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8. have a Little Merry Christmas


Fic: Herdeiras do Mal III - A Vida Após a Guerra


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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perda



substantivo feminino





  1. ato ou efeito de perder.





 





  1. fato de deixar de possuir ou de ter algo.





 



-



 



Quase quatro horas haviam se passado desde o fim do duelo entre Voldemort e Melinda, quando a bruxa decidiu que era hora de verificar o que o pai estava fazendo: ainda trancado no escritório, como estivera desde o fim do fatídico acontecimento. Uma parte dela se recusava a se preocupar, uma vez que diversas doses de poções contra a dor ainda seriam necessárias para fazê-la voltar à normalidade, mas algo não estava certo e ela havia puxado de sua mãe uma curiosidade nada saudável.



Contra os protestos de Draco, ela desceu as escadas, encontrando à sua frente uma porta literalmente trancada. Suspirando frustrada, única reação possível devido ao conhecimento de que toda vez que ele fazia isso só saía de dentro daquela sala quando bem entendesse, Melinda se afastou, criando em sua cabeça uma dezena de cenários que nunca confirmaria.



Ao longe, muito para sua distração, ela ouviu a chegada de algumas pessoas, suas vozes ainda misturadas e irreconhecíveis. Pelo o que ela conseguia entender, os visitantes buscavam falar com Voldemort. Bem, aquilo dificilmente aconteceria, naquele dia.



Arrumando o vestido e esperando que não estivesse muito obviamente cansada e ferida, Melinda andou na direção das vozes, abrindo um enorme sorriso ao reconhecer ao longe seu tio postiço, Rabastan Lestrange. O dever chama, ela havia pensado ao decidir lidar com quem estava chegando, mas ao vê-lo ela passou a acreditar que a conversa se tornaria menos tarefa e mais diversão.    



Para sua surpresa, Melinda deu de encontro não somente com Rabastan, mas também com a prima Nicky, que conversava sorridente com o outro bruxo, apesar da pouca intimidade. Sorrindo sem que eles a vissem, Melinda os observou por alguns segundos, divertindo-se com a esquisita amizade que ela via nascer. Limpando a garganta, e divertindo-se mais do que devia com o pulo que ambos deram em resposta, a jovem chamou a atenção de seus convidados.



— Nicky, tio Rabastan… boa noite. — ela segurou a risada enquanto os outros dois, ainda abalados, faziam desajeitadas reverências ao som de “alteza”. — Posso perguntar o que os traz aqui?



— Essa é a parte engraçada… fomos convocados. Os dois. — Rabastan respondeu, desviando educadamente o olhar de alguns cortes e roxos no rosto de Melinda.



— Por meu pai?



Simultaneamente, Nicky confirmara e Rabastan negara, confundindo a cabeça da princesa, ainda afetada pela luta de antes. Percebendo a confusão da prima, Nicky passou a explicar.



— Eu fui convocada por ele. Aparentemente, você precisava de ajuda… com uma situação desagradável que aconteceu mais cedo? — os olhos da ruiva pararam nos ferimentos, e Melinda suspirou. — Como sempre, correto. Mel, o que aconteceu? Você está bem? Eu…



— Um pequeno mal entendido… — Melinda respondeu, mais evasiva do que a prima teria aprovado, se o olhar desacreditado e irritado dela era qualquer tipo de indício. Suspirando, e xingando seu pai mentalmente por colocá-la naquela situação, a jovem indicou com a mão para que os dois a seguissem e adentrou a Mansão, procurando a maneira mais delicada de contar o que ocorrera. — Eu duelei com meu pai. — escolhendo a rota mais simples, ela ouviu os outros dois engasgarem com o ar atrás dela, divertindo-se muito mais do que deveria. — Sim, imagino que muitos Comensais ganharam ou perderam muito dinheiro nisso.



Rabastan andou mais rapidamente até ultrapassá-la e parar na frente dela, esperançoso. Sem um pingo de pudor, o tio postiço segurou-a pelos ombros e perguntou:



— Quanto tempo você durou, Mel? Estamos falando de quantos minutos? Dois dígitos? Me fala que são dois dígitos! — dramático, ele fingiu que ia deixar-se cair de joelhos, arrancando uma risada dela.



— Que falta de empatia! Eu estou ferida, humilhada, e você me perguntando sobre tempo…? — Melinda repreendeu, sarcástica. Rabastan franziu o cenho, mas foi rapidamente acalmado pela mão da garota em seu rosto. — De quanto dinheiro estamos falando, e de quem?



— Dolohov, McNair, alguns outros aqui e ali… — Rabastan deu de ombros. — A discussão era: menos ou mais de dez minutos antes de desistir.



— Eu quero a lista de todos que disseram que eu duraria menos de dez minutos. Definitivamente mais de dez minutos, titio, pode perguntar a qualquer guarda. E eu não desisti… — ela encostou o dedo na ponta do nariz do tio postiço, que deixou o queixo cair. — Ele parou. Era tudo um teste, e nem era pra mim. Coisas entre ele e o Draco. — Melinda deu de ombros. — Eu obviamente me meti no meio e demos um show.



Melinda imediatamente se arrependeu de suas palavras, pois na ordem: recebeu um tapa de uma horrorizada Nicky em seu ombro já machucado, e foi tirada do chão por um terrivelmente animado Rabastan, abraçando-a pelas costelas também contundidas, e rodando-a pela sala aos berros de “eu sempre acreditei!” e “melhor sobrinha de mentira!”. Com dezenas de beijos molhados na bochecha da garota, que se dividia entre reclamar de dor e dar risada, Rabastan finalmente a colocou no chão, sob julgamento pesado de Nicky que ele graciosamente ignorou. Devia ser muito dinheiro.



— A lista. — Melinda apontou, e ele bateu continência em resposta. — Vou aguardar… agora, você disse que não foi meu pai quem te convocou aqui? — a expressão de Rabastan fora da de uma pessoa que está no céu para a de alguém ardendo no inferno com uma rapidez que devia ser algum recorde.



Toda a atmosfera de brincadeira fora bruscamente destruída, e Rabastan denunciava com sua tensão que estava para piorar ainda mais. Respirando fundo e mordendo o lábio por um momento, ele estendeu a Melinda uma carta que estivera esquecida em um de seus bolsos. A forma como estava amassada não era um presságio nada bom. A caligrafia familiar menos ainda.



A cada palavra que ela lia, Melinda acreditava menos no conteúdo da carta em suas mãos. A pessoa responsável pela convocação de Rabastan? Sua mãe, evidentemente. O motivo? Um desejo de morte, era a única resposta viável.



— Ela espera que você entregue essa notícia? — Melinda amassou ainda mais o papel entre os dedos e o tio assentiu, pálido.



— Minha primeira missão oficial. — Rabastan riu-se. — Tecnicamente ela enviou uma carta para ele, mas sou eu quem vou entregar, quer dizer… de um jeito ou de outro a bomba explode em mim. E pelo o que você me contou que aconteceu aqui hoje…



— Para sua sorte, — Melinda suspirou. — ele está feliz como nunca, conseguiu um de seus maiores objetivos essa noite. Não tentem entender, longa e complicada história. Mas… algo aconteceu em Hogwarts.



— Evidentemente!



— Ele não me diz o quê, sua mente é impenetrável, mas foi ruim. Péssimo, pelo jeito. Parece que toda vez que eles ficam no mesmo lugar só sabem terminar na cama ou no hospital. Ou ambos. Era uma questão de tempo até essa amizade explodir, eles não sabem ser amigos. — os outros dois engoliram seco e tentaram não opinar naquilo, por mais que concordassem com a princesa. — Bom, parece que ela percebeu isso. Boa sorte, titio querido, você vai precisar.



Melinda devolveu a carta, demorando para soltar a mão de Rabastan em sinal de apoio. A resposta que ela tivera fora um sorriso fraco e um beijo na testa em meio a um murmurado agradecimento.



 



Voldemort segurava a carta selada entre os dedos, calmamente relendo a assinatura bem caligrafada em uma tinta negra que cintilava na pouca luz do ambiente. Anoitecera, e somente as velas encantadas da Mansão pareciam ter notado. Rabastan forçava-se a não temer muito alto em sua mente, além de ignorar a garrafa quase vazia de algo que parecia muito ser absinto na mesa entre ele e seu Mestre. O silêncio dele, que ainda não quebrara o selo da carta, era ensurdecedor.



Os dedos de Voldemort repousavam calmamente sobre o Brasão de Bellatrix, da mesma maneira que estiveram durante todo o tempo enquanto Rabastan com muita bravura lhe informara sobre a decisão da Duquesa de, nas palavras dela, dedicar-se a melhor conhecer o país pelo qual se tornara responsável, entender suas necessidades e povo para melhor atuar em serviço do Lorde das Trevas. E por isso - e onde a questão se complicava, Rabastan Lestrange seria seu representante por tempo indeterminado em quaisquer reuniões em que ela fosse requerida como Duquesa de Bordeaux ou Protetora da França. Uma maneira polida e razoavelmente profissional de dizer que ela não pisaria no Reino Unido e, por tabela, recusava-se a se encontrar frente à frente com o homem que chamava de Mestre e alegava ser o amor incondicional de sua vida. Rabastan tinha certeza que a ex cunhada e recém adquirida amiga e irmã postiça era louca, por mais que a amasse - a última parte, contudo, era sujeita a como aquela reunião terminaria.



— Obrigado, Lestrange. — de todas as reações, aquela era a última esperada. — Espero vê-lo com frequência daqui pra frente, enquanto a Duquesa se torna familiarizada com a França.



Rabastan fez um trabalho terrível em esconder o choque que tomara conta de si, e a visão de Voldemort rindo-se e levantando para pegar mais um drink foi quase aterrorizante. Ele havia se preparado para tudo, menos diplomacia.



— O que esperava, Rabastan? — o monarca perguntou, sincero, enquanto servia um drink extra para o chocado servo. Desconfiado, Rabastan aceitou a bebida e balbuciou algumas palavras sem conseguir formar uma opinião concentra. — Deixe-me adivinhar: gritos, explosões, uma Cruciatus para complementar? Em suma, eu perdendo o controle que levei anos para construir e descontando minha raiva de Bellatrix em você? — ele circundou a mesa e recostou-se nela, encarando Rabastan de perto. — Não se preocupe, meu caro, eu sei bem contra quem são minhas batalhas. Com tudo o que aconteceu nas duas guerras, eu posso dizer que foi minha maior lição. E, por mais que me doa admitir, sua suserana também sabe disso.



— Suserana? — Rabastan perguntou, confuso.



— Meu caro Rabastan, o condado de seu irmão fica na França, correto? As terras ancestrais originais dos Lestrange… — Rabastan assentiu. — E seu título de Visconde está amarrado àquelas terras. Acontece que, assim como Gabrielle Ceresier, cujas terras também ficam na França, vocês são todos vassalos de Bellatrix. Ela é não só guardiã da França em nome, como oficialmente a suserana de todas as terras no país. Todos os impostos vão para ela e ela então responde para a Coroa. — Rabastan cerrou os olhos. — E vocês respondem a mim, claro, mas mais diretamente a ela, que inclusive é responsabilizada por todos vocês. Meu ponto sendo: você acha realmente que teve uma opção nessa coisa toda? Ela não te fez um pedido, Rabastan, te deu uma ordem velada. Bellatrix sabia muito bem que, caso você quisesse recusar, não poderia. Ela entende o sistema muito bem, tão bem que sabia que eu não poderia me irritar com um pobre vassalo cumprindo ordens. — Rabastan engoliu seco, segurando o copo com força. — Sua “irmã” seria uma incrível líder na França, caso entendesse o papel dela de vassala como entende o de vocês, mas como poderíamos esperar isso de Bellatrix? Ela nunca entendeu que regras se aplicam até aos mais brilhantes. E isso também é culpa minha, que dei espaço demais. E não sinta-se mal, ela é extremamente boa em manipular todos a seu redor para fazê-los pensar que estão agindo de sua própria vontade, quando estão somente fazendo as vontades dela.



Rabastan terminou o drink em um único gole, tentando digerir tudo o que estava acontecendo, o cérebro dele havia parado de entender a própria existência da realidade quando a diplomacia começara. Originalmente, ele imaginara que Bellatrix o havia enviado para morrer e, ainda que isso não fosse verdade, ele ainda estava extremamente irritado com toda a palhaçada. Ela poderia ter sido sincera, ao invés de ter feito toda aquela chantagem emocional sobre como precisava da ajuda dele imensamente. Ah, mas ela teria o troco, muito em breve.



— Tudo o que se passa na sua cabeça está perfeitamente correto, exceto a parte sobre ter sido “enviado para morrer”. Ela sempre soube que eu não faria algo assim, até porque eu sei reconhecer bom trabalho e recompensá-lo. Eu jamais machucaria um bom seguidor, com um histórico brilhante, por conta das pirraças pessoais de uma mulher. Quanto à sua irmã postiça…. eu vejo sua preocupação, mas somente o tempo dirá. Por enquanto, ela se recusa a cumprir ordens, a fazer o trabalho dela, e te envia no lugar. Por enquanto, não vou perder o meu tempo travando essa guerra com ela. Bellatrix declarou guerra e tudo o que receberá é um tapa no ombro. — Rabastan não conseguiu segurar um sorriso, imaginando a cara de decepção de Bellatrix. — Portanto, será um prazer trabalhar com você, Rabastan. Inclusive, imagino ter a maneira perfeita de te ajudar a dar o troco em Bellatrix.



— Milorde? Há cinco segundos ela era minha suserana a quem eu devia obediência e respeito? — o falso choque na voz de Rabastan era quase vergonhoso.



— E deve. Eu, no entanto, sou seu rei. — foi a vez de Voldemort terminar o drink num único gole. — E, infelizmente para ela, minha bênção sempre anula a autoridade de sua belíssima e irritante  suserana. Não se preocupe, Rabastan, você sabe que vamos apenas cutucar, afinal, cá entre nós, você e eu sabemos bem que, muito para meu desgosto nesse exato momento, sou absolutamente incapaz de machucar aquela mulher. — Rabastan teria se questionado quanto à verdade daquelas palavras, visto o histórico minimamente tumultuado dos dois, mas era exatamente por tudo o que acontecera que ele acreditava cegamente no que ele dizia. Se tinha algo que todos os Comensais sabiam era o estrago recente que havia sido feito, e como o Lorde das Trevas não era de cometer o mesmo erro duas vezes.



— Sou todo ouvidos, majestade.



 



Rabastan deixaria o escritório minutos depois, pálido com a missão que Voldemort lhe havia confiado, e arrependendo-se de ter-se enfiado no meio daquele fogo cruzado. Voldemort havia, contudo, esclarecido que ele não tinha opção, e aquilo era estranhamente reconfortante. Talvez porque escolher se colocar naquela situação era uma burrice sem tamanho. Engolindo seco ao fechar a porta atrás de si, ele não pôde deixar de reparar que Voldemort pegava novamente a carta irritantemente selada. Ele tinha curiosidade de saber o conteúdo que jamais descobriria, mas a parte sensata de si lhe dizia que a ignorância nunca fora tão abençoada.



Com uma calma que quase não lhe pertencia, Voldemort cuidadosamente abriu a carta, o som do selo quebrando tornando-se quase ensurdecedor no silêncio do escritório, e respirou fundo uma última vez antes de iniciar a leitura.  Não havia nenhum mundo em que aquela experiência poderia ser agradável.



 



“Pensei em diversas maneiras de começar essa carta, e de como me dirigir a você.



Majestade? Formal demais para uma correspondência tão pessoal. Tom? Pessoal demais, e você não pareceu gostar muito da última vez, imagino que menos ainda agora.



Milorde? Pode não ser mais correto, mas estranhamente sempre soará natural para mim.



 



Milorde,



 



Mais uma vez Hogwarts foi um divisor de águas para nós dois, e a maneira como deixamos tudo… eu quase pensei que conseguiríamos nos tornar civilizados mais uma vez, depois do julgamento no Salão Principal, de como fomos novamente um time invencível. Até ficarmos sozinhos. E o inferno tomar conta de nós dois.



