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16. Não há salvação!


Fic: A Marca de Uma Lágrima.


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16. Não há salvação!


Lentamente, o fone tornou-se pesado demais para os dedos de Hermione, que se abriram, deixando rolar pelo tapete a voz desesperada de Draco.
O torpor inebriante tomou conta de todo o seu corpo. Mas a mente permaneceu lúcida. Encerrada dentro de si mesma pelos olhos que nada mais percebiam do exterior, navegando docemente através das palavras maravilhosas que nunca esperara ouvir dos lábios de Draco, Hermione repassou todos os acontecimentos daqueles dias de loucura.
"Tarde demais... Draco, meu amor... você está vindo para cá... tarde demais. Eu esperei tanto... Tudo tão lindo e tão tarde... Draco, meus braços estiveram à sua espera todo esse tempo, e agora não são mais capazes de abraçá-lo... Tarde demais...".
Como se viessem do outro lado do planeta, batidas violentas na porta penetraram os ouvidos de Hermione.
"Tarde demais... Draco... Como você vai me encontrar? Como a Bela Adormecida? Cem anos à espera do beijo do príncipe? Você beijaria o meu cadáver daqui a cem anos, Draco? De que jeito você vai me encontrar? Como a dona Minerva? Feia, grotesca, obesa, esbugalhada, arregaçada, com um envelope cheio de veneno ao lado? Ou como a Branca de Neve, numa urna de cristal, envenenada pela maçã?”.
Ela teria deixado a porta destrancada? Ou algum invasor a arrombara? Sentia alguém a seu lado, alguém que a tocava. Falava com ela, talvez? Draco! Lábios quentes colaram-se delicadamente aos seus, como a soprar-lhe a vida que fugia, e uma carícia leve, metálica, arrastou-se por seu pescoço. A correntinha! Draco... O primeiro e o último beijo, sempre com Hermione caída, largada como um fardo, sobre a grama ou sobre o sofá... como um cadáver...
"Draco... tarde demais... meu príncipe! Tarde demais... A maçã da bruxa estava envenenada... maçã envenenada... linamarina na maçã... linamarina no bombom... bombom envenenado... É isso! Por que não pensei nisso antes? O veneno estava no bombom! No bombom! Não havia nenhum envelope plástico ao lado da mão da diretora quando eu encontrei o cadáver. Não havia, eu me lembro! Eu vi aquela mão gorda, foi à primeira coisa que vi. Não havia envelope nenhum! Mas havia o papel de bombom, em cima da mesa... Depois, o papel de bombom desapareceu e surgiu um envelope com veneno ao lado do corpo. Quem pôs? Quem tirou? Brucutu! Não! Brucutu, não. Harry mesmo disse que Brucutu ficou agarrado no braço dele, na entrada da sala, o tempo todo. Brucutu só nos arrastou para a diretoria para que houvesse duas testemunhas inocentes, insuspeitas, na hora da descoberta do cadáver. É claro! Por que ele estava com a chave mestra? Coincidência? Ele era apenas o cúmplice, encarregado dos trabalhos de apoio. Então... o ator principal era... era a professora Tonks! Tonks! Ah, por que eu não vi isso antes? Estava tudo na minha frente. Não vi porque não mais nada na minha cabeça, além dele. DELE! De você, meu amor! Você está aí? Está me ouvindo? Ai, eu não consigo falar! Mas alguém tem de me ouvir. Era Tonks. No laboratório, a figura de avental. Era Tonks! Meu amor, tente me ouvir, eu não tenho forças para falar... Tarde demais... Educação por indução subliminar... Educação forçada! Usar os próprios anseios de alguém para levá-lo a fazer até o que não quer. É isso. O bombom envenenado! Foi só deixar um bombom envenenado em cima da mesa onde dona Minerva passaria a noite trabalhando. Fechada naquela sala, sozinha, com sua necessidade de emagrecer, com sua fome que aumentava a cada minuto, e com um bombom... Qual dos dois lados de sua vontade venceria? A decisão de emagrecer? Ou a gulodice de toda a sua vida? A professora Tonks... Tonks sabia qual o lado vencedor. O crime perfeito! O crime a portas fechadas! Depois, foi só sumir com o papel de bombom e deixar cair o envelope com veneno ao lado do corpo. Tudo perfeito... na minha frente! Alguém! Procure me entender! Eu sei! Foi Tonks!"
Como em um disco fora de rotação, Hermione conseguia distinguir vozes e movimentos agitados a sua volta, mãos que a seguravam, agulhas que a espetavam...
— Tragam a maca!
— Segurem com cuidado...
— É melhor apertar a correia...
— Salvem-na, por favor! Ela é tudo para mim!
"Foi Tonks! Estão ouvindo? Ai, eu não consigo falar... Foi Tonks! O bombom envenenado, a linamarina, foi Tonks! Foi..."
O entorpecimento tomara conta de todo o seu corpo e as peças todas daquele quebra-cabeça imenso espalhavam-se desordenadamente por entre as células de seu cérebro. Apesar da tontura, tudo agora parecia fazer sentido, parecia encaixar-se. Mas, subitamente, a forma de montar o quebra-cabeça mudou, e uma nova consciência, terrível, macabra, surgiu como um pesadelo que antecede a morte:
"Não! Não é nada disso! Não! Não foi nada disso... As impressões digitais! Quem teve a chance de colocar as impressões digitais de dona Minerva no envelope de veneno? Foi ela! Só ela! Meu Deus! O bombom envenenado! Não é um só. São dois! O bombom! O bombom deixado sobre a mesinha... um bombom só, preparado para eu comer! Preparado com linamarina! Um bombom para a menina gorda, que não havia almoçado nem jantado... Ela disse que comia bom-bons porque estava deixando de fumar... Comeu os bombons normais e deixou um só no saquinho. Envenenado! Com linamarina! Com cianureto!"
Sentiu-se sacudir, carregada. Quase nada mais percebia do exterior. Um toldo negro cada vez mais a envolvia corpo uma mortalha.
Bem perto dela, alguém falava nervoso e baixinho, mas as palavras perdiam-se no precipício da inconsciência que chegava.
—... não sei... intoxicação... envenenamento... se foi cianureto... não há salvação...
A mente de Hermione desligou-se do mundo.

