CAPÍTULO DEZOITO
Gina deixou que Catherine chorasse, embora soubesse muito bem que as lágrimas não iam lavar-lhe a ferida. Sabia, também, que ela não teria sido capaz de lidar com a situação por si mesma. Foi Harry que acalmou Elizabeth e Richard, e foi ele que ordenou ao robô doméstico que recolhesse a louça quebrada; foi ele que ficou segurando as mãos deles; e, quando achou que o momento era certo, também foi ele que sugeriu com delicadeza que pedissem um pouco de chá para Catherine. Elizabeth foi buscar o chá ela mesma, e fechou cuidadosamente as portas da sala de estar antes de trazer a xícara para a cunhada.
- Aqui está, querida. Beba um pouco.
- Sinto muito. - Catherine colocou as mãos trêmulas em volta da xícara, para aquecê-las. - Sinto muito. Eu achei que aquilo havia parado. Obriguei-me a acreditar que havia parado. Não podia viver, se fosse de outra forma.
- Está tudo bem. - Com o rosto sem expressão, Elizabeth voltou para perto do marido.
- Senhora DeBlass, preciso que a senhora me conte tudo. Deputada DeBlass. - Gina esperou pacientemente até que Catherine conseguisse focar os olhos nela de novo. - A senhora compreende que esta nossa conversa está sendo gravada?
- Ele vai impedir você.
- Não, não vai. Foi por isso que a senhora me ligou, porque sabia que sou eu que vou impedi-lo.
- Ele tem medo da senhorita. - sussurrou Catherine. - Tem medo, eu pude perceber. Ele tem medo das mulheres em geral. É por isso que as machuca. Acho que ele deve ter dado alguma coisa para a minha mãe, algo que quebrou seu espírito. Ela sabia.
- A sua mãe sabia que seu pai abusava da senhora?
- Sabia. Fingia não saber, mas dava para ver em seus olhos. Ela não queria saber, queria que tudo fosse calmo e perfeito, para que pudesse dar as festas dela e bancar a esposa do senador. - Levantou a mão, fazendo um escudo sobre os olhos. - Quando ele vinha até o meu quarto à noite, eu podia ver no rosto dela, na manhã seguinte. Sempre que tentava conversar com ela, no entanto, para pedir que ela fizesse com que ele parasse, fingia que não sabia sobre o que eu estava falando. Dizia para eu parar de inventar histórias. Mandava que eu fosse boa, que respeitasse a família.
Abaixou a mão novamente, envolveu a xícara de chá com as duas mãos, mas não bebeu.
- Quando eu era pequena, aos sete ou oito anos, ele vinha à noite e ficava me tocando. Dizia que estava tudo bem, porque ele era o papai, e eu tinha que fingir que era a mamãe. Era uma brincadeira, dizia ele, uma brincadeira secreta. Ele me dizia que eu tinha que fazer coisas... tocar nele. Tinha que...
- Tudo bem. - Gina a consolava, enquanto Catherine voltava a tremer violentamente. - Não precisa me dizer. Conte-me o que conseguir.
- A gente tinha que obedecer a ele. Éramos obrigados. Ele era uma força em nossa casa, não é, Richard?
- Sim. - Richard pegou a mão da irmã, envolveu-a com a dele e apertou com força. - Eu sei.
- Eu não podia contar a você porque tinha vergonha, e tinha medo, e mamãe sempre olhava para o outro lado; então, eu achei que tinha que fazer aquilo. - Ela engoliu em seco. - No dia do meu aniversário de doze anos, tivemos uma festa em casa. Um monte de amigos, um bolo imenso e os pôneis. Você se lembra dos pôneis, Richard?
- Lembro. - Lágrimas começaram a descer silenciosamente pelo seu rosto. - Eu me lembro.
- E então, naquela noite, na noite do meu aniversário, ele veio. Disse que eu já estava grande o bastante. Disse que tinha um presente para mim, um presente muito especial, porque eu já era uma mocinha. E me estuprou. - Ela colocou o rosto entre as mãos e ficou se balançando para a frente e para trás. - Ele disse que era um presente. Oh, meu Deus! E eu implorava para que ele parasse, porque estava me machucando. E também porque eu já era grande o suficiente para saber que aquilo era errado, que era demoníaco. Que eu era diabólica. Mas ele não parou. E continuou voltando, depois desse dia. Durante anos, até eu conseguir fugir. Fui para a faculdade, bem longe, onde ele não poderia me tocar. E disse a mim mesma que nada daquilo acontecera. Jamais, jamais acontecera.
