Capitulo 05
Quando Harry o encontrou, Cedric estava com o rosto vermelho como um tomate e gaguejava muito.
- Ela... ela disse que... que precisava de alguns minutos para... para ficar sozinha, mas já se passou um bom tempo, meu lorde. Quer que eu...
Sem sentir pena do atarantado rapaz, Harry o calou com um furioso olhar.
- Então ajude-me a procurar por ela!
Desta vez pelo menos Gina não podia ter ido muito longe. Ele não estava com a menor disposição para passar o resto da tarde numa nova busca. Uma onda de raiva o dominou, o que o fez apertar os dentes. Mesmo no meio de uma batalha era fácil manter a calma, mas aquela mulher ia além da conta!
Harry olhou para o alto das árvores, tentando ver algum sinal de um vestido, embora duvidasse que Gina voltasse a recorrer àquele expediente. Enquanto olhava em volta, procurou adivinhar a decisão que a mulher poderia ter tomado.
Ela não se arriscaria a atravessar a floresta, o que não chegara a tentar na primeira vez. Teria se esgueirado entre as carroças para fazer o caminho de volta? Talvez naquele exato momento estivesse escondida em algum lugar no outro lado da estrada... Não, não. Harry não acreditava em nenhuma dessas duas hipoteses.
Os homens dele não podiam ser tão descuidados. Afinal de contas, havia guardas em todos os pontos estratégicos do acampamento e Gina só teria passado por eles se fosse uma bruxa.
Usando da capacidade de tomar decisões rápidas, o que sempre o ajudava nas batalhas, Harry começou a se embrenhar na floresta da forma mais silenciosa possível. Tinha certeza de que acabaria por encontrar a fujona, mas também estava certo de que ela faria tudo para não ser descoberta.
Com passadas longas e rápidas ele foi vencendo o terreno, rezando para que Gina não houvesse resolvido tomar outro rumo. A certa altura viu um graveto partido no chão e sorriu. Estava indo na direção certa e logo teria a atrevida mulher ao alcance da mão.
O estranho era aquela sensação de triunfo. Parecia até que ele havia traçado sozinho uma nova tática de luta e com isso acabaria vencendo uma guerra. Harry procurou superar aquela sensação tola para se concentrar apenas no terreno, até chegar a uma enorme rocha que brotava do chão. A formação rochosa bloqueava o caminho, obrigando-o a buscar uma outra passagem.
Cedric parou logo atrás dele, respirando rapidamente, mas mantendo-se em silêncio enquanto o amo corria os olhos pela paisagem. Finalmente Harry interessou-se pela rocha e chegou mais perto para examiná-la. Depois de caminhar por vários minutos pelo sopé do penhasco, sorriu.
- Cavernas... Deve haver cavernas por aqui.
- Cavernas? - repetiu Cedric.
- Sim, deve haver cavernas. - respondeu Harry.
E Gina só podia estar numa caverna. Pelo que ele já conhecia daquela mulher, era essa a conclusão lógica. Harry seguiu em frente, com os olhos atentos, até encontrar um arbusto onde obviamente alguém havia esbarrado. Por trás do arbusto via-se a entrada de uma caverna na rocha.
- Ali. - disse Harry ao apalermado Cedric. - Ela deve estar ali.
Empurrando o arbusto para o lado ele olhou para o interior escuro da caverna. Não era possível ver nada. Só uma maluca entraria naquele buraco sem levar uma tocha acesa! As cavernas podiam ser lugares perigosos, às vezes com labirintos dos quais era impossível sair. E isso sem falar nas serpentes venenosas ou feras selvagens que podiam estar lá dentro. Harry sentiu um arrepio ao imaginar lady Gina caída no chão frio, gravemente ferida, talvez morta...
- Arranje-me uma tocha. - ele ordenou ao escudeiro.
