CAPÍTULO XV
Ao ver os irmãos, Harry sentiu a raiva se dissipar. Embora todos eles conhecessem seu temperamento, provavelmente teriam ficado chocados diante da demonstração de ira que ele acabara de fazer. Infelizmente, Harry perdera totalmente o controle, quando vira Luna sair correndo, sozinha, atrás de Draco.
A frustração que o invadira fora sufocante, pois Harry não podia gritar para que ela voltasse, nem podia segui-la, uma vez que os homens de Draco o cercavam. Aniquilara os dois primeiros de pronto, mas outros haviam se lançado sobre ele. Pela primeira vez em sua vida, Harry amaldiçoara cada momento da batalha, ansioso para vê-la encerrada. Se algo acontecesse a Luna… Harry sentira uma dor tão lancinante no peito, que chegara a baixar os olhos, acreditando-se atingido pela lâmina de uma espada. No entanto, não encontrara ferimento algum, apenas a agonia de saber que Luna partira no encalço do inimigo.
E poderia se ferir. Ou morrer. Possuído por um medo que jamais sentira antes, Harry lutara com fúria, pondo um rápido fim à batalha. Ninguém além dos homens de Draco tivera a coragem de erguer as armas contra o senhor de seu amo, nem contra a filha dele. Assim, todos haviam se rendido, uma vez mortos os mercenários.
Em vez de comemorar a vitória, Harry correra ao encontro de Luna, sua imaginação normalmente pobre, produzindo as imagens mais horrendas. Quando ouvira o que acontecera com Snape, Harry tivera o ímpeto de trancá-la na torre mais alta de Campion e, agora, jurou que o faria… se não fosse tarde demais.
Ao vê-la de pé, o alívio que sentiu não aplacou o sangue que fervia em suas veias. Seria possível que ela não fizesse idéia do que estava causando a ele? Não teria um pingo de bom senso, para enfrentar o patife sozinha? Draco estava desesperado e homens nessas condições tornavam-se duas vezes mais perigosos. Nem mesmo a visão do corpo inerte de Draco o acalmara, pois os sentimentos descontrolados haviam lhe toldado a razão. E eles explodiram em um grito animalesco.
Queria sacudi-la, ordenar-lhe que nunca mais fizesse aquilo a ele, que nunca mais se arriscasse por nada. Luna significava tanto para ele que tal sentimento chegava a assustá-lo, tanto quanto a idéia de perdê-la. E Harry não estava acostumado a sentir medo. Infelizmente, tomado pela força de suas paixões, fora incapaz de expressar seus sentimentos para ela. Escolhera as palavras erradas, e Luna sentira-se ultrajada.
Fitou-a pelo canto do olho, enquanto aguardava a chegada de sua família. Então, suspirou. Não tivera a intenção de discutir com Luna. Só queria que ela compreendesse que já não podia mais ser tão descuidada. Ele não permitiria, jurou, embora começasse a se sentir constrangido pelas próprias atitudes. Luna afirmara que ele não tinha qualquer domínio sobre ela, mas estava errada. E Harry estava disposto a lhe provar isso, mas não agora, pensou, examinando-lhe a expressão fria. Agora que sua raiva havia se dissipado, ele se via obrigado a admitir que poderia ter agido de maneira bem diferente.
- Luna. - começou, sem jeito, mas quando virou-se para fitá-la, descobriu que ela subia a escada correndo.
Provavelmente, ia ao encontro do pai. Por um momento, Harry hesitou, sem saber se deveria segui-la, ou não. A verdade era que sabia que Luna desejaria privacidade em seu encontro com o pai, enquanto ele se reunia aos irmãos. Emitindo um som de impaciência, Harry saiu.
Parou diante da porta, quando seus irmãos atravessavam os portões. Ao erguer a mão para cumprimentá-los, Harry deu-se conta de que, pela primeira vez em sua vida, sentia-se feliz por vê-los.
Depois do confronto com Luna, a afeição rude dos irmãos seria bem-vinda.