 



Eu não devia ter explodido. Você não devia ter simplesmente me informado que o Sr. Guillot estaria me esperando na França quando eu chegasse. Eu não sou uma criança, e se precisarei ser seguida por um maldito segurança por aí, gostaria de ter tido algum tipo de opinião na escolha. De um jeito ou de outro, os dois lados estavam errados e disseram coisas que não deviam ter sido ditas. Mais uma vez.



 



Mais uma vez. Percebe o padrão? Sempre que voltamos a ser o time invencível que éramos, terminamos na cama ou aos berros, ou os dois. Um ciclo vicioso do qual não podemos sair, porque infelizmente a proximidade não é algo com que conseguimos lidar.



 



Sempre me orgulhei de nunca ter tido sequer pensamentos desleais, mas… em momentos como aquele, existe um lado meu que nasce da mágoa e das cinzas do que fomos, e eu não gosto dessa Bellatrix, da maneira como ela pensa. E não consigo me controlar.



 



Meu maior título, antes disso tudo, era de sua melhor tenente, a mais fiel e mais leal. Eu quero permanecer essa mulher. E pelo bem dela, do amor e do respeito que tenho a você, preciso manter uma distância segura para que a Lady das Trevas não engula de vez a Bellatrix.



 



Sei que no fundo você sabe e entende que, pelo menos no momento, essa é a melhor escolha. Eu aqui, você aí, Rabastan me representando. Um dia, quem sabe, quando a Lady estiver enterrada dentro de mim e a Bellatrix tenha retornado, isso possa ser revertido.



 



Por enquanto, espero apenas que possa respeitar minha decisão e não ser duro demais com Rabastan por seguir ordens.



 



Essa é a última carta pessoal que pretendo enviar em um longo tempo, então…



 



Espero que fique bem, que juntos todos nós possamos tornar realidade o sonho de tantas décadas, e que os sacrifícios que fizemos valham a pena, porque eles doem mais do que parece ser suportável.



 



Até um dia,



 



Bella.”



 



Por sua própria sanidade mental, Voldemort escolheu ignorar o borrão no final da assinatura dela e fechou os olhos para evitar aumentá-lo. Se era o que Bellatrix queria, ele iria respeitar. Havia prometido que seguiria em frente, e não tinha planos de voltar atrás. Ele tinha um futuro para construir, com ou sem ela. Isso não o impediria de fazer sua pequena vingança junto a Rabastan, mas o tempo de viver em função de tê-la de volta havia acabado de uma vez por todas.





 



Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts - 10 de novembro de 1998



 



O outono nos terrenos da escola cada vez mais parecia se aproximar do inverno, com os jardins outrora verdes completamente cobertos pelo branco da neve. Pela janela da sala do diretor, tudo parecia cintilar sob a lua, mesmo já na metade de sua fase minguante. Uma semana antes, quando estivera completamente cheia, os flocos de neve deviam ter parecido diamantes no meio da noite. Não que Gabrielle fosse saber, não estivera ali naquela ocasião. A neve adiantada era, de um jeito ou de outro, bem vinda e linda de ser admirada — quase lhe encorajava a prosseguir com o que estava para acontecer.



— Não sei se deveria parabenizá-la pela habilidade adquirida na Oclumência ou me preocupar, Vossa Graça. — ela ouviu a voz do dono do escritório atrás de si, e respirou fundo antes de se virar, os braços cruzados na frente do corpo.



— É extremamente rude bisbilhotar na mente dos outros, Professor. — Gabrielle respondeu, dando de ombros. — Então nada mais justo do que me preparar, já que vivemos em um meio em que isto é uma prática um tanto comum. Não que eu sinta a necessidade de fechar minha mente quando na presença da família real, como você, mas digamos que você aprende uma coisa ou duas quando vai viver por uns tempos com a Lady das Trevas. Ela é muito boa nisso, e ótima professora. Didática impecável.



— E posso me atrever a perguntar qual a técnica utilizada por Bellatrix para ser tão incrível assim?



Gabrielle sorriu e recostou-se à mesa, a linguagem corporal toda fechada, ainda que suas palavras tivessem um certo tom de brincadeira quase totalmente anulado pelo sarcasmo. Ela era uma contradição ambulante, e não se importava, era parte da situação. — Reforço negativo pautado pelo ódio. Toda vez que ela conseguia passar, ela me lembrava do que você fez comigo e como poderia ter acesso aos pensamentos e lembranças que me restavam.



Snape ficou ainda mais sério, por mais que isso soasse impossível na cabeça da loira, que descruzou os braços. Do topo de seus quase quarenta anos, e tendo passado por diversas situações complicadas, ele não pensava mais que poderia ser surpreendido. As respostas ásperas de Gabrielle eram esperadas, mas a forma direta e séria que ela utilizava eram novas, para se dizer o mínimo.



— O que você está fazendo aqui?



— Eu deixei um bilhete avisando que viria…



— Eu sei. — ele deu alguns passos na direção dela. — Quero saber a verdadeira razão. Dias atrás, você andava para o outro lado quando me via no corredor. E agora você aparece aqui no meio da madrugada? São duas e meia da manhã, Gabrielle.



— Você não se lembra? — Gabrielle odiava que sua voz tivesse quebrado tanto, uma nota de realidade aproximando-se de forma perigosa. Engolindo seco, e respirando calmamente apesar de todos os sinais que seu corpo dava de que aquilo era uma péssima ideia, ela o encarou, colocando uma expressão ferida no rosto enquanto lutava para afogar os sentimentos que legitimariam suas feições.



Snape pareceu ponderar por um momento, o rosto sempre tão sério sendo percorrido por uma nuvem de incomum confusão, até parar em uma expressão que a jovem não sabia explicar bem: um misto de dor, compreensão e uma pequena faísca de algo que parecia esperança.



— É claro… — ele comentou, poucos segundos depois. — Feliz Aniversário, Gabrielle. — as palavras dele eram incertas e quase secas, mas ela não deixaria que seus sentimentos atrapalhassem sua missão. Levantando mais suas paredes mentais, ela se aproximou. — Te causo tanto terror assim?



— Se sabe o que estou fazendo é porque está tentando…



— Gabrielle, eu sou um Oclumente extremamente talentoso. Eu consigo saber que está usando somente de olhar para você, além do que eu consigo praticamente ouvir as paredes de titânio que você subiu. E, com toda a sinceridade, não pode me culpar de desconfiar… depois dos últimos meses, tão repentinamente…



Gabrielle riu-se e rolou os olhos, negando com a cabeça, sentindo a garganta fechar. —  E você pode me culpar por desconfiar? — ela lambeu os lábios, seu maxilar tremendo com a noção de que todos a seu redor tinham razão e aquilo era, possivelmente, a pior ideia que ela já tinha tido.  — Isso foi uma idéia horrível. — Gabrielle andou rapidamente na direção da porta, sem bem saber se estava mesmo atuando ou se era a parte no fundo de sua alma que lhe implorava para parar com aquilo, correr, terminar seu último ano e ir ficar na França, servindo ao Lorde das Trevas.  



    Quando ela passou por Snape, no entanto, e sentiu-o segurá-la pelo braço, impedindo que terminasse seu caminho, uma pequena faísca de esperança se acendeu e ela se lembrou o porquê de estar fazendo tudo aquilo. Ela precisava provar para si que ele não era nada além de um traidor imundo que nunca mudaria, somente assim ela poderia superar e seguir com sua vida. Além do que, Snape tinha mais poder como diretor de Hogwarts do que deveria, e precisava ser vigiado. Aquela era sua vingança particular.



— Deixe-me ir.



    — Não antes de você me dizer o que veio fazer aqui. — o tom dele era sério e ela gaguejou, não sabendo dizer para si mesma a verdadeira resposta, mas ela tinha ensaiado muitas e muitas vezes. Era uma benção que seus sentimentos confusos facilitassem sua tarefa de esconder tudo dele, até porque suas verdadeiras intenções estavam muito enterradas atrás de todo o receio e preocupação que ela genuinamente sentia e eram intensificados pela proximidade. Sua voz tremeria, ela sabia, e agradecia a quaisquer poderes superiores por aquilo, pela veracidade que traria à coisa toda. As lágrimas que enchiam seus olhos eram inesperadas, mas não rejeitadas.



    — Cometer um erro. — as palavras saíram fracas de seus lábios, quase como uma sentença que ela se negava a ouvir. Voldemort sabia que aquilo era um erro, e estava receoso com aquela missão, mas ela sabia que precisava provar para ele mais do que a ninguém de que ela conseguia, mas a curiosidade que ela vira nele, a abertura de lhe dar a oportunidade de fazer aquilo, mesmo pensando que ela pudesse falhar, o benefício da dúvida… era mais do que ela havia pedido. Melinda e Bellatrix, contudo, estavam absolutamente descrentes que ela seria capaz. Ela mostraria a todos eles que a ínfima confiança que Voldemort lhe dera não seria em vão, e para as outras duas ela teria o prazer de esfregar sua vitória em suas belas caras. Ou pelo menos, ela esperava. Havia um pedaço dela, por menor que fosse, que estava se agradando demais daquele momento, da proximidade, e ela se odiava por isso.



    —  Não faz o seu estilo. — Ele finalmente quebrou o silêncio, soltando o braço da loira, que se abraçou e deu alguns passos para trás. —  Conscientemente se colocar nesse tipo de situação.



    — Tempos difíceis, medidas desesperadas. — Gabrielle engoliu seco e continuou andando de costas para a porta. Rindo amargamente, e secando uma lágrima com a manga de sua capa, ela continuou. —  E você sabe bem como é… velhos hábitos são os mais difíceis de matar. Em minha solidão, sozinha aqui no meu aniversário, meu primeiro instinto foi… deixa pra lá. Péssima ideia, vou voltar para o meu dormitório, professor.



    —  Gabrielle. — a voz dele soou mais alta do que devia por ser tão tarde da noite, e a jovem parou, cruzando novamente os braços. —  Espera. — Ela não seria capaz de se mover, mesmo que quisesse. Aquilo estava acontecendo, e ela teria de lidar com as consequências de suas escolhas. —  Sente-se, claramente precisamos conversar. E, honestamente, essa conversa já esperou mais do que devia.



    —  Não. Eu estou bem aqui.



    Snape suspirou e andou para o outro lado da sala, buscando algo que fazia um barulho quase insuportável no silencioso escritório. Ao voltar, ela percebera que o som vinha de uma garrafa e dois copos de vidro. Uísque de Fogo, ela reconheceu. —  Dezessete anos, se não estou enganado? — ele comentou, colocando a bebida sobre a mesa. — Não que idade jamais tenha te impedido de fazer algo, mas… parece apropriado, brindarmos à sua maioridade, agora legalmente.



Gabrielle sentia algo dentro de si se revirar de raiva com ele falando tão intimamente sobre como ela era ou deixava de ser, todo o peso de tudo que havia acontecido de bom e ruim a enlouquecendo. O uísque a ajudaria, mas ela precisava deixar algumas coisas claras primeiro. Pegando o copo, e lambendo os lábios, a jovem o encarou séria.



—  Obrigada. Mas, antes de tudo, fique longe da minha mente. Eu vou saber se você tentar, e juro que se mexer com meus pensamentos de novo ou chegar perto deles, eu nunca mais chego a dois metros de você.



—  Gabrielle, eu passei as duas últimas décadas olhando por cima do meu ombro. Você percebe que, colocando tantas paredes e fazendo esse tipo de exigência, está pedindo para eu pular de um penhasco sem olhar?



— Você quer dizer como eu pulei? E você se aproveitou da minha confiança e ingenuidade? — a mágoa apareceu mais do que devia. — Sou eu quem tenho direito agora de ter todas as ressalvas que quiser. Se vamos tentar conviver, esses são meus termos. — ela levantou o copo, como num brinde, enquanto se sentava. —  Sim ou não? Estamos em um mundo de paz, podemos viver às claras… Chega de olhar por cima do ombro! A não ser que tenha algo a esconder e motivos para temer?



— A esse ponto, eu quase desejaria ter. — ele respondeu, sincero e quase entediado, o que a deixou estranhamente satisfeita. —  Gabrielle, sobre o que aconteceu…



—  Não vamos falar disso, não no meu aniversário. — ela repreendeu — Por enquanto, no que se trata de passos curtos, o drink é suficiente. Então, um brinde a pular de penhascos, imagino.



—  A pular de penhascos. — o novo antigo erro dela respondeu, bebendo junto a ela. Em poucos minutos, ela percebera duas coisas: ele continuava solitário, e havia sido deixado de lado por ambos os lados. Aquilo era o que se ganhava ao brincar de agente duplo, e ela deixou crescer uma ponta de curiosidade sobre o que descobriria. Severus Snape era um homem misterioso, e aquele por quem ela se apaixonara um dia não era nada além de uma ilusão projetada por ele como estratégia de guerra. Quem era aquele homem à sua frente, e o que mais esconderia? Ela não fazia ideia, mas dedicaria cada fibra de si a descobrir.





 



Sarandë - 17 de dezembro de 1998



   



    Duas semanas antes, quando Rabastan Lestrange lhe mandara uma estranha carta lhe chamando para conversar, Nicky jamais poderia se imaginar passando a semana do Natal numa minúscula cidade litorânea no meio do nada. Albânia, Rabastan já a tinha corrigido mil vezes, um dos países no domínio de Sua Majestade. Por um longo período, Lestrange havia ficado estacionado no país, fazendo Merlin sabe o quê. Eles estavam havia dois dias na cidade, que permanecia em um constante estado chuvoso naquele alto inverno, mas com temperaturas muito mais agradáveis do que aquelas com as quais ela estava acostumada a lidar na Inglaterra. Alguém lhe dissera que, no verão, aquelas praias geladas se tornavam paradisíacas; em algum momento, ela precisaria testar.



    — Tem duas coisas que eu não entendo. — ela bateu a caneca cheia de um tipo estranho de bebida na mesa da taverna estranhamente vazia, cruzando os braços e encarando o homem mais velho. — Um: Por que me escolheu? Dois: Por que esse país?



— Ah, a impaciência dos jovens... Eu esperava te mostrar, em vez de contar, pequena Tonks.



— Não me chame assim. — ela ameaçou, o tom de voz áspero.



— Desculpe-me, Nicky. Vamos lá, existe uma razão ótima para eu ter te chamado: você não é uma Comensal da Morte. — o rosto dela se distorceu em uma careta mal criada.



— Nem você. Os Comensais da Morte não existem mais. — ela retrucou, dando de ombros. — Só um bando de nobres.



— Que todos sabem que são ex-Comensais. — ele rolou a manga da camisa, traçando os contornos da tatuagem com a ponta dos dedos. — E nós estamos para entrar em territórios onde isso não será tão bem recebido quanto estamos acostumados. — ele respirou fundo. — Além do que, nossa fugitiva favorita sabe que está sendo procurada pelo Lorde das Trevas, alguém como você chama menos atenção, principalmente sendo metamorfomaga. Precisava de alguém que pudesse passar sem ser notada, e em quem eu pudesse confiar. — Rabastan finalizou, enquanto a jovem ajeitava os cabelos ruivos. Com um sorriso maldoso e o olhos brilhando em desafio, Nicky se inclinou para a frente.



— E quem foi que disse que pode confiar em mim?



— Eu poderia dizer que sua prima, mas gosto de você, gosto da atitude. — Rabastan bebericou a tal bebida esquisita, e Nicky rolou os olhos. Além disso, ele se lembrava dela na ocasião em que Melinda havia "resgatado" Pandora. Aquela fora a primeira missão da garota, e ela havia se saído bem, o bastante para que ele lhe desse um voto de confiança. — Agora, para saber sobre o país, precisaremos levar essa conversa para um lugar mais reservado.



Conhecendo a fama de Rabastan, Nicky deixou-se considerar por um segundo se o comentário dele ainda era pertinente à missão em suas mãos, ou se simplesmente estava procurando uma razão para ficar sozinho com ela. Novamente baseada na fama do visconde, a jovem chegou à conclusão de que, se as intenções de Rabastan fossem outras além das sérias que os haviam levado àquela cidade, ele não se daria ao trabalho de levá-la para um local mais calmo.



— Seja honesto comigo, Lestrange, o quanto eu devo temer? — ela respondeu, soando muito mais interessada do que havia planejado.



