ANTES:
Hermione Granger sempre foi uma garota inteligente e dedicada. Desde pequena, seus pais se orgulhavam não só de suas notas impecáveis, como também da pessoa doce e responsável que puseram no mundo. John e Margareth eram dentistas na cidade de Birmingham, Alabama, onde moravam há mais de vinte anos. A vida era bela ali, e nada poderia aumentar essa felicidade. Apenas talvez quando Hermione estivesse segura na vida, casada com o mais novo dos garotos Weasley. Ela e Ronald eram namorados, então as coisas pareciam já estar encaminhadas. Esse era o grande sonho não só de John e Margareth, como também do senhor e da senhora Weasley. Seus filhos tinham praticamente a mesma idade e eles torciam por tal união desde cedo.
Os Granger conheceram Molly e Arthur Weasley na primeira consulta do pré-natal da filha. Uma animada conversa na sala de espera do obstetra foi o começo de uma linda amizade que somente se solidificou com o tempo. Enquanto Margareth era mãe de primeira viagem, Molly havia dado a luz outras cinco vezes até então. Na ocasião isso tranquilizou e chocou os Granger ao mesmo tempo. Enquanto enfrentavam os desafios comuns desse período e aproveitavam os deleites do momento antes de trazer vida nova ao mundo, os casais confabulavam a respeito do futuro de seus filhos. Para isso bastou saberem o sexo dos bebês.
A senhora Weasley ficou levemente decepcionada por não ter uma garotinha no ventre, como tanto queria. Após cinco meninos — seis com o que ainda carregava na barriga — era natural tal reação. Molly estava decidida a tentar até que sua menina viesse ao mundo. Entretanto, a matriarca logo encontrou consolo no fato de Margareth conseguir uma garota logo na primeira gravidez. Afinal, quando crescessem seus filhos poderiam namorar e unificar as duas famílias. E o que não faltou foi incentivo por parte dos adultos.
Ronald Weasley e Hermione Granger frequentaram as mesmas turmas desde o jardim de infância, e por causa da amizade dos pais era comum que brincassem juntos. Margareth sempre ia para a Toca dos Weasley com o pretexto de conversar com a nova melhor amiga, aproveitando para levar a pequena Hermione junto. E os laços apenas se intensificaram quando Molly anunciou a última gravidez poucos meses após o nascimento de Ronald. Ninguém em toda cidade de Birmingham ficou mais feliz que Molly, que finalmente realizou o sonho de ter sua menininha.
E assim o tempo passou, com Gina, Ron e Hermione aparentando a mais perfeita união. Molly, Margareth, John e Arthur eram pais orgulhosos, pois o afeto entre a nova geração dos Granger e Weasley era admirável. Os três mais novos só experimentaram a separação com a aproximação da fase adulta.
Ronald amava futebol e era goleiro em um dos times da cidade. No fim de seus dezessete anos teve seu talento reconhecido por um olheiro de um time em ascensão da Inglaterra, recebendo a proposta de jogar profissionalmente em outro país. Molly, é claro, ficou radiante pela conquista do filho. Entretanto, a preocupação pelo futuro dele fez com que a senhora Weasley impusesse como condição que o jovem usasse parte do salário para pagar algum curso em uma faculdade inglesa. Isso não era negociável. Já Gina se formou em uma das melhores escolas de artes do sul dos Estados Unidos.
Quanto a Hermione, não foi surpresa para ninguém quando ela anunciou que cursaria Letras. Quando fascinada com algo seu interesse era evidente aos demais, e o amor pelos livros sempre a acompanhou. O que não esperavam é que ela fosse admitida em Cambridge, mesmo lugar em que Ronald pretendia se formar em Educação Física.
No terceiro semestre seus parentes em Birmingham receberam a notícia que os jovens finalmente namoravam. Os pais de ambos finalmente estavam em paz. A vida era bela, e a alegria um presente constante. A felicidade reinou por tempo suficiente para parecer que seria eterna.
Entretanto, havia um porém que não passava pela cabeça das pessoas que aparentavam ter a vida perfeita. Havia algo de errado no relacionamento de Ron e Hermione, algo que nem mesmo a garota desconfiava naquela noite de tempo agradável.
