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14. CAPÍTULO QUATORZE


Fic: Nudez Mortal - Concluida


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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CAPÍTULO QUATORZE

Mais abalada do que conseguia admitir, Gina entrou na sala da Doutora Minerva na manhã seguinte. A convite dela, sentou-se e cruzou as mãos, para evitar qualquer movimento de inquietação que pudesse trair seu estado.
- Doutora, já teve tempo de traçar um perfil?
- Você me pediu urgência. - De fato, Minerva ficara acordada quase a noite toda lendo relatórios e usando o seu treinamento e a sua capacidade de fornecer diagnósticos psíquicos para a formação de um perfil. - Gostaria de mais tempo para trabalhar nisso, mas posso lhe fornecer uma visão geral.
- Certo. - Gina se inclinou. - Como ele é?
- Ele é quase que certamente correto. Tradicionalmente, crimes dessa natureza não são cometidos por pessoas do mesmo sexo. É um homem com inteligência acima da média, tendências sociopatas e voyeurísticas. É ousado, mas não se arrisca, embora provavelmente pense que sim. - Com seu jeito gracioso, ela uniu os dedos e cruzou as pernas. - Seus crimes são bem planejados. Seu prazer e satisfação vêm da seleção das vítimas, da preparação do plano e da sua execução.
- Por que prostitutas?
- Controle. Sexo é controle. Morte é controle. E ele sente a necessidade de controlar pessoas, situações. O primeiro assassinato foi provavelmente por impulso.
- Por quê?
- Foi pego de surpresa pela própria violência, pela própria capacidade de ser violento. Teve uma reação forte, pelo solavanco que sentiu, pela inspiração ofegante e pela expiração trêmula. Recuperou-se e sistematicamente se protegeu. Não quer ser apanhado, mas quer, precisa mesmo, ser admirado e temido. Isso explica as gravações. Ele usa armas de colecionadores. - continuou a médica, com a mesma voz moderada. - Isso é um símbolo de status, de dinheiro. Mais uma vez, poder e controle. Ele as deixa para trás no local do crime para poder mostrar como ele é especial entre os homens. Aprecia a violência visível das armas e o seu aspecto impessoal. Gosta do seu poder de matar de uma distância confortável, e da indiferença emocional disso. Decidiu o número de vítimas para mostrar que é organizado e tem precisão. É ambicioso. E...
- Ele poderia estar com as seis mulheres em mente desde o começo? Seis alvos definidos?
- A única ligação confirmada entre as três vítimas é a sua profissão. - começou Minerva, e viu que Gina já tinha chegado à mesma conclusão, mas queria uma confirmação. - Ele estava com a profissão em mente. Minha opinião é de que a escolha das mulheres é casual. É bem provável que ele tenha uma posição de alto nível, certamente um cargo de responsabilidade. Se for casado ou tiver um parceiro sexual, esse parceiro, seja ele ou ela, é subserviente. Tem um conceito muito baixo das mulheres. Ele as degrada e as humilha, depois de mortas, para mostrar a sua repulsa e superioridade. Não tem a percepção desses atos como crimes, e sim como momentos de poder pessoal e auto-afirmação. A prostituição, masculina ou feminina, - continuou a médica - permanece como uma profissão de baixo padrão na mente de muitas pessoas. As mulheres não são seres iguais a ele; uma prostituta está abaixo de sua qualificação, mesmo quando ele a usa para liberar a si mesmo. E ele gosta do trabalho que faz, tenente. Gosta muito.
- Ele considera isso um trabalho, doutora, ou uma missão?
- Não, ele não tem uma missão. Apenas ambições. Isso não tem a ver com religião, não é uma declaração moral, nem uma postura social.
- Não, a afirmação é pessoal, e a postura é de poder.
- Sim, concordo. - disse Minerva, satisfeita com o funcionamento franco e direto da mente de Gina. - Para ele, trata-se de um interesse, um novo e fascinante hobby do qual ele se descobriu adepto. É um homem perigoso, tenente, não só porque não possui consciência, mas porque é bom naquilo que faz. E o sucesso o alimenta.
