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8. CAPÍTULO OITO


Fic: Glória Mortal - Concluida


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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CAPÍTULO OITO

Gina não teve dificuldades para fazer uma lista das várias ligações que havia entre Lilá Brown e Yvonne Metcalf. A primeira era o assassinato. O método e o autor. Ambas tinham sido mulheres conhecidas pelo público, respeitadas, e de quem todos gostavam. Eram bem-sucedidas em seus campos de atuação e dedicadas ao trabalho. As duas tinham famílias que amavam e que choravam por elas.
No entanto, haviam trabalhado e freqüentado círculos sociais e profissionais radicalmente diferentes. Os amigos de Yvonne eram artistas, atores e músicos, enquanto Lilá participara de atividades sociais em companhia de advogados, empresários e políticos. Lilá era uma mulher com a carreira organizada e um bom gosto impecável, que preservara a privacidade de forma feroz.
Yvonne era descontraída e desorganizada, uma atriz com a vida no limite do caótico, que cortejava os holofotes. Mas alguém as conhecera bem o bastante e tinha mágoas contra ambas, o bastante para matá-las. O único nome que Gina encontrou tanto no livro de endereços bem-estruturado de Lilá quanto na agenda desorganizada de Yvonne foi o de Harry. Pela terceira vez, em menos de uma hora, Gina comparou as duas listas, usando o computador, tentando achar coisas em comum. Um nome que batesse com outro, um endereço, uma profissão, um interesse pessoal. As poucas ligações que apareceram eram tão fracamente conectadas que quase não justificavam ir adiante para marcar um interrogatório. Mas ela tinha de tentar tudo, porque a alternativa era Harry. Enquanto o computador pesquisava a pequena lista, Gina deu outra passada de olhos pela agenda eletrônica de Yvonne.
- Por que diabos ela não colocava nomes nas anotações? - resmungou Gina.
Havia horários, datas, às vezes iniciais, e muitas notinhas laterais ou símbolos, conforme o seu humor no momento.

1:00 - Almoço no Salão da Coroa, com B. C. Viva! Não se atrase, Yvonne, e vista a blusa verde com a saia curta. Ele gosta de mulheres pontuais e com as pernas de fora.
Dia da Beleza no Salão Paradise. Graças a Deus. 10:00. Melhor tentar marcar ginástica às 8 na Academia Palace. Argh!

Almoços elegantes, avaliou Gina. Ela se paparicava no salão mais caro da cidade. Antes, suava um pouco na academia mais luxuosa. Considerando tudo, até que a vida dela não era má. Quem ia querer acabar com ela? Analisou com cuidado a página do dia do assassinato.

8:00 - Café da manhã poderoso. Usar terninho azul com sapatos combinando.
PAREÇA PROFISSIONAL, PELO AMOR DE DEUS, YVONNE!
11:00 - Sala do P. P. para discutir as negociações do contrato. Talvez dê para fazer umas comprinhas antes. LIQUIDAÇÃO DE SAPATOS NA SAKS. Dica quente.
Almoço - Dispense a sobremesa. Talvez. Diga ao gatinho que ele estava maravilhoso no show. Não é pecado mentir um pouco para os colegas a respeito da sua atuação. Nossa, ele não estava horrível?
Ligar para casa.
Passar na Saks, se não tiver ido antes.
Happy Hour. Tome só água mineral, garota. Você fala demais quando fica alta.
Pareça inteligente, brilhe. Force a barra com o “Fique Ligado”! Muito. Não se esqueça de levar o book com as fotos amanhã de manhã, e fique longe do vinho. Vá para casa e tire um cochilo.
Encontro à meia-noite. Pode ser coisa quente. Use o conjunto listrado vermelho e branco e sorria, sorria, sorria. São águas passadas, coloque uma pedra em cima, certo? Nunca feche uma porta. Diga “que mundo pequeno” e assim por diante. Que babaca!

Então ela deixara documentado o encontro à meia-noite. Mas não escreveu quem, nem onde, nem para quê, mas queria estar bem-vestida para ele. Alguém que ela conheceu no passado, teve alguma coisa com ele. Águas passadas. Talvez um problema antigo?
