|
Olha só como foi uma parte do meu dia hoje com o meu anjinho metido!
Perséfone acorda, milagrosamente, ás 8:00 da manhã. Espreguiça-se calmamente, como sempre faz, e põe as pernas para fora da cama. Teve uma ótima noite de sono, proporcionada pelos ótimos travesseiros de pena de Anjo. Penas do Arcanjo Raphael, para ser mais exata. Pisa em algo macio, muito macio. Suave, quentinho. Realmente confortável. Pisou com mais força, tencionando relaxar ainda mais. A sensação era tão boa que ela levantou da cama e pisou em cima da coisa com toda a força dos seus 54 quilos.
- AAAAIIIIIII! – um grito ecoa pelo quarto. – Ficou louca?
- Han? – diz ela ainda com a mente nublada pelo sono. – Por que você está gritando?
- VOCÊ PISOU EM MIM, SUA DOIDA VARRIDA! – o anjo levanta-se do chão onde estava dormindo, esfregando as costas. Ou tentando esfregar.
- Pára de gritar! Já falei que não pode! – diz, levantando-se, fazendo questão de pisar em Rapahel, que ainda estava no processo de equilibrar-se para ficar de pé, fazendo cair no chão de novo.
- Quem você pensa que é para mandar em mim, seu projeto de humana? – pergunta irritado.
- CALADO! – ordena, em um tom inquestionável. – Não quero ouvir um pio seu, a não ser, é claro, que eu mande que você fale ou faça alguma coisa. Aí você responde, “Sim, minha Rainha”. Estamos entendidos?
- Sim, minha Rainha. – responde, baixando a cabeça e fazendo uma reverência.
- Perfeito!
Rapahel estava perdido. Ele não podia valer-se de seus “dotes angelicais”, porque estava no mundo dos homens, vivendo como um humano, com suas limitações. Não que ele tivesse deixado de ser Anjo, mas ficar nos mundos dos humanos implicava arcar com as limitações a que isso conduz.
Pior. Estava nas mãos de uma pirralha de 14 anos decidida a fazer dessa passagem um verdadeiro inferno. Primeiro ela “tratara” de suas asas. Arrancara pena por pena, com uma pinça, só porque estava precisando de um novo travesseiro! E o fazia com toda a calma do mundo, demorando-se particularmente nas penas próximas à coluna, ou quando ele gritava mais. E ainda teve a cara de pau de mandá-lo fazer os malditos travesseiros! Com suas penas!
- Humanos malditos, acham que podem tudo só porque foram criados à imagem e semelhança de Deus. E essa pirralha... Ah, se eu tivesse meus poderes, mesmo que por um segundo...
- Ouvi alguma coisa aí dentro???
- Argh. – resmunga, para logo depois responder. – Não.
- Não o quê?
- Não, minha Rainha.
- Ótimo!
A moça saíra do banheiro vestindo shorts, uma blusa de alcinhas e chinelos. Rapahel olha para aquela cena, espantado.
- Mas que pouca vergonha é essa? – pergunta, escandalizado.
- O quê? – pergunta, sem se importar, pegando o pente e penteando os cabelos.
- Para aonde você vai vestida assim? Ou melhor, não vestida assim? – pergunta, apontando para as roupas. Num rompante de ousadia, ele abre o guarda roupas e segura na ponta dos dedos um dos shorts, como se ele estivesse intoxicado.
- Quem é você para opinar nas minhas roupas? E, falando sério, aqui é quente. Você não sentiu por que não saiu do ar condicionado nem por um minuto.
- Isso é tamanho de roupa?
- É, não tá vendo? – responde mal criada.
- As mulheres antigamente davam mais valor a si mesmas, e não saíam... Assim, nas ruas. – comenta o anjo, recebendo em resposta um “pentada” no meio da cabeça.
- Fica calado, aí. Se você quiser sair todo empacotado, problema seu. Mas aqui o clima é quente e... – tenta avisar, mas é interrompida.
- Eu sei o que é um clima quente, pirralha. – bastou um olhar para ele calar a boca.
Ele segue pro banheiro, toma um banho rápido e sai vestido. Ele usava uma calça comprida, uma camisa de mangas e um sapato, tudo em cores escuras. Não estava habituado àquelas roupas, mas resolveu aproveitar a bondade da moça ao levá-lo ao shopping para comprá-las.
- KAKAKAKAKAKAKAKAKAKA! – a moça riu na cara dele, sem nenhuma vergonha. – Não acredito que você comprou isso! UAHSUHAUSHAUHSUAHSUH’
- Qual o problema com as minhas roupas? Eu vi num daqueles... Como se chama... AH! Manequim.
