Oi, oi povo!!!
Eis mais um capítulo!! \o/
Um desabafo, resolvendo assuntos pendentes, explicações, uma resolução, uma ameaça e uma proposta...
Nana! Olha, o que eu posso dizer é que ele realmente sofreu uma desilusão, mas não foi só em um campo, digamos assim.... Sim, veremos mudanças... Mas não direi o que Hermione fará, no próximo capítulo isso será revelado.
Fico muito feliz que esteja gostando e não fiz nada demais ao recomendar sua fic, ela é fantástica!! ^^
E é você que escreve muito bem!
Lolita, sim a Hermione é um paradoxo!!rs Mas acredito que isso tenha um pouco de culpa do morcegão... É como você disse: Quem pode culpá-la?? Acho que eu enfrentaria o mesmo problema, rsrs
Sobre as atualizações, sei como é a expectativa para não demorar a postar um novo capítulo, sou leitora também e fico em cólicas para ver uma atualização, porém também sou escritora ou adaptadora no momento e sei o quanto é complicado tudo isso. Mesmo porque tento fazer um trabalho bacana, não deixando nenhuma falha, ou ao menos tentando!rsrs Gosto de adaptar todos os personagens de forma que se encaixem com os originais e isso sempre leva tempo, então tento fazer o meu melhor, sempre entendendo os dois lados da situação.
E sim, isso da Feb avisar das atualizações é ótimo!!
Bjs e boa leitura!!
*****
Incapaz de raciocinar, Hermione deu o endereço da casa de seu pai ao cocheiro do duque. Seu único pensamento era refugiar-se, o mais depressa possível, na segurança do quarto e tentar esquecer os acontecimentos daquela tarde.
Agora imaginava que decidira ir à casa dele com o intuito de fasciná-lo com seus encantos tão elogiados por todos. Fora colocada em seu lugar com excessiva brutalidade. Era tão pouco atraente que Snape zombara de sua inexperiência e ridicularizara suas tolas perguntas sobre o relacionamento entre ele e seu pai.
Tinha sido uma completa idiota. O duque percebera que a preocupação dela com o pai, embora genuína, fora apenas um pretexto para encontrá-lo de novo. Uma simples mulher jamais conseguiria tentar um miserável frio e sem sentimentos como ele! O gelo em seus olhos alcançava até sua alma. Por que lhe dera essa oportunidade de humilhá-la tão arrasadoramente?
Seus pensamentos giravam em círculos e o percurso entre as duas casas se passou rapidamente. Só quando a carruagem se deteve, Hermione descobriu que não teria nenhum motivo para justificar sua chegada na carruagem de Snape, depois de avisar que iria buscar novos livros na biblioteca circulante. Ao entrar, quase chorou de alívio por não encontrar Lupin à sua espera, até perceber que o destino não fora tão complacente quanto ela imaginara. Ouvindo seus passos, o valete de Harry abriu a porta dos aposentos do irmão.
— O coronel Harry deseja falar consigo, milady. Pediu-lhe para ir ao encontro dele em sua saleta.
O primeiro impulso de Hermione foi de recusar-se a ir, de fugir daquele confronto. Mas, como Harry jamais poderia procurá-la por conta própria, respirou fundo e, enxugando o que restasse de suas lágrimas, dirigiu-se para junto do irmão.
O jovem se preocupara ao vê-la descer da carruagem de Snape e seus piores temores se confirmaram ao observar o rosto da irmã.
— Entre e venha conversar comigo, querida — disse ele, estendendo as mãos para ela.
Os dois esperaram até ficarem a sós, no silêncio calmo do fim da tarde, livres dos olhares curiosos da criadagem. Então, Harry puxou a irmã para bem perto dele, sempre segurando-lhe as mãos.
— Pode me contar o que aconteceu? — A doçura e a compreensão da voz do irmão acabaram com o fino verniz de calma que Hermione conseguira recuperar no percurso de volta à casa. Apoiando a cabeça nos joelhos dele, chorou por um longo tempo, tentando explicar, entre soluços, o que ocorrera.
