Encurralados. Presos numa ratoeira. Envolvidos na própria arapuca que haviam criado. As ovelhas quiseram dar o golpe no lobo e capturá-lo, mas o lobo fora mais astuto e, fugindo da rede que as ovelhas Harry, Rony e Hermione tinham criado, queria se vingar delas a qualquer custo.
Queria morder as ovelhas, cortar a carne...
Beber o sangue.
A porta abriu lentamente, produzindo um rangido que arrepiou o trio encolhido dentro do armário. Os três recuaram ainda mais, colando nos fundos do armário, o lugar mais distante onde podiam ir.
Em meio ao pânico, Harry procurou ouvir atentamente cada novo ruído...
Não ouviu nada.
Por mais estranho que pudesse parecer, para ele aquilo era ainda pior do que ouvir os passos do assassino, ou o tilintar da lâmina da enorme foice em suas mãos. Rony e Hermione pareciam igualmente aflitos ao seu lado; Rony, trêmulo, cutucou Mione e cochichou:
-Você ainda está com a sua varinha! Use-a! Detenha-o!
-Ainda não – cochichou Mione de volta. – Se colocar o braço pra fora, posso ficar sem! Precisamos escutar os passos, para eu localizá-lo.
-Estou preocupado, Mione – sussurrou Harry. – Não estou ouvindo absolutamente nada.
O trio emudeceu. Ainda o silêncio, o perturbador silêncio, um monstro agourento naquele momento terrível. O único som era o ofegar constante das respirações perturbadas das três ovelhas acuadas.
O silêncio era tanto que Harry escutou a saliva de Rony descendo pela garganta, quando o garoto a engoliu, secamente, antes de dizer:
-Será que ele não desistiu? Será que... ?
O que se seguiu foi muito rápido.
A foice penetrou pelas portas fechadas do armário, fazendo pedaços de madeira voarem; entrou com força, impetuosa, e a ponta da lâmina, afiada e cortante, passou raspando por cima do joelho encolhido de Harry. O garoto sentiu uma gota de suor escorrer por seu rosto, um rastro frio que lhe gelou a espinha.
Enquanto o assassino retirava a foice, arrancando a ponta afiada do fundo de madeira, eles se encolheram, se contorcendo no pequeno compartimento. Rony berrou, em desespero:
-Use a varinha, Mione! A varinha!
Hermione tentou se ajeitar e levantar a varinha. Mas a foice entrou novamente, passando por cima da barriga encolhida de Rony. O sobressalto fez a jovem se encolher e derrubar a tão preciosa varinha.
-Você está bem, Rony? – perguntou ela, após um grito histérico.
-Estou, mas... Caramba, faz alguma coisa, usa a varin...
A foice entrou novamente, mais veloz, sua lâmina cravando-se pouco abaixo da perna de Hermione, arrancando mais pedaços de madeira. Vamp a arrancou, enquanto os três, ofegantes, o desespero em forma de bruxos, se desdobravam, tentando procurar uma posição segura. Mas como definir o lugar em que aquele objeto pontiagudo ia perfurar?
-Ele vai vir de novo... – murmurou Harry, se ajeitando. – Cuidado, pessoal, cuidado...
A foice entrou, acertando e perfurando a perna esquerda de Rony. O garoto soltou um uivo baixinho e impotente de dor, enquanto Hermione dava o berro mais estridente que Harry já ouvira. O sangue começou a empapar as calças jeans que Rony usava, colorindo uniformemente o tecido azulado de vermelho. Ele passou a mão em torno do machucado, enquanto Vamp remexia a lâmina, ainda por dentro da carne, com um sadismo animal; Rony se contorcia em seus uivos doloridos, enquanto Vamp enfiava a lâmina mais e mais. Harry sentiu uma bola de fogo incandescente de ódio envolver-lhe por completo.
Vamp puxou a lâmina toda de uma vez, fazendo com que os lamentos de Rony atingissem o ápice.
Era só o que Harry estava esperando para abrir o que restava das portas do armário e pular em cima do assassino.
Ele avançou com as mãos estendidas. Vamp, pego de surpresa, despencou com o empurrão de Harry. Harry preparou-se para golpeá-lo, mas viu o brilho maligno da foice e percebeu que a arma continuava segura nas mãos do criminoso. Agilmente, saiu de cima do assassino, no instante em que a lâmina cortou o ar no lugar em que estivera instantes antes.