— Temer? —  Rabastan se aproximou, com um sorriso que gritava tudo menos profissional. Levantando a sobrancelha de forma sugestiva, ele lambeu os lábios, tentando mascarar a expressão indecente de quem estava  se lembrando de muitas situações possivelmente libertinas. — Minha pequena Tonks, eu preciso te informar que jamais alguém precisou temer estar comigo em lugar algum. Até porque, eu nunca machucaria ninguém. — mentiroso. — Bom, pelo menos não alguém que não tivesse pedido por isso… Algumas vezes.



— Deixe-me adivinhar: essas pessoas todas pediram para repetir a dose? — ela finalmente soou tão sarcástica quanto pretendia. Rolando os olhos e se levantando, ela estendeu a mão a ele. — Perca mais tempo de fato me impressionando e convencendo do que se gabando, Lestrange. Como você bem sabe, estou cercada de ícones, então palavras fazem muito pouco em me encantar.



Deixando o queixo cair dramaticamente, Rabastan aceitou a mão da garota e se levantou, decidindo que gostava dela. Muito mais do que a prima esquecida de Melinda, ou da amiga menos intensa de Gabrielle Ceresier, a jovem Tonks mostrava suas garras. O que ele exatamente esperava que ela fizesse? A doida havia aceitado vir numa caça à traidora em um país estranho, com um estranho de reputação duvidosa, e sem saber quando voltaria pra casa: tinha que ser parte daquela família e, como todos eles, ser do tipo mais divertido de maluco. Sem arrependimentos. Ainda que as habilidades da ruiva tivessem sido a razão de sua escolha, além da falta de Marca Negra, ele estava feliz de saber que aquela viagem não seria um tédio.



— E te mostrar eu vou, Srta. Tonks. — ajustando o paletó e puxando a mão dela para circundar seu braço, ele diminuiu o tom de voz. — Todos os segredos que o Lorde das Trevas, seu amado titio postiço, guarda no coração da Europa.



— Oh, os segredos dele, Rabastan? E eu aqui achando que confiava em mim e me mostraria os seus…



— Uma coisa que você ainda vai aprender… — Rabastan começou a andar, levando-a na direção de uma escada escondida e imensamente suspeita, que devia levar ao andar de cima da taverna. Um quarto? Bem provável. — Os segredos do Lorde das Trevas são os nossos, e os nossos, dele… exceto os mais sórdidos, mas tudo a seu tempo, ainda não temos toda essa intimidade. Você mesma disse: quem me disse que posso confiar em você?



— Touché. — deixando-se puxar escada acima, Nicky não deixou de notar que uma garrafa milagrosamente aparecera debaixo do braço do mais velho, o que a fez rir suavemente. Às vezes, as pessoas eram encantadoramente previsíveis.



Por trás de sua máscara de flerte e confiança, Nicky ainda se perguntava o que levara alguém como Rabastan Lestrange a escolher logo ela para ser sua acompanhante em algo tão importante. A única informação que ela tinha era o alvo: Katherine Parkinson, a mulher que tentara matar sua tia Bellatrix, a pessoa mais procurada no reino inteiro. Até onde ela sabia, dezenas de Comensais estavam no rastro dela, e o que levara Voldemort a enviar Rabastan também era quase tão obscuro quanto a razão pela qual ela estava ali.



Entrando no quarto escuro e vazio, ela momentaneamente se arrependeu de ter deixado Rabastan arrasta-lá para lá. Estar ali sozinha com alguém que era basicamente um estranho era maluquice, mas havia algo na coisa toda que gritava para que ela aceitasse ficar. Talvez fosse a certeza de Rabastan de que ela se divertiria, ou o tédio que vinha sentindo desde sua formatura, ou uma combinação dos dois.



Dando passos falsamente firmes até a metade do cômodo, a garota tentou evitar que o barulho da porta se fechando lhe assustasse, e conseguiu não suspirar de alívio assim que as luzes se acenderam. Quase para sua decepção, eles ainda estavam sozinhos. Algo nela havia previsto novas aparições, mas Rabastan era mais cuidadoso do que isso.



— Sente-se. — ele puxou duas cadeiras e colocou a garrafa sobre uma mesa de madeira antiga, enquanto ela observava o quarto. Duas camas simples, um armário bolorento, o tal conjunto de mesa e cadeiras, bem diferente da Mansão Lestrange na Inglaterra e, ela imaginava, do Château na França. Seguindo a instrução, ela se sentou à frente dele.



— Interessante, — ela gesticulou a seu redor. — para dizer o mínimo. Sua nova casa?



— Antiga. — ele deu de ombros, e se divertiu com o choque estampado no rosto dela, enquanto abria a garrafa e servia o uísque de fogo em dois copos de limpeza duvidosa. — Nicky, Nicky, você precisa se lembrar que nem todos nós tivemos a sorte de ser acolhidos pela realeza de primeira.



— Até parece! — ela aceitou o copo, e bebericou do projeto de uísque de fogo. — Você é literalmente família da realeza.



— Está bem, você tem um ponto, mas quando eu estive estacionado nesse fim de mundo, a serviço do Rei, ele ainda não era Rei e eu não era um Visconde. Inclusive, eu estava fugindo dos aurores, tinha escapado de Azkaban… Esse lugar não é nem de longe o menos luxuoso em que vivi, pequena Tonks. — o apelido estava quase começando a pegar.



— Difícil competir com Azkaban…



— Pergunte a sua tia… — dando um enorme gole, ele negou com a cabeça como se afastasse as lembranças. — Nós dois crescemos no luxo e passamos anos naquele buraco, é uma queda longa. Depois disso, pouco choca.



— Ela teve mais sorte que você… Digo, saindo antes.



— Sorte? — ele deu risada. — Bellatrix teve tudo na vida, menos sorte, pequena Tonks. E se você olhar além da superfície, você verá que a sorte esteve do meu lado… — ele gesticulou ao redor. — Quando o Lorde das Trevas retornou e nos libertou… Eu não sei se devia te contar isso…? Bom, que seja. Quando ele nos soltou, deu a cada um de nós um desejo, como recompensa por não o termos traído, ou negado. Eu nunca soube de fato o que o meu irmão pediu, imagino que algo relacionado a ele e o Lorde fazerem as pazes ou sei lá, mas eu… Eu quis ver o mundo. — ele sorriu animado. — Quatorze anos preso não me fizeram exatamente bem.



Fazendo uma careta, Nicky terminou a bebida em um gole só, estendendo o copo novamente na direção do bruxo. — E por “ver o mundo” o Lorde das Trevas entendeu te mandar pra Albânia? Te manter estacionado aqui? — Rabastan sorriu de forma contida.



— Essa é a beleza do Lorde das Trevas, Nicky, ele sempre sabe o que faz. — o bruxo lambeu os lábios animado, curvando-se para a frente. — Ele me deu o meu pedido, e cumpriu seus objetivos. Sim, eu estava estacionado na Albânia, mas digamos que aqui era o meu quartel general. — de súbito, ele se levantou e andou ao redor do quarto, tirando uma risada da mais jovem.



— Quartel general? Sério mesmo? Do que? O que diabos de tão legal tem na Albânia?



Sorrindo como uma criança no Natal que sabia de algo muito interessante de que seus pais não faziam ideia, Rabastan pegou a garrafa de uísque e deu um longo e provavelmente doloroso gole, antes de segurar a varinha e ajeitar a roupa, cada movimento medido com imenso julgamento por uma muito incrédula Nicky. Os floreios de sua varinha, no entanto, foram aos poucos desmanchando o sorriso sarcástico da ruiva, que rapidamente deixou de considerar voltar para casa.



— Mas que porra é…? — Nicky deixou o queixo cair, quando as paredes do quarto começaram a se transformar em diversos mapas coloridos e brilhantes. Em cores metálicas, linhas se formavam. Seriam elas férreas? Pareciam. Em pequenos pontos coloridos, nomes borrados se moviam.



Mil anos antes, quase em outra vida, Nicky escutara histórias veladas, sempre interrompidas, sobre um certo mapa de Hogwarts que Harry carregava. Geralmente, os gêmeos Weasley se esqueciam de onde estavam, e o citavam. Um mapa que podia ver todos os lugares, e suas pessoas. Ninguém nunca lhe mostrara, porque mesmo em sua outra vida, muito antes da guerra, ela sempre fora a garota Sonserina com amigos suspeitos. Mas rumores nunca deixam de existir, principalmente com pessoas descuidadas, e aquelas paredes lhe contavam a verdade, mas de uma forma muito maior e mais interessante.  



— Bem vinda ao submundo, pequena Tonks. — piscando na direção dela, Rabastan observou o mapa com orgulho. — Onde mais você acha que seu amado e majestoso tio conseguia tudo o que ele queria, quando éramos todos fugitivos? Ingredientes raros, ou deliciosamente proibidos, para suas poções complicadíssimas? Esmeraldas e diamantes para cobrir sua Lady e Princesa? Novos recrutas? Informações?



Nicky tinha certeza absoluta de que estava gaguejando algo sem sentido, ou babando, ou ambos. Aquela era a Europa inteira. E as linhas brilhantes se multiplicavam. Levantando-se, ela se deixou aproximar do mapa, analisá-lo com mais calma. A Albânia, onde nada existia, era o coração da rede, por onde todos os caminhos passavam. Tocando o pequeno ponto no mapa com os dedos, Nicky abriu um sorriso.



— Uma rede de contrabando? Passando pelo meio do nada…



— Onde as leis são mais, digamos, flexíveis. Ou pelo menos eram, agora estamos todos juntos e está tudo uma zona, mas digamos que Sua Majestade pode se dar ao luxo de fingir que não vê os próprios atos. Além do que, o parlamento daqui é um tanto quanto nada conservador. — Rabastan colocou as mãos nos ombros dela. — Então, como pode ver, os negócios continuam tão ativos como sempre, ou mais, enchendo os cofres da Coroa e de alguns mais no caminho.



— Então é daí que o dinheiro todo dele vem.



— Ele sempre foi ótimo em acumular dinheiro, recebeu dezenas de doações de seguidores entusiasmados durante a vida, e após sua volta recuperou a herança da família, que em parte usou para fortalecer essa belezinha toda aqui. — ele apontou para o mapa. — Sabe como é, infraestrutura, alguns subornos, alguns jantares caros. — Nicky deu risada, e ele a seguiu. — Digamos que tecnicamente o Lorde e eu somos sócios nisso aqui, porque uma parte do dinheiro veio do cofre dos Lestrange. Acho que a Bella nunca se perguntou pra que o dinheiro ia ser usado, quando ela ainda era a única não procurada e fez o saque. Na época, ela se contentava com a ideia de que era para ajudar a causa. Anos e anos de trabalho nisso aqui. Uma versão mais simples existia na primeira guerra, foi como ele originalmente conseguiu o apoio dos gigantes. — ela franziu o cenho. — Longa história, basicamente eles gostam de coisas bruxas e não tinham acesso, o Lorde forneceu. Mas, na época, ele fez tudo sozinho. Então, quando voltou, decidiu expandir, me colocou aqui quando saí da cadeia e esse é o resultado. Modéstia à parte, muito do meu charme contribuiu. — ele apertou os ombros dela, como se fosse iniciar uma massagem, e Nicky somente o encarou desconfiada.



— Quanto? Em números?



— Honestamente? Eu já perdi a conta. — Rabastan deu de ombros. - Muito, é o que eu sei dizer. Muito mesmo. A medir por quanto eu lucrei, e considerando que a parte dele é um pouco maior do que a minha, o patrimônio do Lorde já quadruplicou nesses anos, e continua crescendo. Agora, de forma legal e ilegal, considerando que, bem… pagamos impostos a ele. — os dois deram risada.



— Um pouco maior? Duvido… ele deve ficar com a grande maioria.



— Pior que não, viu? Os contatos originais eram todos dele, assim como as ideias e boa parte do dinheiro, então eu imaginava que ia ficar com dez por cento mais a diversão. O que já seria ótimo. Mas, tirando todos os custos, estamos em 60 e 40.  



— “Dez por cento e a diversão já estaria ótimo”. Às vezes, me esqueço de como vocês todos são podres de ricos. — Nicky se afastou do mapa, procurando a bebida esquecida na mesa. — Outra realidade. — Rabastan fez uma exclamação falsamente chocada.



— Em minha defesa, meu irmão é podre de rico. Menos agora, que a Bella tomou metade, mas ainda assim… Eu tenho um pedaço menor, que ficou de herança de meus avós e pais, mas a maioria das propriedades Lestrange e dois terços do cofre são do Rodolphus. Mais velho e tudo o mais. — ele deu de ombros. — Mas não me importa, porque logo vou ser até mais rico do que ele, e não porque herdei de mil pessoas.



— Então você, antes de tudo isso, não era podre de rico, só imundo? Entendi. — Nicky respondeu com um tom de desafio, e Rabastan rolou os olhos. — Imagino que na terra do privilégio essa diferença seja importante, mas para nós meros mortais, mesma coisa. Tipo Conde e Visconde.



— Enfim. — Rabastan puxou a garrafa das mãos dela. — Isso tudo não importa, era só trivia.



— Sei.



— O que importa é que Fenrir Greyback está fazendo um trabalho horroroso em encontrar Katherine Parkinson, e todos os nossos amigos nesse mapa vão nos ajudar. Bom, em teoria já estão, nem creio que o Lorde me convenceu a apresentar Greyback a meus contatos. De um jeito ou de outro, gigantes não gostam de pessoas novas e, menos ainda, de lobisomens. E parece que a maluca fugiu na direção Norte. O que isso tem a ver com gigantes? Digamos que eles dominam o submundo por lá, então as informações viriam deles, por mais que ela tenha passado longe deles. E, sendo uma mulher procurada por alta traição…



— Ela viajou por vias não ortodoxas…



— Com certeza. E daqui até Minsk são os nossos amigos enormes que sabem de todo mundo que veio e foi. Era pra Greyback ter conseguido lidar com isso, mas ele não foi capaz de ter o jogo de cintura necessário. — Rabastan riu sozinho. — Claro que ele precisava ser primitivo.



— O que ele fez? Mordeu alguém? — Nicky mordeu o próprio lábio de um jeito engraçado demais, na opinião de Rabastan pelo menos.



— Não, ele não é louco, um dos gigantes esmagaria o crânio dele com as mãos. Digamos que mostrou os dentes mais do que devia, e gigantes não gostam de valentões.



— E Fenrir Greyback tem zero controle de si mesmo… péssima escolha, titio real.



— Ele tem um faro bom, e imagino que seu tio tenha tentado dar a ele um desafio em ser mais normal e controlado, como todos nós precisamos agora, que ele simplesmente falhou. Eu sempre fui o plano verdadeiro, imagino, porque conheço todo mundo. E quando se conhece todo mundo, alguém conhece alguém que viu Katherine Parkinson.  



Nicky parou por um segundo, como se estivesse analisando as opções em sua cabeça. Rabastan aproveitou o pequeno momento de reflexão para terminar a garrafa. Quando eles haviam bebido tanto? Ninguém sabia. Talvez ele tivesse pegado uma garrafa meio cheia? Não se lembrava. Podia também ser um truque do dono do lugar, para a bebida sumir e voltar para o barril lá embaixo. Esperto. Ele amava contrabandistas, em geral.



— Se você certamente a acharia rápido, por que meu querido tio não te mandou direto?



— Imagino que você já saiba essa resposta, e que ele não vai gostar de saber que o apelidamos assim?



— Ele não precisa saber, por mais que eu imagine que minha tia ficaria ainda mais irritada, considerando tudo. — a jovem se fez de inocente, por um instante. — Quanto às razões: o Lorde das Trevas não queria encontrar Katherine Parkinson rápido demais, porque enquanto ela estivesse foragida, poderia transformar a procura num show, e estender o encerramento disso tudo.



— Ele estava ganhando tempo, sim, porque tinha planos para a execução de Parkinson. A coisa toda era para ser um enorme presente de casamento para um certo alguém que se recusa a aceitar o pedido. — Nicky assentiu. — Existe a possibilidade inclusive de ele saber onde ela está, pelo menos a região geral… mas agora, ele desistiu.



— Dela ou do presente?



