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3. CAPÍTULO TRÊS


Fic: Glória Mortal - Concluida


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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CAPÍTULO TRÊS

Gina não perdeu tempo. Sua primeira providência quando chegou em sua sala na Central de Polícia foi entrar em contato com Nynphadora Tonks. O tele-link fez um zumbido e estalou ao acessar o canal galáctico. As manchas solares, a interferência de algum satélite ou simplesmente a idade avançada do equipamento fizeram com que a conexão demorasse vários minutos. Finalmente, uma imagem trepidou na tela, para afinal aparecer em foco.
Gina teve o prazer de ver o rosto pálido e sonolento de Tonks. Ela se esquecera da diferença de horário.
- Weasley. - A voz normalmente fluida de Tonks estava arranhada e fraca. - Meu Deus, aqui ainda é de madrugada!
- Desculpe. Já está bem acordada, Tonks?
- O suficiente para odiar você.
- Você tem recebido notícias da Terra aí em cima?
- Tenho andado meio ocupada. - Tonks ajeitou o cabelo desarrumado e pegou um cigarro.
- Quando foi que você começou a fumar?
Contraindo o rosto, Tonks puxou a primeira tragada e disse:
- Se vocês, policiais terrestres, viessem até aqui em cima, iam querer experimentar tabaco. Até um mata-rato como esse dá para comprar nesse buraco. E qualquer outra coisa dá para conseguir por aqui. É uma vergonha. - e tragou mais fumaça. - Ficam três pessoas em cada cela, a maioria doidona, cheia de drogas químicas contrabandeadas. As instalações médicas se parecem com algo saído do Século XX. Por aqui eles ainda estão costurando as pessoas com linha.
- E os presos ainda têm restrições para o acesso às transmissões em vídeo. - completou Gina. - Imagine só, tratar assassinos como se fossem criminosos. Estou morrendo de pena!
- Não se consegue nem mesmo uma refeição decente em toda a colônia. - reclamou Tonks. - Que diabos você quer comigo, a esta hora?
- Quero fazê-la sorrir, Tonks. Em quanto tempo você pode terminar o que está fazendo e voltar para a Terra?
- Depende. - Enquanto começava a acordar de todo, os sentidos de Tonks se aguçaram. - Você tem alguma coisa para mim?
- A promotora pública Lilá Brown foi assassinada há umas trinta horas. - Ignorando o grito de Tonks, Gina continuou, a toda velocidade. - Sua garganta foi cortada e seu corpo foi encontrado na calçada da Rua 144, entre a Nona e a Décima Avenidas.
- Lilá Brown. Por Deus! Estive com ela há uns dois meses, depois do caso DeBlass. Rua 144? - seu cérebro já estava trabalhando. - Foi assalto?
- Não. Ela ficou com as jóias e todas as fichas de crédito. Um assaltante daquela região não teria deixado para trás nem os sapatos dela.
- Não. - Tonks fechou os olhos por um instante. - Maldição! Ela era uma tremenda mulher. Você está encarregada do caso?
- Logo de cara.
- Tudo bem. - Tonks soltou um longo suspiro. - Então, por que a encarregada da investigação do caso que vai ser o mais importante do país está me procurando?
- Por causa de uma peste que você conhece, Tonks. Seu ilustre colega, Morse, está pegando no meu pé.
- Babaca. - murmurou Tonks, apagando a ponta do cigarro com golpes rápidos e repetidos. - Foi por isso que eu não soube de nada. Ele deve ter me bloqueado.
- Se você jogar limpo comigo, Tonks, eu jogo limpo com você.
- Uma exclusiva? - Os olhos de Tonks brilharam e suas narinas só faltaram tremer.
- Vamos discutir isso quando você voltar. Que seja rápido.
- Já estou praticamente de volta à Terra.
Gina sorriu para a tela que se apagou. Essa vai ficar entalada na sua garganta esfomeada, C. J., refletiu. Estava cantarolando quando se levantou da mesa. Precisava ir ver algumas pessoas.
