CAPÍTULO DOZE
Entrevistas coletivas deixavam Gina com um gosto amargo na boca. Estava em pé na escadaria da Prefeitura da cidade, sobre um palanque armado por Snape, que estava com a sua gravata patriótica e o alfinete de ouro com o símbolo da campanha “Eu Amo Nova York” pregado na lapela. Com seu jeito de irmão mais velho da cidade, sua voz se elevava e abaixava enquanto lia a declaração.
Uma declaração, Gina pensou com desgosto, cheia de mentiras, meias-verdades e um monte de elogios a si mesmo. De acordo com Snape, ele não sossegaria até que o assassino da jovem Lola Starr fosse levado aos tribunais.
Quando questionado sobre se havia alguma ligação entre o caso Lola Starr e a morte misteriosa da neta do Senador DeBlass, negou com segurança. Não era o seu primeiro erro, Gina pensou, aborrecida, e certamente não seria o último. As palavras mal haviam saído de sua boca, quando ele foi interpelado aos gritos pela competente repórter do Canal 75, Nymphadora Tonks.
- Secretário Snape, eu possuo informações que mostram que o homicídio de Lola Starr está ligado ao caso DeBlass, e não só pelo fato de as duas mulheres terem a mesma profissão.
- Ora, Tonks. - Snape exibiu o seu sorriso paciente de tio boa-praça. - Todos nós aqui sabemos que algumas informações são frequentemente passadas a você e aos seus colegas, muitas vezes de forma inexata. Foi por isso que eu criei o CVD, Centro de Verificação de Dados, logo no primeiro ano de meu mandato como Secretário de Segurança. É só verificar no CVD que você vai obter dados precisos.
Gina conseguiu segurar um sorriso irônico, mas Tonks, com seus astutos olhos de gata e cérebro rápido, não se intimidou.
- Minha fonte assegura que a morte de Sharon DeBlass não foi um acidente, como afirma o CVD, e sim assassinato. Tanto Sharon DeBlass quanto Lola Starr foram mortas pelo mesmo método, e pelo mesmo homem.
Essa declaração causou furor no mar de repórteres, uma saraivada de perguntas e exigências que fizeram Snape começar a suar por baixo da camisa bordada com monograma.
- O Departamento mantém sua posição de que não há ligação entre esses dois lamentáveis incidentes. - berrou Snape, mas Gina notou pequenos sinais de pânico cintilarem em seus olhos. - Meu gabinete apóia totalmente os investigadores.
Todos os olhares agitados se voltaram na mesma hora para Gina, e ela soube, naquele instante, que estava na hora de ser atirada aos lobos de corpo inteiro.
- A Tenente Weasley, - completou o secretário - uma policial veterana com mais de dez anos de experiência na Força, está encarregada do caso Lola Starr. Ficará feliz em responder às suas perguntas.
Presa na armadilha, Gina deu um passo à frente, enquanto Snape se abaixava para ouvir de um assessor com cara de fuinha um conselho rápido ao pé do ouvido. As perguntas choveram sobre ela, e Gina ficou aguardando, filtrando cada uma delas, até encontrar uma que pudesse responder.
- Como Lola Starr foi assassinada?
- A fim de proteger a credibilidade das investigações, não estou autorizada a divulgar o método usado. - Ela agüentou os gritos, xingando Snape por dentro. - Posso apenas afirmar que Lola Starr, uma acompanhante autorizada com dezoito anos de idade, foi assassinada, com violência e premeditação. As provas mostram que foi morta por um cliente.
Aquilo os acalmou por algum tempo, Gina notou. Vários repórteres se conectaram com suas bases para passar a informação.
- Foi um crime sexual? - gritou alguém, e Gina levantou uma sobrancelha.
- Acabei de afirmar que a vítima era uma prostituta e que foi morta por um cliente. Junte os dados.
- E Sharon DeBlass também foi morta por um cliente? - quis saber Tonks.
Gina se virou e manteve os olhos fixos no rosto felino da repórter.
