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26. Cap 23: Cicatrizes de sonhos


Fic: Harry Potter e o Encontro das Trevas - por Livinha


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 23


Cicatrizes de Sonhos


 
Você deve saber que eu sinto a sua falta,
Mas o que eu posso dizer?
As regras têm de ser obedecidas
[...]
Por que eu deveria lamentar?


 (The Winner Takes It All - ABBA)



Lançando outro olhar para o relógio de pulso, ele calculou que, mesmo estando sobre vassouras há quase duas horas naquele tempo gelado, até que o grupo sobrevoava o campo de Quadribol agilmente. Carrie, Demelza e Ginny continuavam a executar com perfeição seus movimentos, e Harry sabia que nenhum grupo de artilheiros poderia vencer o seu. Ritchie e Jimmy também melhoraram bastante nesse ano. Já de Ron, Harry não tinha realmente nada do que reclamar. Com Hermione assistindo aos treinos, o amigo sempre fazia de tudo para se mostrar cada vez melhor. Por vezes, Harry e Ginny trocavam olhares divertidos com isso.


Essa era uma das coisas que Harry mais sentira falta: a cumplicidade que tinha com a garota. Ele ainda não conseguia entender como que, em tão pouco tempo que eles realmente estiveram juntos, puderam adquirir essa ligação. Era intrigante, para não dizer estranho, a sensação de que podia saber o que Ginny pensava só em estudar seus olhos, o que era recíproco, embora que, em outras vezes, o olhar da namorada ficasse indecifrável quando ela queria. Este fato acontecendo principalmente quando estavam na Toca, antes de se reconciliarem.


Mas, naquele momento, ele realmente não tinha nada do que reclamar. E estava tão concentrado em Ginny - que ia na direção dos aros àquele momento -, que nem viu um balaço aproximar-se dele.


- Harry! - Jimmy gritou, chamando a atenção de seu capitão, o que fez Harry abaixar-se rapidamente, ainda sentindo o balaço raspar nas pontas de seu cabelo.


- Valeu, Jimmy!


- Dormindo, capitão? - Harry olhou para o lado, mas só pôde ver o sorriso traquinas de Ginny depois do que ela lhe perguntara. A garota afastou-se dele e iniciou outra jogada com as outras artilheiras.


- Acordado até demais... - ele murmurou para si mesmo. - Certo, pessoal! Por hoje chega.


O time então desceu rapidamente, fazendo a grama congelada quebrar sob seus pés à medida que aterrissavam. Recolheram as bolas e, ajudado por Ron, Harry levou a caixa de bolas até o vestiário.


- Hei, Harry, você vai nos dar alguma tática ou observação? - perguntou Carrie Wilston, já soltando seus cabelos loiros e os arrumando com as mãos.


- Ah... Hoje não, Carrie, no próximo treino vemos isso, já que o próximo jogo é na segunda semana de fevereiro ainda. Mas todos estiveram ótimos, hoje - ele adicionou em voz alta, o que foi a deixa para os outros também seguirem Carrie em direção ao castelo.


Entrou então no vestiário junto com Ron e colocaram a caixa de bolas no armário de vassouras da escola.


- Vamos? - Hermione chamou à porta.


- Tá... - concordou Ron, mas, ao ver que Harry continuava parado, virou-se para o amigo. - Você não vem, Harry?


- Ah... Eu já vou, Ron, só... Só queria conversar uma coisa com a Ginny. - E indicou com o olhar a garota que entrava no vestiário.


- Conversar o quê? - Ron falou fazendo careta.


- Deixa de ser tonto, Ron - Ginny falou, revirando os olhos. - Eu e o Harry queremos ficar sozinhos, não percebe?


As orelhas de Ron ficaram vermelhas instantaneamente e ele fechou a cara, cruzando os braços na altura do peito também.


- Olha, Ginny, se você ficar se agarrando com o Harry por aí...


- Quer dizer que a gente se gosta do mesmo jeito que você e a Mione - ela o cortou, irritada.


- Mas eu não fico me agarrando com a Mione por aí! - A vermelhidão começou a tomar conta do pescoço de Ron.


- Então por que vocês somem por horas, desde o dia em que chegamos a Hogwarts? – a garota retorquiu sarcástica e com os braços cruzados na altura do peito.


- Isso não é da sua conta!


E tão rápida quanto essa resposta de Ron veio, Ginny continuou:


- Ron, deixa de ser bobão e vai embora logo.


- Bobão? Ginny, se você não se comportar, vou enviar uma coruja na casa do Bill, para o papai e para mamãe...


- Ótimo! - Ginny retrucou irritada. - E me fale quando você estiver escrevendo para eu acrescentar que você se enfia com a Mione em qualquer canto também! – atacou, embora não tencionasse colocar a amiga numa situação constrangedora como essa.


Ron ainda iria retrucar, mas, finalmente, Hermione segurou o namorado pelo braço e o arrastou vestiário afora.


- Não vai ter carta alguma, Ginny - Hermione disse antes de sair e fechar a porta atrás dela e do namorado, seu rosto apresentando uma coloração vermelha. Harry ainda conseguiu ouvir a reprimenda preferida da amiga: “Francamente, Ronald!”


Ginny soltou um bufo exasperado, ainda encarando a porta. A garota pensava que em Hogwarts teria mais sossego para ficar sozinha com Harry e aproveitar o tempo. Mas os professores pareciam estar cumprindo ordens de seus irmãos, pois o monte de deveres que recebeu nessa primeira quinzena de aula foi gritante. Além disso, Ron fazia questão de sumir com Hermione enquanto ela, Ginny, fazia os deveres. Porém, na hora em que poderia aproveitar a presença de Harry de maneira mais satisfatória, o irmão vinha montando guarda. Então, quando o namorado disse que queria conversar com ela, não foi difícil pensar que Harry apenas dera essa desculpa para Ron ir embora logo e eles ficarem sozinhos e matar a saudade.


Harry, por outro lado, verificava se o armário de vassouras estava perfeitamente fechado, contudo, este espaço do vestiário não o preocupava em nada. Na verdade, sua mente estava em perfeito reboliço desde o dia seguinte em que chegara a Hogwarts.


O Sr. Weasley viera cedo no dia seguinte em que deixara os filhos, Harry e Hermione na escola - como Remus lhe havia proposto, assim que se soube que a casa dos Weasley havia sido destruída. Contara o que havia acontecido com a Toca, porém, já os tranqüilizando, informando também que Charlie estava bem, pois havia saído depois deles. Contou que, por causa disso, eles ficariam na casa de Bill e Fleur durante um tempo até conseguirem recuperar a casa, uma vez que o lugar era recuperável por magia, mesmo ficando bem danificado.


Harry sabia muito bem que o fato da Toca ter sido atacada era simplesmente por ele ter se hospedado lá. Só não entendia como os comensais conseguiram passar pela proteção que havia ao redor da propriedade. Tudo fora cuidadosamente planejado pelos membros da Ordem da Fênix, e não havia ninguém que poderia tê-los traído.


Mas Hermione, mesmo sentindo-se contrariada - na opinião de Harry -, havia levantado mais uma vez a questão da professora Lakerdos não ser de confiança, quando ela, Harry e Ron falaram sobre o ataque. Contudo, se a professora havia trazido Sirius da morte, por que ela atacaria a Toca? Além disso, havia Charlie que era seu amigo. A conversa, portanto, acabara por aí, pois Ariadne realmente tinha pontos a favor. Mas Harry percebeu que algo ainda incomodava Hermione. Ou será que o fato da professora ser uma vampira levantava preconceitos na garota, o que Harry não havia conhecido antes?


Só que esses pensamentos foram rapidamente interrompidos por braços que o rodeavam, fazendo seu corpo se esquentar, e lábios que faziam os cabelos de sua nuca eriçar, quando eram roçados ali.


- Em que tanto pensa, Harry Potter? - Ginny perguntou suavemente depois de dar um beijo na nuca do namorado. - Achei que sua desculpa fosse para ficarmos um tempo sozinhos, e não para você ficar perdido em pensamentos e me esquecer.


 “Como se fosse possível esquecê-la”, pensou Harry sorrindo. Segurando as mãos de Ginny nas suas, virou-se para encará-la.


- Eu queria falar uma coisa com você - disse, parecendo interessado em suas mãos entrelaçadas.


- Sobre? - a garota perguntou franzindo a testa. - O que está te incomodando, Harry?


- É que... É sobre o que aconteceu na Toca, no dia que viemos para cá.


