Lúthien se levantou. Parecia um pouco ansioso. Caminhou em silêncio e parou ao lado de Glóin que ainda bufava olhando para Findecánon. Pousou sua mão sobre o ombro do anão, virou-se lentamente para os jovens bruxos e começou.
-Dentre os presentes, somente eu e Glóin vivenciamos os acontecimentos desde seu início. – Com um sorriso discreto, corrigiu-se. – Não. Esse conflito data do início dos tempos, talvez até mesmo da criação do mundo nas vozes dos grandes, dos Ainur, inspirados pela Chama Imperecível de Illúvatar...
“A Música Magnífica da Criação do Mundo já trazia em suas notas o passado, o presente e o futuro. Nossas disputas já eram previstas, mas não significa que sejam encorajadas. As notas ainda ecoam e cabe somente a nós escolher a qual delas queremos ouvir. O destino é certo e imutável, mas o caminho não é único.”
“Nós, os Elfos, fomos os primeiros. Somos os Primogênitos de Illúvatar e conhecidos com os eldar. Quando chegou o momento dos Sucessores chegarem a Arda, como chamamos essa terra onde todos nós vivemos hoje, coube aos Primogênitos lhes ensinar o cultivo da terra, o valor das letras, da arte...”
“Passamos juntos por muitas dificuldades, as quais aumentaram e, algumas vezes, diminuíram nossos laços de afeto. Talvez, a maior delas tenha sido a guerra contra Mordor, ou melhor, contra o Senhor do Escuro, contra Sauron. Foi neste momento que compreendemos a essência dos Segundos, como os Homens também são chamados. Vimos tanto a grandeza que seus corações podem alcançar quanto as fraquezas mais perturbadoras. Sofremos a tristeza de vê-los falhar e nos alegramos com a chance que receberam de crescer quando o Grande olho de Fogo finalmente caiu, graças a ajuda de um outro grande povo da Terra-Média. Grandes no coração e felizes na simplicidade das coisas.”
“Foi uma lição primorosa para todos nós: Elfos, Anões e Homens. Os Pequenos, como os Hobbits também são conhecidos por aqui, mostraram o valor e o poder da amizade, do caráter e da coragem, apesar de terem sido, e serem ainda, um povo de paz.”
“Precisamos de quatro Hobbits que jamais souberam o significado da palavra guerra para nos ensinarem como vencer uma. Mas, infelizmente, nem todos aprenderam...”
“Chegou, então, o momento em que precisávamos deixar Arda para os Homens e retornar a Valinor, onde nosso povo viveu e vive entre os Valar, na grande cidade de Valimar.”
“E nossa última embarcação partiu...”
“Ou pelo menos assim se fez acreditar aos olhos dos Sucessores. Amávamos demais essa terra, demos a ela muito mais que nosso sangue ou suor. Demos nossa alma a transformando e protegendo. Não podíamos simplesmente abandoná-la! Pedimos, sob lágrimas de muita saudade, que os Valares nos permitissem retornar. Os anos se passaram, décadas e ao fim de um século, quando Illúvatar mostrou novamente a Visão da Música Magnífica à Manwë, obtivemos a permissão. Apesar de nenhum dos Valares exigir que ficássemos isolados dos Homens, nós nos comprometemos a isso entre nós mesmos, pois sabíamos que o nosso tempo em Arda já havia se acabado.”
“Somente um dos Valar, Oromë, levantou-se contra dizendo que não nos saciaríamos tendo apenas uma parte de Arda para nós.”
“Em nossa ânsia e alegria por voltar, ignoramos seu aviso. Criamos, com o poder de nosso povo e reforçado pelos Valares, um escudo separando nosso mundo, aqui na terra, do de vocês. Chamamos esta terra de Talath Lend.”
“Mas Ulmo, Senhor das Águas e Aulë, Senhor da Terra, ferreiro entre os Valares, nos fizeram um pedido. Uma exigência.”
“Que cada clã ficasse responsável por uma passagem que ligaria nosso território ao dos Homens. Nenhum dos Sucessores poderia entrar sozinho graças às nossas proteções, mas até Tári retornar, jamais havíamos imaginado que um Homem poderia entrar, mesmo sendo acompanhado por um de nós.”
“A nós, uniram-se outros seres da Terra Média que decidiram deixar Arda de uma vez por todas aos Sucessores. Grande parte dos Anões, todos os Hobbits, Trolls, Mearas, Pastores de Árvores, e muitos outros seres que desapareceram do convívio dos Homens. Algumas raças de Dragões somente existem aqui, assim como de muitos outros seres considerados, por vocês, mitológicos.”
