CAPÍTULO DEZESSEIS
Comparada com as outras partes da casa que ela já conhecia, aquela sala era espartana, projetada rigorosamente para o trabalho. Não havia estátuas sofisticadas, nem lustres pendentes. O console largo, em forma de U, os equipamentos de acesso a redes de comunicações, pesquisas e informações eram totalmente pretos, cheios de controles e pontos para conexão de monitores.
Gina já ouvira que o Centro Internacional de Pesquisas Criminalísticas, o CIPC, tinha o mais avançado sistema de banco de dados do país. Suspeitava que o de Harry estava no mesmo nível.
Ela não era nenhuma especialista em computação, mas viu logo de cara que aquele equipamento era incomparavelmente superior a qualquer um que a Polícia de Nova York e a Secretaria de Segurança usavam, ou tinham condição de ter, mesmo na arrogante Divisão de Detecção Eletrônica.
A parede comprida que ficava de frente para o console estava totalmente tomada por seis imensas telas. Uma segunda estação de trabalho auxiliar exibia uma pequena central de tele-link revestida de metal brilhante, um segundo aparelho de fax a laser, uma unidade de envio e recepção de hologramas, e vários outros equipamentos de informática que ela não identificou.
O trio de estações de comunicação tinha monitores individuais, ligados a tele-links próprios.
O piso era feito de placas vitrificadas, com padrão em forma de diamantes e em cores neutras que se misturavam uns com os outros, como se houvesse um líquido entre eles. Uma única janela mostrava imagens da cidade, e pulsava com as últimas cores do sol que desaparecia lentamente.
Parecia que, mesmo ali, Harry fazia questão de uma atmosfera especial.
- Que aparelhagem! - comentou Gina.
- Não é tão confortável quanto a do meu escritório, mas tem o básico. - Harry se pôs atrás do console principal e colocou a mão espalmada na tela de identificação. - Harry. Ligar equipamento. - Ouviu-se um zumbido discreto, e todas as luzes do console se acenderam. - Este é um novo sistema de identificação por impressão palmar conjugado a identificador vocal - continuou, e fez um gesto para que Gina se aproximasse. - Liberar dados no nível de segurança amarelo.
Após o leve aceno de cabeça que ele fez, Gina espalmou a mão na tela e sentiu o leve calor do raio de leitura.
- Weasley.
- Pronto. - Harry se sentou ao lado dela. - Agora, o sistema vai aceitar seus comandos de voz e mão.
- O que é nível de segurança amarelo?
- O suficiente para lhe fornecer todos os dados que você precisa pesquisar, - ele sorriu - mas sem autonomia para anular um comando meu.
- Humm... - Gina olhou para os controles, todas aquelas luzes piscando pacientemente, e a miríade de pequenas telas e medidores. Ela desejava que Neville estivesse ali, com seu cérebro que parecia computadorizado. - Quero uma pesquisa sobre Severus Snape, Secretário de Segurança de Nova York. Todos os dados financeiros.
- Direto no coração. - murmurou Harry.
- Não tenho tempo a perder. Este equipamento pode ser rastreado?
- Não apenas ele é impossível de ser rastreado, como também não deixa vestígios da pesquisa que é feita.
- Snape, Severus. - anunciou o computador, com uma voz feminina e sensual. - Dados financeiros sendo pesquisados.
Ao ouvir a voz, Gina levantou a sobrancelha e Harry sorriu.
- Prefiro trabalhar com vozes melodiosas. - explicou ele.
- O que eu ia perguntar - retornou ela - é como você consegue acessar os dados sem que apareça, no Compuguard, o programa de proteção do sistema.
- Nenhum sistema é totalmente resistente à invasão ou quebra de sigilo, nem mesmo o onipresente Compuguard. Ele é excelente para barrar o hacker de nível médio, ou a maioria dos ladrões eletrônicos. Com o equipamento certo, no entanto, fica comprometido. Eu tenho o equipamento certo. E aqui estão os dados. Tela um. - ordenou.
