Capitulo 02
Levantando os olhos dos papéis que acabavam de lhe ser entregues, Campion recostou-se na cadeira e suspirou, com o pensamento culpado pelo conteúdo daqueles escritos. O inverno linha sido longo e de bem pouca atividade, mas a missão desempenhada meses antes por um grupo de homens sob o comando de Rony e Dino começava a dar frutos. Mas agora... agora ele preferia que isso não estivesse acontecendo.
O conde sabia que às vezes a mais simples das decisões desencadeava eventos que acabavam fugindo ao controle, e era isso o que havia acontecido durante o outono, quando ele resolvera acolher uma mulher desmemoriada.
Chegando a uma decisão, Campion pôs as mãos nos joelhos correu os olhos pelos filhos. Enchia-se de orgulho ao vê-los todos reunidos no solar patriarcal. Um bom tempo já se havia passado desde a última vez em que os sete filhos dele tinham estado juntos. Os rapazes haviam proporcionado ao pai aquela satisfação no último verão, ou tinha sido ainda durante a primavera?
Campion alegrava-se com o fato de o mensageiro da corte ter ido primeiro a Wessex, entregando as mensagens a Harry. De outra forma, agora o primogênito dele não estaria ali. Não podia haver outro motivo para a visita de Harry, que se tornara distante e reservado desde que resolvera assumir a administração de suas terras.
Agora o mais velho dos sete irmãos era um homem feito, tinha sua própria vida, e isso provocava em Campion um misto de respeito e sentimento de perda. Embora os filhos dele tivessem seus defeitos, eram todos bons homens, honrados, instruídos e capazes. Então ele pensou no assunto em questão e rezou para poder contar com um deles a fim de que fosse feito o q era necessário.
- Parece que temos um problema. - disse Campion sem mais preâmbulos. - Vocês devem se lembrar que, pouco depois da chegada de lady Gina, eu remeti à corte um anel pertencente a ela na esperança de que alguém pudesse identificá-lo.
Campion fez uma pausa enquanto os rapazes lançavam afirmativamente a cabeça, deixando claro que todos estavam atentos às palavras do chefe família.
- Pois bem. O anel foi reconhecido por um certo Lucius Macnair, que afirma que a jóia pertence à sobrinha dele, Gina Weasley. A moça em questão está desaparecida desde que partiu numa peregrinação religiosa no último outono. Macnair é o guardião da sobrinha e a quer de volta... imediatamente.
Campion olhou em volta, observando a reação filhos. Alguns rostos, como o de Reynold, estavam tensos e sombrios, enquanto outros mostravam um misto de raiva e revolta. Ótimo. Era óbvio que nenhum filhos dele queria que a moça fosse embora. Agora, se ele conseguisse convencê-los a mantê-la no castelo.
- Mas por que Gina não se lembra disso? - inquiriu Rony. - Quando a encontramos na estrada ela disse que não sabia de nada e continua afirmar que não se lembra nem do próprio nome.
Campion coçou a cabeça, pensativo.
- Não acho que a moça queira retornar à antiga vida. - ele respondeu, falando devagar. - Ela sempre pareceu resistir a tudo que pudesse ajudá-la a se lembrar do passado. Até me arrisco a dizer que se sente muito mais feliz aqui do que era antes.
Campion viu que Fred balançava a cabeça em concordância, enquanto os demais emitiam suspiros ou murmúrios, tudo em apoio ao que ele acabava de dizer.
- Se ela não quiser voltar, então não a mande embora. - sugeriu Simas, fazendo um gesto casual com a mão, na verdade parecendo querer esconder a preocupação.
- Infelizmente, estamos numa situação um bocado delicada. - ponderou Campion. - O tal Macnair ameaçou despachar contra nós uma força de homens armados se não devolvermos Gina imediatamente.
Fred assobiou e balançou a cabeça.
- Ele que tente atacar o castelo de Campion. - vociferou Rony.
- Mas quem é esse desgraçado? - quis saber Reynold.
