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19. CAPÍTULO DEZENOVE


Fic: Nudez Mortal - Concluida


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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CAPÍTULO DEZENOVE

Deblass não queria falar. Seus advogados haviam colocado uma mordaça em sua boca, mais cedo, e a apertaram bem. O interrogatório foi lento e maçante. Havia momentos em que Gina achava que ele ia explodir; a raiva que tornava o seu rosto vermelho fazia a balança pender a favor dela.
Ela parara de negar que aquilo era pessoal. Não queria um julgamento cheio de truques e patrulhado pela imprensa. Queria uma confissão.
- O senhor teve um envolvimento incestuoso com a sua neta, Sharon DeBlass.
- Meu cliente não confirmou esta alegação. - Gina ignorou o advogado e olhou para DeBlass.
- Tenho comigo a transcrição de um trecho do diário de Sharon DeBlass, com data da noite de seu assassinato.
Ela empurrou o papel sobre a mesa. O advogado de DeBlass, um homem de boa aparência e bem-arrumado, com uma barba clara bem aparada, e suaves olhos azuis, pegou o papel e o analisou. Qualquer que tenha sido a sua reação, ele a escondeu por trás de uma fria indiferença.
- Isto não prova coisa alguma, tenente, como estou certo de que a senhorita já sabe. Eram as fantasias destrutivas de uma mulher morta. Uma mulher de reputação dúbia que há muito tempo já se afastara da família.
- Há um padrão aqui, Senador DeBlass. - Gina era teimosa e continuava a se dirigir ao acusado, em vez de falar com o seu cavaleiro armado. - O senhor já havia abusado sexualmente de sua filha, Catherine.
- Que absurdo! - explodiu DeBlass, antes de seu advogado levantar a mão para silenciá-lo.
- Tenho aqui uma declaração, assinada e com firma reconhecida, feita diante de testemunhas pela Deputada Catherine DeBlass. - Gina estendeu o papel, e o advogado o pegou correndo, antes que o senador tivesse a chance de se mover.
Lendo o documento com cuidado, cruzou as mãos bem cuidadas sobre ele e disse.
- Talvez a senhorita não saiba, tenente, que existe um triste caso de problemas mentais aqui. A esposa do Senador DeBlass, inclusive, está sob observação, depois de sofrer um ataque de nervos.
- Sabemos disso. - Ela lançou um olhar para o advogado. - Vamos investigar as condições dela e o que provocou esse estado.
- A Deputada DeBlass também já recebeu tratamento. No passado, já apresentou sintomas de depressão, paranóia e estresse. - continuou o advogado, no mesmo tom neutro.
- Se esse é o caso, Senador DeBlass, vamos acabar descobrindo que as raízes de tudo isso eram os abusos sexuais sistemáticos e contínuos que ela sofria quando criança. O senhor estava em Nova York na noite do assassinato de Sharon DeBlass. - disse ela, mudando sutilmente de tom. - Não estava, como afirmou anteriormente, em Washington.
E antes que o advogado pudesse impedir, Gina se inclinou, com os olhos grudados em DeBlass, e continuou:
- Deixe que eu lhe conte como tudo aconteceu. O senhor tomou sua aeronave particular, pagando ao piloto e ao engenheiro de vôo para adulterarem o registro da viagem. Foi até o apartamento de Sharon, fez sexo com ela e gravou tudo, para seus próprios interesses. Levou uma arma com o senhor, uma Smith & Wesson antiga, de calibre 38. E como ela zombou do senhor, como ela o ameaçou, como o senhor não podia mais agüentar a pressão de uma possível exposição pública, atirou nela. Atirou nela três vezes. Na cabeça, no coração e na genitália.
Gina continuava a falar depressa, com o rosto colado no dele. Estava adorando o fato de poder até mesmo sentir o cheiro do seu suor.
- O último tiro foi muito esperto. Acabou com qualquer possibilidade de verificarmos se houve atividade sexual. O senhor a cortou ao meio, bem entre as pernas. Talvez um ato simbólico, talvez um ato de auto-preservação. Por que o senhor levou o revólver com o senhor? Já tinha tudo planejado? Já tinha decidido acabar com aquilo de uma vez por todas?
Os olhos de DeBlass corriam da esquerda para a direita. Sua respiração começou a ficar ofegante e acelerada.
- O meu cliente não reconhece a posse da arma em questão.