— Dos dois. E é nossa missão entregar o recado. — Rabastan suspirou. — A vadia é louca e não tem nada a perder, encontrá-la e arrastá-la de volta à capital vai ser quase impossível. Num mundo ideal, nossas ordens seriam para matá-la assim que a virmos, mas a dramaticidade não foi toda cancelada, então devemos levá-la a ele. Ou, no pior dos casos, o chamar aqui. — o rosto dele se fechou, de maneira sombria, e Nicky sentiu um arrepio subir por suas costas. Algo não estava certo. Ela devia sair correndo, em vez de se enfiar naquela maluquice, mas algo no sangue Black que corria em suas veias a impedia de escutar a razão.  



— Ok, qual o próximo passo no plano?





 



Mansão Slytherin - 22 de Dezembro de 1998



 



Andando pelos corredores, Melinda não podia deixar de notar que a Mansão Slytherin - ou mesmo a Riddle, antes - nunca havia estado tão enfeitada para as festas. Diversos pinheiros haviam sido distribuídos, cheios de velas e bolas coloridas, que encantavam a todos os visitantes e, principalmente, à pequena Pandora, que queria parar em todas as árvores ao passar perto delas no colo da mãe, que se movia rapidamente e ignorava os protestos da filha. Ela era incapaz de encontrar Draco em qualquer lugar, e a criança passara as últimas duas horas procurando pelo pai.



— Vossa Alteza, — Oliver a seguia rapidamente. — não prefere que eu mesmo procure o Sr. Malfoy, ou pelo menos carregue a pequena princesa?



Melinda bufou irritada, negando com a cabeça. — Eu consigo carregar minha filha, Oliver, obrigada. Não vai me matar, nem nada do tipo.



— Princesa, com todo o respeito, o único lugar que ainda não procurou é o escritório de Sua Majestade, e...



— E Sua Majestade é o meu pai. — Melinda o interrompeu. — E, ainda que eu duvide que meu pai esteja escondendo o Draco, não acho que ele se negará a me ajudar. Além do que, esse lugar é enorme e… — ela tampou os ouvidos da filha, com um sorriso divertido contrastando com a irritação aparente. — A Pandora vai se distrair tanto com o avô, que vai parar de querer revirar a Mansão atrás do Draco. Vai ver ele saiu, foi visitar a mãe, sei lá. — com uma expressão mais suave, a jovem permitiu que a filha voltasse a ouvir, e continuou seu caminho, sendo seguida por um Oliver muito mais tranquilo.



Não que eu ache que Sua Majestade tem exatamente jeito com crianças, Oliver deixou-se pensar, e se arrependeu imediatamente. Os passos de Melinda haviam mudado de som porque o contato dos saltos com o mármore havia se tornado mais suave, ela estava parando, e ele sabia muito antes de olhar. Olhando por cima do ombro, ela negou com a cabeça, antes de piscar e voltar a andar. Você se surpreenderia. Aparentemente, olhos sobrenaturalmente vermelhos distraem mais do que assustam. Oliver não conseguiu segurar uma risada que, pela forma como os ombros da princesa se moviam, havia contagiado Melinda.



Quando os passos de Melinda se modificaram pela segunda vez, o resultado foi muito menos agradável. Assim que chegou à porta do escritório do pai, Melinda abriu a porta sem pensar e adentrou o cômodo, perguntando algo que Oliver não compreendeu, e parou abruptamente assim que percebeu o que estava acontecendo. Dentro da sala, estavam o rei, um homem e uma mulher de ternos e expressões fechadas, e Draco Malfoy. Entregando Pandora rapidamente a Oliver, Melinda limpou a garganta e se curvou ao pai.



— Perdoe a interrupção, Majestade. — Oliver seguiu sua reverência, arrancando risadas um tanto inapropriadas de Pandora, que considerava tudo uma grande brincadeira. — Imaginei que estivesse sozinho.



Voldemort cerrou os olhos e olhou de Draco para Melinda, como se soubesse algo incômodo que ninguém mais ali sabia, e a barreira de sempre em sua mente se tornara ainda mais irritante. O que estava acontecendo? Ela reconhecia os dois convidados de alguns jantares nos dias anteriores, enviados do Congresso Mágico dos EUA. Tratados delicados estavam sendo feitos com a MACUSA, que não exatamente aprovava a expansão rápida do Reino de seu pai. A linha era tênue, pois nenhuma exposição excessiva aos trouxas que os incomodasse havia ocorrido, mas a fama e histórico de seu pai em desejar exterminá-los os deixava com todos os alertas ligados; além do que, os EUA eram famosos por se sentirem ameaçados facilmente. Por enquanto, todos andavam no caminho dos apertos de mãos e concessões.



— Vossa Alteza Real. — a mulher fez um aceno de cabeça e se levantou. Theresa Clarkson, se ela não estava enganada. — É um prazer revê-la.



— Congressista. — Melinda sorriu, e se aproximou com cautela. — O prazer é meu.



— E a linda criança? — Daniel Smith, o outro americano, perguntou em um forte sotaque sulista, também de pé. — A quem temos o prazer de conhecer?



Melinda olhou por cima do ombro, na direção de Oliver, e acenou para que ele colocasse Pandora no chão. A menina deu alguns passos na direção da mãe, e a encarou confusa. Está tudo bem, Melinda soprou na mente da filha, se apresente ao moço.



— Eu sou a Pandora. —  segurando o vestido brilhante, Pandora tentou fazer uma reverência, e foi parada por Melinda, que negou com a cabeça. Somente ao seu avô e a mim, os olhos dela diziam. Em resposta, a menina somente sorriu para os dois adultos, que assentiram em resposta.



— É um prazer, Vossa... ? — Clarkson olhou confusa de Voldemort a Melinda.



— Alteza Real. — Voldemort se levantou, e circundou a mesa na direção da filha e da neta. Dando um beijo esquisito na bochecha de Melinda, para manter as aparências, e assistindo Pandora se curvar desajeitadamente a ele, Voldemort virou-se novamente aos americanos. — Oliver, pode levar Pandora para o quarto dela?



A menina fez uma careta, não gostando do que estava ouvindo. Era compreensível, pois ela havia acabado de chegar. Batendo o pé, ela correu até a cadeira onde Draco ainda estava sentado e subiu no colo dele, escondendo o rosto na lapela do paletó do pai e pedindo para ficar.



— Pan, meu amor, temos muitos assuntos de adultos. Vai com o Oliver, quando terminar aqui, conto uma história pra você. — Draco sussurrou. — Combinado? — ela negou com a cabeça, e Melinda cruzou a sala, tirando-a do colo de Draco com delicadeza. Os convidados haviam entendido. Alteza Real, filha da Princesa, que ainda era praticamente uma adolescente. Por isso ela ainda não aparecia nos guias de protocolo.



— Pan, você me vê fazendo pirraça? — Melinda sussurrou, enquanto levava a filha na direção de Oliver. Pandora negou suavemente. — Isso é porque princesas não fazem pirraça, muito menos com convidados. E você é uma princesa, não é? — um sim fraco. — Então… — Oliver pegou Pandora, que deitou a cabeça no ombro do cavaleiro. — o tio Oliver vai te levar pra brincar com as árvores de Natal. — entendendo a ordem, Oliver estava fora da sala em segundos. — Pandora é uma órfã de guerra.



A declaração de Melinda, enquanto ajustava as roupas amassadas pela filha, tomou a atenção de todos. — Os dois pais, parentes nossos, faleceram em uma das batalhas. — eles eram americanos, não tinham como saber a verdade. — Então, eu e Draco a adotamos. Imagino que posso contar com a descrição de todos, ela ainda é muito pequena e não entende o que aconteceu. — eles eram diplomatas, claro que sim.



— É claro, Vossa Alteza Real. — Smith respondeu, parecendo envergonhado.



— Ótimo. Novamente, mil desculpas por interromper a reunião de vocês, vinha resolver um das questões sobre o projeto das festas, por isso trouxe a Pandora. — uma mentira, uma boa mentira. A confusão no rosto dos dois americanos foi impagável. Voldemort e Draco haviam tido a decência de fingir que sabiam do que ela estava falando.



— Ah, claro. Vocês vêem... — Voldemort ajeitou uma mecha do cabelo de Melinda, de forma quase carinhosa. — Minha filha decidiu fazer algumas visitas a orfanatos, e distribuir histórias e presentes, em homenagem às festas de fim de ano. E Pandora a ajudaria a escolher os presentes, como a única criança da família. Ela insiste em ir às visitas, mas ainda não decidimos bem se já está na hora.



Draco quase se surpreendeu com a facilidade que eles tiveram de inventar a mentira, mas em se tratando de dois legilimentes talentosos, ele quase tinha pena dos americanos. A imagem caridosa de Melinda era quase engraçada.



— Ah, que projeto lindo, Alteza. — Smith bateu palmas. — Será um sucesso. Como adotante de uma órfã, entendo como as crianças que a guerra deixou sem pais devem afetá-la, o quanto deve se compadecer.



— Sem dúvidas, Daniel. Posso te chamar assim? — Melinda sorriu, com aquele sorriso que era capaz de dobrar até a pessoa mais dura, desde que não a conhecesse a fundo. — Todos nós participamos da guerra, temos nossas dívidas a pagar e não podemos esquecê-las, mas o importante agora é trabalhar para construirmos um futuro em que tais conflitos não sejam necessários. E crianças…



— São o próprio futuro. — Ele completou, beijando o dorso da mão da princesa. Theresa Clarkson o enviou um olhar repreensivo, mas mesmo ela precisava tomar cuidado para não se deixar encantar pelo inimigo. Ou, àquele ponto, amigo duvidoso. Melinda Callidora Black tinha muitas dívidas a pagar, mas mesmo os dois diplomatas não podiam declarar que tinham uma ficha exatamente limpa. O mundo estava longe de ser preto e branco, mas aquela menina era capaz de convencer a qualquer um que as Trevas estavam somente em seu título, uma mero erro de tradução em algum lugar da história, onde Artes Desconhecidas e Poderosas haviam sido rotuladas negativamente. Esse era, claro, o discurso da Família Real, e aquela boneca de porcelana o venderia a qualquer um que não tomasse muito cuidado. Em se conhecendo o mundo, levaria poucos anos para que todos esquecessem o passado violento de qualquer um dos envolvidos na guerra, principalmente seu vencedores.



— É inspirador, alteza. — Clarkson comentou. — Ver pessoas tão jovens tão empenhadas. Quantos anos tem mesmo? Dezoito? — Melinda assentiu. — Quase uma criança, e já tão madura e consciente. O mesmo vale para o Senhor Malfoy, com tanta boa vontade, tenho certeza que a aliança entre nossos dois países será um sucesso! — a diplomata sorriu, apesar de suas ressalvas, e assistiu a expressão de Melinda não mudar sequer um milímetro, ouvindo-a atentamente com um sorriso encantado e agradecido. Ou ela era sincera ou boa, muito boa.



— Ah, o senhor Malfoy. Que exemplo! — Smith soltou a mão de Melinda e se aproximou de Draco, que finalmente se levantou, dando tapas exagerados nos ombros do loiro. Algo estava errado. — Ainda mais agora… Deixar a noiva e a filha pequena para trás, ir para o outro lado do oceano, assegurar o futuro. — Daniel Smith suspirou pesadamente e encarou Draco com orgulho. — Um exemplo de coragem e caráter. Será um embaixador e tanto. O mais novo embaixador da história, e com todo o mérito. A princípio, a escolha deixava a MACUSA desconfortável, pela idade é claro, mas vindo aqui, ouvindo tudo o que você me disse, e agora isso… meu governo ficará tranquilo e feliz.



— Sem dúvidas. — Voldemort precisaria se lembrar de parabenizar a filha pelo autocontrole. Andando na direção de Draco lentamente, passando pelos dois diplomatas, Melinda tomou o rosto do loiro com as duas mãos. — Estamos extremamente orgulhosos dele, não podíamos ter ninguém melhor para representar nosso país e família. — sem tremer, ou vacilar, Melinda o beijou delicadamente nos lábios. — Não irão se arrepender.



Abraçando o namorado com todo o controle existente, Melinda observou seu pai distrair os diplomatas com outras questões, e aos poucos convencê-los de que haviam passado de sua hora. Era tarde, apesar de não tão tarde assim. O talento de persuasão de seu pai era invejável, e Melinda queria chorar a cada segundo mais que eles permaneciam ali. Longos quarenta minutos se passaram, e ela os observou combinar os últimos detalhes de datas e locais.



Primeiro de janeiro de 1999, seria o primeiro dia dele na MACUSA, poucos dias depois, e ele não tivera a dignidade de discutir isso com ela, ou de comunicá-la. A máscara da bruxa quase caíra ao se despedir dos enviados americanos, com toda a educação esperada, e demonstrando esperança em algo que lhe cortava o coração. Ser elogiada por algo tão longe da realidade, sua coragem e força em se sacrificar pelo bem maior, era quase trágico.



Voldemort fez questão de que os três acompanhassem os convidados até a porta, possivelmente para evitar que, ao ficarem sozinhos, Draco e Melinda destruíssem a imagem cuidadosamente criada de família perfeita. Quase que imediatamente após a saída dos dois pela porta, Voldemort puxara a varinha e silenciara a passagem. Ele não se recordava se a Mansão inteira era silenciada, e não podia arriscar, porque o inferno estava para congelar. Draco havia sido alertado de que estava passando da hora de informar Melinda, que seria pior se ela descobrisse por terceiros, mas falhara nessa missão, e Voldemort podia ouvir a mente da filha correndo a um milhão de metros por segundo, o ódio fervendo de maneira quase palpável.



— Saiam, todos. — Voldemort ordenou aos guardas e demais empregados, que nem piscaram para obedecer. — Melinda…



Parada poucos metros antes de Draco, que fitava o chão parecendo derrotado, a máscara de princesa de Melinda havia desmoronado. A mão da bruxa segurava fortemente a varinha, os nós dos dedos brancos, e o rosto bonito estava deformado pelo mais puro ódio. Os olhos verdes estavam ainda mais claros, devido as lágrimas que se acumulavam, e ela parecia incapaz de falar. O queixo dela tremia, e a varinha apontada para baixo era a única boa notícia.



— Desde quando? — foi tudo o que ela conseguiu perguntar, a voz embargada.



A varinha de Melinda fora violentamente sugada para longe de sua mão, antes que ela pudesse fazer qualquer outro movimento. Vê-la parar nas mãos de Voldemort somente aumentou o nível do ódio que crescia nela.



— Devolve. — o tom era de ordem, e o fato de que ela estava perdendo a noção do perigo era um sinal muito ruim. Draco ainda não a encarava, ou fazia qualquer movimento.



— Não até você se acalmar. — Voldemort enfiou a varinha no bolso interno das vestes, e Melinda grunhiu, apertando os pulsos. — Se quiser, venha pegar, mas você já sabe como termina pra você.



— Devolve a minha varinha. — Melinda disse, mais uma vez, pausadamente andando na direção do pai.



A decisão tomada por Draco não era nem de longe a mais sensata para o momento, ou para qualquer um que fosse. Ainda sem encará-la, ele lambeu os lábios e interrompeu o que quer que fosse que Voldemort pretendia responder.



— E eu pensei que princesas não faziam pirraça. — o tom de voz dele foi tão sarcástico  quanto fora baixo e, se a casa não estivesse tão quieta devido à tensão, talvez Melinda nem tivesse ouvido. O problema era, ela ouvira.



Os segundos seguintes passaram quase como um flash para os três. Sem acreditar no que acontecera, Melinda deixara o resto de controle para trás e permitiu que o ódio tomasse conta de seu corpo, se lançando na direção de Draco com os punhos fechados, pronta para destruí-lo, com varinha ou sem. Voldemort, mais rápido do que a filha, agarrou-a pela cintura com força, fazendo-a reclamar de dor, enquanto gritava a plenos pulmões, dominada pelo ódio.



Debatendo-se contra o pai, imensamente mais forte do que ela, a garota gritava todos os palavrões que conhecia, e tentou várias vezes convocar a própria varinha ou a do pai, sem sucesso. Voldemort a estava neutralizando, e ela o odiava por isso.



— Desde quando?! — Melinda berrou mais uma vez, fitando chão. - Desde quando vocês dois estão me enganando? Planejando pelas minhas costas?