- Pelo que diz a mensagem, trata-se de um pequeno proprietário de terras, irmão da mãe de Gina, mas detentor da autorização para administrar a propriedade e a fortuna dela, que não são desprezíveis.
- Pois eu digo que esse cretino vá para o inferno. - gritou Rony, batendo com o punho direito fechado contra a palma da mão esquerda. - Ele que tente e verá com quem estará lidando!
Campion ergueu a mão para calar o coro de vozes enraivecidas que se fez ouvir. Logo depois olhou para o filho mais velho, esperando alguma opinião sensata, mas Harry apenas observava a cena com uma expressão de desagrado. Obviamente não estava interessado no destino da moça e via com preocupação o desperdício de energia dos irmãos. Campion suspirou ao perceber que ficaria sem apoio de peso.
- A questão não é tão simples assim, rapazes. - ele argumentou. - A verdade é que não temos nenhum direito legal sobre a moça. Mesmo que ela queira ficar conosco, não poderemos mantê-la aqui. - Murmúrio de protesto se fizeram ouvir, o que obrigou Campion a mais uma vez erguer a mão, exigindo silêncio. - Macnair é o guardião de Gina. Não existe nada que possamos fazer para mudar isso... a menos, é claro, que conquistemos o direito de tê-la conosco de uma forma perfeitamente legal.
Campion fez uma pausa e examinou cada um daqueles rostos, esperando que pelo menos um se mostrasse disposto a ajudar Gina. Mas todos pareciam surpresos com a sugestão, todos menos Harry, que resmungou alguma coisa e virou o rosto, com um riso zombeteiro. Campion não deu importância àquilo, já que Harry nem conhecia Gina. Algum dos outros rapazes teriam que tomar a decisão que o irmão mais velho evidentemente achava uma idiotice.
- Mas... que forma legal seria essa? - perguntou Nicholas curioso.
- O casamento. - respondeu Campion, sem rodeios, fazendo outra pausa para examinar a reação dos filhos. - Qual de vocês estaria disposto a tomá-la como esposa?
Um silêncio pesado tomou conta do salão.
Agora, todos ali pareciam ter perdido a coragem de olhar nos olhos do pai. O semblante fechado do guerreiro Rony era uma clara negativa, assim como os resmungos incompreensíveis de Reynold. Simas, como costumava fazer ultimamente, ocupou-se em encher o copo de vinho. Enquanto isso Fred parecia muito concentrado em examinar o bico das botas, ao mesmo tempo que Nicholas levava um enorme tempo em ajeitar a faca na bainha e Dino, como sempre, parecia dividido entre o bom senso e a compaixão.
Campion franziu a testa. Havia se afeiçoado àquela jovem desmemoriada e agora não suportava a idéia de não tê-la mais por perto. Tinha pensado que o plano daria certo, mas o fato era que ninguém ali se pronunciava.
- Então nenhum de vocês a quer? - ele inquiriu, numa voz que não escondia a decepção. - Será que nenhum dos meus filhos será capaz de me dar netos que mereçam o nome Potter?
Todos os olhos se abaixaram menos os de Rony, que parecia ter argumentos para enfrentar o pai.
- Por que será que ela nunca se casou? - ele questionou. - Parece já ter passado da idade para isso.
Campion nem vacilou para dar a resposta.
- Não é difícil imaginar que o tio iria querer manter para sempre o controle sobre as terras dela. Sendo assim, certamente terá feito tudo para impedir que ela se casasse.Os termos da mensagem levam a essa conclusão. É mais do que provável que a nossa Gina tenha sido uma prisioneira em seu próprio castelo.
Campion examinou novamente a reação de cada um dos filhos, esperando que o sentimento de culpa pudesse influenciá-los, já que a consciência do dever e a afeição não tinham esse poder.
- Ele deve tê-la ameaçado muito. - disse Nicholas, com a cabeça abaixada.
- Por que acha isso? - inquiriu Rony, num tom cortante.
Nicholas deu de ombros.