Depois de uma pausa, continuou.
- Tentei me fazer de forte, construir minha vida. Resolvi me casar porque pensei que seria seguro. Justin era tão gentil, tão meigo. Jamais me machucou. E eu jamais contei a ele. Achava que se ele descobrisse ia me desprezar. Então, continuei a dizer a mim mesma que aquilo jamais acontecera.
Baixou as mãos e olhou para Gina.
- Eu chegava a acreditar naquilo, às vezes. Na maior parte do tempo. Conseguia me envolver com o trabalho, com a família. Mas então consegui enxergar, e soube que ele estava fazendo a mesma coisa com Sharon. Eu queria ajudar, mas não sabia como. Então empurrei o problema para o lado, da mesma forma que minha mãe. Ele matou Sharon. Agora, vai me matar.
- Por que você acha que foi ele que matou Sharon?
- Porque ela não era fraca como eu. Ela se virou contra ele, usava aquilo para ameaçá-lo. Ouvi os dois discutindo, no dia de Natal. Aquele era o dia em que todos nós íamos para a casa dele, para fingir que éramos uma família. Vi os dois entrarem no escritório dele, e os segui. Entreabri a porta e fiquei vendo e ouvindo tudo pela fresta. Ele estava furioso com Sharon, porque ela estava zombando publicamente de tudo o que ele defendia. E ela respondeu: “Foi você que me fez ser assim, seu canalha.” Ouvir aquelas palavras me fez bem. Fiquei com vontade de aplaudir. Ela o enfrentou, ameaçou espalhar toda a verdade, a não ser que ele lhe pagasse muito dinheiro. Tinha tudo documentado, ela disse, cada detalhe sórdido. Então ele ia ter que pagar a ela, jogar pelas regras dela. Eles lutaram, atirando palavras duras um ao outro. E então...
Catherine lançou um olhar para Elizabeth e para o irmão, e depois desviou o rosto.
- Ela tirou a blusa. - O gemido de dor que Elizabeth soltou fez com que Catherine começasse a tremer novamente. - Ela disse que ele poderia tê-la, se quisesse, como qualquer cliente. Só que pagaria um preço mais alto. Muito mais alto. Ele estava olhando para ela. Eu conhecia o jeito com que ele estava olhando para ela, com os olhos vidrados e a boca frouxa. Ele agarrou os seios dela. E ela olhou para mim. Direto para mim. Ela sabia que eu estava ali, e olhou para mim com desprezo. Talvez até mesmo com ódio, porque sabia que eu não ia fazer nada. Fechei a porta, fechei e fugi. Eu me senti enojada. Ah, Elizabeth.
- Não é culpa sua. Ela deve ter tentado me contar. Eu jamais vi nada, jamais escutei nada. Nunca imaginei. Eu era a mãe dela, e não a protegi.
- Tentei conversar com ela - Catherine apertou as mãos uma contra a outra - quando estive em Nova York para uma campanha de arrecadação de fundos. Ela me disse que eu escolhera o meu caminho, e ela escolhera o dela. E falou que o dela era melhor. Eu brincava de política e mantinha a cabeça enterrada, enquanto ela brincava com o poder e mantinha os olhos abertos.
- No momento em que eu soube que ela estava morta, tive certeza. - continuou. - No funeral eu o observei, e ele me olhou enquanto eu o observava. Veio até onde eu estava e colocou os braços em volta de mim, puxando-me para junto dele, como se fosse para me consolar. E sussurrou, dizendo que eu devia prestar atenção. Devia me lembrar e ver o que acontecia quando as famílias não guardavam seus segredos. E me disse então que o Franklin era um belo rapaz, e que grandes planos ele tinha para ele. Disse que eu teria muito orgulho, mas devia também ter muito cuidado. - Ela fechou os olhos. - O que eu poderia fazer? Ele é meu filho.
- Ninguém vai machucar o seu filho. - Gina envolveu a mão rígida de Catherine com a sua. - Eu lhe prometo.
- Jamais vou saber se eu conseguiria ter salvo Sharon. A sua filha, Richard.