Rapidamente Cedric reuniu compridos gravetos secos, que amarrou firmemente com um pedaço de cordame que levava na cintura. Feito isso, entregou-se à complicada tarefa de acender a tocha, produzindo faíscas ao riscar a ponta da faca na dura pedra que tirou da bolsa de couro pendurada na cintura. Minutos mais tarde a tocha queimava.
- Lady Weasley? - gritou Harry, com os olhos fixos no escuro do buraco cavado na rocha pela natureza.
A resposta foi o silêncio. Depois de fazer uma careta ele pegou a improvisada tocha da mão de Cedric e deu um passo adiante.
- Espere por mim aqui. - recomendou Harry ao escudeiro. - Se eu não voltar vá chamar Smith, mas não venha atrás de mim. - Pondo a tocha adiante do corpo ele viu que o chão da caverna era sólido e começou a andar para a frente. - Lady Weasley, estou indo buscá-la!
Harry ouviu um barulho logo adiante e seguiu na direção de onde partira o som, impaciente, determinado a aplicar umas boas palmadas na mulherzinha.
- Harry! Cuidado com a... - Ao reconhecer aquela voz Harry sorriu maldosamente a apressou o passo, até sentir a testa bater com força contra uma superficie dura. -... com a saliência da pedra. - completou lady Weasley, em tom de lamento.
Harry cambaleou por alguns instantes e esfregou a testa, a raiva superando a dor. Ah, ele mataria aquela atrevida! Aprumando o corpo, ergueu a mão para se apoiar na parede rochosa e procurou controlar.a raiva. Jamais havia batido numa mulher, mas lady Weasley havia passado dos limites.
- Venha cá. - ele ordenou, com os dentes trincados.
- Sinto muito, Harry, mas não posso. - respondeu Gina, a voz musical ressoando no ambiente fechado.
Harry contou até dez para se acalmar, algo que não precisava fazer desde quando era bem jovem e se metia em brigas com os irmãos.
- Por que não pode? - ele vociferou.
- Acho que torci o tornozelo, porque não estou conseguindo andar. Talvez consiga me arrastar...
Agora Gina falava com a voz trêmula, como se tentasse se erguer. Harry engoliu em seco e adiantou-se, tomando cuidado para não bater com a cabeça em nada. Finalmente a luz da tocha desenhou a silhueta de lady Weasley. Sentada no chão e com as costas na parede ela parecia pálida e ansiosa. Outra vez Harry engoliu em seco.
Por alguns instantes ele pensou em entregar a ela a tocha, mas teve medo de atear fogo naqueles bastos cabelos... acidentalmente, claro. Logo depois Harry olhou em volta e abaixou-se para tomar Gina no colo. Ela era leve e quente como uma ave ferida.
Harry respirava rapidamente e sentia o coração acelerado, mas percebeu que a reação dela era exatamente a mesma. Então a mulher não era tão calma quanto havia fingido! Aquela descoberta mexeu com o intimo de Harry, que procurou se controlar. Praticamente agachado, venceu a curta distância até a saída da caverna. Só depois de atravessar a acanhada passagem pôde finalmente aprumar o corpo, contente por ver outra vez a luz do dia.
Sem prestar atenção na presença do escudeiro ele dirigiu um olhar duro à mulher. Ela estava até bem apresentável, embora um pouco empoeirada, e teve o atrevimento de encará-lo.
Antes que Harry soltasse uma torrente de impropérios, Gina fixou os olhos na testa dele.
- Você está ferido! - ela exclamou, numa voz condoída.
Ao sentir na testa o toque infinitamente terno daqueles dedos, Harry se esqueceu por completo do que ia dizer. Estava com o rosto a poucos centímetros do dela, fitando alternadamente aqueles olhos enormes e os lábios carnudos que se entreabriram numa expressão de genuína pena. A sensação doída que o dominou não tinha nada a ver com o ferimento na testa. Gina ergueu a ponta do manto para limpar o sangue que havia brotado da testa dele e Harry procurou se recompor.
- É só um arranhão. - ele resmungou.
- Não. - ela protestou. - Você tem que cuidar disso.
