CINCO DE MAIO DE 1991
- Bom dia tio Lúcio, bom dia, tia Narcisa - disse August, juntando- se aos tios à mesa.
- Bom dia querido - respondeu tia Narcisa, do jeito dela, que podia soar gentil e formal, ao mesmo tempo.
Tio Lúcio apenas assentiu, por cima da edição de hoje do Profeta. Nenhum deles lhe deu parabéns, não que esperasse alguma demonstração de afeto. Gostavam dele, mas não eram o que se poderia chamar de amáveis. Ele também não eram amável com eles. Culpava-se por não amar os Malfoy, depois de o terem criado. Faziam isso como favor aos pais dele, mas ainda assim, teria ido para um orfanato se o casal Malfoy não o tivesse acolhido.
- Draco não vai tomar café hoje, tia? - indagou August, alçando um coddler lindamente trabalhado, onde havia um único ovo cozido.
- Draco está indisposto hoje, August, seremos só nos- respondeu ela, sem erguer os olhos de sua xícara de chá
August não sabia como continuar a conversa, talvez não houvesse necessidade de uma conversa, afinal. O silêncio teria que bastar. Pegou um garfo para quebrar a casca do ovo, quando foi interrompido por tio Lúcio.
- Temos um criado para essas coisas, sobrinho - Falou do seu jeito arrastado, pomposo.
- Não precisa tio, posso fazer isso sozinho...
- Dobby! - gritou Lúcio, energicamente - Dobby, venha, obedeça seu elfo preguiçoso. Precisamos seu serviço, agora!
Dobby não demorou, nunca estava longe. Aproximou-se de August, que o olhou, cheio de pena e de raiva reprimida pelo tio, por ser tão cruel com o elfo.
Dobby estava alcançando o mesmo garfo que August tinha pegado, para quebrar a casca do ovo, quando arregalou os olhos e olhou com medo para August.
- Mestre August, o senhor... O senhor está... - olhava com assombro para o menino, paralisado a meio caminho do ovo
- Ah, isso de novo - falou Lúcio, enojado - Já falei para não fazer isso na minha frente, menino. Não gosto de ter que repetir as coisas.
- Lúcio, o menino não aprendeu ainda a controlar isso- Narcisa tentou acalmar o marido - se ao menos déssemos um jeito dele ter alguma orientação...
- Já disse que não! - ele largou o jornal na mesa e se levantou - Esse comportamento não será estimulado na minha casa. É uma magia errada, isso que ele faz, exatamente como aquelazinha...
E foi embora. Quem era aquelazinha, August não sabia. Mas, devia ser alguém de quem Lúcio tinha muito desprezo.
- Desculpe- falou ele, quase como um sussurro, para ninguém em particular - Como estou?
- Seu cabelo e seus olhos - arfou Dobby, recompondo-se - estão vermelhos.
August pegou uma colher de prata a mesa e usou-a como espelho. Realmente, seu cabelo estava ruivo e seus olhos, muito vermelhos. Podia sentir uma leve mudança no formato de de seu nariz também. Não sabia como se sentir sobre isso. Não tinha controle sobre ser ou não um metamorfomago.
Havia muitas coisas em sua vida sobre as quais não tinha controle, pensou, minutos depois, ao voltar para o quarto, sem ter comido nada.
Não tinha escolhido seus pais, por exemplo. Lembrar-se deles sempre lhe causava sentimentos ambíguos, conflituosos. Também não os amava, como poderia? Nunca os conhecera. Azkaban não era como as prisões trouxas, dissera tia Narcisa, não se permitiam visitas.
Na altura de seu décimo primeiro aniversário, sabia tudo o que se podia saber sobre os pais. Conhecia a aparência de ambos por fotografias. Tinha sido obrigado a decorar as árvores genealógicas das famílias Black e Lestrange, desde muito cedo. Para conhecer e honrar sua linhagem pura, dissera tio Lúcio.
Em todas as fotos, Belatriz e Rodolfo exalavam frieza e severidade. Não havia calor naqueles olhos, afeto ou amor, nem mesmo entre os dois. Tudo o que se via ao olhá-los era obstinação, disciplina, era o olhar de dois soldados.