- Mas pode saber que está fazendo todo o possível, agora. - Sem perceber que ainda estava segurando a mão de Catherine, Gina a apertou com força, para tranquilizá-la. - Vai ser muito difícil superar tudo, Senhora DeBlass, e passar por tudo isso mais uma vez, como vai acontecer. Encarar a imprensa e toda a publicidade. Testemunhar, se houver um julgamento.
- Ele jamais vai permitir que isso chegue a um tribunal. - disse Catherine, com ar cansado.
- Não vou lhe dar escolha. - Talvez não por assassinato, pensou Gina. Ainda não. Mas ela ia enquadrá-lo, certamente, por abuso sexual. - Senhora Barrister, acho que a sua cunhada deveria descansar um pouco, agora. Pode ajudá-la a subir para o quarto?
- Sim, claro. - Elizabeth se levantou e foi até Catherine, para ajudá-la a se levantar. - Vamos deitar um pouco agora, querida, venha comigo.
- Sinto muito. - Catherine se apoiou pesadamente em Elizabeth, enquanto era levada para fora da sala. - Deus me perdoe, eu sinto muito.
- Temos um serviço de aconselhamento psiquiátrico, com uma médica do Departamento de Polícia, Senhor DeBlass. Acho que a sua irmã deveria ir vê-la.
- Sim. - disse ele de modo distraído, olhando para a porta que se fechara. - Ela vai precisar de alguém. De algo.
Todos vocês vão, pensou Gina.
- O senhor está disposto a responder a algumas perguntas?
- Não sei. Ele é um tirano, uma pessoa difícil. Mas isso o transforma em um monstro. Como posso aceitar que meu próprio pai seja um monstro?
- Ele tem um álibi para a noite em que a sua filha foi morta. - Gina assinalou. - Não posso acusá-lo de nada sem ter algo a mais.
- Um álibi?
- Meus registros dizem que Rockman estava em companhia de seu pai, trabalhando com ele em Washington, até quase duas da manhã, na noite do assassinato.
- Rockman é capaz de dizer qualquer coisa que meu pai lhe ordene.
- Inclusive para encobrir um assassinato?
- Trata-se apenas da maneira mais fácil de escapar. Por que alguém acreditaria que meu pai tem relação com o crime? - Seu corpo tremeu, como se tivesse sido atingido por uma corrente de ar gélido. - A declaração de Rockman afasta inteiramente o patrão de qualquer suspeita.
- Como é que seu pai faria para viajar de Washington para Nova York, ida e volta, se não quisesse que sua viagem ficasse registrada?
- Não sei. Se a aeronave dele saiu de Washington, deve estar marcado no diário de bordo.
- Diários de bordo podem ser adulterados - disse Harry.
- Sim. - Richard levantou os olhos como se apenas naquele momento tivesse se lembrado de que o seu amigo estava ali. - Você sabe mais a respeito dessas coisas do que eu.
- Esta foi uma referência aos meus dias de contrabandista. - explicou Harry a Gina. - Essa fase já ficou para trás há muito tempo. Bem, a adulteração pode ser feita, mas seria necessário molhar algumas mãos. A do piloto, talvez a do mecânico, e certamente a do engenheiro de vôo.
- Então, agora, eu já sei a quem devo pressionar. - Se Gina conseguisse provar que a aeronave do senador fez a viagem naquela noite, seria capaz de abrir um processo. Seria o suficiente para quebrá-lo. - O que você sabe a respeito da coleção de armas do seu pai?
- Mais do que gostaria. - Richard se levantou, com as pernas bambas. Foi até o bar e colocou um pouco de bebida em um copo. Bebeu de um gole só, como se fosse remédio. - Ele gosta de suas armas, vive exibindo-as. Quando eu era mais jovem, ele tentou fazer com que eu me interessasse por elas. Harry pode lhe contar que não funcionou.
- Richard acredita que armas são símbolos perigosos do abuso de poder. E posso também lhe dizer que sim, DeBlass ocasionalmente fazia uso do mercado negro.
- E por que você não mencionou isso antes?
- Você não perguntou. - Ela deixou passar, por ora.
- Seu pai possui conhecimentos de segurança? Conhece os aspectos técnicos?
- Certamente. Sente orgulho por saber como se proteger. Essa é uma das poucas coisas que conseguimos discutir sem acabar brigando.
- O senhor o consideraria um perito?
- Não. - respondeu Richard, devagar. - Apenas um amador talentoso.