Um amante? Ponderou Gina. Achava que não. Yvonne não desenhara coraçõezinhos em volta da anotação, nem se aconselhara a parecer sexy, sexy, sexy. Gina achou que estava começando a compreender a vítima. Yvonne era uma mulher que se divertia consigo mesma, estava sempre pronta para a alegria, curtia seu estilo de vida. E era ambiciosa.
Se ela se mandou sorrir, sorrir, sorrir, não seria o caso de uma oportunidade profissional? Um bom papel, uma promoção no jornal, um novo texto, um já influente?
O que será que ela teria escrito se o encontro fosse com Harry? Meditou Gina. Muito provavelmente ela teria anotado o nome dele com uma letra R maiúscula, bem destacada. Teria colocado corações em volta do nome, ou cifrões, ou carinhos sorridentes. Como tinha feito dezoito meses antes de sua morte.
Gina não precisou olhar nos diários antigos de Yvonne. Lembrava-se perfeitamente da última anotação que fizera citando o nome de Harry.

Jantar com R, às 8:30. É de dar água na boca. Usar o vestido de cetim branco, que vai bem com a combinação. Prepare-se, pode ser que você se dê bem. O cara tem um corpo maravilhoso, só queria saber como é a sua cabeça. Enfim, seja bem sexy para ver o que acontece.

Gina não fazia questão de saber se Yvonne havia se dado bem. Evidentemente, eles tinham sido amantes, o próprio Harry dissera isto. Então, por que ela não anotara mais nenhum encontro com ele depois do vestido de cetim branco? Era uma coisa que ela imaginou que teria de descobrir só por causa da investigação.
Nesse meio-tempo, ela ia fazer outra visita ao apartamento de Yvonne, para tentar mais uma vez reconstituir o último dia de sua vida. Havia interrogatórios para marcar. E, como os pais de Yvonne ligavam procurando por ela pelo menos uma vez por dia, Gina sabia que teria de conversar novamente com eles, e se fortalecer para enfrentar o terrível pesar e o pasmo que sentiam.
Ela não se importava com os dias de quatorze e até dezesseis horas de trabalho contínuos. Na verdade, a esta altura de sua vida ela até gostava. Quatro dias após o assassinato de Yvonne Metcalf, Gina continuava na estaca zero. Interrogara de modo intensivo mais de trinta pessoas, até à exaustão. Não só fora incapaz de descobrir um único motivo que fosse viável, como também não achou ninguém que não adorasse a vítima.
Não havia sequer a pista de algum fã obcecado. A pilha de e-mails de Yvonne era gigantesca, e Neville ainda estava pesquisando toda a correspondência com o auxílio do computador. Nas primeiras avaliações, porém, não havia ameaças, veladas ou abertas, nem propostas e sugestões esquisitas, ou de gosto duvidoso.
Havia uma quantidade substancial de propostas de casamento e outros convites. Gina analisava todas atentamente, mas com pouco entusiasmo ou esperança. Ainda havia a possibilidade de alguém ter escrito para Yvonne e também entrado em contato com Lilá. À medida que o tempo passava, porém, esta chance diminuía.
Gina fez tudo o que era de esperar nos casos de homicídios múltiplos, e tudo o que os procedimentos do departamento exigiam do profissional a esta altura de uma investigação. Marcou uma consulta com a psiquiatra. Enquanto esperava, Gina lutava com os sentimentos divididos que tinha pela doutora Minerva. Ela era uma mulher brilhante, com grande sensibilidade e dona de uma calma eficiência, além da compaixão.
Eram esses os motivos que faziam Gina se forçar a ir vê-la. Tinha de lembrar a si mesma, novamente, que não tinha ido até ali por motivos pessoais, ou porque o departamento a estava mandando fazer terapia. Não estava também ali para se submeter a nenhuma das rotineiras baterias de testes, nem ia discutir seus pensamentos, sentimentos ou lembranças.
Elas iam dissecar a mente de um assassino.