Soldados, sabia ele, que serviram um poderoso bruxo das trevas. Na mansão senhorial dos Malfoy, não se falava muito sobre a guerra contra Voldemort, parecia ser um assunto que os tios queriam esquecer.
Ali, em uma mansão no interior da Inglaterra, com um jardim extenso e tão chique que tinha até mesmo pavões, ele estava sendo criado para se sentir superior aos nascidos trouxas e a outras famílias bruxas com menos renome e poder aquisitivo. Mas, não concordava. Não se achava melhor do que ninguém, por algo tão bobo quanto um sobrenome, uma linhagem de sangue puro. Era diferente de Draco nisso. Draco idolatrava o pai e suas ideologias, tinha por ele grande admiração e aceitava seu status de sangue puro com muito orgulho.
Não sabia como se sentir sendo filho de duas pessoas que cometeram crimes graves o bastante para serem condenados a viver para sempre presos em Azkaban. Os Malfoy também tinham sido julgados, sabia, mas foram inocentados de todos os crimes.
Apesar de estarem presos, os Lestrange ainda eram uma das mais nobres, temíveis e conhecidas famílias puro sangue, eram respeitados pelo circulo pessoal dos Malfoy. Não tinha conhecimento pleno da verdade sobre quais crimes os pais tinham cometido. No entanto, imaginava algumas coisas. Atentados aos trouxas, por exemplo. Essa parte da vida dele poderia ter sido chocante e dolorosa para outro menino, sabia. Mas ele era diferente, não se chocava com a crueldade do mundo com tanta facilidade.
Pensava mais na mãe, do que no pai. Até se parecia com ela, os cabelos e olhos escuros, que cacheavam com facilidade, os ossos finos, as maçãs do rosto proeminentes ... Não que isso fosse importar muito. Conforme aprendesse a controlar sua habilidade, poderia assumir a aparência que desejasse.
Por enquanto, só conseguia mudar quando se sentia irritado. Como aconteceu no café da manhã. Era um poder incomum, mesmo entre os bruxos. Podia assumir traços diferentes, mudar sua aparência de várias maneiras. Tinha um controle mínimo sobre a habilidade e era frequentemente desestimulado a usá-la.
Apesar de muitas coisas, em parte, sentia-se grato pelos tios. Pensou, enquanto pegava seus materiais de desenho, escondidos em um baú debaixo da cama. Cumpriam bem seu papel como pais adotivos, fingiam bem, davam-lhe presentes e tratavam-no quase como um filho.
Seu primo, por outro lado não gostava de sua presença e deixava isso claro sempre que podia. Para Draco, não importava que August tivesse muito dinheiro em um cofre no Gringotes. Achava que a presença de August significava menos coisas para ele, mais gastos. Era arrogante como só um menino que crescera rico podia ser. O primo se ressentia de tudo e qualquer coisa que August ganhava e Narcisa se certificava de que Draco tivesse tudo que August tinha em dobro. Todo presente, brinquedo, roupa e até mesmo o tempo que gastava com August, era dado em dobro para Draco. Um preço pequeno para manter a paz, pensava August, que sabia que tinha tudo de que precisava e por vezes, até mais do que necessitava para viver. Até queria ser negligenciado, gostava dos momentos em que Draco era o foco. Permitia a ele explorar seus próprios interesses em paz. Sem julgamentos ou críticas, como desenhar, por exemplo.
Quando pensava no que faria quando crescesse, gostava de se imaginar um artista. Desenhava e pintava pessoas, criaturas mágicas e paisagens, e até gostava do resultado. Seu único crítico sempre fora Dobby, que tinha contrabandeado os materiais para ele de uma loja trouxa. Depois disso o elfo passara as mãos em ferro quente. Dobby tinha afeto por August, não porque era seu dever, mas porque gostava de August, genuinamente gostava dele, como nunca gostou de Draco. Com seu amigo o apoiando, tinha todo o estímulo de que precisava para continuar se empenhando. Escondia seus desenhos, feitos com lápis e não com uma pena enfeitiçada, com a qual poderia ter pintado as mais belas coisas. Desenhava como uma criança trouxa e isso, por si só, seria motivo de desprezo para os Malfoy.
Após terminar o desenho, sorriu, guardou-o em um envelope comprado exatamente para aquele fim e fez um igual em seguida, sabendo já de antemão o que faria com ele.