Olhou para trás; Mione se levantava, saindo do armário, enquanto Rony gemia, envolvendo a perna, a mancha vermelha crescendo assustadoramente. Voltou sua atenção para o criminoso. Harry não podia ver-lhe o rosto por debaixo daquela máscara barata de Dia das Bruxas, mas, de alguma forma, teve a certeza de que o rosto oculto estava sorrindo. Um riso de deboche.
Pois era o que ele estava fazendo. Debochando. Havia passado o dedo indicador da mão enluvada pela lâmina impregnada do sangue de Rony, e agora levava o dedo aos lábios, pelo minúsculo espaço da boca da máscara. Em seguida, aproximou a lâmina do rosto e passou a língua por toda ela, num gesto de provocação e maldade.
Nesse curto espaço de tempo, enquanto Harry fitava o maníaco horrorizado, Hermione recuperara a varinha caída dentro do armário e a erguia. Era o ato heróico perfeito...
Seria um ato heróico perfeito, se o criminoso, com um feitiço não-verbal, não a tivesse desarmado. A varinha de Mione voou longe e, naquele instante, o assassino mostrou a eles que resolvera parar de brincar.
Avançou com ímpeto para Harry, com a foice em posição de ataque. Harry desviou-se rapidamente, os pensamentos rodopiando em sua cabeça.
“É impossível sair daqui. Não tem como fugirmos, pois Rony não tem condições de correr, não teria como levá-lo conosco, preciso arranjar um jeito, todos estamos encurralados...”.
Ele se desviou novamente, se abaixando, sentindo o movimento furioso do ar arrepiar seus cabelos, quando a lâmina passou rente a sua cabeça. Naquele momento não se conteve, e precisou dizer em voz alta a conclusão daquele pensamento:
-TODOS estamos encurralados.
Mione, que estava agachada ao lado de Rony, confirmou com um movimento de cabeça, sinalizando que compreendera o pensamento de Harry. A palavra “TODOS” envolvia não somente eles, mas o assassino também.
Se eles estavam sem saída, ele também estava.
Era apenas uma questão de virar o jogo.
O assassino vinha em direção a Harry novamente, dessa vez com a lança mais abaixada, para evitar que o garoto se desviasse. Harry esperou que ele se aproximasse bem, tentando demonstrar o pânico natural que deveria sentir naquela situação, e, quando a foice estava bem próxima, ele se deixou cair de cara no chão. Sentiu uma dor lancinante no queixo, mas, ignorando-a, estendeu a mão e puxou a perna de Vamp.
-Agora, Mione, corra! Busque ajuda!
Hermione saiu correndo da sala sem pensar duas vezes.
Vamp continuava caído no chão, estendendo a mão para o cabo da lança que havia se afastado. Seus dedos tocavam o cabo quando Harry esmagou-lhe a mão enluvada.
-Nem pense nisso – falou o garoto, com a voz fria. – Você não vai matar mais ninguém. Você está encurralado, será preso daqui a pouco...
Harry, infelizmente, esqueceu-se da varinha do assassino... A outra mão do criminoso acabava de entrar no bolso da longa capa negra e puxava a varinha com rapidez, num ato de puro pânico.
-ESTUPEFAÇA! – brandiu a voz rouca, indefinível, lançando Harry pelos ares com o jato de luz avermelhada.
Com um aceno de varinha, Vamp fez a foice desaparecer; em seguida deu a impressão de brandir o encantamento contra si próprio, pois sumiu rapidamente da sala, temendo ser acuado pelos professores que Hermione Granger poderia chamar.
Percorreu o corredor azulado com o coração aos pulos, a capa esvoaçando as costas.
Chegou na primeira dobra. Entre aquele caminho e seguir em frente, escolheu aquele, entrando na primeira sala vazia que encontrou e se escondendo nela para despir a fantasia de maníaco.
Ainda despia a longa capa negra quando passos apressados, dezenas de passos, passaram na frente da sala.
-Por aqui, professor... – Vamp ouviu a voz de Hermione Granger comandando. Aquela realmente era o grupo que ela conseguira reunir para capturá-lo. – Rápido, temos que acuá-lo! Se chegarmos até ali, ele não terá mais saída!
O mar de passos se afastou. Vamp esperou o suficiente. Tirou a máscara e escondeu-a debaixo da empoeirada mesa de professor, juntamente com a capa. Arrancando as luvas, ajeitou a roupa e saiu discretamente, em direção à multidão que corria, afoita, para pegar ele mesmo.
* * *
-Minha nossa, o que aconteceu? – perguntou Curtis a Dino Thomas, quando conseguiu se aproximar da multidão.