Gina olhou para a frente e viu o relatório financeiro completo de Snape aparecer no monitor grande. Ali estavam todas as movimentações usuais: aluguel de carros, financiamentos, extratos de cartões de crédito, e todas as suas transações eletrônicas automáticas.
- A conta do American Express é salgada. - ela avaliou. - E acho que ninguém sabe que ele possui uma casa em Long Island.
- Só que esses não são motivos para assassinato. Ele mantém um padrão bancário de Categoria A. Isso quer dizer que ele paga tudo o que deve. Ah, e aqui está um extrato bancário. Tela dois.
Gina estudou os números, mas não ficou satisfeita.
- Não há nada de errado. Depósitos e retiradas na média esperada, pagamento de contas por transferência, tudo batendo com o relatório de crédito. O que é Jeremys?
- Vestuário masculino. - explicou Harry, com um quase imperceptível sorriso de desdém. - Roupas de segunda classe.
- Só que é muito dinheiro para gastar em roupas. - comentou ela, torcendo o nariz.
- Querida, assim vou ter que corromper você. Essa quantia só é exagerada pelo fato de serem roupas de qualidade inferior. - Ela fungou e enfiou os polegares no bolso da frente das calças largas. - E aqui está a conta de investimentos. Tela três. Pouca personalidade. - acrescentou Harry, depois de dar uma rápida olhada.
- Como assim?
- Olhe os investimentos, estão todos aí. Tudo de baixo risco. Títulos públicos, alguns fundos mútuos, um punhado de blue chips. E tudo aqui mesmo no planeta.
- E o que há de errado com isso?
- Nada, se você se contenta em deixar o dinheiro parado, acumulando poeira. - Deu uma olhada para ela, de lado. - Você investe seu dinheiro, tenente?
- Sim, claro. - Gina ainda estava tentando compreender as abreviações e pontos percentuais na tela. - Acompanho o índice das ações duas vezes por dia.
- Não é um bom padrão para o seu dinheiro. - Ele quase tremeu ao dizer isso.
- E o que devo fazer?
- Coloque o que você tem nas minhas mãos e eu dobro o valor para você em seis meses.
- Não estou aqui para ficar rica. - Ela simplesmente franziu os olhos, ainda tentando ler o relatório de investimentos.
- Ora querida... - corrigiu ele, com aquele leve sotaque irlandês. - Todos nós estamos.
- E quanto às contribuições políticas e humanitárias, esse tipo de coisa?
- Acesso à lista de gastos para isenção fiscal. - ordenou Harry. - Mostrar na tela dois.
Gina aguardou e começou a bater com a mão na perna, impaciente, enquanto os dados começaram a aparecer.
- Ele coloca o dinheiro onde o coração está. - murmurou ela, analisando os pagamentos feitos ao Partido Conservador e ao fundo de campanha do Senador DeBlass.
- Fora isso, não é muito generoso. Humm... - A sobrancelha de Harry se levantou. - Interessante... temos aqui uma contribuição muito importante para a Organização dos Valores Morais.
- Esse é o nome de um grupo extremista, não é?
- Eu a chamaria assim, mas os adeptos preferem pensar nela como uma organização dedicada a salvar a nós, pobres pecadores, de nós mesmos. DeBlass é um dos seus defensores ferrenhos.
Gina estava concentrada, como se estivesse pesquisando em seu arquivo mental, e disse:
- Eles são suspeitos de sabotar os principais bancos de dados de várias das grandes clínicas de controle de natalidade.
- Imagine, todas aquelas mulheres decidindo por si próprias se querem ou não engravidar, e quantos filhos desejam. - Harry estalou a língua. - A que ponto o mundo está chegando? Obviamente, alguém precisa fazê-las voltar à realidade.
- Claro. - Ainda insatisfeita, Gina enfiou as mãos nos bolsos.
- Essa é uma ligação perigosa para alguém como Snape. Ele gosta de ficar em cima do muro e posar de moderado.
- Para disfarçar suas tendências e conexões conservadoras. Nos últimos anos, vem removendo com cautela as camadas mais radicais. Quer ser governador, e talvez acredite que DeBlass consiga colocá-lo lá. Política é um jogo de toma-lá-dá-cá.