***

— Calma, rapaz, estamos fazendo o possível...
— Faça o impossível, doutor! Salve Hermione!
— Me disseram que essa menina é um gênio...
— Não me importa o gênio, doutor. Eu quero essa menina! Eu quero essa menina viva!

***

- Sou professora da menina, doutor. Qual o diagnóstico?
- Ainda não sabemos qual a substância tóxica...
– E qual o prognóstico? Ela viverá?
- Confie em nós, professora Tonks...

***

— Doutor, esse rapaz se recusa a sair do hospital. Disse que vai ficar aqui a noite toda. Na sala de espera. Acordado...
— Deixe-o ficar, enfermeira. Deixe-o ficar...
— Mas o regulamento...
— Então faça de conta que não viu. Eu também já fui jovem, enfermeira. Eu também já me apaixonei. Como esse rapaz. Sei o que ele está sentindo...

***

"Eu estou no laboratório? Está escuro, como no laboratório... eu estou sem óculos... como no laboratório... Draco virá? Vai dizer que ama Gina? Não! Ele disse que ama a mim! Hermione! Eu não quero morrer... Não me deixem morrer... Agora não! Draco, me ajude! Você disse que me ama, disse que ama o que eu escrevi... Então venha me buscar... Me tire do laboratório, me tire do escuro... Eu já morri, Draco? Já estou na urna de cristal? Onde está o meu beijo, meu príncipe? O beijo da grama, o beijo do sofá. o beijo da vida... Me devolva a vida, meu amor, para que eu possa dá-la de volta, inteirinha, a você..."
O horário de visitas no hospital já havia terminado, mas a mulher conseguiu esgueirar-se sem ser percebida e entrou na sala dos médicos.
Havia apenas um deles, dormindo como um santo e roncando como um porco, perfeitamente preparado para o plantão da noite.
A mulher apanhou um avental de médico, vestiu-o, retirou cuidadosamente o estetoscópio pendurado no médico adormecido, colocou-o no próprio pescoço e saiu sem um ruído.

***

"Está frio... eu estou no laboratório? Draco não virá... eu não vou chorar... eu não posso chorar... o vulto de branco vem aí... vai mexer na linamarina... quer me dar o bombom envenenado... eu preciso saber quem é... preciso enxergar através das lágrimas... a lágrima pingou sobre a carta para Draco... marcou a carta... Draco vai descobrir que sou eu... Não, Draco, não diga que ama Gina... não me faça chorar, senão eu não vou reconhecer o vulto de branco... Está frio no laboratório... a aranha está com frio... Onde está a aranha? Onde está a cobra? Estão presas! Na urna de cristal! Junto com o cadáver de Hermione! Estão mortas, com Hermione! Socorro, Draco..."

