-É muito ruim todos ficarem sabendo que você é sobrinho da Scarlett?
-Não é tão ruim, Gina, mas pode se tornar. Existem pessoas que podem se lembrar que fui mordido há anos atrás. Com meu sobrenome verdadeiro nas mãos, podem, de alguma forma, encontrar uma relação.
-É uma hipótese remota...
-Remota, mas é uma hipótese – ele virou o cálice de suco todo de uma vez, como se ali estivesse um calmante poderosíssimo.
-Ah, Alvinho será que não podemos dar uma volta hoje?
Richard e Gina se viraram. Buddy Strogne fazia trejeitos afeminados enquanto Alvinho, um garoto mirrado de óculos gigantescos, entrava no Salão Principal, tão vermelho que era quase possível imaginar vapores saindo dos seus ouvidos.
-Ou você vai estar muito ocupado no COLINho do Colin Creevey? – Buddy começou a gargalhar, sendo acompanhado não só por estudantes da Sonserina como de outras casas também.
Colin levantou-se da mesa da Grifinória, furioso, enquanto arremessava um cálice de suco no chão.
-Isso é uma mentira! – vociferou ele. O salão emudeceu. – Eu nem conheço esse tal moleque, nem entrei naquele labirinto! É tudo mentira!
-Ah... E alguém aqui vai esperar que você diga a verdade? – zombou Buddy, sendo acompanhado por murmúrios de concordância.
-JÁ CHEGA! – ordenou Minerva McGonagall da Mesa Principal. Naquele instante, Harry reparou que Dumbledore estava novamente ausente. – Na próxima piada ou discussão, as partes envolvidas receberão detenções!
Todos se aquietaram, e, aos poucos, os ruídos das conversas voltou ao normal. Harry olhou para o lado e viu, com um nó na garganta, Colin Creevey aos prantos, chorando sem parar.
-Colin? – chamou ele, hesitante. Colin ergueu o rosto e Harry sentiu um nó doloroso no estômago. Nunca tinha visto o garoto tão triste...
-É tudo mentira, Harry. Eu juro. Eu passei a tarde com meu irmão, jogando Snap Explosivo num corredor do quinto andar. O amigo dele estava com a gente, pode até confirmar, se vocês quiserem...
-Colin, se controle!
-Não dá pra suportar, Harry, não dá! Eu tenho provas de que não fui ao labirinto, mas não tem como fazer com que todos os alunos acreditem em mim! Eles acreditam na fofoca do Espião, não tem como mudar isso, e é isso que me irrita, e me descontrola também! Não poder provar... A fofoca já virou fato para eles, estou... Estou perdido...
Harry engoliu em seco. Não havia palavras para consolar Colin. O que ele estava dizendo era verdade. Ele realmente estava perdido; a fofoca já havia adquirido forma de verdade. E estava misturada com fatos verdadeiros na coluna; uma mentira no meio de verdades, verdades maldosas, mas verdades, passaria a ser um fato também.
O Espião estava fazendo tudo direitinho.
-Estou preocupado, Mione, Rony – falou Harry, olhando para os amigos. – Muito preocupado... Acho que não temos somente o assassino da escola para nos preocuparmos.
-Não? – indagou Rony. – Quem mais teríamos? O Espião?
-É. Ele mesmo. Tudo bem, começou com a imagem de uma “simples coluna de fofocas”, que colocaria somente os podres de quem realmente os cometeu, ou seja, algo do tipo tome cuidado de sua vida se não quiser surgir lá, mas... Depois das duas colunas... Vocês podem até tirar sarro, mas... Pra mim, esse tal Espião está se tornando alguém muito perigoso.
-Perigoso? – estranhou Rony.
-Isso mesmo. Perigoso. E mau também. Ele não está publicando somente verdades. Ele está misturando mentiras com verdades, manipulando as mentes dos alunos...
-Ah francamente, Harry – discordou Rony. – Me desculpe, mas não concordo com você. A única coisa ali que não está confirmada é o negócio entre Colin e o tal de Alvinho e, sou obrigado a concordar com Strogne, você acha que eles confirmariam?
Hermione mordeu o lábio.
-Eu concordo com o Harry, Rony. Ele pode muito bem inserir uma mentira, e...
