olhos brilhantes como dois âmbares. Clear era – sem sombra de dúvida - a garota mais bonita da Hogwarts, algo que despertava a cobiça de muitos garotos e a ira de inúmeras garotas. Clearency parecia ter saído de uma revista de pin-ups dos anos cinqüenta. Os olhos sempre travessos, mas capaz de seduzir qualquer um. Seus longos cabelos de cor de madeira eram quase avermelhados, um corpo perfeito que poderiam levar qualquer garoto à loucura. Diferente de todas as outras garotas, ela tinha o senso de humor aguçado e um temperamento muito parecido o de Penny, o que fortalecia ainda mais a amizade entre as duas.
-Tô vendo que é um bom dia pra você, hein Clear? – Observou Van, vendo o sorriso largo da amiga.
-E vai ser um ótimo dia para Penélope. – Agora Clear olhava sorridente para Penny, segurando seu braço com firmeza – Anda!A professora McGonagall quer falar com você, agora!
-E precisa gritar feita uma louca? – Penélope tentava esconder o rosto escarlate.
-Eh! Mas parece que tem haver com uma certa promoção pra monitora da Corvinal. – Clearency agora quase agarrava Penélope pelo pescoço de felicidade.
-Mas como você tem tanta certeza?
-Você sabe como as notícias voam em Hogwarts, né? - Clearency tomou o livro da mão dela fazendo-a levantar - Vai! Vai logo, antes que eu te expulse daqui!
A sala da professora McGonagall não ficava tão distante dali. Penélope precisava apenas se apresar, pois o sinal tocaria em cinco minutos e tinha certeza que a professora não se limitaria a falar por míseros dois minutos. O fluxo de alunos aumentava com a proximidade do início das aulas e o caminho parecia mais longo quando tentava se desviar de um grupo de garotos do sexto ano da Grifinória. Foi mais difícil do que se imaginava seguir em direção a porta, mas naquele instante um fato curioso aconteceu. Um garoto alto, de cabelos escuros e dono de um olhar gentilmente azulado, acabara de receber a insígnia de monitor-chefe da casa. A confusão era tanta que ela teve de atravessar a multidão de garotos repetindo “com licença”, “obrigada!” “Deixa-me passar” inúmeras vezes inutilmente, até que se ouviu a voz do garoto de olhos gentis dizer:
-Deixem a garota passar! – ele olhava fixamente para ela.
O coração de Penélope pulou para a garganta. A voz dele era mais bonita que os seus olhos e podia-se ver os músculos do peitoral por debaixo da blusa branca do uniforme quando ele afastou os colegas do caminho dela com os braços. Ele era Angelus Morgan, o capitão do time de Quadribol. Os garotos ao redor afastaram-se da porta, dando passagem para Penélope. Era de impressionar a autoridade de Angelus sobre eles e tudo aquilo para dar passagem para ela. O rosto da corvinal foi tomado por um calor que fez seu rosto encabular. Ela andou em direção a porta e antes de entrar, mal conseguia encarar Angelus e sorriu como um gesto de “obrigada”.
A sala da professora ainda estava vazia, haviam três alunos espalhados pelos lugares vagos, concentrados, lendo ao muito interessante no livro de transfiguração – ou talvez a presença de Penélope não era tão importante assim para eles - Penny tentou concentrar seus pensamentos na conversa com a profª. McGonagall, mas de vez em quando, seus pensamentos se perdiam pela imagem perfeita daquele garoto de olhos gentis.
-Srta. Clearwater. – a professora McGonagall exalava sua desaprovação – ,i>Será que a senhorita poderia prestar atenção? Isso é muito importante.
-Claro... desculpe professora. – disse a corvinal deixando a postura ereta e focalizando apenas a professora.
-Eu gostaria de esclarecer que nenhum deslize deve ser cometido por um monitor, principalmente por um monitor substituto. A Srta. Hale, foi uma ótima monitora e espero que a senhorita siga todas as regras. – houve mais um suspiro e a boca da professora se tornou uma linha – Eu sei que não sou a professora responsável por sua casa, mas o professor Flitchwik me deixou encarregada de entregar a insígnia da monitoria à você.
-Eh... – houve cautela quando Penélope perguntou – Porque Anne Hale não é mais a monitor?
A preocupação estava estampada no rosto da professora. Suas mãos – habilidosas - derrubaram o broche prateado com o nome monitor gravado. Não era preocupação, era nervoso. Ela limpou a garganta e entortou sua boca para um sorriso, mas não convenceu.
- O Sr. e a Sra. Hale não acreditam mais nos métodos de ensino de nossa escola, Srta. Clearwater.