Quando Dunstan o abraçou, Harry não sentiu o menor sinal de competição entre eles. Ao contrário, demorou-se no abraço, dando tapinhas nas costas do mais velho, levando-o a fitá-lo com olhar estranho.
- Talvez aquele administrador idiota tenha razão. - o Lobo comentou.
Antes que Harry tivesse tempo de pedir a Dunstan que se explicasse, Geoffrey já o abraçava e, então, ele se viu em meio à algazarra comum aos encontros familiares. Estavam todos ali, exceto seu pai, e Harry soltou uma exclamação de surpresa ao constatar quanto o mais jovem, Nicholas, havia crescido.
- O que estão fazendo aqui? - perguntou, afinal.
- Fiquei preocupado com a sua última mensagem e achei que deveria ver de perto os problemas que assolam a propriedade que Marion trouxe à família. - Dunstan respondeu. - Geoff estava em Wessex, com Elene, exibindo a filha, e insistiu em vir comigo.
- Deixou Elene com Marion? - Harry perguntou, ganhando por isso uma carranca de Dunstan e um rugido ameaçador de Geoffrey, que era muito sensível aos comentários sobre sua bizarra esposa. Virando-se, Harry olhou para os outros. - E vocês, Stephen, Reynold, Robin, Nicholas?
Stephen exibiu uma expressão infeliz, que indicava que ele fora coagido a tal viagem, mas os outros três demonstraram entusiasmo maior.
- Papai disse que, talvez, você estivesse precisando de nós! - Robin explicou.
Em vez de exibir seu costumeiro ultraje diante de tal insinuação, Harry sentiu-se tocado pela preocupação do pai.
- Mas onde está a batalha? - Nicholas perguntou. Envergando uma armadura nova em folha. Era evidente que o rapaz estava ansioso para lutar. Harry sentiu um nó na garganta, agradecendo a Deus pela batalha ter sido rápida e fácil. De repente, Nicholas pareceu-lhe jovem demais para iniciar sua vida de guerreiro. Enquanto ele mesmo começava a ficar velho demais para isso.
- Ao que parece, a batalha já terminou. - Geoffrey declarou, olhando em volta.
- Não vamos lutar? Isso não é justo! - Nicholas protestou. - E você não parece doente. - acrescentou, aproximando-se para estudar Harry de perto.
Doente? Ora, Florian seria estrangulado assim que Harry pusesse os pés em Baddersly!
- Não estou doente! - resmungou.
- Bem, não tenho tanta certeza. - Stephen replicou, acomodando-se confortavelmente em uma cadeira e ordenando que lhe servissem vinho, como se estivesse em sua própria casa. - Harry me parece um pouco pálido. Mas diga, irmãozinho, onde está a mulher que deixou você assim?
Harry cerrou os punhos, tomado pelo velho ímpeto de esmurrar o irmão, na tentativa de enfiar um pouco de bom senso em sua cabeça. Porém, não tinha tempo para isso, no momento. Outros problemas, mais importantes, exigiam sua atenção. Draco e seus homens precisavam ser enterrados e aqueles que haviam prestado sua lealdade a ele teriam de ser expulsos da propriedade. Harry perguntou-se se sir Lovegood estaria vivo e, se estivesse, qual seria a sua condição. Quanto a Luna… Deu as costas para Stephen e chamou seus homens. Assim, não viu os olhares surpresos trocados pelos irmãos.
- Talvez ele esteja mesmo doente. - Nicholas sussurrou, chocado.
Stephen observou o irmão com ar indolente. Sempre fora divertido provocar Harry, pois até mesmo o comentário mais inocente o fazia atirar-se sobre os irmãos. Desde muito jovem, apresentara a natureza de guerreiro, mesmo dentro de sua casa e, por isso, ao vê-lo afastar-se em vez de brigar, Stephen concluiu que algo havia mudado. Ou Harry havia desenvolvido uma maturidade que jamais possuíra antes, ou Florian tinha razão.
O guerreiro frio estava apaixonado.
Depois de apanhar o copo que um criado lhe estendeu, Stephen bebeu um longo gole de vinho. Havia relutado em acompanhar os irmãos naquela viagem, mas agora, a visita começava a lhe parecer bastante interessante. Apoiando os pés cruzados em um banco, ele se reclinou e sorriu, à espera de maior diversão.
