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5. CAPÍTULO CINCO


Fic: Glória Mortal - Concluida


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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CAPÍTULO CINCO

Gina cambaleou para dentro do seu apartamento quase à uma da manhã. Ela sentia um zumbido em sua cabeça. A idéia que Luna tinha de um jantar na noite de folga era ir para um clube concorrente. Já sabendo que na manhã seguinte ela ia acabar pagando caro pela noite de diversão, Gina foi tirando a roupa a caminho do banheiro.
Pelo menos a noite com Luna havia empurrado o caso Brown para o fundo de sua cabeça. Gina poderia até se preocupar por não haver muita cabeça de sobra, mas estava exausta demais para pensar nisso.
Caiu nua e de barriga para baixo sobre a cama, e adormeceu em segundos.
De repente acordou, violentamente excitada.
Eram as mãos de Harry que estavam sobre ela. Gina conhecia sua textura, seu ritmo. Seu coração martelou contra as costelas, e então subiu para a garganta, enquanto a boca dele cobria a dela. Era uma boca quente, insaciável, que não lhe dava escolha, nenhuma escolha, a não ser a de ceder gentilmente. E, mesmo enquanto ela apalpava à procura dele, aqueles dedos espertos e compridos abriam caminho por dentro dela, mergulhando tão fundo que ela se retesava como um arco no frenesi do orgasmo.
Sua boca sobre o seio dela, sugando-o, os dentes arranhando-a de leve. As mãos elegantes dele, incansáveis, de forma que seus gritos saíam em espasmos de choque e gratidão. E outro clímax a fez estremecer colocando-se, como uma nova camada, sobre o prazer anterior.
Suas mãos buscavam apoio nos lençóis amarrotados, mas nada seria capaz de ancorá-la. Quando ela decolou mais uma vez, agarrou-se a ele, com as unhas arranhando-lhe as costas, e subindo até agarrar-lhe um punhado de cabelos.
- Oh, Deus! - Era a única palavra coerente que conseguia balbuciar enquanto ele se enterrava dentro dela, com tanta força e tão fundo que era uma surpresa se ela não morresse de prazer com aquilo. O corpo dela corcoveava incontrolavelmente, freneticamente, continuando a tremer mesmo depois que ele já havia desmoronado sobre ela.
Ele soltou um suspiro longo e satisfeito e ficou preguiçosamente esfregando o nariz em sua orelha.
- Desculpe por ter acordado você.
- Harry? Ah, era você? - Ele a mordeu.
Ela sorriu silenciosamente no escuro.
- Achei que você só ia voltar amanhã.
- Tive sorte. Depois, foi só seguir sua trilha de roupas até o quarto.
- Eu saí com Luna. Fomos a um lugar chamado Armagedon. Só agora a minha audição está começando a voltar. - Acariciou as costas dele e deu um imenso bocejo. - Ainda não é de manhã, é?
- Não. - Reconhecendo a fraqueza na voz dela, ele se ajeitou de lado, puxou-a bem para junto de si e beijou-lhe a testa. - Volte a dormir, Gina.
- Tá bom. - Ela obedeceu em menos de dez segundos.
Ele acordou com a primeira luz da manhã e a deixou enroscada no meio da cama. Na cozinha, programou o AutoChef para preparar café e pão torrado. O pão estava velho, mas isto era de esperar. Sentindo-se em casa, sentou-se em frente ao monitor da cozinha e deu uma olhada na seção financeira do jornal. Não conseguia se concentrar.
Estava tentando não se ressentir pelo fato de que ela escolhera a cama dela em vez da cama deles. Ou o que ele gostava de considerar como a cama deles. Não tinha mágoas pela necessidade que ela tinha de espaço pessoal; compreendia bem a sua necessidade de privacidade. Mas a casa dele era grande o bastante para ela se apropriar de uma ala inteira só para ela se desejasse.
Afastando-se do monitor, foi até a janela. Ele não estava habituado a este conflito interno para equilibrar as necessidades dele com as de outra pessoa. Crescera pensando primeiro nele, e por último também. Teve de ser assim para que conseguisse sobreviver e, mais tarde, ser bem-sucedido. Uma coisa era tão importante para ele quanto outra.
Aquele era um hábito difícil de largar, ou tinha sido, o de largar Gina.