Quando deu nove horas da manhã, Gina já estava a postos na luxuosa sala de estar do apartamento de Simas Finngan, em uma área elegante da cidade. O gosto dele pendia para o dramático, notou. Imensos lajotões vermelhos e brancos pareciam frios debaixo de suas botas. A música tilintante de água caindo sobre pedras vinha do holograma que ocupava uma das paredes, de ponta a ponta, com imagens dos trópicos. Os almofadões prateados sobre o sofá muito comprido brilhavam, e quando Gina colocou o dedo sobre um deles, o tecido afundou como uma pele sedosa. Resolveu continuar em pé.
Objetos de arte estavam colocados de forma seletiva em volta da sala. Havia uma torre entalhada que se parecia com as ruínas de algum castelo antigo; uma máscara que lembrava o rosto de uma mulher encerrada em um bloco de vidro rosado, translúcido; algo com a forma de uma garrafa e que cintilava com cores vivas, que se modificavam sob o calor da mão.
Quando Finnigan entrou, vindo de um cômodo adjacente, Gina concluiu que ele era tão dramático quanto os objetos que o cercavam. Estava pálido, tinha os olhos pesados, mas isto só servia para ressaltar sua aparência atraente. Era alto e elegantemente esbelto. Seu rosto era poeticamente cavado nas laterais. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, e Gina sabia que ele já estava na casa dos sessenta anos, Simas Finnigan optara por deixar seu cabelo embranquecer naturalmente. Uma escolha excelente para ele, Gina pensou, ao ver que a sua juba cheia e prateada brilhava tanto quanto um dos castiçais em estilo georgiano de Harry.
Seus olhos tinham um tom de cinza que se destacava, embora estivessem embotados naquele instante por algo que poderia ser cansaço ou pesar. Ele atravessou a sala até ela e envolveu-lhe a mão, colocando-a entre as suas.
- Gina. - Quando seus lábios a beijaram no rosto, rapidamente ela recuou um pouco. Ele estava tornando aquele contato muito pessoal, e ela imaginou naquele instante que ambos sabiam disso.
- Simas, - começou ela de repente, afastando-se ainda mais - agradeço pelo seu tempo.
- Ora, que tolice. Eu é que me desculpo por fazê-la esperar. Havia uma ligação que eu precisava fazer. - Com um gesto, apontou para o sofá. As mangas de sua camisa larga e confortável balançaram com o movimento. Gina, resignada, se sentou. - Quer tomar alguma coisa?
- Não quero nada, obrigada.
- Café? - Sorriu ligeiramente. - Eu me lembro de que você gosta muito de café. Tenho um pouco, e da marca que Gina usa. - Apertou um botão no braço do sofá. A pequena tela de um monitor surgiu. - Um bule de café Ouro Argentino - ordenou ele - e duas xícaras. - Em seguida, com aquele sorriso fraco e discreto ainda nos lábios, se voltou para ela. - Isso vai me ajudar a relaxar um pouco. - explicou. - Não estou surpreso por encontrá-la aqui logo de manhã, Gina. Ou talvez devesse estar tratando você de tenente Weasley, diante das circunstâncias.
- Então você entendeu o motivo de eu estar aqui.
- É claro. Lilá. Não consigo me acostumar com a idéia. - Sua voz sedosa e envolvente estremeceu um pouco. - Já ouvi a notícia vezes sem conta nos noticiários. Conversei com os filhos dela e com Marco. Só que não consigo aceitar o fato de que ela se foi.
- Você a viu na noite em que ela foi morta.
- Sim. - Um músculo em seu rosto se repuxou. - Jantamos juntos. Fazíamos isto com freqüência, quando nossas agendas permitiam. Pelo menos uma vez por semana. Mais, quando conseguíamos. Éramos muito chegados.
Ele parou de falar quando um pequeno robô doméstico surgiu deslizando, trazendo o café. O próprio Finnigan serviu uma xícara, concentrando-se na pequena tarefa de forma quase intensa.
- Quanto nós éramos chegados? - murmurou, e Gina notou que sua mão não estava muito firme quando ele levantou a xícara. - Éramos íntimos. Fomos amantes, exclusivamente um do outro, durante vários anos. Eu a amava muito.
- Vocês mantinham residências separadas.