Após o término da faculdade o ruivo continuou sua carreira na europa, mas ela voltou para o Alabama porque seu pai estava com problemas de saúde. Faltavam dias para o aniversário de Ronald, que foi praticamente convocado pela senhora Weasley a voltar para casa e comemorar a data jantando com todos os parentes no melhor restaurante da cidade. Até mesmo Gui, recém-casado, viria de Nova Iorque com a esposa para evitar um discurso sobre ingratidão. E se o filho mais velho poderia vir de tão longe, por que não Ronald que jogaria um amistoso a poucos quilômetros dali? Ron não tinha escolha, mas pediu sigilo a mãe. Então, é claro, várias pessoas sabiam. Ele disse que só poderia ficar por um ou dois dias, e enfim chegaram a um acordo. Jantaria com a família e poderia partir em paz. Ao menos foi o que imaginou que aconteceria.
Hermione voltava da Gemialidades Weasley após combinar os detalhes da festa surpresa que o namorado ganharia. A loja de logros pertencia a Fred e George, e como irmãos do aniversariante os gêmeos não tinham como negar ajuda. Caso tentassem, Gina protegeria os interesses de Hermione, por mais que desaprovasse o relacionamento entre o irmão e a melhor amiga. A garota aproveitou o passeio para se certificar novamente que os gêmeos não fariam nenhuma de suas brincadeiras. Não seria a primeira vez. Agora indo para a residência dos Granger junto com a morena, a caçula de tão numerosa família chupava um pirulito e cantava na rua sem se importar com os olhares que recebia.
I'll take you to the candy shop
(Vou te levar pra loja de doces)
I'll let you lick the lollipop
(Vou te deixar lamber o pirulito)
Dividida entre estar mortificada e admirar o jeito extrovertido da amiga, Hermione riu a contragosto.
— Céus, Gina, você é indecente!
A mais nova então tomou aquilo como encorajamento e tentou alguns passos de dança sem pudor algum, atraindo cada vez mais atenção. Sabia que ao contrário dela, Hermione ficava tímida por qualquer coisa e não falava palavrões. Sendo assim, envergonhá-la era uma fonte de diversão inigualável. Sem contar que estava com os bolsos cheios de doces, então sua alegria era mais que justificada.
— Não sei do que está falando, Granger. — O sorriso sardônico tornava a mentira evidente.
— É claro que não. Vamos, preciso conferir se esqueci alguma coisa e meu celular ficou em casa. Experimente fingir que é normal até lá.
Em um instante as garotas estavam na casa dos Granger, com Gina comportando-se como se fosse a mais delicada das moças. Isso até ver que os pais de Hermione não estavam em casa. No pouco tempo em que a amiga se ausentou, ela se jogou no sofá e lá derrubou farelos das guloseimas que foram deixadas ao seu alcance. Sabendo que as garotas ficariam ali, John e Margareth deixaram agrados para as duas antes de saírem para jantar. O buraco negro no estômago de Gina agradecia pela gentileza.
Quando a morena voltou do quarto já com o celular em mãos fez uma careta para a cena, seu desconforto sendo solenemente ignorado. Foi até a área de serviço buscar os materiais necessários para limpar tudo aquilo. Já na sala viu que Gina lhe ofereceu refrigerante e não falou nada durante um bom tempo. Aproveitou a quietude para limpar a bagunça.
— Pode me responder uma coisa, Mione? — Genuinamente curiosa, Ginevra Weasley perguntou em um tom doce. Não esperando resposta, continuou. — Se faz tanta questão de namorar um idiota, por que logo Ronald? Há imbecis mais bonitos no mundo.
— Não comece com as implicâncias. — Respondeu achando graça. Não era a primeira vez que teria aquela conversa, e tampouco conservava a esperança de ser a última.
— E daí que não funcionou das primeiras quinhentas mil vezes em que eu tentei alertá-la? Continuarei repetindo que Ronald é um babaca egoísta que não te merece. Há um limite de até onde respeito seu direito de estragar a própria vida como bem desejar.
— Precisa mesmo usar tantos palavrões para se referir ao seu irmão?
— Mas de que porra você está falando?
— Acredito ter sido clara, Ginevra.
Gina bufou. Odiava ser chamada pelo nome de batismo que, a seu ver, era horrível. “Ginevra” não fazia justiça a beleza de suas feições ou de seu bondoso coração. Então para se vingar, devolveu o favor chamando Hermione pelo apelido que sempre irritou a morena.
— Sabe-tudo.
— Ok, estamos quites. Já terminou de ofender meu namorado por hoje?
— Eu ainda preciso dizer algo sobre a festa. Não acho que essa seja a melhor ideia que já teve. Para falar a verdade não entendo por que se dar ao trabalho de armar tudo isso.
— E por que não? Seu irmão chegará de viagem e merece as boas-vindas. É o aniversário, tem que ser comemorado.
— Ronald é um idiota, Mione. Ele deveria estar com saudades, em vez disso voltará para a cidade sem te avisar. Que tipo de namorado faz uma coisa dessas?