Luna o estava evitando. Embora houvesse passado o dia todo ocupado, Harry podia sentir isso. Havia tomado todas as providências necessárias para apagar da propriedade os vestígios da batalha, enviara uma mensagem aos mineiros, para que fechassem o túnel e explicara a situação, em detalhes, a Dunstan. Imediatamente, o Lobo perdoou os arqueiros, que comemoraram e, finalmente, retornaram a seus lares. Harry tivera uma conversa breve e tensa com John, e ficara com a impressão de que o homem o acusava de haver cometido algum tipo de traição a Luna, apesar de ter-lhe devolvido Ansquith.
Através de uma criada, Harry soubera que Luna continuava cuidando do pai, que fora transferido ao seu velho quarto e estava sendo alimentado com sopa e vinho. Os rumores que se espalhavam diziam que Draco estivera envenenando a comida de sir Lovegood, desde que chegara ali, o que explicaria não só a doença do velho, como também sua pobre capacidade de julgamento. Provavelmente, Draco o mantivera vivo a fim de poder se esconder atrás da farsa de que ainda era Loveggod quem governava a propriedade. Embora Harry soubesse que algumas ervas exerciam efeitos sobre a mente dos homens, ainda encontrava dificuldade em perdoar o pai de Luna por ter recebido Draco em sua casa e, pior, por ter tentado forçar a filha a se casar com o patife.
Foi somente depois do jantar, quando os criados começaram a providenciar acomodações para seus irmãos, que Harry deu-se conta de que não sabia onde dormiria. Durante toda a noite, os irmãos haviam lhe lançado olhares estranhos, indicando-lhe que ele deveria exigir que Luna aparecesse. Harry, porém, sabia que não seria boa idéia exigir que Luna fizesse coisa alguma. Além disso, ele ainda carregava um vago sentimento de culpa pela explosão que tivera pela manhã, o que o tornava relutante em procurá-la.
Finalmente, quando os irmãos se dirigiram aos quartos que lhes foram designados, Harry descobriu-se incapaz de esperar mais e, ignorando o olhar divertido de Stephen, respirou fundo e dirigiu-se ao quarto do pai de Luna, onde fora informado de que ela ainda se encontrava. Seus passos foram hesitantes, como não acontecia desde que ele era um garotinho e, por causa de alguma pequena infração que cometera, era chamado à presença do pai.
Contrariado, aproximou-se da porta do quarto e deparou-se com um guarda armado. Embora soubesse que, provavelmente, fora a própria Luna quem colocara o homem ali, foi invadido por onda de irritação. Agora que ele havia reconquistado Ansquith, não deveria haver necessidade de soldados pelos corredores da casa, especialmente em se tratando de homens que não se encontravam sob o seu comando.
- Quero falar com a Srta. Lovegood. - Harry anunciou entre dentes, mal acreditando que estava pedindo um favor a um reles soldado.
O guarda pareceu prestes a sair correndo de medo, o que deixou Harry ainda mais irritado.
- E então? Deixe-me passar, idiota! - ordenou.
O homem sacudiu a cabeça.
- Recebi ordens de não deixar o senhor entrar, milorde. - explicou trêmulo. - Ela… Ela disse que não deseja vê-lo.
- O quê? - Harry vociferou, determinado a não acreditar nas palavras do sujeito.
E, também, não pretendia permitir que um soldado do campo o mantivesse afastado de Luna. Empurrando o guarda com um gesto rude, Harry abriu a porta. Em sua primeira atitude inteligente, o homem nem sequer tentou impedi-lo.
Praguejando, Harry invadiu o quarto, mas parou abruptamente ao deparar-se com Luna, sentada na beirada da cama, onde um homem de cabelos brancos jazia, reclinado sobre travesseiros. O ambiente estava iluminado por velas, que acentuavam o brilho dourado dos cabelos de Luna. Ela vestia uma espécie de robe macio, que revelava a curva dos seios e, subitamente, a boca de Harry ressecou.