-Ele não coloca mentiras! Se o povo fez algo escondido, e ele captou, ué... Tem que publicar!
Rony distraiu-se, tomando café. Harry e Hermione se aproximaram mais e começaram a conversar aos cochichos.
-Estou dizendo, isso está passando dos limites, Mione. O Espião não tinha o direito de violar a vida das pessoas mesmo com fatos, quanto mais com mentiras!
-O pior é que ele parece fazer com uma satisfação imensa... Usa de piadas e ironias... Ele está se divertindo com a confusão que provoca!
-E o que mais me assusta é o poder que ele está tendo aqui na escola...
-Como assim, poder?
-É só analisar a reação de Rony quando demonstrei minha opinião. Viu como ele acredita no Espião? Então! Esse é o poder dele! Ele pode transformar uma mentira em verdade. Qualquer mentira. É só escrever e publicar, e o que ele quer se transforma em verdade assim – Harry estalou os dedos. – Em segundos.
-E a sua preocupação é de que...?
-De que ele comece a usar esse poder para o mal, e transforme em verdade as piores mentiras possíveis.
* * *
-Entre!
Vicky entrou timidamente na sala do diretor, com os braços cruzados e os passos vacilantes. Tentou sorrir, mas o que conseguiu foi apenas um leve movimento dos lábios.
-A Professora Sprout me contou que você precisava falar urgentemente comigo – falou Dumbledore, detrás de sua mesa.
-Sim. Precisava. Muito. É urgente mesmo. O caso é que... A minha amiga, o nome dela é Anne, desapareceu. Não a encontro em lugar algum, ela nunca mais voltou pra sala comunal, não deixou bilhete, nada...
-Sua amiga, Anne, na verdade não desapareceu. Nós sabemos onde ela está.
A expressão do diretor e o suspiro prolongado do mesmo, que chegou a levantar um pedaço da barba branca, fizeram Vicky estremecer.
-Ela está bem, não está? – perguntou, os dentes começando a se chocar. – Ela foi pra casa? Está em férias adiantadas? Ou mudou de escola?
-Não, lamento, mas, a sua amiga, ela... Está morta.
-O que? – perguntou Vicky. – NÃO! – gritou, começando a chorar. – Não pode ser... A minha amiga, não! É MENTIRA!
-Eu queria dizer que é uma mentira, mas é a verdade. Escondemos o fato para que não causasse pânico na escola.
-Pânico? – perguntou Vicky, entre os soluços. – Por que causaria pânico?
-Por causa do modo que ela morreu. Ela foi brutalmente assassinada.
Vicky se imobilizou, tão subitamente que surpreendeu Dumbledore. As lágrimas cessaram; a face distorcida pela dor tornou-se pálida e fria. Ela se retesou, enquanto secava a umidade do rosto. Não era mais uma expressão de tristeza; era fúria, uma fúria fria e calculista.
-Foi ela... – murmurou Vicky para si mesma, o olhar fixo em um ponto qualquer do aposento.
-O que?
-Foi ela, foi ela, foi ELA! – berrou, descontrolada, enquanto virava uma das mesas do diretor. – Eu acabo, mas eu ACABO com ela... – falou, enquanto saia da sala do diretor, batendo a porta sem a menor preocupação.
-Ela pode estar falando de alguém – disse Dumbledore. – Sprout, tenho assuntos a resolver. Por favor, detenha essa garota antes que ela faça alguma besteira!
Sprout saiu, quase tombando com Minerva McGonagall, que chegava naquele instante, tão pálida que chegava a se assemelhar com um fantasma.
-Dumbledore! No labirinto!
-O que houve no...?
-Mais um! Mais um! Encontramos um corpo no labirinto!
* * *
O sinal acabava de tocar, anunciando o início do dia letivo, quando Marylin saía do Salão Principal e foi surpreendida pela chegada inesperada de Vicky.
Nem deu tempo de gritar. Uma Vicky diferente, descabelada, com o rosto vermelho, avançou para ela com fúria.
-Eu te mato, sua vadia – urrou ela, enquanto dava um soco no rosto de Marylin. A garota tombou para trás, apoiando-se na parede.