- O seu cliente é escória.
- Tenente Weasley. - o advogado se indignou. - A senhorita está falando de um senador dos Estados Unidos.
- Isso o transforma em escória eleita pelo povo. Aquilo o deixou chocado, não foi, senador? Todo aquele sangue, o barulho do tiro, o jeito com que o impacto da arma jogou sua mão para trás. Talvez o senhor não tivesse acreditado realmente que conseguiria passar por aquilo. Não no momento em que o impulso se transformou em um empurrão e o senhor teve que apertar o gatilho. Mas já que tinha apertado, não havia mais volta. O senhor tinha que camuflar tudo. Ela o teria arruinado, jamais o teria deixado ter paz novamente. Ela não era como Catherine. Sharon não aceitaria ficar nos bastidores sofrendo a vergonha, a culpa e o medo. Ela usou tudo isso contra o senhor, e então o senhor teve que matá-la. E depois teve que esconder a sujeira.
- Tenente Weasley...
Gina nem por um momento tirou os olhos de DeBlass e, ignorando o aviso do advogado, continuou atacando com força.
- Aquilo foi excitante, não foi? E dava para escapar. O senhor é um senador dos Estados Unidos, e avô da vítima. Quem poderia acreditar que o senhor fez aquilo? Então, o senhor a arrumou na cama, afagou o seu ego, curtiu aquilo. Poderia fazer de novo, e por que não? O ato de matar fez surgir algo dentro do senhor. E que maneira melhor de esconder isso do que fazer tudo parecer obra de algum maníaco à solta?
Esperou enquanto DeBlass estendia a mão para pegar um copo com água, que bebeu com sofreguidão.
- E havia realmente um maníaco à solta. O senhor escreveu a nota, enfiou debaixo dela. E se vestiu, mais calmo então, mas excitado. Programou o tele-link para fazer a ligação para a polícia às duas e cinqüenta e cinco. Precisava de tempo suficiente para descer e cuidar das gravações da segurança. Então, voltou à sua aeronave, voou de volta para Washington e ficou esperando pelo momento de bancar o avô indignado.
Durante todo esse tempo, DeBlass não disse uma palavra. Mas um músculo em sua bochecha não parava de se repuxar e seus olhos, inquietos, não conseguiam se fixar em nada.
- Esta é uma história fascinante, tenente. - disse o advogado. - Só que não passa disto: uma história. Uma suposição. Uma tentativa desesperada da polícia para conseguir escapar de uma situação difícil junto à imprensa e ao povo de Nova York. E, é claro, é também o momento exato de lançar esta acusação danosa e ridícula contra o senador, bem na época em que seu projeto de lei sobre os valores morais está sendo colocado em debate.
- Como foi que o senhor escolheu as outras duas? Como selecionou Lola Starr e Georgie Castle? Já escolheu a quarta, a quinta e a sexta? O senhor acha que ia acabar parando aqui? Conseguiria parar quando aquilo o fazia se sentir tão poderoso, tão invencível, tão justiceiro?
DeBlass já não estava mais vermelho. Estava cinza, e sua respiração estava difícil e entrecortada. Quando tentou pegar o copo, de novo, sua mão sofreu um espasmo e o copo caiu no chão.
- O interrogatório acabou. - O advogado se levantou e ajudou DeBlass a se colocar de pé. - A saúde de meu cliente está em estado precário. Ele requer cuidados médicos imediatos.
- Seu cliente é um assassino. Vai ter todos os cuidados médicos na Colônia Penal, pelo resto da vida. - Apertou um botão. Quando as portas da sala de interrogatório se abriram, um guarda entrou. - Chame um médico. - ela ordenou. - O senador está se sentindo um pouco estressado. E vai piorar. - avisou ela, virando-se para DeBlass. - Eu ainda nem comecei.
Duas horas mais tarde, depois de preencher relatórios e de se encontrar com o promotor, Gina estava lutando contra o tráfego. Já lera grande parte dos diários de Sharon DeBlass. Era algo que precisava colocar de lado, agora. As imagens de um homem mentalmente deformado, que transformara uma garotinha em uma mulher quase tão desequilibrada quanto ele.