- Bem... é só porque ela vive dizendo que se sente bem aqui, que é bom saber que faz parte de uma família, que está protegida. Gina sempre abre aquele enorme sorriso dela quando fala da sorte que teve quando você e Dino a encontraram.
Olhares furtivos e envergonhados foram trocados entre os rapazes, mas mesmo assim nenhum deles se mostrou disposto a tomar Gina como esposa. Campion concluiu que a culpa daquilo era unicamente dele. Devia ter voltado a se casar há muito tempo, para que os filhos soubessem o quanto era bom ter a companhia de uma mulher. No entanto, com a morte da segunda esposa logo depois do nascimento de Nicholas, tomara-se difícil empenhar o coração num novo casamento. Por isso os filhos dele haviam crescido sem a ternura de um toque feminino. E agora ele se recriminava por ter a casa cheia de homens solteiros aparentemente incapazes de prover o que mais faltava ali: netos.
Mas será que aqueles cegos não percebiam as mudanças operadas no pai e neles próprios desde a chegada de Gina? Num espaço de poucos meses ela simplesmente havia se tornado indispensável no castelo, arrumando tudo de forma mais agradável e cuidando para que fosse servida urna comida mais saborosa. E não era só isso, porque poder ver o sorriso enorme de Gina era algo de um valor inestimável.
Talvez ele próprio devesse se casar com ela... Campion riu sozinho daquele pensamento. Embora já houvesse passado da idade em que as moças em geral se casavam, Gina podia ser filha dele e certamente sonhava com um homem bem mais jovem para começar uma nova família. Merecia ter um marido vigoroso que a enchesse de filhos. Alguém corno um dos filhos dele.
Outra vez Campion correu os olhos pelos jovens que o cercavam.
- Se ninguém quiser torná-la corno esposa, ela terá que ir embora. Qual de vocês a escoltará até Baddersly?
Outra vez o silêncio se seguiu às palavras do patriarca. Fred interessou-se novamente pelo bico das botas, Nicholas voltou a mexer no cabo da faca e Simas ficou olhando fixamente para o conteúdo do copo. Reynold massageava a perna machucada, o que sempre fazia quando ficava inquieto, e Rony olhava fixamente pela janela, como se esperasse alguma resposta vinda do céu.
- E então? - insistiu Campion, num tom que deixava bem claro o quanto estava enraivecido.
Reynold levantou os olhos para o pai.
- Dino é o preferido dela. - ele observou.
Dino ficou muito surpreso ao ouvir aquilo... surpreso e perplexo.
- Não! Eu não posso. Que seja Rony.
- Isso mesmo. - apoiou Simas, já rindo. - Rony é o mais indicado para protegê-la.
- Chega. - pronunciou-se Campion, interrompendo a guerra de palavras que começava a tomar corpo.
Mesmo assim os rapazes continuaram a trocar olhares, transferindo a responsabilidade um para o outro, nenhum deles se apresentando como voluntário para o que até parecia ser um sacrifício. Campion achou que não devia mais sentir orgulho dos filhos. Na verdade se achava olhando para um bando de covardes. Já ia dizer isso sem meias palavras quando reparou que agora os rapazes misturavam murmúrios com os olhares que trocavam. Até que todos os rostos se voltaram para o mesmo ponto.
- Harry! - exclamaram seis vozes ao mesmo tempo.
- E isso! - declarou Rony. - Harry poderá ainda melhor do que eu!
Campion refletiu sobre o que acabava de ouvir.
Em outras circunstâncias, Harry preferiria morrer a reconhecer aquilo.
- Claro! - apoiou Simas. - Harry não a conhece e poderá fingir que não sente nada por ela... mesmo que sinta.
Dito isso o petulante rapaz soltou uma gargalhada.
Campion olhou para Harry, que observava a cena com um ar de desinteresse. Parecia até nem mais fazer parte da família. Mas havia um problema a ser resolvido.
- De fato, Harry é muito bom quando se trata de conduzir uma caravana. - observou Campion.
- E, sim! - entusiasmou-se Nicholas, que idolatrava o irmão mais velho. - Ele conhece todos os caminhos e nunca se perde!