— É claro que Ron queria me surpreender, então só resolvi me adiantar.
— Ou talvez ele queira te ver pelas costas. Você merece coisa melhor.
Controlando-se para não rolar os olhos, Hermione apenas sorriu perante o zelo excessivo da amiga em relação a sua pessoa. A Weasley era um ano mais nova, porém sempre cuidou dela como se fosse a mais velha ali. A idade era apenas um mero detalhe, já que Gina por vezes tentava protegê-la como se fosse a responsável pela integridade de Hermione. Aquilo estava muito longe de ser verdade, já que a ruiva era o verdadeiro perigo a tranquilidade de seus dias.
— Não entendo por que diz isso do seu próprio irmão.
— Porque é a mais pura verdade, Ronald te faz mal. Acontece que você, como a boba apaixonada que é, não enxerga isso.
— Me diga uma vez em que Ron me fez algo de tão terrível.
— Você se lembra por que chamamos a casa da árvore de “Casa dos Gritos”? — Inquiriu com a sobrancelha arqueada.
— Houve um incidente em que eu fiz um escândalo por quase cair de lá, então George…
— Não. — A cortou. — Na semana anterior ao tal “incidente” mamãe provavelmente estava desesperada por um minuto de paz e nos mandou ao mercado. Eu, você e Ronald. Então você viu um rato na rua e entrou em pânico. Dias depois meu irmão decidiu que queria um animal imundo para combinar com sua personalidade podre e arranjou o Perebas. Subiu no nosso refúgio na noite das garotas e você quase morreu do coração ao ver aquele rato idiota. O Perebas, no caso.
— Não me lembre daquele monstro. — Hermione pediu com repulsa.
— Estávamos na maldita casa da árvore e o babaca do caralho surgiu com o rato nos ombros. Devo refrescar sua memória, Mione? Naquela noite você quase caiu lá, e gritou tanto que ficou rouca nos dias seguintes. Ainda lembro que na tentativa de fuga ficou de cabeça para baixo, presa pelas pernas enroscadas nas cordas. Não fosse por Carlinhos resgatá-la a tempo… — Ela interrompeu o discurso, lembrando com rancor do que Ron causou. — Bom, o fato é que você morre de medo de altura desde então. George ao menos esperou um pouco para rebatizar nosso refúgio, o que foi muita gentileza se considerarmos o fato que os gêmeos, claramente, não prestam. Casa dos Gritos foi o nome perfeito, graças as merdas de Ronald. Então não diga que estou errada em me opor a esse lindo romance que só existe na sua cabeça e na dos nossos pais.
— Tínhamos treze anos, Gina.
— Não ouse defender o infeliz. Umas das minhas primeiras memórias é de quando Ron te fez morder uma cebola como se fosse um pedaço de maçã. Ele é o motivo que hoje você inventa para as pessoas que tem alergia a cebola, pois é mais fácil que explicar a natureza da sua aversão. É incrível como Ronald é responsável por todos os seus traumas.
— Nós não passávamos de crianças.
— Isso só acontecia com vocês, as outras crianças sempre foram normais. Meu irmão só te infernizava. Sinto muito, amiga, mas duvido que fosse por gostar da sua companhia ou para chamar sua atenção.
— Isso não faz diferença agora que somos namorados. Eu amo seu irmão, e se ele está comigo é por sentir o mesmo. Ronald é meu primeiro amor, Gina. — Hermione ficou sem jeito, e para disfarçar a timidez passou a bebericar o refrigerante intacto em suas mãos.
— Mas você estudou em Cambridge, caramba! Não é possível que não tenha se encantado por um belo rapaz com sotaque inglês. Estar na terra da rainha e não aproveitar os encantos masculinos do lugar… O que fez foi quase um crime!
— Ok… — Hermione ria, mas o deboche não incomodou a mais nova dos Weasley. Ela era a rainha da desfaçatez.
— Você tem fetiche por ruivos, é isso?
Enquanto Hermione engasgava com o refrigerante que não havia sido cuspido na hora, a amiga a encarava como se não tivesse dito nada de mais. Felizmente, a morena se recuperou logo. Arrumando a bagunça que fez, se voltou para Gina com as feições coradas.
— Você é o ser humano mais surtado que conheço. — Quando o ser humano em questão fez menção de responder, foi interrompida. — Não me agradeça, tenho para mim que isso não foi um elogio.
Ginevra Weasley deu de ombros, ainda achando graça da situação.