Precisava colocar tudo de lado porque sabia que aquela poderia ter sido, facilmente, a sua própria história. As escolhas estavam ali, para serem feitas, pensou, considerando os fatos. Sharon havia eliminado as dela. Queria desabafar um pouco, repassar novamente todos os acontecimentos passo a passo, com alguém que pudesse ouvir, apreciar e apoiar. Alguém que, por algum tempo, pudesse ficar entre ela e os fantasmas do que lhe aconteceu no passado. E do que poderia ter acontecido.
Foi direto para a casa de Harry.
Quando o tele-link do carro tocou, ela rezou para que não fosse um chamado de trabalho.
- Neville.
- Oi, garota. - O rosto cansado de Neville apareceu na tela. - Acabei de ver os discos com a gravação do interrogatório. Bom trabalho.
- Não fui tão longe quanto gostaria de ter ido, cercada por aquela droga de advogado. Vou quebrá-lo, Neville. Juro que vou.
- É, estou apostando em você. Só que, ahn... tenho que lhe dizer uma coisa que não vai lhe cair muito bem. DeBlass teve um pipoco no coração.
- Cristo, ele não vai cortar o nosso barato, vai?
- Não, não, já foi medicado. Ouvi um papo a respeito de conseguirem um novo coração para ele na semana que vem.
- Ótimo. - Ela exalou uma nuvem de vapor quando soltou a respiração. - Quero que ele ainda viva por muito tempo. Atrás das grades.
- Temos um caso bem sólido. O promotor está pronto para canonizar você, mas por enquanto DeBlass está na rua.
Gina apertou o freio com força. Uma onda de buzinas zangadas atrás dela a obrigou a fazer uma mudança de pista, indo até a esquina da Décima Avenida e bloqueando a entrada do retorno.
- Que diabos você quer dizer com “DeBlass está na rua”? - Neville se encolheu todo, mostrando empatia com a reação dela, e explicou:
- Foi liberado em reconhecimento ao seu valor. É um senador dos Estados Unidos, com uma vida inteira de serviços patrióticos, o sal da terra, com coração de ouro... e uma juíza no bolso.
- Ah, sem essa! - Puxou os cabelos com força até que a dor foi equivalente à frustração. - Nós o pegamos por homicídio, três crimes. O promotor falou que a juíza não ia liberá-lo, nem mesmo pagando fiança.
- Só que ela foi derrubada. O advogado de DeBlass fez um discurso tão tocante que até os paralelepípedos choraram; um defunto chegou a se levantar e saudou a bandeira. DeBlass já está de volta em Washington neste instante, com ordens médicas para repousar.
Ganhou trinta e seis horas de descanso, até o próximo interrogatório.
- Merda. - Socou o volante com a mão. - Não vai fazer diferença. - disse com ar sombrio. - Ele pode bancar o velho estadista adoentado, pode até fazer um número de sapateado no monumento a Lincoln, que eu já o agarrei.
- O comandante está preocupado com que esse prazo extra possa dar uma chance para DeBlass reunir suas forças. Ele quer que você volte para trabalhar no caso com o promotor, e repasse tudo o que temos contra ele, amanhã cedo, às oito da manhã.
- Vou estar lá. Neville, ele não vai escapar desse laço.
- Então certifique-se de que o laço está bem apertado, garota. Vejo você às oito.
- Certo. - Com a cabeça fervendo, voltou ao fluxo do tráfego. Chegou a considerar a idéia de ir para casa e mergulhar de cabeça na corrente de provas. Só que ela estava a cinco minutos da casa de Harry. Gina optou por usá-lo como caixa de ressonância para suas idéias.
Ela podia contar com Harry para bancar o advogado do diabo, se fosse preciso, ou para assinalar possíveis falhas. E, admitiu, também para acalmá-la, a fim de que pudesse raciocinar sem todas aquelas emoções violentas atravancando o caminho.
Ela não podia se dar ao luxo de ter essas emoções, não podia permitir que o rosto de Catherine aparecesse em sua cabeça, como estava acontecendo o tempo todo. A vergonha, o medo e a culpa.
Era quase impossível separar as coisas. Só sabia que queria ver DeBlass pagando cada centavo do que devia, tanto por Catherine quanto pelas três mulheres mortas.
Passou pela segurança e entrou no portão de Harry, dirigindo com rapidez pela alameda acima. Sua pulsação começou a acelerar enquanto subia as escadas da entrada. Idiota, disse a si mesma. Sentiu-se uma adolescente infestada de hormônios. Mas estava sorrindo quando Moody abriu a porta.