Campion pensou melhor na idéia. Talvez Harry fosse mesmo o mais indicado para a tarefa. Era um cavaleiro praticamente sem defeitos e saberia enfrentar qualquer problema que Macnair resolvesse criar. Além disso, possuía o título de barão e sabia agir com diplomacia, algo que definitivamente faltava em Rony. Para completar, não estava envolvido afetivamente com a moça, o que significava que não sofreria nada quando a devolvesse ao tio.
Campion levantou-se e anunciou a decisão que acabava de tomar.
- Se Harry estiver disposto, então que seja ele.
- Sim, pai. - responderam os seis rapazes, numa só voz, apoiando o pai ao mesmo tempo que deixavam claro o alívio que sentiam por terem sido dispensados da tarefa.
Campion suspirou. Já amuado pela falta de apoio à primeira idéia dele, ficou ainda mais desapontado quando viu os filhos se levantando, ansiosos para se afastar. Eles só pararam quando ouviram a voz de Harry.
- Esperem. - ele disse, numa voz cheia de autoridade. - Chamem a moça e se despeçam dela. Partiremos dentro de uma hora.
Campion não escondeu a surpresa ao ouvir aquilo.
- Mas você acabou de chegar. Naturalmente quer descansar um pouco antes de começar uma nova viagem.
Aquilo o deixava com o coração apertado. Afinal de contas, há quase um ano que não via o primogênito. Porque Harry queria partir tão depressa?
- Se quer que eu acompanhe essa moça desmemoriada, pai, terei que ir logo. - declarou o mais velho dos filhos de Campion. - Minha presença é necessária em Wessex.
Embora não parecesse muito contente com a tarefa que acabava de receber, Harry a aceitava sem contestação. Campion observou-o com atenção, tentando ver o íntimo do homem em que o filho dele havia se transformado. Mas o olhar do jovem barão era impassível não revelava nada. Campion, sentiu uma nova onda de tristeza ao pensar no fato de que Harry havia preferido morar no próprio castelo, que era agora o novo lar dele.
Depois de engolir em seco ele olhou para os outros filhos.
- Digam a Wilda que traga Gina até aqui.
Ninguém se mexeu e o desapontamento de Campion aumentou. Aqueles fedelhos nem pareciam merecedores do nome Potter, porque nenhum deles se mostrava com coragem suficiente para encarar Gina. Ah, os covardes! Bem... era compreensível. O próprio Campion não se achava preparado para aquela confrontação. Afinal de contas, era preciso reconhecer que ele também se afeiçoara muito à Cativante Gina.
Mesmo assim, era preciso dizer a ela que havia chegado a hora de ir embora.
A convocação de Campion deixou Gina espantada. Por alguns instantes ela ficou sem ação, como já havia acontecido ao despertar no meio da estrada sem saber onde estava ou quem era. Depois, pouco a pouco, procurou se convencer de que o conde apenas queria planejar um jantar especial em honra da presença de Harry ou apresentá-la ao primogênito. Por outro lado, a ausência de memória havia desenvolvido ao extremo os sentidos de Gina. Assim sendo ela que havia algum outro motivo.
Quando chegou ao salão, seguindo Wilda, Gina sentiu uma nova onda de apreensão. Todos os Potter estavam lá, mas o silêncio tomava conta do ambiente, Campion estava cercado pelos filhos, mas não havia nada parecido com a competição de vozes que sempre ocorria em ocasiões assim.
Os seis rapazes que ela havia aprendido a amar como se fossem irmãos estavam concentrados em volta do pai, mas todos mantinham a cabeça abaixada, sem olhar para ela. Apenas Harry, destacado do grupo e encostado na parede, a observava com o rosto meio escondido pelas sombras.
- Sente-se, por favor, lady Gina .- convidou Campion, agora olhando para ela.
O conde parecia se esforçar para falar com naturalidade, mas alguma coisa na voz dele denotava tristeza, algo que a deixou com o coração apertado.
Gina assentiu com a cabeça e sentou-se na beirada de uma das cadeiras.