Ginny logo percebeu o que ele queria dizer, mas, antes que falasse algo, Harry já parecia cuspir as palavras como se tivesse ensaiado. Ele soltou-se da garota e começou a andar pelo vestiário, falando rápido:


- Eu queria pedir desculpas pelo que aconteceu. Foi por eu ter ficado na casa de vocês que aconteceu tudo isso. Vocês não têm mais casa, terão que reformar tudo. E mesmo que seu pai tenha dito que pode recuperar a Toca com mágica, sei que vocês terão que repor o que foi perdido com o incêndio.


- Harry, pára com isso. A gente perdeu apenas coisas de valor material, sem importância alguma. E ninguém se machucou.


- Mas Ginny, e se a gente não tivesse saído mais cedo? Se Charlie não tivesse saído mais cedo? Era bem capaz de sua família ter perdido bem mais. E seria por minha culpa. Não adianta você dizer que não.


- Eu sei que não adianta, pois você é um cabeça-dura. Mas ainda vou insistir, e espero que seja apenas mais uma vez, Harry - Ginny se irritou, e de uma maneira que Harry vira poucas vezes. - Minha família seria perseguida mesmo se você nunca tivesse colocados os pés na Toca. Acho que você se esqueceu que somos um dos maiores traidores de sangue que já existiram. Portanto, pare de se sentir culpado, achando que tudo de ruim que acontece é culpa sua, pois não é! O que aconteceu lá em casa foi apenas o que com certeza aconteceria mais cedo ou mais tarde. E eu agradeço a Merlin por ter acontecido mais cedo, pois isso quer dizer que você entrou nas nossas vidas. Na minha vida.


- Você só diz isso, porque não aconteceu nada mais grave, Ginny - Harry falou cansado. - Se alguém tivesse morrido...


- Eu estaria numa tristeza enorme. Mas uma certeza eu tenho, Harry: a de que se algo ruim acontecesse à minha família, eu escolheria você para me consolar e me ajudar a superar. - Ginny soltou um suspiro para então continuar com a voz mais calma: - Minha família te adora, Harry. Mesmo você sendo perseguido por Você-Sabe-Quem, eles nunca te abandonariam. Muito menos eu, meu amor.


Ela então se aproximou, segurando o rosto de Harry em suas mãos, forçando-o a encará-la.


- Eu te amo. E nada do que tenha acontecido no seu passado ou que vá acontecer no seu futuro, faria mudar esse sentimento. Nada.


Por que Harry tinha a triste mania de se culpar quando algo saía errado? Merlin, era difícil ele entender, de uma vez por todas, que a família dela gostava dele a ponto de protegê-lo o máximo que pudesse? E que nunca o culparia por nada?


No entanto, logo a frustração de Ginny começou a sumir, e isso ela não sabia se agradecia ou se mandava o namorado parar de querer comprá-la daquela maneira para que não brigasse mais com ele. Afinal, como ela poderia discutir com Harry quando ele a abraçava pela cintura daquela maneira que parecia que o mundo acabaria dali um instante?


Harry afundou seu rosto na curva do pescoço da garota, respirando profundamente. Ouvir aquelas palavras foi incrivelmente maravilhoso para ele. Fez com que tivesse a certeza, mais uma vez, de que não estava sozinho naquela guerra. Ele ergue-se um pouco apenas para alcançar os lábios de Ginny, depositando um leve beijo neles.


- Eu também amo você, Ginny.


Merlin, aquilo não era justo. Como ele conseguia amolecê-la daquela maneira, sendo que, segundos atrás, estava irritada por ele ser tão cabeça dura?


- É que eu não me perdoaria se algo ruim acontecesse com você por minha causa. - Harry continuou. - Você se lembra do que aconteceu no seu primeiro ano, só por ser irmã do meu melhor amigo e...


- Eu sei muito bem disso, Harry. Mas, tenha a certeza de que nada de ruim vai acontecer comigo por sua causa. Não sou mais uma garotinha boba de onze anos e que precisa ser protegida, meu amor! Para me defender e defender o que me é caro, sou capaz de coisas que você não faz idéia...


E sem dar chances para ele dizer qualquer outra coisa - e também não agüentando mais sentir apenas o calor dos braços dele -, Ginny o beijou.


Harry ainda queria conversar, dizer que entendia o que ela havia dito, que nunca duvidaria da lealdade e carinho da família Weasley, e muito menos do amor da namorada. Mas claro que, ao sentir a língua macia de Ginny, foi difícil raciocinar e continuar a conversa. “Daqui a pouco...” seu cérebro falava. “Daqui a pouco você diz tudo isso...” Mas o “daqui a pouco” virou minutos longos e deliciosos. A conversa que eles tiveram já se nublando por causa das sensações que a boca de Ginny lhe proporcionava, as mãos dela em seus cabelos, o corpo tão quente perto do seu...


Seus braços treinados e desejosos apertando-a contra si, as mãos saudosas da maciez dos cabelos dela soltando-os para se embrenhar neles. A boca do rapaz já trilhando um caminho de fogo pelo queixo, pescoço... enquanto, sem nenhum deles perceberem, Harry já deixava Ginny quase prensada contras os armários do vestiário.


Desde que se acertaram definitivamente na Toca, Harry percebeu que, a cada dia, ficava mais difícil controlar seus desejos quando ficava a sós com Ginny. Na casa da garota, esses descontroles foram ainda mais constrangedores, uma vez que ele não poderia se agarrar com ela em qualquer lugar. Somente a idéia de que o Senhor ou a Sra. Weasley pudessem surpreendê-los, já o fazia recuperar todo o controle que perdia num estalar de dedos.


Contudo, em Hogwarts não havia pais. E, o que era pior (ou seria melhor?), o fato de conhecer passagens secretas, lugares escondidos e, ainda por cima, ter uma capa da invisibilidade, só fazia com que Harry pensasse em todas as maneiras de ficar sozinho com Ginny em todo momento que eles conseguissem. E isso não estava fazendo nada bem para seus hormônios, os quais entravam em ebulição só em se ver nesses cantos com a garota. Talvez fosse por isso que a razão lhe sumira de repente, juntamente com a sensação de frustração diante desta guerra, quando ele se deu conta de que estava a sós com Ginny no vestiário, e sabia que ninguém entraria ali, uma vez que o treino da Hufflepuff seria apenas após o almoço.


O braço que ainda rodeava a cintura da namorada apertou-se mais ainda, fazendo a garota ficar na ponta dos pés. E ela não conteve um gemido quando Harry desceu a mão dos cabelos dela, alcançando sua cintura e a apertando possessivamente.


Ginny arranhou levemente o pescoço do namorado enquanto sua outra mão tentava se enfiar na camiseta de Harry, querendo sentir a pele dele. Um instinto que ela poucas vezes experimentara, ordenando-a coisas que, em sã consciência, nunca faria. E, sem se dar conta, as capas do uniforme de quadribol de ambos já se encontravam no chão.


- Harry... - Ginny gemeu o nome dele quando sentiu as mãos do namorado alcançando sua pele e forçando - embora ainda de maneira retraída - sua calça que ainda estava bem firme por causa do cinto que usava.


- Não faz isso... - ele disse num sussurro frustrado, suas mãos parando de agir, enquanto respirava de maneira ofegante contra o pescoço de Ginny.


- O q-quê? - ela gaguejou por causa das sensações que ainda percorriam seu corpo.


- Não fale meu nome assim, Ginny... Senão, vou perder todo o meu autocontrole. - Harry encostou suas testas e retirou uma mecha dos cabelos dela que lhe caíam nos olhos. “Se é que já não estou perdendo...”, pensou quase desesperado. Precisou fechar os olhos ao ver aqueles lábios inchados. Se ultrapassassem os limites tão cedo, afinal fazia pouco tempo que haviam se acertado, ele não se perdoaria. Sentia que com isso trairia a confiança dos pais da garota.


Além disso, a sensação de estar aproveitando agora algo que ele queria aproveitar dali alguns anos, sem a sombra de Voldemort, o acometia o tempo todo. Era como se, com isso, ele estivesse vivendo tudo o que precisava, sem ter necessidade do amanhã... E não queria sentir-se assim.


- E se eu quiser que você perca? - Ginny falou, depois de engolir a seco e sem se dar conta dos pensamentos do rapaz. - O que eu te falei na noite que a gente se acertou, não foi mentira, Harry. Eu quero continuar o que a gente começou naquela sala, no Dia das Bruxas.


O rapaz abriu os olhos imediatamente, sentindo o rosto esquentar, embora grande parte seu sangue tivesse descido para lugares nada apropriados ao ouvir aquilo.