- Ele vai parar na sexta vítima. - murmurou Gina. - Com esse método. Mas vai encontrar outra forma criativa de matar. É vaidoso demais para voltar atrás na palavra que deu para as autoridades, mas está gostando demais do seu passatempo para desistir dele.
- Dá até para pensar, tenente... - Minerva virou um pouco a cabeça - Que você já leu o meu relatório. Acho que está começando a entender o criminoso muito bem.
- Sim, peça por peça. - concordou Gina. Havia mais uma pergunta que ela queria fazer, uma pergunta que a deixara rolando na cama durante uma noite longa e insone. - Para se proteger e tornar o jogo ainda mais difícil, doutora, ele seria capaz de contratar alguém, pagar alguém para matar uma das vítimas que tivesse escolhido, enquanto ele próprio estivesse protegido por um álibi?
- Não. - Os olhos de Minerva mostraram compaixão ao observar que Gina fechara os olhos de alívio. - Na minha opinião, ele tem necessidade de estar lá. Para ver, para gravar, mas acima de tudo para passar pela experiência. Não quer satisfação indireta. Nem acredita que você vai ser mais esperta do que ele. Está adorando vê-la sofrer com esse problema, tenente. É um observador de pessoas, e creio que começou a se interessar por você no momento em que soube quem era a responsável principal pela investigação. Ele a observa, e sabe que você se importa. Na visão dele, isso é uma fraqueza a ser explorada; e ele faz isso oferecendo a você, de presente, a cena dos assassinatos; e não em seu local de trabalho, mas em sua própria casa.
- Ele já mandou o último disco. Estava na minha correspondência da manhã, postado de uma agência automática do centro da cidade, mais ou menos uma hora depois do crime. Nós havíamos colocado o prédio sob vigilância. Ele deve ter imaginado isso e achou um meio de contornar o problema.
- É um manipulador nato. - Minerva entregou a Gina um disco e uma pasta com o perfil inicial. - É um homem inteligente e maduro. Maduro o suficiente para refrear os impulsos, um homem com recursos financeiros, e imaginação. Quase nunca demonstra suas emoções, e raramente as deixa transparecer. Para ele, é uma questão de intelecto e, como você disse, de vaidade.
- Agradeço muito que tenha conseguido tudo isso para mim em tão pouco tempo.
- Gina, - disse Minerva, antes que ela tivesse a chance de se levantar - há mais uma coisa. A arma que foi largada no local do último crime. O homem que fez esses crimes não cometeria um erro tão tolo quanto o de deixar para trás uma arma que pudesse ser rastreada. O diagnóstico do computador rejeitou essa idéia com uma probabilidade de 93,4 por cento.
- A arma estava lá. - disse Gina em tom neutro. - Eu mesma a recolhi.
- Como estou certa de que era o que ele queria que você fizesse. É muito provável que ele tenha apreciado implicar outra pessoa para acabar tumultuando a investigação, e dar um nó no seu desenvolvimento. E é igualmente provável que ele tenha escolhido uma determinada pessoa em particular para atingir você, distrair você, ou até para magoar você. Incluí tudo isso no perfil que montei. Agora, em nível pessoal, quero lhe dizer que estou preocupada com o interesse que ele tem por você.
- Vou fazer com que ele fique muito mais preocupado com o meu interesse por ele. Obrigada, doutora.
Gina foi diretamente até o gabinete de Lupin para entregar o perfil psicológico.
Com um pouco de sorte, a essa hora, Neville já deveria ter verificado suas suspeitas a respeito da compra e entrega da arma do crime. Se ela estava certa, e ela tinha que acreditar que estava, aquilo e o peso do perfil que Minerva traçara iriam livrar Harry.