“Vivemos em paz durante muitos séculos, milênios, felizes por nosso desejo de retornar ter sido realizado. Porém, vivemos apenas em uma parte da Terra que outrora amamos e povoamos, e começamos a sentir falta de todo o resto.”
“Somente neste momento, lembramos da previsão de Oromë. Ignoramos seu aviso como filhos teimosos fazem com seus pais. Jamais poderíamos imaginar que entre nós nasceria um sentimento tão humano quanto a ambição. A convivência com os Homens havia sido grande demais, talvez maior que a esperada pelos Valar. Começamos, então, a desejar ver o resto de Arda, nem que fossemos escondidos.”
“Pedimos com o coração saudoso a Ulmo que nos permitisse utilizar as passagens. Pedimos sua permissão e proteção, e ele nos atendeu mais uma vez.”
“Sob seu manto, que impedia os Homens de nos ver, saímos de Talath Lend e caminhamos mais uma vez, livres sobre a Terra-Média.”
“Mas o pânico nos tomou. Meu pai conta que jamais se sentira tão impotente ou revoltado. Sabia que nosso povo não poderia interferir, mas ele não conseguia conter a raiva que crescia dentro de si e, quando viu o corpo de crianças e mulheres sangrarem pregadas pelos pulsos e pés à cruzes de madeira ou ainda balançando molemente pendurados por uma corda amarrada ao pescoço sob ordens dos próprios Homens, ele temeu pelo destino de Arda pela primeira vez.”
“Se Ulmo não estivesse lá para contê-los, ele não poderia prever o que aconteceria. Os espectadores daquelas cenas doentias rugiam em alegria e vibravam pela excitação que as mortes macabras lhes causavam... Puniam com torturas almas inocentes em nome do Criador! Como Illúvatar podia permitir tal afronta?”
“Os Elfos foram arrastados de volta pela força do Valar, lembrando-lhes que os Segundos eram responsáveis pelos próprios atos e que Arda agora era deles. Eles ainda tinham muito que aprender.”
“Meu pai, assim como muitos outros, compreendeu as palavras de Ulmo, mas havia aqueles que ficaram transtornados. A semente da discórdia - da dúvida - havia sido plantada.”
“Muitos anos se passaram desde que revimos nossos irmãos de criação, e muita discussão ocorreu envolvendo mais algumas gerações de elfos. Até que pela primeira vez ouvimos um murmúrio de lamento alto demais para nossos ouvidos, vindo dos limites de nosso reino. Os Pastores de Árvores choraram e a tristeza e revolta que ouvíamos trazidos pelo vento, fizeram nossos corações congelarem por instantes. Arda gritava por nós. Foi neste momento que entendemos o motivo pelo qual tínhamos que ter deixado a Terra-Média. Jamais deveríamos ter insistido em voltar.”
“A razão sempre superou os impulsos do coração entre os Elfos. É uma característica de nosso povo e uma das maiores diferenças com relação aos Homens. Como já mencionei, a convivência com os Segundos fora longa demais e talvez nós, os que retornaram, tivéssemos sido os mais influenciados.”
“Então, a Revolta começou e boa parte de nosso povo se esqueceu que éramos povos irmãos.”
“Nessa época, as passagens começaram a ser usadas diariamente. Nós, os Conservadores - que seguíamos as recomendações dos Valares - íamos até a terra dos homens para impedir que os revoltosos agissem em nome da vingança, e muitas vezes, do ciúme.”
“Então, há quase 1000 anos, o filho mais velho de Dorthonion, Amrod - o primogênito de Fëfalas - atravessou a passagem com um exército de 2500 elfos, e eles caminharam para a primeira tentativa da Invasão.”
“E é aqui que eu e o mestre Glóin entramos.”
“Contra todas as expectativas, uma parcela significativa dos Anões concordava com a posição de Fëfalas e para nosso desespero aliou-se aos revoltosos.”
“Claro que já sabíamos que a invasão era iminente, e que não seriam esses 2500 que iriam subjugar todos os Homens. Mas precisávamos detê-los.”
“Fizemos uma grande aliança entre os clãs élficos conservadores e quando houve a adesão de uma parte dos anões ao movimento dos revoltosos, a parcela conservadora deles fizera também uma aliança entre si. O Senhor da Aliança Élfica Conservadora era Maeglin, pai de Silmarwen, Senhor de Balan na época. E o Senhor da Aliança Conservadora dos Anões era, e ainda o é, Glóin, filho de Bonbur.”