Nem houve tempo para recuperar-se; Vicky grudou-se nos seus cabelos e começou a puxá-los com força, com uma violência terrível, como se quisesse arrancá-los.
-Eu te avisei antes – falou ela, enquanto balançava a cabeça de Vicky pelos fios de cabelo. – Se acontecesse algo com a Anne, eu acabava com você! – ela soltou o cabelo e enfiou a mão na cara de Marylin, num tapa estalado. – E é o que eu vou fazer agora! – outro tapa do outro lado. A multidão se aglomerava, animada, aos gritos, formando um círculo de espectadores. – Eu te mato! Sua vidente ridícula! Mentirosa! Fraude! – ela se agarrou novamente aos cabelos da indefesa Marylin, e começou a chacoalhá-la, enquanto chorava de fúria. – Eu vou te matar! Vou te matar! Igual você fez com a coitada!
Ela deu outro soco que derrubou Marylin no chão. Ia avançar novamente, as unhas preparadas, como uma fera selvagem, para acabar com o rosto da menina, mas foi imobilizada por um feitiço da Professora Sprout.
-BASTA!
Vicky ficou como uma estátua. Sprout abriu caminho entre a “torcida” e foi até Marylin. A jovem estava esparramada no chão, escondida por trás da cortina de cabelos, envergonhada.
-Marylin? – chamou a professora.
Lentamente, Marylin foi levantando o rosto. A cascata de cabelos se afastou, revelando para a professora e para os alunos o rosto coberto de sangue. O nariz gotejava; o canto inferior do lábio também, assim como o fino corte em uma das bochechas.
Sprout ajudou-a a se levantar, com cuidado. Marylin mal conseguiu se sustentar de pé; com os cabelos desgrenhados, cheia de hematomas e com sangue escorrendo, a jovem se afastou, acompanhada por Gina e Hermione, que foram escolhidas pela professora para acompanhá-la e ampará-la até a ala hospitalar.
-Enquanto isso, você – ela olhou para Vicky, a libertando da imobilização. – Não darei detenção por conta do que... Do que aconteceu. Sei que é difícil para você.
-Desculpe, eu... Descontrolei-me, mas é que... Ela previu antes que Anne ia ser assassinada, então, agora que aconteceu, eu...
Ela se interrompeu tarde demais.
Centenas de alunos se perguntavam se tinham escutado direito e olhavam para as duas, professora e aluna, com os olhos arregalados...
* * *
Marylin conseguia caminhar normalmente. Estava apenas ligeiramente zonza por conta de tudo o que havia acontecido e, quando vacilava nos passos, Mione e Gina a amparavam.
Hermione tinha uma pergunta coçando na língua; por duas vezes ela quase se formou, mas ela se controlou. Só que a pergunta vinha novamente, a atormentando, e ela percebeu que precisaria perguntar...
-Marylin, por que tudo aquilo?
A jovem olhou para ela. Mione pensou que ia ouvir alguma censura, um “não é da sua conta”, mas Marylin respondeu, enquanto secava o sangue da boca com um lenço.
-Acho que deve ser por causa de uma premonição que tive. Uma premonição terrível, envolvendo a amiga dela. Pela fúria, já posso imaginar que a premonição se cumpriu.
Mione e Gina trocaram um olhar.
-O que você previu?
-Morte – os olhos dela quase saltaram. – Eu tentei alertá-la, mas ela não me ouviu. Essa menina estava presente... É, é uma reação normal... Nós videntes somos muito incompreendidos às vezes...
Elas deixaram Marylin aos cuidados de Madame Pomfrey e se afastaram, aos cochichos.
-Acha que ela é vidente mesmo, Mione? – perguntou Gina, olhando para trás.
-Não sei. Mas uma coisa é certa: ela disse antes o que ia acontecer. Mas não podemos saber se o que ela diz é verdade ou mentira. Se for verdade, ela disse porque realmente previu e possui o dom da vidência, agora, se for mentira...
-Ela mesma provocou a morte de Anne – completou Gina, perplexa.
* * *
-Assassinada? Alguém foi assassinado?
-Aqui na escola?
-Quem foi?
-Quem matou? Algum seguidor de Você-Sabe-Quem?
Sprout torcia as mãos, sem saber o que responder, sem saber o que seria correto responder. Era necessário continuar ocultando dos alunos o crime que ocorrera dentro de Hogwarts?