Era humilhante admitir, ainda que para si mesmo, que todas as vezes que viajava a negócios uma semente de medo germinava em seu coração, dizendo que talvez, quando ele voltasse, ela tivesse resolvido ir embora. O simples fato é que ele precisava da única coisa que ela lhe negara. Um compromisso. Voltando-se da janela, ele veio até o monitor e se forçou a ler.
- Bom dia. - disse Gina, da porta. O sorriso dela era ligeiro e brilhante, não só pelo prazer de vê-lo ali, mas também pelo fato de que a sua noitada no Armagedon não tivera as conseqüências que ela temia. Gina estava se sentindo ótima.
- Seu pão está velho.
- Mmmm. - ela experimentou uma pontinha do que estava em cima da mesa. - Você tem razão, está mesmo. - Café era sempre uma pedida melhor. - Tem alguma coisa no noticiário com a qual eu deva me preocupar?
- Está interessada na compra da Renoverde?
Gina esfregou um olho com os nós dos dedos enquanto provava a primeira xícara de café.
- O que é Renoverde, e quem a está comprando?
- Renoverde é uma empresa de reflorestamento, daí o nome tão adorável. Eu sou a pessoa que a está comprando.
- Logo vi. - e gemeu. - Estava pensando mais especificamente no caso Brown. Os funerais de Lilá estão marcados para amanhã. Ela era importante o bastante, e católica o bastante, para conseguir a Catedral de Saint Patrick, na Quinta Avenida.
- Você vai?
- Se conseguir remarcar alguns compromissos. E você?
- Eu vou. - Pensando no assunto, Gina se encostou na bancada. - Pode ser que o assassino esteja lá.
Ela o observou enquanto ele analisava o monitor. Harry deveria parecer deslocado em sua cozinha, analisou, com aquele terno de linho caro, muito bem cortado, e a exuberante juba jogada para trás do rosto marcante. Ela vivia esperando que ele parecesse deslocado ali com ela.
- Algum problema? - murmurou, sabendo muito bem que ela estava olhando para ele.
- Não. Estou com algumas coisas na cabeça. O quanto você sabe a respeito de Angelini?
- Marco? - Harry franziu os olhos por causa de algo que viu no monitor, pegou o notebook e fez uma anotação. - Nossos caminhos se cruzam com freqüência. Normalmente ele é um homem de negócios cauteloso e um pai sempre dedicado. Prefere passar mais tempo na Itália, mas a base de seus negócios é aqui em Nova York. Contribui generosamente para a Igreja Católica.
- Ele vai sair ganhando financeiramente com a morte de Lilá Brown. Talvez seja só uma gota no oceano, mas Neville já está pesquisando.
- Você poderia ter me perguntado. - murmurou Harry. - Eu teria lhe contado que Marco está em dificuldades financeiras. No entanto, não está desesperado. - emendou ao ver o olhar de Gina se aguçar. - Fez algumas aquisições pouco recomendáveis no ano passado, ou pouco mais.
- Você disse que ele era cauteloso.
- Disse que normalmente ele era cauteloso. Comprou vários artefatos religiosos sem tê-los autenticado com o devido cuidado. O entusiasmo atrapalhou o seu tino para os negócios. Todas as peças eram falsificadas e ele perdeu muito dinheiro.
- Muito, quanto?
- Mais de três milhões. Posso lhe conseguir o valor exato, se for preciso. Ele vai se recuperar. - acrescentou Harry com um desdém, pelos três milhões de dólares com os quais Gina sabia que jamais se acostumaria. - Ele agora vai ter de se concentrar nos negócios, e enxugar um pouco aqui e ali. Diria que o seu orgulho ficou mais ferido do que a carteira de títulos.
- Quanto vale a parte de Lilá Brown na Mercury?
- Pelo valor atual de mercado? - Pegou a agenda de bolso e digitou alguns números. - Alguma coisa entre seis e sete.
- Milhões?
- Sim. - respondeu Harry com um princípio de sorriso nos cantos dos lábios. - É claro.
- Meu bom Deus! Não é de estranhar que ela vivesse como uma rainha!
- Marco fez alguns investimentos muito bons para ela. Devia querer que a mãe dos filhos dele levasse uma vida confortável.
- Você e eu temos idéias completamente diferentes a respeito de conforto.