“Eu ainda não havia sido nomeado Senhor de Mithlien. Ainda passava pelos últimos testes quando meu pai me chamou e colocou em meus ombros a responsabilidade de comandar o exército da Aliança.”
“Atravessamos a passagem em um número considerável, ultrapassávamos 5000 elfos. Não foi difícil contê-los, o problema maior foi encontrá-los sem sermos notados. Levamos dois meses para isso, prendemos todos e voltamos sem nenhum ferido. Mas assim que atravessamos, vimos porque havia sido tão fácil detê-los. Os revoltosos haviam deixado o maior contingente nas nossas terras, desejando nos subjugar rapidamente.”
“Essa foi a nossa Primeira Grande Guerra e durou aproximadamente 600 anos, com poucos momentos de trégua, algumas tentativas de paz e muitas, muitas lágrimas. Foi nessa época que Tári nasceu, poucos anos depois do fim da primeira guerra.”
“Vivemos os cem anos seguintes em paz.”
“Tári foi criada junto com seus dois primos, Camthalion e Lólindir. Quando jovens, eram muito amigos, viviam nos dando trabalho enquanto se envolviam em todas as artes que eu achava impossível minha filha, ou mesmo uma elfa se meter.”
“A amizade dos três acalmava meu coração que havia tremido ao segurá-la pela primeira vez e ver seus olhos ímpares. As íris incolores era um sinal, um presságio ao qual só comecei a dar atenção quando Gilraen, minha esposa, previu um futuro estranho e confuso. Suas noites de sono eram agitadas e conseqüentemente, passou a sofrer de insônia. Eu não possuo o dom da previsão, mas costumo tê-las em momentos de grandes mudanças e nunca são de um futuro muito distante. Logo não podia imaginar o que ela vira. Temia pelo que se passava na cabeça de minha esposa que relutava em me contar. Ela sabia que eu não saberia agir de maneira tão sensata tendo a vida de minha filha em jogo.”
“Ela conhecia os caminhos da Visão, entendia as redes do Destino e sabia que havia a necessidade de tantas tormentas. Mas ela não é a única com esse poder. Celahir, o pai de Lólindir e então Senhor de Yavëtil, também o possui. Quando minha filha nasceu, ele desejou a união de nossos clãs e previu que havia uma grande possibilidade da linha da vida de Tári unir-se à de Lólindir.”
“No entanto, ele não previu o amor de irmãos que nasceu entre os dois. Eles jamais viram um ao outro como marido e mulher.”
“Eu aceitei a resposta negativa de minha filha, mas Celahir não aceitou a de seu filho. Ele tentou usar de seus poderes para convencer Lólindir e falhou. Chegou até mesmo a usá-los sobre Tári e quando havia começado a enredar minha filha em suas armadilhas, Lólindir impediu. Celahir ficou extremamente irritado e veio a mim, antes de sair de minhas terras, dizendo que não desejava mais a amizade de Mithlien e que seu filho havia aprendido maus modos com minha filha.”
“Lólindir veio a Mithlien escondido com a ajuda de Camthalion e Tári. Ele decidira fugir, pois sua situação com seu pai ficara insustentável. Mas a partida prematura de Celahir para o Oeste o pegou desprevenido. Talvez tenha sido a mais bem feita manipulação que Celahir conseguiu, e conseguirá, fazer durante toda a sua vida. Ele conhecia Lólindir bem e, para forçá-lo a voltar, entregou Yavëtil nas mãos de seu filho mais novo, que ainda não havia sido treinado para tal.”
“Lólindir se enfureceu. Sempre desejara o poder e, de uma maneira muito particular, amava sua terra e seu povo. Seu irmão, Elwë, era incapaz como líder e deixou-se levar por algumas idéias plantadas por seu pai e por seus conselheiros como a retomada da Terra dos Homens. Celahir estava entre os elfos que visitaram os Homens junto com Ulmo e fora um dos que deixaram a emoção cegar-lhes a razão.”
“Elwë agiu exatamente como ele previra, e montou novamente uma aliança para a tão almejada invasão. Lólindir, apesar de ter convivido bastante conosco acreditava nas palavras de seu pai quanto à necessidade de fazer os Homens pagarem por sua loucura. No seu modo de ver, se os Sucessores não haviam aprendido a cuidar de Arda até agora, não aprenderiam mais.”