Foi com muito esforço de sua parte que desempenhou sua performance de filho adotivo adorável e respeitoso no jantar daquela noite. Recebeu os presentes de sempre, o afeto performado de tio Lúcio e a frieza do primo. Narcisa até tentava ser gentil com August, mas parecia não saber muito como demonstrar seu afeto.
Tudo muito decepcionante, pensou ele, ao deixar a mesa de jantar. Pouco foi falado a mesa, e sempre que dirigiam a palavra a ele, assentia e concordava, ou dava respostas breves e neutras. Ao sair, alegando estar com sono, ainda que estivesse cedo, trocou um olhar significativo com Dobby.
Queria que o elfo o visitasse, como costumava fazer. O criado, como usual, estava encolhido a um canto do cômodo, fingindo que não existia, quase sem respirar. Mas devolveu o olhar assentindo, algo que ninguém pareceu notar.
O elfo desempenhava sua função com louvor, mas era sempre punido. Era uma das coisas que o impedia de amar sua família, enojava-os por seu senso de superioridade em relação às criaturas mágicas "semi-humanas" e aos "nojentos sangue ruins". Dobby era a mais gentil e dócil das criaturas e, basicamente, seu único amigo. Não por falta de tentativas.
Havia tido tentativas, muito fracassadas. Narcisa tentou fazer com que August se enturmasse com os amigos de infância de Draco, Vicente Crabbe e Gregório Goyle. Contudo, os dois eram exatamente como Draco, arrogantes e cheios de si e faziam tudo que seu primo mandava. Juntando os dois, tinha certeza de que se podia obter a inteligência de uma porta.
Havia alguém que ele desejava ter como amiga. Lembrava do dia em que a conheceu, como se fosse hoje. No último verão, depois de fazerem compras no Beco Diagonal, tivera permissão para visitar a sorveteria de Florean Fortescue, sozinho, enquanto Narcisa e Draco escolhiam vestes a rigor novas na Madame Malkin. Chegou na sorveteria e se sentiu muito tímido, como sempre ficava com desconhecidos. Tivera dificuldade de abordar Florean, e quando finalmente conseguiu, começará a gaguejar e tivera ainda mais dificuldade de escolher o que comprar. Na fila, uma menina reparou em sua dificuldade e se apiedou dele. Tinha mais ou menos a idade dele estava de mãos dadas com uma mulher parecida com ela.
A menina usava grandes óculos cor de rosa e um colar com rabanetes de verdade. Suas roupas não combinavam nem um pouco e usava um sapato diferente do outro. Biruta, pensou August, gostei dela.
Ela prontamente deu-lhe dicas sobre quais sabores eram bons e quais devia evitar. Após o que escolheu um sorvete de beterraba e espinafre, que soltava faíscas de verdade. Ele a imitou e pediu o mesmo.
Era uma menina excêntrica, cuja alegria contagiante o lembrou do sol, de como a luz do sol era quente e boa e trazia vida àquilo que tocava. Com essa alegria, a alegria de ter feito a primeira amiga, se sentiu leve como nunca e muito esperançoso.
Enquanto saboreava seu sorvete, conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo, e como sempre , sem perceber, mudou. Seus cabelos começaram a assumir um tom claro, louro, como o dela. Lembrava do olhar no rosto dela e da mãe dela, ao verem a mudança. Não reagiram mal, como os Malfoy teriam feito. O que facilitou muito a ele retornar a ser moreno, pois estava calmo e tranquilo e precisou apenas se concentrar um pouco, vizualizar a si mesmo morena em sua mente.
Quando terminaram o sorvete, o pai da menina veio, carregando enormes sacolas cheias de bugigangas inúmeras e as levou embora.
A menina lhe disse que se chamava Luna. Ela era um ano mais nova que ele e teria que esperar mais dois anos pela carta . Lovegood, era o nome da família delas. Soubera, por meio do Profeta Diário, que meses depois, a mãe da menina havia morrido acidentalmente , como resultado de um feitiço que ela mesma executara. Nunca mais viu a menina ou soubera nada dela e fora suficientemente astuto de não perguntar aos tios. A família dela definitivamente não fazia parte do circulo pessoal dos Malfoy, apesar de terem sangue puro.