- Pelo jeito, sim. - Harry guardou a agenda e se levantou para tornar a encher a sua xícara, e a de Gina, com café. Um ônibus aéreo fez estrondo junto da janela, seguido por uma frota de pequenas aeronaves particulares. - Você está achando que Marco a matou para recuperar as perdas?
- Dinheiro é um motivo que nunca sai de moda. Eu o interroguei ontem. Sabia que alguma coisa não estava se encaixando. Agora está começando a fazer sentido.
Ela pegou a xícara cheia que ele lhe estendeu, foi andando até a janela, onde o nível de ruído já estava aumentando, e depois voltou. Seu robe estava escorregando do ombro. Com um gesto distraído, Harry o recolocou no lugar. Passageiros entediados, muitas vezes, carregavam visores de longo alcance para usar em oportunidades como aquela.
- Depois, tem aquela história de divórcio amigável, - continuou ela - mas de quem foi a idéia? Divórcio é uma coisa complicada para os católicos quando há crianças envolvidas. Eles não precisam de algum tipo de autorização?
- Dispensação. - corrigiu Harry. - É um negócio complicado, mas Lilá e Marco tinham ligações com o pessoal da alta hierarquia.
- Ele não voltou a se casar. - assinalou Gina, colocando o café de lado. - Não consegui descobrir nem um vestígio de uma acompanhante séria ou estável para ele. Lilá, porém, estava tendo um relacionamento longo e íntimo com Simas Finnigan. Como será que Marco Angelini se sentia vendo a mãe de seus filhos se aninhando nos braços de um sócio?
- Se fosse comigo, eu matava o sócio.
- Se fosse com você. - disse Gina, com uma olhada rápida. - Imagino que você ia matar os dois.
- Você me conhece tão bem. - Caminhou em direção a ela e colocou as mãos em seus ombros. - Com relação ao aspecto financeiro, é melhor você considerar o fato de que, qualquer que fosse a parte de Lilá na Mercury, a parte de Marco era a mesma. Eles detinham partes iguais da empresa.
- Droga! - Ela lutava com a idéia. - Mesmo assim, dinheiro é dinheiro. Tenho de seguir essa pista até conseguir uma nova. - Ele continuava parado na frente dela, com as mãos segurando-lhe os ombros e o olhar grudado no dela. - O que está olhando?
- O brilho dos seus olhos. - Ele tocou os lábios dela com os dele, e depois repetiu o gesto. - Tenho um pouco de afinidade com Marco, porque me lembro de como é estar do outro lado de um olhar como o seu, com esta tenacidade.
- Você não matou ninguém. - lembrou a ele. - Ultimamente.
- Ah, mas você não tinha certeza disso naquela época, e mesmo assim ficou... atraída. Agora, nós estamos... - O comunicador do seu relógio de pulso tocou. - Inferno! - Beijou-a novamente, rápido e distraído. - Vamos ter de voltar a esse assunto mais tarde. Tenho uma reunião.
Era melhor assim, pensou Gina. Sangue quente interfere na sensatez.
- Vejo você mais tarde, então, Harry.
- Lá em casa?
- Sim, na sua casa, claro. - e balançou a xícara de café. Uma centelha de impaciência surgiu nos olhos dele enquanto abotoava o paletó. A pequena saliência em seu bolso o fez lembrar.
- Quase ia me esquecendo. - falou. - Trouxe um presente da Austrália para você.
Com uma certa relutância, Gina aceitou a pequena caixa de ouro. Ao abri-la, a relutância se esfacelou. Ela não cabia em si de choque e pânico.
- Meu Deus, Harry! Você enlouqueceu?
Era um diamante. Ela sabia o suficiente para ter certeza. A pedra estava presa a um cordão de ouro e brilhava como fogo. Tinha o formato de lágrima, e era tão comprida e larga quanto a articulação do polegar de um homem.
- O nome desta gema é Lágrima do Gigante. - disse ele com casualidade, enquanto a retirava da caixa, o cordão por cima da cabeça de Gina. - Foi extraída há mais ou menos cento e cinqüenta anos. Por acaso, foi a leilão enquanto eu estava em Sydney. - Deu um passo para trás e analisou os reflexos poderosos que emitia em contraste com o simples robe azul que ela usava. - E, combina com você. Eu sabia que ia combinar. - Então, olhou para ela e sorriu - Ah, estou vendo que você achou que o presente era um kiwi. Bem, quem sabe da próxima vez? - Quando ele se inclinou para lhe dar um beijo de despedida, ela o impediu, dando um tapa em seu peito. - Qual é o problema? - perguntou surpreso.
