Capitulo 03
Harry não estava satisfeito. Havia chegado a Campion para... bem, ele não estava muito certo do motivo que o levara à casa do pai, mas não tinha sido para desempenhar uma tarefa tão ridícula. Menos ainda num momento como aquele, quando havia tanta coisa a ser feita em Wessex. Depois de coçar a nuca ele marchou para o jardim sem ao menos olhar para a mulher que o acompanhava.
Enquanto lady Gina se ocupara em arrumar o que iria levar ele havia tomado um banho rápido, trocado as roupas sujas da viagem e devorado alguma coisa. Agora, olhava para o pequeno grupo de homens do castelo de Campion que reforçariam a escolta com que havia viajado. Embora a caravana pudesse se deslocar apenas alguns quilômetros antes do pôr-do-sol, isso os levaria para mais perto do destino... e do final da tarefa.
- Harry!
Ao ouvir o chamamento do vassalo ele se voltou. Zacarias Smith, um cavaleiro robusto e loiro que o acompanhava desde os tempos em que estivera servindo ao rei Edward, atravessou correndo o jardim com a aparência de quem não gostava de interromper uma folga.
- Espere aqui. - disse Harry à mulher.
Sem esperar pela resposta dela, saiu caminhando ao encontro do vassalo.
- O que está acontecendo? - perguntou Smith. - Você teve notícias de Fitzhugh?
- Não. - respondeu Harry, fazendo cara feia ao ouvir menção ao nome do vizinho. - Meu pai me pediu que escoltasse uma hóspede do castelo de volta à casa dela.
Smith franziu a testa, surpreso.
- E você concordou?
Harry virou a cabeça e ficou olhando para um canteiro de rosas que havia ali perto. Só agora percebia que podia muito bem ter se recusado a cumprir aquela tarefa. Isso nem havia passado pela cabeça dele. Sendo o mais velho, sempre coubera a ele desempenhar as missões de maior responsabilidade. Como um Potter, desincumbia-se delas sem nunca se queixar.
- Isso vai nos tomar apenas umas poucas semanas, nada além disso. - ele disse, fingindo um ar distraído.
Smith balançou a cabeça.
Obviamente não entendia porque um barão que tinha uma propriedade para administrar, o que já era um bocado problemático, aceitar desempenhar uma missão tão corriqueira... e isso, quando havia cinco outros Potter que podiam muito bem se encarregar da tarefa!
- Cuide para que tenhamos homens em número suficiente to para a viagem. - ordenou Harry. - Quero que nossa jornada seja rápida sem ser cansativa, mas acima de tudo segura e sem transtornos.
Depois que Smith assentiu, evidentemente a confuso e se afastou pelo jardim para reunir os homens, Harry voltou-se para onde havia deixado a moça e viu que ela havia saído de lá. Pouco acostumado a ver desobedecidas as ordens que dava, ele trincou os dentes e, aborrecido, olhou em volta. Embora não demorando para ver onde ela estava, no outro canto do jardim e cercada por um grupo de garotos, aquilo o deixou irritado. Depois de muitos anos de trabalho duro, combates perigosos e estudos, agora era obrigado a bancar o protetor de uma mulher!
E que mulher! Enquanto caminhava na direção da criatura de abundantes cabelos vermelhos, Harry perguntou-se o que ela podia ter feito para cair nas boas graças da família Potter. Pouco acostumado a lidar com mulheres, ele também não via nos irmãos um interesse por elas que fosse além do desejo carnal. Mesmo assim, ao se despedir daquela jovem os rudes Potter tinham agido de forma tão melodramática que ele chegara a ficar com o estômago embrulhado.
Agora lady Gina estendia a mão para acariciar cabeça de uma criança e Harry observou-a mais atentamente. A mulher não era nem mesmo bonita! Era baixinha e muito voluptuosa para o gosto do mais interessado nas magras. Na certa Gina havia freqüentado a corte de Edward, que devia ter sido um dos receptadores dos favores dela. Não, não. O rei se interessava mais por mulheres experientes como a quente Cho Chang, que estava sempre enfeitada por caras jóias. Uma mulherzinha inexpressiva como aquela não chamaria a atenção do soberano.
Gina agachou-se, tornando-se ainda mais baixa para falar com as crianças que a cercavam. Foi nessa posição que Harry a encontrou. Prontamente agarrou no braço dela e obrigou-a a se levantar.
- Eu lhe disse que esperasse por mim no local onde a deixei!