- Preciso ver Harry. - disse ela, entrando direto.
- Sinto muito, tenente. Harry não se encontra em casa.
- Oh... - A sensação de anticlímax a fez se sentir ridícula. - Onde ele está?
- Acredito que está em uma reunião. - Moody assumiu o seu rosto de jogador de pôquer. - Ele foi obrigado a cancelar uma importante viagem à Europa, e agora está sendo obrigado a trabalhar até mais tarde.
- Certo. - O gato veio descendo a escada, com arrogância, e imediatamente começou a serpentear, caminhando entre as pernas de Gina. Ela o pegou e lhe fez um carinho na barriga. - Quando é que você acha que ele volta?
- O tempo de Harry são os negócios dele, tenente. Não me cabe especular o momento da sua volta.
- Escute aqui, meu chapa, eu não estou forçando Harry a gastar o valioso tempo dele comigo. Portanto, por que não arranca esse cabo de vassoura que está enterrado no seu traseiro e me conta por que é que você age como se eu fosse algum tipo de rato desagradável, sempre que apareço aqui?
O choque fez o rosto de Harry ficar branco como um papel.
- Não me sinto confortável com maneiras rudes, Tenente Weasley. A senhorita, obviamente, se sente.
- Elas combinam comigo como feijão com arroz.
- Realmente. - Moody se colocou mais aprumado. - Harry é um homem de bom gosto, de influência, e tem estilo. Tem ao seu dispor o ouvido de presidentes e reis. Já serviu de companhia a mulheres importantes, com educação impecável e linhagem elevada.
- E eu tenho pouca educação e nenhum pedigree. - Teria dado uma risada se as farpas não a tivessem atingido tão perto do coração. - Pois parece que até mesmo um homem como Harry consegue ocasionalmente achar uma vira-latas, como eu, atraente. Diga a ele que eu levei o gato. - acrescentou ela, e foi embora.
Ajudou dizer a si mesma que Moody era um esnobe insuportável. E o interesse silencioso do gato enquanto ela saiu ventando pela alameda curiosamente a acalmou. Ela não precisava da aprovação de um mordomo de bunda contraída. E como se concordasse com ela, o gato foi para o seu colo e começou a massagear-lhe as coxas. Ela franziu a testa enquanto via as pequenas garras beliscando suas calças, mas não o tirou dali.
- Acho que vamos ter que arrumar um nome para você. Eu nunca tive um bicho de estimação antes. - murmurou. - Não sei como é que a Georgie chamava você, mas vamos começar do zero. Não se preocupe, não vamos escolher nenhum nome sem personalidade, como Mimi.
Chegando em sua garagem, estacionou o carro e viu a luz amarela piscando na parede, no local da sua vaga. Um aviso de que o pagamento da vaga estava em atraso. Se a luz ficasse vermelha, um parapeito ia se levantar e ela ficaria com o carro preso.
Xingou baixinho, mais pelo hábito do que por raiva. Ela não andava com tempo nem de pagar as contas, droga, e viu que estava na hora de encarar uma noite tentando fazer malabarismos com seu orçamento para acertar a conta no banco. Colocando o gato embaixo do braço, caminhou até o elevador.
- Fred, talvez. - Colocou a cabeça de lado, observando os olhos com duas cores que não mostravam emoção. - Não, você não tem cara de Fred. Nossa, você deve pesar uns dez quilos. - Trocando a bolsa de ombro, entrou no elevador. - Vamos pensar em algum nome interessante, Tubbo.
No minuto em que ela o colocou no chão, dentro do apartamento, o gato voou em direção à cozinha. Levando a sério as suas responsabilidades como dona de animal de estimação, e decidindo que aquele era um bom meio de adiar um pouco o momento de verificar suas contas, Gina o seguiu e arranjou um pires com leite e um pouco de sobras de comida chinesa que estavam com um cheiro estranho.
O gato aparentemente não era muito exigente em questões de comida, e atacou a refeição com gosto.
Ela ficou observando o animal por um momento e deixou a mente vagar. Ela queria Harry. Precisava dele. Isso era mais uma coisa na qual ela ia ter que pensar, depois. Não sabia até que ponto poderia levar a sério o fato de ele ter dito que estava apaixonado por ela. O amor significava coisas diferentes para pessoas diferentes.
Jamais fizera parte da sua vida.