- Isso é loucura! Você não pode esperar que eu aceite um presente como este!
- Mas de vez em quando você usa jóias. - e para provar sua tese, balançou o dedo sobre o brinco de ouro que ela trazia pendurado na orelha.
- Sim, e eu as compro em uma barraquinha na calçada da Avenida Lexington.
- Pois eu não. - disse ele com naturalidade.
- Pegue isso de volta.
Gina começou a tirar o cordão, mas ele fechou as mãos sobre as dela.
- Não combina com o meu terno. Gina, ganhar um presente não é motivo para que todo o sangue do seu rosto desapareça. - Subitamente exasperado, ele lhe deu uma sacudidela. - Coloquei o olho nisso e, na hora, estava pensando em você. Droga, estou sempre pensando em você! Comprei-o porque eu a amo. Cristo, quando é que você vai engolir isso?
- Você não vai fazer isso comigo. - Disse a si mesma que estava calma, bem calma. Porque estava certa, absolutamente certa. O gênio forte dele não a preocupava, Gina já o tinha visto explodir. A pedra, porém, lhe pesava no pescoço, e o que ela temia que a jóia representasse, isto sim, a preocupava de verdade.
- Não vou fazer isso com você? Isso o quê, exatamente, Gina?
- Você não vai me dar diamantes. - Aterrorizada e furiosa, ela se afastou dele. - Não vai me pressionar a aceitar o que eu não quero, ou ser o que não posso ser. Você pensa que eu não sei o que vem fazendo nos últimos meses. Acha que sou burra?
- Não, não acho que você seja burra. - seus olhos brilhavam, duros como a pedra que pendia entre os seios dela. - Acho que é covarde.
Ela levantou o punho automaticamente. Ah, como ela adoraria tê-lo usado para apagar aquele olhar que viu em seu rosto, um ar de desprezo de quem se considera virtuoso! E, se ele não estivesse certo, ela o teria atingido. No entanto, ela usou outras armas.
- Você acha que pode me tornar dependente de você, e pode fazer com que eu me acostume a viver naquela sua fortaleza glorificada, desfilando em roupas de seda. Bem, saiba que eu não ligo a mínima para nenhuma dessas coisas.
- Eu sei muito bem disso.
- Não preciso da sua comida elegante, nem dos seus presentes finos, nem de suas palavras sofisticadas. Já entendi o padrão, Harry. Basta ficar repetindo “eu te amo” a intervalos regulares até ela aprender a responder “eu também”, como uma cadelinha bem treinada.
- Como uma cadelinha! - repetiu ele enquanto a fúria se transformava em gelo. - Estou vendo que estava errado... Você é burra sim. Está realmente achando que isto é um jogo de poder e controle? Pois faça como quiser! Estou cansado de ver você atirar os meus sentimentos de volta na cara. Foi um erro ter permitido, mas isso pode ser consertado.
- Eu nunca...
- Não, você nunca. - interrompeu, com frieza. - Nem por uma vez arriscou o orgulho, dizendo as mesmas palavras de volta. Mantém este lugar como um alçapão para fuga, em vez de se comprometer em ficar comigo. Eu deixei que você traçasse a linha divisória, Gina, mas agora a estou mudando de lugar. - Não era apenas a raiva que o impelia, naquele momento, e também não era apenas a dor. Era a verdade. - Eu quero tudo, Gina - disse de modo direto - ou então não quero nada.
Ela não ia entrar em pânico. Ele não ia deixá-la apavorada, como um novato na primeira ronda.
- E o quê, exatamente, você quer dizer com isso, Harry?
- Quero dizer que sexo não é o suficiente.
- Não se trata apenas de sexo. Você sabe que...
- Não, não sei. A escolha é sua agora. Sempre foi. Só que agora é você que vai ter de me procurar.
- Ultimatos me deixam revoltada.
- Que pena! - e lançou-lhe um último olhar. - Adeus, Gina.
- Você não pode simplesmente sair...
- Ah, posso. - e não olhou mais para trás. - Posso sim.