- Sim, ela... Nós dois preferíamos que fosse desse modo. Nossos gostos, esteticamente falando, eram muito diferentes, e a verdade pura e simples é que os dois gostavam de ter a própria independência, e um espaço pessoal. Acho que curtíamos mais um ao outro mantendo uma certa distância. - Respirou pesadamente. - Não era segredo, porém, que tínhamos um relacionamento; pelo menos os familiares e amigos sabiam. - Soltou a respiração. - Publicamente, preferíamos manter nossa vida pessoal o mais reservado que conseguíssemos. Acredito que, agora, isso não vai mais ser possível.
- Duvido muito.
- Mas não importa. - e balançou a cabeça. - O que importa é encontrar quem fez isso com ela. Nada pode mudar o fato de que ela morreu. Lilá foi... - e falou pausadamente - a mulher mais admirável que já conheci.
Todos os instintos, pessoais e profissionais, diziam-lhe que diante dela estava um homem em profundo estado de pesar, mas Gina sabia que até mesmo os assassinos podiam demonstrar dor pelos seus mortos.
- Simas, preciso que você me diga a que horas a viu pela última vez. Estou gravando esta conversa.
- Sim, claro. Foi por volta de dez da noite. Jantamos no Robert’s, na Décima Segunda Avenida, Leste. Depois, dividimos um táxi. Ela saltou primeiro, mais ou menos às dez. - repetiu. - Sei disso porque cheguei em casa mais ou menos às dez e quinze, e encontrei vários recados me esperando.
- Qual era a rotina de vocês, normalmente?
- Como? Ah... - Ele pareceu se trazer de volta, repentinamente, de algum mundo interior. - Não tínhamos uma rotina, na verdade. Às vezes, vínhamos para cá, ou então para o apartamento dela. De vez em quando, quando estávamos com espírito de aventura, pegávamos uma suíte no Palace para passar a noite. - Parou de falar, seus olhos ficaram subitamente vazios, arrasados, e ele se levantou de repente do macio sofá prateado. - Oh, meu Deus, meu Deus!
- Sinto muito, Simas. - Falar aquilo era inútil diante da dor, ela sabia. - Realmente, eu sinto muito.
- Estou começando a acreditar no que aconteceu. - explicou ele com uma voz pesada e baixa. - É pior, imagino, quando a gente começa a acreditar. Ela riu na hora em que saiu do táxi, e me atirou um beijo com as pontas dos dedos. Tinha mãos lindíssimas. Eu cheguei em casa e me esqueci dela, porque tinha mensagens a responder. Estava na cama por volta de meia-noite. Tomei um tranqüilizante leve, porque tinha uma reunião logo cedo. E enquanto eu estava na cama, a salvo, ela estava jogada morta, na chuva. Não sei se consigo suportar isso. - Virou-se para trás, com a face pálida já sem sangue, naquela hora. - Não sei se vou conseguir suportar.
Ela não podia ajudá-lo. Mesmo sentindo que a dor dele era tão palpável que dava para sentir, Gina não podia ajudá-lo.
- Eu gostaria de fazer isso em outra hora, para lhe dar tempo, Simas, só que não posso. Pelo que sabemos, você foi a última pessoa que a viu com vida.
- Tirando o assassino. - e se esticou. - A não ser, é claro, que tenha sido eu a pessoa que a assassinou.
- Seria melhor para todos se eu eliminasse essa possibilidade com rapidez.
- Sim, naturalmente que seria... tenente.
Gina aceitou a amargura na voz dele e fez o seu trabalho, prosseguindo:
- Se você puder, gostaria que me informasse o nome da empresa do táxi que vocês pegaram, para que eu possa confirmar seus movimentos.
- Foi o restaurante que chamou o táxi. Acho que foi um carro da Rápido.
- Você viu, ou falou com alguém, entre meia-noite e duas da manhã?
- Já lhe disse, tomei um remédio para dormir e fui direto para a cama, à meia-noite. Sozinho.
Gina poderia verificar isto analisando as gravações nos discos e arquivos de segurança do prédio, embora ela tivesse razões para saber que essas coisas eram fáceis de ser adulteradas.
- Pode me dizer como estava o estado de espírito dela, quando a deixou?