- Saia! - ela disse, sem virar-se para fitá-lo. - Não vê que meu pai precisa descansar?
- Quem está aí, Luna? - o velho perguntou com voz fraca.
- Harry Potter, papai, o cavaleiro cujo irmão é o senhor de Baddersly. - ela respondeu. - Ele me ajudou a recuperar meu lugar aqui.
A última frase foi pronunciada com um olhar frio para Harry, que sentiu como se ela o houvesse golpeado no peito. Embora soubesse que ela ficara contrariada com o comportamento que ele havia exibido pela manhã, não esperava ser tratado daquela maneira. Lutou consigo mesmo, a fim de controlar os ímpetos de reagir.
- Sim, sou Harry Potter. - declarou, decidindo que chegara o momento de definir sua situação. - Também sou o homem que vai se casar com sua filha.
Sir Lovegood não fez qualquer comentário, mas Luna emitiu um som incrédulo.
Levantou-se de um pulo e o traje leve não disfarçou a postura de guerreira. Harry foi invadido pela sensação de que uma batalha fora travada sem o seu conhecimento. E era ele o derrotado!
- Receio que esteja enganado. - Luna falou com voz fria. - Ele realmente me propôs casamento, papai, mas eu recusei a oferta.
Harry perdeu a voz diante da nova rejeição. Cerrou os punhos e esforçou-se para conter o impulso de agarrá-la pelos ombros e mostrar-lhe, mesmo que à força, o que tal rejeição significava para ele. Porém, ao pousar os olhos no semblante composto, sentiu a raiva abandoná-lo. As lembranças de outras vezes em que fora rejeitado por ela invadiram-lhe a mente, trazendo consigo a dor que somente ela era capaz de lhe infligir.
Harry havia jurado nunca mais implorar diante de Luna. E, sendo um Potter, tinha de manter sua palavra. Talvez houvesse chegado o momento de bater em retirada, de render-se à guerra que estava rasgando seu peito. Endireitando os ombros, reuniu o que restava de seu orgulho. Então, sem olhar para trás, virou-se e deixou o quarto.
Encontrou Stephen sentado no salão e, embora nunca houvessem sido íntimos, Harry aceitou o vinho que o irmão lhe ofereceu. Bem, aceitaria qualquer coisa que pudesse aplacar a dor que se alojara em seu peito, ou apagar a lembrança das feições de Luna, desprovidas de expressão, enquanto ela o escorraçava mais uma vez. Deveria estar acostumado àquele tipo de tratamento, depois de tantas rejeições e humilhações, mas depois da semana que haviam passado juntos, ele não esperava que nada daquilo voltasse a acontecer.
Perguntou-se se Luna o usara apenas para recuperar sua propriedade. Ora, recusava-se a acreditar que a guerreira destemida que admirava fosse capaz de algo assim. Esvaziou o copo de um só gole e deixou que Stephen lhe servisse mais vinho.
Bem, o que realmente sabia sobre Luna? Embora houvesse se sentido atraído por ela desde o início, Harry admitiu que jamais a compreendera, especialmente no que dizia respeito à maneira como ela se comportava com relação a ele. O relacionamento dos dois fora da violência à indiferença, da paixão à frieza. Só sabia de uma coisa: Luna o acertara com precisão, senão com a espada, com algo que ele seria incapaz de definir, pois a dor que sentia era muito maior do que qualquer ferimento poderia causar.
- Nunca imaginei que o veria assim. - Stephen balbuciou.
Harry ignorou o irmão, exceto para aceitar mais do vinho que anestesiaria os seus sentidos, até que ele ficasse igual a Stephen, somente a sombra de um homem que não honrava o próprio nome. Pela primeira vez, a verdade sobre o irmão não provocava a costumeira onda de desprezo. Os lábios de Harry curvaram-se em um sorriso amargo. Talvez ele devesse abandonar a vida de cavaleiro e tornar-se um bêbado inútil, também.
- Eu avisei, Harry, que você deveria ter muitas mulheres, mas você não me ouviu. Nem você, nem Dunstan, nem Geoffrey. Agora, veja no que se transformaram! - Stephen estremeceu.
