Capítulo 1
Cada qual em seu lugar
Ariadne Lakerdos era uma mulher aparentemente jovem, porém, completara trinta e sete anos há algumas semanas, e por ser uma mulher baixa, aumentava ainda mais a impressão de ser uma garota que acabara de sair da adolescência. Seus cabelos negros - que destacavam seu rosto levemente pálido - eram um pouco cheios e começavam a ondular na altura do queixo, caindo como cascata até sua cintura. Os olhos eram discretamente maiores que o normal e levemente puxados, embora ela não tivesse nenhuma antecedência oriental, além de serem de um dourado que pareciam duas pepitas de ouro. E os lábios, que pareciam ser desenhados em seu rosto, eram de um vermelho intenso.
Descendente de gregos da ilha de Santorini, arquipélago de Cíclades, por parte de pai, e de ingleses do País de Gales, por parte de mãe, Ariadne tinha uma mistura singular, o que foi comprovado ao nascer, quando seus olhos mostraram-se incrivelmente dourados, mas que, quando criança e adolescente, tornaram-se castanhos, o que ela nunca soube explicar. E estes só clarearam de novo quando o vampirismo se fez completamente presente em sua vida, há alguns anos, contudo, um tempo que ela não gostava de recordar.
O pouco que Ariadne conhecia dos pais era de fotografias e algumas histórias que seu irmão mais velho, Arktos, lhe contara algumas vezes, o qual foi auror, mas morreu na primeira guerra contra Voldemort. Sobre a morte dos pais, a única coisa que Ariadne sabia foi que aconteceu quando sua família fazia uma viagem pela França.
A sobrevivência de Ariadne e Arktos foi considerada, por bruxos e trouxas, ou um milagre ou, simplesmente, crueldade. O casal Lakerdos foi encontrado morto no hotel que estavam hospedados. Foi feita uma verdadeira chacina sem nenhuma explicação aparente. E enquanto o casal estava totalmente desfigurado e com o corpo estraçalhado, Ariadne estava intacta na cama, apenas envolta num lençol de seda negra, e Arktos, de apenas treze anos, encolhido no canto entre a parede e o guarda-roupa.
Arktos chegara a investigar alguma coisa depois de um tempo, mas não conseguiu descobrir nada. Ao menos era o que ele dizia a Ariadne, pois nunca chegaram a conversar realmente sobre o que acontecera àquela noite. Com o tempo, ela aprendeu a não fazer perguntas difíceis para o irmão, que sempre a protegia de uma maneira intensa, mas sem tirar sua liberdade, embora algumas vezes Ariadne se sentisse sufocada.
No entanto, com a morte de Arktos dias antes do Natal, quando ela ainda estava no sétimo ano de Hogwarts, acabou abrindo-se um grande buraco em sua vida. O que a ajudou, fazendo com que não se abatesse e desistisse de tudo, foram suas singulares e verdadeiras amizades.
Ariadne era uma Slytherin, mas não carregava o preconceito e atos cruéis ou mesquinhos que muitos deles tinham. Contudo, ela não fora daquela casa à toa também, pois se fosse uma santa, estaria na Hufflepuff. Mas o fato de suas amizades serem singulares, era que suas melhores amigas eram da Gryffindor e ambas eram filhas de trouxas e, para somar a essa singularidade, havia a amizade com seu companheiro de casa e que também era seu primo por parte de mãe: Severus Snape.
Snape nunca aceitara a amizade de Ariadne com “sangues-ruins”, o que sempre acabava em discussão quando ele tentava, a todo custo, fazer a prima enxergar o bom-senso, embora ela não entendesse o porquê disso tudo, afinal, ele também tinha pai trouxa - o completo desgosto de Severus, ela sabia. Além disso, havia o fato dela ser amiga de Remus Lupin desde o segundo ano e, por conseqüência, mesmo começando uns anos depois, tornou-se amiga de James Potter e Sirius Black, os quais sempre importunavam Snape quando era possível. Quanto a Peter Pettigrew, Snape ficava aliviado pela prima não se tornar amiga dele, embora soubesse que Ariadne só não o suportava por ser um mexeriqueiro e um completo baba-ovo tapado.
Quando se formou em Hogwarts, cada um seguiu seu rumo, embora Ariadne permanecesse em contato com todos os seus amigos, inclusive Snape, mesmo que com este fosse raro receber qualquer notícia. Mesmo com ele lutando ao lado de Voldemort, nem cogitava a opção de odiá-lo ou ter qualquer sentimento repulsivo. Era como se a ligação de amizade que tinha com ele, mesmo de forma estranha, era forte demais para ser rompida ou, simplesmente, corrompida, por qualquer coisa que fosse. Por algum motivo, ela sentia que, um dia ou outro, o teria novamente ao seu lado, mesmo que demorasse.