- Política. O disco de chantagem de Sharon DeBlass estava cheio de políticos. Sexo, assassinato, política. - murmurou Gina. - Quanto mais as coisas mudam...
- Sim, mais continuam como sempre foram. Os casais ainda se entregam a rituais para se cortejarem, os seres humanos seguem se matando, e os políticos continuam a beijar bebês e a mentir.
Algo não estava certo, e ela desejou mais uma vez que Neville estivesse ali.
Assassinatos típicos do Século XX, pensou, cometidos por motivos típicos do Século XX. E ainda havia mais uma coisa que não mudara desde o último milênio: impostos.
- Dá para conseguirmos a Declaração do Imposto de Renda dele? Os últimos três anos?
- Isso é um pouco mais complicado. - A boca de Harry se abriu quase em um sorriso diante do desafio.
- E também é um delito federal. Escute Harry...
- Espere um instante. - Apertou um botão, e um teclado manual surgiu da parte de baixo do console. Um pouco surpresa, Gina observou enquanto os dedos dele bailavam sobre as teclas. - Onde foi que você aprendeu a fazer tudo isso? - Mesmo com todo o treinamento exigido pelo Departamento, ela ia pouco além das pesquisas manuais.
- Um pouco aqui, um pouco ali. - respondeu ele, distraído - Durante a minha juventude perdida. Tenho que passar pelo sistema de segurança para conseguir invadi-lo, e isso vai levar algum tempo. Por que não pega um pouco mais de vinho para nós?
- Olhe Harry, eu não devia ter pedido. - Com um ataque de consciência, ela chegou mais perto dele. - Não posso deixar que isso prejudique você...
- Shhh... - Suas sobrancelhas se franziram, em concentração, enquanto tentava achar um caminho através do labirinto da segurança do sistema.
- Mas...
- Nós já abrimos a porta, Gina. - Levantou a cabeça, e um forte ar de impaciência lhe encheu os olhos. - Agora, ou a gente entra ou desiste e vai embora.
Gina pensou nas três mulheres mortas, porque ela não conseguira impedir. Não sabia o suficiente para ter impedido. Balançando a cabeça para a frente, ela se virou. O batuque sobre as teclas recomeçou.
Depois de servir o vinho, ela foi até o console e ficou em pé diante das telas. Estava tudo em ordem, meditou. Avaliação de crédito com a categoria mais elevada; pagamento das contas rigorosamente em dia; quantidade de investimentos relativamente pequena e, supôs, bem conservadora. É claro que ele gastava mais dinheiro do que a média das pessoas nos quesitos roupas, vinhos e jóias. Mas não era crime ter um gosto refinado e caro. Pelo menos quando a pessoa pagava por tudo o que comprava. Nem mesmo a segunda casa era uma infração, ou crime.
Algumas das contribuições políticas eram inesperadas para alguém que se dizia moderado, mas mesmo assim não havia nada de criminoso nisso.
Gina escutou Harry xingando baixinho e olhou para trás. Era como se ela nem estivesse ali. O estranho é que ela não imaginava que ele tivesse os requisitos técnicos para acessar os sistemas manualmente. Pelo que Neville comentava, aquela era uma arte quase perdida, exceto para pessoas da área técnica e os hackers. No entanto, ali estava ele, rico, privilegiado e sofisticado, quebrando a cabeça sobre um problema normalmente delegado aos empregados mal pagos que faziam hora extra em serviços de escritório. Por um instante, ela se permitiu esquecer o que estavam fazendo e sorriu para ele.
- Sabe Harry, você é uma gracinha.
Ela compreendeu então que, pela primeira vez, tinha conseguido realmente surpreendê-lo. Levantando a cabeça, ele mostrou um olhar espantado que durou quase dois segundos. Então, o sorriso astuto voltou ao seu rosto. O sorriso que fazia o coração dela disparar.
- Você vai ter que me agradar bem mais do que isso, tenente. Consegui colocá-la lá dentro.