Harry não entendeu nem metade das palavras da jovem, mas soube, com toda a certeza, que Snape ferira profundamente o orgulho dela. Angustiado, segurou-a pelo queixo, forçando-a a erguer a cabeça a fitou bem nos olhos.
— Ele a tocou? Magoou-a fisicamente?
Hermione não respondeu verbalmente, mas o rubor em seu rosto e a expressão em seus olhos eram mais claros do que o gesto negativo de cabeça.
— Fiz um papel de idiota, Harry. Arroguei-me a questionar as atividades dele e Snape avisou-me para não me intrometer nesse assunto. Deixou bem claro a tola que fui e simplesmente deu-me uma lição que eu merecia. — A voz dela ficou um pouco menos tremula. — Mas eu o odiarei pelo resto de minha vida!
— Ótimo! — ele sorriu. — Sinto que tenha sido magoada, mas de todas as emoções possíveis, eu prefiro que sinta ódio em relação a Snape.
Ele não a deixou ir para o quarto, prendendo-a ao seu lado até pouco antes da hora do jantar. O senso de humor de Hermione sempre o distraía mas, desta vez, precisava acalmá-la, demonstrando amor e compreensão.
Quando o general Potter chegou em casa, a jovem pode recebê-lo como se nada de anormal tivesse acontecido. Enquanto ela foi para o quarto a fim de trocar-se para o jantar em família, Harry deu ao pai uma versão abreviada dos eventos daquela tarde. Não mencionou a suspeita de que o duque talvez tivesse tomado liberdades indevidas com sua irmã, pois pretendia cuidar desse assunto a seu modo.
O general ficou nitidamente preocupado com o relato de Harry e, após o jantar, pediu aos filhos que fossem até a biblioteca para uma conversa especial. Conhecia bem demais a filha e reconhecia que devia ter explicado tudo desde o início. Infelizmente, seu bom senso fora obscurecido pelos acontecimentos recentes em seu departamento e era chegada a hora de reparar os danos causados por sua reticência sobre Snape.
— O duque de Avon tem sido um dos recursos mais valiosos com que a Inglaterra foi abençoada nesta maldita guerra! — Ele demonstrava relutância em revelar segredos que não eram apenas seus. — Ele praticamente controla todo o serviço de inteligência que fornece informações vitais para o governo e ocupa essa posição sem nome definido há muitos anos. Eu realmente não compreendo por que um homem com um alto grau de nobreza e uma fortuna incalculável iria se envolver em espionagem...
— Imagino que seja pelos mesmos motivos que motivam todos nós — interrompeu Harry. — Snape foi criado num ambiente de tradição de amor à pátria. Sabia que jamais poderia liderar um batalhão de cavalaria ou comandar um ataque e procurou um modo de servir o país, a seu modo.
— Tem razão, filho. E Snape conseguiu atingir esse objetivo. Através de sua rede, ele fornece informações para Whitehall e também para Kingsley, no campo de batalha. Muitas vezes, seus contatos franceses levam as mensagens diretamente para a Espanha. O meu antecessor, Frank Longbottom, descobriu suas habilidades quando ele ofereceu seu talento para decodificar documentos nos mais complexos códigos, uma habilidade que continua insuperada até agora.
— Em resumo — disse Hermione, num tom de voz cortante — ele é o homem dos sete instrumentos! Jamais ganharíamos a guerra sem a ajuda de Snape, certo?
Ela não queria ouvir nada de bom sobre aquele homem. Preferia continuar a considerá-lo um vilão, mas tinha sido assim desde que o conhecera. Fora obrigada a revisar e fazer novas avaliações constantes de suas impressões sobre aquele homem cujo fascínio a seduzira, levando-a a bancar a mais completa idiota. O pai percebeu que a mágoa da filha a tornava tão azeda e continuou a explicar os fatos, como se não tivesse sido interrompido.