A voz era baixa e melodiosa, como o miado da gata que Harry tivera quando criança. Então ele não resistiu a apertar os braços em torno daquele corpo pequeno e percebeu que ela continha a respiração. Depois olhou-o nos olhos, a preocupação transformada em surpresa, talvez também em desejo... Harry viu que ela abaixava os olhos para os lábios dele. Deus do céu!
Algum som produzido por Cedric trouxe o Lobo de volta à realidade. Rapidamente ele pôs a mulher no chão, como se estivesse carregando um galho de árvore cheio de espinhos e não quisesse se machucar. Ela só podia ser mesmo uma feiticeira!
- Vá na frente, Cedric. - ordenou Harry.
O escudeiro se afastou correndo e ele virou a cabeça para o lado de lady Weasley. Estava na hora de ajustar contas com a mulher mais irritante do mundo.
- Não diga nada. Vou adivinhar. - pronunciou-se Harry, pondo as duas mãos na cintura. - O mesmo javali que a obrigou a subir naquela árvore apareceu por aqui e saiu correndo atrás de você, levando-a a se esconder na caverna.
Gina teve a petulância de olhar para ele fazendo cara feia.
- Ora, não diga bobagens, Harry. Foi um homem que me arrastou para lá contra a minha vontade. - ela declarou, com as sobrancelhas erguidas e olhando diretamente para ele. - Obrigou-me a entrar na caverna e disse que eu não deveria sair de lá nem gritar. Ameaçou me matar se eu tentasse fugir.
Depois de ficar olhando para ela por alguns instantes, Harry soltou uma gargalhada.
- Não me venha com histórias. - ele disse, logo depois fazendo uma careta e levando a mão à testa. No mesmo instante Gina se pôs de pé.
- Você está ferido.
- Bobagem. - minimizou Harry, abanando a mão. - Agora me diga como era esse homem.
- Que homem? - perguntou Gina, parecendo de fato surpresa.
Harry abriu os braços, exasperado.
- O homem que a raptou, droga! Descreva-o.
- Ele era baixo e moreno. - respondeu Gina, olhando para ele sem hesitar. - Talvez seja um dos homens do meu tio, alguém com más intenções.
- Que besteira! - reagiu Harry. - Se quer mesmo que eu acredite que seu guardião a ameaça de alguma forma, terá que me apresentar fatos em vez de conjecturas vagas.
- Eu não posso! Não consigo me lembrar de nada, Harry! - declarou Gina, com o rosto contraído e os punhos apertados contra o peito. - Tenho tentado de todas as formas reativar a memória, mas só consigo pensar que estou sob algum tipo de... ameaça. Não posso lhe dizer o que espera por mim em Baddersly, mas sei que não é nada parecido com a vida de uma herdeira rica e paparicada, como pensam vocês, os Potter.
Agora ela estava vibrante e Harry concluiu que preferia aquela criatura cheia de vida à ave ferida de momentos antes. As palavras, porém, continuavam ridículas. Aquilo não passava de fantasia de mulher... mais provavelmente mentiras. Mas... e se fosse verdade? Harry preferiu não pensar nessa hipótese. Se ela estivesse dizendo a verdade, como ficaria a missão de que ele estava incumbido?
- Minha cara lady Weasley... - ele voltou a falar, num tom de voz que não admitia contestação. - Já ouvi mais do que devia de suas histórias e estou farto dos seus truques. Assim sendo, e a menos que queira fazer acorrentada o resto do caminho de volta para casa, sugiro que pare com essas idiotices e esteja sempre em algum lugar onde eu possa vê-la.
Aquilo atingiu Gina em cheio, tanto que ela recuou até se encostar no penhasco. Harry mediu-a da cabeça aos pés e subitamente se lembrou de algo de que quase havia se esquecido. E foi uma constatação que o deixou ainda mais enraivecido.
- Não há nenhum problema com o seu tornozelo! - Dito isso ele ergueu a mão como se fosse esbofeteá-la, num gesto involuntário. Gina permaneceu imóvel... absolutamente imóvel.