— O que é? Você é toda romântica e eu respeito isso, apesar de te achar completamente louca. Mas se quer mesmo ser minha cunhada, posso até ajudá-la. — A expressão da sabe-tudo continha tanta desconfiança que a Weasley se sentiu obrigada a explicar seu ponto. Gina já havia mostrado que era contra aquele namoro vezes demais. — Tenho vários irmãos, Mione, todos solteiros e ruivos. Escolha o que melhor a aprouver e divirta-se. Mas não muito, ainda quero ser sua Weasley favorita em todo o mundo.
— Você é louca. E não que faça diferença já que considero o Gui como um irmão mais velho, mas ele acabou de se casar.
— Gui e a Fleuma? — Gina mostrou todo o seu despeito valendo-se do apelido que usava para falar da cunhada quando ela não estava presente. — George acha que eles não duram cinco anos, Fred apostou em no máximo três.
Ela parou de falar e fingiu prestar extrema atenção em um quadro enquanto o rosto salpicado de sardas aparentava inocência. Esse era o problema, havia inocência demais e Gina simplesmente não era assim.
— Só eles?
— Talvez devêssemos colocar músicas mais animadas, Mione. Não quero que os convidados durmam na festa. — A mais nova não foi sutil ao tentar mudar de assunto. — O que acha?
— Não sei porque perco meu tempo perguntando, é claro que não seria você a ficar de fora. Não duvido que a ideia tenha sido sua.
— Ganho quinhentos dólares se o divórcio sair em um ano e meio. — Ela respondeu simplesmente.
— Gina! — A advertência se perdeu no ar, suplantada pela gargalhada escandalosa da mais nova.
— Me perdoe, acabei de te imaginar com Percy. Para seduzi-lo é só se fantasiar de qualquer moeda do século passado. Nossa, você terá um orgasmo em minutos. Orgasmos múltiplos!
— Ginevra! — Mortificada, Hermione olhou na direção da porta de entrada, apenas para ter certeza que seus pais não haviam chegado. — Pare de falar obscenidades na minha sala de estar.
— Prefere no quarto, doçura? — Perguntou com um sorriso perverso.
— Você é mesmo uma cretina. E isso continua não sendo um elogio.
— Já você é uma lady inteligente e gentil, mas tenho esperança que um dia cometa uma loucura que ultrapasse os limites do estúpido. Torço tanto para isso que seria capaz de usar um daqueles uniformes de líder de torcida para expressar meu orgulho. Quando isso acontecer, porque eu sei que vai, lembre-se do que conversamos hoje.
— Não vou me tornar uma delinquente, independente do plano maligno que arme contra mim. E para você meu namoro com Ronald já é estupidez.
— Me refiro a uma loucura admirável, algo que se lembrará com orgulho quando for uma velhinha rabugenta.
— Sei. — Hermione observava cada vez mais interessada enquanto Gina expressava o que desejava para seu futuro. Viver uma aventura ou duas não seria de todo mal.
— Um dia você mandará o controle para a casa do caralho e fará algo realmente estúpido. Eu estarei lá para prestar meu apoio... Com trajes de líder de torcida, mas estarei. — Ponderou um pouco. — Pompons são negociáveis. Essa é uma promessa, Granger. Até lá me conformo que concorde que Percy é esquisito, e Ronald um traste.
Como esperado, as palavras não surtiram muito efeito. O máximo que conseguiu foi uma admissão de que o hobbie de Percy era no mínimo peculiar. Hermione não era do tipo que falava palavrões ou criticava alguém, ainda mais quando a pessoa não havia feito algo realmente grave. Como Gina gostava de dizer, era uma boa moça. Se isso fosse mudar algum dia, seria necessário mais que uma conversa amigável.
*****
A tão aguardada data enfim havia chegado. Aquela seria a primeira vez que Ronald voltaria para casa desde que foi contratado pelos Reds, clube da liga inglesa que crescia cada vez mais. O atleta recusou que os parentes fossem buscá-lo no aeroporto da cidade, pois preferiu voltar a Birmingham dirigindo um Maserati esportivo que alugou na cidade em que seu time estava hospedado para mais um da série de amistosos que fariam aquele mês. O lugar não era tão distante e o rapaz poderia chegar em grande estilo, então julgou aquela opção como a mais conveniente. Sem contar que poderia conversar no caminho e aproveitar os trechos desertos na estrada.