A professora ainda gaguejava, sentindo-se acuada por todos aqueles rostos indagadores, que cobravam uma resposta, quando as portas de entrada se abriram, desviando todas as atenções. Uma nova onda de murmúrios se iniciou quando uma maca branca, coberta por um lençol, entrou pelas portas, acompanhada por Alvo Dumbledore.
-Não adianta esconder mais, Sprout – falou o diretor, o olhar grave fitando a multidão. – Aconteceu outra vez.
Ninguém da multidão se manifestou, aguardando uma explicação.
-Caros estudantes, espero que nos entendam. Tudo o que ocultamos foi para o próprio bem de vocês, para que não se causasse pânico, embora, sem o conhecimento de vocês, todas as providências necessárias estivessem sendo tomadas. O fato é que, há poucos dias, uma estudante, chamada Anne, foi assassinada em um dos corredores...
Oh!
-...e uma aluna, que me reservo no direito de garantir-lhe a privacidade, foi perseguida pelo algoz de Anne, mas conseguiu escapar com vida. No entanto, agora, quando desapareciam com o labirinto de cristal, foi encontrado mais um corpo, de um jovem da Corvinal chamado Paul.
-PAUL! – gritou uma voz aguda. – Não, o meu Paul não... Não!
-Então é assim agora, não é? – falou a voz de Malfoy, triunfante. – Diretores e professores mentindo para os alunos, deixando-os nessa escola chinfrim para serem assassinados!
-Tudo o que fizemos foi para o bem de vocês – respondeu Dumbledore, polidamente. – Só não pensamos que as coisas ganhariam tais dimensões. Tivemos a morte de Susana Bones, depois a de Anne, mas a de Susana ocorreu fora da escola. Não esperávamos outra morte aqui dentro depois de Anne mas, se ocorreu outra, vejo que é a hora de graves providências serem tomadas para preservar a vida de cada um.
-Que tipo de providências? – perguntou Dennis, erguendo a mão. Curtis deu-lhe um beliscão pela ousadia. – Ai... Digo... Quais seriam essas providências? Capturar o assassino?
-É, essa é uma delas, mas, infelizmente, é a mais complicada de se conseguir. O fato é que não pretendo deixá-los aqui com um criminoso, correndo riscos de vida. Será muito difícil capturá-lo e, agora, nesse exato momento, vejo apenas uma providência plausível...
Foram necessários dez segundos tensos para que ele completasse:
-Fechar a escola.
* * *
Depois daquele momento, o dia não foi mais o mesmo. Alunos que costumavam andar sozinhos ou em duplas começaram a andar em grupos de no mínimo quatro pessoas. Estudantes se lamentavam ao pensar que poderiam abandonar Hogwarts a qualquer momento – fosse para ir direto ao cemitério, como pensavam os mais pessimistas, ou para outra escola distante, pensamento dos mais ou menos otimistas.
A tensão era tão grande que ninguém se dera ao trabalho de fofocar ou comentar o fato de Gina Weasley e Richard estarem caminhando de mãos dadas, e tampouco de perguntar por que ele escondera que era sobrinho da Professora Scarlett.
Assim sendo, somente na hora do jantar Buddy Strogne percebeu que Gina e Richard estavam unidos pelas mãos, entrando no Salão Principal.
-Que porcaria é aquela? – perguntou. Draco quase pulou da cadeira com a fúria repentina do amigo. – Diz pra mim, alguém diz pra mim, que eu não estou enxergando direito! Que eu não estou vendo aquela BOSTA ALI!
Draco olhou na direção que a mão de Buddy apontava.
-Nossa... – balbuciou, tenso. – É, acho que estou vendo a mesma coisa que você. Gina e o novato – ele olhou, cauteloso, para Buddy. – Cara, você não está pensando em fazer nada, está?
A expressão de Buddy já era a resposta. Ele se levantou da mesa, decidido. Empurrou um aluno do segundo ano que estava em sua frente, e abriu caminho até chegar na mesa da Grifinória, onde Richard e Gina estavam sentados, juntinhos.
-Você é uma vagabunda mesmo, não é?
Gina olhou para trás, lançando a Buddy um olhar gelado. Ao seu lado, Richard se levantava, o punho se fechando.