Ela já sabia, pelo jeito com que Harry olhara para ela... através dela, durante aquele último contato entre eles, que seus deveres profissionais haviam destruído qualquer tipo de ponte pessoal que eles estivessem construindo. Ficou ainda mais certa disso quando juntou tudo, entrou no gabinete e encontrou Harry lá.
Ele deveria ter usado transporte particular, ela concluiu. Teria sido impossível, para ele, chegar tão depressa pelos caminhos normais. Ele simplesmente inclinou a cabeça sem dizer nada, enquanto ela atravessava a sala para entregar o disco e a pasta ao Comandante Lupin.
- Aqui está o perfil construído pela Doutora Minerva.
- Obrigado, tenente. - Seus olhos se desviaram para os de Harry. - A Tenente Weasley vai encaminhá-lo à área de interrogatório. Agradecemos muito a sua cooperação.
Harry continuou sem dar uma palavra. Simplesmente se levantou e esperou por Gina para ir com ela até a porta.
- Você tem o direito de estar com o seu advogado presente. - começou ela, enquanto chamava o elevador.
- Estou ciente do fato. Estou sendo acusado de algum crime, tenente?
- Não. - Xingando-o mentalmente, entrou no elevador e pediu a Área B. - Isto é apenas um procedimento padrão. – Seu silêncio continuou até que ela ficou com vontade de gritar. - Droga, eu não tenho outra escolha.
- Não tem? - perguntou ele, em um murmúrio, e saiu na frente dela quando as portas se abriram.
- É o meu trabalho. - As portas da área de interrogatório se abriram sozinhas e a seguir se fecharam, atrás deles. As câmeras de segurança que qualquer ladrão comum saberia que estavam escondidas em todas as paredes entraram em funcionamento automaticamente. Gina se sentou em uma mesa pequena e esperou que ele se sentasse de frente para ela. - Estes procedimentos estão sendo gravados. Você compreende isso?
- Sim.
- Tenente Weasley, Identificação 5347BQ, entrevistadora. Entrevistado, Harry Potter. Dados iniciais e contagem de tempo. O entrevistado abriu mão da presença de um advogado. Esta afirmação é correta?
- Sim, o entrevistado abriu mão da presença de um advogado.
- O senhor tem alguma ligação com uma acompanhante sexual licenciada, chamada Georgie Castle?
- Não.
- Já esteve no edifício de número 156 da Rua Oitenta e Nove Oeste?
- Não, não acredito que tenha estado.
- O senhor possui uma Ruger modelo P-90, arma automática de combate, fabricada em 2005?
- É provável que eu possua uma arma desta marca, modelo e ano de fabricação. Para facilitar os trabalhos, vamos dizer que possuo.
- Quando adquiriu a citada arma?
- Mais uma vez, devo afirmar que teria que verificar. - Não piscou, não tirou os olhos dos dela, nem por um momento. - Possuo uma coleção de armas bem completa, e não tenho todos os detalhes dela na cabeça, nem no computador de bolso.
- O senhor adquiriu a arma em questão em um leilão na Sothebys?
- É possível. Frequentemente adiciono novas peças à minha coleção através de leilões.
- Leilões com lances de comprador não declarado?
- Ocasionalmente.
O estômago dela, que já estava apertado, começou a rodar.
- O senhor aumentou a sua coleção com a arma citada adquirindo-a pelo sistema de lance por comprador não declarado em um leilão da Sothebys que foi realizado no dia dois de outubro do ano passado?
Harry pegou seu palm computer no bolso e procurou a data informada.
- Não. Não tenho registro desse fato. Estava em Tóquio nessa data, envolvido em reuniões de negócios. A senhorita poderá verificar isso facilmente.
Droga, droga, pensou ela. Você sabe que isso não é resposta.
- Representantes são muitas vezes utilizados em leilões.