- E o relacionamento dele com o Secretário Snape? Como o senhor o descreveria?
- Era para se auto-satisfazer. Ele considerava Snape um tolo. Meu pai gosta de usar os tolos. - De repente, Richard se atirou na poltrona. - Sinto muito, não posso mais continuar com isso. Preciso de algum tempo. Preciso da minha mulher.
- Tudo bem, Senhor DeBlass. Vou providenciar para que seu pai seja vigiado. O senhor não vai conseguir alcançá-lo sem ser monitorado. Por favor, não tente fazer isso.
- A senhorita acha que eu vou tentar matá-lo? - Richard deu um sorriso melancólico e ficou olhando fixamente para as próprias mãos. - Gostaria de fazer isso. Pelo que ele fez com a minha filha, com a minha irmã, com a minha vida. Só que eu não teria coragem.
Quando estavam mais uma vez do lado de fora da casa, Gina caminhou direto para o carro, sem olhar para Harry.
- Você suspeitava disso? - perguntou ela.
- Que DeBlass estava envolvido? Sim, suspeitava.
- Mas não me disse nada.
- Não. - Harry a fez parar antes que ela pudesse abrir a porta do carro. - Era apenas um palpite, Gina. Não fazia idéia do que aconteceu com Catherine. Não tinha idéia absolutamente de nada. Apenas suspeitava que Sharon e DeBlass estivessem tendo um caso.
- Essa é uma palavra muito limpa para isso.
- Eu suspeitava - continuou ele - pela maneira com que ela se referiu ao avô durante aquele nosso único jantar juntos. No entanto, era mais um sentimento, eu não tinha fatos. Era um sentimento que não serviria de nada para ajudar no seu caso. Além do mais, - acrescentou ele, virando-a de frente para ele - depois que eu passei a conhecer você melhor, resolvi guardar aquele sentimento para mim mesmo, porque não queria magoá-la. - Gina puxou o rosto para o lado. Harry o puxou de volta pacientemente, com a ponta dos dedos. - Você não teve ninguém que a ajudasse?
- Não se trata de mim. - Soltou um suspiro entrecortado. - Não posso pensar a respeito disso, Harry. Não posso. Vou acabar estragando tudo; e, se eu estragar tudo, ele pode conseguir escapar. Escapar dos estupros e do assassinato; escapar do abuso sexual das crianças que ele deveria estar protegendo. Não vou deixar que ele escape.
- Você não disse a Catherine que a única forma de lutar contra isso era contar tudo?
- Tenho muito trabalho pela frente.
Ele disfarçou a frustração, dizendo:
- Imagino que você vai querer ir até o Aeroporto de Washington, onde DeBlass mantém sua aeronave.
- Vou. - Ela entrou no carro enquanto Harry dava a volta para se sentar no banco do motorista. - Pode me deixar na estação mais próxima.
- Vou com você, Gina.
- Tudo bem, ótimo. Preciso mesmo entrar lá.
Enquanto ele dirigia pela estrada sinuosa, ela fez uma ligação para Neville.
- Consegui algo bem quente aqui. - disse, antes mesmo que ele tivesse a chance de falar alguma coisa. - Estou a caminho de Washington.
- Você conseguiu algo quente? - A voz de Neville era quase melodiosa. - Não precisei nem procurar além do último registro do diário, Weasley, que foi gravado na manhã do assassinato. Só Deus sabe por que motivo ela levou o diário para o banco. Foi pura sorte. Ela tinha um encontro com um cliente para a meia-noite. Você jamais vai adivinhar quem era.
- O avô dela.
- Mas que droga Weasley. - Neville arregalou os olhos e esbravejou. - Como é que você sabia?
- Quero que você apenas me diga que isto está documentado, Neville. - Ela fechou os olhos por um instante. - Diga-me que ela especificou o nome dele.