Ela esticou a mão e entregou o broche a Penélope, ainda se mantendo no péssimo mau humor.
-E se não há mais nada para entregar, acho que encerra por aqui. – Com um movimento rápido a professora se sentou em sua cadeira e votou sua atenção para os rolos de pergaminhos rasurados. – A senhorita vai se atrasa para sua aula.
-Sim, professora e obrigada. – Havia um sorriso contido no rosto de Penny assim que deixou a sala de Transfiguração.
Na lapela, Penny exibia o broche de monitora da Corvinal. De alguma forma, ela sabia que aquilo aconteceria, mesmo quando não foi nomeada no quarto ano para monitora. Ela sabia, porque a mãe dela sabia e a mãe dela era uma pessoa não costumava se enganar com esse tipo de acontecimento. Do lado de fora das sala, os corredores estavam desertos. Não se conseguia ouvir uma só passada ao longe de algum corredor. Todos estavam trancafiados em salas de aulas espalhadas pelo imenso castelo. Agora ela tinha uma missão a cumprir e podia sentir o orgulho estufando seu peito. Ela era monitora e isso era o que mais importava.
Estava definitivamente atrasada, mas havia uma boa desculpa para isso. O professor Wentworth, de Defesa Contra as Artes das Trevas, já começara sua aula e agora distribuía seu cronograma para a turma.
-Espero que neste ano, vocês estejam preparados porque vão precisar ter estômago forte.
Houve protestos de algumas garotas e isso possibilitou que Penélope entrasse despercebida para sentar ao lado de Clearency, sem receber olhares suspeitos. O seu único problema era que ela não iria escapar ao interrogatório da amiga.
-E ai? – sussurrou Clear quase se embalando na carteira de tanta emoção.
Penélope mostrou o broche na lapela e sorriu triunfante.
-Ai! Que legal. – o som que saía da boca de Clear, agora era abafado por sua mão agitada.
Penélope fez sinal para prestar atenção quando o professor já lançava olhares furtivos para as duas, mas Clearency ignorou.
-Me conte tudo! – Ordenou à amiga.
-Depois. – Sussurrou Penny vendo que o professor havia parado a aula e observava a conversa das duas. Quando as duas silenciaram, ele continuou com uma cara de poucos amigos.
O sinal tocou como um alívio para a segunda aula. Poções e depois História da Magia passaram num sopro. Só teria aula com Clearency novamente no último horário do dia que era Runas. Fora isso, a emoção de ser monitora preencheu o dia. No finalzinho do almoço, quando conversava com Clearency e Wilder sobre a conversa com a Professora McGonagall, seus olhos se perderam pela mesa da Grifinória. Os risos e brincadeiras dos alunos atraíram seus olhos, mas sabia no seu íntimo que estava procurando um rosto que desejava ser tão familiar quanto ele estava em sua memória. Ele estava lá, no centro. Cercado pelos amigos que todo o tempo cumprimentava pelo feito e ele mostrando o seu broche dourado com o nome Monitor-Chefe gravado para uma garota loira que se insinuava para ele. O estômago de Penélope tinha afundado para os pés. Nesse preciso momento, aqueles olhos azuis brilharam e se encontraram com o de Penny. Seu rosto corou levemente, sua sorte foi que Clearency se intrometeu, acompanhado seus olhos para a mesa da Grifinória.
-Pra quem você está olhando?
Penélope virou o rosto para o lado, se apoiando no ombro de Van Wilder, que agora estava mais curioso que Clear. Ele procurou e logo pode perceber o olhar fixo em Penny.
-Ei! – Wilder acenou para Angelus – É só o Angelus. Ele ganhou a monitoria-chefe da Grifinória e está querendo arrancar um pedaço de Penny com os olhos. Pobre garota. – havia falsa descrença no tom de Wilder.
-Espera um minuto. – Clear parecia confusa – Aquele cara? Ele não é o maior galinha dessa escola?
-Não seja tão dura com o garoto. – Wilder falava com um tom fraternal, como se o deboche nunca abandonasse o seu jeito de ser. – Ele tem futuro.
-É... desculpa, ele é o segundo da lista, - Clear concluiu sarcasticamente - mas como eu só conheço você e você é legal. Eu gosto mais de você.
-Não seja por isso. – Wilder já se levantava – Eu posso ter a honra de apresentar os dois.
-Não! – Penélope puxou Wilder com tanta força que fez um baque surdo na mesa. Suas mãos estavam suadas e frias. – Outro dia, hoje não. – Ela exalou uma vez para ajudar a pensar – Agora você tem aula e eu tenho que ir à biblioteca. – O sinal tocou ao fundo.