“As batalhas recomeçaram bastante espaçadas no começo, mas depois que Tári fugiu, ele decidiu, então, retornar a Yavëtil para tomar o lugar de Senhor Élfico que lhe era de direito. Elwë não suportou a pressão e cedeu. Lólindir o manteve ao seu lado e a dor de ter brigado com o pai lhe bateu o fazendo se aproximar mais de Elwë. Lólindir sempre foi um grande guerreiro e possui em suas veias o sangue de um líder, mas estava com o coração fraco pelo remorso e deixou que o veneno destilado diariamente pelas palavras de Elwë, que sempre invejara o irmão, lhe tomasse a razão.”
“E então, a Aliança dos Revoltosos se levantou novamente e a Segunda Guerra começou.”
“Achamos que finalmente havia sido terminada quando conseguimos capturar Lólindir, mas seus braços eram mais longos do que pensávamos. Ele possui aliados entre nós, e um deles se revelou ao levar as duas jovens mulheres de dentro de nossa fortaleza, debaixo de nossos olhos.”
“Celahir, em seu desejo de vingança, em sua mágoa, plantou no coração dos elfos muitas dúvidas: Como poderíamos acreditar que o destino dos Sucessores era o de destruir nossa terra amada depois de termos nos dedicado tanto a ela? Eles teriam escolhido o caminho mais errado e caberia a nós mostrar-lhes novamente o caminho da Luz? Isso não condiz com o que sabemos da Música Magnífica. Seriam ainda as notas dissonantes cantadas por Melkor antes do início do Mundo, Eä?”[1]
“É difícil para nós simplesmente ignorarmos os gritos de socorro que ecoam em nossas árvores. Elas sentem o temor e o ódio de suas irmãs. Quando atravessamos a passagem, sentimos pesar em nossos pulmões o ar poluído que agora os Homens respiram, o barulho repetitivo, enjoativo dos equipamentos que criam e por fim o cheiro nauseante e sufocante que suas chaminés, cada vez mais largas e mais altas, vomitam nos Céus que Manwë desenhou e pintou com tanto amor e carinho. A água límpida é escassa e não há nem mais o respeito entre as próprias famílias. A população dos Homens já é tão grande que nem reconhecem um aos outros, quanto mais como iguais, e a dor que isso nos causa é aguda, porque não foi isso que lhes ensinamos quando nasceram.”
“Eles são nossos irmãos caçulas e vemos que nossos presentes foram muitos, e eles não souberam valorizá-los porque eles vieram facilmente, vieram prontos. Os Sucessores aprenderam a dar valor ao ouro mais que os próprios Anões. Aprenderam a disputar a comida mais cruelmente que os próprios Orcs, a pensar no próprio estômago imensamente mais que os Hobbits e ao invés de aprenderem qualquer uma das qualidades dos povos élficos, resolveram ficar com o isolamento que muitas vezes ocorre entre os clãs. E pior, de maneira muito mais intensa.”
“Talvez, explicando dessa maneira, vocês, jovens bruxos, possam entender de onde surgiu essa revolta que Lólindir lidera.”
“Não se enganem, porém. Lólindir não os odeia por que são Homens. Ele não os odeia verdadeiramente, porém é perigoso porque seu coração está envenenado e sua mente vive a decepção de ter esperado que nossos irmãos seguissem nossos passos, não os de nossos inimigos. Ele se convenceu que vocês, Homens, já são incapazes de aprender ou evoluir sozinhos antes de destruir por completo toda a Arda.”
“E eu sei que vocês pensam que eu posso estar enganado quanto a isso, mas eu o vi nascer. Conheço seu coração, suas fraquezas e suas virtudes. Desejam uma prova?”
- Ele não matou Tári. – Disse Hermione quase num sussurro.
- Exatamente, minha jovem. – Continuou Lúthien com um sorriso. – Apesar da raiva que lateja em sua mente pelas escolhas que ela fez, ele ainda a ama. O ferimento que lhe causou poderia tê-la matado, mas só se ela tivesse sido deixada no campo de batalha, sem cuidados. Ele a feriu fortemente para que ela não se levantasse logo, e Camthalion, por sua vez, se detivesse para cuidar dos ferimentos dela.
- Se ele quisesse matá-la, teria lhe cortado a cabeça. – Disse Glóin secamente.
- Se ele soubesse o quão perto esteve de ser seu assassino... Provavelmente ele enlouqueceria. – Finalizou Lúthien.