Aquilo deixou Harry intrigado. Gina parecia ter certeza de que seria agredida, mas não demonstrava estar disposta a protestar ou reagir. Harry resmungou uma palavra profana e abaixou a mão.
- Em toda a minha vida, nunca bati numa mulher e jamais farei isso... por mais que me sinta tentado.
Gina não respondeu. Agora estava com o olhar distante. Harry soltou outro palavrão ao pensar no absurdo daquela situação.
- Vamos embora! - ele vociferou. - Estou com pressa e cada hora perdida aqui por sua causa me custa muito.
Gina começou a caminhar na frente dele, com aquela graça calma muito própria dela. Observando-a, Harry sentiu-se terrivelmente desconcertado. A bruxa mentirosa o obrigara a fazer uma boa caminhada pelo meio da floresta e merecia ser duramente castigada. Por que, então, era ele quem se sentia como ele houvesse sido golpeado?
Harry resmungou alguma coisa e empurrou-a com a ponta dos dedos para que ela andasse mais depressa. Não demorou muito para que aquele meneio ritmado de ancas o deixasse com água na boca. O problema era que estava há muito tempo sem mulher, algo que seria resolvido tão logo aquela tarefa fosse concluída.
Como não queria ter aquele quadro diante dos olhos Harry apertou o passo e se pôs ao lado dela. Gina assustou-se quando o viu e, querendo ajudá-la, ele a envolveu pela cintura. Então ela o fitou com os olhos muito abertos. Parecia tão assustada que ele preferiu recuar novamente, voltando a caminhar na retaguarda.
Outra vez a visão daquelas ancas balançando... Droga e o acampamento estava ainda muito longe! De pernas curtas, a mulher caminhava com a velocidade de um passarinho. Abaixando os olhos para examinar as pernas dela, Harry viu quando um galho de árvore se prendeu nos cabelos de Gina. Mais dois passos e o galho se soltou, indo atingi-lo diretamente no rosto.
- Diabo! - vociferou Harry, o que fez Gina gritar de susto.
- Harry! - ela exclamou, parando e olhando para trás, com as mãos juntas no peito. - O que foi? Ai... Fui eu que fiz isso? Ah, desculpe.
Se ela houvesse rido ele bem que poderia tê-la esganado sem sentir culpa por isso. Mas Gina não estava rindo. Nem mesmo sorria. Em vez disso, correu para o lado dele com um ar de preocupação no rosto. Harry perguntou-se se alguma outra mulher já havia olhado daquele jeito para ele.
O som de gritos vindos do acampamento quebrou a magia daquele momento e chamou a atenção deles dois. Harry resmungou um palavrão e, agarrando no braço dela, arrastou-a para o lado de onde vinha o barulho.
Logo depois apareceu Cedric, com a respiração descompassada, seguido por Smith, que parecia não conseguir parar de rir.
- Eu ouvi gritos, meu lorde, e pensei que o senhor estava sendo atacado. - explicou-se Cedric, nervoso.
- Eu estou sendo atacado. - resmungou Harry.
Dito isso ele marchou para o acampamento, sempre arrastando a mulher.
- Então você a encontrou na caverna? - perguntou Smith, evidentemente divertido.
Olhando de lado para o vassalo, Harry deixou muito claro que não estava disposto a responder. Aquilo só serviu para que Smith risse ainda mais.
- O que aconteceu com o seu rosto, Harry? Ela o atacou?
Harry respondeu com um resmungo, enquanto Gina continha a respiração.
- Mas o que foi isso, Harry? - insistiu Smith.
- Acho melhor você deixar que eu limpe esses ferimentos!
- Ora, são apenas alguns arranhões. - respondeu Harry, finalmente, sem parar de andar.
Felizmente agora eles estavam no meio do acampamento e aquele discussão não seguiria adiante.