- Estava um pouco distraída, por causa do caso em que estava trabalhando. Parecia otimista em relação a ele. Conversamos um pouco sobre as crianças, especialmente a filha dela. Mirina está planejando se casar agora, no outono. Lilá adorava a idéia e estava empolgada porque Mirina queria um casamento bem grande e tradicional, com todos aqueles aparatos que já estão fora de moda.
- Ela mencionou alguma coisa que a estivesse afetando? Algo ou alguém com quem ela estivesse preocupada?
- Nada que se enquadre nisso. O vestido de noiva certo, as flores. As esperanças que ela tinha de conseguir pena máxima no caso atual.
- Ela mencionou algum tipo de ameaça, alguma transmissão diferente que tivesse recebido, mensagens ou contatos?
- Não. - Ele colocou a mão sobre os olhos rapidamente, e a deixou cair em seguida para o lado do corpo. - Então você acha que eu não teria lhe contado de cara se tivesse a mínima pista do motivo de isto ter ocorrido?
- Por que razão ela iria à parte alta do West Side, àquela hora da noite?
- Não faço idéia.
- Lilá tinha o hábito de se encontrar com informantes, ou fontes?
- Não sei. - disse ele em um murmúrio, abrindo a boca e fechando-a em seguida, atingido pela idéia. - Eu jamais teria pensado nisso... Mas ela era tão teimosa, tão segura de si.
- E o relacionamento dela com o ex-marido, como o descreveria?
- Amigável. Um pouco reservado, mas afável. Os dois eram muito devotados aos filhos, e isto os unia. Ele ficou um pouco aborrecido quando eu e Lilá nos tornamos íntimos, mas... Finnigan parou de repente e olhou para Gina. - Não é possível que você esteja achando que... - e soltando o que poderia passar por uma gargalhada, cobriu o rosto. - Marco Angelini esgueirando-se furtivamente em uma região como aquela, com uma faca, planejando matar a ex-mulher? Não, tenente. - Baixou as mãos novamente. - Marco tem seus defeitos, mas jamais magoaria Lilá. E só a visão do sangue já ofenderia o seu senso do que é apropriado. Ele é frio demais, e muito conservador para apelar para a violência. E não tinha motivo algum, nenhuma razão que fosse, para desejar mal a ela.
Isso, pensou Gina, cabia a ela decidir.
Ela pulou de um mundo para outro completamente diferente ao deixar o apartamento de Finngan e ir para o West Side. Ali, ela não ia encontrar nenhum almofadão prateado, nem cascatas tilintantes. Em vez disso, o que havia eram calçadas com rachaduras, ignoradas pela mais recente campanha de embelezamento da cidade, edifícios completamente pichados que convidavam os transeuntes a se engajarem em atos de todo tipo, humanos e bestiais. A parte da frente das lojas era coberta de grades de segurança, que eram muito mais baratas, embora menos eficientes do que os campos de força usados em áreas mais sofisticadas. Ela não ficaria surpresa se visse alguns ratos ignorados pelos gatos andróides que circulavam pelos becos.
Quanto aos ratos humanos, ela viu muitos. Um traficante de drogas químicas mostrou um sorriso sem dentes para ela e coçou a parte da frente das calças, com orgulho. Um camelo a avaliou de cima a baixo, reconheceu de modo preciso que Gina era uma policial e escondeu o rosto no meio da abundante penugem que circundava um cabelo cor de fúcsia, chispando logo em seguida em busca de paragens mais seguras. Havia uma pequena lista de drogas que ainda eram consideradas ilegais.
Alguns policiais, na verdade, se davam ao trabalho de prestar atenção a isso. Naquele momento Gina não era um deles. A não ser que um pouco de pressão se mostrasse útil para conseguir respostas.
A chuva havia lavado a maior parte do sangue. O pessoal do laboratório responsável pela varredura eletrônica já tinha sugado qualquer coisa em volta do local do crime que pudesse ser esmiuçada para ser usada como prova. Mesmo assim, Gina ficou em pé por um momento, junto do ponto exato em que Lilá havia morrido, e não teve problemas para visualizar a cena.
Agora, era preciso trabalhar a imagem de trás para a frente. Será que ela havia ficado em pé ali naquele lugar, especulou Gina, olhando para o assassino?