Gina ficou de queixo caído quando o ouviu bater a porta. Por um instante ela simplesmente ficou ali, em pé, rígida, com o sol se refletindo na jóia em volta do pescoço. Então, começou a tremer. De raiva, é claro, disse para si mesma, e arrancou o precioso diamante, atirando-o sobre a bancada.
Então ele achou que ela ia sair rastejando atrás dele, implorando para que ficasse? Bem, ele podia ficar esperando por isso até o próximo milênio. Gina Weasley jamais rastejava, e jamais implorava.
Fechou os olhos de encontro a uma dor mais contundente do que o choque de uma arma a laser. Afinal, quem é Gina Weasley? Ponderou. E não será isso o núcleo de tudo?
Ela reprimiu aquilo. Que escolha tinha? O trabalho vinha em primeiro lugar. Tinha de vir. Se ela não fosse uma boa policial, não era nada. Ia se sentir vazia e indefesa como a criança que fora, abandonada, traumatizada e com um braço quebrado, em um beco escuro de Dallas.
Ela poderia se enterrar no trabalho. Nas exigências e pressões dele. Quando estava diante do comandante Lupin, em sua sala, era apenas uma detetive com um assassinato nas mãos.
- Lilá tinha muitos inimigos, comandante.
- E todos nós não temos? - Seus olhos estavam novamente claros, atentos. O luto não podia ter um peso maior do que a responsabilidade.
- Neville fez uma lista dos condenados por ela. Estamos dissecando cada um deles, nos concentrando primeiro nos que pegaram prisão perpétua, seus amigos e pessoas ligadas. Alguém que ela tenha enjaulado para sempre deve ter o maior desejo de vingança. A seguir, pela ordem, vêm as pessoas com desvios de comportamento não corrigidos. Estas, às vezes, escapam pelas frestas. Ela colocou muitas delas em instituições para tratamento mental, e é possível que algumas tenham conseguido receber alta.
- Isso dá um bocado de trabalho, e muita pesquisa de computador, Weasley.
Este era um aviso sutil a respeito das restrições orçamentárias, mas ela preferiu ignorar.
- Agradeço muito que o senhor tenha colocado Neville neste caso comigo. Não conseguiria analisar todos esses dados sem ele. Comandante, esses passos são o procedimento-padrão, mas eu não acho que este tenha sido um ataque com motivação profissional contra a promotora.
Ele se recostou e inclinou a cabeça, aguardando.
- Creio, senhor, que foi algo pessoal. Ela estava escondendo alguma coisa. Para protegê-la, ou a outra pessoa. Ela apagou a gravação da última ligação do tele-link.
- Li seu relatório, tenente. Está me dizendo que acredita que a promotora Brown estava envolvida em algo ilegal?
- Está me perguntando isso na condição de meu amigo ou como meu comandante?
Ele rangeu os dentes antes de conseguir se controlar. Após uma breve luta interna, concordou com a cabeça.
- Bem colocado, tenente. A pergunta foi feita pelo comandante.
- Não sei se era ilegal. Na minha opinião, a esta altura da investigação, havia algo na gravação que a vítima queria que permanecesse confidencial. E foi importante o suficiente para fazê-la se vestir e sair novamente, na chuva, para se encontrar com alguém. Quem quer que fosse, tinha certeza de que ela viria sozinha, e não deixaria nenhum registro do contato. Comandante, preciso conversar com o resto dos familiares da vítima, seus amigos mais chegados, sua esposa.
Ele já havia aceitado este fato, ou pelo menos tentara. Durante toda a sua carreira, ele trabalhara duro para manter seus entes queridos longe do asqueroso ar que rodeava o seu trabalho. Agora, ia ter de expô-los.
- Você tem meu endereço, tenente. Vou entrar em contato com minha esposa agora e dizer que ela deve aguardá-la.
- Sim, senhor. Obrigada.
Anna Lupin tinha construído um belo lar na casa de dois andares que ficava na rua tranqüila do elegante bairro de White Plains, ao norte da cidade. Ela criara os filhos ali, e os criara bem, escolhendo a profissão de mãe em vez da carreira de professora. Não foi o salário que o Estado pagava às mães em tempo integral que a convencera a isto, e sim a emoção de estar presente em cada estágio do desenvolvimento das crianças.