- Ginny...


- Eu tenho certeza do que quero, Harry. Como nunca tive em toda a minha vida. - Ela engoliu a seco. E mesmo sentindo o rosto esquentar, não desviou os olhos um instante sequer. Ergueu a mão esquerda, segurando a que Harry ainda mantinha pousada em seu rosto. - Eu sinto que vou viver o resto dos meus dias com você. E isso não é coisa de menininha apaixonada. É apenas uma das poucas certezas que eu tenho na vida. Senão, não teria insistido tanto, não é?


Harry soltou um riso pelo nariz.


- Você insistiu porque é muito teimosa.


- Não, senhor, o teimoso aqui é você, Harry Potter. Eu apenas sei o que quero. E o que eu quero é você. Só você...


E se beijaram novamente. E tendo a certeza de que a conversa já estava terminada, Harry não pensou duas vezes em corresponder. Se Ginny disse que não adiantava ele ficar se remoendo, quem era ele para contradizê-la? Principalmente naquele momento? Afinal de contas, ficara longe demais daquela boca, e apenas algumas semanas não foram necessárias para matar a saudade que ainda o fazia se praguejar a todo instante. Ele realmente fora um burro por manter-se longe da garota. Ao menos percebera isso a tempo...


xxx---xxx


O dia estava nascendo quando ele acordou, e isso o fez soltar um palavrão. Há duas semanas estava daquela maneira. Demorava a dormir, e quando o fazia sonhava com ela.


Sirius não agüentava mais ficar daquela maneira por causa de Ariadne. Quem ela pensava que era para tratá-lo tão fria e indiferentemente depois de tudo? Depois daquela noite que eles passaram fazendo amor, ele tinha certeza de que ela não desapareceria, que eles voltariam a ser o casal feliz de anos atrás. Contudo, Hedwig - que o homem pedira emprestada a Harry - sempre voltava com suas cartas intactas. Ariadne não se propunha sequer a abri-las. E sempre que ele se prestava a ir até o escritório dela, a mulher não estava. Ela parecia saber quando ele iria aparecer.


Sirius precisava de uma explicação da maneira com que Ariadne vinha agindo. Precisava saber específica e claramente como e por que ela o tirara do Arco da Morte. Não engolira a história de que ela fizera tudo isso porque prometera a Lily e James. Uma das coisas que ele se vangloriava era que conhecia muito bem a mulher que amava, e sempre sabia quando ela mentia. E, quando contou aquela história fajuta, Ariadne estava mentindo descaradamente. Mas, por quê? O que ela tanto temia, o que tanto escondia?


Levantando-se da cama, Sirius começou a andar de um lado para o outro. Precisava pensar em tudo o que Remus lhe falara - ou no que ele não escondera -, além de conseguir lembrar-se mais claramente sobre aquele mundo horrível de Hécate. Ainda não conseguira descobrir o que significava a palavra borborlakos, e isso o deixava completamente frustrado. Sentia que aquela palavra esclareceria todas as suas dúvidas em relação à Ariadne.


Soltou um suspiro frustrado, passando as mãos nos cabelos de maneira nervosa. Sua vontade, naquele momento, era sair daquele quarto e ir até o de Ariadne. Contudo, dali a poucas horas, Sirius teria uma audiência com o Ministério da Magia.


Finalmente sua audiência com o Esquadrão de Execuções das Leis da Magia fora marcado. Annete Dawlish representaria sua defesa. A moça lhe dissera que não teriam problemas, porém, era sempre bom estarem precavidos. O Ministério não faria a besteira de mandar um homem inocente para Azkaban novamente, uma vez que tinham provas irrefutáveis a favor deste. Ao menos isso valeria seu dia, pensou Sirius. Ter a certeza de que voltaria ser um homem livre e que poderia dar a Harry tudo o que prometera dar há anos: um lar decente, mesmo que o garoto já fosse maior de idade e não precisasse mais, legalmente, de um tutor.


Sirius voltou a se sentar na cama. Apoiou os cotovelos nos joelhos e segurou o rosto com as mãos, encarando um ponto qualquer no chão que foi se embaçando à medida em que seus pensamentos iam ficando a esmo. Se ele ao menos se inocentasse de vez perante as leis da magia, tudo ficaria mais fácil. Ele poderia andar à luz do dia sem medo ou hesitação alguma. Então, seria bem mais fácil abordar Ariadne e retirar dela toda a informação de que necessitava.


O homem não soube por quanto tempo ficou naquela posição, mas, quando o retrato de seu quarto se abriu dando passagem para Remus, percebeu que fora tempo demais. Sem nem esperar uma reprimenda do amigo, como se estivessem nos tempos da escola, ele foi se arrumar. Com certeza, à tarde, teria mais tempo e firmeza para pensar no que fazer. E como fazer.


xxx


Quando o Ministério da Magia soube que Sirius Black voltara dos mortos e que ele desejava que seu nome fosse oficialmente limpo, foi necessária uma semana de interrogatórios.


Ao contrário do que Sirius pensara sobre Annete Dawlish quando ela lhe dissera que deveria apresentar-se à Corte dos Bruxos, a moça mostrou-se tão excelente conhecedora das Leis da Magia quanto competente em executá-las. E isso Sirius lhe agradeceu quando ela não permitiu que o levassem a Azkaban para aguardar um merecido julgamento. E mesmo que o fato de Sirius ter ficado em Hogwarts assustasse muitos pais, o Ministério deixou claro que o homem era sim inocente, mas que precisava apenas tornar tal caso oficial. Como Annete conseguiu convencê-los disso, foi realmente um mistério.


Dos chamados para prestar depoimento sobre o caso Sirius Black, estavam inclusos Remus, Tonks, Profa. McGonagall e, claro, Harry, Ron e Hermione. O fato de outros não terem sido chamados, foi preferência de Annete, pois, assim, não aborreceria o Esquadrão das Leis da Magia e a Suprema Corte dos Bruxos, os quais fariam o julgamento, com interrogatórios de mesmo conteúdo.


Sirius seria o último a ser interrogado, e isso aconteceria no dia do julgamento. E mesmo que estivesse confiante de que sairia daquele lugar livre, o homem sentiu que seu estômago sairia pela boca assim que adentrou a mesma sala circular que recebera Harry nas férias de seu quarto para o quinto ano escolar. A mesma que ele ficara apenas alguns instantes quando fora levado pelo esquadrão dos aurores após Peter Pettigrew ter matado todos aqueles trouxas e fugido pelo esgoto em sua forma animaga de rato.


Contudo, daquela vez seria diferente. E Sirius sabia disso. Seria muito diferente.


xxx


Quando Annete saiu da sala de audiências, deu de cara com seu irmão Ian Dawlish, Remus, Tonks, o senhor e a Sra. Weasley, além dos filhos do casal Charlie e Bill, e a esposa deste, Fleur, a aguardando.


- Então? - Ian perguntou para a irmã que aparentava estar cansada depois de horas de audiência.


- Onde está o Sirius? - Remus perguntou logo em seguida sem dar tempo da moça respirar.


- Acabou tudo bem, né? - completou Tonks.


- Se vocês me deixarem responder a primeira pergunta, responderei todas ao mesmo tempo.


- Então? - Ian repetiu.


Porém, foi um homem com um enorme sorriso, que saía da mesma sala de Annete, quem respondeu:


- Livre, finalmente!


A risada rouca de Sirius, que quase sempre lembrava um latido, ecoou pelo corredor de pedra assim que abraçou Remus. Os cumprimentos se seguiram, porém, Charlie sentiu um leve farfalhar atrás de si.


- Acho que você já viu o que queria, não? - ele sussurrou para o vazio atrás de si.


Um novo farfalhar, o qual foi silenciando-se gradativamente. Coberta pela capa da invisibilidade, Ariadne saiu do Ministério da Magia. Agora, ela sabia, seria bem mais difícil fugir de Sirius. Mas ela daria um jeito. Sempre conseguira dar.


A pequena festa que aconteceu no corredor do Ministério da Magia teve que acabar assim que a comissão de juízes apareceu, assim como os meios de comunicação que, finalmente, poderiam ter todos os fatos do “caso Black”. Essa audiência fora marcada às escondidas para que não houvesse badalação. Ou, como Rita Skeeter noticiaria na próxima edição do Profeta Diário: para não abalar mais ainda a parca estrutura do Ministério da Magia que nem sabia mais o que fazer no meio daquela guerra que não acabava. Ao menos Harry - e que ele sequer desconfiasse disso - e a jornalista concordavam em algo.