— Quando todo o serviço secreto de informações passou para as mãos de Snape, a maré da guerra na Espanha começou a mudar. Ele é tão importante para nossas vitórias quanto qualquer general que lutou em pleno campo de batalha. Herdei-o de meu antecessor no cargo e muito poucos, mesmo dentro de Whitehall, conhecem sua identidade.
Harry não se surpreendeu com a revelação do pai pois conhecera o duque ainda na escola e conhecia suas capacidades excepcionais.
— Logo depois que assumi meu novo posto, surgiram alguns problemas, em especial, mas não exclusivamente, na rede formada por Snape. Mensageiros morriam ou desapareciam e informações chegavam até o inimigo. Tornou-se óbvio que existia um traidor em nosso meio. Ele e eu passamos os últimos dois meses revendo e analisando cada um dos funcionários e informantes ligados a nós, sem encontrar nada de suspeito. Em Whitehall, não havia se contratado ninguém novo e todos tinham fichas impecáveis e, entre os contatos dele, também não se podia desconfiar de alguém.
Desde seu comentário amargo, Hermione recuava-se a encarar o pai e continuou de cabeça baixa.
— No sábado de nossa recepção, um mensageiro com informações sobre os planos de Rodolphus Lestrange, o general francês, foi morto e o assassino, além de roubar os despachos, também tentou matar Snape. Como esse homem conhece a identidade dele... deve saber também de minha participação no esquema e decidi contar-lhes tudo. Caso algo me aconteça, confiem no duque para protegê-los desse traidor da pátria.
Finalmente, Hermione ergueu os olhos para o pai, sem disfarçar a angustia.
— Eu realmente não acredito que esteja correndo perigo. Snape tem sido o alvo porque o assassino sabe que ele não descansará enquanto não o encontrar e destruir. Pelo menos dois dos duelos em que o duque participou no passado, foram para livrar o mundo de canalhas como esse, capazes de vender os segredos de seu país a quem lhes pagar mais. — O general dirigiu-se diretamente para a filha. — Ele é inestimável para a Inglaterra e prezo demais a sua amizade. Espero que me perdoe, querida, por não ter lhe contado tudo antes.
— Não há nada a perdoar, papai. Respeito sua opinião sobre o duque, mas não me peça para considerá-lo um amigo e um protetor. Jamais conseguirei aceitá-lo nesse papel.
Deixando o irmão e o pai na biblioteca, Hermione refugiou-se em seu quarto, onde passou a noite acordada, vendo o luar desenhar arabescos na cortina de sua janela. Quando amanheceu, ela levantou-se da cama, decidida a não pensar nunca mais no duque de Avon.
Snape jamais cuidava de sua correspondência social, deixando que seu secretário se encarregasse desse assunto como vinha fazendo há dois anos. Enquanto tomava o café da manhã, Diggle selecionava os eventos mais importantes e perguntava-lhe quais devia aceitar em nome do duque que invariavelmente os recusava.
Naquela manhã, o secretário ousou insistir, numa atitude diferente do habitual tato pelo qual era muito bem pago.
— Acho que se interessará em responder pessoalmente à nota enviada pelo coronel Potter, milorde.
— Pode ser que sim... deixe-a comigo e pode se retirar, Dédalo.
Voltando a saborear o café da manhã, o duque levou algum tempo até perceber que Diggle não saíra da sala e o encarou com uma expressão interrogativa.
— Não quer que eu redija sua resposta, milorde? — evidentemente, o seu curioso secretário não ignorava que Harry era irmão de lady Granger!
— Não há necessidade, Dédalo. Eu mesmo o farei.
Tão logo o desapontado secretário deixou o aposento, Snape perdeu o apetite e, abrindo o envelope, leu que o coronel Potter requisitava sua presença o mais depressa possível, naquela mesma tarde se não lhe fosse inconveniente.
Exatamente às duas da tarde, Harry ouviu a chegada da carruagem do visitante que esperava. Vestira-se com apuro e retirou o cobertor que sempre cobria suas pernas. Não admitia ser visto como um inválido sem esperanças.