Provavelmente. Será que viu a faca antes que ela fosse enfiada em sua garganta? Era possível. Mas não foi rápida o bastante para reagir, e só conseguiu pular para trás e soltar um breve gemido. Levantando a cabeça, Gina olhou em volta, avaliando a rua. Sentiu a pele se arrepiar, mas ignorou os olhares dos que estavam encostados nas paredes dos prédios ou vagando em torno dos carros enferrujados.
Lilá Brown tinha vindo do Centro da cidade. Não viera de táxi. Não havia registro de uma corrida para aquele local no relatório de nenhuma das companhias oficiais. Gina duvidava que ela fosse tola o suficiente para pegar um transporte pirata.
O metro, deduziu. Era rápido, vigiado pelos policiais robóticos e bem monitorado, seguro como uma igreja, pelo menos até a pessoa alcançar a rua. Gina avistou a placa que anunciava uma estação a menos de um quarteirão dali. Foi o metro, decidiu. Talvez ela estivesse com pressa? Aborrecida por ser arrastada até ali em uma noite chuvosa. Segura de si mesma, como Finnigan dissera, ela viria até ali sem medo. Saiu do vagão, marchou pelas escadas do metro acima até alcançar a rua, vestida com seu terninho marcante e os sapatos caros. Ela...
Parando, Gina franziu o cenho. Sem guarda-chuva? Onde estava a droga do guarda-chuva? Uma mulher meticulosa, prática e organizada não saía na chuva sem proteção. Com um gesto rápido, Gina pegou o equipamento e gravou uma mensagem para si mesma, para se lembrar de investigar aquilo.
Será que o assassino estava à espera dela na rua? Ou em um lugar fechado? Analisou os edifícios decadentes, revestidos em tijolinho e necessitados de uma reforma. Talvez um bar? Um daqueles inferninhos?
- Ei, branquela.
Com o cenho ainda franzido, Gina se virou na direção da voz. O homem tinha a altura de uma casa, e pela sua silhueta corpulenta era o tipo do negro bem escuro. Usava, como muitos naquela parte da cidade, algumas penas espetadas no cabelo. Exibia uma tatuagem na bochecha, em tom de verde forte, com o formato de uma caveira. Trajava uma camiseta vermelha, com calças da mesma cor e tão apertadas que moldavam a sua anatomia entre as pernas.
- Oi, pretinho. - respondeu Gina, no mesmo tom de insulto casual.
Ele abriu um sorriso largo e cheio de dentes em meio a um rosto inacreditavelmente feio.
- Está em busca de um pouco de ação? - Esticou o pescoço na direção do cartaz espalhafatoso que anunciava um clube de strip-tease do outro lado da rua. - Você é meio magrinha, mas eles estão contratando. Não conseguem muitas branquelas como você por aqui. A maioria das dançarinas é mulata. - Coçou embaixo do queixo, com dedos que tinham a largura de salsichões de soja. - Sou o segurança da área, e posso indicar você.
- E por que motivo você faria isso por mim?
- Por pura bondade do meu coração, e cinco por cento das gorjetas, favinho de mel. Uma garota alta e branquela como você consegue bastante grana sacudindo a peitaria.
- Olhe, eu agradeço a dica, mas já tenho emprego. - Quase com pena, puxou o distintivo.
- Uai, como é que pode eu não ter percebido? - e soltou um assobio por entre os dentes. - Branquela, você não cheira nem um pouco a policial!
- Deve ser por causa do sabonete novo que eu estou usando. Você tem nome?
- O pessoal me chama de Crack. É o som que eles ouvem quando eu esmago as cabeças com a mão. - e abriu os dentes mais uma vez, ilustrando o nome com a exibição das duas mãos enormes se apertando. - Crack! Entendeu?
- Estou percebendo. Você estava aqui pela rua na noite de anteontem, Crack?
- Não, sinto informar que estava com um compromisso em outro lugar e perdi toda a muvuca. Foi a minha noite de folga, e eu corri atrás de alguns eventos culturais.
- E que eventos foram esses?
- O festival de filmes de vampiro lá no Grammercy Park. Fui com a garota que eu ando beliscando. Eu me amarro em ver aqueles chupadores de sangue. Mas ouvi dizer que por aqui também teve um tremendo show. Rolou uma advogada morta no pedaço. Uma dona muito importante, arrumadona e tudo. Uma branquela também, não foi? Igual a você, favinho de mel.