Draco ainda se recusava a encará-la, mantendo-se de costas, para que ela não visse as lágrimas que tomavam conta de seus olhos. Um mês, fora Voldemort quem respondera, e ele podia ouvir a namorada começar a soluçar. Pelo som, Melinda parara de se debater contra o pai, e só chorava baixinho.



— Um mês… — ela repetiu, para si mesma. — E quando esperavam me contar? — ela olhou na direção das costas de Draco. — No maldito Natal? No dia da viagem? Ou ia simplesmente deixar uma carta, depois que fosse?



— Do que importa…? — Draco respondeu, soando cansado e desespero. — Quando ou como? Se você sempre ia reagir assim?



Ainda sendo segurada pelo pai, Melinda tentou segurar o choro, mas não conseguiu. Era demais para ela, somente a ideia de tê-lo do outro lado do oceano era demais, mas a forma como tudo acontecera…



— Olha pra mim. — Melinda pediu, sentindo os braços do pai se afrouxarem a seu redor. O tom dela ainda ela suave, calmo, mas ele não olhou. Melinda sabia tão bem quanto ele que Draco se recusava a encará-la por medo de desistir, de ver o estado em que ela estava. - Olha pra mim e diz que realmente acredita que eu teria reagido assim se você tivesse me contado quando decidiu, ou mais ainda se tivesse conversado comigo que queria fazer isso… Draco, olha pra mim.



— Você pode ordenar, se quiser. — ele respondeu sarcástico. — Mais fácil do que insistir, até eu desistir e acatar.



— Eu posso, mas eu não vou. — ela deu de ombros. — Se você teve a coragem de decidir abandonar a mim e à Pandora sem nem mesmo me avisar com um tempo decente de antecedência, e agora não tem a hombridade de me olhar nos olhos e resolver essa merda toda, faça como preferir, Draco. Eu não vou usar o meu poder contra você, eu assisti meus pais por anos para saber que você vai usar isso contra mim por décadas.



Voldemort tinha, finalmente, soltado a filha, que parecia controlada o suficiente. O corpo de Melinda ainda tremia, mas a mente dela era um bloco de gelo. Ainda preocupante, sim, mas menos destrutivo do que o fogo de momentos antes. Draco, ainda processando tudo o que ela dissera, começava a se virar aos poucos, ainda contrariado. As palavras dela tinham ferido fundo demais.



— Abandonar? Quem falou em abandonar? Só porque eu decidi ir fazer algo da minha vida, sair da sua sombra pra um dia poder ser mais do que o seu consorte decorativo, Alteza? — os olhos cinzas estavam vermelhos, assim como os dela, e o corpo dele tenso como havia poucas vezes ficado. — Há um mês, eu quase morri, e dias depois o Lorde das Trevas me disse que não podia me ferir, não se havia algo mais que pudesse ser feito. Por meus serviços? Por ter matado Albus Dumbledore? Não. Porque, nas palavras dele, “eu jamais faria isso com a Melinda”. A sua sombra é grande demais, Mel, e não tem amor no mundo que sobreviva a isso. Você deu seus pais como exemplo. — ele evitou olhar diretamente para Voldemort, que fitava a parede oposta desconfortavelmente. — Ótimo exemplo, aliás. Onde está a tia Bellatrix mesmo? — Melinda fechou os olhos. — E você quer mesmo nos comparar a eles? Duas décadas não sobreviveram aos degraus e à sombra; e a tia Bella não só literalmente o venerava, como tinha uma posição muito próxima à dele, desde sempre. E eu? Que hoje não sou nada? Droga, como você não vê que eu estou tentando nos salvar? Eu preciso estar à sua altura, Melinda. E à da Pandora. Um dia, todos os meus filhos serão oficialmente meus superiores, eu preciso ter histórias para contar, conquistas para compartilhar. Minha maior conquista não pode ser você, por mais que doa a todos nós.



Melinda deixou as lágrimas rolarem pelo rosto abaixo, e assentiu, um nó gigantesco formado na garganta. Aproximando-se dele, encarando-o seriamente, Melinda suspirou e negou com a cabeça. — Covarde. — ela sussurrou. — Lindas palavras, lindas intenções, todas muito válidas e corretas. Que pena seria se você executasse seu plano pelas costas de todos que te amam, porque não tinha a dignidade de encarar suas próprias decisões. — as mãos da bruxa subiram pelo peito dele, até o pescoço do loiro, que fechou os olhos enquanto ela aproximava o rosto do dele. — Mas você não podia arriscar, não é mesmo, Draco? Seu passe para a minha cama. Bem que você estava mais sedento do que o normal, ultimamente. Guardando na memória? Espero que tenha detalhes o suficiente. — afastando-se bruscamente, ela limpou as mãos na roupa e virou-se para o pai, negando com a cabeça. — Eu não acredito que você o ajudou nisso.



— Vocês me usaram como exemplo o suficiente para explicar porque eu estou envolvido, Melinda. Draco me pediu um posto oficial importante, e não temos postos mais importantes do que esse no momento.



— Podia ter me contado.



— Não era o meu segredo para contar. — ele respondeu, simplesmente devolvendo a varinha da jovem, que deixou mais lágrimas caírem.



— Eu sou sua filha! — Melinda respondeu, sem se preocupar em esconder a dor.  



— E eu estou devendo uma história para a minha. — Draco foi na direção das escadas, sendo parado por Melinda, que o segurou pelo pulso.



— Aonde você pensa que vai?



— Contar a história da Pandora, Melinda!



— Vai contar pra ela também que vai ficar fora por, quantos anos eram mesmo? — Melinda soluçou. — Três? Vai explicar que vai perder a alfabetização dela? E as primeiras demonstrações de Magia? Que escolheu assim? Ou você vai deixar isso pra mim, também?



Draco abriu e fechou os lábios por diversas vezes, sem saber ao certo o que fazer. Pandora já passara por tanta coisa, perdendo os pais, mudando-se da Mansão Malfoy para a Mansão Slytherin, se tornando parte de uma família tão exposta, que ficara ainda mais exposta. Por um lado, Melinda tinha razão, por outro…



— Melinda, eu não vou abandonar minha filha! Eu tinha plena consciência do que estávamos fazendo quando decidimos criar a Pandora, e…



— E você vai vê-la uma vez por ano, se for o caso. — A morena assentiu, soltando o pulso dele. — Como se eu fosse deixar. Não, Draco, ou você está na vida da Pandora ou não está. Eu não vou deixar a minha filha esperando na porta por um pai que nunca aparece! Quando você voltar, se voltar, você retoma sua relação com a Pandora. Agora, se você pensa que vai ficar nesse jogo de esconde e aparece com uma criança de dois anos de idade…



— E você quer virar a vilã que afastou o pai dela? — Draco cuspiu de volta. — Porque não tem nada no mundo que você possa fazer, Alteza, pra me impedir de mandar cartas, presentes, e de visitar a Pan sempre que eu puder. Ela é tão minha quanto sua, e eu não tenho medo das suas ameaças. Eu sou o pai dela, e se eu estiver com você ou não, isso não vai mudar. Ela merece ter os dois, então por favor não faz isso. Pensa nela. Eu e você… nós conversamos mais tarde.



Firmemente, Draco subiu as escadas, não ouvindo mais nenhum protesto por parte da namorada. Ou seria ex-namorada? Ele não sabia ainda. Seu foco era sua filha, que o esperava, e de quem tinha pouco tempo para se despedir. Melinda, ele sabia, não se despediria dele, não propriamente. Ela se sentia duplamente traída, e assim ficaria por muito tempo. Talvez ela nunca o perdoasse, mas ele precisava arriscar. Amava-a demais para deixar que eles se destruíssem, e mesmo que o processo fosse arriscado, era a única chance dos dois.



Assistindo Draco subir as escadas, Melinda se manteve calada, absorvendo tudo o que estava acontecendo. Ela quase não percebeu quando Voldemort falou com ela, provavelmente corrigindo-a sobre toda a questão a respeito de Pandora. Ele não estava errado, e nem Draco, por mais que ela odiasse admitir. Era injusto com a menina, e Melinda teria que aguentar. Porque ela sabia que eles como um casal não iam sobreviver àquilo, que pelo menos pelo futuro próximo ela e Draco estavam acabados, se é que havia salvação. Ele já tinha ressentimentos pela diferença das posições, ela se sentia traída, eles eram uma bagunça. Amor não salva tudo, e aquela família entendia isso como nenhuma outra. Os braços do pai mais uma vez a impediram de cair, quando ela se rendeu ao choro e, pela primeira vez em meses, deixou a maturidade de lado e desejou abertamente que sua mãe estivesse ali. Amargamente, Melinda se lembrou que a mãe concordaria com Draco, e que Voldemort era o único que entendia o que ela estava passando. Escondendo o rosto nas vestes do pai, ela se permitiu chorar tão desesperadamente quanto seu coração pedia.



Sentir um dos braços do pai passando por trás de seus joelhos para tirá-la do chão, quase fez Melinda protestar, por se sentir ainda menor e mais frágil, o que ela sempre odiava. Daquela vez, ela decidiu não reclamar, e deixou-se ser carregada escada acima, em meio a soluços, como uma criança que havia se machucado no meio de uma brincadeira. Na eterna contradição entre uma arma letal, uma estrategista brilhante, e uma adolescente que não tinha vivido nada, Melinda permitiu-se a humilhação de deixar a sua versão de que menos se orgulhava tomar conta, sabendo que a única pessoa que estava vendo - e ordenando a todos pelo meio do caminho que deixassem os cômodos e corredores - lhe faria o favor de, na manhã seguinte, esquecer.



— Pai…? — ela perguntou, já sentada na própria cama, quando ele estava saindo do quarto. Voldemort não se aproximou, somente olhando de volta para ela da porta. — Como você aguenta? — à luz das velas, o rosto dele assumiu uma expressão cansada, e ele pensou por um instante. — Ele nem foi ainda, e eu já… — ela voltou a soluçar.



— Todos nós sabemos, Mel, que eu não aguento. — ele respondeu, sincero. — Só finjo muito bem, e você também vai. Eles precisam crescer, criar as próprias asas, e nós precisamos continuar a viver. — Melinda negou com a cabeça, e se aninhou nos travesseiros.



— Eu nunca vou ser tão boa quanto você nisso… — ele riu e se apoiou na porta, impressionado com como ela soava infantil, apesar de ser sempre tão adulta.



— Um dia, quem sabe, daqui a uns cinquenta e… quatro anos? — Melinda sorriu e negou com a cabeça.



— Três. Eu sou de setembro, você de dezembro. Mas daqui a cinco décadas, a gente discute isso de novo, então… — Voldemort comentou algo sobre como eles oficialmente tinham uma conversa marcada para Dezembro de 2051, e saiu, deixando Melinda rindo sozinha, em meio às lágrimas que continuavam a vir. Dali cinquenta e três anos, talvez doesse menos, mas por enquanto, ela mal conseguia respirar.



 



Oliver estava vigiando Pandora dormir, quando Draco bateu na porta e, sendo recebido por um mau humorado cavaleiro, entrou no quarto. Negando com a cabeça, Oliver deu um beijo no topo da cabeça da menina e, lhe dando boa noite, andou na direção do loiro.



— Eu precisei silenciar o quarto.



— Sinto muito. — Draco limpou a garganta. — Não queria perturbar a Pandora.



— Não é a mim que deve desculpas. — Oliver respondeu, dando de ombros, e deixando o quarto rapidamente. Draco não tinha certeza se o outro bruxo se referira a Pandora ou a Melinda, mas de algo ele estava certo: Oliver não deixaria a porta do quarto da Princesa naquela noite. A lealdade dele era algo impressionante, às vezes. É claro, ele havia feito um voto perpétuo para protegê-la, mas havia se afeiçoado a Melinda de maneira irreversível. Eram amigos, e dolorosamente Draco se alegrava. Ela precisaria de amigos.



Pandora havia acordado, em algum momento desde que ele entrara, e estava sentada o observando. A menina não mais usava um berço, apesar de não ter nem dois anos. Quando ela começara a andar, eles haviam decidido lhe dar uma cama na altura do chão, coberta por um dossel que vinha desde o teto e era enfeitado por várias flores que brilhavam a noite como vagalumes e a distraiam antes de dormir. Sentando-se ao lado dela no colchão que ficava baixo demais para qualquer adulto, Draco imitou a ação de Oliver e beijou o topo da cabeça da criança, deixando-se sorrir ao sentir o perfume tão particular de bebê que ela ainda não tinha perdido.



Ela se aninhou contra o corpo dele, que travou o maxilar para não chorar, e sussurrou “Papai”, ainda meio sonolenta. — Eu não queria te acordar. — Pandora não se mexeu e somente o lembrou da história. Ou, no caso, disse algo que o cérebro de Draco aprendera a traduzir como “história”. Era engraçado como ela estava exausta, mesmo sendo relativamente cedo, mas às vezes ele tinha que se lembrar do quão pequena ela era, porque em sua mente e seu coração era como se ela estivesse lá desde sempre. — Qual história você quer ouvir, meu anjo?



Pandora não era capaz de dizer a palavra “Bardo”, propriamente, mas o recado foi muito direto, porque ela engatinhou e buscou o livro de capa antiga que havia ganhado de sua mãe. Sua mãe. Ele não queria pensar nisso, ou em como Narcissa reprovaria imensamente o que ele estava fazendo, principalmente com Pandora. — Um dia, todos vão entender. — a criança não era capaz de entender nada do que estava acontecendo, e se contentava em sentar no colo do pai, enquanto ele contava a mesma história pela milionésima vez.



Draco não sabia dizer em que momento, ou porque, “O Coração Peludo do Mago” se tornara a história favorita de uma criança tão pequena, mas a menina simplesmente não aceitava outra coisa. Naquela noite, em meio a tudo o que estava acontecendo, ele se deixou afetar pela estranha similaridade que algumas das palavras no livro tinham com partes da história daquela família. Ele quase riu, se não fosse tudo tão trágico.



Vagamente, Draco se lembrava que aquela história era para crianças maiores, e a cada linha sempre tinha certeza que o responsável por contar aquilo para a Pandora fora sua tia Bellatrix, ou a própria Melinda. Provavelmente Bellatrix. Ela era irresponsável o suficiente para isso, e devia achar a ironia da similaridade das histórias impagável. Ele se perguntava se ela ainda pensaria assim. Ou se a irresponsável fora Melinda, com o mesmo intuito. De um jeito ou de outro, em sua inocência infantil, Pandora simplesmente ria de coisas que não tinham a mínima graça.



Em meio a tantos adultos cheios de feridas usando máscaras de políticos, e a adolescentes endurecidos por uma guerra que viera para eles cedo demais, era quase milagroso ver tamanha inocência. Em meio a uma história com tanto horror e sangue, a menina dava risada e se deixava ser muito aos poucos embalada pelo sono, ainda que lutasse com todas as suas forças para resistir. Em se tratando do sangue que corria nas veias de Pandora, ela tinha todos os motivos para ter o estômago mais forte do que o normal, além de ser teimosa a níveis insuportáveis; eram essas pequenas reações infantis que lhe davam um vislumbre da versão mais velha dela, e que o encantavam exatamente por serem tão opostas a tudo que ela viria a ser.



Abraçada à cintura do pai, muito mais tomada pelo sono do que gostaria de estar, Pandora fechou os olhos, semi deitada em uma posição que não tinha como não ser absolutamente desconfortável. Rindo suavemente para não incomodá-la, Draco cuidadosamente moveu a menina para uma posição mais normal, deitando-a sob as confortáveis e macias cobertas, acariciando seu cabelo toda vez que ela fazia menção de acordar.



— Qualquer pessoa a quem eu conte que fui pai tão jovem vai me dizer que sou louco. — ele lambeu os lábios, nervosamente, ainda que ela não pudesse ver. — Duas vezes mais louco porque escolhi isso. E metade dessas pessoas vai julgar muito o que eu estou para fazer, anjo, mas é necessário e eu… Eu vou ser o melhor pai que eu puder, aqui ou lá. São só alguns anos e idas e vindas, e sua mãe está certa de ter medo. Não vai ser fácil, mas seu futuro merece isso, e pensa na quantidade de coisas legais dos Estados Unidos que você vai… Bom, conhecer não vai poder, eu acho, seu avô não permitiria, perigoso demais. — ele pausou por um instante, e segurou a mão minúscula da filha. — Mas eu prometo trazer todos os presentes e fotografias e novas histórias possíveis.