- É verdade. - Olhando para ela sem demonstrar emoção, guardou o pequeno computador no bolso, novamente. - Se a senhorita fizer uma verificação junto à Sothebys, será informada de que eu não uso representantes. Quando decido adquirir algo, é porque já o vi com os próprios olhos. Uma avaliação pessoal da mercadoria já é o bastante para mim. Se e quando eu decido dar algum lance, sempre o faço pessoalmente. No caso de um leilão não declarado, eu estaria assistindo a ele diretamente, ou participando dele através do tele-link.
- Não é tradição nesse ramo fazer um lance eletrônico fechado, ou autorizar um representante para chegar até um determinado teto?
- Não me preocupo muito com tradições. O fato é que eu poderia mudar de idéia a respeito caso realmente desejasse adquirir alguma coisa. Por um motivo ou por outro, poderia perder interesse no objeto.
Ela compreendeu o significado indireto de sua declaração, e tentou aceitar que ele tinha acabado de terminar a ligação com ela.
- A citada arma - continuou Gina - registrada em seu nome e adquirida em leilão por um comprador não declarado na Sothebys, em outubro do ano passado, foi usada para assassinar Georgie Castle, aproximadamente às sete e meia da noite passada.
- Eu sei, e a senhorita também sabe que eu não estava em Nova York às sete e meia da noite passada. - Seu olhar perscrutou o seu rosto. - A senhorita rastreou a transmissão, não foi?
Ela não respondeu à pergunta. Não podia.
- Sua arma foi achada na cena do crime.
- Já estabelecemos o fato de que ela é minha?
- Quem tem acesso à sua coleção?
- Eu. Apenas eu.
- Seus empregados?
- Não. Como deve lembrar, os estojos onde elas ficam expostas são trancados. Apenas eu possuo a senha para abri-los.
- Senhas podem ser descobertas.
- Pouco provável, mas possível. - concordou ele. - Entretanto, a não ser que a palma de minha mão seja utilizada para entrada, qualquer estojo aberto por qualquer outro meio faz soar um alarme.
Droga, me dê uma abertura. Será que ele não conseguia ver que ela estava do lado dele, tentando salvá-lo?
- Alarmes podem ser desativados. - insistiu ela.
- É verdade. Só que, se qualquer estojo for aberto sem a minha autorização, todas as entradas da sala se fecham e se trancam automaticamente. Não há como sair, e a segurança é notificada de imediato. Posso lhe assegurar, tenente, que é bem seguro e à prova de riscos. Costumo proteger o que me pertence.
Ela olhou quando Neville entrou, fazendo um sinal com a cabeça. Gina se levantou.
- Com licença.
Quando as portas se fecharam atrás deles, Neville colocou as mãos nos bolsos.
- Você acertou em cheio, Weasley. Lance eletrônico, transação em dinheiro, mercadoria enviada para uma estação pública de retirada eletrônica automática. O figurão da Sothebys confirma que este é um procedimento incomum para Potter. Ele sempre participa em pessoa, ou por tele-link direto. Nunca usou esse tipo de transação antes, em mais de quinze anos em que trabalha com eles.
- Isso confirma o que Harry acabou de declarar. - Ela se permitiu expirar de satisfação. - O que mais?
- Fiz uma pesquisa no registro da arma. A Ruger só apareceu nos arquivos sob o nome de Potter há uma semana. Não há como segurá-lo diante disso. O comandante mandou que nós o liberássemos.
- Obrigada, Neville. - Ela não podia se permitir o sentimento de alívio, pelo menos por enquanto, e simplesmente concordou.
Entrando novamente na sala, afirmou:
- Você está liberado.
- Simples assim? - Ele levantou-se quando ela já estava voltando para a porta aberta.
- Não temos motivos, neste momento, para detê-lo aqui, nem lhe causarmos nenhum outro inconveniente.
- Inconveniente? - Foi até perto dela, e a porta se fechou depois que ele saiu. - É assim que você chama isso? Um inconveniente?
Ele tinha, Gina disse a si mesma, todo o direito de estar com raiva, de estar sentindo aquele amargor. Ela, por sua vez, estava sendo obrigada a fazer o trabalho dela.