- Foi isso mesmo. E o que mais você ouviu?
- Eu? - Esfregou a ponta do dedo na frente da camiseta. A unha do indicador estava muito comprida, afiada quase a ponto de parecer uma arma letal, e tinha sido pintada de preto. - Sou muito educado para ficar por aí prestando atenção a essa fofocada de rua.
- Aposto que é. - Sabendo das regras, Gina tirou do bolso algumas fichas, no valor de cem créditos - E que tal eu comprar um pouco dessa boa educação?
- Bem, por esse preço dá para vender um pouco dela. - A mão imensa envolveu as fichas e as fez desaparecer. - Ouvi o pessoal falar que ela estava circulando pelo Bar Cinco Luas, por volta de meia-noite, um pouco mais ou um pouco menos. Parecia que ela estava ali esperando por alguém, alguém que não deu as caras. Então, ela se mandou. - Olhou para baixo, na direção da calçada. - Não foi muito longe, não é?
- Não, não foi. Ela perguntou por alguém?
- Não que eu tenha ouvido.
- Alguém a viu acompanhada?
- Era uma noite do cão. A maioria das pessoas não fica na rua. Um ou outro traficante de químicos podia até circular por aí, mas os negócios deviam estar muito devagar.
- Você conhece alguém na área que goste de retalhar os outros?
- Muita gente carrega algumas lâminas e furadores, branquela. - Seus olhos rolaram, com um ar divertido. - Por que alguém vai carregar isso se não estiver a fim de usar?
- Alguém que simplesmente goste de sair por aí retalhando os outros. - repetiu ela. - Alguém que não se incomoda de não marcar ponto algum na partida, porque joga por prazer...
Ele deu um grande sorriso. A caveira tatuada na bochecha parecia concordar, balançando com o movimento.
- Ora, branquela. Todo mundo está sempre a fim de marcar algum ponto. Você não é assim?
Ela aceitou aquilo.
- Alguém que você conheça, aqui da área, saiu da prisão recentemente?
Sua gargalhada ecoou como um morteiro.
- Era mais fácil você perguntar se eu conheço alguém aqui que não veio da prisão. E o seu dinheiro acabou.
- Então está certo. - Para desapontamento dele, Gina tirou um cartão do bolso, em vez de mais fichas. - Pode ser que pinte mais alguma coisa para você, caso descubra algo que sirva para mim.
- Lembre-se bem. Se resolver ganhar alguma grana extra sacudindo essas tetinhas brancas, é só falar com o Crack. - E dizendo isto atravessou a rua com passos largos e surpreendente leveza, como se fosse uma enorme gazela negra.
Gina se virou e foi tentar a sorte no Bar Cinco Luas. O buraco talvez já tivesse visto dias melhores, mas ela duvidava. Era basicamente um estabelecimento para a venda de bebidas. Não havia dançarinas, nem telões, nem cabines de vídeo. A clientela que freqüentava o Cinco Luas não ia lá para fazer contatos sociais. Pelo cheiro que Gina sentiu assim que abriu a porta, parede de estômago flambada era o prato do dia.
Mesmo àquela hora, a pequena área quadrada estava bem cheia. Bebedores silenciosos se mantinham em pé ao lado de mesinhas elevadas, entornando o veneno de sua escolha. Outros se amontoavam junto ao bar para ficar mais perto das garrafas. Gina conseguiu atrair alguns olhares quando entrou, pisando no chão gosmento, mas logo em seguida as pessoas voltaram à tarefa de beber com seriedade.
O barman era um andróide, como na maioria dos lugares. Gina, porém, duvidava que aquele ali tivesse sido programado para ouvir com algum interesse as histórias tristes que os clientes contavam. Mais provavelmente era um brutamontes, pensou, analisando-o enquanto se aproximava lentamente do balcão. Os fabricantes haviam colocado nele os olhos puxados e a pele dourada de um mestiço. Diferente da maioria dos clientes, o andróide não usava penas no cabelo, nem contas no pescoço. Vestia um simples uniforme branco sobre o corpo de pugilista. Andróides não podiam ser subornados, lamentou. E as ameaças tinham de ser inteligentes e lógicas.