Serviu-se de meio cálice de vinho e ficou matutando naquilo. Sentia algo por ele, certamente. Algo novo, e desconfortavelmente forte. Mesmo assim, achava melhor deixar as coisas ficarem do jeito que estavam. Decisões tomadas de modo apressado levavam quase sempre a arrependimentos rápidos. Por que diabos ele não voltara para casa?
Colocando de lado o vinho que não tinha sido tocado, passou a mão pelos cabelos. Aquele era o maior problema em ficar-se acostumando com alguém, pensou. A pessoa acabava se sentindo sozinha quando esse alguém não estava perto.
Ela tinha trabalho a fazer, lembrou a si mesma. Um caso para encerrar, uma pequena roleta-russa com seus cartões de crédito. Talvez se presenteasse com um banho quente e demorado, para deixar um pouco do estresse se dissolver, antes de se preparar para a reunião com o promotor na manhã seguinte.
Deixou o gato engolindo a gororoba agridoce e foi para o quarto. Os instintos, letárgicos depois do dia longo e das questões pessoais, ficaram em alerta um segundo depois do que deveriam.
Sua mão já estava na arma quando ela percebeu o movimento por inteiro. Mas deixou o braço pender lentamente enquanto olhava para o cano comprido do revólver.
Era um Colt, ela pensou. Colt 45. Aquele modelo que domou o Velho Oeste americano com seis balas de cada vez, no tambor.
- Isso não vai ajudar a livrar o seu patrão, Rockman.
- Não concordo. - Ele saiu detrás da porta e manteve o revólver apontado para o coração dela. - Pegue sua arma devagar, tenente, e atire-a no chão.
Ela mantinha os olhos grudados nos dele. O laser era rápido, mas não ia ser mais rápido do que um 45 engatilhado. E, daquela distância, o buraco em seu peito ia deixar uma impressão muito desagradável. Jogou a arma no chão.
- Chegue mais para perto de mim. Não, não! - Ele sorriu de modo agradável quando a viu colocar a mão no bolso. - Jogue o comunicador também. Prefiro que isso fique apenas entre nós dois. Ótimo. - disse ele quando o aparelho também caiu no chão.
- Há pessoas que poderiam achar admirável a sua lealdade ao senador, Rockman. Eu acho burrice. Mentir para fornecer um álibi a ele é uma coisa. Ameaçar uma policial é outra.
- Você é uma mulher admiravelmente brilhante, tenente. Mesmo assim, comete erros admiravelmente tolos. Isto aqui não tem nada a ver com lealdade. Gostaria que tirasse o casaco.
Ela manteve os movimentos lentos e os olhos grudados nele. Quando já havia despido um dos lados, ligou o gravador que estava no bolso.
- Se apontar uma arma para mim não tem nada a ver com lealdade ao Senador DeBlass, Rockman, do que se trata, então?
- É uma questão de auto-preservação, e um grande prazer. Eu já esperava há muito tempo pela oportunidade de matá-la, tenente, mas não sabia bem ao certo como encaixar isso no plano.
- E que plano é esse?
- Por que não se senta? Na beirada da cama. Tire os sapatos e podemos conversar.
- Meus sapatos?
- Sim, por favor. Isto vai me dar a primeira e, tenho certeza, a única oportunidade de discutir a respeito das coisas que consegui realizar. Seus sapatos, por favor!
Ela se sentou, escolhendo o lado da cama que ficava mais perto do seu tele-link.
- Você vem trabalhando nisso junto com DeBlass o tempo todo, não vem?
- Você quer arruiná-lo. Ele poderia ter sido presidente e, eventualmente, o Chefe da Federação Mundial das Nações. A maré está subindo, e ele poderia ter acompanhado essa subida para se sentar no Salão Oval. Até mais do que isso.
- Com você ao lado dele.
- É claro. E comigo ao lado, poderíamos ter levado o país, e depois o mundo, a tomar uma nova direção. A direção certa. Uma posição onde a moral seria mais forte, e a defesa também.
Ela levou algum tempo, deixando um dos sapatos cair antes de desfazer o laço do outro.
- Defesa... como os seus velhos amigos daquele grupo, a Rede de Segurança?
O sorriso dele era duro, e seus olhos brilhavam.