- O Departamento não divulgou nenhuma nota afirmando que Sharon DeBlass foi assassinada.
- Minhas fontes afirmam que a senhorita é a investigadora principal dos dois casos. Esta informação é correta?
Terreno com areia movediça. Gina entrou nele.
- Sim. Sou a investigadora principal em vários casos que estão em aberto.
- Por que razão eles designariam uma investigadora qualificada e veterana, com dez anos de serviços, para um caso de morte acidental?
- Quer que eu defina a palavra burocracia? - Gina sorriu. Isso arrancou alguns risos do grupo, mas não tirou Tonks da trilha.
- O caso DeBlass ainda está em aberto?
Qualquer resposta poderia virar um ninho de marimbondos. Gina optou pela verdade.
- Sim, e vai permanecer em aberto até que eu, como investigadora principal, esteja satisfeita com os resultados. Entretanto, - continuou ela, fazendo a voz abafar os gritos - não darei mais ênfase à morte de Sharon DeBlass do que a qualquer outra, incluindo Lola Starr. Qualquer caso que caia em minhas mãos é tratado igualmente, independente da posição familiar ou social da vítima. Lola Starr era uma jovem de família simples. Não tinha status social, nem influência política, ou amigos importantes. Agora, depois de chegar a Nova York há poucos meses, está morta. Assassinada. Merece o melhor que eu puder lhe dar, e é isso que vai obter.
Gina deu uma olhada panorâmica na multidão e fixou o olhar em Tonks.
- Você quer uma história, Senhorita Tonks. Eu quero um assassino. No meu modo de ver, o que eu quero é mais importante do que o que a senhorita quer, então isso é tudo o que eu tenho a dizer.
Gina girou nos calcanhares, lançou um olhar fulminante para Snape e foi embora. Ainda podia ouvir quando ele lutava com outras perguntas enquanto ela se dirigia para o carro.
- Weasley! - Tonks, usando sapatos de salto baixo para criar estilo e dar mais agilidade, saiu correndo atrás dela.
- Já disse que terminei. Pergunte ao Snape.
- Olhe, se eu quiser ficar patinhando nessa lengalenga, posso ir pegar material no CVD. Aquela foi uma declaração muito apaixonada, Weasley. Não me pareceu algo escrito pelo assessor de discursos do Secretário Snape.
- Gosto de falar por mim mesma. - Gina chegou ao carro e começou a abrir a porta quando Tonks tocou-lhe o ombro.
- Você gosta de jogar limpo. - disse Tonks. - Eu também. Escute Weasley, nós duas temos métodos diferentes, mas os objetivos são os mesmos. - Satisfeita por ter conseguido captar a atenção de Gina, sorriu. Quando seus lábios se curvaram, o rosto formou um triângulo perfeito, dominado por oblíquos olhos verdes. - Não vou apelar para aquela velha ladainha de que a opinião pública tem o direito de saber.
- Ainda bem, porque ia perder seu tempo.
- O que vou lhe dizer é que temos duas mulheres mortas no intervalo de uma semana. Minhas informações e meu instinto me dizem que ambas foram assassinadas. Não acredito que você vá me confirmar isso.
- Acertou.
- O que eu proponho é um acordo. Você me diz se eu estou na pista certa, e eu seguro qualquer informação que possa estragar a sua investigação. Quando tiver algo sólido e estiver pronta para atacar, você me dá um aviso. E eu consigo imagens exclusivas da prisão, ao vivo.
Achando aquilo quase divertido, Gina se encostou ao carro.
- E o que você vai me dar em troca de tudo isso, Tonks? Um aperto de mão e um sorriso?
- Em troca, vou lhe passar tudo o que a minha fonte já me trouxe. Tudinho.
- Inclusive o nome da fonte? - Naquele momento, Gina ficou interessada.