***

— Onde está a ficha da paciente do 412?
— Está aqui, doutora...
— Quero ver.
A encarregada do andar entregou a prancheta à mulher. Estava tudo anotado. A substância tóxica já havia sido descoberta. Ela leu o que precisava e jogou a prancheta sobre o balcão.
Pegou o elevador até o subsolo, onde ficava a farmácia do hospital.
— Boa noite, doutora... — cumprimentou o sonolento atendente.
A mulher perguntou de um medicamento, um nome inventado na hora, algo bem complicado.
— Hum... não sei, doutora. Posso verificar na lista.
— Pois verifique.
— Deixe ver... não, não temos esse medicamento em estoque, doutora.
— Veja na administração se há algum pedido de compra. Preciso do medicamento até amanhã.
— Um instante, doutora. Vou telefonar para a administração. Talvez o plantonista possa informar alguma coisa.
Enquanto o atendente discava, a mulher, às suas costas, percorreu as prateleiras. Foi rápido encontrar o que precisava. Quando o homem desligou, ela já pusera um pequeno frasco e uma seringa de injeção no bolso do avental.
— Desculpe, doutora, mas não há pedido de compra para esse medicamento.
— Droga de hospital! Está bem, eu me viro de outro jeito. Obrigada, assim mesmo.
— Às ordens, doutora.

***

"Draco me ama... me ama! Não quero morrer... não quero morrer... não sou dona Minerva... tenho só quatorze anos... não sou obesa... tanto assim eu não sou... Você me acha gorda, Draco? Você me acha feia? Esse frio... Meus pés estão frios... Estou na beira do lago? Do lago do sonho? Estou nua? Estou nua... O gigante! Estou vendo! O gigante voltou! Eu não tive juízo... Ele voltou para se vingar! Estou vendo! É Brucutu!"

***

Na porta do quarto 412 havia uma tabuletinha onde estava escrito VISITAS PROIBIDAS POR ORDEM MÉDICA. Mas, àquela hora da noite, ninguém ficava de plantão pelos corredores para fazer cumprir as ordens das tabuletinhas. Assim, a mulher de avental deslizou sem problemas pelo corredor e abriu a porta silenciosamente.