- Está brincando? - Uma forte excitação se espalhou por seu sistema enquanto ela girava o corpo de frente para as telas. - Mostre logo.
- Telas quatro, cinco e seis.
- Chegamos no fundo do pote. - Gina franziu a testa ao ver o total de ganhos brutos. - Parece que tudo está, como direi... dentro do esperado para o salário que ele ganha.
- É... Um pouco de juros e dividendos adquiridos através de investimentos... - Harry estava analisando todas as páginas. - Alguns pagamentos recebidos por palestras e discursos. Ele vive perto do limite, mas dentro de suas posses, de acordo com o que os dados estão mostrando.
- Droga! - Ela entornou o resto do vinho com um gole só. - Que outros dados pode haver?
- Vindo de uma mulher esperta, essa é uma pergunta incrivelmente ingênua. Contas clandestinas. - explicou ele. - Dois conjuntos de livros contábeis são o método mais consagrado e tradicional de se esconder entrada ilícita de dinheiro.
- Mas se é dinheiro ilícito, quem é que seria burro o bastante para documentá-lo?
- Uma pergunta muito antiga. O caso é que as pessoas fazem isso. Ah, como fazem! Sim. - acrescentou ele, respondendo à pergunta que não chegou a ser feita sobre seus próprios métodos contábeis. - É claro que eu também faço.
- Não quero nem saber dessas coisas. - retrucou Gina, lançando-lhe um olhar duro.
- O caso é que, pelo fato de fazer, sei bem como se faz. - Movimentou os ombros. - As cartas dele estão todas aqui na mesa, não é o que parece? - Com alguns comandos, Harry fez com que todos os relatórios da Receita Federal se reunissem em uma só tela. - Agora vamos um pouco além. Computador, quero as contas, no exterior, de Snape, Severus.
- Não há outros dados conhecidos. - respondeu a máquina.
- Sempre há outros dados. - murmurou Harry, sem desistir. Voltou a atacar as teclas, e algo começou a zumbir.
- Que barulho é esse, Garry?
- É a máquina me dizendo que cheguei em uma parede maciça... - Como se fosse um operário, abriu os punhos da camisa e arregaçou as mangas. O gesto fez Gina sorrir. - Quando existe uma parede, sempre há algo por trás dela.
Continuou a trabalhar com uma só mão, enquanto bebia o vinho com a outra. Quando repetiu o comando, a resposta foi diferente.
- Dados protegidos.
- Ah, agora estamos nos entendendo.
- Como é que você consegue...
- Shh... - ordenou ele de novo, e Gina se deixou afundar em um silêncio impaciente. - Computador, faça uma varredura numérica e alfabética de todas as combinações de senha. - Satisfeito com o progresso da pesquisa, ele se recostou na cadeira. - Isso vai levar algum tempo. Por que não vem até aqui?
- Você me mostra como é que consegue... - Ela parou de falar, pega de surpresa, quando Harry a colocou em seu colo. - Ei, isso é importante.
- Isso também. - Tomou-lhe a boca, fazendo a mão subir devagar do quadril até pouco abaixo da curva do seio. - Pode levar uma hora, talvez mais, até achar a senha correta. - Aquelas mãos ágeis e espertas já estavam se movimentando sob o suéter dela. - Pelo que eu me lembro, você não gosta de perder tempo.
- Não, não gosto. - Aquela era a primeira vez em toda a sua vida que ela se sentava no colo de alguém, e a sensação não era nem um pouco desagradável. Começou a afundar, mas um zumbido mecânico a fez se colocar reta de novo. Completamente muda, observou o momento em que uma cama veio deslizando, saindo de um painel na parede lateral. - Ora, o homem que tem tudo. - conseguiu falar.
- Vou ter. - Ele enganchou um dos braços sob as pernas dela, levantando-a no ar. - Logo, logo.
- Harry. - Ela se viu obrigada a admitir que, pelo menos por essa vez, estava apreciando ser levantada e carregada.
- Fale.
- Eu achava que a sociedade, a propaganda, os filmes e a mídia colocavam ênfase demais no sexo.
- Você achava isso?