-Não sei direito – respondeu Dino. – Mas parece ser algo relacionado com o assassino dos alunos Anne e Paul.
-Curtis! Curtis! – Dennis se aproximava, ofegante, correndo, e entrava no fim da multidão. – Ouvi duas segundanistas lá atrás comentando que isso tudo aí, é algo relacionado com a Granger... Que é ela quem está comandando tudo...
-A minha Hermione? Minha querida gostosa?
-É – Dennis deu uma risadinha. – Pra você ver, Curtis, acho que ela está precisando de uns agrados...
-Vou tentar chegar mais perto – falou Curtis, se embrenhando no meio da multidão que se apertava no corredor estreito.
-E então, vai escrever sobre esse acontecimento no seu diário? – perguntou uma voz familiar ao ouvido de Dennis. Antes de se virar e encontrar os olhos misteriosos que o encaravam, já sabia que se tratava de Marylin.
-Talvez – respondeu ele. – Mas, de qualquer forma, isso não é da sua conta. Aliás, onde estava? Vendo isso tudo na sua mágica bola de cristal?
-De qualquer forma, isso não é da sua conta – devolveu Marylin. – Mas, me responda, por que um garoto ia querer um diário?
-Por que uma bruxa sem dom de vidência algum ia querer uma bola de cristal? – perguntou Dennis, ríspido, avançando um pouco em seguida para se afastar da garota.
Vanda chegava naquele momento. Acenou para Padma, que estava no meio da multidão e, com nítido esforço, recuou para se aproximar da amiga.
-Você que está do lado da maré é quem devia ir até mim, e não o contrário – comentou Padma, ofegante.
-O que houve aí?
-A Hermione Granger saiu aos gritos dessa direção, alertando todo mundo sobre o tal assassino, disse que o tinham encurralado.
-Cadelinha, vem! – chamou a voz de Buddy Strogne, que acabava de chegar, as costas de Vanda, como se chamasse um cachorro. Era imperceptível com a estranha luminosidade dos archotes de chamas azuis, mas Vanda ruborizou-se fortemente. – Existem certos animais... – começou Buddy, soltando indiretas para a jovem, como se conversasse com alguém – que não obedecem ao dono como deveriam, que demoram a começar a agir. Parece não se tocar que o dono tem a coleira dela na mão, e tenta desobedecer...
-Buddy! – chamou Draco, aproximando-se, correndo. – Que palhaçada é essa?
-Não sei direito, mas... Você já viu minha cadela, Draco?
Buddy apontou para Vanda, o que fez Draco cair na gargalhada. Crabbe se juntou a eles em seguida, vindo não se sabia de onde; Draco e Buddy começaram a chamar Cadelinha, Cadelinha! no que foram igualmente acompanhados por Crabbe, que tinha vindo do banheiro, segundo ele, e, em seguida, por Goyle, que chegou com um sapo de chocolate na boca e dizia as provocações com a voz pastosa.
-Mas, falando sério agora – disse Draco, enxugando as lágrimas, quando a multidão parou e não podiam mais caminhar. – Isso, de movimentar escola inteira, parece ser coisa do Potter.
Juliana Cabot chegava ajeitando a roupa. Quando Vicky se aproximou dez segundos depois, comentou com ela que Harry devia estar envolvido no incidente.
-Será que aconteceu algo com ele? – sugeriu Vicky, horrorizada.
-Espero que não – Juliana suspirou, aflita. – Mas não tem como saber, tudo o que sei é que viram a Granger, e só ela...
-Granger? – perguntou uma voz. Elas se viraram. Era Jack. – Hermione Granger? – as duas confirmaram com a cabeça. – Caracas, Richard vai tomar um susto... E Gina, então...
-O que tem a gente? – perguntou Richard as costas do rapaz.
-O que fazem aqui?
-Nós estávamos passando aqui perto, e vimos você entrando correndo por esse corredor, aí viemos ver o que era...
-Então... É justamente isso que ia dar um susto em vocês... Principalmente em você, Gina...
-Por que? – a voz de Gina se tornou aflita. – Diga-me, por que, Jack?
-Bem, é que... Eu sei que é algo relacionado com o assassino, que matou os outros alunos, sabe? Então... E disseram que viram a Granger... Aí, pensei, e você também vai pensar... Onde está Granger... É só ligar... Granger... Potter...
-Rony – ofegou Gina. – Meu irmão! E Mione e Harry, oh, o que houve? Eu preciso... – e, dizendo isso em desespero, começou a abrir caminho entre as pessoas, pouco ligando se estava empurrando ou machucando alguém; sabia apenas que precisava chegar ao fim daquela multidão, saber o que havia acontecido com os três, precisava vê-los bem...