Ariadne nem pensou em trabalho quando saiu da escola. Com a guerra em seu apogeu, ela achava que seria mais útil se ficasse vinte e quatro horas por dia a disposição de Dumbledore, participando da Ordem da Fênix, muito embora essa integridade tendo tido que esperar algum tempo. Além disso, Arktos não foi nenhum ignorante em questões econômicas, sabendo aplicar devidamente a herança que seus pais deixaram, proporcionando uma vida confortável para ambos. Junto de poucos bruxos, entre eles Remus, Ariadne traçava táticas para pegar os Comensais desprevenidos ou então atacá-los, quando se sabiam de um ponto de concentração e, embora fosse muito boa no que fazia, sempre dava um jeito de participar da ação, que ela achava mais empolgante. Além disso, destruir o exército de Voldemort era como fazer justiça a Arktos, além também de querer ter a certeza de que os planos fossem seguidos e não falhassem, embora uma improvisação sempre saísse melhor em algumas ocasiões.
Porém, a guerra acabou e Voldemort caiu. Mas, com ele, levou as pessoas que Ariadne mais amou em sua vida. Ainda em vida, levou Arktos, mas na queda, ele levou Lily e James Potter, além de, para ela, ter feito de Sirius Black um traidor. Por sua queda, Alice e Frank Longbottom foram torturados até a loucura, levando, de uma vez por todas, qualquer resquício de felicidade que ela ainda tinha. E embora Severus tivesse abandonado Voldemort, e Remus continuasse vivo, ela se sentia tão perdida que não conseguia sequer ter a esperança de viver como antes, como muitos que perderam pessoas na guerra.
Então, não suportando continuar na Inglaterra e vendo todos os dias a tristeza frente a frente, resolveu viver em outro lugar. Além disso, também tinha a necessidade quase gritante, porém ainda desentendida, de descobrir mais sobre seus parentes da Grécia. Despediu-se apenas de Remus e Snape, por carta e, embora o conteúdo delas não fossem iguais num todo, continham o mesmo ar melancólico da despedida, além de não terem a data de sua volta.
Ariadne, a princípio, decidiu-se mudar para a França, pois, independentemente do que houve em seu passado, sempre adorou aquele lugar. Depois de um tempo, sentiu-se obrigada a continuar sua viagem, começando pela Grécia continental, para depois continuar por praticamente toda Europa Oriental, além da China. Sua vida podia ser resumida apenas em pesquisas, pois raramente voltava para a França, onde ainda tinha assuntos pendentes; sendo as pesquisas todo o tipo de Arte das Trevas. Um tempo depois foi para a Romênia, mais precisamente na região da Transilvânia. Encontrou, e soube de alguns de seus parentes paternos, mas não se apresentou para nenhum. E foi quando esteve na Transilvânia que conheceu Charlie Weasley.
Ele estava naquele lugar, pois um de seus amigos criadores de dragões disse que queria conhecer o tão famoso castelo de Conde Drácula. Não o que ficava em Sighişoara, mas o que ficava cerca de vinte quilômetros da cidade, considerado a “casa de férias” do Conde, pois o da cidade era o ponto turístico dos trouxas, enquanto o afastado, podia-se dizer que era o turismo de bruxos desavisados. Então, Charlie foi com ele e mais dois amigos que, assim como o ruivo, eram céticos em relação à lenda do castelo, afinal, o rapaz tinha um vampiro no sótão de sua casa, n’A Toca. Aquele castelo era uma lenda para os bruxos, assim como o da cidade eram também para os trouxas, embora fosse mais fácil atrair os trouxas, do que os bruxos.
O que eles nem chegaram a cogitar era que as lendas sempre nascem de fatos. Fatos antigos e às vezes aumentados, mas que não deixavam de ser fatos.
E foi com assombro que se viram acolhidos por quatro mulheres incrivelmente belas, mas que tinham os caninos bem maiores que o normal, além do fato de estarem usando vestidos finos como seda, mesmo com o gelado inverno. Elas pareciam deslizar em suas direções e tinham uma feição, no mínimo, predatória. Ainda tentaram impedir um possível ataque, o que elas mostraram determinadas a fazer quando já os alcançavam, lançando todo tipo de feitiços que conheciam. No entanto, elas pareciam feitas de fumaça, pois, mal desapareciam de um lugar, apareciam em outro, deixando realmente uma fumaça pútrida no ar quando, o que parecia indicar, aparatavam.