Fez por merecer o salário. Agora, com os filhos crescidos, fazia jus ao salário de aposentada, usando a mesma dedicação para cuidar da casa, do marido e da sua reputação como anfitriã impecável. Sempre que podia, enchia a casa com os netos. E, à noite, promovia jantares animados.
Anna Lupin detestava a solidão.
Estava sozinha, porém, quando Gina chegou. Como sempre, estava muito bem arrumada; a maquiagem tinha sido aplicada de modo cuidadoso e profissional, e seus cabelos louro-pálidos estavam presos em um coque elegante, que combinava com o rosto atraente.
Usava um vestido de algodão americano de boa qualidade e estendeu a mão, adornada apenas com a aliança de casamento, para receber Gina.
- Tenente Weasley, meu marido avisou que a senhorita viria.
- Desculpe a intromissão, senhora Lupin.
- Não se desculpe. Sou esposa de um policial. Entre. Preparei uma limonada. Infelizmente, é artificial. Frutas frescas ou congeladas são difíceis de conseguir, e está um pouco cedo para limonada, mas senti vontade de tomar um pouco, pela manhã.
Gina deixou Anna conversar à vontade enquanto caminhavam para a sala de estar em estilo formal, com suas cadeiras de encosto duro e sofá de quinas delineadas. A limonada estava ótima e Gina a elogiou após beber o primeiro gole.
- A senhorita já sabe, tenente, que a cerimônia do funeral está marcada para amanhã, às dez da manhã.
- Sim, senhora. Estarei lá.
- Já chegaram tantas flores... Fizemos acertos para que elas sejam distribuídas depois do... Ora, mas não é para isso que a senhorita veio até aqui.
- A promotora Brown era uma boa amiga da senhora.
- Era uma boa amiga, minha e de meu marido.
- Os filhos dela estão com a senhora?
- Sim, eles... acabaram de sair, com Marco, para conversar com o arcebispo a respeito da cerimônia.
- São muito ligados ao pai.
- Sim.
- Senhora Lupin, por que eles estão hospedados aqui, em vez de ficar com o pai?
- Nós todos achamos melhor. A casa, quer dizer, a casa de Marco, tem tantas lembranças! Lilá morou lá, quando as crianças eram pequenas. Depois, tem a mídia. Eles não têm o nosso endereço, e queríamos manter as crianças longe dos repórteres. Eles estão esmagando o pobre Marco. Amanhã será diferente, é claro.
As mãos bem-cuidadas puxaram a barra do vestido, na altura do joelho, e a seguir se aquietaram novamente.
- Eles vão ter de encarar isso. Ainda estão em estado de choque. Até mesmo Randall. Estou falando de Randall Slade, noivo de Mirina. Ele era muito chegado a Lilá.
- Ele também está aqui.
- Sim, jamais abandonaria Mirina em um momento como esse. Ela é uma jovem muito forte, tenente, mas mesmo as mulheres fortes necessitam de um ombro para se recostar de vez em quando.
Gina bloqueou a imagem de Harry que surgiu em sua cabeça. Como resultado do esforço, sua voz ficou um pouco mais formal do que normalmente quando conduziu Anna pelas perguntas de praxe.
- Tenho me perguntado o tempo todo, tenente, o que poderia tê-la feito ir até uma região como aquela. - concluiu Anna. - Lilá era teimosa, e certamente muito determinada, mas raramente era impulsiva, e jamais tola.
- Ela conversava com a senhora, trocava confidências.
- Éramos como irmãs.
- Será que ela teria lhe contado se estivesse com problemas de algum tipo? Ou se alguém próximo a ela estivesse com problemas?
- Penso que sim. Ia lidar com aquilo por conta própria, a princípio, ou pelo menos tentaria. - Seus olhos ficaram cheios d’água, mas as lágrimas não caíram. - Mais cedo ou mais tarde, porém, acabaria se abrindo comigo.
Se tivesse tempo para isso, pensou Gina.
- A senhora consegue se lembrar de alguma coisa que estivesse preocupando a sua amiga?
- Nada importante. O casamento da filha; ficar mais velha. Costumávamos brincar a respeito de ela estar próxima de se transformar em avó. Não. - continuou Anna com uma risada, ao reconhecer o olhar de Gina - Mirina não está grávida, embora isso fosse trazer alegria à sua mãe. Lilá estava sempre preocupada também com David: será que ele vai se estabilizar? Será que ele está feliz?