- Bebida? - perguntou o barman. Sua voz tinha um silvo estranho, um eco distante que indicava problemas de manutenção atrasada.
- Não. - Gina queria manter a saúde. Exibiu o distintivo e vários clientes começaram a se espalhar, em direção aos cantos do bar. -Aconteceu um assassinato aqui, há duas noites.
- Aqui dentro não.
- Mas a vítima esteve aqui.
- Quando ela esteve aqui ainda estava viva. - Atendendo a algum sinal que Gina não percebeu, o garçom robotizado pegou o copo sebento de um dos clientes do meio do balcão, entornou nele um pouco de líquido de aspecto nocivo e o devolveu.
- Você estava de serviço.
- Sim, sou vinte e quatro por sete. - explicou ele, indicando que estava programado para operação em tempo integral, sem precisar ser desligado nem passar por períodos de recarga.
- Você já tinha visto a vítima, antes daquele dia, aqui nesta região?
- Não.
- Com quem ela se encontrou aqui?
- Com ninguém.
- Tudo bem. - Gina tamborilou com os dedos sobre a superfície embaçada do balcão. - Olha, vamos fazer as coisas de modo bem simples. Você me conta a que horas ela chegou, o que fez, a que horas saiu, e como saiu.
- Ficar vigiando os clientes não é parte das minhas funções.
- Certo. - Lentamente Gina esfregou um dos dedos sobre o balcão. Quando o levantou, esgarçou os lábios em uma careta diante do fedor exalado pela substância viscosa que manchava a ponta do dedo. - Sou da Divisão de Homicídios, mas deixar passar violações à Saúde Pública também não é parte das minhas funções. Sabe de uma coisa? Acho que se eu chamasse o departamento sanitário, e eles fizessem uma fiscalização aqui, uau! Eles iam ficar chocados. Tão chocados que eram capazes até de cancelar a licença desta espelunca.
Em matéria de ameaça, aquela não era particularmente inteligente, mas era lógica. O andróide levou um momento para analisar as possibilidades.
- A mulher chegou à zero hora e dezesseis minutos. - respondeu. - Não bebeu nada. Saiu do bar à uma hora e doze minutos. Sozinha.
- Ela conversou com alguém?
- Não pronunciou uma só palavra.
- Estava à procura de alguém?
- Não perguntei.
- Você a observou. - Gina estranhou. - Parecia que ela estava procurando por alguém?
- Parecia, mas ela não encontrou ninguém.
- E ficou aqui por quase uma hora. O que ficou fazendo?
- Ficou em pé. Olhou em volta, franziu a testa. Olhou para o relógio o tempo inteiro. Saiu.
- Alguém saiu logo atrás dela?
- Não.
De modo distraído, Gina esfregou a ponta do dedo sujo na calça, perguntando:
- Ela estava com um guarda-chuva?
- Estava. - O andróide pareceu tão surpreso pela pergunta quanto os robôs eram capazes de parecer. - Era um guarda-chuva roxo, da mesma cor da roupa dela.
- E ela saiu daqui com ele?
- Saiu. Estava chovendo.
Gina fez que sim com a cabeça, andando em seguida por todo o bar e interrogando clientes insatisfeitos. Tudo o que Gina realmente queria ao voltar para a Central de Polícia era um longo banho de chuveiro. Uma hora dentro do Cinco Luas a deixara com a sensação de que havia uma fina camada de estrume sobre toda a sua pele. Até mesmo em volta dos dentes, pensou ela, esfregando a ponta da língua sobre eles.
Mas o relatório tinha prioridade. Entrou em sua sala e parou, olhando para o homem de cabelo ralo que estava sentado à sua mesa, pegando amêndoas revestidas com uma camada doce no fundo de um saco.
- Trabalho legal esse, para quem pode. - falou Gina.
Neville cruzou os pés que estavam na ponta da mesa e respondeu:
- Também é bom ver você, Weasley. Você é uma moça muito ocupada.
- Alguns de nós, policiais, na verdade precisam trabalhar para ganhar a vida. Outros ficam brincando no computador o dia inteiro.
- Você devia ter seguido meus conselhos e trabalhado mais seus dotes para informática.