Mesmo assim, ela tinha de se concentrar em manter o ritmo constante do coração e as mãos firmes e secas. Quando a mandaram entrar no consultório de Minerva, Gina disse a si mesma que suas pernas estavam tremendo devido ao cansaço, nada além disso.
- Como vai, tenente Weasley? - Os olhos em um tom de azul pálido fitaram o rosto de Gina e notaram fadiga neles. - Sinto muito fazê-la esperar.
- Tudo bem. - Embora preferisse ficar em pé, Gina sentou-se numa cadeira azul em forma de concha, ao lado da de Minerva. Obrigada, doutora, por ter recebido o caso tão depressa.
- Todos nós fazemos nosso trabalho da melhor maneira possível. - explicou Minerva com sua voz macia. - Além disto eu tinha grande respeito e afeição por Lilá Brown.
- A senhora a conhecia?
- Tínhamos mais ou menos a mesma idade, e ela me consultava sobre muitos dos casos em que trabalhava. Testemunhava para a promotoria com freqüência, assim como para a defesa também. - acrescentou sorrindo ligeiramente. - Mas você já sabia disso.
- Estou só puxando assunto.
- Eu também admirava o talento de Yvonne Metcalf. Ela trouxe muita alegria para o mundo. Vai deixar saudades.
- Há alguém que não vai sentir saudades de nenhuma das duas.
- É verdade. - Com seu jeito gracioso e leve, Minerva programou seu AutoChef para preparar chá. - Imagino que você esteja um pouco pressionada por causa do tempo, mas eu trabalho melhor com um pouco de estimulante no sistema. E você? Parece que está precisando de um pouco disso também.
- Estou bem.
Reconhecendo o tom de hostilidade fortemente controlada na voz de Gina, Minerva simplesmente levantou a sobrancelha.
- Anda trabalhando demais, como sempre. Isso é comum com as pessoas que são muito boas no que fazem. - e ofereceu a Gina um pouco de chá, servido em uma de suas lindas xícaras de porcelana. - Muito bem, eu já li todos os seus relatórios, as provas que você reuniu e suas teorias. Com relação ao perfil psiquiátrico que eu tracei. - disse, batendo levemente com a mão em um disco lacrado que estava sobre a mesa entre elas.
- A senhora já completou o perfil? - Gina não se deu ao trabalho de esconder a irritação. - Poderia ter me transmitido os dados diretamente e me poupado a viagem.
- Poderia sim, mas preferi discuti-lo com você, frente a frente. Gina, você está lidando com alguma coisa, com alguém extremamente perigoso.
- Acho que já deu para eu perceber isso, doutora. Duas mulheres tiveram a garganta cortada de um lado a outro.
- Duas mulheres, até agora. - Minerva disse baixinho e se recostou. - Estou com muito medo de que haverá mais. E logo.
Por também pensar assim, Gina ignorou o calafrio que lhe correu pela espinha.
- Por que diz isso, doutora?
- Porque foi tão fácil. E tão simples. Um trabalho bem-feito. Existe satisfação nisso. Há também o fator da atenção. Ele, ou ela, quem quer que tenha cometido os assassinatos pode agora se sentar confortavelmente em casa e apreciar o show. As reportagens, os editoriais, o pesar coletivo, os funerais, a esfera pública de toda a investigação.
Fez uma pausa para saborear o chá e continuou:
- Você já formou uma teoria, Gina. Veio até aqui para que eu possa corroborá-la ou contra-argumentar as suas idéias.
- Tenho várias teorias.
- Mas acredita apenas em uma. - Minerva deu aquele seu sorriso sábio, já sabendo que ele fazia Gina se encrespar. - Fama. O que mais as duas mulheres tinham em comum além da proeminência pública? Elas não freqüentavam o mesmo círculo social, nem profissional. Conheciam poucas pessoas em comum, mesmo em nível casual. Não freqüentavam as mesmas lojas, academias ou salões de beleza. A única coisa que compartilhavam era a fama, o interesse do público e uma espécie de poder.
- E isso era uma coisa que o assassino invejava.