Harry o recebeu em seus aposentos e observou atentamente o homem que não via há anos. Snape continuava tão bonito como nos tempos de escola e quase não se notava a perna atrofiada que o fazia mancar.
Em silêncio, Ao duque esperava que seu anfitrião se manifestasse, convidando-o a sentar-se. Ele sabia dos mais insignificantes detalhes sobre o ferimento de Harry, mas os informes não mencionavam fragilidade e as linhas de dor marcadas no rosto do antigo companheiro de escola.
— Serei breve porque sei que é um homem muito ocupado, Snape.
Não havia nenhum traço de ironia na voz do Coronel, que parecia saber exatamente qual era a posição de seu convidado e isso surpreendeu o duque.
— Queria simplesmente lhe dizer que... se tocar mais uma vez em minha irmã, eu o matarei.
Harry esperava uma reação zombeteira ou até uma ofensiva gargalhada diante da ameaça feita por um inválido, mas a expressão do homem a sua frente permaneceu impassível sem, no entanto, desviar os olhos de seu anfitrião.
— Falo sério, Snape! Ainda que eu precise rastejar, o seguirei até encontrá-lo e o matarei.
Diante do silêncio do duque, Harry ficou confuso, sem saber como agir. Não tinha mais nada a dizer e, certamente, não se convida um homem a quem se ameaçou de morte para sentar-se e partilhar um aperitivo!
Ele imaginara que Snape fosse se retirar imediatamente mas, para sua surpresa, o viu caminhar até a mesinha onde ficavam as bebidas e encher dois copos de cristal com uísque puro. Depois de colocar um deles nas mãos do jovem, o duque sentou-se diante dele.
Tomado por uma emoção que não conseguia identificar, Harry via apenas a velha amizade refletida nos olhos do homem.
— Eu soube, através de seu pai, que você foi ferido em Salamanca. O que dizem os médicos sobre seu estado?
— Se eu for um bom menino e nunca mais me levantar desta cadeira, o fragmento de metal, alojado muito perto de minha medula, talvez não volte a se movimentar.
— E se isso acontecer?
— Voltarei a ficar paralisado como ocorreu logo após ter sido atingido. Perderei o controle das funções de meu corpo, o uso de minhas mãos e, por isso, decidi que suportaria a prisão desta cadeira.
Harry não demonstrava a menor amargura na voz, mas Snape aprendera a ler o íntimo dos homens.
— Então, não está paralisado agora?
— A sensibilidade está voltando aos poucos e já posso mover as pernas. Talvez conseguisse até andar, se tivesse coragem para isso. Então lembro-me do período em que me tornei um inválido completo, tendo de ser tratado como um recém nascido e resigno-me a agradecer por minha situação atual.
Pela primeira vez desde que começara a falar de seu estado físico, Harry encarou o duque, a fim de avaliar a reação dele à sua desgraça.
— Sei que essa aceitação me torna um covarde, mas tomei a minha decisão.
Snape não fez nenhum comentário ou ofereceu qualquer opinião sobre o valor da decisão tomada pelo jovem.
— E como ocupa seu tempo? — perguntou ele, desviando-se do problema de ordem moral.
A resposta de Harry foi uma gargalhada amarga.
— Seu pai contou-me que lhes revelou meu envolvimento com Whitehall. — Num impulso, Snape fez um convite que não lhe passara pela cabeça antes daquele momento. — Sabe de nossos problemas relativos à segurança e tenho trabalho para lhe oferecer... algo muito importante e perfeitamente adequado às suas condições atuais.
— Por Deus! Meu pai o forçou a tomar essa atitude... piedosa? Ofereça ao meu aleijado algo que o faça se sentir útil, um trabalho de caridade para ocupar seus dias vazios? — Não, Severus. Você e ele podem desistir dessa farsa pois não estou interessado.
O duque permaneceu calado por um longo tempo.
— Eu sinto muito — disse Snape, finalmente. — Trata-se de um trabalho que manteve o "aleijado" à sua frente, bastante ocupado nos últimos dez anos. Muitas pessoas no governo devem ter pensado que eu aceitei essas funções apenas para me sentir útil, quando o encargo não passava de uma caridade sem valor real. Pois eles estavam certos! Não duvido da minha capacidade e não me sobra tempo para lamentar minha deformidade.