- Não poderia fazer isso, mesmo que quisesse. O caso é que eu também não sei. O que eu tenho, Weasley, é um disco, que foi entregue no estúdio, aos meus cuidados. Nesse disco estão cópias de todos os seus relatórios, incluindo as autópsias das duas vítimas, e dois vídeos horrendos de duas mulheres sendo mortas.
- Aqui, ó!... Se você tivesse metade do material que está me dizendo, já teria colocado no ar em um piscar de olhos.
- Pensei nisso. - Tonks admitiu. - Mas esse caso é mais do que apenas uma questão de pontos no ibope. Muito mais. Quero uma história completa, Weasley, uma bem grande, que possa me garantir um Pulitzer, um Prêmio Internacional de Imprensa e algumas outras distinções.
Os olhos dela mudaram, e ficaram mais sombrios. Não estava mais sorrindo quando continuou.
- Acima de tudo, eu vi o que alguém fez com aquelas mulheres. Talvez a história tenha mais importância, mas isso não é tudo. Tentei encostar Snape na parede, e tentei colocar você também. Gostei do jeito com que você escapou. Pode fazer esse acordo comigo, ou eu posso continuar por conta própria. A escolha é sua.
Gina esperou um pouco. Uma frota de táxis passou ao largo, e também um maxi-ônibus, com o motor elétrico zumbindo.
- Combinado, Tonks. - Antes que os olhos da repórter pudessem se acender de triunfo, Gina se virou para ela. - Se você me trapacear, Tonks, se pensar, sequer, em me aprontar alguma, pode preparar o enterro.
- Parece justo.
- Encontre-me no Esquilo Azul, então, em vinte minutos.
A multidão da tarde no clube estava entediada demais para algo além de simplesmente curtir seus drinques. Gina conseguiu uma mesa de canto, pediu uma Pepsi Classic e uma macarronada com molho vegetariano. Tonks se sentou em frente a ela. Escolheu o especial de frango acompanhado de batatas fritas sem óleo. Uma indicação, Gina pensou com tristeza, da imensa diferença de salário entre uma policial e uma repórter.
- O que você conseguiu? - quis saber Gina.
- Uma imagem vale mais do que centenas de milhares de palavras. - Tonks tirou um computador de mão de dentro da bolsa. Uma bolsa vermelha, de couro, Gina notou com inveja. Ela tinha uma fraqueza por couro e cores vivas, fraqueza que raramente tinha condições de satisfazer.
Tonks colocou o disco e entregou o pequeno computador para Gina. Não adiantava muito soltar palavrões, decidiu Gina enquanto via seus próprios relatórios desfilando pela tela. Pensativa, deixou o disco rodando até chegar aos dados confidenciais de Código Cinco. Os relatórios médicos oficiais, as descobertas do Instituto Médico Legal. Parou quando os vídeos começaram a aparecer. Não havia necessidade de ela olhar mortes enquanto comia.
- Está tudo aí, certinho? - perguntou Tonks, quando Gina devolveu o computador.
- Está.
- Então, o cara é alguém que é ligado em armas antigas, especialista em sistemas de segurança e usa os serviços de prostitutas.
- As provas apontam para esse perfil.
- E até que ponto você já conseguiu diminuir a lista de suspeitos?
- Obviamente, não consegui muito.
Tonks esperou enquanto seu prato era servido, antes de falar.
- Deve estar havendo um bocado de pressão política em cima de você, por parte do Senador DeBlass.
- Não faço esse jogo político.
- O seu chefe faz. - Tonks deu uma garfada no frango. Gina deu um sorriso forçado ao ver a repórter franzir os olhos. - Meu Deus, isso é terrível. - Filosoficamente, começou a comer as batatas fritas. - Não é segredo para ninguém que o Senador DeBlass é o principal nome para a indicação do Partido Conservador, neste verão. Nem que o idiota do Snape está sonhando em ser governador. Pelo que eu vi no show de ainda há pouco, parece que eles estão querendo abafar tudo.
- Até agora, oficialmente, não há nenhuma ligação entre os dois casos. Mas eu estava sendo sincera quando falei em igualdade, Tonks. Não me importa quem é o vovô de Sharon DeBlass. Vou descobrir quem a matou.