***

"Brucutu? Não, não é Brucutu... Onde estou? Aqui não é o laboratório da escola... Onde está a aranha? Onde está a cobra? Onde está o vulto de branco? O vulto de branco! Você!"
— Boa noite, Hermione. Como é? Está melhorzinha?
Apesar da escuridão quase total, Hermione reconheceu o vulto da professora, recortado contra o teto do quarto.
— Oh, vejo que você ainda está fraca! Mas isso vai passar. Sabe? Eu fiquei preocupada com a história do bombom. É... você me deixou preocupada. Ninguém sobrevive à linamarina. Ninguém sobrevive ao cianureto. Mas você não comeu o bombom, não é? É pena... Você poderia ter evitado tanta preocupação, tanto sofrimento...
Hermione tentou gritar, e a língua se enrolou, os músculos não responderam. Mas ela ouvia tudo, e enxergava o suficiente para aumentar o próprio terror.
— Você tem de admitir que foi uma grande idéia, não foi? Hein? Levar a polícia junto, na hora de cometer um crime! Hein? Oferecer o bombom envenenado nas barbas da polícia! Um lance de gênio, você tem de admitir. Mas você não comeu o bombom...
Naquele momento, quando Hermione havia recuperado todas as razões para viver, naquele momento em que ela havia finalmente conquistado o amor de Draco, a morte estava ali, de avental branco, falando suavemente, com ternura até.
— Você não comeu o bombom. E confundiu a todos, a mim e aos médicos, porque tomou alguma outra coisa. Que falta de juízo! Sabe que foi difícil tratá-la até se saber com certeza o que você tinha tomado? Por que você tomou o calmante da mamãe? Você queria morrer? Por quê, queridinha? Se queria morrer, devia ter comido o meu bombom. Eu o preparei com tanto carinho... Ou devia ter tomado mais do remédio da mamãe. Pelo jeito, você tomou tão pouco... Só serviu mesmo para deixar você tontinha desse jeito. E para deixar todos nós preocupados. Menina má!
Hermione tentava conseguir forças para alguma reação. Se conseguisse um grito, um só, no silêncio noturno daquele hospital, alguém viria socorrê-la. Mas todo o seu corpo permanecia paralisado, como um quase-morto, capaz apenas de ouvir... e de sentir medo.
— Você está me ouvindo, queridinha? É claro que está! Eu vejo pelo seu olhar que você está me ouvindo. Está com medo? Medo de quem? Do Brucutu? Não precisa mais ter medo do Brucutu. Ele está morto. Meu ajudante, meu único amigo de verdade naquela escola, e você me obrigou a matá-lo. É... foi você, não sabia? Pobre Brucutu! Foi ouvir seus mexericos com Harry e me procurou, todo alvoroçado. Eu o aconselhei a ficar quieto, mas o pobrezinho resolveu ameaçar você. Aí, quando você falou da ameaça para mim e para o investigador, você me forçou a matá-lo. Ele acabaria facilmente preso e ia complicar ainda mais as coisas. Brucutu raciocinava pouco, mas sabia demais. Foi uma pena. Uma pena mesmo...
Calmamente, a professora rasgou a embalagem da seringa de injeção. Espetou a agulha na borrachinha do frasco e fez a seringa aspirar ao líquido.
— Os médicos já descobriram que tipo de calmante você tomou. Você está recebendo o tratamento certo. Que ótimo, não? Eu também acabei de saber o que você tomou. Foi isto aqui. Agora, tudo o que você precisa é da dose certa. Eu poderia injetar o remedinho nesse tubo que está levando soro aí, para as suas veias. Mas esse é um risco que você não quer que eu corra, não é? Alguém podia ter a infeliz idéia de analisar o tubo, e ia acabar encontrando traços do nosso remedinho, não é? Também não será bom deixar marcas de injeção na sua pele. Por isso, vamos dar uma espetadinha no seu couro cabeludo. Mas não se preocupe. Não vai doer nada. E quem vai descobrir uma espetadinha no couro cabeludo? Tudo certo. Como este é o remedinho que você tomou, amanhã todos pensarão que o tratamento não foi aplicado a tempo, e tudo sairá bem. Chega de preocupações, você não acha?
Sentou-se à beira da cama, sorrindo como uma enfermeira dedicada. Na mão direita, trazia a seringa com a agulha voltada para cima. Com a esquerda, começou a acariciar docemente os cabelos de Hermione.
— Queridinha... Você será a terceira. Mas não vai me querer mal, vai? Acho que você também quer acabar logo com todos esses problemas, não é? A primeira foi dona Minerva. Tudo tão bem feito, tudo quase perfeito, se não fosse certa garotinha que gosta de causar confusões...
As carícias aumentavam de intensidade, feitas com as pontas dos dedos, como se a professora procurasse o ponto certo para a agulha.
— Dona Minerva... Eu tinha de matá-la. A grande diretora, a grande educadora, querida por todos! E eu? Sempre à sombra dela. A ela, todos admirando. De mim, todos rindo. De mim, todos sempre riram, desde o tempo em que fui professora de química. Você sabia que eu fui professora de química? A melhor de todas, mas os alunos riam de mim. Por causa dela. Agora, ninguém mais vai rir, porque ela está morta!
A mão parou de acariciar a cabeça de Hermione e afastou-lhe os cabelos, descobrindo o local escolhido.
— Ora, não é que eu esqueci o algodão com álcool? Mas não fique assustada. Eu sei aplicar injeção muito bem. Não há perigo de infeccionar. Morra, queridinha. Assim... quieta.
A espetada doeu pouco e, em um segundo, o torpor que Hermione conhecia tão bem voltou a circular em cada uma de suas veias. Aos poucos, o quarto ficou ainda mais escuro.
— Assim... menina boazinha...
A voz e o comportamento daquela mulher davam àquela cena macabra o clima respeitoso de uma missa negra.
De repente, como um sacrilégio, um ruído invadiu o quarto.
Já quase mergulhada no esquecimento, Hermione viu o rosto da professora, ainda sorrindo. Mas viu sangue. Sangue que brotava da cabeça da mulher, escorria por seu rosto e vinha empapar a camisola de Hermione.
E Hermione sentiu cair pesadamente sobre seu corpo o corpo inanimado da professora Bellatrix, a vice-diretora da escola.

***

Continua

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