- Gina. - começou Campion. - Certamente o quanto a sua presença aqui sempre nos deixou felizes. Você preencheu um vazio nesta casa, não apenas atuando como castelã, mas também nos alegrando seus sorrisos e suas palavras tão espirituosas quanto sábias. Se dependesse apenas de nós, você nunca embora deste castelo. - Gina sentiu o sangue gelar nas veias e ficou imóvel. O que mais temia estava prestes a acontecer. Seria mandada embora! Mas para onde poderia ir? O poderia fazer uma mulher sozinha, sem amigos, s família, sem nenhuma lembrança do próprio passado? - No entanto, parece que não somos as únicas pessoas que gostam de você. Embora não se lembre, há pelo menos um parente seu que não se esqueceu da sua existência... o seu tio.
Campion ficou parado, como se esperasse uma resposta, mas que resposta ela poderia dar. Tio? Que tio?
- Não conheço nenhum tio. - declarou Gina, finalmente, num tom quase inaudível.
Forçando os músculos inertes ela juntou as mãos no colo para fingir uma postura de serenidade.
- Sei que isso tudo pode lhe parecer muito estranho, minha cara. - prosseguiu Campion. - No entanto, tenho certeza de que sua memória acabará voltando com o passar do tempo, na certa ainda mais depressa quando você estiver em casa.
Agora o pânico se misturava com a raiva e Gina apertou as mãos. Ser entregue aos cuidados e caprichos de um desconhecido seria até pior do que ser deixada sozinha no mundo.
Ela precisou respirar fundo para acompanhar as palavras que Campion disse em seguida.
- Você é Gina Weasley, a herdeira de uma enorme fortuna. - ele disse, ensaiando um sorriso, como se estivesse dando uma grande notícia.
O nome não significava nada para Gina, menos ainda a herança.
- Mas... lorde Campion, o senhor mesmo me garantiu que eu poderia ficar aqui pelo tempo que quisesse. - ela protestou, procurando controlar o tremor da voz.
A solidariedade que surgiu no rosto do conde a assustou mais do que se a reação dele fosse de indiferença.
- Eu sei, minha querida, e acredite que isso me deixa muito triste. Se você continuasse sendo uma pessoa sem identificação, eu certamente prolongaria infinitamente a minha hospitalidade. Acontece que agora existe a sua família e o seu tio está ansioso para tê-la volta.
Horrorizada, Gina não encontrou palavras para negar o que o conde acabava de dizer. Apenas ficou parada, com os olhos muito abertos, tentando controlar o tremor dos lábios. Começava a tomar conhecimento das coisas do passado... e na certa o medo que agora sentia tinha sido muito presente em épocas anteriores.
Campion inclinou-se para a frente, como se percebesse o desespero dela.
- Não se preocupe, Gina. Estamos tomando todas as providências para que nada de mau lhe aconteça. - Então ele fez um gesto na direção de Harry, que continuava encostado na parede. - Meu filho mais velho, Harry, a escoltará até sua casa. Ele cuidará para que você chegue lá em perfeita segurança.
Gina suspeitou de que Campion estava dando uma ordem ao filho ao mesmo tempo que procurava confortá-la, mas agora isso não tinha muita importância. Sabia que; no instante em que saísse daquele castelo e deixasse a convivência dos Potter, do conde ao jovem Nicholas, não teria mais a menor segurança. Seria tolice pensar o contrário.
E o pior era ver que os homens que idolatrava como heróis a abandonavam.
Mesmo assim ela reuniu as todas as forças para uma última tentativa de resistência.
- Está me deixando numa situação desvantajosa, meu senhor, já que não posso defender meu ponto de vista de forma coerente. É verdade que não me lembro de nada, mas sinto um medo muito grande do que pode estar me esperando. Por isso suplico, meu lorde, que não me mande embora.
Por um bom tempo Campion ficou olhando para ela, pensativo. Depois pôs-se a coçar o queixo. Gina sabia que não podia ter esperanças e ficou aguardando a decisão numa postura tensa, imóvel na cadeira.