Os dois amigos se levantaram com suas mochilas conversando como se Penny não estivesse ali.
-Será que ela vai ficar tão chata depois de ter ganhado a monitoria?
-Eu espero que não, - eles se afastavam dela em direção a porta do salão – se não eu vou colocar uma fada mordente na cama dela, quando estiver dormindo.
As risadas dos dois se perderam pelo barulho da conversa dos outros alunos. Agora, poucos deles estavam ali, apenas os que tinham aquele horário vago e estavam esticando o almoço. A concentração estava em arrumar os seus livros que estavam espelhados na mesa e tomar um último gole do suco de amora, quando sentiu alguém parado bem a sua frente com os olhos observadores. Por um segundo desejou que fosse o garoto dos lindos olhos azuis, mas quase derramou seu suco quando percebeu quem era.
Ian McOffen estava parado bem a sua frente com a expressão ansiosa.
Ian era o tipo de garoto que qualquer pessoa se assustaria facilmente. Tinha o corpo que lembrava um armário de duas portas. Musculoso e alto era batedor do time de Quadribol da Lufa-lufa. Estava bem acima de 1,80 m de altura, o que fazia Penny se sentir um duende perto dele – qualquer aluno ou professor sentia isso. Seus cabelos curtos e espetados era de um tom negro, o que combinava com seus olhos – igualmente escuros.
-Oi Penélope. – Ele acenou com suas mãos gigantes para ela e sua voz soou grave – Eu soube da monitoria. Atrasada, mas uma boa notícia.
-É, é sim. – Sorriu Penny. Podia ver ao longe na mesa da Grifinória, Angelus se distanciar para a porta do salão e observar a cena. Pela primeira vez sentiu raiva. Não por ele ou por Ian, mas por ela mesma. Nem sabia ao certo o que sentiu quando o grifinório deu uma última olhada para ela quando sumiu ao sair pela porta. Seu estômago parecia estar acompanhado a montanha-russa que estava o seu coração, até que Ian percebeu o olhar furtivo o comentou desapontado.
-Eh, estou atrapalhando alguma coisa?
-Não, não. - Os livros dela agora eram jogados com mais força para dentro da mochila, fazendo-os cair. – Eu só preciso ir à biblioteca, certo? – Ela sorriu tentando disfarçar a raiva – A gente se fala.
E saiu, deixando o pobre Ian McOffen observar seus passos se distanciando dele e dizer distraído.
-Eh, a gente se esbarra.
Só precisava pegar um simples livro na biblioteca e depois jurava por tudo que era mais sagrado que voltaria correndo para a sala comunal. Parecia algo fácil, mas não para ela. Madame Pince estava visivelmente irritada com a bagunça dos alunos do primeiro ano e estava cansada de reclamar. Penélope por outro lado, parecia se desmanchar pelo seu erro – Por alguma razão ela achou a conversa com Ian errada – no balcão da biblioteca.
Com o livro em suas mãos, saiu o mais rápido que podia para não parecer correr. A última coisa que queria era a monitora levar uma advertência no primeiro dia, mas era cedo demais para falar isso. Um livro grosso de poções escapou de sua mochila aberta e caiu com um estrondo no chão da de madeira puída da biblioteca. Seus músculos se travaram, fechando os olhos para não imaginar que todos a olhavam. Alguns segundos se passaram quando ouviu passos apressados em sua direção. Não ousou abrir os olhos, era covarde demais para isso. Era desastrada demais para isso. Mas alguém, agora atrás dela, apanhou o livro do chão e tocou o seu ombro direito. Um toque amigável, que não podia ser de Madame Pince. Sua curiosidade era bem maior que o seu senso de coordenação e ariscou a abrir os olhos, girando o corpo dando meia-volta.
Era como se ninguém estivesse ali. A única coisa que ouvia eram as batidas fortes do coração querendo sair pela boca de tanta ansiedade. Tentou pensar em algo inteligente para dizer, mas só murmurou um “obrigada” muito nervoso. O dono dos olhos azuis mantinha o contato visual sem quebrá-lo por um instante. Dando um sorriso encantador para a Corvinal que estava hipnotizada com a cena. Até ele entregar o livro para ela, fazendo suas mãos se tocarem.
-Ah, eu já ia esquecendo. - Ele sorriu mais ainda para ela – Parabéns.
-O-obrigada. – gaguejou.
E ele saiu, voltando a se sentar em uma das mesas de estudo. Foi por poucos segundos, ele voltou a espiar para Penny que continuava parada na mesma posição em que ele a deixou. Depois disso, despertou do seu sonho e tratou de andar direto para a sala da Corvinal, xingando mentalmente a sua reação infantil.
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