- Ela o chamou de senador, e se referiu a ele também como o velho peidão que era avô dela. E também falou com alegria a respeito dos cinco mil dólares que cobrava dele por cada transa. Abre aspas: “Quase vale a pena deixar que ele babe em cima de mim, e olha que ainda há um bocado de energia no meu vovozinho. O canalha. Cinco mil dólares a cada duas semanas não é assim um acordo tão mau. Pelo menos faço tudo para que o dinheiro que ele gasta valha a pena. Não é como quando eu era criança e ele me usava. Virei a mesa. Não vou me transformar em uma ameixa seca como a pobre tia Catherine. Estou me dando bem nessa história. E qualquer dia, quando eu me enjoar disso, vou mandar todos os meus diários para a imprensa. Cópias múltiplas. O canalha fica louco sempre que eu ameaço fazer isso. Talvez esta noite eu enfie a faca um pouco mais fundo. Vou dar um susto daqueles no senador. Por Deus, é maravilhoso ter o poder de fazê-lo se contorcer todo de medo, depois de tudo o que ele fez comigo.” Isso já vinha de longe, Weasley. - Neville balançou a cabeça. - Pesquisei vários registros. Ela ganhava uma grana alta com chantagem, cita nomes e fornece provas. Só que tudo isto coloca o senador no apartamento dela na noite do crime. Agora, ele está com o traseiro na reta.
- Você pode me conseguir um mandado de prisão?
- As ordens do comandante eram para emitir um mandado e enviar, no instante em que você ligasse. Mandou que você fosse pegá-lo. Assassinato em primeiro grau, três crimes.
- Onde é que eu vou encontrá-lo? - Gina soltou um suspiro profundo.
- Ele está no Senado Federal, neste instante, apregoando seu projeto de lei em defesa da Moral e dos Bons Costumes.
- Nossa, mas isso é perfeito! Já estou indo para lá. - Desligando, ela se virou para Harry. - Não dá para isso aqui ir mais rápido, não?
- Vamos descobrir.
Se junto com o mandado não tivessem vindo algumas ordens de Lupin, instruindo-a para que fosse discreta, Gina teria entrado marchando pelo salão do Senado e o teria algemado na frente dos seus aliados políticos. Mesmo assim, ainda havia uma satisfação considerável na forma como a coisa aconteceu.
Gina esperou até que ele completasse o seu discurso apaixonado a respeito do declínio moral do país, a corrupção insidiosa que brotara da promiscuidade, do controle da natalidade e da engenharia genética. Expunha a falta de moralidade dos jovens, a morte da religião organizada nos lares, nas escolas e nos locais de trabalho.
A nação, que sempre tivera a proteção de Deus, se tornara herege. O direito constitucional de portar armas tinha sido destruído pela direita liberal. Apresentava números que falavam de crimes violentos, decadência urbana, drogas contrabandeadas, tudo isso um resultado claro, como clamava o senador, do nosso crescente declínio moral, nossa tolerância com os criminosos, nossa indulgência com a liberdade sexual sem responsabilidade.
Ouvir tudo isso estava deixando Gina com enjôo.
- No ano 2016, - disse ela baixinho - no final da Revolta Urbana, antes da proibição das armas, tinha havido dez mil mortos e feridos por armas de fogo, só nas imediações de Manhattan.
Ela ainda estava assistindo DeBlass, que vendia a sua panaceia, quando sentiu Harry colocar a mão na base das suas costas.
- Antes de legalizarmos a prostituição, havia um estupro ou tentativa de estupro a cada três segundos. É claro que ainda temos casos de estupro, porque é algo que tem muito menos a ver com sexo do que com poder, mas os números baixaram. As prostitutas licenciadas e legalizadas não têm cafetões, portanto não são mais agredidas, espancadas ou mortas. E não podem usar drogas. Houve um tempo em que as mulheres iam a açougueiros para se livrar de uma gravidez indesejada. Arriscavam a própria vida ou destruíam a vida dos filhos. Bebês nasciam cegos, surdos e deformados, antes que a engenharia genética e as pesquisas tornassem possível fazer operações in vitro. Não é um mundo perfeito, mas quando você o ouve, entende que poderia ser ainda muito pior. Você sabe o que a mídia vai fazer com ele quando a bomba estourar?
- Crucificá-lo. - murmurou Gina. - Espero em Deus que isso não o transforme em um mártir.
- A voz dos direitos da moral como suspeito de incesto, negociações com prostitutas, e cometendo assassinato? Acho que não. Ele está acabado. - Harry assentiu com a cabeça. - De várias formas.
Gina escutou os estrondosos aplausos da galeria. Pelo som entusiasmado, a equipe de DeBlass tinha tido o cuidado de misturar gente do seu grupo com os espectadores usuais.