Porém, Sirius só disse uma coisa aos jornalistas: de que finalmente poderia viver em paz e no meio das pessoas que tanto prezava.


As aulas ainda estavam em andamento quando o homem chegou a Hogwarts. Ele fora direto para seu quarto arrumar suas coisas a fim de deixá-las prontas para quando conseguisse encontrar uma casa decente para ele e Harry morarem. Seu dinheiro já fora liberado completamente pelo banco Gringotes, o que o instigara a sair para procurar uma casa assim que deixara o Ministério. Só faltava a pessoa quem ele procurara lhe dar uma resposta naquela tarde. Se tudo desse certo, a casa estaria pronta para quando Harry deixasse Hogwarts e fosse morar com ele até formar sua própria família.


Se fosse com a pequena Weasley ou não, naquele momento, pouco importava para Sirius. Ele apenas queria aproveitar, assim como Harry, a alegria em poder andar livre, deixando de ser um homem caçado por aurores. Apenas bruxos das trevas já estava de bom tamanho.


Harry, também, não sabia o que fazer com tanta felicidade. Ele se encontrava junto de seus amigos no quarto do padrinho, e não sabia que tal felicidade para si poderia um dia acontecer. Se bem que a felicidade em tê-lo de volta do mundo dos mortos fora realmente incalculável. E ele sabia que essa sensação se equivalia com o fato do padrinho estar, finalmente, livre de toda aquela perseguição sem noção


A conversa alegre e amena decorreu durante toda aquela tarde. Sirius discutia planejamento mobiliário com o afilhado, escolhendo cores e todo o tipo de coisa que eles iriam querer para a casa deles. Ron dizia que seria legal ter algumas coisas dos Cannons enfeitando o quarto ou então tê-lo todo na cor laranja. Hermione falava que uma biblioteca era sempre bem vinda... Sirius e Harry concordavam com tudo, mas também diziam que gostariam de um amplo espaço, talvez um jardim grande...


- Ou então uma casa no campo, não sei - Sirius falou.


- E que tal praia?


Todos olharam para Ginny quando ela sugeriu o lugar.


- Taí... Eu gosto de praia - falou Sirius. - Vai ser bom ver o mar sobre outro ângulo que não o da janela de Azkaban. O que acha, Harry?


- Isso não vai ser uma lembrança ruim?


- Não. Tenho certeza que, dessa vez, vou gostar de acordar com o cheiro salgado do mar. Além disso, sei de uma casa no litoral do condado de Devon que seria muito bem aceita, não acha?


- Por mim tudo bem - Harry concordou prontamente.


- Sei... - Sirius retorquiu sarcasticamente. - Mas não garanto que seja perto de Ottery St. Catchpole.


- Mesmo se não fosse... Tenho licença para aparatar mesmo...


- Então nos mudaremos para a Austrália.


- Também não precisa apelar, Sirius.


Sirius apenas riu, seguido dos outros garotos.


As conversas se seguiram até a hora do jantar, e quando os garotos foram para o Salão Principal, Sirius disse que ainda ficaria no quarto, pois, além de ter algumas coisas para ajeitar, tinha que enviar uma carta ao Sr. Mundly, o homem a quem ele pedira para localizar uma casa, afinal, agora sabia onde gostaria de morar com o afilhado.


- E eu também preciso ver alguém.


- Quem? - Harry perguntou, não seguindo os amigos até a saída.


- Bem... Por enquanto, prefiro não falar nada, Harry, a não ser que... Bem, que tenho que conversar com alguém e, também, agradecer formalmente pelo que fez por mim.


Somente quando Harry saiu, Sirius seguiu para o terceiro andar do castelo.


Era essa a oportunidade que ele esperava. Todos estavam no salão principal jantando, logo, não teria nenhum aluno para surpreendê-lo no meio daqueles corredores.


Por mais que ele já fosse oficialmente declarado inocente de todas as atrocidades que fora acusado, não seria bom sair por aí até o Profeta Diário soltar sua matéria, contando tudo. Mesmo que da maneira sensacionalista de Rita Skeeter. Então, foi com alívio que Sirius alcançou a porta da sala de Defesa Contra as Artes das Trevas e, sem nem bater, entrou.


Como se seus olhos fossem treinados, ele viu Ariadne, a qual estava totalmente concentrada num livro qualquer. Ela passava suas páginas quase avidamente, virada para a estante. Tanto é que não percebeu a entrada do homem. Sirius, o mais silencioso que conseguiu, cruzou a maior parte da distância entre eles, porém, quando estava a quase três metros de Ariadne, ela se virou bruscamente, apontando a varinha para ele.


- Não se aproxime de mim, Black. O que você quer?


Sirius olhou para a varinha apontada diretamente para o seu coração, mas não falou de imediato. Encarou os orbes dourados de Ariadne por um tempo. E somente quando percebeu que o olhar impassível da mulher não mudaria, que decidiu quebrar o silêncio:


- Vim lhe agradecer.


- O quê?


- Quando a gente se encontrou da última vez, eu não a agradeci por ter me tirado do Arco. Sabe como é... me distraí... - ele falou com um meio sorriso.


Ariadne, por outro lado, retesou o maxilar. Porém, quando falou, sua voz estava seca:


- Não há problema. E se for só isso, pode ir. Não precisava agradecer por algo que não fiz por você.


- Dá para você parar com esse teatro, Ariadne? Que droga! - impacientou-se o homem.


- Quem disse que estou fazendo teatro, Black?


- Os fatos dizem por si mesmo.


- Não entendi que você quis dizer.


- Então vou explicar. Você me chamando de Black, não olhando nos meus olhos, fugindo de mim, não respondendo as minhas cartas e sequer as lendo... Você quer mais?


- SE houver mais - ela falou cruzando os braços, petulante.


- Então vou somar mais um: você nunca estando em sua sala quando eu venho aqui.


- Por acaso passou pela sua cabeça oca que eu tenho trabalho a fazer, Black? - Ela colocou o livro na estante e a fechou com um aceno da varinha. O olhou novamente. - Por acaso você chegou a cogitar que eu não posso perder meu tempo com coisas à toa? E, por favor, se você não tiver mais nada a dizer, além desse monte de asneiras, saia. - Ariadne indicou a porta, mostrando-se irritada. - Tenho trabalho a fazer. Além de estar morrendo de fome.


- E eu estou cansado das suas criancices.


- Eu? Criança? - A irritação deu lugar ao sarcasmo. - Sirius, deixe de ser bobo. Eu não estou a fim de falar com você, só isso. É tão difícil assim de você entender?


- Se você não quiser falar, a gente faz outra coisa. Afinal, de alguma maneira, você tem que agir verdadeiramente.


- Também não estou a fim, mas aprecio a consideração. Além disso, que pretensão é a sua em entrar na minha sala, me enfrentar e, ainda por cima, insinuar que quero transar com você?


- Se você se olhasse no espelho, saberia que você não quer ficar aí parada, me encarando.


Ariadne irritou-se com o tom debochado que ele usou. E fazendo tudo para seu olhar mostrar-se o mais impassível que poderia, falou:


- E se você ao menos pensasse antes de dizer qualquer coisa, chegaria à conclusão de que não estamos mais na época de estudantes. Somos adultos agora, Sirius. Então, por favor, caia fora da minha sala, pois, como te disse, tenho mais o que fazer.


- Eu vou Ariadne, não se preocupe. Só que você vai falar o que quero saber. E desta vez, nós vamos conversar.


- Mas eu não sei se você se lembra, Sirius - Ariadne disse, segurando-se para não azarar o infeliz -, que eu lhe disse que não havia nada para conversarmos.


- Pois eu acho que tem sim. - Sirius aproximou-se dela, no que Ariadne fugiu para sua mesa, disfarçando que tinha que arrumá-la, embora poucos papéis estivessem por cima do móvel. - Quer parar de fugir? - ele exasperou.


- Eu não estou fugindo, quantas vezes tenho que repetir isso para que entre nessa sua cabeça dura? Eu só tenho mais o que fazer do que ficar dando atenção a um cara.


- Depois do que aconteceu entre a gente, pensei que você fosse parar de fingir o tempo todo.


- Quer parar de insistir nisso, já está me cansando.


- Por que você não me procurou nessas duas semanas? Por que foi embora àquela noite sem me dizer nada? Por que continua fugindo de mim?


- Não tínhamos nada a dizer um ao outro. E que mania você tem de que estou fugindo de você!