Quando elas conseguiram finalmente desarmá-los, embora nenhum deles soubesse como, prenderam-nos no chão, como se estivessem com os pés grudados no solo, além de também mantê-los quase hipnotizados, pois eles não conseguiam desviar o olhar para nenhum lugar que fossem os delas. E, quando eles se viram naquela situação, creram ardentemente que os vampiros das histórias realmente existiam e que eles seriam o alimento e diversão delas naquele dia.
Porém, sem mais nem menos, as mulheres voltaram para o castelo, soltando gritos esganiçados e protestantes. Eles não entenderam por que, afinal, o dia continuava nublado e, como as histórias contavam, não havia sol impedindo-as de continuar a ficar ao ar livre. Além disso, a mesma fumaça que elas pareciam soltar quando supostamente aparatavam, começou a sair de seus corpos sem mais nem menos.
Nenhum deles pareceu notar também que uma mulher se aproximava e, pelas suas feições, parecia achar que aqueles homens estivessem fazendo a pior coisa que poderia existir. Sem que nenhum deles ainda notasse, ela retirou a varinha que estava presa à sua cintura, fazendo alguns movimentos na direção dos homens. Quando eles pareciam voltar a si, ela devolveu a varinha para o bolso da capa, puxando esta para proteger seu corpo.
- Meu Deus! Isso foi mesmo real? - perguntou um moreno que devia ter cerca de dois metros de altura.
Ariadne o olhou e alguma coisa gritou em sua mente, afirmando que fora aquele imbecil que tivera a brilhante idéia de ir “visitar” o castelo de Conde Drácula. Com certeza era filho de trouxas. Concentrou-se apenas um pouco para ter a certeza de suas suspeitas.
- Vocês, filhos de trouxas, têm sempre que ser tão... trouxas? - falou incrivelmente irritada. - Parece que nunca vão ver magia suficiente na vida!
Os quatro a olharam, mas ela não daria margem para uma discussão. Não naquele lugar.
- Acho melhor sairmos daqui, antes que elas tragam companhia.
E começou a andar, descendo o morro que o castelo ficava. Porém, mal deu dez passos, teve que olhar para trás, e o que viu só fez sua irritação aumentar, junto com a certeza de que aqueles quatro eram um bando de idiotas.
- O que vocês ainda estão fazendo aí? Já falei para sairmos da propriedade. O que vocês têm na cabeça? Cérebro de trasgo? - E, sem esperar por mais ninguém, voltou a andar.
Andaram por cerca de cinco minutos, até que o homem alto resolveu quebrar o silêncio que se instalara entre eles, mas falando um pouco mais alto que o necessário, pelo menos para Ariadne.
- Hei? Qual é a sua, garota? - Ariadne, porém, não respondeu, o que irritou o homem, fazendo-o apressar o passo e ficar lado a lado com ela. - Posso saber por que você nos ofendeu lá em cima?
Ela o encarou por um momento sem parar de andar e, mesmo com o homem sendo o dobro de seu tamanho, não se intimidou. Voltando a olhar para frente, falou:
- Aposto que acharam que seria uma ótima opção de férias vir visitar o Castelo do Conde Drácula. Aposto também que o imbecil que teve essa tão estupenda idéia está ao meu lado. - E olhou-o novamente, com sarcasmo.
O homem diminuiu a velocidade dos passos por um momento, mas se recuperou, ficando novamente ao lado de Ariadne.
- E eu posso saber o motivo de tanta irritação, garota?
- Marcus - falou um dos rapazes loiros que estavam ao lado de Charlie, deixando claro em seu tom de voz a vontade do amigo parar com a implicância.
- Não, Eliot, deixe-a responder minha pergunta - Marcus retorquiu sem desviar seu olhar do de Ariadne. - Então, garota, por que tanta irritação?
Tinham acabado de chegar ao fim do pequeno morro, numa estradinha de terra que levava, há menos de cem metros, a um vilarejo. Ainda irritada, mas controlando-se para não espancar aquele idiota para que algo de útil entrasse em sua cabeça, Ariadne virou-se para o tal de Marcus e o encarou ferozmente, como se desejasse que seu olhar o carbonizasse em dois segundos.
- Primeiro: eu não sou uma garotinha desta cidade ou uma guia turística, que é o que vocês estão pensando. Segundo: se eu não tivesse chegado àquela hora, vocês teriam virado, literalmente, comida de vampiro, pois como vocês perceberam, eles são bem reais.