- Eu diria exatamente isso. Ressentia-se com isso também e esperava que, matando-as, pudesse aproveitar um pouco da atenção que refletiria nele. Os crimes propriamente ditos foram muito cruéis e limpos, de uma forma incomum. Seus rostos não ficaram desfigurados, nem seus corpos. Um rápido golpe na garganta, de acordo com o relatório do legista, de um lado a outro do pescoço. Uma lâmina é uma arma muito pessoal, uma extensão da mão. Não é distante, como uma arma a laser, nem sem envolvimento, como um veneno. Seu assassino queria ter a sensação de matar, a visão do sangue, o cheiro dele. A experiência completa que faz com que ele, ou ela, apreciasse o exercício do controle, seguindo fielmente um plano.
- A senhora não acredita que tenham sido crimes encomendados.
- Sempre existe essa possibilidade, Gina, mas estou mais inclinada a ver o assassino como um participante ativo do que como um prestador de serviços. E temos também os suvenires.
- O guarda-chuva de Lilá Brown?
- E o sapato direito de Yvonne Metcalf. Você conseguiu manter esta informação longe da imprensa.
- Por pouco. - disse Gina com uma cara feia ao se lembrar de Morse e a sua equipe invadindo a cena do crime. - Um assassino profissional não guardaria um suvenir, e as mortes foram muito bem planejadas para terem sido decididas na hora em um ataque de rua.
- Concordo. Você está lidando com uma pessoa que tem a mente organizada e é ambiciosa. Seu assassino também está curtindo o trabalho dele, razão pela qual eu acho que vai haver mais.
- O trabalho dele, ou dela. - completou Gina. - O fator da inveja pode nos levar a uma mulher. Talvez essas duas mulheres fossem tudo o que ela desejava ser. Lindas, bem-sucedidas, admiradas, famosas, fortes. Muitas vezes são os fracos que matam.
- Com freqüência. Não, realmente não é possível determinar o sexo do assassino a partir dos dados que temos a esta altura. Só podemos é trabalhar com a forte probabilidade de que o assassino tem como alvo mulheres que atingiram um alto grau de reconhecimento público.
- E o que eu devo fazer, então, a respeito de tudo isso, doutora Minerva? Colocar um alarme em todas as mulheres importantes, conhecidas e bem-sucedidas da cidade, incluindo a senhora?
- Engraçado. Eu estava pensando mais era em você.
- Eu? - Gina balançou o chá, que nem sequer tinha provado, e o colocou sobre a mesa, com um estalo. - Isso é ridículo.
- Acho que não. Você se tornou um rosto familiar para o público, Gina. Devido ao seu trabalho, certamente, mais especificamente desde o caso que resolveu no inverno passado. É muito respeitada em seu campo de atuação. E... - continuou antes que Gina tivesse a chance de interromper - Você também tem mais uma ligação importante, com ambas as vítimas. Todas vocês tiveram um relacionamento com Harry Potter.
Gina sentiu o sangue desaparecer por completo de seu rosto. Era algo que ela não podia controlar. Mas fez de tudo para manter a voz firme e dura.
- Doutora, Harry teve um relacionamento de negócios, um contato relativamente pequeno com Lilá Brown. No caso de Yvonne Metcalf, a parte íntima do relacionamento entre eles já acabou há algum tempo.
- Mesmo assim você sente essa necessidade de defendê-lo junto a mim.
- Eu não o estou defendendo. - reagiu Gina. - Estou citando fatos. Harry é mais do que capaz de se defender.
- Sem dúvida. É um homem forte, com vitalidade e astúcia. Mesmo assim você se preocupa com ele.
- Na sua opinião profissional, Harry é o assassino?
- Não, absolutamente. É claro que não tenho dúvidas de que, se tivesse a chance de analisá-lo, ia encontrar um instinto assassino bastante desenvolvido. - A verdade é que Minerva teria adorado a oportunidade de estudar a mente de Harry Potter. - Apesar disso, sua motivação teria de estar bem delineada. Um grande amor ou um grande ódio. Duvido que haja muita coisa a mais que o faria ultrapassar a linha. Pode relaxar, Gina. - disse Minerva baixando a voz. - Você não está apaixonada por um assassino.
- Não estou apaixonada por ninguém. Além do mais, meus sentimentos pessoais não vêm ao caso.