Em vez de responder, Harry estendeu o copo para que o irmão voltasse a enchê-lo.
- Quando o administrador contou que você estava apaixonado, todos nós rimos, mas quando ele explicou que…
Harry interrompeu-o furioso:
- O quê?
Stephen reclinou-se na cadeira com ar surpreso.
- O administrador de Baddersly, chamado…
- Florian. - Simon resmungou, enquanto imaginava mil maneiras de matar o administrador bisbilhoteiro.
Decidiu fazê-lo com as próprias mãos. Seria seu ato final, na breve condição de senhor de Baddersly e, sem dúvida, a mais agradável de todas as missões de que se encarregara naquele fim de mundo.
Exceto pelo dia em que fizera amor com Luna, encostado à parede da casa de Meriel, na chuva. Harry gemeu baixinho e fechou os olhos. Ou da primeira vez, quando ela implorara que ele a possuísse. Ou, ainda, a segunda, lenta e langorosa. Ou na manhã em que ele acordara com o rosto enterrado nos cabelos loiros… Um gemido de agonia escapou dos lábios de Harry enquanto ele recordava o prazer que o corpo de Luna lhe proporcionara, a paz que encontrara na companhia dela, o som suave da voz dela, da mulher incrível que era Luna, dama e guerreira, amante e amiga.
- Bem, é evidente que, agora, é tarde demais. Só me resta oferecer o meu apoio moral. - Stephen continuou. - Eu jamais desejaria que alguém se apaixonasse, nem mesmo você, Harry.
Harry sobressaltou-se. Seria verdade? Estaria apaixonado por Luna? Sua reação imediata foi a de negar a realidade, mas ao mesmo tempo, ele sentiu a confusão que se tornara uma constante em sua vida, desde o primeiro momento em que pusera os olhos em Luna, pouco antes de ser feito prisioneiro por ela, e de ter sua vida virada de cabeça para baixo, se dissipar. Ora, de que outra maneira poderia explicar o que ela fizera? E Stephen tinha razão. Harry vira com os próprios olhos Dunstan deprimido pela mesma razão. E, também, assistira às crises de choro de Geoffrey, quando a megera com quem ele havia se casado desaparecera.
Horrorizado, Harry jurou nunca chorar por Luna, embora seu peito doesse cada vez que ele respirava. Era mais forte que os irmãos, mesmo o Lobo. Enfrentara diversas batalhas e vencera, e não permitiria que uma simples mulher o derrotasse. Assim que terminassem o que tinham de fazer em Ansquith e Baddersly, ele seguiria seu plano de se juntar ao exército de Edward. E nunca olharia para trás.
Mas enquanto isso, beberia mais um pouco de vinho.
Harry foi despertado por uma dor de cabeça latejante e um ruído alto, que lhe pareceu ser a voz de Dunstan. Piscou repetidas vezes, antes de se dar conta de que tinha a cabeça apoiada sobre a mesa do salão de Ansquith e de que Dunstan esbravejava ao seu lado.
- O que significa isso? - o Lobo rugiu.
- Bem, creio que a resposta é óbvia.
O tom de voz aveludado de Stephen provocou um sobressalto em Harry que, ao tentar se levantar, bateu com o joelho em um banco. Soltou um gemido alto e levou a mão à cabeça latejante, que doía mais que a perna.
- Nosso querido irmão não tem resistência para vinho. - Stephen explicou em tom de conspiração.
- O que você fez com ele?
Ao ouvir a pergunta furiosa de Dunstan, Harry virou-se e descobriu que todos os irmãos encontravam-se reunidos às suas costas. Dunstan encarava Stephen com expressão ameaçadora, enquanto o mais novo parecia estar em sua melhor forma, mesmo depois de ter bebido até de madrugada. Harry voltou a gemer.
- Triste, não? - Stephen comentou. - Infelizmente, nem todos possuem os mesmos talentos.
- Você permitiu que ele passasse a noite aqui? - Dunstan inquiriu, parecendo prestes a perder o controle.
Stephen deu de ombros.