O silêncio era palpável. A cabeça de Harry dava voltas, sentia dor. Era tão mais fácil odiar alguém mau de verdade. Vilões precisavam ser vilões! Não podia ser mais fácil? Por que tínhamos que ficar analisando a vida do assassino? Só para termos remorso? Era para isso que Dumbledore me mostrou o passado de Riddle? Para que eu não desejasse acabar com ele de uma vez por todas?
-Era exatamente por isso, Harry. – Disse Tári quebrando o silêncio. Ela não o encarava. Olhava para as próprias mãos, para um anel de ouro e prata colocado em seu dedo anelar esquerdo.
Lúthien olhou para sua filha com os lábios levemente distorcidos em um sorriso compreensivo. Virou-se para um dos guardas e pediu para que o jantar fosse servido. A noite estava bastante avançada e todos estavam claramente exaustos. A tensão ainda parecia com uma neblina densa dentro daquela torre, tocando cada um como o frio úmido, alcançando seus ossos.
-Creio que seja melhor continuarmos essa reunião amanhã. Estamos muito cansados, nervosos demais para ainda continuarmos aqui. A ceia será servida em uma hora e, enquanto isso, nós podemos nos retirar para os nossos aposentos, nos banharmos e relaxar um pouco.
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-Daeron?
Um jovem elfo o chamou da entrada de sua tenda. Daeron estava deitado em uma cama simples, digna de um acampamento, mas muito mais confortável do que da grande maioria dos soldados. Esperava por Lólindir e, na sua opinião, o senhor reposto de Yavëtil demorava demais.
Levantou a cabeça lentamente para olhar o jovem nos olhos e respondeu:
-Sim?
-Meu senhor Elwë deseja falar-lhe. Ele pediu para que o senhor se apronte para viajar em quinze minutos.
-Viajar? Para aonde?- Ele perguntou com o cenho franzido.
-Fëfalas, meu senhor.
-Diga que irei assim que estiver pronto.
Elwë era o irmão mais novo de Lólindir, o que vivera a sua sombra durante toda uma vida. Daeron sabia o que ia na mente dele: inveja, ciúmes e rancor. Sabia também que apesar de Elwë desejar destruir o irmão, amava-o. Os sentimentos conflitantes pelos quais ele sofria abriram as portas para Daeron entrar em sua vida.
Nada mais que um títere...
Daeron sorriu. Já estava na porta do salão onde Elwë se encontrava.
-Já estou pronto. – Disse o traidor de Mithlien assim que a porta fora aberta.
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-Eu não acredito, simplesmente não acredito que caímos naquela conversa toda! – Gina bufava, andando em círculos dentro da pequena cela de madeira montada para ela e Luna, no meio do acampamento. Elas pareciam com duas atrações de circo dentro de uma jaula.
-Ele deve ter usado seu poder conosco. Os elfos são muito hipnóticos quando querem... Eles me deslumbram, a você não? – Luna falava olhando para seus carcereiros com uma curiosidade inocente.
Não podia estar falando sério! Ela sorria bobamente observando cada um que passava pela cela. Para o espanto de Gina, alguns deles a olhavam de volta com uma curiosidade muito semelhante. Às vezes até paravam por alguns segundos arrancando um suspiro ou outro da jovem bruxa.
Um barulho à suas costas a assustou. A cela acabara de ser aberta.
-Vocês duas, saiam! – Disse um elfo jovem, com um sorriso torto nos lábios. – Nós vamos fazer uma pequena viagem.
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Voldemort estava sentado na sala de jantar da casa onde Lólindir estava hospedado. Era bastante estranho vê-los juntos. Antagônicos. Feiúra e beleza se encaravam. Havia curiosidade, satisfação e desconfiança em ambos os olhares.
Haviam tido um conversa longa e Voldemort já sabia, de uma maneira bastante geral, o porquê de ter sido englobado nesta história. Mas estava tendo dificuldades em conter seus pensamentos, seus desejos. Almejava agora, quase tanto quanto destruir Potter, conhecer esse reino élfico. Sua ambição crescia assim como sua curiosidade.
Imortalidade... Eles eram imortais... Detentores de conhecimentos, habilidades que ele provavelmente só tivera como imaginar em sonhos... Estava extasiado. Mas é óbvio que não se trairia a ponto de demonstrar qualquer um de seus sentimentos.
Lólindir sabia que se não fosse um Senhor Élfico poderoso como era, o Homem a sua frente – se é que ainda se podia chamá-lo de Homem - pareceria completamente entediado e desinteressado com o que havia sido revelado.