- Então é assim que funciona? As coisas acontecem entre a gente e você vai embora?


- Não aconteceu nada entre a gente, Sirius - Ariadne falou, engavetando alguns pergaminhos.


- Então o que aconteceu naquela noite foi o quê? E dá para você olhar para mim enquanto conversamos, caramba?! - Sirius quase gritou, dando um passo na direção da mulher. Ele estava começando a perder o nível do bom senso.


- Uma transa, não acha? - retorquiu Ariadne, erguendo as sobrancelhas de forma óbvia.


- Como é? - a voz de Sirius soou tão baixa que Ariadne custou ouvir e, embora sentisse o perigo que sua resposta poderia acarretar, não se importou.


- Uma transa, Sirius, não se lembra o que significa isso? - perguntou venenosa. - Você fazia de vez em quando, enquanto estudava aqui. Mas se você não se lembra, eu explico. Transar nada mais é que o ato de fazer sexo com alguém, mas sem sentir nada por ela, apenas atração. Um tesão momentâneo.


- E é só isso que você sente por mim? Um... tesão momentâneo? - perguntou, sentindo nojo pelas palavras que usara. Que Ariadne usara.


Era visível a irritação exasperada do homem. Só bastava observar seu maxilar tenso, as mãos fechadas em punho e os olhos emitindo chispas de raiva. E tudo isso somado a voz que parecia com dificuldades em sair. Mas, mais uma vez, Ariadne não deu importância a esses sinais.


- Isso mesmo. Por quê? - ela riu. - Achou que eu te amava, Sirius?


- Eu sei o que você está fazendo, mas não vai funcionar, Ariadne - ele disse, dando dois passos na direção dela. Ariadne sequer se mexeu. - Eu não vou embora por causa de um capricho seu. Você vai ter que me explicar por que está agindo dessa maneira tão...


- Verdadeira?


- Totalmente infantil e sem nexo.


- Sem nexo para você, não é, meu bem? Só que já que você quer uma explicação - falou em desdém. - Mas isso é triste, sabia? Nunca achei que viveria para ver Sirius Black se humilhar por uma mulher, mas...


Sirius ficou quieto, e Ariadne, vendo que ainda não conseguira seu intento, embora o sentisse próximo, não pensou duas vezes em continuar com a tortura. Contudo, não sabia com quem ela estava sendo mais cruel. Com a voz suave, como se estivesse explicando algo para uma criança, ela falou:


- Eu senti falta de homem, Black. Entendeu? Você não sabe, mas essa escola toma tempo, e eu não poderia ter um caso com Flitwick, não é mesmo? Muito menos com Hagrid ou Firenze, seria até engraçado. Então, quando você me abordou naquele corredor, eu percebi que teria uma chance de, digamos, colocar meus desejos em dia.


- Se você tinha isso em mente, por que resistiu? - Sirius achou que tinha acertado em cheio, mas sentiu-se enfurecer mais ainda ao ver o desdém, que antes estampava o rosto da mulher, misturar-se ao divertimento.


- Eu brinquei com você - falou divertida, embora gritasse em desespero por dentro. - Como eu disse, eu precisava de um homem, e ainda me lembro como você age quando se depara com obstáculos, principalmente quando se refere a sexo.


- Então, quer dizer que você me provocou, é isso? - perguntou cheio de fúria, sentindo ganas, pela primeira vez em sua vida, em acertar a mão em uma mulher.


- Isso mesmo - confirmou Ariadne. - Mas não precisa se perturbar, pois você fez seu papel direitinho... Se fosse um exame, receberia a nota máxima.


Não se segurando, Sirius avançou até chegar bem perto de Ariadne, segurando-a fortemente pelos braços.


- Por que você está fazendo isso, Lakerdos?


Por um momento, Ariadne sentiu a vontade de gritar em desespero quase atravessar sua garganta. Pelo visto seu plano estava funcionando. Sirius nunca a chamaria pelo sobrenome, cheio de fúria, se não estivesse realmente furioso com ela... ou até pior.


- Porque é a mais pura verdade, Sirius - falou, e, naquele momento, sua voz saiu seca, sem sentimentos. Entretanto, não tinha nada a ver com seu teatro, e sim com o que realmente sentia. Como se uma aridez começasse a tomar conta de seu corpo...de sua alma.


- Então quer dizer que você mentiu para mim, anos atrás?


- Como?


- Quando disse que me amava - falou entre os dentes. - Você mentiu?


- Não, não menti. - Ela quase se arrependeu em dizer isso, mas deixou que ele desse o próximo passo. “Vamos, Sirius, faça... faça”, pensou fervorosamente, pois há um bom tempo já entrara na mente do homem para saber o que ele tanto pensava.


- Mas agora diz que não me ama. Que apenas transou comigo, porque sentia falta de um homem.


- Isso mesmo.


Ele ainda a segurava duramente pelos braços, e Ariadne os sentia começar a ficar dormentes. “É agora...”, ela pensava. “É agora que ele vai se revoltar e me deixar em paz... me deixar continuar como deve ser...”


Porém, os pensamentos logo se esvaíram de sua cabeça. Sirius, por tê-la tão perto, aqueles olhos brilhantes numa determinação triste, não conseguiu resistir. E ele se odiou por conseguir decifrar aquele olhar, e se odiou ainda mais pelo que lhe provocava. Ainda segurando-a firmemente, puxou-a bruscamente de encontro ao seu corpo antes de colar sua boca na de Ariadne. Ela não pensou em nada, apenas em retribuir e sentir a amargura e a dor que carregavam o beijo do homem. Apenas pensou em aproveitar - mesmo que isso fosse doloroso depois - os segundos da língua exigente e macia dele explorando e buscando pela sua, os braços dele a apertando, o contato com aquele corpo, o cheiro da pele de Sirius...


Ele finalmente a soltou, não se importando com as marcas perfeitas de seus dedos no braço alvo de Ariadne. Ou com as marcas que ela deixara nele. Ele a olhava enojado, mesmo a notando entorpecida pelo beijo, mesmo sabendo que a afetara sim, que o beijo que trocaram, mesmo cheio de dor, ainda a fazia suspirar e, se continuassem, teriam que lacrar a porta da sala de aula.


E fora justamente pelo fato de estar entorpecida, que Ariadne demorou a perceber que Sirius falava com ela novamente:


- Espero então que você volte logo para o seu namorado paspalho. Ou o Nicola gosta de ser corno?


- Como... o quê?


Por aquilo Ariadne não esperava. O nome de seu filho a fez despertar-se imediatamente, afinal, de onde Sirius tirara o nome de Nicola?


- Bem, vejo que você não percebeu que sonhou com ele, não é? Não enquanto dormia na minha cama.


- Eu sonhei com ele sim, mas... - Ariadne falou sem perceber. Sentiu vontade de perguntar o que falara durante seu sonho, mas, ao entender as palavras de Sirius, percebeu que não entregara quem realmente era Nicola. - Saiba que isso não é da sua conta, Black.


- Sei... É da conta do Nicola, não é?


- Entenda como quiser.


Sirius insistiu. Sentia que estava achando a ponta daquele novelo enroscado de lã, era só instigá-la ainda mais. Só um pouco mais.


- O que foi, Ariadne, o tal do Nicola não sabe que é apenas uma distração? - falou jocoso e sentindo prazer em ver uma raiva fria começar a se mostrar nos olhos da mulher.


- Cale a boca. Você nem sabe o que está dizendo - ela falou, tentando soar indiferente.


Entretanto, isso não pareceu dar muito certo, dado o tom de voz sarcástico e vitorioso de Sirius:


- Achei que você estava gemendo de medo, durante o sonho, mas pelo visto era de prazer... Sonhava que estava fazendo com ele o que a gente fez?


- Não te interessa! – ela sibilou. – Agora, saia daqui!


- Eu saio, mas acho que tem alguém que precisa saber quem você realmente é.


- Ah, e suponho que você vai procurar Nicola.


- Não. Mas eu reparei você conversando com o Charlie Weasley, no dia da reunião. E pareciam bem íntimos, até. - E ao ver a expressão perplexa dela, continuou. - Aposto que você também engana o infeliz. Se eu contar a ele que sei do tal Nicola, aposto que ele vai ficar feliz em saber, não é? - E foi na direção da saída.


Pela primeira vez, Ariadne deixou seu desespero tomar forma em seu rosto, pois ficou rapidamente entre Sirius e a porta da sua sala, impedindo que ele saísse. Se ele falasse para Charlie sobre Nicola, talvez o amigo entendesse errado e, provavelmente, entregaria que Nicola era, na verdade, filho de Sirius e dela.


