NO NATAL
Era Natal de novo.
Coisa estranha, ela pensou. Acordada, olhando para o teto, Hermione, pensava em como era estranho estar ali.
Havia ido dormir tarde, por causa do trabalho no St.Mungus onde era medibruxa. Véspera de datas comemorativas, como o Natal eram sempre complicadas. As pessoas exageravam e o resultado eram salas lotadas de acidentes mágicos, gastronômicos, ou os dois juntos.
Naquela tarde atendera uma jovem mãe, com seu filho de três anos. Ele havia engolido um enfeite da arvore de Natal e no desespero de ajudá-lo, sua mãe fizera um feitiço errado que quase resultara em sua morte.
A podre mulher havia ficado arrasada e Hermione se identificara com ela, embora não soubesse bem porque.
Agoniada, ela desistiu da cama, bufando.
Na penumbra, dirigiu-se para o banheiro conjunto ao quarto. Nossa, ela nem lembrava mais daquele banheiro. Não era no corredor?
Sim, ela tinha um banheiro no corredor e travava longas disputas com Gina toda manhã para ver quem usava primeiro. Geralmente Ginny vencia, pois era mais rápida e seu quarto ficava mais perto da porta de entrada.
Sorriu, ligando a luz do lavabo e fitando-se com curiosidade. Adorava dividir apartamento com sua melhor amiga. Era divertido, principalmente porque isso sempre garantia ótimas reuniões nos fins de semana, onde Harry e Rony juntavam-se a elas e geralmente dormiam na sala.
Hermione passou a mão pelos cabelos, um pouco surpresa em vê-los tão longos. Que coisa, ela odiava cabelos longos. Certo, estavam bonitos, com cachos bem definidos e brilhantes. Mesmo assim, pelo que se lembrava eles eram curtos e embaraçados.
Suas sobrancelhas se curvaram ao olhar para a roupa que vestia.
Uma calcinha branca e uma regata. Uma regata de malha, bem maior que ela, e perfumada. Aquilo era perfume de homem?
Será que Rony havia esquecido outra camiseta ali e ela surrupiara e nem se lembrava? Era possível, já que fazia muito isso.
Vivia de sonhos e num amor platônico, às vezes ela tinha aqueles ataques de romantismo e dormia abraçada a alguma camisa suada e perdida.
Suspirou, olhando para aquele banheiro. Devia ser um truque de Ginny para não terem que dividir mais o lavabo.
Fazia um ano que as aulas acabaram e ela apanhara seu diploma e dois anos desde que deixaram Hogwarts...Gina vivia reclamando que era muito tempo e que Harry já deveria ter pedido-a em casamento.
Ah, casamento...que coisa complicada, ela nem conseguia contar a Rony como sentia-se, quanto mais pensar em casamento!
Sentindo uma pontada na temporã, ela massageou o local e suspirou. Dor de cabeça.
Era uma medica, e podia se auto- medicar, pensou irônica, abrindo o armário na parede.
Apanhou um frasco de aspirinas trouxas e leu o rotulo.
-Aspirinas infantis?
O que isso fazia nas suas coisas? E não era uma figura solitária. Havia alguns remédios para alergias, outros curativos e uma coisa que a fez arregalar os olhos.
-P-Poção contraceptiva? Mas eu não...! – chocada ela recolocou no lugar e fechou o armário, esquecida da dor de cabeça.
Ela não era uma puritana, mas só tinha dezenove anos, e não tinha um namorado. Gina e Harry já haviam cruzado a grande linha e tinham um relacionamento mais intimo, mas era porque se amavam, e enquanto ela própria não se resolvia com Rony, não pensaria em ter sexo com ninguém!
Não que não sentisse vontade. Ela era uma mulher normal, e sentia muita, mas muita vontade, mas era apaixonada e sentia a pele aquecer e o coração acelerar sempre que ele se aproximava!
Então como poderia pensar em ter sexo com outro homem?
Absurdo!
Quem sabe, Gina a tenha escondido ali, para que Rony não a encontrasse?