- Este país foi governado por diplomatas durante muito tempo, tempo demais. Nossos generais discutem e negociam, em vez de comandar. Com a minha ajuda, DeBlass teria mudado tudo isso. Mas você estava determinada a derrubá-lo, e a mim junto. Não há chance de ele chegar à Presidência, agora.
- Ele é um assassino, um molestador sexual de crianças...
- Um estadista. - Rockman interrompeu. - E você jamais vai conseguir levá-lo ao tribunal.
- Ele vai ser levado ao tribunal e vai ser condenado, e me matar não vai impedir isso.
- Não, mas vai destruir o seu caso contra ele, de modo póstumo, de ambas as partes. Veja só, quando eu o deixei, há menos de duas horas, o Senador DeBlass estava em seu gabinete em Washington. Fiquei ao lado dele enquanto ele escolhia uma Magnum 457, uma arma muito poderosa. E testemunhei o momento em que ele colocou o cano na boca e morreu como um patriota.
- Cristo! - A imagem lhe deu um sobressalto. - Suicídio.
- O guerreiro abatido pela própria espada. - A admiração brilhava na voz de Rockman. - Eu lhe disse que esta era a única saída, e ele concordou. Jamais seria capaz de tolerar a humilhação. Quando o corpo dele for encontrado, e quando o seu for encontrado também, a reputação do senador estará novamente intacta. Será provado que ele já estava morto há horas antes de você. Assim, ele não poderia tê-la matado, e o método será exatamente o dos outros assassinatos, e depois haverá mais dois, conforme prometido, e as provas contra ele vão deixar de ter importância. Ele será pranteado. Eu mesmo vou liderar a carga de fúria e indignação, e vou seguir seus passos ensangüentados.
- Não se trata de política, droga. - Ela se levantou e se preparou para levar o tiro.
Ficou grata por ele não ter usado a arma, e sim as costas da mão para bater em seu rosto. Ela se desequilibrou com o golpe e caiu pesadamente sobre a mesinha-de-cabeceira. O copo que tinha colocado ali se espatifou no chão.
- Levante-se!
Ela gemeu um pouco. Na verdade, a fisgada da dor deixou-lhe o rosto latejando e a visão embaçada. Fez força para se levantar e se virou, com todo o cuidado para manter o corpo na frente do telelink que acabara de ligar manualmente.
- E que bem vai lhe trazer me matar, Rockman?
- Vai me fazer um bem imenso. Você era a ponta-de-lança da investigação. Está sexualmente envolvida com um dos primeiros suspeitos. Sua reputação e os seus motivos vão ser minuciosamente analisados, após a sua morte. Sempre é um erro dar autoridade a uma mulher.
- Você não gosta de mulheres, Rockman? - Gina limpou o sangue da boca.
- Elas têm suas utilidades, mas por baixo de tudo são prostitutas. Talvez você não tenha vendido o seu corpo a Potter, mas ele a comprou. A sua morte, na verdade, não vai quebrar o padrão que eu estabeleci.
- Você estabeleceu?
- Você achou realmente que DeBlass fosse capaz de planejar tudo e executar uma série tão meticulosa de assassinatos? - Esperou até que viu que ela o compreendeu. - Sim, ele matou Sharon. Foi um impulso. Eu nem mesmo sabia que ele estava considerando essa possibilidade. Depois do ato, ele entrou em pânico.
- Você estava lá. Estava com DeBlass na noite em que ele matou Sharon.
- Estava esperando por ele no carro. Sempre o acompanhava nos encontros dele com ela. Era eu que dirigia, de forma que apenas eu, em quem ele confiava, estava envolvido.
- A própria neta. - Gina não tinha coragem de se virar para ter certeza de que o tele-link estava transmitindo a conversa. - Isso não deixava você com nojo?
- Ela me deixava com nojo, tenente. Usava a fraqueza dele. Todo homem tem direito a ter uma fraqueza, mas ela usava isso, ela o explorava, e depois o ameaçava. Depois que ela morreu, compreendi que tinha sido melhor assim. Ela era capaz de esperar até ele se tornar presidente, para só então enfiar a faca.
- Então você o ajudou a encobrir tudo.
- Claro. - Rockman levantou os ombros. - Estou feliz por estarmos tendo esta oportunidade. Era frustrante, para mim, não ser capaz de levar os créditos. Estou adorando dividi-los com você.
Ego, ela se lembrou. Não apenas inteligência, mas ego e vaidade.