A fila de estudantes curiosos se encerrava na porta de uma sala de aula. Gina estava quase se aproximando da porta quando a Professora McGonagall saiu da sala, orientando com a varinha uma maca branca. Sobre a maca, gemendo e com as jeans ensopadas de sangue, estava Rony.
Gina correu para perto do irmão, acompanhando o movimento da maca, em desespero.
-Rony? – engasgou. – O que aconteceu?
Mas Rony era incapaz de responder; a dor era lancinante, e o impossibilitava totalmente de emitir qualquer som que não fossem os uivos de dor.
Hermione saiu da sala e envolveu os ombros de Gina.
-Vamos até a ala hospitalar com ele – falou Hermione. – Lá contamos tudo.
Fez um sinal, chamando Harry, que as acompanhou também. Eles atravessaram a multidão curiosa, que fazia perguntas, apontava assombrada, fazia piadas e suspirava de alívio ao saber que não havia nenhum morto.
Entre os suspiros de alívio, estava o de Juliana Cabot, que suspirou ao ver Harry Potter passando próximo a ela. Pálido, trêmulo, suado, mas o Harry Potter que ela amava, sem ferimentos, vivo.
* * *
-Totalmente imprudente – falou Gina, balançando a cabeça, após Hermione relatar tudo o que ocorrera, desde o plano até sua terrível conclusão. As duas estavam com Harry, parados em frente às portas fechadas da ala hospitalar. – Como vocês têm a brilhante idéia de se oferecer para esse lunático? Vocês se ofereceram, colocaram-se num... Num prato na frente dele, ele com a faca e o garfo nas mãos, pronto para decepá-los, pedacinho por pedacinho, e ainda queriam sair ilesos, vivos, felizes e sem ferimento algum?
-Era a única forma que encontramos de capturá-lo, Gina – explicou Harry. – Não temos como apontá-lo no meio de mais de mil alunos, então, tivemos que destacá-lo deles, arranjar uma forma de atraí-lo. E o único jeito era fazendo-o pensar como você, fazendo-o acreditar que Rony era o prato perfeito.
-“O prato perfeito”... – disse Gina, com desprezo e amargura. – E no final acabou sendo, não é? Não foi morto, mas ganhou um grande corte...
-Gina, procure entender – insistiu Mione. – Foi tudo cuidadosamente planejado, mas qualquer coisa tem chances de dar errado, e... Infelizmente deu – ela suspirou. – Foi horrível, a coisa mais horrível que já passei. Podia jurar que nunca sairia daquele armário viva, nem eu, nem Rony, nem Harry. Podia ter sido muito pior, se quer saber. Ele enfiou a lâmina da foice várias vezes, variando os locais... Houve risco de perfurar a cabeça de um de nós, o coração, o estômago – ela fez uma careta de repugnância. – Qualquer coisa... Foi muita sorte só ter atingido a perna do Rony. Era para estarmos mortos a essa hora.
-É verdade – Gina respirou fundo, enquanto enxugava as lágrimas. – Desculpem... Eu, aqui, ralhando com vocês, me esquecendo que vocês correram tantos riscos quanto Rony, e que fizeram tudo isso tentando capturar esse maníaco e salvar vidas... Desculpem mesmo... Mas essa situação toda pelo menos serviu para alguma coisa? Vocês conseguiram alguma pista?
-Não. Nenhuma – respondeu Harry, desanimado.
-Mas o assassino teve que se isolar e entrar num corredor que quase ninguém entra. É só perguntar para os amigos e colegas dos suspeitos se...
-Não tem como – interrompeu Harry. – Eis o grande problema. Não temos suspeitos. Não temos um círculo fechado de pessoas para desconfiar. Não temos como interrogar ninguém. Não temos como investigar a fundo tal número de indivíduos. Não... Temos que desconfiar de todos que estão na escola. Justamente por essa razão vimos que não deveríamos atacar através de suspeitos, pois no momento a palavra “suspeitos” abrangeria toda a escola, ou seja, mais de mil pessoas. Tivemos que atacar o lado em que só temos uma pessoa, que é o assassino.
-Agora posso entender com mais clareza toda essa loucura – disse Gina com sinceridade.