- Não sei. - disse Gina, quando eles pararam, os olhos grandes fixos na testa dele. - Às vezes simples arranhões se transformam em feridas feias. Pense nisso, Harry. A infecção pode até atingir o seu cérebro. - ela advertiu agourenta. - Acontecendo isso, seus pobres irmãos ficariam com a tarefa de cuidar de um homem desse tamanho completamente abobalhado. Você, é claro, não quer deixá-los com essa obrigação.
Agora a mulherzinha tinha a petulância de caçoar dele. Harry fulminou-a com o olhar, mas ela nem se abalou. Continuava a encará-lo, com um ar de absoluta inocência. Então ele trincou os dentes. Gina Weasley parecia realmente capaz de tirar qualquer homem do sério.
- Vá buscar o seu cavalo. - ordenou Harry, num tom duro.
Logo depois ele girou nos calcanhares e se afastou o mais depressa que pôde. Smith seguiu atrás.
- Você foi um tanto grosseiro. - censurou o vassalo, embora continuasse a falar em tom de brincadeira. - Não é esse o seu jeito, Harry!
- Aquela mulher é um perigo! - resmungou o Lobo, erguendo a mão para coçar a cabeça.
Smith riu.
- Só porque ela quer cuidar dos seus ferimentos? Bem que eu gostaria de estar correndo esse perigo!
Harry dirigiu ao vassalo um olhar ameaçador.
- Talvez eu deva encarregá-lo de tomar conta dela. - Smith sorriu e deu de ombros.
- Para mim seria perfeito.
Harry arregalou os olhos. Não estava gostando nada da idéia de ver o galante cavaleiro se pavoneando em volta de Gina. Smith, que o acompanhava há anos, era um grande guerreiro e um excelente amigo. No entanto, as propriedades daquela mulher eram vastas o suficiente para tentar até um santo, quanto mais um cavaleiro sem fortuna. Harry fez uma careta quando imaginou Smith seduzindo a herdeira e se apresentando diante do tio dela como pai da criança que ela levaria na barriga.
- Não. - ele decidiu finalmente. - Já chega nós todos estarmos servindo de meninos de recado para o meu pai. Não vou permitir que o melhor dos meus soldados faça o papel de babá. Cedric cuidará disso... espero que a partir de agora com maior competência.
No instante seguinte o rapaz estava ao lado do amo, gaguejando desculpas.
- Chega. - cortou Harry - Vou lhe dar mais uma chance, Cedric, mas esteja avisado de que desta vez não aceitarei desculpas. Não perca a mulher de vista, em nenhum momento. Nem mesmo quando lady Gina disser que precisa de privacidade. Nesses casos, se ela estender o manto entre dois arbustos para que ninguém a veja, cuide para não perder de vista pelo menos uma pequena parte do corpo dela... os cabelos, um pedacinho da cabeça. Estamos lidando com uma mulher muito esperta.
Por alguns instantes Cedric ficou olhando para ele, com um ar de espanto e surpresa. Obviamente era a primeira vez que ouvia o amo falar de uma mulher naqueles termos e o próprio Harry sabia que jamais fizera isso antes. Mas lady Weasley era de fato diferente.
- Diga a Benedict que o substitua por algum tempo. - ordenou Harry, referindo-se a um idoso cavaleiro que dificilmente olharia para Gina com intenções libidinosas.
- Sim, meu lorde. - respondeu o escudeiro, afastando-se rapidamente.
Harry suspirou e caminhou para o cavalo, que já estava esperando. Não censurava Cedric por ter sido feito de tolo. Na verdade a mulherzinha os enganara a todos... e por duas vezes!
Pensando bem, era melhor ele próprio também ficar de olho nela.
Acomodando-se na sela, Harry suspirou novamente e coçou a nuca. Aquela atrevida não voltaria a enganá-lo, claro, mas não custava nada redobrar a vigilância. A tarefa simples de que o pai o incumbira estava se mostrando bem mais complicada do que ele havia imaginado.
- Então está de volta! - cacarejou Agnes enquanto Gina subia à sela do cavalo. - O que o Lobo fez com a senhora desta vez?