Com um gesto mais afetuoso do que irritado, ela empurrou os pés dele para fora da mesa e encostou o traseiro no espaço vazio.
- Você está só de passagem, Neville?
- Vim oferecer os meus serviços, companheira. - Generosamente, estendeu para ela o saco de amêndoas.
Enquanto mastigava, Gina o observava. Neville tinha um rosto com aspecto derrotado, que ele jamais se dera ao trabalho de tentar melhorar. Olhos empapados, o começo de um queixo duplo, orelhas que eram ligeiramente grandes para o tamanho da cabeça. Gina gostava dele do jeito que era.
- Oferecer os seus serviços por quê?
- Bem, tenho três razões. Primeira, o comandante me fez um pedido extra-oficial. Segunda, eu tinha muita admiração pela promotora Lilá Brown.
- Lupin chamou você?
- Extra-oficialmente. - repetiu Neville. - Ele achou que, tendo alguém com as minhas extraordinárias habilidades para trabalhar junto com você na avaliação dos dados, poderemos encerrar este caso mais depressa. Nunca é demais ter uma linha direta com a Divisão de Detecção Eletrônica da Polícia.
Ela considerou o assunto e, por saber que as habilidades de Neville eram realmente extraordinárias, aprovou a idéia.
- Afinal, você vai assumir o caso oficial ou extra-oficialmente?
- Só depende de você.
- Então vamos tornar a coisa oficial, Neville.
- Eu sabia que você ia dizer isso. - Sorriu e deu uma piscadela.
- A primeira coisa que eu estou precisando é que você dê uma olhada nos arquivos do tele-link da vítima. Não há registros de que ela tenha recebido alguma visita na noite em que morreu, nem em sua agenda nem nos discos de segurança do prédio. Portanto, alguém ligou para ela e combinou um encontro.
- É pra já.
- E preciso de uma lista de todo mundo que ela mandou para a cadeia.
- Todo mundo? - interrompeu ele, ligeiramente estarrecido.
- Todo mundo. - O rosto de Gina se iluminou em um grande sorriso. - Acho que você consegue fazer isso na metade do tempo que eu levaria. Quero os parentes, entes queridos e sócios também. E, finalmente, todos os casos em andamento, além dos ainda pendentes.
- Nossa, Weasley! - Ele movimentou os ombros e flexionou os dedos, como um pianista prestes a executar um concerto. - Minha mulher vai sentir saudades de mim.
- Ser casada com um policial é horrível. - disse ela, dando palmadinhas no ombro dele.
- É isso o que Harry diz?
- Nós não somos casados. - e deixou cair a mão.
Neville simplesmente concordou, fazendo um murmúrio com a garganta. Ele gostava de ver o franzir rápido das sobrancelhas e o ar nervoso de Gina.
- E então, - perguntou - como ele vai?
- Está bem, está na Austrália. - Suas mãos foram direto para os bolsos. - Está bem.
- Hã-hã. Vi vocês dois no noticiário algumas semanas atrás. Estavam em um agito elegante, no Palace. Você fica muito bem de vestido, Weasley.
Ela trocou de posição, desconfortável, mas logo se controlou e deu de ombros.
- Não sabia que você assistia aos canais de fofoca, Neville.
- Eu adoro esses programas. - disse ele sem arrependimento. - Deve ser muito interessante levar a vida desse jeito sofisticado.
- É, tem momentos bons. - murmurou ela. - Afinal, nós vamos conversar sobre a minha vida social, Neville, ou investigar um assassinato?
- Temos de arrumar tempo para as duas coisas. - Levantou-se e fez um alongamento. - É melhor eu ir logo dar uma olhada nos arquivos do tele-link da vítima antes de mergulhar em anos e anos de criminosos que ela tirou de circulação. Vou manter contato.
- Neville. - Quando ele se virou, já na porta, ela voltou a cabeça um pouco para o lado. - Você me disse que havia três razões para querer este caso, e só me deu duas.
- Número três: senti sua falta, Weasley. - e sorriu. - Pode acreditar, senti mesmo.
Ela estava sorrindo quando se sentou de volta à mesa, para trabalhar. Dava para acreditar, porque ela também tinha sentido muita falta dele.



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