- Três mulheres estão mortas. Todas as possibilidades têm de ser exploradas.
- E eu sou apenas uma das suas possibilidades? - Ele esticou o braço. A súbita violência do movimento de suas mãos segurando-a pela blusa a deixou surpresa. - Afinal de contas, é só isso que existe entre nós?
- Sou uma policial. Não posso deixar passar nada, nem supor coisa alguma.
- Não pode confiar. - ele interrompeu. - Em nada nem em ninguém. Se as coisas tivessem se inclinado para o outro lado só um pouquinho, você teria me prendido? Teria me colocado atrás das grades, Gina?
- Chega pra lá! - Com os olhos em fogo, Neville surgiu no corredor. - Largue-a, agora!
- Deixe-nos sozinhos, Neville.
- De jeito nenhum. - Ignorando Gina, ele empurrou Harry.
- Não venha para cima dela, não, seu figurão. Ela quase se ferrou por sua causa. E, do jeito que as coisas ficaram, podia ter até mesmo perdido o emprego. O Secretário Snape já a estava preparando para oferecer como cordeiro de sacrifício, por ter sido burra o bastante para dormir com você.
- Cale a boca, Neville.
- Ora, que droga, Weasley!
- Mandei calar a boca. - Mais calma, e se sentindo longe de Harry, ela olhou para ele. - O Departamento agradece muito pela sua cooperação - disse a Harry e, arrancando a sua mão que ainda agarrava sua blusa, virou-se e foi embora.
- Que diabo você está dizendo com isso, Longbottom? - quis saber Harry.
- Olhe, eu tenho mais o que fazer do que perder meu tempo com você. – Neville simplesmente bufou.
Harry o atirou de encontro a uma parede.
- Sinta-se à vontade para me fichar por atacar um policial, Longbottom, mas me conte o que quis dizer a respeito de Snape.
- Quer mesmo saber, figurão? - Neville olhou em volta, à procura de um local onde houvesse uma relativa privacidade, e então apontou com a cabeça para a porta do banheiro dos homens. - Venha até a minha sala e eu lhe conto.


Gina ficou com o gato como companhia. Lamentava o fato de ter que devolver o felino gordo e inútil para a família de Georgie. Já teria feito isso, mas encontrou conforto e companheirismo até mesmo naquela patética bola de pêlos.
Apesar de tudo, ficou irritada pelo som do interfone. Companhia humana não era bem-vinda. Particularmente, como ela verificou pela tela do aparelho, Harry.
Estava sensível demais e bancou a covarde. Deixando o interfone tocar, sem atender, voltou para o sofá e se enroscou ali com o gato. Se tivesse um cobertor à mão, teria se enfiado debaixo dele, com a cabeça e tudo. O som de sua fechadura se abrindo momentos depois a fez pular do sofá.
- Seu filho da mãe. - disse ela, ao ver Harry entrar. - Você ultrapassa limites demais.
- Por que você não me contou? - Ele simplesmente enfiou a sua chave mestra de volta no bolso.
- Não quero ver você. - Ela se odiou ao sentir que a voz mostrava mais desespero do que raiva. - Veja se você se manca e vai embora.
- Não gosto de ser usado para magoar você.
- Você já faz isso muito bem sem precisar de ajuda.
- E você espera que eu não tenha reação alguma quando você me acusa de assassinato? Quando acredita nisso?
- Eu jamais acreditei. - A voz saiu entre os dentes, quase um sibilo passional de raiva. - Nunca acreditei nisso. - ela repetiu. - Só que coloquei os sentimentos pessoais de lado e fiz o meu trabalho. Agora, caia fora.
E foi andando em direção à porta. Quando ele a agarrou, ela jogou o braço para trás e o atingiu, de modo rápido e brusco. Ele nem sequer tentou se desviar do golpe. Calmamente limpou o sangue que escorria da boca com as costas da mão enquanto ela permanecia em pé, rígida, com a respiração rápida e audível.