A intenção dos Reds em participar daqueles amistosos por vários países do mundo consistia em trazer mais visibilidade para a equipe, uma estratégia muito usada pelos times em busca de patrocínio. Ronald não tinha do que se queixar, já que com isso viajava mais do que ousaria sonhar ainda menino. Mas essa vantagem de sua profissão calhou de levá-lo a uma cidade demasiado próxima de onde os pais moravam, e isso logo em uma data festiva. A convocação disfarçada de pedido feita por sua mãe não podia ser negada. Então ao som de gargalhadas e do Red Hot Chili Peppers, Ronald Weasley se aproximava cada vez mais da Toca, o lugar que por tanto tempo chamou de casa.
*****
Por ser aniversário do namorado, Hermione queria tornar a ocasião o mais especial possível. Segundos seus planos, Ron chegaria em casa por volta das sete da noite e se arrumaria para sair, esperando que o resto da família ruiva estivesse no restaurante mais caro da cidade. Foi o que Molly garantiu ao filho que aconteceria. Mas contrariando as crenças dele, Hermione armou para que em vez de encontrar a casa vazia, o rapaz desse de cara com uma festa surpresa.
Por isso ela arrumava os últimos detalhes na sala de estar dos Weasley com a fiel companhia de Gina. Ali estavam todos os seus conhecidos, de vizinhos queridos a parentes que vieram especialmente para a ocasião. O lugar estava cheio, e a animação para o momento da chegada do atleta crescia a cada minuto.
Ronald recebeu a ligação do pai querendo saber seu paradeiro pouco depois de alcançar a principal via da cidade. Desde então as luzes da Toca foram apagadas e fez-se tanto silêncio quanto possível. Foi o suficiente para que as pessoas escondidas no escuro ouvissem o motor de um carro que estacionou na frente da casa. Era Ron, isso se confirmou quando o som das chaves entrando em contato com a fechadura aumentou o frisson. Levou mais tempo do que normalmente levaria, mas a porta finalmente foi aberta. Os gritos de “surpresa” se perderam nas gargantas das pessoas que viam não uma, mas duas silhuetas entrelaçadas na entrada do lar.
Hermione não acreditou nos próprios olhos, culpando a escuridão por isso. Como se ouvisse seus pensamentos confusos, alguém ligou a luz. Ela nunca soube quem foi o responsável por iluminar a cena medonha que colou em suas retinas a partir do primeiro olhar. Seu namorado beijava uma garota com volúpia, com um desejo que nunca expressou por ela. Os corpos de Ronald e da garota de cabelo loiro e longo estavam grudados, e Hermione não era capaz de esboçar reação com a visão da mão de Ronald, seu Ronald, dentro da saia da outra.
Quando percebeu a súbita claridade, Ron se incomodou ao ponto de abrir os olhos. Lilá, como os outros não tardariam a descobrir que a garota se chamava, mordia seu lábio para provocá-lo enquanto um ruivo tendo razão para estar tenso encarava as pessoas que estavam como que petrificadas assistindo ao show. Ele então tentou soltar-se do abraço da loira, que só então se tornou incômodo. A mão despudorada foi retirada do local que trazia tanta alegria para a garota. Um resmungo de protesto foi ouvido, para em seguida Ronald pigarrear e enfim se pronunciar.
— Pessoal… Essa aqui é a Lilly. — Disse simplesmente.
— Lilá. — Como se tivesse escutado uma ótima piada, a garota riu ao corrigi-lo. — Muito engraçado, Uon-Uon. Podemos ir logo para o seu quarto?
A última parte foi uma falha tentativa de sussurro feita em uma voz manhosa. Não ficou claro se ela tinha ou não intenção de ser ouvida por alguém além de Ronald. O fato é que isso finalmente despertou os demais do absurdo que presenciaram, pois todos sabiam da devoção de Hermione em relação ao namorado.
A pequena Granger já tinha os olhos inundados, e junto a um riso incrédulo a primeira lágrima foi liberta. Infelizmente para ela, outras logo lhe fariam companhia.
Tudo aconteceu muito rápido. Em um instante um Ronald vermelho até as orelhas estava parado olhando sem reação para as dezenas de convidados de sua festa surpresa, no outro o lugar se encheu de um barulho que beirava o ensurdecedor. Como se aquele fosse o combinado, todos começaram a vociferar, exigindo explicações do ruivo. As pessoas perguntam-se entre si o que era aquilo. Ou no caso dos ruivos, iam até o aniversariante o cercando com suas dúvidas. Não Hermione. Ela apenas ficou parada, mal registrando os esbarrões enquanto pessoas sem rosto passavam por ela. Seu coração estava destruído, a dignidade no lixo. Seu amor… O bem mais precioso que julgava ter estava a matando, pois todo o sentimento que nutriu por Ron transformava-se subitamente em sofrimento.