À medida que falava, Ariadne olhava para cada um intensamente, sendo que cada palavra parecia sair cuspida de sua boca, como se falar aquilo fosse o fim, e seus ouvintes, um bando de crianças pegas na pior das travessuras.
- E terceiro - completou, mas, agora, com um meio sorriso, claramente zombeteiro, no rosto: - não precisam agradecer. - E aparatou.
Todos os quatro ficaram, literalmente, de queixo caído, afinal, para eles, ela realmente parecia uma garota que não passava dos dezoito anos, mas com uma língua incrivelmente afiada. De repente, o outro homem loiro começou a rir, no que os outros o olharam sem entender nada.
- Aêh, Marcus, levou o maior pito da tampinha, hein? - falou ainda rindo, fazendo os outros amigos, exceto o próprio Marcus, rirem junto, pois este ficou mais emburrado do que já estava.
- Cale a boca, John.
- Vamos para a cidade, gente - falou Charlie em meio às risadas, afinal, por mais que fosse divertido tirar uma da cara do amigo, não seria inteligente ficar tão perto assim daquela propriedade, além de não estar a fim de assistir a mais uma discussão de Marcus e John, como sempre acontecia.
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Eles ainda viram Ariadne naquela noite, quando foram a um pub da cidade. Depois que pagaram a conta, Eliot sugeriu que fossem agradecer devidamente à mulher, mesmo não tendo idéia de como ela os ajudara. Já Marcus, que ainda não engolira a irritação de Ariadne, pediu ao amigo que agradecesse por ele, enquanto esperava do lado de fora. Então, Charlie e John, acompanhando Eliot, foram até a mesa de Ariadne, que parecia alheia a tudo em sua volta.
- Ah... - Ele pigarreou - Com licença?
Ariadne arqueou as sobrancelhas, olhando com uma expressão entediada para os três homens à sua frente, voltando o copo, que estava há meio caminho de seus lábios, para a mesa.
- Sim?
Eliot olhou para os dois amigos, mas nenhum parecia com vontade de falar, então, continuou.
- É que nós gostaríamos, bem, de agradecer por ter nos ajudado lá em cima.
- Sem problemas. E se seu amigo grandão não veio, é porque ele se lembra do que falei, então, ele também deve se lembrar que falei que não precisavam agradecer.
- Ah... ’Tá certo, então - falou John, começando a sair do pub. “Que garota esquisita”, pensou.
Ariadne ficou olhando para Charlie e Eliot, que ainda estavam ao lado de sua mesa. Até que, também se despedindo, saíram do pub.
Apenas cerca de meia hora depois, foi que Ariadne saiu do pub e, quando o fez, foi surpreendida por alguém, e ao ver quem era não segurou um revirar de olhos.
- Já falei que não quero que agradeçam - falou, começando a descer a rua.
- Não vim para isso.
Ela parou e em seguida virou-se para o homem. Olhou-o de cima a baixo, dando um risinho malicioso em seguida.
- Também não vai ter o que está pensando. - E voltou a andar.
- O que...? Ah, não! Eu só queria te perguntar uma coisa.
Ela parou novamente e, gesticulando levemente, mas de maneira irritada, perguntou:
- Escuta aqui... ah...
- Charlie. Charlie Weasley.
Se Charlie realmente conhecesse Ariadne, teria percebido um brilho de reconhecimento em seus olhos. Mas, além de não conhecê-la realmente, ele só não o percebeu por este ter aparecido rápido demais.
- Escute aqui, Charlie Weasley, por que você acha que vou me prestar a responder alguma coisa a você?
- Sei lá... Mas eu só queria saber por que aquelas mulheres te obedeceram.
- Não é da sua conta - falou de maneira cortante.
- Você é como elas, não é? - perguntou com um sorriso triunfante, mas que morreu rapidamente quando Ariadne voltou a encará-lo de maneira ferina e se aproximando de maneira ameaçadora.
- Nunca, entendeu, nunca me compare àquelas zumbis carniceiras. - E, literalmente, desapareceu.
Dois dias depois, Charlie encontrou Ariadne novamente. Ela estava no mesmo lugar que a vira pela primeira vez, na propriedade de Conde Drácula, e parecia muito centrada em olhar a casa. Sem fazer barulho algum, aproximou-se, ficando apenas alguns centímetros de distância, logo atrás.
- Desculpe-me - ele falou um tempo depois e Ariadne pareceu levar um susto, pois o olhou, mesmo que por míseros segundos, com os olhos arregalados. Mas logo uma feição irritada lhe tomou conta e, quando falou, sua voz estava calma:
- Qual é o seu problema? - perguntou, voltando a encarar o castelo.