- Vá em frente. - convidou ele. - Dê outro golpe. Não precisa se preocupar. Eu não bato em mulheres, e nem as mato.
- Deixe-me sozinha. - Ela se virou e agarrou o encosto do sofá onde o gato ainda estava deitado, observando-o com frieza. As emoções estavam transbordando, e parecia que seu peito ia explodir. - Você não vai me fazer sentir culpada por algo que eu tinha obrigação profissional de fazer.
- Você me partiu em dois, Gina. - Aquilo o enfureceu novamente, admitir isso, saber que ela podia devastá-lo com tanta facilidade. - Você não poderia ter me dito que acreditava em mim?
- Não. - Ela apertou os olhos com força. - Meu Deus, será que você não percebe que poderia ter sido pior se eu tivesse feito isso? Se Lupin não conseguisse acreditar que eu seria objetiva, se Snape tivesse a mais leve desconfiança de que eu ia demonstrar algum grau de tratamento preferencial, teria sido muito pior. Eu poderia não ter providenciado o perfil psicológico tão depressa. Poderia não ter colocado Neville em prioridade total no rastreamento da arma, a fim de eliminar a causa provável.
- Não tinha pensado nisso. - disse ele baixinho. - Não tinha pensado. - Quando colocou a mão sobre o ombro dela, Gina se desvencilhou, e se virou para ele com os olhos em fogo.
- Droga, eu disse a você para trazer um advogado. Avisei a você. Se Neville não tivesse apertado os botões certos, eles poderiam ter segurado você lá. Só conseguiu escapar porque Neville fez um bom trabalho, e porque o perfil psicológico não se encaixou.
Ele a tocou de novo, e ela deu um novo puxão com o braço.
- Achei que eu não precisava de um advogado. Tudo o que eu precisava era de você.
- Não importa. - Ela lutou para se controlar. -Já está feito. O fato de você ter um álibi indestrutível para a hora do crime e a prova de que a arma foi obviamente plantada tiram o foco de você. - Ela se sentia doente, insuportavelmente cansada. - Pode ser que isso não o livre completamente, mas os perfis traçados pela Doutora Minerva valem ouro. Ninguém questiona seus diagnósticos. Ela já eliminou você, e isso pesa muito junto ao Departamento e à Promotoria.
- Eu não estava preocupado com o Departamento, ou com a Promotoria.
- Pois deveria
- Parece que eu lhe dei muito trabalho. Desculpe.
- Esqueça.
- Já vi olheiras demais debaixo dos seus olhos desde que a conheci. - Ele passou a ponta do polegar sobre eles. - Não gosto de me sentir responsável por essas que estou vendo agora.
- Sou responsável por mim mesma.
- E eu não tive nada a ver com você colocar o seu emprego em perigo?
Droga de Neville, pensou ela, com ódio.
- Eu mesma tomo as minhas decisões. E pago pelas conseqüências.
Não desta vez, pensou ele. Não sozinha.
- Na noite depois daquela em que estivemos juntos, - disse ele - quando eu liguei para você, deu para perceber que estava preocupada, mas você afastou aquilo do rosto. Neville me disse exatamente o porquê da sua preocupação naquela noite. Seu amigo zangado queria que eu sofresse por torná-la infeliz. Conseguiu.
- Neville não tinha o direito de...
- Talvez não. E não precisaria ter feito isso se você tivesse confiado em mim. - Tomou os dois braços dela para parar os movimentos rápidos. - E não dê as costas para mim. - ele avisou, com a voz baixa. - Você é boa em jogar as pessoas para fora da sua vida, Gina. Mas isso não vai funcionar comigo.
- E o que você esperava, que eu tivesse corrido para você chorando? “Ai Potter, você me seduziu, e agora eu estou em apuros. Socorro!” Ora, pare com isso, você não me seduziu. Fui para cama com você porque quis. Quis tanto que não pensei em ética. Agora veio a rebordosa, mas eu estou agüentando bem. Não preciso de ajuda.