- Pelo contrário, o estado mental de uma investigadora é sempre fator importante. E, se me pedirem para dar uma opinião a seu respeito, vou ter de dizer que a achei à beira da exaustão, emocionalmente arrasada e com sérios problemas.
Gina pegou o disco com o perfil psicológico e se levantou.
- Então, é uma sorte que a senhora não seja solicitada a externar a sua opinião. Sou perfeitamente capaz de fazer o meu trabalho.
- Não duvido desse fato, nem por um momento. Mas e quanto ao custo disso para você mesma?
- O custo seria ainda mais alto se eu não o fizesse. Vou achar quem matou aquelas mulheres. Depois vai depender de alguém como Lilá Brown para afastar essa pessoa da sociedade. - Gina enfiou o disco na bolsa. - Tem mais uma conexão que a senhora deixou de fora, doutora Minerva. Uma coisa que aquelas duas mulheres tinham em comum. - O olhar de Gina era duro e frio. - A família. Ambas tinham famílias muito chegadas, que formavam uma parte ampla e importante de suas vidas. Eu diria que isso me deixa livre da possibilidade de ser um alvo, a senhora não acha?
- Talvez. Você anda pensando muito em sua família, Gina?
- Não brinque comigo.
- Foi você que mencionou. - assinalou Minerva. - Você sempre tem muito cuidado com o que me diz, então só me resta imaginar que o tema família está em sua cabeça.
- Eu não tenho família. - reagiu Gina. - E o tema que tenho na cabeça é assassinato. Se a senhora quiser colocar no relatório que me acha inadequada para a tarefa, por mim tudo bem.
- Quando é que você vai confiar em mim? - Havia um pouco de impaciência na voz calma da psiquiatra pela primeira vez desde que Gina se lembrava. - Será que é tão impossível você acreditar que me importo muito com você? Pois saiba que eu me importo. - continuou Minerva, enquanto Gina piscava, surpresa. - E a compreendo melhor do que você quer admitir.
- Não preciso que a senhora me compreenda. - Havia um tom nervoso na voz de Gina agora. Ela mesma sentiu. - Não estou aqui fazendo uma bateria de testes, nem em sessão de terapia pessoal.
- Não há nenhum gravador ligado, Gina. - Minerva colocou a xícara sobre a mesa com tanta força que Gina enfiou as mãos nos bolsos. - Você acha que foi a única criança no mundo que conviveu com o horror e o abuso? A única mulher no mundo que lutou para superar isso?
- Eu não tenho de superar nada. Eu nem me lembro...
- Meu padrasto me estuprou repetidamente desde que eu tinha doze anos, até completar quinze. - disse Minerva, calmamente, e isto interrompeu os frios protestos de Gina. - Durante aqueles três anos eu vivi sem jamais saber quando aquilo ia voltar a acontecer, só sabia que aconteceria. E não havia ninguém que me desse ouvidos.
Abalada, tremendo, Gina cruzou os braços com força sobre o peito.
- Não quero saber de nada, não quero ouvir. Por que está me contando isso?
- Porque eu olho dentro dos seus olhos e vejo a mim mesma. Só que você tem alguém que pode ouvi-la, Gina.
- Por que o seu problema acabou? - Gina ficou em pé onde estava, umedecendo os lábios secos.
- Porque eu finalmente tomei coragem de procurar um centro de proteção contra abuso, contei tudo à conselheira e me submeti aos exames físicos e psiquiátricos. O terror de tudo isso e a humilhação já não me pareciam tão fortes quanto a alternativa.
- E que motivos eu teria para ficar me lembrando de tudo? - perguntou Gina. - Já acabou.
- E por que você não está dormindo bem?
- A investigação...
- Gina...
O tom de voz gentil e suave fez com que Gina fechasse os olhos. Era tão difícil, tão irritante lutar contra aquela calma compaixão!
- Imagens do passado. - murmurou, detestando-se pela demonstração de fraqueza. - Pesadelos.
- De antes do momento em que você foi encontrada, no Texas?
- Apenas flashes, pedaços.
- Eu posso ajudá-la a juntar esses pedaços.
- E por que razão eu ia querer juntá-los?