- E quando descobrir, ele vai ser acusado dos dois assassinatos, ou só da morte de Lola Starr?
- Isso vai depender do promotor. Pessoalmente, eu não ligo a mínima, desde que o veja executado.
- É esta a diferença entre nós duas, Weasley. - Tonks balançou uma batata frita com o garfo e acabou colocando-a na boca. - Eu quero tudo. Quando você o agarrar e eu soltar toda a história, o promotor não vai ter escolha. Os estilhaços vão deixar DeBlass ocupado durante meses.
- Agora, quem é que está fazendo jogo político?
- Ei, eu só faço a reportagem, não planejo a história. - Tonks levantou os ombros. - E esta aqui tem de tudo: sexo, violência e dinheiro. Ainda por cima, ter um nome como o de Harry Potter envolvido vai levantar o ibope até as nuvens.
Muito lentamente, Gina engoliu o macarrão e disse:
- Não há provas ligando Potter aos crimes.
- Ele conhecia Sharon DeBlass, é amigo da família. Puxa, ele é o dono do prédio em que ela foi morta. Tem uma das maiores coleções de armas do mundo, e dizem que tem ótima pontaria.
- Só que não conseguimos rastrear nenhuma das armas dos crimes até ele. E ele não tinha ligação com Lola Starr.
- Pode ser que não; mas mesmo como personagem secundário, Potter é sempre manchete. E também não é segredo de estado que ele e o senador andaram se desentendendo no passado. O cara tem gelo nas veias. - acrescentou, encolhendo os ombros. - Não acho que fosse ter algum problema em se ligar a dois assassinatos a sangue-frio. No entanto... - Ela fez uma pausa para levantar o seu drinque. - Ele também é fanático por manter a sua privacidade. É difícil imaginá-lo como alguém que ia sair se exibindo, enviando discos com as imagens dos assassinatos para uma repórter. Quando alguém faz isso, quer publicidade, mas também precisa muito escapar impune.
- Teoria interessante. - Gina já agüentara demais. Uma dor de cabeça estava começando a se insinuar por trás dos olhos, e aquele macarrão não ia cair bem. Levantou-se e se inclinou sobre a mesa até chegar bem perto da repórter. - Vou lhe dar outra teoria, formulada por uma policial. Quer saber quem é a sua fonte, Nadine?
- Claro que quero! - Seus olhos brilharam.
- Sua fonte é o assassino. - Gina fez uma pausa, para observar a luz se apagar nos olhos de Tonks. - Se eu fosse você, ia começar a tomar muito cuidado, amiga.
Gina saiu a passos largos. Foi direto para os fundos do palco. Tinha esperança de que Luna estivesse no cubículo estreito que servia de camarim. Naquele momento, precisava de um rosto familiar.
Gina a encontrou enrolada em um cobertor e espirrando em um lenço de papel esfarrapado.
- Peguei uma droga de um resfriado. - Luna olhou com os olhos vidrados e inchados, e assoou o nariz como se fosse uma corneta. - Devo ser maluca, sem usar nada no corpo, a não ser a porcaria de uma tinta, por mais de doze horas, no meio deste inverno horroroso.
Cautelosa, Gina manteve distância.
- Está tomando alguma coisa?
- Estou tomando tudo. - Ela apontou para a mesa, cheia de remédios que dispensavam receita e alguns cosméticos, para disfarçar o rosto vermelho. - Isso é uma tremenda conspiração da indústria farmacêutica, Gina. Conseguimos acabar com praticamente todas as doenças conhecidas, pragas e infecções. Bem, é claro que de vez em quando aparece alguma nova, para dar aos pesquisadores algo para fazer. Mas nenhum desses médicos com olhar brilhante e nenhum desses computadores especializados em diagnósticos conseguem descobrir como curar a porra do resfriado. E você sabe por quê?