É poderia ser isso mesmo... Ainda estranhando, ela saiu do banheiro e apagou a luz.
Procurou o interruptor na parede e não encontrou.
Afinal, sua mãe tinha razão: estava trabalhando demais!
Quando conseguiu ascender à luz ela sentou-se na beira da cama.
Então, outra vez, era Natal.
Na verdade faltavam quatro horas para o dia vinte e cinco. Então, tecnicamente, ainda não era Natal.
E porque diabos ela estava ali sozinha e não estava em alguma festa natalina realizada pelos Wesleys?
Há anos que era sempre igual, chegava o dia vinte e quatro, um mundo de pessoas se enfurnava na Toca, e esperavam com expectativa o banquete da Sra.Wesley e mais que tudo, o abraço de Rony... Quer dizer, a troca de presentes e os abraços carinhosos dos amigos!
Será que ela não fora convidada?
E será que aquele menininho da emergência estava melhor? Hermione, pare de pensar nisso, ela se ordenou.
Realmente, véspera de Natal, em um hospital era enlouquecedor. Um sorriso se formou em seu rosto ao lembrar de uma menina de doze anos que engolira uma noz com casca, e por alguma razão muito estranha sua mãe a levara ao pronto socorro insistindo para interná-la.
Depois de uma longa explicação sobre o fato da menina precisar apenas ingerir líquidos e esperar a natureza agir, finalmente as duas admitiram que aquilo era apenas uma desculpa para não voltarem para a ceia familiar.
Que a família estava acabando com o Natal das duas e que tudo que queriam eram ficar juntas, em silencio, e em harmonia, mesmo que em um sala de espera de emergência.
E o que ela poderia dizer? Nem todo mundo tem a sorte dela, de ter uma bela família.
Hum...mas onde estariam seus pais? Pensando bem, se não estava na Toca deveria estar com seus pais, não é?
Olhando em volta ela encontrou chinelos do lado da cama e os calçou. Chinelos gigantescos, diga-se de passagem!
Gina tinha que parar com aquela mania de espalhar suas coisas e as de Harry pela casa, pensou brevemente irritada.
Achando suas pantufas, ela calçou e abriu a porta do quarto. O corredor estava mais longo que ela se lembrava, mas talvez fosse só a maldita dor de cabeça tirando seu foco.
Um copo de água gelada e ela estaria bem.
Um novo suspiro e ela desceu as escadas se perguntando desde quando tinha uma escada.
Aquele não era seu apartamento.
Não era mesmo!
Parada no meio da sala, ela olhou em volta, tentando conter o pânico.
O que ela fizera? Onde estaria?
Era Natal e muita gente se deprime no Natal e fez besteiras, disse a si mesma. Mas ela não teria feito nenhuma, teria? É claro que não!
Ficara presa no hospital até as oito da noite! Ainda se lembrava de como olhava para o relógio de pulso a cada cinco minutos, ansiosa para ir embora.
Mas porque ela estaria tão ansiosa? Não lembrava.
Sorriu penando naquela velhinha que notara sua aflição e sorrira bondosa, enquanto era examinada por ela.
“-Muito trabalho, menina? –ela dissera com voz tremula, e rouca, vitima de um resfriado de inverno, típico daquela época.
-Não sou uma menina, sra.Rocks. –ela sorriu amável - Sou sua medica.
-Oh, sim, eu sei disso! -ela dissera sem acreditar muito em suas palavras e Hermione deu de ombros.
O filho dela é que parecera muito irritado, olhando para todos os lados de forma ansiosa e desagradável.
-Noite cheia, essa – a mulher continuara a dizer – Acho que deveria dar uma olhadinha em meu Gerry, ele está tão nervoso hoje. – ela dissera preocupada.
-Quer parar, mãe? Esse assunto já encheu! – ele dissera irritado e grosso e Hermione lembrava de ter parado seu exame e ter dito:
-O senhor não pode gritar aqui dento. – apontou a porta – Espere lá fora enquanto termino o exame.”