- Você teve que pensar rápido. - comentou ela. - E foi o que fez. Pensou rápido e de modo brilhante.
- Sim. - Seu sorriso se espalhou no rosto. - Ele me chamou pelo tele-link do carro e me mandou subir, depressa. Estava quase louco de tanto medo. Se eu não o tivesse acalmado, ela poderia ter conseguido causar a ruína dele.
- Você ainda consegue culpá-la?
- Ela era uma prostituta. Uma prostituta morta. - Ele deu de ombros, mas manteve a arma firme. - Dei um tranqüilizante para o senador, e limpei toda a sujeira. Conforme expliquei a ele, era necessário fazer com que Sharon fosse apenas uma parte do todo. Era preciso usar as fraquezas dela, e sua escolha patética de profissão. Tudo era simplesmente uma questão de adulterar os discos da segurança. A atração que o senador tinha por gravar as suas atividades sexuais me deu a idéia de usar aquilo como parte do padrão.
- Sim. - disse ela, com os lábios dormentes. - Isso foi esperto.
- Limpei todo o lugar, limpei a arma. E já que ele tinha sido sensato o bastante para não usar uma arma que estava registrada, deixei-a para trás. Mais uma vez, com o intuito de estabelecer um padrão.
- Então você o usou. - disse Gina baixinho. - Usou a ele, e usou Sharon.
- Só os tolos desperdiçam as oportunidades. Ele já estava de volta ao seu comportamento normal depois que fomos embora. - Rockman avaliou. - Eu consegui arquitetar o resto do plano. Usando Snape para aplicar um pouco de pressão, deixando vazar informações. Foi um fato infeliz o senador não se lembrar, até bem mais tarde, de me contar a respeito dos diários de Sharon. Tive que correr o risco de voltar lá. Mas como sabemos agora, ela era esperta o bastante para escondê-los bem.
- Você matou Lola Starr e Georgie Castle. Matou as duas para encobrir o primeiro assassinato.
- Foi. Só que, ao contrário do senador, eu curti aquilo. Do princípio ao fim. Foi só uma simples questão de selecioná-las, escolher os nomes e os locais.
Era um pouco difícil naquele momento alegrar-se com o fato de que ela estava certa, e o computador, errado. Dois assassinos, afinal.
- Você não as conhecia? Você nem sequer as conhecia?
- Você acha que eu deveria? - Ele riu dessa idéia. - Quem elas eram não tinha a menor importância. Apenas o que elas eram. Prostitutas me ofendem. Mulheres que abrem as pernas para enfraquecer um homem me ofendem. Você me ofende, tenente.
- Por que os discos? - Onde diabos estava Neville? Por que uma das unidades em serviço não estava arrebentando a porta dela bem naquele instante? - Por que foi que você me enviou os discos?
- Gostava de ver você ficar andando de um lado para o outro como um rato atrás do queijo. Uma mulher que acreditava que poderia pensar como um homem. Coloquei você na pista de Potter, mas você deixou que ele a fizesse recuar. Muito típico. Fiquei desapontado. Você foi muito emocional, tenente, a respeito das mortes, a respeito da garotinha que não conseguiu salvar. Mas acabou dando sorte. E é por esse motivo que agora está prestes a perder toda essa sorte.
Andou de lado até chegar à lateral do armário, onde uma câmera já estava esperando.
- Tire a roupa.
- Você pode me matar. - disse ela, enquanto o estômago começava a se remexer. - Mas você não vai me estuprar.
- Você vai fazer exatamente o que eu quiser que você faça. Elas sempre fazem. - Abaixou a arma até apontar abaixo da barriga. - Com as outras, dei um tiro na cabeça, primeiro. Morte instantânea, provavelmente sem dor. Tem idéia do tamanho da dor que vai sentir com uma bala calibre 45 enterrada nas tripas? Você vai implorar para que eu a mate. - Seus olhos se acenderam, com um brilho estranho. - Tire a roupa!
Gina deixou as mãos caírem para os lados do corpo. Ela conseguiria encarar a dor, mas não o pesadelo. Nenhum dos dois reparou quando o gato entrou sorrateiramente no quarto.
- A escolha foi sua, tenente. - disse Rockman, e então deu um pulo de susto quando o gato passou se esfregando em suas pernas.
Gina deu um salto para a frente com a cabeça baixa, e usou toda a força do corpo para atirá-lo contra a parede.



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