- Eu não gosto de deixar assuntos inacabados, além de impressões erradas.
- Não temos nenhum assunto inacabado, Weasley, e você não me causou impressão alguma.
- Mas eu acho que sim.
Ela o encarou num misto de confusão e raiva.
- Qual é o seu problema? - insistiu.
- Eu já disse. Não queria que você pensasse que eu era apenas um mané curioso e que, por algum motivo, se acha superior.
- E por que eu pensaria isso? - perguntou num tom de zombaria.
Ele a olhou com as sobrancelhas levantadas.
- Depois do que presenciei àquele dia, tive certeza de que os vampiros não se limitam ao tipo que existe no sótão da minha casa e no livro Animais Fantásticos.
- Que emocionante - falou Ariadne, embora não sentisse um décimo da emoção que falara.
- Além disso - Charlie continuou como se ela não tivesse falado nada -, eles são como os lobisomens. - E a olhou. - Nem todos são ruins.
Ariadne prendeu a respiração por um tempo, até que voltou a olhar para o castelo.
- Não faço a menor idéia do que está falando.
- Faça como quiser - disse dando de ombros.
Em seguida fez-se silêncio, com ambos encarando o castelo, embora apenas Charlie o olhasse realmente interessado. Já Ariadne pensava no que acabara de ouvir.
- Fui eu, sim - ela falou por fim, mas sem olhá-lo.
- Eu sei, embora não saiba como.
- Isso você demorará saber... ou talvez nunca saiba.
- Fazer o que, não é? Não se pode ter tudo na vida. - E a olhou com um sorriso. - Então? O que acha de descermos até aquele pub de novo e beber alguma coisa?
A princípio, Ariadne pensou em negar, mas, por algum motivo que não queria enxergar, acabou aceitando. Só depois ela foi admitir que, o que realmente precisava, era de um amigo, pois fazia anos que não ficava na companhia de um. E se o destino colocara outro Weasley em sua vida, ela não iria desperdiçar essa oportunidade, mesmo que sua mente gritasse para fazer o contrário.
Desde aquele dia, Ariadne e Charlie se viam sempre que o possível, conversando sobre todo o tipo de coisa, até que Ariadne começou a contar praticamente tudo sobre sua vida, assim como o rapaz, o que fez uma verdadeira e sólida amizade crescer. E, se fosse pensar num termo comparativo, podia-se dizer que Charlie Weasley era a única pessoa que a conhecia verdadeiramente, tanto quanto Severus Snape.
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O sol mal acabara de nascer, Harry Potter já se encontrava acordado em sua cama. Aquele era o “grande dia”, podia-se dizer, pois, finalmente, se veria livre dos Dursley.
Desde que chegara de Hogwarts, ele contava cada hora que passava e que, literalmente, ficaria em seu passado, afinal, no que dependesse dele, nunca mais colocaria os pés na Rua dos Alfeneiros, número quatro.
Suas coisas já estavam todas arrumadas para quando os Weasley fossem buscá-lo, tendo no malão apenas seu material de Hogwarts e as poucas roupas decentes que ele comprara, quando fora ao Beco Diagonal nos dois últimos verões. Ou seja, tudo o que era realmente dele, pois o que lhe desse qualquer referência aos Dursley, ficaria para trás. Não fazia idéia de como o buscariam, embora pensasse que, provavelmente, seria pela lareira, que seria mais rápido e seguro, assim como foi quando o buscaram para ver a Copa Mundial de Quadribol.
Uma feição sombria tomou conta de seu rosto ao pensar na Copa, pois, conseqüentemente, pensou nos Comensais da Morte que deram o ar da graça naquela noite, o que fez pensar em Sirius e Dumbledore. Ele conseguira superar a morte dos dois homens que tanto estimava, mas a tristeza ainda era incalculável, principalmente por não poder contar com ninguém enquanto estava na casa dos tios, para um mínimo desabafo. Claro que ele trocara cartas com Ron e Hermione, mas não era a mesma coisa. Uma coisa dessas não dava para ser falado por cartas.
Balançando a cabeça como se isso fizesse todas as lembranças ruins esvaírem-se, Harry levantou da cama e foi até a gaiola de Hedwig, que dormia tranquilamente. Ela estivera toda a noite fora, caçando. Os Dursley bem que tentaram prender o animal na gaiola, como faziam todos os verões, mas Harry fora bem categórico, dizendo que nem seus materiais e vassoura, muito menos Hedwig, ficariam presos em qualquer lugar que fosse.