Contrariado ele havia saído, mas Hermione continuava sentindo-se aflita, olhando para seu relógio, e sorrindo amarelo para a bondosa senhora.
Havia esperado tanto! Queria tanto ir embora!
Mas porque, se passaria o Natal sozinha?
Água, ela precisava de um copo de água para clarear as idéias!
A cozinha era pequena e havia muitos eletrodomésticos trouxas e uma graciosa mesa com toalha de motivos natalinos. Familiarizada com o ambiente, ela pegou o copo no armário e a água na geladeira.
Alivio correu por seu corpo quando o liquido gelado desceu por sua garganta.
“Não faça esforços, Hermione, até amanhã.”
Abriu os olhos, quando essa frase explodiu em sua mente. Era a voz da sua colega, Suzy.
Será que estava doente, e era por isso, que ninguém a queria nas festas de Natal?
Olhando pelo ambiente ela sentiu um súbito vazio dentro de si.
Estava falando algo. Não eram seus pais, não eram seus amigos.
Era outra coisa.
Tentou abafar aquela sensação, com mais água, mas não deu muito certo.
Com passos lentos voltou para a sala e sentou-se no sofá, puxando as pernas para cima e abraçando os joelhos.
Aquela sensação estava crescendo dentro dela, cada vez mais forte, e ela não acreditou quando sentiu as lágrimas quentes correrem por sua face.
“-É Natal, Hermione!”
Era a voz de Gina, aos quatorze anos, ao acordá-la no dormitório de Hogwarts.
“-Aqui, achei que gostaria – era a voz de Rony, meio sem jeito – É um perfume.”
Ele lhe dera um perfume, e fazia tanto tempo...
“-Sra.Rocks, volte para seu quarto”
Ela ouviu a própria voz e as lagrimas vieram mais fortes.
“Sr.Rocks, não faça isso!”
Seu grito fez eco em sua mente e ela fechou os olhos com força quando a explosão surgiu atrás de suas retinas.
“Mamãe”
Era um sussurro tão baixo que ela gemeu, sendo puxada daquele mundo de dor para um mundo de cor.
“Mamãe.”
-Sim, querida, estou aqui... –ela respondeu baixo, sem conter o choro. Respondia para o vazio.
Para o medo e para a solidão a sua volta.
-Porque a mamãe está chorando?
Ela ouviu aquela vozinha baixa e doce tão perto e tão forte dentro dela, que escondeu o rosto contra os joelhos, querendo apagar aquela sensação de vazio crescente.
-A mamãe está dodói – ela ouviu àquela sua voz tão amada. – Mas já vai melhorar.
Ela ouviu passos, mas tentou sufocar o som, pois aquela dor em sua cabeça havia aumentado muito.
Tentou ignorar os sons a sua volta, dizendo a si mesma que estava ficando louca.
Era Natal, as pessoas ficavam tristes, outras felizes demais, outras bebiam e saltavam de pontes, outras bebiam e atiravam as pessoas de pontes.
E ela enlouquecera.
Sentiu um toque em sua nuca, acariciando seus cabelos e ergueu o rosto cheio de lágrimas arregalando os olhos ao ver Rony.
Seu melhor amigo, o dono do seu coração. Como gostava de olhar para ele!
-Rony, você está aqui? – perguntou com medo de não ser real.
-Estou sim – ele sorriu.
-Eu não sei onde é ‘aqui’ – ela confessou esperando que ele tivesse uma explicação para isso.
-Hermione... – ele tentou dizer algo, mas ela não deixou.
-Eu não consigo saber o que é Rony, mas tem algo faltando! – disse exasperada, segurando na sua blusa, o desespero aumentando a medida que seus olhos olhavam nos olhos dele – Eu não sei o que é, mas a falta dói tanto! Aqui, Rony, - tocou o próprio coração com a mão querendo que ele entendesse o quando doía – Eu nunca senti tanta vontade de ter algo na minha vida, e não sei o que é!