Dane-se a discrição, pensou ela enquanto ouvia o martelo do presidente da sessão bater, anunciando uma hora de recesso. Atravessou um mar de assessores, assistentes e auxiliares, até chegar a DeBlass. Ele estava sendo parabenizado por sua eloqüência, e recebia tapinhas nas costas dados por seus aliados políticos. Gina esperou até que ele a visse, e aguardou enquanto o seu olhar passava do rosto dela para o de Harry, e seus lábios se apertavam.
- Tenente. Se a senhorita precisa falar comigo, podemos nos encontrar por alguns instantes em meu gabinete. A sós. Posso lhe conceder dez minutos.
- O senhor vai dispor de bastante tempo. Senador DeBlass, o senhor está sendo preso neste instante pelos assassinatos de Sharon DeBlass, Lola Starr e Georgie Castle. - Quando ele explodiu em protestos e os murmúrios começaram, ela levantou a voz. - Acusações adicionais incluem os estupros incestuosos de Catherine DeBlass, sua filha, e de Sharon DeBlass, sua neta.
Ele ainda estava em pé, paralisado com o choque, no momento em que ela colocou uma das algemas no seu pulso esquerdo, virou-o, e prendeu as duas mãos, colocadas nas costas.
- O senhor não está obrigado a dar nenhuma declaração neste momento. - continuou Gina.
- Isto é um ultraje! - Ele explodiu ao ouvir as declarações padronizadas e atualizadas a respeito dos seus direitos legais de permanecer em silêncio. - Eu sou um senador dos Estados Unidos. Este aqui é um território federal.
- E estes dois agentes federais vão acompanhá-lo. - acrescentou ela. - O senhor tem direito a um advogado ou representante. - Enquanto continuava a recitar os direitos dele, ela deu uma olhada feroz que fez os policiais federais e os curiosos recuarem no mesmo instante. - O senhor compreendeu bem todos os seus direitos?
- O que eu vou conseguir é o seu distintivo, sua piranha. - Ele começou a resmungar enquanto ela o empurrava através da multidão.
- Vou aceitar esta declaração como um sim. Fique frio, senador. Não queremos que o senhor tenha algum problema cardíaco. - Ela se inclinou perto do ouvido dele. - E você não vai conseguir o meu distintivo, seu canalha. Eu é que vou conseguir o seu traseiro. - E o empurrou nos braços dos agentes federais. - Estão esperando por ele em Nova York. - encerrou ela.
Gina mal conseguia ser ouvida agora. DeBlass estava aos berros, exigindo liberação imediata. Todo o prédio do Senado entrou em erupção com vozes e corpos que se misturavam. Através de tudo isso, ela avistou Rockman. Ele veio na direção dela, com o rosto transformado em uma máscara gélida de fúria.
- Está cometendo um erro, tenente.
- Não, não estou. Você é que cometeu um erro em sua declaração. No meu modo de ver, isso vai torná-lo cúmplice dos crimes. Vou começar a trabalhar nisso assim que voltar a Nova York.
- O Senador DeBlass é um grande homem. Você, tenente, não passa de um peão nas mãos do Partido Liberal e seus planos para destruí-lo.
- O Senador DeBlass é um molestador sexual de crianças, e incestuoso. É um estuprador e um assassino. E eu, meu chapa, sou a policial que o está prendendo. Quanto a você, é melhor procurar um advogado depressa, a não ser que queira afundar junto com ele.
Harry teve que se segurar para não levantar Gina acima da multidão, enquanto ela se arrastava através dos salões glorificados do Senado. Integrantes da mídia já estavam pulando na sua frente, mas ela se desvencilhava como se eles não estivessem ali.
- Gosto do seu estilo, Tenente Weasley. - disse ele, enquanto lutavam para conseguir chegar no carro. - Gosto muito. E, a propósito, não estou mais achando que estou apaixonado por você. Agora, já tenho certeza.
Ela engoliu em seco devido ao enjôo que sentiu subir-lhe pela garganta.
- Vamos sair daqui, Harry. Vamos dar o fora daqui.
Por pura força de vontade, ela se manteve firme até chegar no avião. Conseguiu manter a voz no mesmo nível e sem expressão enquanto fazia o relatório ao seu superior. Em seguida cambaleou, e, livrando-se dos braços de Harry, que a apoiavam, correu até o banheiro na parte da frente do avião, onde vomitou de modo penoso e violento.