- Não ouse falar de Nicola para o Charlie, está entendendo? - Sirius riu em desdém. Ariadne o segurou pelo braço, chacoalhando-o. - Entendeu, Black?


Mas Sirius soltou-se dela facilmente.


- Eu falo o que eu quiser e com quem quiser - falou irritado, também se esquecendo do teatro de segundos atrás. - E você não vai me impedir em mostrar para os outros a... meretriz que você é.


Sirius viu o queixo de Ariadne retesar em ódio. Sim, era isso que ele queria ver. Depois que percebeu um leve traço de sentimento nos olhos dela, mesmo que fosse desespero, achou que conseguiria retirar o resto. Retirar os sentimentos carregados de palavras. Ou palavras carregadas de sentimento... Não importava a ordem, e sim o que elas trariam: a verdade. Afinal, algo lhe dizia que tudo o que foi dito naquela sala fora falso, errado. Que havia algo mais que Ariadne não queria mostrar. E ele sabia que apenas atiçando-a conseguiria vê-la explodir de raiva e jogar todas as verdades - realmente verdadeiras - na cara dele.


Que naquela noite não foi apenas tesão momentâneo, e sim amor reprimido pelos anos. Amor saudoso. O que ela sentia por ele desde que era adolescente. O mesmo amor que Sirius sabia que nunca deixaria seu peito.


Além disso, ele a conhecia perfeitamente e, se Ariadne retorquisse essa provocação furiosamente, era porque havia conseguido atingi-la, ou seja, era porque ela não era nada daquilo que ele lhe dissera.


Mas a reação de Ariadne foi outra.


- Se é assim que você me julga, Sirius, então faça o que bem quiser - ela falou cansada. - Se me acha uma meretriz por sentir falta de homem e me deitar com quem se dispõe, é problema seu. Eu sou uma mulher adulta. Deito-me com quem quiser.


- Pelo visto você realmente mudou.


- Bem, até que enfim você percebeu. Satisfeito?


- Não. Decepcionado.


- Sinto muito, mas, quanto a isso, não posso fazer nada.


- Pode sim. O seu problema é que você não quer. Nunca quis, Ariadne.


- Ah, agora você virou psicólogo, é isso?


- Não. Só estou falando o que só agora percebi que já havia constatado. Que você não consegue manter-se perto dos outros, simplesmente porque tem medo de amar e ser amada. Sempre expulsa as pessoas da sua vida. Foi assim comigo. E vai ser assim com qualquer um que queira chegar perto de você.


- Isso é mentira - ela falou, soltando um risinho pelo nariz, como se o que ele acabara de dizer fosse uma piada. Na verdade, Ariadne segurou sua raiva. Não queria mais discutir com Sirius, estava realmente cansada daquele jogo de palavras, daquelas ofensas sem fundamentos.


O homem passou a mão pelos cabelos e depois pelo rosto, cansadamente, em seguida deixou uma curta e suave risada escapar. Ariadne sentiu os pêlos de sua nuca eriçar.


- Você tem medo da perda, Ariadne - falou, meneando a cabeça, como se realmente constatasse um fato triste. - É exatamente por isso que, quando qualquer relação sua começa a ficar intensa, independentemente de que tipo ela seja, você dá um jeito da pessoa se afastar. Você já fez isso comigo, e está fazendo novamente. Não duvido de que você tenha outro por estar se envolvendo demais com Charlie Weasley. Ou vice-versa, não importa. Mas... O que vai acontecer quando você se envolver demais? Vai me procurar?


Ariadne ficou quieta, não tendo condição alguma em retorquir o que quer que fosse que Sirius lhe falava. Sequer tinha forças para olhá-lo. As palavras passavam por seus ouvidos e atingiam todas as partes de seu corpo, torturando-a como nunca. Ele continuou:


- Se você realmente for me procurar, Ariadne, seria bom que você percebesse o tempo que demorou, pois, eu tenho quase certeza de que será tarde demais para nós.


Ariadne finalmente o encarou e, ao contrário de Sirius, ela não percebeu que seus olhos estavam marejados. Por isso mesmo falou num sibilar:


- Eu estou me lixando.


Sirius suspirou cansado, então foi até a porta da sala, mas, antes de fechá-la atrás de si, virou-se para olhar Ariadne mais uma vez. Seus olhos cruzaram e, pela primeira vez, ele vira uma frieza nos olhos daquela mulher que o enlouqueceu, pois, ao lado dela, o desespero e angústia faziam um contraste gritante, mas que ele não fazia questão de acalmar. Não daquela vez. Mesmo sabendo que aquela dor o atingiria na mesma intensidade logo logo.


Assim que a porta de sua sala se fechou, Ariadne foi para seu escritório, batendo a porta atrás de si. Sentia raiva, tudo doía... seus olhos ardiam de uma maneira incrível e que, para ela, chegava a ser humilhante, principalmente por sequer ter percebido que algumas lágrimas já lhe caíam pelo rosto, as quais ela logo fez questão de secar. Não poderia chorar. Não por Sirius. Não de novo. Fizera o certo, afastara o homem de sua vida de uma vez por todas. Fora o melhor! Eles não poderiam ficar juntos com ela sendo uma vampira. Seria cruel demais! Ela não conseguiria... Não poderia vê-lo definhar no decorrer dos anos, morrendo na sua frente de velhice enquanto ela continuaria da mesma maneira, e... e não poderia contar que tinha um filho com ele, senão, o que aconteceria? Sirius a condenaria por ter escondido a verdade por tanto tempo! E, depois disso, ele entraria naquela fortaleza à força! Ela tinha certeza! E tiraria Nicola dela.


Não poderia falar que ele fora o único homem a quem ela amou durante toda a sua vida. E que sabia que seria o único a quem amaria, independentemente da maldição que a cercava. Não conseguiria, depois disso, ver o desprezo nos olhos dele, o pavor, a repulsa...


Sentiu uma dor intensa na altura do peito, levando a mão automaticamente até lá. A dor a sufocava, a cegava... Porém, ela ainda conseguiu vislumbrar, no espelho, um par de olhos vermelhos a encarando. E, sem nem pensar no que fazia, praticamente deslocou toda a energia que mantinha naquele momento para o espelho, fazendo-o quebrar. Mas, agora com os pedaços caídos ao chão, não eram apenas dois olhos que a encaravam, e sim vários... Mil olhos a condenando, mostrando-lhe que não adiantava nada. Sua vida seria assim para sempre, e ela não poderia fazer nada para mudar.


Nada lhe parecia mais injusto e desesperador do que o dia em que Sebastian cruzou seu caminho.


- Mas eles vão pagar pelo que fizeram a mim... - murmurou entre os dentes. - Nem que seja a última coisa que eu faça, vão pagar pelo que fizeram com a minha vida. Todos eles.


Então desaparatou, deixando a familiar fumaça pútrida para trás.


A cidade em que Ariadne apareceu mostrava-se deserta, como se o fato de colocar os pés para fora de casa fosse a sentença para a pessoa que se atrevesse. Na floresta próxima, era possível ouvir os uivos lupinos sob a última lua cheia daquele ciclo, como se fossem um aviso de que, o que ela queria fazer, fosse o certo, embora muito arriscado. E caso fosse realmente colocar em prática seu plano recém formulado lhe fosse a maior prova de auto-controle que ela iria enfrentar, não se importava. Ela apenas sabia que não voltaria em sua decisão. Ao menos não facilmente.


Decidir o que fazer assim que Sirius saiu de sua sala, mesmo com a raiva e o desespero como conselheiros, foi mais fácil do que ela imaginava. Porém, deveria tomar cuidado ao entrar no Castelo Negro da cidade de Strigoi. Sabia que Sebastian não estava ali, uma vez que não sentia sua presença, mas, a qualquer momento, a chamado de suas companheiras, ele apareceria. Talvez com Nicola junto dele. Entretanto, sem dar mostras de arrependimento, Ariadne adentrou pelo portão alto de ferro, passou pelo caminho de pedras largas e escuras e entrou naquela antiga construção, atravessando a pesada porta de madeira da mais escura árvore.


Os archotes que iluminavam o hall de entrada pareciam não adiantar de muito, uma vez que a parede, também feita de pedras quase negras, não permitisse a luminosidade preencher o lugar. Mas ela conhecia aquele castelo como a palma de sua mão, então, não teria dificuldades em andar por ali. Ela teria de ser rápida e silenciosa. E essa era uma qualidade que realmente tinha desde sempre... E que só melhorara com seus poderes de vampira.