Tomando o derradeiro gole de uísque, o duque levantou-se da poltrona e se encaminhou para a porta da saleta particular do coronel.
— Caso mude de idéia... basta me comunicar.
Vendo o duque cruzar a saleta mancando, Harry sentiu uma profunda vergonha. Snape era uma peça de valor inestimável para a vitória da Inglaterra e seu próprio pai verificara esse fato. Alcançara a mais alta posição no serviço secreto, usando a inteligência e o intelecto, não o corpo. Subitamente, a possibilidade de sentir-se novamente digno e capaz de participar da guerra o animou de forma quase incontrolável.
— Acha mesmo que eu poderia? E como poderia lhe ser útil?
— Então... está interessado? — o homem se deteve ao perceber o entusiasmo na voz do jovem.
— Com mil diabos! Claro que estou, Snape! Pouco me importa se meu pai o forçou a me convidar. Só quero saber o que posso fazer.
— Conhece-me bem demais para saber que eu jamais seria forçado a nada, por ninguém, Harry. Seu pai não tem a menor idéia sobre meu convite. Quanto ao que pode fazer... — Snape hesitou por um minuto antes de prosseguir. — Tem condições de me fornecer informações sobre a topografia dos locais das batalhas, sobre os comandantes e suas personalidades, suas forças e suas fraquezas. Você acaba de voltar do campo de batalha e conhece a maioria desses homens, suas amizade e inimizades, certo? Também me ajudaria muito se lesse os relatórios vindos da Espanha, usando toda a sua experiência de vida militar e sua intuição. Quem sabe nós dois poderíamos estabelecer padrões que façam sentido e sejam mais proveitosos para futuras vitórias. Além disso, talvez consiga resolver o problema mais imediato que nos vem atormentando...
— Espere! — Harry se assustara com a confiança revelada na voz do homem. — Não sei se terei condições de ajudá-los tanto!
— Então, comece fazendo apenas o que julga ser capaz. Amanhã, eu lhe enviarei os últimos comunicados sobre os quais ainda estamos com certas dúvidas. Talvez enxergue algo que escapou aos nossos olhos. Você tem o tipo de inteligência que precisamos e também a mais perfeita das coberturas... diga a todos os curiosos que está escrevendo suas memórias!
Harry observou o duque cruzar novamente o quarto e, antes de abrir a porta, virar-se para ele mais uma vez.
— Sinto muito por sua irmã, Harry. Poderia pedir que você se encarregasse de pedir-lhe desculpas por mim, mas por motivos que não compreenderia, prefiro deixar a situação do modo que está.
Finalmente, Snape saiu do quarto e o jovem sentiu que, pela primeira vez em muitos meses, esperava ansiosamente pelo dia seguinte.
Hermione acabara de voltar de seu costumeiro galope no Hyde Park, onde tentava esgotar sua raiva, sem o menor sucesso. Os cabelos, cuidadosamente presos por Luna, haviam se soltado, formando uma auréola cor de cobre em torno de seu rosto delicado. Ela caminhava distraída, indo da cocheira em direção à casa, quando pressentiu, antes mesmo de ver, a figura bloqueando sua passagem. Ao erguer os olhos, encontrou a última pessoa que esperava se deparar.
— 0 que está fazendo aqui? — explodiu ela, esquecendo-se da boa educação.
— Vim visitar Harry que, como você mesmo afirmou, é meu amigo.
— E o que disse ao meu irmão? — Hermione mal continha a raiva e o temor.
— Sobre você? Não lhe disse nada e ele não perguntou nada.
— Pois não quero que volte à minha casa!
Embora aliviada por Snape não tê-la traído, revelando toda a verdade a Harry, a jovem estava disposta a lutar para que ele nunca mais cruzasse seu caminho.