- Não quer ajuda, isso com certeza.
- Não preciso de ajuda. - Ela não queria se humilhar brigando para escapar dele naquele momento, mas permaneceu passiva. - O comandante ficou satisfeito por você não estar envolvido com os assassinatos. Você está limpo, então o Departamento vai oficialmente registrar tudo como um erro de julgamento de minha parte, e eu também vou. Se estivesse errada a respeito de você, aí seria diferente.
- Se estivesse errada a respeito de mim, isso lhe teria custado o distintivo.
- Sim. Teria me custado o distintivo. Eu perderia tudo o que tenho. E teria merecido. Só que nada disso aconteceu, então acabou. Vamos em frente.
- E você acha realmente que eu vou simplesmente sair e ir embora?
Isso a enfraqueceu, a cadência suave e gentil que surgiu em sua voz.
- Não posso me permitir ficar com você, Harry. Não posso me dar ao luxo de me envolver com alguém.
Ele deu um passo à frente, colocou as mãos no encosto do sofá e a deixou presa entre os dois braços.
- Eu também não posso me dar ao luxo de ficar com você, mas isso não parece me importar.
- Olhe...
- Desculpe por ter magoado você. - murmurou ele. - Sinto de verdade por não ter confiado em você, e sinto também por tê-la acusado de não confiar em mim.
- Eu não esperava que você achasse algo diferente disso, ou agisse de modo diferente.
Aquilo o machucou mais do que o golpe no rosto.
- Não. Sinto muito por isso, também. Você arriscou muita coisa por mim. Por quê?
Não havia respostas fáceis.
- Eu acreditei em você.
- Obrigado. - Ele beijou-lhe a sobrancelha.
- Foi um apelo ao meu senso de julgamento. - começou ela, deixando escapar um suspiro trêmulo quando ele tocou seu rosto com os lábios.
- Vou ficar com você esta noite. - Então beijou-lhe a têmpora. - Quero ter certeza de que você vai dormir bem.
- Sexo como sedativo?
Ele franziu os olhos, mas esfregou os lábios suavemente sobre os dela.
- Se você quiser. - Levantou-a do chão, deixando-a envergonhada. - Vamos ver se conseguimos encontrar a dose certa.
Mais tarde, com as luzes ainda baixas, ele a observou. Ela dormia com o rosto para baixo, esparramada e mole de cansaço. Para agradar a si mesmo, deslizou a mão de leve pelas costas dela abaixo, sobre a pele lisa, os ossos finos e a musculatura delgada. Ela não se moveu.
Experimentalmente, deixou os dedos passarem pelos cabelos dela, como se estivesse penteando-os. Eram grossos como pêlo de marta, com tons de conhaque forte e vermelho sangue, e com um corte lamentável. Sentiu vontade de sorrir enquanto traçava os dedos sobre os lábios dela. Cheios, firmes e impetuosamente reativos.
Embora estivesse surpreso por ter sido capaz de levá-la ainda mais além do que ela experimentara antes, ele estava impressionado pelo conhecimento que tinha, inesperadamente, se apossado dele.
Quanto mais longe, ele se perguntou, eles conseguiriam ir? Sabia apenas que tinha se despedaçado quando acreditou que ela o julgara culpado. O sentimento de traição e desilusão foi imenso, enfraquecedor, algo que ele não sentia há tantos anos, que já perdera a conta.
Ela o trouxera de volta a um ponto de vulnerabilidade do qual ele já escapara. Ela tinha o poder de magoá-lo. Eles conseguiam magoar um ao outro. Aquilo era algo a ser analisado com muito cuidado.
Naquele momento, porém, a questão mais premente era quem estava querendo atingir a ambos. E por quê. Ele ainda estava tentando decifrar o problema quando tomou-lhe a mão, juntou os próprios dedos com os dela e se deixou escorregar para o mundo dos sonhos, ao seu lado.



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