Sentada numa confortável poltrona da sala comunal da Grifinória, Hermione suspirou e olhou para as primeiras gotas de chuva que escorriam pela janela. O castelo de Hogwarts estava praticamente deserto, pois a grande maioria dos alunos havia aproveitado aqueles dias de folga para visitarem suas famílias.
Ela olhou para as chamas da lareira que aquecia o ambiente e sentiu-se extremamente sozinha. Seus pais estavam viajando. Provavelmente já estavam na Irlanda, nesse exato momento. Rony iria ficar até tarde no salão dos troféus, cumprindo mais um dos castigos sem motivo algum de Snape. E Harry tinha ido treinar quadribol.
Fechando o volumoso livro que tinha em seu colo, Hermione encostou o rosto na superfície fria da vidraça e sentiu o sabor amargo e salgado de suas próprias lágrimas. Ela tinha prometido a si mesma nunca mais chorar por causa dele. Mas não era tão forte assim. Tinha que admitir pra si mesma que não era capaz de esquecê-lo tão facilmente.
O barulho de alguém atravessando a passagem da mulher gorda a fez despertar. Ela secou com rispidez suas lágrimas, e ao erguer seu rosto, viu Harry parado à sua frente, completamente molhado, com sua firebolt nas mãos.
"Oi, Mione! O que você ta fazendo aí quase no escuro?".
"Nada" - ela respondeu enquanto secava uma última lágrima.
"Você tá chorando? Tá tudo bem?" - ele a indagou preocupado.
"Que pergunta boba. Claro que está tudo bem" - ela balbuciou, e em seguida, levantou-se colocando o livro no assento. "Aliás, eu estou ótima. Você é que tá mais molhado do que a lula gigante do lago".
Harry esboçou um discreto sorriso diante do comentário da amiga.
"O que você esperava? Um ano sem treinamentos por causa do Torneio Tribruxo, agora temos que tirar o atraso".
"Que saber o que eu acho? Que é melhor você se trocar antes que pegue uma gripe daquelas, sabia?".
Ele começou a se dirigir até os dormitórios masculinos, mas parou no meio do caminho, e encarou Hermione com um semblante muito sério.
"Mione, posso te pedir uma coisa?".
"O quê?" - ela esforçou-se para não parecer nervosa, apesar disso, sua voz saiu meio rouca.
"Promete que você pede minha ajuda se algum dia precisar de mim? Promete?".
"Por que está dizendo isso?" - Hermione perguntou, sentindo-se confusa.
"Anda, promete, Mione. Eu sei que você é orgulhosa, mas, por favor, promete pra mim isso, vai!".
Um silêncio incômodo tomou conta do ambiente. Ele continuava parado olhando-a, aguardando por uma resposta.
"Tá bom, eu prometo" - ela finalmente disse baixinho, desviando o olhar.
"Obrigado!" - Harry agradeceu, e fez mais uma vez menção de ir se trocar quando Hermione o interrompeu.
"Harry... Não!" - ela esperou que ele virasse o rosto e a fita-se pra finalmente completar sua fala. "Não vai, por favor. Fica só mais um pouquinho comigo!" - suas últimas palavras já saíram embargadas pelos seus soluços.
Harry largou sua vassoura imediatamente, e correu até ela, abraçando sua amiga com carinho.
"O que tá acontecendo com você afinal, Mione? Por que não se abre comigo e com o Rony? Afinal, nós somos seus amigos ou não? A gente se preocupa contigo, e gostaríamos que você confiasse na gente".
Hermione afundou o rosto na camisa molhada de Harry. E enquanto o sentia afagando seus cabelos, aos poucos, ela começou a se acalmar. Não devia ter começado a chorar. Não na frente dele. Nunca.
"Então, ta se sentindo melhor?" - ele a questionou visivelmente preocupado.
Ela assentiu em silêncio, se desvencilhando dele.
"Finalmente, você vai ou não me contar o que está acontecendo?".
"Nada. Não está acontecendo nada" - ela respondeu de cabeça baixa, de repente, não tinha mais coragem de olhar pra ele.
"Como nada? Qual é, Mione, por que será que eu não tô acredito em você? Eu te conheço, sei que não iria ficar chorando pelos cantos sem motivo algum. É algum problema com seus pais?".
"Não, meus pais estão ótimos".
"Então alguém brigou com você? Algum professor? Ou é porque você acha que não se saiu bem em alguma matéria?".
"Não... Não aconteceu nada!" - ela respondeu um pouco ríspida, sentindo-se aborrecida com o fato dele acreditar que os seus problemas se resumiam unicamente a provas, trabalhos e notas.
"Droga! Fale a verdade, Mione. O que houve?".
"Que verdade você quer ouvir, Harry?" - ela pensou. "Que eu não sou mais a menininha de 11 anos que você conheceu? Que agora eu sou uma garota de 15 anos, e que estou perdidamente apaixonada por você? Deus será que você é tão cego assim?".
"Não tem verdade nenhuma. Me deixe em paz, por favor, Harry. Já disse que não aconteceu nada" - ela falou contrariando seus pensamentos.
"Você quer mesmo que eu vá embora? Então repete isso olhando pra mim" - ele falou enquanto erguia o rosto da amiga com o polegar e o indicador em seu queixo.
Hermione contemplou aquele par de olhos de um azul tão profundo e, seu corpo estremeceu, ao se ver refletido no fundo deles. Harry a encarava tão intensamente que parecia ser capaz de desnudar sua alma e ler seus segredos mais secretos e íntimos. Envergonhada e confusa, Mione acabou virando o rosto.
"OK, Mione. Você venceu. Se não quer me contar o que está acontecendo, tudo bem, mas, por favor, não chora mais não" - ele disse e secou uma lágrima teimosa que voltava a escorrer pela sua face. "Não suporto lhe ver chorando desse jeito sem poder fazer nada pra ajuda-la".
Sem pensar no que estava fazendo, Hermione se pôs na ponta dos pés, e colocando a mão na nuca de Harry, puxou calmamente o rosto dele em sua direção. E pra sua supressa, após breves segundos de espanto, Harry envolveu carinhosamente sua cintura, trazendo o corpo dela para mais próximo de si. Hermione ainda teimava em acreditar no que estava preste a acontecer. Ela iria beijar Harry Potter.
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