A menina já estava muito longe dali, adormecida profundamente e respirando com calma, completamente sem saber o que estava para acontecer, ou como sua vida mudaria imensamente nos anos por vir. Ele sentiria uma falta imensurável da filha, que havia cravado suas garrinhas nos corações de todos. Talvez por isso ela gostasse tanto daquela droga de história. Com um gosto amargo na boca, Draco disse para si mesmo que aquela história horrorosa seria sempre deles. Que ele poderia contar trechos por carta, e sempre ler para ela quando a visitasse. Sua certeza cada vez mais tremia, mas não tinha como voltar atrás.



Fechando o livro silenciosamente, e guardando-o em seu esconderijo oficial (entre a cama e a parede, ao alcance dela), Draco beijou o dorso da mão de Pandora e se levantou, procurando não chorar. Por vários segundos, ele imaginara não estar sozinho, então ao ver a sombra de alguém parado a porta, ele nem mesmo se assustou.



— Há quanto tempo está aí? — o loiro perguntou, ainda olhando para a filha.



— Tempo o suficiente. — Voldemort passou pela porta sem fazer barulho algum, daquela maneira sobrenatural que somente ele conseguia. Um copo de uísque de fogo foi oferecido a Draco, quando o outro bruxo estava próximo o suficiente.



— Não é como se ela fosse se lembrar… disso tudo, no futuro.



— Pandora? Ela não. — Voldemort bebeu da própria dose, e Draco decidiu ignorar a forma estranha como o perfume de Melinda estava impregnado no pai dela, não que fosse impressionante, considerando que ele precisara segurar a bruxa. — Quando você voltar, vão iniciar uma nova vida e seguir dali. Quer dizer, minha filha só me conheceu aos quatorze anos, então eu tenho que pensar assim.



— Sua filha cresceu te venerando. — Draco riu-se. — A minha vai me odiar.



— Porque você escolheu a mãe errada para ela? — a pergunta de Voldemort soara estranha demais, e Draco se virou, encontrando o Lorde sério. Um arrepio chegou a percorrer o corpo do mais jovem, que não tinha experiências muito interessantes com a seriedade ou irritação de Voldemort.



— Porque decidi me tornar o homem certo pra elas. Bom, pelo menos para a Pandora. A Melinda, a julgar pela reação dela… — Draco negou com a cabeça. — Essa sim nunca mais me perdoa.



— E nem sei se devia. — Voldemort respondeu, com uma sinceridade cortante. — Por mais digno que seja o que você decidiu fazer, Malfoy, a execução foi horrenda. Melinda merecia mais do que aquele desastre, mais respeito. Eu bem sei o preço que pessoas como nós e todos ao nosso redor têm de pagar, não me entenda errado, mas jamais subestime a minha filha novamente, em aspecto algum. — Draco engoliu seco e assentiu. — Agora, além de ir embora, você a traiu fazendo tudo pelas costas dela, e questionou a compreensão e maturidade dela. Como eu disse, não sei se ela devia perdoar.



— E eu imaginando que estava aqui para me encorajar



— Ah, não se engane, estou do lado da minha filha. Sempre. — ele olhou na direção da neta e de volta para Draco. — Se essa noite te ensinar qualquer lição, que seja essa. Ela é minha prioridade, como a Pandora é a sua. E, para ser franco, Melinda já passou por coisas demais nos últimos meses, abandonos demais, para ficar como medidor de sucesso de sua expedição de conhecimento pessoal.



— Milorde?



— Visite a sua filha quantas vezes quiser, Malfoy, seja um pai presente, mas deixe a minha em paz. — Draco arregalou os olhos e balbuciou alguma coisa sem sentido. — Até você ter certeza absoluta de que você fez tudo o que precisava, que se sente digno de retornar de uma vez por todas, mantenha-se longe dela. Porque eu não vou assistir a Melinda criar esperanças novamente, para depois ter que catar os pedaços que você deixou para trás porque ainda se sentia inferior. — Ele parou por um instante. — Oficialmente, ela sempre estará um nível acima de você. A questão aqui não está em títulos, ou atribuições, e sim em problemas seus consigo mesmo, Malfoy. Ela jamais cometeu o erro de te colocar abaixo dela, foi você quem fez isso. Agora se resolva, antes de afundá-la nessa bagunça de novo.



Draco finalizou a bebida entre seus dedos e fechou os olhos por um momento, respirando profundamente. Voldemort estava irritantemente certo, mais uma vez. Suas próprias inseguranças haviam cavado um penhasco entre ele e Melinda, que só havia piorado com o distanciamento dele da frente de batalha, após a guerra. Primeiro, tentara seguir o caminho que seu pai queria. Depois, o caminho que Melinda se orgulharia mais. Agora, ele precisava traçar o próprio futuro, livrar-se de seus medos e de sua zona de conforto. Nos EUA, ele não tinha rede de segurança, estava em território inimigo, vendendo uma mentira com um sorriso no rosto, e estava morrendo de pavor. Ótimo. Ele era melhor do que o moleque mimado que vivia na sombra do pai rico e da namorada poderosa. Precisava ser.



— Isso tudo… — Draco começou, incerto. — Foram avisos do meu sogro, ou ordens do meu rei?



— Os dois. Não se esqueça.



— Imaginei…



— Um quarto de hóspedes foi preparado…



— Claro, porque ela não vai me aceitar no nosso quarto. Que voltou a ser o dela. — Voldemort assentiu. — Agradeço, Majestade. E… não vou me esquecer disso tudo.



Movendo os dedos milimetricamente para ajeitar o cobertor de Pandora, Voldemort respondeu que tinha certeza que ele não ia, porque caso esquecesse ele o lembraria. Draco tinha certeza que, mesmo com o tom suave, aquela fora uma ameaça. Olhando uma última vez para a adormecida Pandora, ele compreendeu o sentimento. Deixando o quarto ainda sob o olhar atento de Voldemort, Draco considerou pedir algo estúpido. Pedir para que o Lorde das Trevas cuidasse das duas, enquanto ele corria pelo mundo para se provar a si mesmo e a eles. As palavras jamais deixaram sua boca, é claro, ele não era assim tão idiota. Era o pedido mais sem propósito, em meio a toda a bagunça. Tomado pelo sentimento de que Voldemort sempre as protegeria, por mais que Melinda fosse perfeitamente capaz desse trabalho, Draco deixou o quarto. Foi somente quando estava já no meio do corredor, acompanhado de um dos servos, que ele percebeu com um sorriso que a palavra que dominava seus pensamentos, “sempre”, não vinha de sua própria mente. Olhando por cima do ombro, ele encontrou somente um quarto escuro e vazio, exceto pela criança que nele dormia.





 



Mansão Malfoy - 24 de Dezembro de 1998



 



A mesa estava posta, os diversos pratos, talheres e taças brilhando sob a luz das velas e alguns encantamentos que Narcissa aprendera cedo demais. Quem olhasse para cima, veria uma centena de flocos de neve que caíram reluzentes, sem nunca atingi-los. Em tons de vermelho, verde e dourado, a casa inteira traduzia a festividade da época e a alegria que sua anfitriã sentia.



Estonteante em um vestido de veludo vermelho, que terminava mais longo do que o recomendado e arrastava dramaticamente no chão, Narcissa mal conseguia conter a felicidade que tomava conta de si. Aquele seria o primeiro Natal de sua nova vida, uma em que ela havia se libertado da infelicidade que a assolara por tanto tempo, em que ela tinha esperanças para um futuro com mais sorrisos.



Seus convidados naquela noite eram basicamente família, mas era com o fato de que uma parte dessas pessoas formavam a família real que ela justificava estar vestida para um baile de gala, com jóias exageradamente grandes e brilhantes, e o cabelo preso e um alto e complicado penteado.



— Espere Melinda chegar, e verá que não estou exagerando. — ela reclamou, quando Rodolphus fez um comentário engraçadinho sobre como ela faria todos se sentirem mal vestidos. — A minha amada nora vai equilibrar tudo. E se minha irmã estivesse aqui…



— Sua irmã, como todos nós sabemos, tem um caso sério de megalomania. — Rodolphus riu-se. — E seria a rainha, se estivesse aqui.



— E quer dizer agora que só porque elas são realeza, eu não posso estar ao nível delas? — Narcissa colocou as mãos na cintura de forma dramática, e encarou Rodolphus com uma expressão de falso desgosto. — Além do que, não é como se você tivesse se rendido à tradição dos suéteres feios de Natal.



Sentado com um copo de uísque de fogo entre os dedos, num terno de camurça escura, algo entre um verde muito escuro e o preto, com abotoaduras que provavelmente alimentariam uma família pequena por um mês, ele teve a dignidade de corar.



— Eu só estava brincando.



— Sei. — Narcissa ajeitou o último guardanapo bordado que ainda lhe parecia torto. — Você tem achado o Draco estranho?



A súbita mudança de assunto pegou Rodolphus desprevenido, e houve pouco que ele pudesse fazer para não gaguejar. O tom dela passara do brincalhão para o sério, e a expressão de Narcissa descera rapidamente na direção da tristeza. Sem saber muito como consolá-la, ele somente se levantou e tocou um dos ombros dela, que sorriu e colocou uma mão sobre a dele.



— Não sei, Cissy… Não conheço o Draco o suficiente, ainda. Por que a pergunta?



— Ele tem me parecido vago… Nas cartas, nas respostas quando vem aqui, está me visitando demais nos últimos dias.



— Nunca achei que ia te ver reclamar de estar vendo o Draco demais…



— Não estou, só não é do feitio dele. Por mais que me doa, meu filho está sempre ocupado, e tem sua própria família agora. — Narcissa se virou na direção de Rodolphus, que a ouvia atento, por mais que não pudesse ajudar. O pensamento a fez querer sorrir. — E ele é sempre tão entusiasmado…



Um barulho a despertou de suas dúvidas: a porta da frente havia se aberto, salvando-a de muitos mais minutos de indagações. Algo lhe dizia que o que quer que fosse, podia esperar o Natal, ou pelo menos… Ela descobriria até o fim da noite. Aceitando o braço de Rodolphus, que se livrara do copo de bebida, Narcissa se deixou ser guiada para receber seus convidados.



Para sua surpresa, somente dois de seus quatro convidados haviam chegado. Seu filho, tão crescido e lindo num terno cinza que fazia seus olhos ficarem quase brancos, e sua neta. Pandora estava com um vestido longo e festivo, com dezenas de camadas de tule e flocos de neve que cintilavam e se moviam pelo tecido. O cabelo, quase já tão loiro quanto o pai, estava em enormes cachos enfeitados por flocos de neve parecidos com os do vestido. Um dia, ela precisava descobrir como Melinda fizera aquilo acontecer, ou teria sido Draco?



— Provavelmente nenhum dos dois. — Rodolphus sussurrou de volta. Ela tinha perguntado em voz alta? — Eles moram num castelo, de uma literal família real, com dezenas de pessoas se matando para agradá-los. Uma das babás é a resposta mais plausível. Você se lembra como crescemos, Cissy, quantas vezes a sua mãe inventou um feitiço para te arrumar? — ele tinha um ótimo ponto, mas ela gostava de acreditar que Draco e Melinda eram melhores do que aquilo.



Aproximando-se o suficiente do filho e da neta, Narcissa deixou-se ser envolvida pelo abraço apertado e um pouco longo demais do filho que há tanto tempo já havia se tornado muito maior do que ela. Anos antes, ela o carregava no colo nas noites de Natal, agora ele provavelmente era capaz do contrário. Pelo canto de olho, ela viu Rodolphus tirar a neta do chão, arrancando risinhos da criança. Às vezes, ela se esquecia de que ele era a verdadeira família de Pandora. Era quase assustador como tudo havia se encaixado, e ele poderia, dando tudo certo entre eles como ela esperava, participar da criação de Pandora como sua neta, por mais que oficialmente ela não pudesse ser.



— Vovó! — ela gritou, esticando os braços, quando Draco finalmente deixou Narcissa respirar.



Tirando-a delicadamente dos braços de Rodolphus, que quase reclamou, Narcissa observou mais de perto que a menina tinha um brilho perolado no rosto, e o que pareciam pequenos diamantes. Quem estava colocando maquiagem numa criança de menos de dois anos de idade? Ela ignoraria porque era Natal, e porque Pandora parecia ter saído de uma floresta encantada de inverno, quase como se estivesse fantasiada. Era uma gracinha, ela precisava admitir.



— Pan, meu amor! Você está linda!



— Obrigada, vovó. — Pandora beijou o rosto de Narcissa.



— E você não diz que sua avó também está linda, Pandora? — Draco repreendeu, e a menina escondeu o rosto entre as mãos, envergonhada.



— Desculpa, vovó. Você é linda!



— Obrigada, Pan. Falando em pessoas lindas, onde está a sua mãe? — a pergunta foi muito mais dirigida a Draco do que à menina.



— Ela e o Lorde das Trevas tiveram algo oficial para resolver… Eles vêm direto, devem estar para chegar. — Narcissa sabia que aquilo era uma mentira. A questão que ficava era: por que eles haviam escolhido vir separados? Olhando para o lado, ela percebeu que Rodolphus se perguntava a mesma coisa.



Nenhum deles teria que se perguntar por muito mais tempo, porque pela agitação dos empregados próximos à porta, os dois famosos convidados vinham escoltados desde o portão.



— Bem a tempo. — Draco completou, desconfortável.



Narcissa não resistiu, mesmo em meio à tensão, a mandar um olhar desafiador a Rodolphus, quando Voldemort e Melinda passaram pela porta, tão bem vestidos ou mais do que ela. Colocando Pandora no chão, Narcissa se juntou a Draco e Rodolphus nas reverências, e quase riu ao ver a neta fazer o mesmo, segurando a barra do vestido para não tropeçar.



— Majestade, seja bem vindo à Mansão Malfoy. — Draco comentou, quando Voldemort indicou para que todos se erguessem. Seu filho parecia ainda mais crescido. Deixando a pesada e exageradamente longa capa de veludo ser retirada por um dos empregados humanos da Mansão, Voldemort assentiu e ajustou o paletó em seu corpo. De um tom de verde um pouco mais claro do que o de Rodolphus, mas ainda profundamente escuro, a peça de roupa contrastava com o preto do restante e ostentava o brasão dele no bolso. A esmeralda que prendia a gravata de lenço dele era o único outro ponto não preto que ele usava.



Melinda, por outro lado, não se dera ao trabalho de não ser monocromática. Do cabelo, passando pelo lindo vestido rendado, até chegar nas longas unhas, a Princesa das Trevas honrava seu título ostentando preto em todos os lugares que podia. Até mesmo os diamantes que enfeitavam suas jóias e se mesclavam a seus cabelos eram negros. Narcissa sorriu, ao constatar que mesmo quando não usava uma tiara, Melinda fazia questão de ter o aspecto de realeza, e naquela noite ela fizera isso prendendo diamantes negros em meio ao penteado que usava, quase tão elaborado quanto o da própria Narcissa. “Sua irmã tem um caso sério de megalomania” verdade e, claramente, Melinda herdara esse traço de personalidade. Dos dois lados. Os diamantes se fundiam à cor do cabelo dela, então só podia ver quem estivesse de perto, quando o brilho das pedras diferia do cabelo de Melinda, mas não importava. Ela sabia que estavam lá, e como boa filha de Bellatrix, era o que importava. Olhando com mais atenção, Narcissa percebera que o batom da jovem não era preto como primeiramente pensava, mas de um bordô tão escuro que causava confusão.



— Alteza, seja bem vinda. — Draco se dirigiu a Melinda com tamanha formalidade que Narcissa se assustou.



Melinda entregou sua capa vinho a outro empregado, que se despediu com uma reverência, e encarou Draco com tamanha frieza que quase fez o coração de mãe de Narcissa parar. Algo estava muito errado. Estendendo a mão esquerda, onde usava o anel com seu próprio brasão, Melinda observou cuidadosamente enquanto Draco beijava o símbolo obedientemente.