Por um instante Gina ficou olhando para ele com aqueles olhos muito abertos, o que chamava a atenção num rosto de traços tão delicados. Por Deus, aqueles olhos eram enormes e pareciam assustados. Estaria ela com medo dele? Ótimo. Assim, talvez no futuro pesasse duas vezes antes de desobedecer a uma ordem dele. Gina abaixou os olhos, dando a impressão de que se submeteria docilmente, mas logo depois ergueu a cabeça para encará-lo.
- E eu espero que no futuro você se dirija a mim fazendo uso de boas maneiras, Harry Potter!
A voz era baixa e trêmula, mas as palavras eram de uma clareza cristalina. Harry ficou olhando para ela, surpreso. Não se lembrava de ter ouvindo de ninguém uma repreensão como aquela. Era a primeira que alguém tinha a audácia de responder naquele tom algo que ele dissera. Harry ficou com vontade de rir ao pensar no fato de que aquela mulherzinha, aquela fedelha baixinha, o enfrentava com a cabeça erguida e o olhar firme. Então ele a soltou.
- Quero que essa viagem transcorra sem transtornos, siga as minhas recomendações e não teremos mais nenhum problema. Agora, minha senhora, tenha a bondade de me acompanhar.
Harry pronunciou àquelas frases polidas com os lábios trincados e ofereceu o braço num exagerado gesto de cordialidade. Mesmo dirigindo a ele um olhar ofendido, Gina apoiou a mão no braço dele.
Harry sorriu sozinho, concluindo que só podia ter imaginado ver coragem naquele olhar petulante. A mulherzinha estava na palma da mão dele. Provavelmente havia pensado que poderia controlá-lo da mesma forma como havia enfeitiçado os irmãos dele, mas agora sabia qual era o seu lugar.
Harry não tinha a menor intenção de bancar a ama-seca, assim como não se deixaria enfeitiçar por uma baixinha insignificante e de olhos grandes.
Gina deixou que um soldado a ajudasse a montar. Segurou com firmeza nas rédeas e ficou esperando que a caravana se pusesse em movimento. Depois de levá-la até o cavalo, Harry se ocupara com outras coisas, o que era muito bom. Gina não gostava daquele homem. Por mais que houvesse se sentido atraída no início, tudo isso havia desaparecido em função da forma pessoal e fria com que ele cuidava da partida. Rapidamente havia revelado o homem sem sentimentos que era!
Gina abaixou os olhos para as mãos, que tremiam enquanto seguravam as rédeas. Isso era bom. Assim ela punha para fora a raiva que sentia por causa comportamento de Harry Potter.
Os outros Potter não eram assim. Quando chegada dela, houvera ocasiões em que todos ele tinham sido até grosseiros. E Reynold continuava distante, desconfiado, sempre massageando a perna machucada... mas isso não tirava de Gina a certeza que era alvo da afeição dele.
Esse raciocínio não se aplicava a Harry. Não havia desculpa para a forma como ele havia agarrado o braço dela com aquela mão enorme, chegando a machucá-la. Gina ergueu a cabeça. Não faria nenhuma concessão a Harry Potter. Tinha sido ele o portador da má notícia e agora encarregava-se de leva-la para longe do único lar que ela jamais havia conhecido, das pessoas que amava. Iria levá-la a um lugar o qual ela não queria ir.
Ao pensar em Baddersly, Gina ficou tensa. Sentindo-se feliz em Campion, até perdera o interesse em descobrir o passado. Sempre que tentava ativar a memória, sentia dores de cabeça, começava a suar quase adoecia. Como podia querer voltar para que só provocava sensações ruins?
E agora havia Harry, um homem autoritário que exigia obediência cega.
Viajando no meio da caravana, ela não se queixaria de nada e evitaria qualquer confrontação com Harry. Não perturbaria o deslocamento do grupo nem chamaria a atenção de ninguém. Permaneceria calma quando fosse entregue nas mãos de um guardião desconhecido que a trancaria num castelo sombrio.
Mas sabia que agora era uma pessoa diferente. Na convivência com os Potter, havia descoberto em si própria valores dos quais não se achava capaz. Prova disso era o fato de ter convencido os seis irmãos Potter, homens rudes como lobos, a aceitá-la no seio da família e no íntimo do coração.
E aquele poder, por mais insignificante que agora pudesse parecer, não permitia que ela se submetesse à arrogância de Harry. Também não deixaria que ele a levasse para o que podia estar esperando por ela em Baddersly. Oh, Deus! Apenas o nome do lugar já era assustador.
Embora conhecesse muito pouco sobre si própria, Gina sabia que não era uma pessoa imaginativa. Mesmo assim, tinha a clara sensação de que uma existência horrível a aguardava. Mais que uma sensação, isso era uma certeza.