- Achava. - Sorrindo, ela movimentou o corpo, de modo rápido e ágil, deixando-o desequilibrado. - Só que mudei de idéia. - completou, enquanto os dois caíam em cima da cama.
Ela já aprendera que o ato de fazer amor podia ser intenso, arrebatador, até mesmo perigosamente excitante. Só não sabia que também podia ser divertido. Foi uma revelação para si própria descobrir que era capaz de rir e brincar de luta sobre a cama, como se fosse uma criança.
Beijos rápidos e beliscados, cócegas, risinhos descontrolados que a deixavam sem respirar. Ela nem se lembrava de alguma vez ter dado risinhos tolos como aqueles em toda a sua vida, enquanto prendia Harry de costas no colchão.
- Peguei você.
- Pegou mesmo. - Deliciado com ela, ele deixou que ela o mantivesse preso enquanto cobria seu rosto de beijos. - Agora que me imobilizou, o que vai fazer a seguir?
- Usar você, é claro. - Ela mordeu, com pouca delicadeza, o lábio inferior dele. - Curtir você. - Com as sobrancelhas arqueadas, puxou a camisa dele para fora da calça, desabotoou-a e a abriu para os lados. - Você tem um corpo fantástico. - Para se satisfazer, correu as mãos pelo peito dele. - Costumava achar que essas coisas também eram valorizadas em demasia. Afinal, qualquer pessoa que tenha dinheiro pode ter um corpo sarado.
- Mas eu não comprei o meu. - disse Harry, surpreso por se ver defendendo o próprio físico.
- Não, mas você tem uma academia de ginástica privativa neste lugar, não tem? - Dobrando-se para a frente, fez os lábios percorrerem os ombros dele. - Quero que você me mostre, uma hora dessas. Acho que gostaria de ver você suar.
Ele rolou por cima dela, trocando as posições. Sentiu-a se petrificar e a seguir relaxar o corpo sob as mãos que a prendiam. Sinal de progresso, pensou. Um começo de confiança.
- Estou pronto para malhar junto com você, tenente, a qualquer hora. - Ele puxou o suéter por cima da cabeça dela. - Quando você quiser.
Ele liberou as mãos dela, e se comoveu ao sentir que ela levantava o corpo e trazia o dele com ela de volta, para abraçá-lo. Ela era tão forte, pensou, enquanto o tom de seu ato de amor mudava da brincadeira para a ternura. Ela era tão macia. Tão problemática. Ele a tomou com todo o vagar e muito cuidado depois da primeira subida e a viu se elevar, escutando seu gemido baixo e melodioso enquanto seu corpo absorvia cada choque aveludado.
Ele precisava dela. Saber o quanto ele precisava dela ainda tinha o poder de deixá-lo abalado. Ele se ajoelhou, levantando-a. As pernas dela o envolveram como laços de seda, e seu corpo se arqueou, largado, para trás. Conseguiu colocar a boca sobre a dela, saboreando a carne quente enquanto se movia dentro de seu corpo de modo compassado, lento e constante.
Cada vez que ela estremecia, uma nova onda de prazer o atravessava. A garganta dela era um banquete branco e delgado ao qual ele não podia resistir. Ele a banhava com os lábios, mordiscava e cheirava enquanto a pulsação sob aquele pedaço de pele sensibilizada latejava como um coração.
E ela chamou por ele com a voz entrecortada, envolvendo sua cabeça com as mãos e trazendo-o de encontro ao seu corpo, que balançava, balançava e balançava.
Gina descobriu que fazer amor a deixava mole e aquecida. A lenta excitação e depois a suave e longa finalização a deixaram energizada. Não se sentiu estranha ao vestir novamente as roupas, ainda sentindo o cheiro dele em sua pele. Sentiu-se orgulhosa.
- Eu me sinto bem quando estou perto de você. - Dizer isso em voz alta a deixou surpresa, pois essas palavras davam a ele, como dariam a qualquer pessoa que as ouvisse, uma vantagem sobre ela, ainda que pequena.