O duque não respondeu, observando-a atentamente e o brilho dos olhos negros a fez lembrar das sensações sentidas nos braços dele e reavivou toda a vergonha que só agora começara a diminuir.
— Eu ofereci um emprego a Harry.
— Não seja ridículo! Como ele poderia trabalhar para você? — Hermione esperava qualquer outra explicação, menos aquela e não viu o brilho de raiva nos olhos de Snape.
— Na verdade, não notei nenhuma diminuição das faculdades mentais de seu irmão. Mas, logicamente, você poderia julgar essa deficiência melhor do que eu.
— Deficiência? Claro que não existe nenhuma... falou com Harry, não? Como ousa sugerir esse absurdo?
— Parece-me que a sugestão não partiu de mim, lady Granger, pois tive a nítida impressão de foi você quem a fez. Se os ferimentos sofridos não afetaram a mente de seu irmão, não vejo por que ele não possa me ajudar no serviço secreto. Na verdade, pressenti que Harry ansiava por encontrar algo para ocupar-se. — O duque calou-se por um momento para depois prosseguir, com voz suave. — Entretanto, se prefere que eu retire minha oferta...
Snape relembrou os relatórios que lera sobre as atividades de lady Granger na Espanha: as histórias de sua coragem, a capacidade de suportar condições que haviam levado suas compatriotas à loucura e sua compaixão instintiva pelas vítimas da devastação da guerra. Esse retrato pintado pelas informações recebidas apenas aumentara o impacto que Hermione causara nele, tumultuando-lhe as emoções.
Em virtude de seu título, o duque acostumara-se a bajuladores que concordavam com cada palavra sua. A jovem, pelo contrário, se jogara na defesa de valores que lhe eram importantes e dos quais ele zombara impiedosamente. Depois, tivera a coragem de pedir desculpas pelos comentários depreciativos sobre sua participação na guerra por ignorar suas limitações físicas. Poucos seriam tão dignos ou generosos a ponto de reconhecer o próprio erro após um confronto tão acalorado.
E essa generosidade de espírito se confirmava agora.
— Não, não quero que faça isso, milorde.
Se Harry desejava tanto se ocupar, ela não permitiria que seus sentimentos a respeito de Snape interferissem na felicidade do irmão.
— Obviamente, você compreende que Harry só poderá colaborar comigo se eu vier ao encontro dele, não? Para a segurança de todos os envolvidos, eu só aparecerei em sua casa durante a noite e possivelmente ninguém saberá da minha presença nos aposentos de seu irmão. Caso nos cruzemos pelos corredores com excessiva freqüência, poderá pedir ao seu mordomo que me expulse, certo?
A idéia de ver o frágil Lupin tentando expulsar o formidável duque de Avon da mansão do general Potter era tão ridícula que Hermione não conteve o riso. Ao erguer os olhos, percebeu que ele também se divertia com o absurdo da sugestão.
— Eu sinto muito — murmurou ele, novamente surpreendendo a jovem dama com sua reação inesperada. — Não costumo cometer erros dessa magnitude ao avaliar as pessoas. Vidas demais dependem de meu julgamento para permitir enganos como os que cometi quando a tratei de forma indesculpável. Acho que, pelo bem de Harry, devemos esquecer esse episódio desagradável, ocorrido entre nós. Não lhe pedirei que me perdoe, mas talvez possamos estabelecer uma trégua honrosa para ambos... pelo bem de Harry, é claro.
Snape usava aquele argumento porque sabia que ela não mais discutiria o assunto, por amor ao irmão. Calmamente, esperou pela decisão dela.
Perplexa, Hermione se dava conta de que o duque assumira a culpa de uma situação criada por ela e não lhe pedira nada em troca, nada a não ser uma oportunidade para ajudar Harry. Aquele homem lhe permitira livrar-se da raiva, mantendo o orgulho e reconhecia, embora lhe custasse admitir, a habilidade maquiavélica daquela negociação. Finalmente, concordou com um gesto de cabeça e, desviando-se dele que ainda barrava sua passagem, correu para a segurança da casa do pai.