- E ele está?
Outra nuvem se formou em seus olhos antes que ela os baixasse.
- David é muito parecido com o pai, tenente. Gosta de se meter em esquemas comerciais e políticos. Viaja muito a negócios, sempre procurando novos mercados, novas oportunidades. Não há dúvida de que é ele que vai assumir a empresa, se, e quando, Marco resolver passar o timão.
Hesitou um pouco, como se estivesse a ponto de acrescentar alguma coisa, mas então, sutilmente, mudou de assunto.
- Mirina, por outro lado, prefere morar sempre no mesmo local. Administra uma butique em Roma. Foi onde ela conheceu Randall. Ele é um estilista. A loja dela, agora, só trabalha com a linha dele. Randall é muito talentoso. Esta roupa foi feita por ele. - completou, indicando o vestido esbelto que estava usando.
- É lindo. Então, até onde a senhora sabe, a promotora Brown não tinha motivos para se preocupar com os filhos. Não há nada que a fizesse se sentir na obrigação de consertar ou acobertar?
- Acobertar? Não, claro que não! Os filhos são pessoas brilhantes e bem-sucedidas.
- E o ex-marido? Está com dificuldades financeiras?
- Marco? Está? - Anna colocou a idéia de lado. - Estou certa de que ele vai fazer com que tudo se arranje. Jamais compartilhei o interesse de Lilá pelos negócios.
- Então ela estava envolvida em negócios. Diretamente?
- Claro. Lilá insistia em saber exatamente o que estava acontecendo, e
queria ter voz ativa. Jamais entendi como é que ela podia manter tantas coisas na cabeça. Se Marco estivesse em dificuldades ela saberia, e provavelmente ia sugerir meia dúzia de idéias para ajustar as coisas. Era simplesmente brilhante. - Quando a voz falhou, Anna levou a mão aos lábios, pressionando-os.
- Sinto muito, senhora Lupin.
- Não, está tudo bem. Já estou melhor. Ficar com as crianças aqui ajudou muito. Sinto que posso apoiá-la estando com eles aqui. Não posso fazer o que a senhorita faz, e sair em busca do assassino, mas posso apoiá-la ficando com as crianças.
- Eles têm muita sorte por terem alguém como a senhora. - murmurou Gina, surpresa consigo mesma por se ouvir dizer isso com tanta sinceridade. Era estranho, pois Gina sempre considerara Anna Lupin ligeiramente chata. - Senhora Lupin, poderia me falar a respeito do relacionamento entre a promotora Brown e Simas Finnigan?
Anna adotou uma postura impassível.
- Eles eram bons amigos, muito chegados.
- O senhor Finnigan me afirmou que eles eram amantes. - Anna bufou baixinho.
Era uma mulher tradicional, e não tinha vergonha disso.
- Muito bem, tenente, é verdade. Mas ele não era o homem certo para Lilá.
- Por quê?
- Simas quer as coisas sempre ao jeito dele. Eu gosto de Simas, e ele era uma ótima companhia para Lilá. Mas uma mulher não pode ser completamente feliz quando volta para um apartamento vazio na maior parte das noites para dormir em uma cama também vazia. Ela precisava de um companheiro. Simas queria ter as duas coisas, e Lilá se iludia, achando que também queria isso.
- E ela não queria.
- Não devia querer. - Anna estalou a língua, obviamente por estar entrando em uma antiga discussão. - Trabalho não é o bastante, como eu me cansei de dizer para ela. Ela simplesmente não se sentia envolvida o bastante com Simas para arriscar.
- Arriscar?
- Estou falando de risco emocional. - disse Anna impaciente. - Vocês, policiais, levam tudo ao pé da letra. Lilá queria sua vida organizada, em vez da confusão de um relacionamento de tempo integral.
- Eu tive a impressão de que o senhor Finnigan se ressentia disso, e que a amava muito.
- Se a amava, por que não forçou a situação? - quis saber Anna, e as lágrimas ameaçaram rolar. - Lilá não teria morrido sozinha, não é? Não estaria sozinha naquele momento.
Gina estava saindo do bairro sossegado e, por impulso, estacionou o carro junto do meio-fio, recostando-se no banco. Precisava pensar. Não a respeito de Harry, assegurou a si mesma. Não havia nada a pensar. Já estava tudo resolvido.