Apesar de tudo o que havia acontecido entre ela e Harry na última hora, e talvez por causa do riso malicioso de Agnes, agora na mente de Gina só havia uma imagem. E ela enrubesceu fortemente enquanto se lembrava dos momentos que havia passado nos braços de Harry. Tinha estado com o rosto tão perto do dele que quase não pudera ver aqueles olhos verdes como uma floresta densa. Por um momento ele parecera querer engoli-la com o olhar e Gina juraria que Harry estivera dominado pelo desejo. Mas logo em seguida o Lobo praticamente a soltara no chão, como se quisesse se livrar dela o mais rapidamente possível!
Gina suspirou ao perceber a própria ingenuidade. Que motivos podia ter para pensar que Harry sentiria vontade de beijá-la? Por que o Lobo de Wessex se interessaria por ela? Um homem como aquele certamente tinha à disposição as mulheres mais belas, mais sofisticadas...
Nesse instante, como se respondesse à pergunta, Agnes voltou a rir.
- A senhora chamou a atenção dele, disso não há dúvida. - declarou a mulher, com um sorriso em que faltavam vários dentes. - A senhora é um quebra-cabeça para o homem, que não está acostumado com isso. A senhora está permanentemente na mente dele... mais do que qualquer outra mulher, isso eu garanto. - Antes de continuar, Agnes sacudiu violentamente a cabeça para confirmar o que dizia. - Sim, o lobo está muito interessado na senhora. A questão é... O que ele fará quando a coceira o atingir? Simplesmente se coçará?
Agnes soltou uma risada estridente, como se houvesse acabado de dizer uma coisa muito engraçada, algo que Gina procurou ignorar.
Mesmo tendo prestado alguma atenção nas palavras da velhota, Gina resolveu que não queria saber o que aconteceria caso o Lobo se interessasse por ela. Embora ele não a houvesse agredido, havia chegado bem perto disso e ela nem gostava de pensar nessa possibilidade.
Harry Potter continuava "sendo um brutamontes, um grosseiro! O tempo todo estava gritando ou resmungando palavrões. Mesmo assim ela não acreditava que ele chegasse a agredi-la fisicamente. Por maiores que fossem os defeitos de Harry, Campion não criaria um filho que viesse a ser tão violento.
Mesmo assim Gina achava que precisava se acautelar. Ao vê-lo com a mão erguida, alguma coisa no íntimo a fizera buscar proteção... mesmo de um Potter. Gina não tentou descobrir de onde vinha essa cautela, mas desconfiava de que a origem estava no passado dela.
E isso era outra coisa que a aborrecia. Harry nem mesmo tivera a cortesia de ouvi-la sobre os temores em relação ao tio, deixara bem claro que não acreditava em nada do que ela dizia sobre Baddersly. Era uma reação que não a surpreendia, claro, já que ela tivera ocasiões de sobra para observar o comportamento daquele homem. Harry constantemente a tratava como uma criança, como alguém sem vida própria, sem capacidade de raciocínio, sem esperanças, sem sonhos que merecessem ser levados em conta.
Bem, ele que esperasse para ver! No íntimo de Gina, o que antes era apenas uma faísca agora se transformava numa chama que queimava com intensidade cada vez maior, um fogo que o escárnio de Harry só fazia crescer. Por duas vezes ela quase havia levado a melhor sobre o Lobo de Wessex. Naquele dia ele não havia demorado muito para reencontrá-la e a tratara, com a grosseria própria do selvagem que era, mas isso não voltaria a acontecer, porque ela não deixaria pistas. A terceira vez em geral dava certo. Se ele não queria salvá-la, ela devia se salvar sozinha. Independentemente do que pensasse Harry Potter, Gina sabia que estava com a vida em perigo e se recusaria a ser levada para o matadouro como uma ovelha submissa.
Agora só era preciso pensar num novo plano de fuga que a levasse para bem longe do Lobo. Para sempre.
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