Não podia aceitar aquele destino.
Tomada a decisão Gina sentiu uma onda de alívio, como se houvesse escapado da forca por muito pouco. Agora o problema maior seria escapar da escolta, uma tarefa realmente complicada.
E Harry não ficaria nada satisfeito.
Harry estava satisfeito. Eles haviam percorrido uma boa distância no primeiro dia e acampado à margem da estrada. Ele vira muito poucas vezes a moça, mas não tinha notícia de nenhum contratempo causado por ela. Tudo levava a crer que a petulante baixinha havia resolvido se submeter à disciplina.
O dia havia amanhecido bonito e com uma temperatura amena, o que levou Harry a decidir que a refeição do fim da manhã seria feita ali mesmo, à sombra de alguns frondosos carvalhos. Afinal de contas, eles não estavam participando de uma expedição militar, mas sim servindo de escolta a uma dama, mesmo tratando-se de uma dama pouco notável.
Depois de comer rapidamente um pão com fatias de queijo ele engoliu um pouco de água e inspecionou a caravana, verificando como estavam os cavalos e procurando se inteirar do estado de espírito dos homens. Acostumados a acompanhá-lo em viagens, eles também fizeram rapidamente a refeição e Harry não viu motivos para ficar por mais tempo naquele lugar. Embora o verão já estivesse próximo, eles não podiam ter certeza de que o tempo continuaria bom. Poderia muito bem ocorrer uma súbita queda da temperatura. Se isso fosse acompanhado por chuvas fortes, a estrada se transformaria num lamaçal.
- Preparar para a partida. - ele disse a Smith, que transmitiu a ordem aos demais.
Harry ficou olhando enquanto os homens desfaziam rapidamente o acampamento e montavam em seus cavalos. Tudo parecia em ordem, até que ele percebeu que não via lady Weasley. O cavalo dela estava ali, mas sem ninguém. Logo ao lado via-se uma idosa serva montando uma égua mansa.
- Onde está sua ama, minha velha? - inquiriu Harry.
Um sorriso quase sem dentes apareceu no rosto enrugado da mulher.
- Não sei, meu senhor. Será que a perdeu?
Dito isso a velhota soltou uma gargalhada estridente, um som que agrediu os ouvidos de Harry. A dureza com que ele a fitou, porém, rapidamente a silenciou.
- Verifique as carroças, Smith. - gritou Harry.
Mulheres! Lady Weasley na certa estava retirando ou guardando algum objeto pessoal num dos baús, o que atrasaria a partida deles. Aborrecido com o contratempo, Harry aprumou-se na sela e, com as mãos na cintura, examinou a área em volta. Na última vez em que vira a moça, ela estava comendo à sombra de uma árvore. Talvez de fato houvesse entrado numa das carroças, mas ele começava a duvidar disso. Alguma coisa parecia fora do lugar e Harry não havia conseguido o título de cavaleiro ignorando os pressentimentos que tinha.
- Ela não está em nenhuma das carroças, meu lorde. - informou Smith, confirmando as suspeitas de Harry.
Depois de respirar fundo ele procurou controlar a raiva para poder pensar direito. Nenhum assaltante poderia tê-la seqüestrado, não com tantos homens armados presentes e sem que ninguém testemunhasse o fato. Por outro lado, eles não haviam se embrenhado na floresta, o que afastava a ameaça dos animais selvagens. Se alguma coisa havia acontecido com a moça, só podia ser fruto de uma iniciativa dela. Com o semblante fechado Harry se dirigiu ao carvalho onde a vira pela última vez.
- Talvez ela tenha resolvido fazer uma caminhada pela floresta e agora não saiba o caminho de volta. - sugeriu Smith, espiando por entre as árvores.
Era uma possibilidade, já que aquela baixinha parecia desmiolada o suficiente para fazer tal coisa. Sendo assim, seria necessário prolongar a parada para que se organizasse um grupo de busca, algo que deixava Harry ainda mais aborrecido.
Então ele seguiu o olhar de Smith, mas sem ver nenhum sinal da passagem de alguém por entre os arbustos. Desmontando, ajoelhou-se e examinou o terreno. Embora a relva estivesse amassada em alguns lugares, não havia evidências dos passos de alguém se afastando da árvore. Por outro lado, era preciso pensar no fato de que uma criatura tão pequena certamente teria passos leves.
- Lady Weasley! - gritou Harry, sem ouvir resposta. - Lady Weasley! Está me ouvindo? Por acaso está ferida?