A garota não gostava de xingar sequer em pensamento, mas só conseguiria descrever sua condição dizendo que aquilo doía como o inferno. Uma dor crescente a tomava, roubando-lhe o ar. A visão também foi afetada, já que tantas lágrimas não deixavam nada em foco. Despedaçando-se de dentro para fora a morena sentiu-se rejeitada como nunca antes, nem quando não passava da adolescente que Ronald fazia brincadeiras de mal gosto até que ela fosse embora chorando. Era isso, Ron não a queria. Preferiu humilhá-la publicamente para que o recado fosse enfim entendido. Mas droga, não era tão fácil assim. Por mais que tentasse, não conseguia desligar sentimentos. O amava, mesmo que isso estivesse a destruindo agora.
E então sem saber quanto tempo passou ou o que mais aconteceu a sua volta, Hermione tentou ir embora dali. Fugir era não só a melhor, mas também a única opção cabível no momento. Sem se importar sequer em secar as lágrimas, tentou ir em direção a saída o mais rápido possível. Porém um mar de corpos a impedia de ser ágil enquanto o desespero roubava o resto de seus pensamentos. Sua mente masoquista fazia questão de lembrá-la da traição, repetindo a imagem de Ronald e a maldita garota aos beijos como um loop feito especialmente para a torturar. A morena mal conseguia se mover devido a confusão generalizada dos outros ao seu redor. Por que droga convidou tantas pessoas? Queria sumir, que todos sumissem, que Ronald fosse para o raio que o partisse… Só não queria sentir aquilo.
O primeiro sinal de uma nova Hermione finalmente veio à tona. Farta de tudo, a garota gritou para expulsar os demônios de seu interior quando empurrou a mesa principal, aquela que estava sob o bolo, salgados e refrigerantes. Tudo foi ao chão, mas ainda não era suficiente. Fez-se silêncio. Súbito, tenso e sepulcral. As lágrimas ainda estavam lá, mas por um momento pararam de descer para que o surgimento de uma nova garota fosse o foco da atenção. E não podia ser diferente, não com essa Hermione que gritava, derrubava mesas e enfim fuzilava Ronald com um olhar assassino. A tensão era palpável quando a voz chorosa e gutural da menina quebrada foi ouvida.
— Você é mesmo um sacana, Ronald Weasley. — Foi a coisa mais rude que já ousara falar para Ronald, e muitas pessoas sequer a viram ser indelicada com alguém durante toda a vida exemplar que a garota dos Granger levava. Uma segunda voz se juntou a dela, mas não foi a resposta do traidor.
— Sacana, Granger? Esse é o melhor que pode fazer? — Ela reconheceria aquele tom atrevido em qualquer lugar e situação, até mesmo em uma desastrosa.
— Gina, não piore as coisas. — Em algum canto da casa, a senhora Weasley ralhou.
Gina. É claro que seria Gina, a garota que não tinha papas na língua ou vergonha de xingar como um marinheiro bêbado. E por um instante Hermione sentiu inveja da amiga. Não só por ela não estar apaixonada, como também pela ruiva ter um temperamento tão sincero e livre. Se fosse Gina ali, já teria partido para cima do babaca que atendia pelo nome de Ronald e o mandado para o inferno de todas as religiões. Céus, Gina era perfeitamente capaz de inventar uma nova religião que punisse todo e qualquer comportamento comum na vida do irmão, apenas para fazê-lo pagar. Gina era sua pequena Nêmesis, deusa da vingança. Talvez fosse uma mistura de genes que fez a ruiva com o caos nas veias, substituindo de forma eficiente o sangue.
Quando viu não era mais inveja que sentia, tampouco a admiração que a substituiu instantes atrás, Hermione sentiu-se em dívida. Gina sempre a incentivou, e como prometeu quando as duas não tinham idade sequer para ler, estava ao seu lado até no pior momento de sua vida. O ressentimento por Ronald era tal que ela fez questão de tentar machucá-lo o máximo que sua parca experiência permitia.
— Tem razão, posso fazer muito melhor. Esse relacionamento acabou, se é que preciso dizer o óbvio. — Ela praticamente gritou, sorrindo com escárnio enquanto limpava os olhos. — A verdade é que eu não tenho palavras para descrevê-lo, Ronald. Durante toda a droga da minha vida acreditei que ficaria contigo, que passaríamos o resto de nossos dias trazendo felicidade um ao outro. Me sinto mais do que burra agora. Mas quer saber? Você é errado também! Aliás, a culpa é toda sua.
— Minha culpa? — O tom de deboche do ex-namorado acabou com o último resquício de paciência de Hermione.