A princípio, tio Vernon ficou com o rosto na cor púrpura, enquanto tia Petunia torcia o nariz, mas nenhum dos dois contestou ao ver uma determinação nos olhos do sobrinho, como nunca viram antes. Afinal, pensaram, vai que dá a louca no sobrinho e ele os transformam em algo horripilante? Claro que Harry não faria algo assim, mesmo com uma vozinha sádica em sua mente dizendo para fazê-lo. Mas ele sabia que não valeria a pena usar magia contra os tios, pois não era covarde. Se bem que com o primo seria diferente, mas só em ver a cara de Dudley assustado já era o necessário.
Acariciou de leve Hedwig para não acordá-la e saiu do quarto. Foi até a cozinha onde tia Petunia terminava de preparar o café e, sem dizer nada, abriu a geladeira, retirando a garrafa de leite. Serviu-se num copo para depois pegar um pedaço de pão e subir para o quarto, surpreendendo-se pela tia não ter dito nada, mas quem era ele para reclamar?
Ficou esperando os Weasley o tempo todo no quarto, às vezes escutando quando alguém passava por ele. Quando era tio Vernon, as passadas eram largas e pesadas, quando era tia Petunia, eram curtas e apressadas. Ambos reclamavam, em alto e bom som para Harry escutar, o quão felizes estavam pelo sobrinho ir embora. E, mais uma vez, quem era ele para reclamar? Finalmente deixaria os trouxas dos Dursley e viveria sua vida, como sempre quisera. Harry percebeu também que Dudley nem passara pelo seu quarto, e este sim estava entre feliz e temeroso pelo primo ir embora. Feliz por ter seu quarto de brinquedos finalmente liberado, e temeroso por saber que ele teria maior idade e, com isso, liberdade para fazer magia.
Harry não ligava para nenhum dos Dursley enquanto esperava, tranqüilo em seu quarto, o relógio marcar dez horas e o Sr. Weasley, com a graça de Deus, tocar a campainha. E assim aconteceu, embora não sendo a campainha que tocou, e sim o som alto de alguém tropeçando na sala da casa.
“Lareira”, pensou Harry, na hora.
Rapidamente levantou da cama e, quando abriu a porta de supetão, deu de cara com o rosto púrpuro do tio Vernon, que o fuzilou com o olhar, murmurando algo como “anormais” e “minha casa”. Sem nem esperar que o tio falasse algo diretamente a ele, Harry desceu as escadas, quase tropeçando nos próprios pés e, assim que chegou à sala, viu um rapaz ruivo um pouco mais alto que ele e que também tinha a mesma idade.
- E aí, Ron, tudo bem? - perguntou divertido, pois o amigo estava todo sujo de cinzas e o cabelo estava bagunçado, além de ter uma marca vermelha na testa, indicando que a batera em algum lugar.
- Daquele jeito. Bati a cabeça na lareira - falou, bufando levemente.
Somente quando tirou todas as cinzas das roupas, sujando o tapete branquinho de tia Petunia, que Ron olhou o amigo decentemente, sorrindo em seguida.
- Beleza, Harry?
- Daquele jeito - repetiu, sorrindo.
- Ah, olá, Harry.
- Oi, Sr. Weasley. - Harry o cumprimentou, apertando a mão do Sr. Weasley.
- Suas coisas estão prontas?
Porém, Harry não respondeu a pergunta do Sr. Weasley, pois os Dursley tinham aparecido na sala. Ouviu tia Petunia soltar um lamento ao ver seu tapete coberto de fuligem, enquanto tio Vernon bufava, ainda soltando as palavras “anormais” e “minha casa” no meio de frases ininteligíveis.
- Ah, bom dia, Senhor e Senhora Dursley! - falou o Sr. Weasley todo animado e esticando a mão para cumprimentá-los, mas os Dursley se encolheram, rejeitando sem pudor a mão esticada do Sr. Weasley.
- Vá buscar suas coisas, moleque - sibilou tio Vernon.
Harry obedeceu pronta e animadamente, subindo as escadas com Ron logo atrás. Só pedia que os Dursley não destratassem o Sr. Weasley enquanto ele estivesse lá em cima, mas, pelo visto, não acontecera nada na sala, o que Harry notou quando voltou rapidamente do quarto. Desceu as escadas com Ron o ajudando com o malão, sendo que cada um segurava uma alça, enquanto na outra mão Harry carregava a gaiola vazia de Hedwig que fizera questão de ir à Toca voando.