Apenas o silêncio se seguiu àquelas palavras. Depois de resmungar um palavrão, Harry ordenou aos homens que procurassem nas redondezas até que a estúpida mulher fosse encontrada. Desgraçadamente era ela o único motivo daquela viagem e ele não poderia voltar para Wessex enquanto não a entregasse ao tio, sã e salva.
Montando novamente e dirigindo o animal para o meio das árvores, Harry procurou não pensar no atraso que aquele contratempo representaria. Procurou não refletir também sobre a vontade de sacudir aquela idiota até que os dentes dela começassem a cair. Mas era dificil afastar da mente esses pensamentos, tanto quanto controlar a raiva.
Depois de uma hora Harry estava furioso. Eles haviam passado um pente fino na floresta, na estrada e nos campos em volta, mas sem encontrar nenhuma pista de lady Weasley. Era como se ela houvesse desaparecido sem deixar marcas. Com os dentes trincados, Harry conduziu o cavalo de volta ao local onde a caravana havia passado a noite e obrigou-se a reconhecer a verdade.
Não havia gostado da tarefa de acompanhar uma mulher temerária de volta para casa, mas gostava menos ainda de saber que tinha sido feito de tolo por ela. E tinha certeza de que era exatamente esse o fato. De alguma forma, a moça havia escapado por livre e espontânea vontade.
Harry recriminou-se por não ter levado aquela tarefa mais a sério. Havia deixado o pensamento se desviar para os problemas que tinha para resolver em Wessex em vez de se concentrar apenas na missão de que fora incumbido. Devia ter ficado de olho na moça, já que sabia que ela não queria voltar para o tio. Mas quem iria pensar que uma mulher inexperiente e sozinha se aventuraria numa estrada tão cheia de perigos só para não ser obrigada a voltar para Baddersly?
E a escapada tinha sido tão bem planejada que era compreensível a dianteira que lady Weasley havia conseguido em relação a eles. Ah, ela o enganara direitinho. Em outras circunstâncias Harry até sentiria admiração pela esperteza da mulher, mas não agora.
Cada minuto perdido naquela busca significaria mais prejuízo para ele.
Por um bom tempo Harry ficou olhando para o local onde a caravana havia acampado, ainda levemente esperançoso de que surgisse alguma pista. Finalmente tomou uma decisão e olhou para Smith.
- Vamos embora! Virem as carroças de volta para Campion. E bem possível que ela esteja indo para lá.
Carrancudos, os homens começaram a manobrar as carroças para fazer o caminho de volta.
Quando a caravana se pôs outra vez em movimento, Harryn reparou num rápido olhar que Smith dirigiu a ele. Foi como se o vassalo e amigo estivesse perguntando: «o que o seu pai fará quando retomarmos sem a moça?» Mas Smith não faria tal pergunta e Harry achou melhor não pensar no assunto. Jamais havia fracassado no desempenho de uma tarefa e não pretendia deixar que isso acontecesse agora.
Cerca de dois quilômetros adiante Harry parou e ordenou aos homens que fizessem uma nova busca nas cercanias. Enquanto isso ele voltaria até o local de onde haviam partido. Quando chegou perto, desmontou e caminhou silenciosamente até um ponto de onde podia ver a árvore embaixo da qual lady Weasley havia tomado a refeição. Recostando-se numa outra árvore, cruzou os braços e ficou parado, atento a tudo.
Não precisou esperar muito. Logo se ouviu um barulho peculiar nos galhos do carvalho e Harry se aproximou, movendo-se silenciosamente. Já estava embaixo da árvore quando viu um chinelo verde descendo em seguida apareceu um tornozelo bem torneado, protegido por uma meia escura, e logo depois a barra de uma saia esmeralda.
Gina parou de sacudir a poeira das roupas para olhar diretamente nos olhos dele e, pela primeira vez, Harry reparou que os gestos dela possuiam uma notável graça. Mesmo com o tratamento que acabava de receber, a moça parecia calma e controlada, sem demonstrar nenhuma contrariedade. As faces dela ainda estavam enrubescidas, mas nada além disso mostrava surpresa pelo estranho comportamento dele momentos antes.
- Eu... eu vi um javali e subi na árvore para sair do caminho dele.
Por alguns instantes Harry ficou apenas olhando para ela, boquiaberto. Depois ergueu a cabeça e soltou uma gargalhada. O tempo todo Gina o observou com a maior serenidade, como se não houvesse dito a coisa mais ridícula que ele já ouvira.