— Você me traiu, babaca do caralho. Filho da puta dos infernos. Minha vontade é de jogar todas as coisas aqui em você para arrancar esse sorriso estúpido. Quem sabe o estrago seja grande o bastante para combinar com essa sua cara de bosta. — Boquiabertos, nenhum dos presentes conseguia dizer algo. Exceto Hermione, é claro. Nem recitar um dicionário de palavrões seria o suficiente para acalmá-la. — Você é um bosta! A porra de um desgraçado! Um puto, mentiroso e traidor! Estúpido! Maldito! Vá se foder, Ronald Weasley!
Sem dizer mais nada, empurrou as poucas pessoas que não saíram de seu caminho de livre e espontânea vontade. Ao longe ouviu a voz da senhora Weasley pedindo para Ronald ir atrás dela e Gina ficar quieta no lugar.
Já estava nos limites do jardim, faltando muito pouco para alcançar a rua quando alguém puxou rispidamente seu braço, fazendo-a virar a contragosto.
— O que é, seu traste?
O ex não parecia feliz, mas Hermione achou isso pouco. Ele tinha que sofrer, Ronald merecia. Foda-se se não era uma boa coisa a se desejar para o próximo. Ele havia a traído, afinal.
— Eu não sabia que tinha alguém em casa. Não era para você descobrir, Hermione. Quero dizer, eu sempre quis que largasse do meu pé, mas ter a cidade inteira contra mim não fazia parte dos meus planos. Vão achar que você é a vítima e eu o vilão.
— Egoísta é um elogio para você. Se não me queria mais, por que não falou?
— Você não pode ser tão burra… Eu nunca te quis, Hermione. — Declarou em um riso incrédulo, para total horror de Hermione que estava chocada demais para rebater com o que fosse. Não que tivesse algum controle do próprio corpo, mas arregalou os olhos e sentia o resto de sua autoestima ir para o lixo com as palavras que chegavam a seus ouvidos. — Quando éramos pequenos eu te detestava com todas as minhas forças. Céus, queria estrangulá-la com minhas mãozinhas gorduchas. Não importava onde eu estivesse, você sempre aparecia do nada. Não podia dar um passo que lá estava a Srta. Perfeição mostrando suas habilidades e as boas notas. Isso quando não era a Sra. Granger gabando-se das virtudes da filha.
— O que… — Ela tentou dizer alguma coisa para remediar aquela situação. Não fazia ideia do que, mas deveria haver algo capaz de ajudar. Se Ronald sentia-se daquele jeito, por que nunca falou nada? E por que um dia namoraram, afinal?
— Sou o sexto de sete irmãos, nada que eu fazia era grande coisa aos olhos dos meus pais. Se conseguisse a proeza de alcançar um feito notável também não faria diferença, já que era os outros realizaram grandes coisas primeiro. E como se não bastasse havia você, uma verdadeira praga. A irritante sabe-tudo sempre pronta para exibir sua genialidade. — Ronald rolou os olhos, mas enfim estava sendo sincero. — Foi sufocante crescer na sua sombra! Só o fato de ver sua mãe já acabava com o meu dia, pois nossos pais faziam de tudo para que ficássemos grudados um no outro a porra do tempo inteiro.
— Ah, é? — Furiosa, Hermione tratou de esclarecer definitivamente aquilo. — Então por que me pediu em namoro? A iniciativa foi sua!
O ruivo riu da acusação.
— Vamos começar pelo fato que você me seguiu até a Inglaterra. Nem a faculdade pude fazer em paz. Era a condição da minha mãe, me formar ou voltar para Birmingham à base do puxão de orelha.
— Mas você era péssimo. — Ela enfim estava entendendo.
— Sim! Droga, eu era péssimo. Minha vocação sempre foi o futebol, não livros ou memorizar coisas. Tanto é que você, estudante de Letras, passou a fazer meus trabalhos e preparar a cola para as provas quando eu dizia estar inseguro.
— Ou seja, sempre. — As lágrimas lhe encheram os olhos, trazendo de volta o sentimento de humilhação que sequer havia ido embora. Sua vida não era a mesma nesse ponto de vista.
— Em toda a minha vida jamais pretendi te namorar. Desde pequeno te tratei mal, mas se exagerasse na frente dos outros, brigariam feio comigo. Eu tentei muito me manter afastado em Cambridge, mas então você me ofereceu ajuda para estudar. Minhas notas melhoraram e isso me impedia de ser arrastado para esse fim de mundo. Ironicamente, minha chance de liberdade era você. Deu certo até sua carência ameaçar foder com tudo. Então ou eu te pedia em namoro, ou perdia a sabe-tudo que fazia minhas lições. E aqui estamos.