Do lado de fora da porta, Harry esperava de pé, sem saber o que fazer. Se ele a conhecia bem, já devia saber que tentar conforta-la só ia piorar as coisas. Murmurou algumas instruções para a aeromoça e foi para a poltrona. Enquanto esperava, olhava para o asfalto da pista.
Quando a porta se abriu, ele olhou para cima. Ela estava branca como gelo, com os olhos muito grandes e sombrios. Seu caminhar, normalmente rápido e desenvolto, estava rígido.
- Desculpe. Acho que isso tudo me derrubou. - Quando ela se sentou, ele lhe ofereceu uma caneca.
- Beba um pouco. Vai ajudá-la.
- Que é isso?
- Chá... com umas gotinhas de uísque.
- Estou de serviço. - começou ela, mas a erupção violenta e rápida de Harry a fez parar de falar.
- Beba logo essa droga, senão vou lhe enfiar goela abaixo. - Apertou um botão e ordenou ao piloto para decolar.
Dizendo a si mesma que era melhor beber do que discutir, Gina levantou a caneca, mas suas mãos não estavam firmes. Mal conseguiu tomar um gole, com a boca entreaberta e os dentes rangendo, antes de colocar a caneca de lado. Não conseguia parar de tremer. Quando Harry correu para acudir, ela se recostou na poltrona. O enjôo continuava, penetrando sorrateiramente pelo estômago, e fazendo a sua cabeça latejar terrivelmente.
- Meu pai me estuprava. - ela se ouviu dizendo. O choque daquilo, de ouvir sua própria voz dizendo aquelas palavras, se estampou em seus olhos. - Ele me estuprava repetidas vezes. E me surrava, repetidas vezes. Não importa se eu lutava para escapar ou não, mesmo assim ele me estuprava. Mesmo assim ele me batia. E não havia nada que eu pudesse fazer. Não há nada que você possa fazer quando uma pessoa que deveria cuidar de você abusa de seu corpo daquela forma. Usa você. Machuca você.
- Gina. - Ele pegou a mão dela e a segurou com firmeza quando ela tentou liberá-la. - Sinto muito. Sinto terrivelmente.
- Eles me contaram que eu estava com oito anos quando me encontraram, em um beco da cidade de Dallas. Eu estava sangrando, e meu braço estava quebrado. Ele deve ter me jogado ali. Eu não sei. Talvez eu tenha fugido. Não me lembro. Só sei que ele nunca veio me buscar. Ninguém jamais veio me buscar.
- E a sua mãe?
- Também não sei. Não me lembro dela. Talvez estivesse morta. Ou talvez ela fosse como a mãe de Catherine, e fingisse que não sabia de nada. Tudo o que eu me lembro são visões, pesadelos, imagens das piores partes. Nem mesmo sei o meu nome. Eles não conseguiram me identificar.
- Mas você ficou em segurança, então.
- Você nunca deve ter sido atirado no meio do sistema. Não existe sensação de segurança. Só de impotência. Eles tiram toda a sua roupa, com boas intenções. - Suspirou, deixou a cabeça pender para trás e fechou os olhos. - Eu não queria prender DeBlass, Harry. Queria matá-lo. Queria matá-lo com minhas próprias mãos, por causa do que aconteceu comigo. Deixei que o caso se tornasse pessoal.
- Você fez o seu trabalho.
- Sim, fiz o meu trabalho. E vou continuar fazendo. - Mas não era no trabalho que ela estava pensando. Era na vida. Na vida dela, na vida dele. - Harry, você tem de saber que eu tenho alguma coisa de muito ruim dentro de mim. É como um vírus que penetra em meu sistema e aparece quando a resistência cai. Não sou uma boa aposta para você.
- Eu gosto de correr grandes riscos. - Ele levantou a mão dela e a beijou. - Por que não deixamos rolar, para descobrir se nós dois não podemos sair ganhando?
- Eu nunca tinha contado isso a ninguém, antes.
- E ajudou?
- Não sei. Talvez. Cristo, eu estou tão cansada!
- Pode se encostar em mim. - Ele passou o braço em volta dela, aninhando a sua cabeça na curva do próprio ombro.
- Só por um instantinho. - murmurou ela. - Só até a gente chegar em Nova York.
- Só por um instante, então. - Pressionou os lábios sobre os cabelos dela e torceu para que ela conseguisse dormir.
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