- Encontrei acomodações melhores para mim e ele parecia confortavelmente instalado, deitado sobre a mesa, com o rosto em uma poça de vinho, parecendo um…
Furioso, Harry levantou-se, determinado a esmurrar o belo rosto de Stephen, pois conhecia muito bem as táticas do irmão. Stephen estava adorando fazer com que Harry parecesse mau, pois eram raras suas chances de se mostrar mais virtuoso do que qualquer um de seus irmãos.
Foi somente quando cambaleou, que Harry começou a se lembrar da noite anterior, inclusive do juramento de tornar-se um bêbado inútil como Stephen. Olhou para o mais atraente de seus irmãos, que não parecia tão inútil à luz do dia.
- Vá tomar um banho. - Dunstan recomendou. - Você está cheirando mal! É melhor não deixar que sua noiva o veja assim.
Por um momento, Harry não conseguiu falar, mas então, com grande esforço, endireitou os ombros e encarou os irmãos.
- Não tenho noiva. - declarou em tom quase feroz.
- Ei, o que é isso, agora? - Robin indagou confuso.
- Ah, não. - Geoffrey murmurou.
Dunstan praguejou baixinho.
- Então, foi por isso que começou a beber?
- O administrador disse… - Nicholas começou, mas calou-se diante da expressão de fúria no rosto de Harry.
Embora percebesse os olhares que todos trocavam, Harry não estava disposto a discutir mais.
- Vou tomar um banho para não ofender a sua sensibilidade, Dunstan, mas depois, pretendo ir embora daqui. Portanto, não partam sem mim.
- Partir? Ora, não estamos sequer pensando nisso. - Geoffrey retrucou em um tom estranho, que encheu Harry de suspeitas. - Não é mesmo, Dunstan? - Geoff indagou, erguendo as sobrancelhas para o Lobo.
- O quê? Ah, sim. - Dunstan gaguejou. - Não podemos partir enquanto sir Lovegood não estiver recuperado. Ficaremos, no mínimo, uma semana.
Harry estreitou os olhos, sentindo-se enganado, mas a expressão de Dunstan não dava lugar a discussões e, naquele momento, Harry não se sentia em condições de enfrentar o mais velho. Como Stephen conseguia beber tanto e nunca parecer afetado por isso? Franzindo o cenho, subiu a escada sem dizer mais nada.
Uma semana? Não tinha a menor intenção de ficar ali por tanto tempo. Gritou por água quente, mas só então deu-se conta de que nem sequer tinha um quarto. Felizmente, a uma ordem de Dunstan, um criado adiantou-se para conduzi-lo. Ao que parecia, Harry fora reduzido a partilhar um quarto com o irmão, quando fora ele quem lutara para reconquistar aquele maldito lugar! Resmungando consigo mesmo, ele não ouviu a conversa que se seguiu no salão.
- Por que vamos ficar nesta casa razoavelmente confortável, mas pequena, quando você é dono de um excelente castelo, tão perto daqui? - Stephen perguntou a Dunstan.
- Sim, por quê? - Robin reforçou a pergunta.
- Não olhem para mim! A idéia foi de Geoff- - Dunstan protestou.
- Será que não perceberam? Ele está muito infeliz. - Geoff explicou. - Temos a obrigação de ajudá-lo.
- Ajudar Harry? - Stephen zombou. - Não acha que há uma contradição de termos, aí?
- Talvez, mas por que você deu tanto vinho a ele, ontem à noite? - Geoff retrucou.
- Não foi uma tentativa de aproximá-lo de mulher nenhuma.
- É isso o que você quer que façamos? Que banquemos os alcoviteiros para nosso próprio irmão? - Robin inquiriu incrédulo. - Ora, isso beira a traição!
- Não pensaria assim se estivesse apaixonado. - Geoffrey disse.
- Quanta bobagem! - Reynold resmungou.
- Pobre Harry. Sinto pena dele. - Robin lamentou, sacudindo a cabeça.
- Eu também. - Nicholas concordou, aparentemente sem compreender nada do que se passava.