E ele compreendeu que, para ela, admitir isso era o equivalente a um grito declarado de devoção, vindo de outra mulher.
- Fico feliz. - Traçou uma linha com a ponta do dedo ao longo do rosto dela, e o enfiou na pequena covinha de seu queixo. - Também gosto da idéia de ficar perto de você.
Ela se virou depois de ouvir isso, e se atravessou na cama para acompanhar as seqüências de números que passavam rapidamente pela tela do console.
- Por que você me contou a respeito de sua infância em Dublin, sobre o seu pai e as coisas que fazia?
- Você não ficaria com alguém que não conhecesse. - Ele apreciava as costas dela enquanto enfiava a camisa para dentro das calças. - Você me contou um pouco da sua vida, eu lhe contei um pouco da minha. E espero que, em algum momento, você me conte quem machucou você quando era menina.
- Já lhe disse que não me lembro. - Gina detestava o leve sinal de pânico que sentiu na voz. - Não preciso lembrar.
- Não fique tensa. - murmurou ele ao se aproximar para massagear-lhe os ombros. - Não vou pressionar. Sei exatamente o que significa ter que se reconstruir, Gina. Afastar-se do que havia antes.
De que serviria explicar a ela que não importa para onde a pessoa fuja, ou a velocidade com que corra, o passado está sempre dois passos atrás dela?
Em vez disso, Harry a envolveu, colocando os braços em torno de sua cintura, e ficou satisfeito quando ela fechou a mão sobre a dele. Sabia que ela estava prestando atenção nos monitores do outro lado da sala. E notou o instante em que ela percebeu algo.
- Filho da mãe, olhe só para aqueles números, Harry: rendimentos e gastos. Estão muito parecidos. São praticamente iguais.
- São exatamente iguais. - Harry corrigiu, e a liberou, sabendo que a policial que havia nela ia querer se sentir livre. - Iguais até o último centavo.
- Mas isso é impossível. - Ela tentava fazer os cálculos matemáticos de cabeça. - Ninguém gasta exatamente o mesmo que ganha, não no papel. Todo mundo sempre carrega pelo menos um pouco de dinheiro no bolso, para comprar alguma coisa no camelo, ou pegar uma Pepsi na máquina, dar uma gorjeta para o entregador de pizza. Tudo bem, reconheço que quase todas as despesas são feitas por cartão ou transferência eletrônica, mas sempre tem que haver algum dinheiro vivo circulando. - Ela parou de falar e se virou para ele. - Você já sacou o que há. Por que diabos não me diz nada?
- Achei que seria mais interessante esperar até encontrarmos o esconderijo dele. - Ele viu o momento em que a luz amarela de pesquisa, que piscava, se tornou verde. - E parece que conseguimos. Ora, um homem tradicional, o nosso Snape. Como eu suspeitava, ele confia nos respeitáveis e discretos bancos suíços. Exiba os dados na tela cinco - comandou.
- Cacete! - Gina perdeu a fala ao ver as quantias nos relatórios dos bancos.
- Os valores estão em francos suíços. - explicou Harry. - Converta para dólares americanos e mostre na tela seis. Veja só, a carteira de rendimentos e impostos dele quase triplicou, não acha, tenente?
- Eu sabia que ele andava levando algum. - O sangue de Gina estava acelerado. - Droga, eu sabia. E olhe só para as retiradas no ano passado, Harry. Vinte e cinco mil dólares por trimestre, em todos os trimestres. Dá cem mil dólares. - Virou-se para ele, e seu sorriso esmaeceu. - Isso bate com os valores da lista de Sharon... Snape, cem mil dólares. Ela estava sugando dinheiro dele.
- Pode ser que você consiga provar isso.
- E com certeza vou provar. - Começou a andar de um lado para o outro. - Ela o tinha na mão. Talvez fosse algo relacionado com sexo, talvez um caso de suborno. Provavelmente uma combinação de pequenos e terríveis pecados. Então ele pagava a ela para ficar calada. - Gina enfiou as mãos nos bolsos e as tirou de novo. - Talvez ela tenha aumentado o cacife. Talvez ele tenha ficado cansado e cheio de ser descascado em cem mil dólares por ano só para se garantir. Então acabou com ela. Alguém está tentando melar as investigações, o tempo todo. Alguém que tem o poder e as informações necessárias para complicar as coisas. Tudo aponta direto para ele.