- KKKKKKKKKKKKK.
Ela continua rindo durante um bom tempo, sem um pingo de vergonha ou bom senso, enquanto o Anjo a olhava emburrado. Não entendia o problema com as roupas. Todos usavam aquilo, não usavam?
- Sabe fazer trança? – ela pergunta a Raphael.
- Sei. – responde irado. Ameaçando-o com o pente, ele completa. – Sim, minha Rainha.
- Ótimo, quero que trance meu cabelo. – ela ordena, soltando o cabelo do rabo de cavalo que o mantinha preso. Raphael acompanha o movimento de olhos arregalados. Não era suposto adolescente terem cabelo curto? – Pode começar.
O homem leva pouco tempo trançando o cabelo, sem dar nenhum pio. Quando termina, ela analisa clinicamente o trabalho do anjo. Viu alguma coisa balançando onde não devia.
- Tem um fio solto aqui! Faz de novo! Ah, quero uma trança raiz. E FAÇA DIREITO!
O anjo pega de novo o cabelo, descobrindo mais mechas do que gostaria. Pega o pente, separando as mechas para a trança. Cansa o braço e ainda estava na metade.
- Quanto você tem de cabelo? Meio metro?
- Um pouco a mais ou a menos, não fico medindo. FAÇA LOGO!
Terminada a trança, ele foi, por livre e espontânea pressão, caminhar pela cidade, tendo a pirralha como guia turístico. Ao sair de casa, ele jurara que tinha sofrido um ataque mental muito forte. Sentia o cérebro queimando.
Olhou para Perséfone, buscando nela algum sinal de dor ou mal estar, para confirmar as suspeitas. Ela estava absoluta e irrevogavelmente normal. Até sorria. Como ela podia ficar assim enquanto sofria um ataque? Por que ela não estava sofrendo ataque.
- Que foi? – pergunta, puxando sem delicadeza pelo braço.
- Minha cabeça. Está queimando. Preciso me concentrar, estou sofrendo um ataque. Acho que é aquele moleque. Gabriel.
- KAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKAKA!
- Do que está rindo? Isso é sério!
- Estou rindo de você! Claus me deu você até o capítulo que vem, o outro. Gabriel está esperando impaciente até tê-lo nas mãos! Ele não ia estragar a diversão deixando você incapacitado com um ataque mental!
- Ah é, sua humana impertinente, então como você explica o fato de a minha cabeça estar queimando?
- Calor, seu anjinho metido, CALOR! – ela explica, como se ensinasse uma criancinha de quatro anos. – Eu avisei que era quente. Muahuahuahuahuahua’
- Como é? Um clima é considerado quente quando sua média anual está em uma temperatura acima de vinte graus.
- Eu tenho aulas de geografia, obrigada. Por isso eu tenho que explicar uma coisa a você. E PRESTE ATENÇÃO! – ela ordena. – Conhece as estações do ano?
- Mas é claro – ela olha para ele assassinamente, no que ele completa. – Sim, minha Rainha. Verão, primavera, outono e inverno.
- Ótimo. Só que aqui nessa cidade não temos essas quatro. Temos outras estações. Calor, quentura, mormaço e pegando fogo.
Não deixando espaços para reclamações/conversações/resmungos, ela puxa-o pelo braço, levando-o para conhecer o centro da cidade. Riu escandalosamente. Com aquelas roupas escuras e pesadas ele estaria cozinhando depois de algum tempo.
- Sinto meu cérebro derretendo. Não pode ser só o calor.
- Você ainda está resmungando? Eu vou mostrar a você como é o calor, e você terá que admitir que estava errado e eu estava certa o tempo inteiro.
Ela caminha mais um pouco, procurando por um pobre taxista que tivesse um taxímetro mais atual em seu carro. Encontra um deles, dialoga rapidamente com o homem, apontando para Raphael. Depois de um tempo, ela o manda vir.
- Olhe. Aqui é onde indica a temperatura. – ela indica o lugar para o anjo, que o olha incrédulo.
- 35°C? 35°C???
- Hoje está uns 3°C mais quente que ontem, nada muito escandaloso. Vamos.
Ela puxa o homem, agradece ao taxista e seguem com a “caminhada”. Ele se perguntava como eles agüentavam tanto calor. Por Deus, um clima quente tem 20°C talvez 25°C. Mas dez graus acima disso!... Estava no verdadeiro caldeirão do diabo.
|