Mas ele sabia que não era nisso que girava a mente do bruxo. Ele teria que ter cuidado.
Por outro lado, seu plano caminhava muito bem. Havia conseguido atiçar a curiosidade do outro com a proposta que havia feito há pouco e esperava por sua resposta.
-Você me diz que tem algo que me interessa... E que se eu aceitasse me unir a você para conseguir separar de uma vez por todas os dois povos, eu poderia ganhar de bandeja a cabeça de Harry Potter.
-Exatamente.
-Se você pudesse me oferecer a cabeça dele, já o teria trazido aqui e nem se daria ao trabalho de me explicar quem são ou o porquê que estão aqui. A negociação seria mais rápida, não? – Disse o bruxo com um sorriso presunçoso.
-Eu tenho como consegui-lo. – Falou Lólindir, simplesmente. Sua calma incomodava Voldemort.
-Como? Tenho certeza que não acredita que eu faria um pacto no escuro. – Disse o bruxo mantendo sua pose de deboche.
Lólindir falou algumas palavras que Voldemort não entendeu, e vendo a movimentação de dois elfos às suas costas, percebeu que não havia falado com ele. Uns sons abafados chegaram à sala, seguidos de pancadas nas paredes.
E Voldemort sorriu sem conseguir se conter diante da surpresa que se revelava atrás da porta do aposento. Ele devia estar brincando!Isso sim é uma surpresa...
-Ora, ora se não é a doce Gina Weasley e a menina maluquinha do Lovegood. – Disse Voldemort com um sorriso perturbador.
Gina e Luna já não se debatiam. Pareciam estar hipnotizadas pelos olhos viperinos que as encaravam. Definitivamente, não conseguiam acreditar no que viam. O que os Comensais e Voldemort estavam fazendo ali?
Não era possível! Os pensamentos de Gina passavam rápidos demais em sua mente. Depois de tudo, por burrice dela, Voldemort teria um trunfo contra Harry! Ela sabia que ele não conseguiria se segurar. Ele faria uma loucura!
Voldemort levantou-se com um brilho obsessivo nos olhos enquanto encarava a ruiva, agora de joelhos, com as mãos amarradas nas costas, na altura da cintura, e unidas aos pés.
Lólindir se levantou tão rápido que Voldemort não notou a aproximação e antes que ele pudesse tocar o rosto da bruxa, Lólindir se colocou a sua frente.
-Você não está autorizado a tocá-la. – Falou com uma voz profunda, metalizada. Os olhos acinzentados do elfo brilharam e um frio estranho começou a circular entre os presentes.
Voldemort viu a beleza hipnótica do elfo desaparecer em um piscar de olhos e sentiu um tremor involuntário querer passar pelo seu corpo.
Conteve-se a tempo.
Lólindir vira na mente difusa de Voldemort algumas idéias perturbadoras. Os Homens mereciam morrer só por imaginarem algo tão monstruoso contra alguém da mesma espécie... A garota teria que ficar consigo, não tinha dúvidas.
Como Tári poderia ficar do lado de um povo que possuía tantos Voldemorts? Mesmo entre os elfos de lados adversários de uma batalha, havia um código de honra, de respeito. Não aprenderam nada mesmo! Se ele fizesse alguma coisa fora do trato...
Com um sinal, os elfos que as trouxeram, as levaram de volta.
-Creio que é hora de acertar os detalhes. Aceita os meus termos? – Perguntou Lólindir para um Voldemort com um brilho assassino no olhar.
Não havia mais como duvidar... Iria ajudá-lo, mas não podia garantir que cada detalhe fosse seguido regiamente. Se os inimigos de Lólindir lhe davam tanto trabalho, não podia acreditar que não dariam aos seus comensais. Mas a cabeça de Potter valeria à pena... E depois descobriria uma maneira de se aproveitar de mais essa vantagem que a vida lhe dava...
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[1] Melkor é também um Valar, o mais inteligente e mais belo - Creio que podemos dizer que seja uma referência direta a Lúcifer - e que nutre ódio por todas as coisas. Eä significa mundo. Tolkien, J.,R.,R.; "Silmarillion"; lmfe; 1999;
Olá pessoal. Imagino que eu realmente não mereço um coment já que demorei tanto para postar, mas estou amando muito escrever e vou continuar... Mesmo que não tenha ninguém gostando ou acompanhando. É claro que é mais animador ter as opiniões em mãos... Mas mesmo assim, obrigado a todos que chegaram até aqui.
Beijos da Fá