- Talvez esteja em condições de me dizer por que nenhuma das outras pessoas que compunham a caravana viu ou ouviu algum sinal desse javali. Ou porque uma dama como você não gritou riem correu quando viu a fera, preferindo subir numa árvore como se fosse um garoto de doze anos. Eu diria que não foi uma atitude muito própria de uma dama.
Gina olhava para ele com curiosidade, os olhos enormes com uma expressão indecifrável, mas isso obviamente não tinha nada a ver com os comentários que Harry fizera.
- E então? - ele insistiu.
- Eu estava assustada demais para gritar. - respondeu Gina, sem pestanejar.
A forma direta como ela se expressava quase o fez esquecer as próprias dúvidas, mas Harry não seria tão ingênuo assim. Então ele pôs as duas mãos na cintura e continuou olhando fixamente para ela.
- E por que foi que passamos um bom tempo procurando por você, gritando pelo seu nome, muitas vezes bem embaixo dessa árvore, mas não ouvimos nenhuma resposta?
- Acho que devo ter desmaiado de tanto medo. - respondeu Gina, enfrentando abertamente o olhar dele.
- Sei. - disse Harry. Era preciso reconhecer que, se não fosse outra coisa, aquela mulher pelo menos era audaciosa. - Então você ficou lá em cima esse tempo todo, equilibrando-se nos galhos mesmo estando desmaiada... e sem ouvir os nossos gritos?
Gina assentiu, com uma expressão de doçura. Ah, mas que mentirosa! E parecia tão inocente. Não era de admirar a facilidade com que havia enfeitiçado os irmãos dele. Até os convencera de que não se lembrava do próprio nome. Qual seria o jogo daquela mulher, afinal? Harry reconhecia não ter noção disso, assim como não sabia se tinha algum interesse em descobrir a verdade. Por mais tentador que fosse participar do jogo, no estágio da vida em que se encontrava ele não tinha tempo nem energia para isso. Com a testa franzida, examinou-a por um bom tempo.
- Então você fica muda sempre que está com medo?
- Ah, sim, meu lorde... Harry. Posso chamá-lo de Harry?
Gina fez a pergunta com absoluta naturalidade, como se eles estivessem na sala de visitas de um elegante solar, trocando amabilidades, e ele não houvesse perdido horas preciosas à procura dela. A resposta de Harry foi um leve aceno de cabeça, consentindo. Logo depois ele se voltou para o cavalo, que se aproximava.
Até que virou a cabeça e olhou novamente para ela. Gina tentava sem sucesso arrumar os cabelos, que estavam muito embaraçados e resistiam a todos os esforços dela. Harry riu. Certo de que não era observado por ela, soltou um grito de guerra que, pelo que se dizia, deixava os inimigos com o sangue gelado.
Gina saltou de susto e soltou um grito... um grito muito alto. Com um largo sorriso, Harry montou e estendeu a mão para ela.
- Está me parecendo, minha senhora, que a sua voz finalmente retomou. E com força total.
- Isso não é justo, Harry. - ela protestou amuada, enquanto aceitava a ajuda dele. - Eu não senti medo do sua atitude sem graça. Só levei um susto.
Aquilo o fez rir ainda mais.
- Não minta para mim, minha lady. E não fuja novamente, ou cuidarei para que se arrependa disso.
Dito isso ele a puxou para cima do cavalo, com a facilidade de quem erguesse uma criança, e sentou-a entre as próprias coxas.
Harry não pretendia atenuar a ameaça, mas a forma como ela se ajeitou no colo dele provocou uma nova onda de desejo, algo que o deixou contrariado. Soltando um resmungo ele bateu com os calcanhares na barriga do animal, que saiu a galope pela estrada.
Aquela mulher só podia ser uma bruxa que pretendesse enfeitiçá-lo, como já fizera com os irmãos dele. Harry até a imaginava meneando aqueles quadris maravilhosos diante do bando de idiotas, o metido a sabichão Simas à frente, todos eles prontos a morder a isca.
Nesse ponto Harry se perguntou se ela ainda era donzela. Afinal de contas, já havia passado da idade de se casar e passara o inverno inteiro na companhia de seis robustos rapazes... Harry sorriu e procurou não dar importância àquele pensamento. Para ele não teria o menor significado se ela já houvesse se deitado com qualquer um dos jovens Potter, ou mesmo com todos eles. A tarefa dele consistia apenas em levá-la de volta para Baddersly.
Nesse momento um movimento do cavalo fez com que a virilha dele ficasse colada nas ancas de Gina. Harry trincou os dentes. As esperanças dele de fazer uma jornada sem contratempos já haviam desaparecido e agora tudo levava a crer que aquela viagem não seria nada tranqüila.
|