-Mas eu sei – ele sorriu de novo, como se achasse graça.
-Estou louca, não estou? – perguntou de repente entendendo tudo – Estou louca e ninguém quer me contar? – havia pânico na sua voz.
-Sempre foi louca, Hermione – definitivamente ele achava graça.
-Não ria de mim! – ela ficou brava, olhando em volta e parando chocada.
Havia uma menininha brincando com uma boneca e olhando para os dois.
-Quem...? Oh, Merlin... – não soube como expressar o que sentia.
-Não sente mais falta não é? - ele tornou a acariciar seus cabelos e a trouxe mais perto, fazendo –a olha-lo surpresa pelo carinho tão intimo.
-Não, não sinto... – olhou para a menina que sorria para eles, sem entender bem o que se passava.
-Gerry Rocks teve um surto na emergência, Hermione. Ele atacou a mãe e a você com feitiços de todos os tipos. Infelizmente acertou-lhe um de confusão. Suzy disse que iria passar em algumas horas. Mas...
-...preciso de repouso? – lembrou-se das palavras de Suzy.
-Sim, e precisa também de carinho, compreensão e da sua família. – ele sorriu.
-Os meus pais, eles estão aqui? – estranhou.
-Não, você precisa dessa família aqui, Hermione – disse pacientemente. – Eu e Rose.
-Você...você é minha família? – sentiu-se frágil ao perguntar.
-Há quatro anos – ele enlaçou sua mão na dele, e ela olhou para as alianças idênticas que adornavam os dedos dos dois.
-E...eu posso te beijar sempre que quiser? – perguntou sem pensar.
-Pode, você pode tudo que quiser – ele rosou os lábios no dela, em um delicado beijo.
Quando se afastou ela ainda manteve os olhos fechados sentindo-se boba e corou.
– Aquela é Rose. – ele esclareceu.
-Nossa filha.... –deduziu, o coração trasbordando de carinho e ternura.
-Onde você está Hermione? -ele brincou.
-Estou nos meus dezenove anos... – ela confessou triste – Eu...Eu estraguei o Natal não foi?
-Não, não estragou nada – ele riu e virou para Rose – Hei, foguinho, venha dar um abraço na mamãe.
-Eu posso? -ela arregalou os belos olhos azuis, idênticos ao do pai e quando ele concordou ela correu, balançando os cabelos lisos e ruivos.
Atirou-se no sofá diretamente para os braços da mãe.
-Eu te amo, mamãe.
-Eu senti tanto a sua falta, Rose – ela confessou – Tanto, meu amor!
-Eu também, mamãe -ela fez carinho no rosto da mãe e Hermione achou divino decorar seus traços de anjo.
-Eu estive com Suzy para apanhar a poção. Demorou algumas horas para ficar pronta – ele tirou um vidrinho do bolso – Com sorte e repouso, ainda teremos o Natal na casa da vovó Molly a aproveitaremos seu maravilhoso almoço de Natal!
Hermione sorriu, apanhando o vidrinho e observando, ainda embevecida, a filha sentar entre eles, tão idêntica a Rony.
Sem querer ela riu.
-Hei, o que foi? -ele perguntou curioso.
-É que...vou ganhar presente só amanhã? – brincou e ele riu.
-Não, claro que não...Tenho um presente para você, Hermione, lá em cima, depois que Rose dormir...
-Mas, papai. Eu também quero presente!
Os dois riram de sua inocência e Hermione achou incrível aquela sensação de plenitude de velo-o tentar explicar para Rose porquê ela não ganharia ‘aquele’ presente especial que a mamãe ganharia.
Ela bebeu a poção e até esqueceu dela, enquanto os três riam e divertiram-se, naquela noite tão especial.
As pessoas enlouquecem no Natal, perdem a classe, e ficam arrasadas, isso era verdade, mas só àquelas que não conhecem o verdadeiro amor.
E para provar isso, era só entrar naquela casa e receber um Feliz Natal da família Granger-Wesley.
FIM
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