Gina não conseguiu prender o riso. Esperou até que Luna acabasse com outra rodada de espirros.
- Por quê?
- Porque a indústria farmacêutica precisa vender remédios. Sabe quanto é que custa um simples envelope de comprimidos contra sinusite? É mais caro do que as injeções anti-câncer. Juro.
- Vá ao médico e pegue uma receita para diminuir os sintomas.
- Já fiz isso, também. A droga do remédio só funciona por oito horas, e eu tenho que me apresentar hoje à noite. Vou ter que esperar até as sete horas para poder tomar.
- Devia estar em casa, na cama.
- Estão dedetizando o prédio. Um engraçadinho falou que viu uma barata. - Ela espirrou de novo, olhando em seguida para Gina com olhos pequenos de coruja, atrás de cílios sem rímel. - E você, o que está fazendo aqui?
- Tinha alguns assuntos para resolver. Olhe, veja se descansa. Nós nos vemos mais tarde.
- Não, fique um pouquinho. Estou chateada. - Pegou a garrafa de um líquido rosa de aspecto nojento e bebeu um pouco daquilo pelo gargalo. - Ei, que blusa legal. Ganhou algum bônus, ou algo assim?
- Algo assim.
- Venha, sente-se aqui. Eu ia ligar para você, mas estava muito ocupada detonando os pulmões. Era o Potter aquele cara que veio em nosso refinado estabelecimento na noite passada, não era?
- É, aquele era o Potter.
- Quase desmaiei quando ele se sentou junto de você à mesa. Qual é o lance? Você o está ajudando com alguma coisa relacionada com segurança ou algo assim?
- Dormi com ele. - Gina deixou escapar, e Luna respondeu a isso com um engasgo incontrolável na garganta.
- Você... Potter. - Com os olhos cheios d’água, pegou mais lenços de papel. - Meu Deus, Gina. Minha nossa, você nunca dorme com ninguém. E agora está me dizendo que dormiu com Potter?
- Essa informação não é muito exata. Nós não dormimos.
- Não dormiram. - Luna soltou um gemido. - Por quanto tempo?
- Sei lá. - Gina levantou o ombro. - Passei a noite lá. Oito, nove horas, eu acho.
- Horas. - Luna estremeceu ligeiramente. - E você agüentou firme.
- Agüentei.
- Ele é bom? Pergunta idiota. - completou, depressa. - Se não fosse, você não teria ficado a noite toda. Puxa Gina, que bicho pegou você? Além daquele bicho incrivelmente energético dele?
- Não sei. Foi burrice. - Ela passou a mão pelos cabelos. - Nunca tinha sido desse jeito comigo, antes. Não pensei que isso pudesse... que eu pudesse. Nunca tinha sido importante, e então de repente... merda.
- Meu amor. - Luna puxou a mão de dentro do cobertor e agarrou os dedos tensos de Gina. - Você tem bloqueado suas necessidades normais a vida inteira por causa de coisas que mal lembra. Alguém acabou de encontrar um jeito de penetrar nessa barreira. Você devia estar feliz.
- Mas isso o coloca na cadeira do piloto, não é?
- Ah, isso é besteira. - interrompeu Luna antes que Gina pudesse continuar. - Sexo não tem que ser uma corrida de poder. E com certeza também não precisa ser um castigo. É para ser divertido. E de vez em quando, se você tiver sorte, acaba se tornando algo especial.
- Talvez. - Gina fechou os olhos. - Ah, Deus. Luna, coloquei minha carreira na marca do pênalti.
- De que você está falando?
- Harry está envolvido em um caso que estou investigando.
- Ai!... que merda! - Teve que interromper a conversa de novo para assoar o nariz. - Você não vai ter que prendê-lo por alguma coisa, vai?
- Não. - Depois, repetiu, com mais ênfase. - Não! Mas se eu não acertar as coisas direitinho, e bem depressa, com um lindo laço de enfeite, estou fora. Ferrada. Alguém está me usando, Luna. - Seus olhos se afiaram novamente. - Estão deixando livre um dos caminhos, e bloqueando a passagem em outros. Não sei por quê. E, se eu não descobrir bem depressa, isso vai me custar tudo o que eu tenho.