Finalmente O conde suspirou, com um ar de contrição no rosto.
- Sinto muito, Gina, mas seu tio logo ficaria sabendo se resolvêssemos mantê-la aqui. E ele já declarou que despacharia uma expedição militar contra nós se você não fosse imediatamente devolvida.
Guerra! Gina sentiu um aperto no peito e percebeu que não podia se queixar da decisão de Campion. Naturalmente não podia causar transtornos às pessoas que a haviam acolhido com tanto carinho.
- É claro que não fiquei intimidado pelas ameaças, minha querida. - declarou Campion, abrindo os braços e franzindo a testa. - No entanto, é preciso reconhecer que não temos nenhum direito sobre você.
Gina percebeu que não podia ter esperanças. Depois de ficar por um longo momento em silêncio resolveu falar, o que fez no tom mais impessoal possível, como se conhecesse apenas de vista aqueles homens... aquelas pessoas tão queridas.
- Já entendi. - ela declarou, olhando com seriedade para o conde. - E quando deverei partir?
Campion ficou em silêncio por alguns instantes, aparentemente constrangido. Era a primeira fraqueza que Marion via naquele homem sempre altivo.
- Tão logo arrume as suas coisas. - respondeu o conde, finalmente. - Harry está ansioso para partir. Ele serviu de guia às expedições do rei durante muitos anos, antes de se tornar barão. Por isso conhece todas as estradas do reino. Como eu já disse, você estará em perfeita segurança.
Como se respondesse às palavras do pai, Harry saiu das sombras e aproximou-se da mesa. Gina continuava sentada, o que fez com que ele parecesse tão alto quanto a mais alta das árvores. Depois virou-se de costas e caminhou até a janela, transformando-se numa silhueta gigantesca. Naquele instante Gina o odiou.
- Vamos logo, lady Weasley. - ele disse voltando-se e lançando a ela um olhar de desdém. - Quero partir o mais depressa possível.
Gina levantou-se e imediatamente se viu cercada pelos outros Potter. Fred e Dino trocaram olhares de culpa.
- Harry saberá tomar conta de você, Gina. - garantiu Dino.
- Isso é verdade. - confirmou Fred, estendendo a mão para segurar na dela. - Ele é o melhor de todos nós. Boa viagem.
- Cuide-se bem. - recomendou Dino.
Marion assentiu com a cabeça e olhou para Simas, que ergueu o copo para saudá-la.
- Adeus, Simas. - ela conseguiu dizer, superando o nó que sentia na garganta.
Ah, como era difícil se despedir daqueles amigos. Reynold, por exemplo, parecia ter perdido a voz. Apenas balançava a cabeça para a frente e para trás, ao mesmo tempo que massageava a perna.
- Adeus, Reynold. - disse Gina.
Nicholas deu dois passos na direção dela, balançando a cabeça para os lados e com os olhos brilhando muito.
- E muito ruim você ir embora, Gina .- resmungou o garoto. - Mas acredite que, com Harry, estará em boas mãos. Ele não deixará que nada de mau lhe aconteça.
Gina procurou fingir uma indiferença que não sentia.
- Obrigada pelas gentilezas de todos vocês.
- Adeus, lady Gina. - disse o conde. - Espero que logo voltemos a nos ver.
Gina achou que começaria a chorar, mas no instante seguinte sentiu no braço os dedos de Harry, induzindo-a para fora. Então achou melhor nem olhar para trás.
Como não olhou para trás, Gina não viu o abatimento que tomava conta dos Potter. Um pesado silêncio se seguiu à saída dela. Até que Simas resolveu falar.
- Eu preferia que ela tivesse reagido como uma lavadeira, gritando, esperneando, em vez de mostrar dignidade própria de uma mulher da nobreza.
- Tem toda razão. - apoiou Campion, carrancudo. - Gina devia ter soltado um monte de palavrões para mostrar os covardes que vocês todos são.
- É isso mesmo. - concordou Dino, num murmúrio.
Ninguém discordou. Outra vez os Potter estavam todos de acordo.
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