- E quanto às outras duas vítimas?
Gina estava com a cabeça a mil. Droga, ela estava trabalhando as idéias.
- Ele usava os serviços de uma prostituta. Podia ter usado outras. Sharon e a terceira vítima se conheciam, ou pelo menos sabiam uma da outra. Uma delas pode ter conhecido Lola, ou mencionado o nome dela, talvez até mesmo tê-la sugerido como opção para ele. Ai, inferno, ela pode também ter sido uma escolha aleatória. Ele se empolgou com as emoções do primeiro assassinato. Ficou assustado, mas também se sentiu ligado.
Parou de andar pela sala por um tempo, o suficiente para lançar um olhar para Harry. Ele pegara um cigarro, o acendera, e estava olhando para ela.
- DeBlass é um dos aliados de Snape. - continuou ela. - E Snape tem se mostrado totalmente a favor do projeto de lei em defesa da moral, que DeBlass vai apresentar no Senado. As vítimas são apenas prostitutas, ele pensa. Para ele, são simplesmente piranhas legalizadas, e uma delas o está chantageando. Quanto perigo a mais ela poderia representar para ele, assim que saísse a sua candidatura para governador? - Ela parou de andar novamente e se virou. - Ah, estou falando um monte de besteiras.
- Para mim, tudo pareceu bem razoável.
- Não quando você avalia o sujeito. - Lentamente, ela esfregou os dedos entre as sobrancelhas. - Snape não tem cabeça para isso. Sim, eu até acho que ele seria capaz de matar, Deus sabe o quanto ele adora se sentir no controle de tudo, mas conseguir executar uma série de assassinatos tão bem planejados? Ele é um burocrata, um administrador, uma imagem, não é um policial. Não consegue nem se lembrar do número de um Código Penal, a não ser que um auxiliar sopre no ouvido dele. Suborno é fácil, é apenas um negócio. E matar tomado por pânico, paixão ou fúria, sim, é possível. Porém, planejar e executar um plano como este, passo a passo? Não. Ele não é esperto o bastante nem para lidar com suas aparições públicas.
- Então, teve ajuda de fora.
- Pode ser. Se eu conseguisse pressioná-lo, talvez descobrisse.
- Posso ajudar você nisso. - Harry deu uma última tragada, pensativo, antes de apagar o cigarro. - O que você acha que a mídia faria se recebesse uma transmissão anônima com todas as contas clandestinas de Snape?
Gina abaixou a mão que levantara para passar nos cabelos.
- Iriam pendurá-lo numa corda. E se ele souber de alguma coisa, mesmo com uma legião de advogados em volta, pode ser que a gente consiga sacudi-lo até ele deixar cair alguma coisa.
- É isso aí. A bola está com você, tenente.
Gina pensou nas regras, nos processos adequados, no sistema do qual ela se tornara parte integrante. E pensou então nas três mulheres mortas, e nas outras três que talvez conseguisse salvar.
- Há uma repórter. O nome é Nynphadora Tonks. Mande tudo para ela.
Ela resolveu não passar a noite com ele. Sabia que ia receber um telefonema, e era melhor estar em casa e sozinha quando isso acontecesse. Pensou que nem conseguiria dormir, mas acabou deslizando para o mundo dos sonhos.
Sonhou primeiro com assassinatos. Sharon, Lola, Georgie, cada uma delas sorrindo ao olhar para a câmera. Viu o instante de medo em seus olhos, rápido como um relâmpago, antes de serem atiradas para trás sobre os lençóis recém-aquecidos pelo sexo. Papai. Lola o chamara de papai. E Gina foi atirada então em um sonho mais doloroso, mais antigo e aterrorizante.
Ela era uma boa menina. Tentava ser boa, sem causar problemas. Quando você causava problemas, a polícia vinha, levava você e a colocava em um buraco fundo e escuro, cheio de insetos e aranhas que passeavam por cima de seu corpo, com patas pegajosas.