- Então você vai ter que descobrir, não é? - Luna apertou os dedos de Gina.
Ela ia descobrir, Gina prometeu a si mesma. Já passava das dez da noite quando finalmente entrou na portaria de seu prédio. Se não queria pensar em mais nada naquele momento, não era crime algum. Acabara de engolir uma repreensão vinda do gabinete do secretário, por se desviar do comunicado oficial durante a entrevista coletiva. O apoio extra-oficial do comandante não ajudava muito a diminuir a dor da ferroada. Ao chegar em casa, foi verificar seus e-mails. Sabia que era bobagem, aquela esperança irritante de que poderia encontrar alguma mensagem de Harry.
Não havia nenhuma. Mas o que encontrou lhe causou um calafrio na espinha. A mensagem em vídeo veio sem remetente, e tinha sido enviada de um posto público. A garotinha. Seu pai morto. O sangue.
Gina reconheceu os ângulos da gravação oficial do laboratório da polícia, feita para documentar o local do assassinato e justificar a morte do criminoso. O áudio entrou. Uma reprodução da gravação que ela mesma fizera dos gritos da menina. O momento em que ela bateu na porta. O aviso, e todo o horror que se seguiu.
- Seu canalha. - balbuciou. - Você não vai conseguir me atingir com isso. Não vai conseguir usar essa menina para me atingir.
Mas seus dedos estavam tremendo no momento em que saiu do e-mail. E deu um pulo quando o interfone tocou.
- Quem é?
- É o Hennessy, do apartamento 2-D. - O rosto pálido e honesto do seu vizinho de baixo apareceu na tela. - Desculpe, Tenente Weasley. Não sabia ao certo o que fazer. Está havendo um problema aqui embaixo, no apartamento dos Finestein.
Gina suspirou e se lembrou visualmente do casal de idosos. Calmos, amigáveis, viciados em TV.
- Qual é o problema?
- É que o Senhor Finestein está morto, tenente. Emborcou na cozinha, enquanto a mulher estava fora, jogando mah-jongg com as amigas. Achei que talvez a senhorita pudesse vir até aqui embaixo.
- Claro. - Suspirou de novo. - Vou descer. Não toque em nada, Senhor Hennessy, e tente manter as pessoas afastadas. - Pela força do hábito, ligou direto para a Central, fez o rápido aviso de um caso de morte ainda não comunicado e avisou que estava indo para o local.
Encontrou o apartamento calmo, com a Senhora Finestein sentada no sofá da sala de estar, com as mãos pequenas e brancas cruzadas, pousadas no colo. Seu cabelo era todo branco, também, como uma nevasca em volta de um rosto que estava começando a se enrugar, apesar dos cremes e tratamentos anti-envelhecimento. A velha senhora sorriu gentilmente ao avistar Gina.
- Sinto muito por incomodar você, querida.
- Não se preocupe. A senhora está bem?
- Sim, estou bem. - Seus olhos azuis se encontraram com os de Gina. - Era a noite do nosso jogo semanal, meu com as meninas. Ao chegar em casa, encontrei-o caído sobre a mesa da cozinha. Ele andou comendo torta de ovos. Joe era louco por doces, até demais. - Ela olhou para Hennessy, que estava em pé, trocando o peso do corpo de um pé para o outro, desconfortável. - Não sabia bem o que fazer, e fui bater na porta do Senhor Hennessy.
- Fez bem. O senhor pode ficar aqui junto com ela por um minuto, por favor? - perguntou a Hennessy.
A disposição dos aposentos era igual à do apartamento de Gina. Tudo estava meticulosamente arrumado, apesar da abundância de pequenos enfeites, bibelôs e lembranças.