- Ora, por que não enterram uma faca nas costas dele? - Stephen zombou em seu tom aveludado. - Devo admitir que tenho me sentido entediado, ultimamente. Acho que isso vai ser divertido. A propósito, onde está a garota? Eu gostaria muito de conhecer a mulher que conseguiu dobrar nosso irmão guerreiro.
Todos se entreolharam e deram de ombros. Stephen soltou uma risada.
- Dunstan, sendo o poderoso senhor de Baddersly, você é o mais indicado para exigir a presença dela. - sugeriu. - Mas por favor, nunca faça um favor parecido para mim.
Harry ergueu a cabeça, aliviado por não sentir dor. Então, olhou para a janela estreita. Depois do banho, adormecera e, pela altura do sol, havia perdido a hora do almoço. O que era bom, uma vez que ele não estava disposto a encarar nem os irmãos, nem qualquer outro residente de Ansquith.
Tal pensamento trouxe de volta a dor em seu peito, como se ele houvesse acabado de receber uma punhalada. Praguejando, respirou fundo e forçou-se a ignorá-la, como fazia com qualquer outro tipo de dor, embora essa fosse mais profunda e, provavelmente, permanente. Levantou-se e sentiu-se grato pelo chão não ter dançado sob seus pés, embora algo lhe dissesse que o mundo nunca mais voltaria a ser o que fora antes.
Uma batida na porta sobressaltou-o e ele amaldiçoou a expectativa que o invadiu. Disse a si mesmo que não era Luna. De fato, ao abrir a porta, deparou-se com um criado.
- Sir Lovegood oferece sua gratidão e pede que o senhor vá aos aposentos dele, uma vez que está doente demais para vir visitá-lo. - o homem informou-o.
Harry franziu o cenho. Não tinha a menor vontade de enfrentar a conversa que, provavelmente, incluiria Luna. Porém, não era um covarde e, assim, encaminhou-se diretamente para o quarto de Lovegood. Exibindo uma carranca para o guarda que continuava ao lado da porta, Harry hesitou, concluindo que preferiria entrar em um túnel a seguir adiante. Precisou de toda a coragem que possuía para abrir a porta.
O que foi grande perda de tempo, uma vez que o quarto estava deserto, exceto pelo velho doente deitado na cama. Harry adiantou-se, emitindo um suspiro de alívio. Ou seria de decepção?
- Lorde Potter! Muito obrigado por atender o meu pedido. Por favor, aproxime-se, pois minha voz está muito fraca.
Ao ouvir a voz rouca de sir Lovegood, Harry obedeceu, embora detestasse visitar doentes e não tivesse o menor desejo de conhecer melhor o pai de Luna.
- Devo-lhe minha vida. - o velho declarou, assim que Harry sentou-se ao lado da cama. - E, mais importante, minha gratidão por ter colaborado para o retorno triunfante de minha filha.
- Não precisa me agradecer, pois eu tinha o dever de honra de fazer o que estivesse ao meu alcance, a fim de ajudar um vassalo de meu irmão.
Lovegood fitou-o nos olhos.
- Ah, sim, a honra. Os Potter a têm de sobra, se estou bem lembrado. Mesmo assim, o senhor fez mais do que a maioria teria feito e, por isso, eu o agradeço. Agora, fale-me do noivado. Quando vai se casar com minha filha?
Harry reprimiu um palavrão e se pôs de pé.
- Foi um engano. O senhor a ouviu. Ela recusou minha oferta.
Mais de uma vez, Harry pensou.
- Tenho certeza de que um Potter não desiste com tamanha facilidade. Especialmente diante de um prêmio tão raro.
Harry cerrou os punhos, na tentativa de conter a raiva que ameaçava explodir.
- São palavras estranhas, pronunciadas por um homem que abandonou a filha e, depois, tentou forçá-la a casar-se com um homem como Draco Malfoy. - disse entre dentes.
- Tem razão. - sir Lovegood concordou com expressão amarga. - Mas tendo cometido erros, um homem pode ter a esperança de repará-los, não?
Cerrando os dentes, Harry sacudiu a cabeça.
- Não desta vez.
|