- Você já não começou a fazer isso? - Agora era Minerva que estava em pé. - Você consegue fazer o seu trabalho, com isso assombrando o subconsciente. Venho observando você há anos. Só que a felicidade a deixa esquiva, e vai continuar sendo assim até você se convencer de que a merece.
- Não foi culpa minha.
- Não. - Minerva colocou a mão sobre o braço de Gina com carinho. - Não, não foi culpa sua.
As lágrimas estavam ameaçando cair, e aquilo era um choque e um embaraço.
- Não posso falar sobre isso, doutora.
- Minha cara, você já começou a fazer isso. E eu estarei aqui à sua disposição, sempre que estiver disposta a fazê-lo de novo. - Esperou até Gina chegar à porta. - Posso lhe fazer uma pergunta?
- A senhora sempre faz perguntas.
- Por que parar agora? - e Minerva sorriu. - Harry faz você se sentir feliz?
- Às vezes. - Gina apertou os olhos com força e xingou baixinho. - Sim, sim, ele me faz feliz. Só que também está me tornando miserável.
- Isso é adorável. Estou muito satisfeita, por ambos. Tente dormir um pouco, Gina. Sei que você não gosta de usar produtos químicos, mas tente a visualização simples.
- Vou me lembrar disso. - Gina abriu a porta, mas continuou de costas. - Obrigada, doutora.
- De nada.
A visualização não ia ajudar muito, decidiu Gina. Não depois de ver os relatórios detalhados da autópsia. O apartamento estava muito quieto e muito vazio. Ela estava arrependida de ter deixado o gato com Harry. Pelo menos Galahad serviria para lhe fazer companhia.
Como seus olhos estavam ardendo de tanto analisar dados, ela se afastou da mesa. Estava se sentindo sem energia para procurar por Luna, e achou maçantes as opções de vídeo que apareceram na tela.
Pediu música, ouviu por trinta segundos e então mandou desligar. Comida normalmente funcionava, mas quando foi olhar na cozinha, Gina se lembrou de que não reabastecia o AutoChef há semanas. As opções eram poucas e ela não estava com tanta fome a ponto de pedir comida de fora.
Decidida a relaxar, tentou os óculos de realidade virtual que Luna lhe dera no Natal. Como a própria Luna tinha sido a última a usá-los, eles estavam configurados para a opção Danceteria, com o volume no máximo. Depois de um ajuste apressado e uma grande quantidade de palavrões, Gina o programou para Praia nos Trópicos.
Ela podia sentir os grãos da areia branca e quente debaixo dos pés, o calor do sol sobre a pele e a brisa suave do oceano. Era maravilhoso estar ali, junto das ondas, olhando o movimento das gaivotas e tomar um gole do drinque gelado que tinha gosto de rum e frutas.
Havia mãos em seus ombros nus, massageando-a. Suspirando, ela se deixou relaxar de encontro a elas e sentiu a presença marcante de um homem encostado às suas costas. Ao longe, sobre o mar azul, um veleiro branco seguia na direção do horizonte.
Era fácil se virar e se deixar envolver pelos braços que a esperavam, e levantar a boca para encontrar os lábios que queria. E depois deitar sobre a areia quente com aquele corpo que se encaixava de forma tão perfeita ao dela. A excitação era tão doce quanto a paz que sentia. O ritmo era tão antigo quanto as ondas que lambiam sua pele. Ela se deixou ser possuída, e estremeceu enquanto suas necessidades iam de encontro à realização total. O hálito dele estava sobre o rosto dela, e o corpo dele unido ao dela no instante em que ela gemeu o seu nome.
Harry.
Furiosa consigo mesma, Gina arrancou os óculos e os atirou para o lado. Ele não tinha o direito de se intrometer ali, dentro de sua cabeça. Não tinha o direito de trazer dor e prazer quando tudo o que ela queria era privacidade. Ah, sim, ele sabia o que estava fazendo, pensou enquanto se punha em pé e começava a andar de um lado para outro. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. E eles iam ter de acertar aquilo de uma vez por todas.