-O tiro saiu pela culatra, mas ainda vamos conseguir – falou Harry decidido. – Correr dele não adianta nada. Assim a escola fecha as portas. Não... Temos que enfrentar o inimigo, encará-lo cara a cara. Podem escrever: ou esse assassino nos mata, ou vamos nos tornar o maior pesadelo da vida dele. Porque só morto eu desisto de capturá-lo e descobrir quem se esconde por detrás da máscara de vampiro e desse vício maluco por sangue humano. Seja ele quem for.
* * *
-Tem certeza de que Vanda realmente fará o que você está mandando? – perguntou Draco, na sala comunal da Sonserina.
-Ela está em minhas mãos. Ela pode amar muito aquele paspalho, mas não tanto a ponto de ferrar com a própria inocência. Uma hora ela vai acabar mandando a informação que eu quero. O podre daquele esquisitão, que eu sei que ele tem. Existe algo muito estranho com aquele cara, e eu vou descobrir o que é. A cadela vai me passar o que é, e, quando eu estiver com esse segredo nas mãos, eu acabo com o ridículo do Richard.
* * *
Debaixo das cobertas, dentro do dormitório vazio – quase todos os estudantes estavam ocupados demais discutindo o incidente que envolvera Harry Potter e amigos – , Vanda recordava, em desespero, as palavras de Buddy...
Certos animais... Não obedecem ao dono como deveriam... O dono tem a coleira da cadela na mão...
Vanda buscava inspiração, alguma forma de se livrar da corrente de Buddy sem precisar denunciar o segredo de Richard nem ser presa acusada de assassinato.
-E se eu contar a Richard tudo o que sei? – murmurava para si mesma, debaixo do calor das cobertas. – Sei que você é um vampiro... Fique comigo e vamos embora daqui!... Não, não daria certo... Ele não largaria a Weasley... Mas que seria perfeito, seria! Uma fuga! Uma fuga desesperada, para longe de Buddy, onde ele não poderia fazer mal a ele. Eu e o lendário vampiro apaixonado, juntos para sempre... Mas tem a Weasley. A Weasley! Ele escolheu a Weasley. A lenda dizia que quando ele encontrasse alguém, nunca mais a abandonaria. Ele nunca irá largá-la, nunca mesmo...
Ela chorou um pouco mais.
-Buddy irá cobrar resultados... Em poucos dias! Não posso ferrar a vida de Richard, mas não posso ferrar a minha também. Aquele maldito colar! Aquelas safiras desgraçadas!
Ela se debateu, em fúria.
-A única forma seria a fuga... Fugir pra longe. Mas tenho que levar Richard comigo... Como? Como? A única coisa que tenho nas mãos é o segredo dele. Só eu sei que ele é um vampiro, mas isso de nada adianta. O segredo dele não pode ser revertido para o meu próprio bem, não dá para ser. Eu não tenho nada de especial para ser melhor que a Weasley, nada...
Vanda levou uma mão ao pescoço... Uma idéia... Uma repentina idéia...
O segredo sendo revertido para o seu próprio bem...
-Morda-me aqui – citou, lembrando das pinturas no pescoço que eram moda até poucos dias atrás. – Morda-me, morda-me bem aqui... É isso! – ela gargalhou.
Sentindo-se repentinamente eufórica, Vanda se levantou, arremessando as cobertas pelos cantos do quarto, começando a andar de um lado para outro no dormitório vazio.
-Se Richard me transformar numa igual ficará completamente chocado. Triste... Sem forma de escapar de mim. Teremos que nos isolar juntos, os dois. Unidos para sempre...
Ela sorriu, imagens de felicidade passando por sua mente...
-Mas como fazê-lo me morder? Ele não está com os dentes alongados, não tem vontade alguma de tomar sangue, pois a poção...
Ela se refreou com um sorriso de triunfo.
-A poção... É isso! Destrua a poção e volte a fazer do garoto comum um vampirão.
Vanda gargalhou.
-Morda-me aqui, meu vampiro. Morda-me aqui para sermos felizes e acabarmos com o seu namoro com Gina Weasley e, claro, com o plano de Buddy Strogne em destruí-lo... Vou salvar Richard daquele crápula. É, Buddy, a Cadelinha vai fingir serviço, mas, na verdade, estará te traindo, passando a perna em você. Nesse duelo de titãs, que vença o melhor, digo, a melhor. Eu. Eu vou vencer, Buddy. Pode esperar que a cadela vai vencer... E eu já sei como. Aliás, vou começar é agora.
Agilmente, com passos cuidadosos, Vanda saiu do dormitório. A agitação na sala comunal ainda era intensa; todos estavam demasiado distraídos para verem a saia rodada da garota sumindo para dentro do dormitório masculino... |