— Como pôde? — Completamente destruída, a garota quis saber. — Como pode dizer tudo isso com tanta tranquilidade?
— Quer que eu me arrependa, Hermione? Sem sua ajuda eu não estaria formado em Educação Física e finalmente livre para dar o fora daqui… Agora sou um goleiro profissional em um time da europa. E não aja como se eu fosse um monstro, quando a faculdade acabou considerei deixá-la aproveitar o sonho por um ou dois meses antes de te dispensar. Afinal, o meu TCC foi um dos mais elogiados. Seria uma troca justa. Então seu pai ficou doente e você enfim me deu espaço.
— E comigo distante poderia se dar ao luxo de permitir que eu aproveitasse “o sonho” de namorá-lo. — Hermione ironizou.
— É isso. Puxa, você é mesmo inteligente quando quer. Agora se arrume e venha comigo lá para dentro. Eu não fazia ideia da festa e teria esperado seu pai melhorar um pouco antes de ligar terminando o namoro. — Sorriu para Hermione, que limitou-se a encará-lo com verdadeiro ódio. — Está vendo? Não sou tão ruim assim! Não seja dramática e entre comigo, sim? Precisa limpar a minha imagem, Hermione. Gina queria me bater lá dentro.
Oca por dentro, a garota não esboçou reação. Isso até vislumbrar 1,62 de altura e fúria vindo em sua direção. Os cabelos flamejantes pareceram adquirir vida própria sob a luz bruxuleante do poste e da brisa noturna cada vez mais fria. Um “Vá se foder, nunca mais fale comigo” foi o que Ronald ouviu antes que a irmã os alcançasse.
Como estava de costas, o atleta não notou a aproximação da mais nova dos Weasley. Entretanto a sentiu quando a mão dela segurou seu ombro, virando-o para que enfim se encarassem. Contrariando tudo o que Hermione julgaria aceitável há menos de meia hora, Gina sequer esperou que a cena fizesse sentido na cabeça do irmão. Desferiu um soco tão forte no rosto de Ronald que chegou a praguejar enquanto ele ia de encontro ao chão.
— Machucou minha mão, babaca! — Ultrajada, Gina reclamou.
Um filete de sangue escorria do nariz quebrado de Ronald, que encarava a irmãzinha como se uma segunda cabeça tivesse brotado de seu pescoço. Isso até sair correndo dali enquanto protegia o rosto ensanguentado. Os gritos da senhora Weasley chamaram a atenção de Hermione para a porta de entrada. Tudo estava uma bagunça. Ao seu redor ou dentro dela, apenas não fazia diferença.
Quando ameaçou chorar de novo, a melhor amiga a abraçou. Hermione soluçava, molhando os ombros de Gina. Seu castelo de cartas havia desmoronado, a vida antes tão satisfatória agora estava de cabeça para baixo.
— Shh… Vai ficar tudo bem, está me ouvindo? — A ruiva acariciava os fios castanhos e tentava acalmar o monte de autopiedade e lágrimas que atendia pelo nome de Hermione Granger. — Ele nem é tudo isso, você é capaz de achar alguém realmente gostoso.
— Tinha razão, ele é um idiota. — A morena declarou sofregamente.
— Essa não é hora para “eu te avisei”. Não se preocupe, não vou jogar isso na sua carinha inchada e com rímel até no queixo. Amanhã mesmo comprarei o uniforme de líder de torcida, ok? — Um leve arquear de lábios foi sua resposta, mas Gina se contentou com o esboço de sorriso. — Foi muito corajosa, Mione. Apesar de tudo, estou orgulhosa de você. Quer que eu a acompanhe até em casa?
Ela ponderou aquilo por um instante. A presença da amiga era reconfortante, mas precisava ficar sozinha agora.
— Não, obrigada. — Negou a oferta. — Pode me ligar amanhã?
— Como quiser. Estarei com o celular por perto o tempo inteiro, caso mude de ideia e queira conversar de madrugada.
— Tudo bem. — Nada estava bem, mas foi o que conseguiu dizer antes de ir embora.
No vento não tão frio daquela noite de lua cheia, Hermione foi em direção ao seu destino. Ao contrário do que sonhava, seu futuro não continha Ronald. Seu destino era sua cama, onde choraria e tentaria esquecer, para em algum momento finalmente ser vencida pelo sono. Seu destino não tardaria a chegar, e sua história em breve seria escrita com alegria. Aquele só não era o momento ainda. Apenas não era a porra do momento.