Na mesa da cozinha, junto do arranjo de flores de porcelana, Joe Finestein perdera a vida, e parte considerável da dignidade. Sua cabeça estava desmoronada, metade para dentro e metade para fora de uma tigela de torta de ovos. Gina tentou sentir-lhe a pulsação, sem encontrar nenhuma. A pele já estava bem fria. Seu palpite era de que ele já estava morto há uma hora e quinze, um pouco mais, ou um pouco menos.
- Joseph Finestein. - ela recitou para o gravador, conforme as regras. - Homem, aproximadamente cento e quinze anos. Sem sinais de entrada forçada no apartamento, nem violência. Não há marcas no corpo.
Gina chegou mais perto, verificou os olhos surpresos e ainda esbugalhados de Joe, e cheirou a torta. Depois de terminar as anotações preliminares, voltou para a sala, a fim de liberar Hennessy e conversar com a viúva.
Já passava de meia-noite quando conseguiu chegar na cama. A exaustão parecia estar grudada nela como uma criança chata e teimosa. Esquecer tudo era o que ela queria naquele momento, rezava por isso. Sem sonhos, ordenou ao subconsciente. Tire a noite de folga.
Acabara de fechar os olhos quando o tele-link, ao lado da cama, apitou.
- Frite no inferno, quem quer que seja. - murmurou, e então cuidadosamente levantou o lençol para cobrir os ombros nus e ligou o monitor.
- Tenente. - A imagem de Harry sorriu para ela. - Acordei você?
- Mais cinco minutos e teria me acordado. - Ela se ajeitou na cama enquanto o áudio sibilou devido à interferência espacial. - Estou vendo que você já chegou no lugar para onde ia, afinal.
- Cheguei. A viagem atrasou só um pouquinho. Pensei em ligar antes que você se deitasse.
- Por algum motivo em particular?
- Porque gosto de olhar para você. - O sorriso dele desapareceu quando observou melhor o rosto dela. - O que há de errado, Gina?
Por onde você quer que eu comece?, pensou ela, mas encolheu os ombros.
- Tive um dia puxado que acabou com um dos meus vizinhos e seu inquilino batendo as botas em cima do lanche noturno. Caiu de cara em cima de uma torta de ovos.
- Bem, há maneiras piores de morrer, imagino. - Virou a cabeça e falou com alguém perto dele. Gina viu uma mulher passar rapidamente por trás dele e sair da tela. - Acabei de dispensar minha assistente. - explicou. - Queria que ficássemos a sós para perguntar se você está usando alguma coisa no corpo, por baixo desse lençol.
Ela olhou para baixo e levantou uma sobrancelha, respondendo:
- Parece que não.
- Por que não tira o lençol?
- De jeito nenhum. Não vou satisfazer seu tesão descontrolado através de uma transmissão inter-espacial, Harry. Use a imaginação.
- Estou usando. Estou imaginando o que vou fazer para agradá-la da próxima vez em que colocar as mãos em você. Meu conselho é que descanse bastante, tenente.
- Harry, precisamos ter uma conversa, depois que você voltar. - Ela queria sorrir, mas não conseguiu.
- Podemos conversar, também. Sempre achei conversar com você muito estimulante, Gina. Agora veja se dorme um pouco.
- Sim, vou mesmo. A gente se vê, Harry.
- Pense em mim, Gina.
Ele terminou a transmissão, mas continuou sentado sozinho, olhando com o rosto franzido para o monitor apagado. Havia algo nos olhos dela, pensou. Ele já conhecia os sinais daquele olhar, e conseguia atravessar o disfarce e atingir as emoções. Aquele algo era preocupação.
Girando a cadeira, olhou para a vista lá fora, um espaço gigantesco de estrelas respingadas. Gina estava longe demais para que ele pudesse fazer mais do que simplesmente matutar sobre o que poderia estar havendo com ela. E se perguntou, novamente, por que ela importava tanto para ele.
Continua...
Comentem galera, a fic esta na metade.
Agradecimento especial a Thamis No mundo. Obrigado por comentar.
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