Ela não tinha amigos. Quando você tinha amigos era obrigada a inventar histórias para explicar de onde tinham vindo aquelas marcas roxas. Ou tinha que dizer que era desastrada, quando na verdade não era. Ou contar como levara um tombo, mesmo sem ter caído. Além do mais, eles nunca moravam no mesmo lugar por muito tempo.
Se morassem, as malditas assistentes sociais começavam a aparecer, metendo o bedelho, fazendo perguntas. E eram as malditas assistentes sociais que iam chamar os policiais para coloca-la naquele buraco escuro cheio de insetos rastejantes. Seu pai já havia avisado. Então, ela era uma boa menina que não tinha amigos e se mudava o tempo todo de um lugar para o outro, sempre que a levavam.
Mesmo assim, parecia não fazer diferença. Ela podia ouvi-lo chegar. Sempre o ouvia. Mesmo quando estava em sono profundo, o contato dos pés descalços dele com o piso a acordava mais depressa do que o ribombar de um trovão.
Oh, por favor, por favor, por favor. Ela rezava, mas não chorava. Se chorasse, apanhava, e ele acabava fazendo as coisas secretas do mesmo jeito. As coisas dolorosas e escondidas que ela sabia, de algum modo, mesmo aos cinco anos, que eram erradas.
Ele dizia que ela era uma boa menina. Durante todo o tempo em que ele fazia as coisas secretas com ela, ficava dizendo que ela era uma boa menina. Mas ela sabia que era má, e que um dia seria punida.
Às vezes ele a amarrava. Sempre que ouvia a sua porta abrir, ela se lamuriava baixinho, rezando para que ele não a amarrasse daquela vez. Ela não tentaria resistir, não tentaria, se pelo menos ele a deixasse solta. Se pelo menos ele não tapasse a sua boca com a mão, ela não ia gritar, nem pedir ajuda.
- Onde está a minha garotinha? Onde está a minha boa garotinha?
As lágrimas se acumulavam no canto dos olhos enquanto as mãos dele entravam por baixo dos lençóis, apalpando, sondando, apertando. Ela conseguia sentir o hálito dele em seu rosto. Um cheiro doce, de bala. Os dedos dele se cravavam dentro dela, e a outra mão descia sobre a boca, apertando-a sempre que ela se preparava para gritar. Ela não conseguia evitar aquilo.
- Fique quieta. - A respiração dele ficava mais rápida, em uma aceleração enjoativa que ela não compreendia. Seus dedos apertavam-lhe as bochechas, no lugar em que, pela manhã, haveria marcas roxas. - Seja uma boa menina. Isso... Boa menina.
Ela já não conseguia ouvir os grunhidos dele por causa da gritaria que havia dentro de sua cabeça. Por dentro, ela berrava sem parar. Não, papai. Não, papai.
- Não! - O grito saiu pela garganta de Gina no mesmo instante em que ela se levantou da cama. Sentiu arrepios em toda a pele suada, e começou a tremer sem parar enquanto puxava as cobertas para cima.
Ela não se lembrava. Não queria se lembrar de nada. E confortou a si mesma encolhendo os joelhos até apertar a testa de encontro a eles. Foi só um pesadelo, e já estava passando. Ela ia fazer com que ele passasse, já havia feito isso antes. Até que não restava mais nada, a não ser uma leve sensação de enjôo.
Ainda trêmula, ela se levantou e se agasalhou com o robe para combater o frio.
Durante o banho, deixou a água escorrer pelo rosto até conseguir respirar pausadamente outra vez. Sentindo-se mais firme, pegou uma lata de Pepsi, enfiou-se de novo na cama e ligou o monitor em um dos canais de notícias. E se acomodou para esperar.
Era a notícia principal do telejornal das seis da manhã, e foi apresentada por uma Tonks que, naquele momento, parecia ter olhos de gata. Gina já estava completamente vestida quando recebeu a ordem para se apresentar imediatamente à Central de Polícia.
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