Lembrava-se de Luna com carinho e desejava que ela estivesse bem. Não ter uma mãe por perto era ruim, mas ter e depois perdê-la devia ser muito pior. Também era uma lembrança boa por outro motivo. Fora a única mudança na aparência bem sucedida que fez, o que não veio a se repetir no ano que se passou depois.
Esperava ansiosamente pela escola, onde a encontraria, com certeza. Entraria um ano antes que ela, mas ainda assim, daria um jeito, até ela chegar. Quem sabe, com sorte, não ficavam na mesma Casa?
Entendera, então, que a felicidade era o melhor combustível para o controle de sua habilidade e refletira que, em poucos minutos, as Lovegood tinham sido tão agradáveis com ele que o tinham deixado o mais relaxado que já havia se sentido, em toda a vida.
Teve seus pensamentos interrompidos quando, com um estalo, Dobby se materializou no seu quarto. Sorriu para ele.
- Finalmente- disse ele ao elfo, levantando-se e indo de encontro ao amigo - Tenho algo para lhe mostrar, venha Dobby.
- O senhor August como sempre é muito gentil- Disse o elfo com sua voz esganiçada, acompanhando-o - Mas não temos muito tempo, o mestre Lúcio ordenou a Dobby que polisse os talheres e toda a prata da família, para o aniversário do senhor Draco.
- Polir as pratas, mais uma vez?- Questionou August- Ele faz isso porque pode, Dobby, não por necessidade. Mas enfim, como você disse que não temos tempo, serei breve.
O aniversário de Draco seria somente dali um mês, e August tinha certeza de que as pratas estavam sendo polidas apenas como forma de demonstração de poder. Tentando não pensar muito nisso, conduziu o elfo pelo quarto, até o guarda roupa de onde tirou um envelope feio, fino e sem graça. O escolhera ele mesmo na última visita a Floreios e Borrões, exatamente por ser indigno de qualquer atenção. O elfo poderia guarda-lo, sem levantar suspeitas.
- É um presente para você, Dobby - disse August com entusiasmo - Não poderia lhe dar roupas, nós dois seríamos expulsos de casa. Mas, eu mesmo fiz, para se lembrar de mim, quando eu estiver em Hogwarts.
Dobby parecia muito feliz e também muito perplexo ao receber o envelope.
-Mas, senhor, é seu aniversário, eu é que deveria presenteá-lo- disse o elfo, com certa melancolia, sabendo muito bem que não possuía meios de dar qualquer presente que fosse a August.
-Já disse para não me chamar de senhor, Dobby- disse, enfaticamente- me chame de August, só August, não sou seu senhor, não sou senhor de ninguém- disse, com certo orgulho- E você sabe que eu não me importo com presentes, já tenho coisas de mais. Sua amizade é tudo que eu preciso, você é a melhor parte de viver nessa casa.
August sempre fora um menino muito sensível. Ainda assim, sentir era uma coisa, dizer era outra. Foi com muito esforço que reconhecera e dissera isso em voz alta, sem chorar.
-Obrigado, sen...August- disse Dobby, mas fazendo uma reverência tão caprichada que suas orelhas pontudas tocaram o chão- Dobby se alegra de ser seu amigo e aprecia muito sua companhia
-Eu sei, Dobby, eu sei- Disse o menino, os olhos marejando. Sentiria muita falta do elfo e preocupava-se com ele. Sua vida era dura -Agora abra, anda. Quero ver se vai gostar
E ele abriu, revelando uma pintura.
-Senhor August, que lindo- Foi tudo que August ouviu, antes do elfo começar a soluçar e grandes lágrimas descerem pelo rosto do elfo.
-Sabia que você gostaria, pintei uma igual para mim, vou deixá-la no meu quarto em Hogwarts, assim você sempre estará comigo - Disse August, abraçando forte seu único amigo e se permitindo também chorar.
Antes de dormir, já depois do elfo ter voltado ao trabalho, deu uma última olhada para a sua cópia do desenho. No desenho, havia duas figuras, ele e Dobby, que usava roupas elegantes, de frente a mansão dos Lestrange, a casa que August herdaria quando se tornasse legalmente adulto. Era o único sonho do menino, ir embora dali e levar Dobby junto, libertá-lo e presenteá-lo com roupas.
Fazendo uma pequena prece para que aqueles anos seguintes passassem rápido, o menino adormeceu...