Vendo-se despedir-se verdadeiramente do Dursley e sabendo que não voltaria mais, Harry se sentiu estranho. Não que ele quisesse ficar, pelo contrário, era que, depois de dezesseis anos convivendo com eles, mesmo que penosamente, não deixava de ser estranho acordar e não ver a cara de cavalo da tia, ou as caras de porco que o tio e Dudley tinham.
- Então... ah... é isso. Nos vemos por aí. Talvez. Quem sabe... - falou sem encará-los no final.
Dando de ombros, foi até o Sr. Weasley e pegou um pouco de Pó de Flu.
- Adeus, Dursley - falou sem emoção alguma, para depois jogar o pó na lareira e entrar nela, dizendo claramente A Toca.
Somente quando sentiu o cheiro inconfundível da deliciosa comida da Sra. Weasley, ao mesmo tempo em que ouvia a voz de Ginny gritando que não encontrava uma saia e o barulhento vampiro no sótão dos Weasley, que Harry pôde finalmente sentir-se em casa.
- Seja bem-vindo, cara - ouviu Ron dizer ao seu lado, enquanto colocava a mão em seu ombro.
Sim. Ele se sentia em casa, não havia como ser diferente.
Assim que a Sra. Weasley desceu as escadas, a primeira coisa que fez foi abrir seu enorme e carinhoso sorriso e abraçar Harry.
- Oh, Harry, querido, como você está?
- Estou bem, Sra. Weasley, obrigado.
- Mas não vai ficar por muito tempo, mamãe, se continuar o sufocando desse jeito.
A Sra. Weasley soltou Harry, notando-a um pouco irritada com Bill, que falara aquilo, mas o outro não estava nem ligando.
- E aí, Harry, tudo bem? - cumprimentou Bill, esticando a mão, que Harry aceitou na hora.
- Tudo. E como você está... ah...com...
Harry se viu muito constrangido em perguntar como o irmão de Ron estava, por causa do ataque que ele sofrera, em Hogwarts, pelo lobisomem Fenrir Greyback. Claro que ele queria saber como o irmão do amigo estava, mas ao ver-se perguntando, sentiu um constrangimento estranho, como se estivesse sendo incrivelmente inoportuno.
- Ah, tudo certo - falou Bill calmamente. Harry não soube distinguir se ele falara com sinceridade ou se estava apenas tentando deixá-lo à vontade. Preferiu acreditar nas duas opções de uma vez.
- Ron, querido, por que não ajuda o Harry com as coisas dele?
- Claro, mamãe. Vamos, cara.
Então os dois subiram em direção ao quarto do amigo, com Harry ainda praguejando-se, afinal, ainda se sentia constrangido pela pergunta que fizera a Bill.
“Quanta educação!”, pensou com sarcasmo.
Porém, qualquer sentimento e pensamento que ainda estava em sua cabeça, esvaíram-se por completo enquanto andava pelo corredor que tinha o quarto de Ginny, onde tinham que passar para depois subirem mais um par de escadas e chegar ao de Ron.
Parecia até aquelas cenas de filme que passavam em câmera lenta. Ginny saía de seu quarto, passando a mão na blusa que vestia, como se estivesse tirando alguns pontos amarrotados, embora não tivesse nenhum. A blusa era uma bata branca com alças fininhas e era cheia de pequeninas flores rosa, sendo que o busto era todo branco. Ela também usava uma saia jeans que ia até o meio das coxas e uma sandália de salto baixo, também branca, além dos cabelos dela estarem soltos, caindo como uma cascata ondulada por suas costas.
Harry nem percebera que parara de andar e respirar e a olhava de cima a baixo, com a boca ligeiramente aberta. Claro que ela não estava deslumbrante, mas para ele, um garoto apaixonado, ela estava incrivelmente perfeita na sua beleza singela e quase etérea.
Ginny escutara vozes vindas da cozinha e tinha certeza que era Harry chegando, então se apressou em sair do quarto, mesmo não terminando de se arrumar por completo, mas não sabia que teria uma ótima visão quando saísse dele. Ver Harry à sua frente, a olhando de forma abobada, a fez ruborizar, mas não quebrou o contato de seus olhos com os dele. E, para ela, ele também estava incrivelmente lindo, afinal, ele não estava vestido com as roupas que sempre vinha, quando saía da casa dos Dursley nos outros verões. Ao contrário das outras vezes, ele usava uma calça jeans e uma camiseta vermelha que eram exatamente do seu tamanho, e não o dobro.
Com certeza, se não fosse Ron, eles ficariam paralisados, ou então estariam mais que dispostos a matar as saudades. Mas Deus colocou Ron no mundo, junto da sua indiscrição, mas que, às vezes, era necessária.