— Draco, tia Cissy. — ela falou, removendo a mão da dele rapidamente, e sorrindo na direção de Narcissa e Rodolphus. — Que prazer é estarmos aqui. — apesar de usando as roupas que se dava ao prazer de usar somente entre família, onde todas as imagens oficiais de jovem inocente e bela podiam ser deixadas de lado, aquela era a voz da Princesa das Trevas, a que ela usava em pronunciamentos e festas. Engolindo o nó que surgiu em sua garganta, Narcissa se aproximou da sobrinha e, silenciosamente, a abraçou.



Melinda tremeu por um momento, provavelmente lutando para manter a máscara de controle que usava, mas abraçou a tia de volta, deixando um pouco da tristeza que sentia ser traduzida no abraço, e na expressão sem vida com que encarou Narcissa, ao fim do abraço. As mãos dela estavam geladas, e a tia teve a calma de não fazer perguntas que ela não podia ainda responder. Tomando o rosto dela entre as mãos, com um sorriso, a loira deu continuidade à noite.



— Por Merlin, como você cresceu!



— Tia Cissy, por favor, você me viu outro dia… — Melinda quase soluçou.



— Eu sei, mas ultimamente você tem parecido ainda ser a adolescente que eu conheci há tanto tempo, com pouco mais de quatorze anos. — Narcissa comentou. — Hoje, você parece uma adulta. — Melinda riu-se, negando com a cabeça. — E, por Merlin, sua versão adulta se parece com ela!



— Nem me fale, Narcissa… — Voldemort concordou, com a voz tão baixa que fez parecer que foi acidental. Exceto que ele não cometia deslizes. — São duas cópias, como uma criança conseguiu não ter um traço sequer do pai, eu nunca vou entender.



— Já tinha habilidades demais para herdar. — Melinda comentou, em tom de brincadeira. — Legilimência, Ofidioglossia… — ela contou com os dedos, e foi parada por um olhar repreensivo do pai. — Só estou falando que os genes dela precisaram compensar. E eu não sei porque vocês estão tão cheios de coisa! Eu sempre me vesti assim, antes de tudo isso! E que eu sou a cara dela não é novidade.



— Exceto que antes você parecia uma adolescente com as roupas da mãe. — Narcissa respondeu, sincera, e Melinda deixou o queixo cair, em real choque. — E agora as roupas quase parecem suas. — olhando em desespero para o pai, Melinda só encontrou um Voldemort que assentia em falso desconforto. Ele estava se divertindo.



    — Você está encantadora, Mel. Sua tia está apenas te provocando, ainda que com fundo de verdade.



    — Odeio a todos vocês. — Melinda cruzou os braços. — Devia ter passado o Natal em Bordeaux, brincando de espelho com a minha mãe.



    — E, minha amada filha orgulhosa, — Voldemort passou o braço ao redor dos ombros dela. — eu não te dei essa opção? Não mandei trazerem suas malas?



    — Sim.



    — E foi você quem não quis. — ele apertou mais o braço ao redor dela, que ficava mais e mais emburrada a cada segundo. — Então não reclame.



    — Devia...



    — Tarde demais. Agora terá de nos aguentar.



    De todas as reações possíveis para aquele momento, Narcissa jamais imaginaria que veria o Lorde das Trevas, sempre tão contido e sério, brincar com a filha daquele jeito e, menos ainda, puxar ela mais ainda para seu abraço e depositar um beijo longo e demorado na bochecha da jovem, de maneira exagerada e claramente proposital para deixá-la desconfortável.



Voldemort nunca fora adepto de demonstrações públicas de afeto, e continuava não sendo mesmo em sua versão gradativamente mais humanizada. A nova personalidade cuidadosamente mais aberta, somente o suficiente para conquistar os corações de seus súditos sem que eles deixassem de temê-lo completamente, era interessante e contrastava com o gélido Lorde das Trevas que todos eles conheciam, mas mesmo assim aquilo era impagável. E Melinda concordava. Encarando o pai em completo choque, ela nem mesmo tivera forças para se debater. Afastando-se da filha como se nada tivesse acontecido, e franzindo o cenho em resposta aos olhares chocados.



— Honestamente, vocês todos precisam se decidir. — Voldemort voltara ao tom de voz sem emoção do Lorde das Trevas, de maneira tão imediata que só podia ser proposital. — Primeiro, o mundo me julga um monstro sem sentimentos e, por isso, indigno de governar, e agora sempre que pendo para o outro lado causo choque?



— Sim. — quatro respostas em uníssono.



Rolando os olhos e cruzando os braços, Voldemort suspirou dramaticamente. — Não se preocupem, o monstro sem sentimentos bons e puros ainda está aqui, e extremamente irritado com todos vocês e com o fato de que ninguém percebeu que a princesa parou de reclamar. — os olhares se focaram em Melinda, que instantaneamente ficou tão vermelha quanto o vestido da tia. — Movimentos friamente calculados, como sempre. Da próxima vez, vou simplesmente mandar a Melinda se calar, de maneira bastante rude para que todos fiquem confortáveis.



— Da próxima vez, eu não vou obedecer. — Melinda cruzou os braços imitando o pai, e recebeu um olhar que a fez repensar a resposta mal criada e fitar os próprios sapatos. Ah, ela ia, sim.



Pandora interrompeu o desconforto de todos, derrubando uma das árvores de Natal no fundo da sala, e olhando na direção de todos eles como se nada tivesse acontecido. Narcissa respirou aliviada ao ver que ela estava bem, e correu na direção da menina, assim como Draco. Sem a opção de correr na mesma direção deles, não quando estava fazendo tudo o possível para se manter afastada de Draco, e deixada entre Rodolphus e Voldemort, que começaram a discutir algo não importante sobre detalhes do novo plano de separação dos poderes, Melinda deixou-se distrair com algo fútil, para não cair no poço do qual mal havia acabado de se erguer e que dominara sua vida nos dias anteriores.



— Ótimo… — ela comentou, de súbito. — Estão os dois aqui.



Parando entre o pai e o ex-padrasto, com as mãos na cintura e os olhos semicerrados, Melinda ignorou as expressões de confusão dos dois, e os encarou em silêncio por um segundo. — Por que agora?



— Alteza? — Rodolphus balbuciou, incerto.



— Eu sempre fui a cara dela, desde pequena, uma versão mais nova dela. Por que agora estão todos tão obcecados com isso? Porque ela foi pra França?



Negando com a cabeça e sorrindo, foi Rodolphus quem respondeu à pergunta aparentemente boba. — Não, Melinda. — ele olhou incerto para Voldemort, antes de continuar. — É porque a maioria das pessoas conheceu a sua mãe quando ela tinha a sua idade, ou mais. E mesmo sua tia e eu, que crescemos com ela e sabíamos que você não era parecida com ela de uma maneira comum... como eu posso dizer? É como se aquela imagem da Bella adolescente estivesse quase apagada das nossas mentes. Assim… — ele a olhou de cima abaixo. — Agora que você está adulta, você não se parece mais com uma memória tão distante. Eu consigo dizer que o momento está muito próximo em que você se parecerá com a versão atual dela.



— Ela não está aqui para receber o elogio, Rodolphus. — Melinda arqueou a sobrancelha e sorriu desafiadora. — A não ser que esteja tentando dizer que eu pareço ter cinquenta anos.



— De forma alguma, foi ela quem esqueceu de envelhecer. Em poucos anos, será no mínimo engraçado.



— Quando eu a alcançar?



— Por volta dos trinta… e poucos, talvez.



Voldemort os encarava calado, mas com um expressão sombria que fez Rodolphus querer fazer um comentário atrevido sobre como ele devia estar contemplando seu terrível futuro. Entendendo por como o olhar de Voldemort se desviou levemente na direção dele, e como Melinda mordeu os lábios para não rir, Rodolphus engoliu seco e limpou a garganta, enxergando sabedoria no silêncio. Malditos Legilimentes natos.



— Mas é uma habilidade de família, não é mesmo? — Rodolphus olhou na direção de Narcissa, que colocava a árvore de pé novamente, com limpos e firmes movimentos da varinha, para encanto da pequena Pandora que batia palmas no colo de Draco. Percebendo que era observada, ela olhou na direção deles e sorriu para Rodolphus, antes de continuar.





 



Château de Rosier - Naquela mesma noite



 



O som do silêncio e o frio das paredes antigas, que especificamente naquela véspera de Natal pareciam imunes a todos os feitiços de aquecimento, lembravam dolorosamente uma de suas antigas moradas, a menos luxuosa que Bellatrix habitara na vida. Até mesmo o tom de cinza das pedras que formavam as fundações da casa, no escuro pareciam iguais ao de Azkaban.



Horas antes, havia ordenado que todos os servos e elfos se mantivessem nas cozinhas ou fossem para casa. O cavaleiro, que Voldemort insistia que ela tivesse, estava trancado no quarto que lhe fora designado, após dezenas de ameaças por parte daquela que devia proteger. Ameaças que ela cumpriria caso o visse, ou qualquer um deles, naquela noite.



Num cabideiro esquecido ao longe, estava o vestido que em teoria usaria na ceia de Natal, caso Melinda e Pandora tivessem vindo. Em cima de uma mesa de mogno centenária, escondida no canto do enorme quarto, estavam as cartas que haviam lhe contado seu destino naquela noite.



Duas de Melinda. A primeira explicando tudo o que acontecera em relação a Draco e, silenciosamente, implorando para que ela viesse visitá-la, ajudá-la a lidar com toda a tristeza e traição que a afogavam. Um pedido que Bellatrix, educadamente, declinara, culpando o governo Francês que devia supervisionar. Mentiras que a filha brilhante conseguia farejar, mesmo ao longe. A segunda carta simplesmente lhe informava que ela e Pandora não poderiam vir passar o Natal com ela, pois em citação direta “depois de muita discussão e alguns gritos, Draco e eu concordamos que o melhor seria ela passar o Natal aqui, com ele, enquanto as coisas estão normais. Ele não está errado, mas eu estava furiosa”.  Por que Melinda não viera sozinha, mesmo depois de Voldemort ter mandado fazerem as malas dela? Provavelmente porque o pedido silencioso da primeira carta não fora respondido.



Nunca havia passado pela mente de Bellatrix que parte de sua decisão em fugir de seus próprios sentimentos a jogaria tão rapidamente em uma encruzilhada daquele tamanho: engolir tudo o que doía e ir ajudar a filha de coração partido, ou oficializar sua fama de pior mãe já existente, e ignorar Melinda? Sua solidão natalina era um castigo pequeno, se ela fosse analisar. Que impactos teria essa separação? O quanto a relação dela e de Melinda se deterioraria? E como a relação da filha com o pai floresceria, no mesmo período? Como poderia ela reclamar? Se, afinal, era ele que estava lá para catar todos os pedaços, para curar as dores, por mais que fosse tão despreparado para esse tipo de ocasião. Tendo em vista que Voldemort havia reprimido os próprios sentimentos e matado os possíveis, por décadas, era quase incabível se acreditar que ele seria capaz de ser bem sucedido em auxiliar a filha. Rindo-se, e tomando um longo gole do vinho que se aquecia em suas mãos, Bellatrix lembrou-se que ele era capaz de tudo o que quisesse.



A terceira carta esquecida sobre a mesa ainda tinha o selo intacto. Naqueles dias, Voldemort fechava suas cartas com dois tipos de selos diferentes: o seu brasão de rei, em suas cartas e documentos oficiais, e o selo que estava naquela carta. A marca negra, o símbolo de uma correspondência pessoal, que eles haviam jurado não enviar. Mesmo em meio a tudo o que acontecia com Melinda, ela não tivera coragem de abrir a carta.



Fechando o robe ao redor do corpo, que fazia pouco em protegê-la do frio que vinha da janela aberta a que ela se recostava, Bellatrix xingou mentalmente sua incapacidade de lidar com sua atual vida. Ela escolhera estar ali. Tudo o que ela sentia era diretamente uma decisão dela. Então, por que doía tanto?



Em seu exílio auto infligido, Bellatrix passava o primeiro Natal sozinha, desde Azkaban. Lutando para esquecer as memórias de noites mais trágicas do que as na prisão com a mesma força que usava para enterrar as felizes dos dois ou três anos anteriores, a bruxa esperava que o álcool que a esquentava fosse capaz de a inebriar rápido o suficiente para que nada mais importasse. Tola ilusão. Quanto mais a noite se estendia, mais seus fantasmas a atormentavam.



O que eles estariam fazendo? Um baile na Mansão? Um jantar mais simples, somente eles? Melinda havia citado a Mansão Malfoy na carta, se ela não se enganava. Corajoso da filha, em meio a toda a tensão, de prosseguir com aquele plano. Não que ela pudesse dizer, ou que Melinda quisesse ouvir, não nas semanas seguintes, pelo menos. Ou naquele ano. A filha devia aparecer, se muito, após o ano novo. Ela não tinha esperanças que a jovem deixaria de passar o aniversário do pai junto a ele, e nem devia. O resto dos dias… Eram a contagem regressiva para a partida de Draco.



Com um nó na garganta, ela entendia que Melinda acreditava estar passando pelo mesmo que o pai. Talvez, por isso, vê-la também não fosse uma ótima idéia. Indiretamente, Bellatrix era um apoio a Draco ambulante. Como ela poderia criticá-lo, se fazia algo tão essencialmente parecido? Novamente, a pior mãe do planeta. Não que tivesse, em momento algum, sido uma pessoa maternal, mas por vezes ela mesma conseguia se impressionar com a própria falta de capacidade de ser uma boa mãe.



Afastando-se da janela, e do frio que lembrava os dementadores quando misturado à tristeza que a enchia, Bellatrix jogou a taça de cristal na direção do bosque lá embaixo, e passou as mãos diversas vezes pelos cabelos, antes de andar rapidamente até a mesa. Segurando a carta fechada entre os dedos, e deixando as lágrimas seguradas por tantas horas brotarem de seus olhos, manchando seu rosto livremente, ela contemplou sua própria fraqueza num intensidade que jamais desejaria a ninguém. Ele não mandaria aquilo, se não fosse para falar de Melinda. E ela, em seu egoísmo, escolhera não saber. Que poder uma carta, a forma como alguém desliza uma pena por um pergaminho, poderia ter? Nenhum. Eram os medos dela que tinham.



Numa tentativa frustrada de quebrar o selo inquebrável, ela caiu na cadeira, rindo de sua própria desgraça, e também de como algumas coisas nunca mudavam. Estendendo a mão para o lado, e sorrindo ao sentir o metal gelado da adaga que acabara de convocar, Bellatrix se lembrou de que aquele tipo de correspondência não funcionava como as outras. Tentando não se afogar em mais lembranças, e em toda a história que aquele pedaço de metal carregava desde que o recebera como recompensa de seu mestre, uma vida inteira atrás, Bellatrix forçou um de seus dedos contra a ponta da faca, ancorando-se na dor como uma distração da melancolia que a dominava.



Ao passar o dedo cortado por cima da cobra em alto relevo, ela observou o selo se mover por um instante, até que a carta se abriu. Um dia ela perguntaria se ele havia ligado todas as magias de sangue que a consideravam a uma única amostra, ou onde ele havia guardado o estoque infinito do sangue dela que parecia ter? A primeira resposta era mais plausível, não que algum dia a pergunta fosse ser respondida, como ela imediatamente se lembrou.



 



“Ela vai ficar bem. Acha que não vai sobreviver, mas todos sobrevivem no final, e eu vou garantir que ela esteja ocupada demais para ter tempo de sofrer mais do que devia. Ainda existem muitas lacunas no conhecimento e treinamento dela, melhor sem distrações. Não há com o que se preocupar.



Ela quis me pedir para te convocar, pela Marca, vi na mente dela. Sabia que você não ia deixar de responder, não a esse tipo de chamado, mas ela desistiu. Melhor para todos, imagino eu.”



Ele tinha feito uma longa pausa, pela maneira como a tinta manchou o pergaminho naquele ponto final.