Bateu a porta do apartamento com força, atrás de si. Não lhe ocorreu, até entrar pelos portões de segurança da casa de Harry, que era possível que ele não estivesse sozinho. Esta idéia era tão irritante, tão devastadora, que ela subiu os degraus de dois em dois e bateu na porta com uma violenta explosão de energia.
Moody estava à espera dela.
- Tenente, já é uma e vinte da manhã.
- Eu sei que horas são. - e rangeu os dentes quando ele se colocou na frente dela para bloquear-lhe a escadaria. - Olhe, vamos deixar uma coisa bem clara, meu chapa. Você me odeia e eu odeio você. A diferença é que eu tenho um distintivo. Agora tire o rabo do caminho, senão eu vou rebocar a sua bunda magra até a delegacia por obstruir a passagem de uma policial.
O mordomo se cobriu de uma dignidade que lhe caía como seda.
- Com isso, imagino que a senhorita queira dizer que está aqui, a esta hora, em missão oficial, tenente?
- Imagine o que quiser. Onde ele está?
- Se a senhorita especificar o que deseja, ficarei feliz em localizar onde Harry se encontra neste instante, para verificar se ele está disponível para recebê-la.
Sem paciência, Gina deu-lhe uma cotovelada na barriga e passou ao largo de sua figura ofegante.
- Pode deixar que eu mesma descubro. - afirmou, já subindo a escada.
Ele não estava na cama, nem sozinho nem acompanhado. Gina não sabia exatamente como se sentiu com relação a isso ou o que teria feito se o encontrasse enroscado em alguma loura. Recusando-se a pensar naquilo, girou o corpo e marchou em direção ao escritório, com Moody colado atrás dela.
- Eu pretendo apresentar uma queixa contra a senhorita.
- Pode apresentar. - disse ela por trás dos ombros.
- A senhorita não tem o direito de invadir uma propriedade particular no meio da noite. Não vai perturbar Harry. - e espalmou a mão na porta quando ela chegou lá. - Não vou permitir.
Para surpresa de Gina, ele estava sem fôlego e com o rosto vermelho. Seus olhos estavam saltando das órbitas. Aquilo era mais emoção, decidiu, do que ela achou que ele fosse capaz de ter.
- Isso realmente deixa você pau da vida, não é?
Antes que conseguisse impedir, ela apertou o mecanismo e a porta se abriu para o lado.
Moody a segurou, e Harry, que estava voltado para a janela, observando a cidade, se virou e teve a curiosa surpresa de ver os dois agarrados.
- Torne a colocar a mão em mim, seu filho da mãe de bunda apertada, e eu ponho você a nocaute. - e levantou o punho para demonstrar. - A satisfação disso bem que vale o meu distintivo.
- Moody, - disse Harry com suavidade - acho que ela está falando sério. Por favor, deixe-nos a sós.
- Ela abusou da autoridade...
- Deixe-nos a sós. - repetiu Harry. - Eu tomo conta disso.
- Como quiser. - Moody colocou o paletó no lugar e saiu, com passos largos, mancando ligeiramente.
- Se você quiser me deixar do lado de fora, - atirou Gina enquanto marchava em direção à mesa - vai ter de arrumar alguém melhor do que esse cão de guarda desbundado.
Harry simplesmente cruzou os dedos sobre a mesa.
- Se eu quisesse mantê-la fora daqui, você não conseguiria nem ter passado pela segurança do portão lá de fora. - Deliberadamente, deu uma olhada no relógio. - Está meio tarde para interrogatórios oficiais.
- Já estou cansada de pessoas me dizendo que horas são.
- Muito bem, então. - e se recostou na cadeira. - O que posso fazer por você?



Agradecimento a:
Bianca: é sempre bom conhecer os palpites dos leitores, não importa o quão errados estejam. Eu não me importo se você critica ou elogia minha fic, como eu disse, a opinião de cada leitor vale muito. Gina realmente vacilou feio ao deixa-lo partir daquela maneira, mas em breve as coisas se acertam, pelo menos eu espero. Harry vai ter que batalhar muito para fazer a ruiva dizer que o ama. Quanto aos escândalos, bem, eles estão apenas começando. Beijos.

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