- Hei, Harry, vamos logo, cara, isto daqui ’tá pesado. E Ginny, o Bill já chegou. - E deu um puxão no malão, fazendo Harry dar alguns passos incertos e voltar a andar, mas ainda olhava Ginny, que lhe sorria timidamente.
Eles não disseram nada um ao outro, pelo menos não com palavras, pois o olhar de cada um parecia gritar a saudade e a vontade de se abraçarem e se beijarem. Mas, depois do que conversaram no começo do verão, Harry não poderia fazer uma coisa dessas com Ginny. Seria muita tortura. Para ambos. Com uma última troca de olhar e sorrisos, Harry saiu da vista da garota, subindo os degraus que levavam ao quarto de Ron.
Ginny suspirou bobamente quando Harry saiu do seu campo de visão, e encostou-se ao batente da porta. Deus, como gostaria de abraçá-lo, beijá-lo, matar a saudade que ainda a matava por dentro! Mas isso seria torturar-se demais, pois, por mais que não queria, a conversa que tiveram no enterro de Dumbledore também continuava mais do que clara em sua mente. Com outro suspiro, porém resignado, ela entrou em seu quarto, pegando uma jaqueta e jogando-a dobrado sobre o braço, e após apanhar sua varinha, desceu até a cozinha.
- Vamos? - perguntou a Bill, quando chegou.
- Sim, senhorita! - ele falou muito animado. Pegou a jaqueta dos braços da irmã e a ajudou a colocá-la.
- Como nós vamos?
- Vou aparatar com você, porque não seria legal chegar toda suja de cinzas para provar o vestido, não é?
Ginny fez uma careta, mas não soube se era pelo simples fato de aparatar - o qual ela já fizera uma vez e que achara um pouco desconfortável - ou então a tortura de ir experimentar seu vestido para o casamento, pois seria dama de honra. E o fato de ter uma Fleur muito intragável dando palpites enojantes sobre o vestido, era para acabar com a paciência de qualquer um. Realmente não fazia idéia de como o irmão se apaixonara por aquela fleuma.
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N/A: Capítulo postado com os esclarecimentos sobre a nova personagem, e um pouquinho de H/G... E amém! O Harry deixou a casa daqueles trouxas! rsrs... (Eca!!)
Gostaria de agradecer a Pedro Henrique, nara, Dani Gente Boa, Kenia, Larissa Dias e Marta B.S. por terem começado a ler esta fic, agora revisada e editada.
Aos queridos leitores que deixaram seus comentários sobre o Epílogo postado primeiramente: vocês não fazem idéia do quão emocionada e maravilhada eu fiquei por ler seus comentários. Encheu meu coração de alegria! Beijos a todos.
(resposta aos comentários da primeira edição)
Paty: oi, querida!!! Você, má? De onde tirou isso??? Mas não fica com pena da Tonks, não. É só amizade.. - vira pro lado e assovia descaradamente - brincadeira..rs.. Mas o que você queria? Muita saudade, né! Super beijo!!
Priscila: então, a Ari ainda é misteriosa?rsrs... E quanto ao clima, bem, só amigos! Que povo malicioso! Tudo isso foi saudades, tá!hehe.. O que é da Ari, tá guardado, e bem guardado... E quanto ao Charlie: ele vai ter sua importância por aqui... Beijão!!
Georgea: obrigada pelo elogia, querida! Muita dó dela mesmo, mas a morte dela tem um bom motivo e, bem, posso dizer que o bebê não ficou sozinho..rs.. E você viu que meninas mais ciumentas?? Acho que serei obrigada a colocar um pouquinho de R/T..rsrs.. Gostou do Carlinhos nesse capítulo? Eu adoro o humor Weasley e talvez esse humor esteja bem presente nos próximos capítulos também.. e quanto às NC’s, bem, a paciência é um dom maravilhoso! :-D Beijão, mana!!!
Sally Owens: querida, obrigada pelo elogio!!! E você está certa em esperar terror, mistérios e otras cosas más... rsrs... Espero que tenha gostado do capítulo! Beijão!!
Sophia.DiLUA: obrigada, querida! Espero que tenha gostado do primeiro capítulo também. Bjo.
Osmar Fogaça: bem, aí está o primeiro capítulo e com algumas respostas, mas pode ter certeza que os mistérios não param por aqui. Espero que tenha gostado do capítulo. Bjo.
Michelle Granger: oi, querida! Muito obrigada!!! Espero que tenha gostado do Primeiro capítulo também. Beijos!!
Beijos a todos,
Livinha