 



“Não sei até que ponto eu teria sido capaz de negar para respeitar os seus limites, não com a Melinda no estado em que estava. Ela é o futuro de tudo isso, e que tipo de pai seria se tivesse ignorado?”  O mesmo tipo que ela, Bellatrix pensou. “E, mesmo assim, ainda agradeço que ela não o fez, me irrita profundamente saber que teria feito de tudo para não atender, por mais que saiba que devia fazer sem pestanejar. De um jeito ou de outro, ela está saindo do pior, agora. E será mais fácil quando ele estiver longe.



Novamente, não há com o que se preocupar, ela está sendo observada e vigiada de perto. Imagino que nunca vá abrir essa carta, e vou garantir que receba notícias dela por outros meios, mas caso decida abrir… Boas Festas, Lestrange.”



 



Lestrange. Aquela palavra, vinda dele, nunca deixaria de doer, mesmo por carta, mesmo considerando os diversos borrões nas pontuações, que contavam a história sobre como aquelas palavras foram difíceis de escrever. Assustando-a, a carta começou a pegar fogo por um dos cantos, fazendo-a jogar o pergaminho em chamas dentro de do lixo a seus pés, engolindo as lágrimas que queriam aumentar. Era ridículo, é claro. Não era novidade que as cartas dele se destruíam após a leitura. E aquela em específico não tinha nada de especial que a faria sentir falta das palavras ali escritas, era só um monte de tinta sobre um papel, contando coisas que ela já sabia, e tentando esconder a bagagem emocional por trás das palavras.



Enfiando a mão dentro do decote, Bellatrix puxou o cordão que segurava seu anel. Por que ela escolhia andar com um pedaço da alma dele preso a seu pescoço? Nem ela sabia explicar, mas não tinha coragem de se afastar do anel, e usá-lo no dedo era desconfortável demais, nas atuais circunstâncias.



Arriscando-se a colocar a jóia até a metade de seu dedo anelar, ainda restringida pelo cordão de prata, Bellatrix se observou no reflexo da esmeralda por um milésimo de segundo, e removeu o anel rapidamente. A impressão de que ele a olhara de volta era, provavelmente, muito mais do que um simples delírio de uma mulher alcoolizada, e ela sabia disso. Aquilo era um pedaço dele, por mais inerte que fosse.



Negando com a cabeça e escondendo o rosto entre as mãos, Bellatrix se levantou subitamente e procurou onde havia largado a garrafa de vinho. Avistando o que procurava do outro lado do quarto, próxima ao vestido que ela não usaria, a bruxa andou rapidamente naquela direção, parando apenas quando chegou ao grande espelho onde ela havia planejado se arrumar, esquecendo-se da garrafa por um momento.



Com os cabelos longos soltos, cascateando até sua cintura de forma não muito ordenada, com a camisola amassada e o rosto borrado, ela nem de longe se parecia com a imagem que sempre colocava de si e, menos ainda, com quem ela seria naquela noite, em uma outra realidade, uma outra vida.



Como ela estaria, se estivesse naquela Mansão com todos eles? Rindo-se, ela chegou a conclusão de que usaria algo muito mais quente, considerando que a Escócia era infinitamente mais fria do que a França. Provavelmente toda de verde, com mais jóias do que o necessário, e maquiagem demais para alguém que estava somente jantando com a família. Em uma outra vida, talvez Draco tivesse ficado.



Nessa mesma vida alternativa, onde a bagagem de todos eles não tivesse entrado no caminho e arruinado a vitória para eles, dando e retirando na mesma proporção, Bellatrix não estaria agarrando uma garrafa meio cheia de vinho tão cedo na véspera de Natal, ela estaria dançando e deixando todos extremamente desconfortáveis, trocando presentes excessivos, bebendo em companhia de outros, e, ao amanhecer, ela não estaria entrando debaixo das cobertas sozinha.



Terminando o vinho e deixando garrafa vazia cair aos pés da cama, Bellatrix deixou-se cair sobre o colchão macio, agradecendo silenciosamente o calor dos pesados cobertores, que a sufocavam de uma maneira estranhamente confortável. Naquela outra realidade, ela não teria que ter deixado sua vida inteira para trás, todas as suas tradições e expectativas, e havia um pedaço dela que gritava, reclamando sobre como aquela vida de seus delírios era tão melhor. Estaria ela mais bêbada do que estava naquele exato momento, após a festa de sua irmã?  Bem provável. Teriam suas belas roupas durado intactas até o quarto? A estranha pergunta a fez sorrir. Provavelmente não.



    Medindo pela história das coisas, o vestido caríssimo seria despedaçado pelo caminho, enquanto toda e qualquer pele exposta era apreciada e marcada por dedos e lábios experientes, levemente ferida por dentes que conheciam a pressão que ela apreciava. Fechando os olhos e batendo a cabeça contra a cabeceira, Bellatrix engoliu o choro e a raiva que começavam a borbulhar. Raiva de si, raiva do mundo, e daqueles pensamentos que ela era incapaz de matar. Cobrindo o próprio rosto com um travesseiro, a bruxa tentou forçar-se a dormir, entorpecida pelo vinho que devia ajudá-la a relaxar, mas as imagens não paravam de atormentá-la, e sua mente descontrolada lhe dava ideias que ela não queria seguir.



    Lágrimas ainda escorriam pelos cantos de seus olhos, e ela mordia os lábios para tentar controlá-las, assim como a vontade de percorrer as mãos frias por seu corpo, tentando copiar a maneira como ele faria. Ela precisava esquecer, e isso tornava a missão já extremamente difícil em inalcançável. Como iria esquecer a pessoa que enchia suas noites em claro? Em quem pensava ao se satisfazer? Rindo de si mesma, ela libertou suas mãos de suas amarras mentais, e deixou-as iniciar o caminho sem volta. Não era como se ela algum dia fosse ser capaz de esquecer, de um jeito ou de outro. Para ela, dor e prazer sempre foram dois lados de uma mesma moeda, e era somente natural que esse fosse seu primeiro instinto para afogar a dor que tomava conta de cada canto de si.





 



    Mansão Malfoy - 25 de dezembro de 1998



 



    00:00.



A décima segunda badalada foi acompanhada pela abertura de uma garrafa de champagne. A explosão causara gritinhos de animação vindos de Pandora que, mesmo que não pudesse apreciar a bebida, via magia na maneira como as borbulhas desciam descontroladas para fora da garrafa, manchando as mãos de seu avô postiço — ou pelo menos era assim que ele lhe fora apresentado. Após uma longa discussão sobre quem devia estourar a garrafa, Rodolphus recebera a estranha honra, inesperadamente.



Aparentemente, apesar da fachada educada e polida, Voldemort estava tudo menos festivo. Melinda, que carregava a mesma máscara inexpressiva tão comumente usada pelo pai, menos ainda. Draco não se preocupara em fingir, o rosto aborrecido se iluminando somente ao brincar com Pandora. Ele e Narcissa eram os únicos com espíritos contentes e festivos, e Rodolphus adoraria entender o porquê. Exceto em relação a Voldemort, cujos motivos eram evidentes e praticamente públicos.



— Chega a ser irritante, — Rodolphus comentou, ao entregar a taça ao rei, que estava parado junto a uma das janelas, enquanto os outros iam se posicionando próximos à mesa de jantar. Atrás de si, Lestrange ouvia Narcissa se aproximar de forma rápida e quase desesperada. Não faça isso, era eu pedido desesperado. — como ela se faz presente, mesmo a quilômetros de distância. — o som de reprovação vindo de Narcisa confirmada sua teoria.



Voldemort, apesar dos temores da loira, apenas riu-se de maneira abertamente amarga e aceitou a taça. — Tão óbvio assim? — a crítica a si mesmo impressionou os outros dois. — Já fui melhor em esconder meus pensamentos.



— Em sua defesa, — Rodolphus deu de ombros, quase desconfortável. — tenho certa experiência no tema.



Narcissa havia parado abruptamente, próxima aos dois homens, e cruzado os braços, com uma expressão nervosa no rosto. Aquele era um vespeiro em que Rodolphus não devia estar mexendo. Era Natal, eles mereciam paz e tranquilidade. Voldemort, contudo, continuava a surpreendê-los.



— Não há necessidade de tentar me animar, Rodolphus, até porque todos nós sabemos que estou colhendo os frutos de meus erros. — ele olhou na direção de Narcissa e de volta pra Rodolphus. — Meu único e real consolo é ter a certeza de que nossa amada Bellatrix também está. — ele bebeu o uísque de uma vez e Narcissa franziu o cenho, o tom vingativo na voz dele beirando o incômodo.



— E eu espero que realmente esteja. — a loira comentou. — Porque eu juro que se ouvir mais uma vez o nome daquela ingrata que, além de recusar meu convite por pura infantilidade, continua a estragar a noite para todos nós, as coisas ficarão muito complicadas nessa casa.



Os dois homens franziram o cenho e encarraram a loira com um misto de orgulho e surpresa, negando com a cabeça. Voldemort, no entanto, parecia estar se repreendendo mentalmente por permitir tamanha ousadia — mas era incapaz de fazer algo, porque era interessante demais.



— E não me olhem assim. Majestade, perdão pela forma como falo, mas essa ainda é a minha casa, minha festa, e só quero uma ceia que não seja marcada por um tipo bizarro de luto direcionado a quem escolheu não estar conosco, com motivos ou sem. — ela respondeu às dezenas de perguntas silenciosas, e ajustou o vestido. — Agora… se pudermos? — ela apontou para a sala de jantar, onde Draco e Pandora brincavam observados por uma calada Melinda.



Voldemort e Rodolphus andaram até a loira, e lhe ofereceram o braço quase ao mesmo tempo, num silencioso pedido de desculpas. Abrindo e fechando os lábios, Narcissa olhou de um para o outro algumas vezes, indecisa. Aceitando, por fim, o braço de Voldemort, Narcissa não se impressionou com o protesto exagerado de Rodolphus.



— De novo não! — ele comentou, andando atrás deles, de forma dramática. — Até você, Narcissa? É de família essa palhaçada?



— Monarca, meu convidado, com quem acabei de ser bastante malcriada. — ela respondeu, por cima do ombro. — Desculpe, você vai superar.



— Lestrange, por Merlin, o que pensa de mim? Não há porque ficar tão afetado, não é como se eu fosse capaz de arruinar seu relacionamento… — após uma pausa muito maior do que o necessário, o suficiente para ouvir um protesto exagerado de Rodolphus e receber um olhar reprovador de Narcissa, Voldemort suspirou e continuou. — pela segunda vez.



Narcissa deixou uma pequena risada escapar de seus lábios, e rolou os olhos, negando com a cabeça. Decidindo não entrar no mérito sobre como ela não era sua irmã e nem mesmo estaria interessada no Lorde das Trevas, pelo menos não àquela maneira, Narcissa decidiu deixar o assunto morrer. Afinal de contas, era somente uma brincadeira, e o silêncio sepulcral na sala onde adentravam lhe contava que ela tinha problemas maiores.



 



O silêncio reparado por Narcissa desde a chegada da nora, e que fora somente intensificado com o passar do tempo, não melhorara durante a Ceia. Draco e Melinda mal se encaravam, e Pandora não parecia estranhar o distanciamento dos pais. Tampouco Voldemort reagia de maneira que indicasse a ela que ele não sabia o que estava acontecendo. Somente ela e Rodolphus estavam ignorantes ao que quer que estivesse acontecendo.



— Vamos ter que fazer isso do jeito difícil? — a loira questionou, repousando os talheres ao lado do prato de porcelana. Os demais presentes levantaram os olhos em sua direção, Draco e Melinda se entreolhando em entendimento, mas sem falar uma palavra sequer. — Vamos mesmo brincar de família feliz, enquanto vocês nem mesmo se olham, e fingir que está tudo bem?



Melinda abriu e fechou os lábios diversas vezes, até fitar o próprio colo, ouvindo Draco balbuciar alguma desculpa mal concebida sobre o porquê de o clima estar tão esquisito. Não era necessário ser um gênio para saber que Narcissa jamais aceitaria somente aquilo como resposta, ou que ninguém ali era idiota o suficiente para realmente acreditar naquela baboseira. Batendo o pulso na mesa com força, Melinda levantou os olhos para encarar Draco, os olhos verdes faiscando de maneira perigosa, quase o bastante para fazer o loiro questionar sua própria visão ao pensar que, por um momento, os olhos dela haviam se tornado tão vermelhos quanto os do pai.



— Por Merlin, se você não é capaz de me respeitar, respeite a sua mãe! — a fúria na voz de Melinda não somente confirmou os medos originais de Narcissa, como também criou uma dezena de novos para incrementar a coleção.



— Melinda… — Draco alertou, negando com a cabeça.



— É Vossa Alteza Real para você, Malfoy. — Melinda se levantou, jogando o guardanapo bordado sobre a mesa, de maneira estranhamente delicada. Fazendo um sinal para que os outros não se levantassem, ela fez menção de se afastar da mesa.



— O que está acontecendo? — Narcissa se levantou, ignorando o sinal da sobrinha, e olhou de um para o outro, esperando respostas. — Draco?



— O que está acontecendo, tia Cissy? — Melinda lambeu os lábios e pegou a taça de vinho que havia deixado esquecida na mesa. — É que o seu filho passou a noite toda esperando que eu fizesse o trabalho sujo dele, que eu tivesse um surto de raiva e aliviasse o fardo de te contar a verdade. Bem, isso não vai acontecer. — virando a taça de uma só vez, ela deu de ombros. — Ele que crie coragem. — girando nos calcanhares, para encarar Draco que acabara de se levantar, e apontando a taça para ele, a jovem completou. — E não se atreva a negar, Malfoy, eu leio a sua mente, se lembra? — engolindo seco e desviando o olhar, ele suspirou. — Boa sorte, você vai precisar. Eu… bem, eu vou levar minha filha pra casa. Ela não precisa assistir esse show de horrores.



— Ela já está assistindo a um show de horrores, alteza. — Draco cuspiu de volta. — O seu. E ela ainda não abriu os presentes dela.



— Pandora, querida, nós estamos indo. — ignorando os protestos de Draco, Melinda andou até a cadeira onde a menina estava e a pegou no colo. Escondendo o rosto no ombro da mãe, Pandora somente assentiu triste. — A vovó amanhã vai lá em casa passar o dia de Natal com a gente, e abrimos seus presentes, ok? — diferentemente do tom agressivo que usara com Draco, a voz da princesa era calma e baixa, quase melódica.



A criança questionou porque não podia abrir os presentes naquele momento, mas aceitou bem a explicação de que “o papai e a vovó precisam conversar”. Olhando na direção de Rodolphus, ao dizer aquilo, Melinda indicou que talvez fosse melhor ele os deixar. O homem, contudo, não tinha intenção alguma de deixar Narcissa sozinha. Algo muito ruim estava por vir, e o escândalo de Melinda parecia ser somente uma pequena amostra do que viria a seguir. O silêncio de Draco, a expressão culpada e a forma horrorizada com que Narcissa observava a tudo sem tentar impedir não eram bons presságios.



Voldemort se mantivera absurdamente calado durante a coisa toda, por ter conhecimento de todos os detalhes do que exatamente de errado estava acontecendo e, possivelmente, por acreditar que Melinda tinha todo o direito de estar magoada e furiosa do jeito que estava. Levantando-se da mesa, e se aproximando cuidadosamente de Narcissa, ele murmurou um agradecimento pela noite e beijou o dorso da mão da loira, que sorriu fracamente em resposta e fez uma reverência. — Narcissa… — ele olhou por cima do ombro, antes de sair, quando a filha já estava quase na porta. — É necessário. — ela levaria muito tempo ainda para entender exatamente o que era necessário, e gostaria ainda menos do que Melinda.



 


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Comentários: 1

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Enviado por halfbloodprincess7 em 17/04/2019
Aaaaaah *_* há doze anos que sou emocionada e um pouco perturbada por essa fic. Draco e Mell E Voldie e Bella de mal é demais pra mim. Não consigo lidar com a falta de nc e paixão haha mas o capítulo tava incrível, como sempre. MORRI com o dez de novembro (pra quem não sabe é o meu aniversário, sou eu que inspiro a Gabrielle, e tenho muito orgulho disso). Louca pela captura da maldita Parkinson, tenho certeza que isso será um show e no dito momento Voldemort e Bellatrix vão comemorar JUNTOS (tem que ter fé nessa vida). No aguardo pelos próximos <3
Nota: 0

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