Ariadne podia sentir seu sangue pulsando nas veias mais forte que o normal, as mãos formigando, assim como também sentia uma raiva crescente à medida que seus caninos atingiam o tamanho de qualquer dente vampírico. Naquele momento, ela não estava se importando realmente com as conseqüências de sua escolha. E mesmo que não chorasse mais, a dor ainda a atingia feito uma espada cega que queria aniquilar seu oponente. Além disso, buscar por justiça não a faria se perder nas trevas. Mesmo que a justiça fosse feita por suas próprias mãos.


Foi somente quando estava prestes a entrar na ampla sala da lareira que Ariadne percebeu que, talvez, seu plano não poderia ser executado naquela noite. Mas ela ainda esperaria para ter a certeza do contrário. Então, sentindo a presença de apenas um vampiro para além da porta que encarava, ela desaparatou, aparecendo do outro lado. Vislumbrou, naquela penumbra, os cabelos louros de Aimèe por causa da lareira acesa. Embora não fosse necessário isto para saber que era ela quem a aguardava.


- Onde estão todos?


Aimèe sentou-se sobressaltada no sofá em que estava deitada, olhando assustada para Ariadne há poucos metros.


- O que você está fazendo aqui?


- Eu perguntei onde estão todos, Aimèe. - A voz de Ariadne continuava rascante.


- Sebastian foi com Katrina... ter com Voldemort.


- Sobre o quê?


- Eu não sei... Sebastian não me disse nada.


Ariadne semicerrou os olhos levemente, estudando a mulher à sua frente. Aimèe não mentia, isso ela pôde diagnosticar. Porém, por mais que se concentrasse, Ariadne não conseguia perceber quem, além de Aimèe, estava na casa, embora sentisse a presença de outro naquele lugar.


- O que você está fazendo aqui? - Aimèe perguntou novamente, já se incomodando com a presença da outra mulher.


- Quem mais está aqui?


- Eu perguntei primeiro, Ariadne - ela retorquiu, sentindo uma pontada de irritação.


- Mas você está em desvantagem, e sabe muito bem disso. Agora, me responda: quem está aqui?


- Não te interessa. - Aimèe então se levantou, encarando a mulher de igual para igual, o que pareceu divertir Ariadne, pois ela abriu um sorriso em esgar. - Não é bom você vir aqui sem Sebastian estando na casa.


- Estou me lixando para Sebastian.


- Mas pode ser perigoso para Nicola, se...


Em poucos instantes, Ariadne já estava com seu rosto a milímetros de distância do da outra vampira. Disse entre os dentes:


- Não fale do meu filho.


Ao ver os olhos de Ariadne vermelhos e os caninos dela grandes e pontudos, Aimèe, instintivamente, retrocedeu alguns passos, o que a fez cair novamente sentada no sofá, assustada.


- Meu Deus! Você... Ariadne, você não pode! Pense em Nicola, pense...


- Eu já falei para você não falar no meu filho!


Ariadne já se inclinava para Aimèe, segurando a vampira pelo pescoço da mesma maneira que segurara Samantha quando descobriu que seu filho fora seqüestrado. Porém, limitava-se a apenas apertar a garganta da outra mulher. Por mais que sentisse raiva de toda aquela situação, o ódio que sentia por Aimèe não chegava nem perto do que ela sentia por Sebastian e as outras. Contudo, ela ainda tinha mais força que Aimèe, o que impedia a loura de sair dessa situação.


- Ariadne... não...


- Onde estão Adhara e Samantha?


Aimèe apenas gemeu de dor.


- Onde estão elas, Aimèe?


- Eu não sei exatamente, mas elas... Adhara disse que se sentia entediada e... Tem... Tem um grupo de bruxos...em Strigoi... Samantha foi com ela e... Ariadne, por favor...


- “Por favor”? Você me pede “por favor”? Quem mais está aqui?


Aimèe apenas gemeu em resposta. A dor em sua garganta a sufocava, como se não bastasse apenas a pressão da mão de Ariadne.


- Eu sinto outra presença aqui, mas não sei quem é. Responda-me logo, antes que a consideração que eu tenho por sua mãe acabe aqui e agora.


- Então...por minha mãe...por nós...não faça nada...por favor... - Aimèe tentava, em vão, retirar a mão de Ariadne de seu pescoço.


Aimèe não era uma vampira transformada, tanto por meios tradicionais, como a mordida, ou como foi feito com Ariadne. Ela tinha os poderes vampíricos sim, como qualquer um, porém não tão fortes, já que eles vieram apenas pelos seus antepassados, através de seu pai, e até chegar nela, o sangue já se encontrava - como muitos dos Vrykolakes já disseram - misturado demais. Ela poderia morder, se quisesse, e retirar todo o sangue e vitalidade de uma vítima, porém, ela se negava a isso, pois, por mais que pensassem o contrário, ela não estava com Sebastian porque queria.


- A consideração por um morto não vai me impedir de fazer justiça, Aimèe. E muito menos um passado.


- Não é um simples passado, Dina.


- Não me chame assim - Ariadne exasperou, agora, apontando sua varinha para o coração da mulher. - Eu vim até aqui com um propósito, e nada vai me fazer voltar em minha decisão. Se você não quer cooperar, problema seu, mas eu vou encontrar quem você está escondendo.


- Eu não estou escondendo. - Os olhos incrivelmente azuis de Aimèe já estavam cheios de lágrimas. - Não me mate, Dina, senão...


- Senão o quê?


- Senão, não vai restar ninguém para proteger minha mãe.


Por um momento, Ariadne achou que havia visto sinceridade e medo no olhar da mulher acuada à sua frente, o que a fez afrouxar o aperto no pescoço de Aimèe. Como se fosse automático, o rosto bonito e risonho de uma mulher de uns quarenta anos apareceu em sua mente, rindo, contando histórias sobre seu pai:


- Koira e meu querido Timoh sempre gostavam de cavalgar por aqui - Françoise dissera enquanto ela e uma crescida Ariadne cavalgavam por um campo verde e extenso, ladeadas por uma ainda mirrada Aimèe. - É uma pena que o mesmo homem os tenha mandado à morte. Se eu ao menos fosse bruxa como sua mãe, Dina, já teria buscado por justiça.


Fora justamente o ano em que Arktos morrera. Depois de remoer as palavras da tia, Ariadne mandara a carta para o irmão. Carta que o mandara à morte.


Mas aquilo era passado, e muito bem enterrado. E Aimèe não a enganaria com histórias antigas.


- Não adianta vir com ladainhas, Aimèe. - Ariadne rosnou. Encarava a prima a uma curta distância, uma vez que, aproveitando que Ariadne encontrava-se absorta em pensamentos, Aimèe se distanciara dela.


- Não são ladainhas, Dina! Eu realmente preciso proteger minha mãe de Sebastian!


- Mas ela está morta.


- Não, não está.


Contudo, quem respondeu isso foi justamente quem Ariadne percebera no castelo, mas não conseguira distinguir, embora não soubesse por que ele a impedira de tal ato. Ariadne olhou pasmada, mais uma vez, para Alexey, que surgiu do nada.


- Mas... O que você está fazendo aqui?


- Descobrindo por que Aimèe decidiu, de uma hora para outra, aliar-se a Sebastian.


- Mas isso é óbvio! - Ariadne irritou-se porque seus planos não estavam seguindo a ordem que queria. - Ela matou a tia Françoise e se aliou a Sebastian.


- Eu nunca faria isso com minha mãe!


- Se até o Lex acreditou, querida, por que eu não acreditaria? - Ariadne perguntou sarcástica.


- Não interessa! Mas eu pensei que você, Ariadne, por me conhecer há mais tempo, soubesse disso. - A voz de Aimèe estava cansada ao dizer aquilo, tão cansada quanto desgostosa.


- Ah, claro! Eu realmente acreditaria depois de você ter aparecido em minha casa, quando meu filho nasceu, para ajudar Sebastian a terminar aquele ritual desgraçado! - vociferou Ariadne. - Certo que você não apareceu na hora, e sim quando me viu desacordada, não é? Que foi? Não gosta de ver sofrimento alheio, meu bem?


- Isso não vem ao caso, agora - cortou Alexey, mas Ariadne não permtiu.


- Vem sim, Alexey! Você quer que eu acredite nessa mulher depois de tudo o que ela fez comigo? Pois se for, para o inferno, vocês dois!


- Dina - Alexey falou entre os dentes -, Françoise não está morta. Ela está presa nos calabouços deste castelo.