Seguindo um palpite, conectou-se ao computador em sua sala e o colocou para pesquisar sobre David Angelini. Se ele era como o pai, talvez também tivesse feito alguns maus investimentos. Já que estava conectada, ordenou uma busca em Randall Slade e na butique em Roma.
Se não surgisse nada, ela daria uma olhada nos vôos da Europa para Nova York. Droga, uma mulher que não tinha nada a temer não abandonava um apartamento seco e quentinho no meio da noite.
Teimosa, Gina refez todos os passos de cabeça. Enquanto pensava nisso, olhou em volta, para a vizinhança. Árvores antigas espalhavam suas sombras sobre jardins de cartão-postal e casas de um e dois andares construídas em centro de terreno.
Como será que alguém se sentia sendo criado em uma comunidade bonita e arrumada? Será que isto fazia a pessoa se sentir segura e confiante, da mesma forma que ser levada de um lugar imundo para outro, e de uma rua fedorenta para outra a tornariam tensa e sombria?
Talvez ali também houvesse pais que entrassem sorrateiramente no quarto das filhas à noite. Mas isto era difícil de acreditar. Os pais dali não fediam a bebida barata e suor, nem tinham dedos grossos que violavam carne inocente.
Gina se viu balançando para a frente e para trás no banco, e engoliu um soluço. Ela não ia passar por aquilo. Não ia se lembrar. Não ia permitir que aquele rosto se formasse e se avolumasse no escuro, nem lembrar o gosto daquela mão grudada na sua boca para abafar os gritos.
Ela não faria isso. Era algo que acontecera com outra pessoa, uma garotinha cujo nome ela nem conseguia se lembrar. Se ela tentasse, se permitisse a si mesma se lembrar de tudo, ela se tornaria aquela criança indefesa novamente e perderia Gina.
Recostou a cabeça no banco e procurou se acalmar. Se não estivesse submersa em auto-piedade, teria notado a mulher que quebrou a janela lateral da casa de um só pavimento, no outro lado da rua, antes mesmo de o primeiro caco cair no chão.
Diante daquilo, Gina olhou de cara feia e se perguntou por que parara justamente naquele lugar. Ficou pensando se ia mesmo querer o aborrecimento de encarar a papelada por atuar fora de sua jurisdição.
Então, pensou na boa família que chegaria em casa, mais tarde, para verificar que suas coisas tinham sido roubadas. Soltando um suspiro longo e sentido, saiu do carro.
A mulher já estava com metade do corpo do lado de dentro quando Gina a alcançou. O painel da segurança tinha sido desativado por um misturador de sinais barato, encontrado em qualquer loja de eletrônicos. Balançando a cabeça enquanto pensava na ingenuidade das pessoas em um bairro como aquele, Gina agarrou com força a ladra pelo traseiro, que já estava se remexendo para conseguir passar pela abertura.
- Esqueceu o seu código de entrada, dona?
A resposta que obteve foi um coice bem dado no ombro esquerdo, ao estilo de uma mula. Gina se considerou com sorte pelo chute não ter atingido seu rosto. Mesmo assim, perdeu o equilíbrio e acabou caindo em cima de alguns brotos de tulipas. A suspeita puxou o corpo, voando para trás como uma rolha de champanhe, e saiu correndo pelo gramado.
Se o ombro não estivesse doendo, Gina poderia até tê-la deixado escapar. Mas correu e alcançou sua presa com um vôo que acabou atirando as duas longe, esparramadas sobre um canteiro de amores-perfeitos amarelos.
- Tira as mãos de cima de mim, senão eu te mato! - disse a mulher.
Gina pensou rapidamente que aquela era uma possibilidade real. A mulher era uns dez quilos mais pesada do que ela. Para ter certeza de que isso não ia acontecer, deu-lhe uma cotovelada na traquéia e puxou o distintivo.
- Você está presa.
A mulher virou os olhos para cima, desgostosa.
- Que diabos uma policial da cidade está fazendo aqui? Não sabe onde fica Manhattan, sua idiota?
- Acho que estou meio perdida. - Gina continuou com o cotovelo no pescoço dela, colocando um pouco mais de pressão para sua própria satisfação, enquanto pegava o comunicador e requisitava a patrulha mais próxima.




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