-Vê lá como fala dela, seu...
-Ah cai fora, ô novato – Buddy empurrou Richard com uma mão, fazendo com que o jovem caísse sobre as travessas da mesa. – O meu papo é com essa daqui. Vadia mesmo, vagabunda, me dá um fora numa noite, e na outra já está se esfregando com esse daqui!
-Não ofenda a minha irmã! – vociferou Rony, puxando a varinha e apontando-a para Buddy.
-PAREM COM ISSO – ordenou Minerva McGonagall, da Mesa Principal. – Weasley, guarde essa varinha! Strogne, sente-se!
-Eu escrevi todas aquelas coisas bonitas para você, me inspirando em você – ele continuou, ignorando a professora. – Completamente apaixonado, e você me desprezou!
-Coisas bonitas? Você? – perguntou Gina, irônica. – Poupe-me do seu teatro, Buddy. Eu já sei que não foi você quem escreveu. Eu já sei tudo o que você fez para conseguir roubar o bilhete do meu namorado.
Ela tomou a mão de Richard.
-Pensou que seu plano era perfeito, não pensou? Mas, contemple agora o resultado! Eu e Richard, juntos – ela levantou as mãos unidas. – Juntos, felizes e apaixonados.
Buddy lançou um olhar de esguelha para a Mesa Principal. Todos os professores olhavam na direção deles.
-Ouça bem. Tudo o que eu fiz foi por amor...
-Ah sei...
-E saiba apenas que ainda não desisti. Vou grudar em você de tal forma que não conseguirá se livrar de mim...
-Nunca serei sua!
-Ah será. Pode esperar. Não vou deixá-la escapar de mim. Agora você tem o exemplo do que eu posso fazer para conseguir o que eu quero. E saiba que eu posso fazer muito mais...
Antes de se afastar, ele lançou um olhar zombador a Richard.
-Ouviu, novato? – falou, com um desprezo carregado na voz. Encaminhou-se para a saída do Salão Principal, onde Draco Malfoy o alcançou.
-E aí, Buddy? Será que não tem mais jeito de conquistá-la?
-Tem sim. E já vou buscar a solução para acabar com essa palhaçada. Vou transformar a vida de Gina Weasley e desse bosta num inferno.
* * *
Vanda estava pálida. Imóvel. Estupefata.
-Vanda, por favor, reage! – pedia Padma ao seu lado. – Coma alguma coisa... Ah, por favor, esquece esse tal de Richard, não adianta ficar assim, e...
Vanda finalmente piscou e se moveu. Sem olhar para Padma, levantou-se da mesa e saiu do Salão, como um zumbi, as olheiras sob os olhos ainda mais profundas, uma perfeita simulação de um cadáver que abandonara a sepultura e, ao retornar para a terra dos vivos, não sabia mais como se orientar. Toda a alegria que sempre a acompanhava tinha desaparecido...
-Preciso recuperá-lo... – balbuciou para si mesma. – Preciso...
Ela sentiu uma mão selvagem a pegando pelo braço e a empurrando para um canto escuro do Saguão de Entrada. Mesmo na pouca claridade pôde reconhecer Buddy Strogne.
-Me larga, seu...
-Ops, ops, ops! Olha lá, hein? – riu Buddy, a segurando mais forte. – Sem ofensas! Não pode ofender seu dono, cadelinha...
-Cadelinha é sua...
-Não, não. Cadelinha é você mesmo. É! A cadelinha de Buddy Strogne! A cadelinha puxada pela corrente...
-Do que você está falando, seu doente?
-Só estou dizendo que, a partir de agora, eu mando em você, e você tem que me obedecer direitinho.
-Ah, está maluco... Por que eu faria uma coisa dessas? Por que eu obedeceria alguém tão insignificante como você?
-Por causa disso – Buddy levou a mão ao bolso e puxou o colar de safiras.
Os olhos de Vanda se arregalaram, enquanto fitava as safiras coloridas cobertas de sangue.
-Viu só? Essa é a sua corrente... Cadelinha – ele gargalhou, remexendo nas pedras, enquanto Vanda permanecia imóvel, horrorizada, fitando as pedras que tilintavam, tilintavam... |