- Ah, claro. E é a Aimèe quem leva comida a ela todos os dias, não? Acorde para vida, Lex! Aposto que foi ela quem matou também tio Tomeh, e você fica defendendo a assassina de seu primo?! A mulher que ajudou aquele desgraçado do Sebastian a fazer isso comigo?!


Ariadne parecia descontrolada, e isso fez Alexey se irritar tanto quanto a mulher.


- Deixa de ser cabeça dura ao menos uma vez na vida, Ariadne, e perceba que o que você está passando com Nicola é o mesmo que Aimèe passa com Françoise!


E essa irritação, que poucas vezes Alexey dirigia para Ariadne, pareceu fazer com que a mesma racionalizasse mais e esquecesse, apenas por um momento, a raiva que sentia. Se o homem - ou vampiro - que sempre a protegeu estivesse certo, então sua tia deveria estar naquelas masmorras geladas há muito tempo. Tempo que Ariadne não gostaria sequer de calcular.


No entanto... ela tinha ganas de apenas fazer todos pagarem pelo que ela viveu durante todos aqueles anos, naquelas condições. Do jeito que estava vivendo naqueles dias. Além do medo que sentia em nunca mais conseguir ver o olhar cheio de amor e carinho de seu único filho, caso fizesse algo impensado, e ver apenas dor e decepção.


Mas, apesar de tudo, Ariadne ainda conseguiu pensar. Por que Aimèe não lhes pedira ajuda em tudo isso? Seria bem mais fácil, e os três conseguiriam salvar Françoise, se assim decidissem.


- Por que você não disse nada antes? - Ariadne finalmente perguntou. Não estranhou o fato de sua voz estar totalmente sem sentimentos.


- Pois, se uma única palavra deixasse minha boca para dar a localização de minha mãe, a maldição que a cerca a mataria, Ariadne. E de uma maneira horrível.


- Então como Lex ficou sabendo?


- Porque ela tentou fazer alguma coisa - o mesmo respondeu. - Aimèe abriu a mente dela para eu poder conseguir entrar e descobrir o que estava havendo, depois que eu a procurei quando Nicola já estava com Voldemort. E descobri sobre a maldição e Françoise. 


Ariadne pareceu pensar um pouco e, ainda relutante, falou:


- Mas isso é ridículo! Se tia Françoise estivesse viva, eu saberia! Eu sentiria a presença dela aqui neste lugar.


- Não se Sebastian pedisse ajuda a um bruxo, para isso - Aimèe falou.


E Alexey, sabendo que a mulher não poderia dizer mais nada, completou:


- A proteção da cela de Françoise é a mesma que cerca a de Nicola.


Isso pareceu ser o necessário para Ariadne acreditar na história.


De Alexey ela não desconfiava, afinal, ele a salvara duas vezes de Sebastian. Fora justamente por causa dele, Alexey, que seu irmão Arktos sobrevivera ao início do ritual que ocorrera na França, quando Ariadne ainda era um bebê. Sebastian e Katrina conseguiram matar seus pais, Koira e Lya, porém, Alexey chegou a tempo de não terem feito nada com Arktos, que ainda era uma criança, ou de levarem Ariadne com eles. E, quando os mesmos vampiros a abordaram após o nascimento de Nicola, Alexey chegou, também a ajudando e não permitindo que eles matassem seu filho.


E Aimèe... Ela e a prima viveram muito tempo juntas. Ariadne passava as férias na casa de campo de tia Françoise, na França, e as duas faziam planos juntas para o futuro. Mas, então, a poucos meses do parto de Nicola, tia Françoise foi dada como morta, e Aimèe aliou-se a Sebastian. Ou fora justamente isso que o vampiro queria que ela, Ariadne, pensasse para que percebesse tudo perdido?


Com certeza poderia ser isso. Sebastian, com seu joguinho sórdido, querendo ver todos os descendentes de Drácula caírem para, apenas ele, sobressair-se.


- Eu sinto muito pelo que fiz, Dina... Por tudo... - Ariadne olhou para Aimèe ao ouvi-la falar tão triste e suavemente. Ela continuou: - Eu só queria proteger minha mãe. Espero que um dia você compreenda e... me perdoe.


Compreender, isso Ariadne poderia fazer facilmente. Ela sabia o que era o desespero por ter alguém que amava nas mãos de pessoas cruéis que não mediriam forças em torturá-la. Mas perdoar... Isso estava além de suas forças. Ariadne sentia que seria impossível perdoar uma das pessoas envolvidas em tudo que lhe aconteceu naqueles anos todos, mesmo se uma dessas pessoas fosse Aimèe.


- O que faremos agora? - Ariadne perguntou de maneira impassível.


Alexey e Aimèe se olharam, e foi ela quem respondeu:


- Por enquanto nada. Enquanto o bruxo que fez a maldição estiver vivo, não há como... bem, vocês sabem. E Sebastian o protege o tempo todo. Eles têm uma ligação que eu não compreendo, mas que, sempre que o bruxo corre riscos, Sebastian aparece para ajudá-lo.


- E quem é esse bruxo? - Ariadne perguntou.


- Eu também não posso dizer o nome dele.


- Então deixe-me ver - Ariadne falou quase rispidamente. Não por não gostar de estar ajudando uma tia que sempre lhe tratou como filha, e sim por estar perdendo tempo em não estar salvando o seu filho.


Ariadne fechou os olhos por apenas um segundo e pôde ver quem era o bruxo que fizera a maldição em Françoise para que não permitissem que sua localização fosse dita pela própria filha. Contudo... Aquilo só podia ser brincadeira! Mas, quando ele fizera a maldição? Afinal, ele deveria estar em Azkaban ou... Só se fosse após ter torturado... Mas por que ele obedecera Sebastian, se...


- Você sabe quem é ele, Dina? - Alexey perguntou interrompendo o raciocínio de Ariadne, no que ela o olhou e assentiu. O homem vislumbrou um sentimento de desprezo perpassar pelos olhos da mulher. - Então pode deixar que me encarrego dele.


- Não precisa.


- Por quê? - perguntaram Aimèe e Alexey ao mesmo tempo.


- Porque Bartolomeu Crouch Junior já está morto.


 


XXX---XXX


N/B Georgea: Sim, a fase está dark e cheia de revelações e novos mistérios, mas, mesmo assim, ainda temos doces momentos, não é? Vide Harry e Ginny e até Sirius e Ari. Todos botando fogo na fic. E a gente nem gosta... Rssssssss. Muita ins(trans)piração, maninha. o/


NA: Essa fase “dark” que a fic necessita passar está cada vez mais difícil de escrever, e minha sorte, digamos assim, é que ela já está toda formulada, tanto em minha cabeça quanto em anotações... Mas, ah, se fosse tão fácil colocar em palavras o que quero realmente passar...rs... E sim, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo!


Enfim... não vou me estender muito na nota, já que essa fase da fic me deixa totalmente sem ânimos..rs.. A música do ABBA, que encabeçou o capítulo, vocês podem ouvir no meu espaço do Multiply, cujo link está no meu perfil.


Agradecimentos:


Mickky: podexá que passo assim que conseguir um tempo pra me organizar. Beijos.


suicidepotion: ah, fico feliz que vc escolheu “Encontro” pra passar o reveillon! (olhinhos brilhando), e mais ainda por ter gostado! Tudo de bom nesse novo ano. Beijos.


Ari Duarte: obrigada pelo coment! Beijos.


Osmar: que isso! Eu, matá-lo do coração? Longe disso..rsrsrs...obrigada pelo coment e o elogio! E, bem, amigos se entenderem é simples qdo não se tem um passado conturbado, o que não é o caso da Ari e do Sirius, mas.... (bico fechado) só lendo para saber..rs.. espero que tenha gostado. Beijos.


Michy: linda, muito obrigada pelo coment. Adorei! Beijo grande pra você! E espero que tenha gostado do capítulo.


Priscila Louredo: ah, que bom que gostou! *.* Sim, me ajoelhei e pedi ajuda à bruxa protetora das escritoras de NC..rsrsrs... Beijo grande, mana!!!


Kelly: se a Ari fosse obliviar o Sirius, acho que não daria muito certo... o pensamento poderia ficar em branco, mas as sensações... *ui.. que bom que gostou! Beijo grande pra você!


Bianca Evans: que bom que gostou! Espero que continue assim! Beijos e até o próximo.


Aos que passaram sob a capa da invisibilidade dos Potter:


Espero que também tenham gostado.


Beijos a todos,


Livinha

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