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5. Per aspera...


Fic: Herdeiras do Mal III - A Vida Após a Guerra


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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And


In the end


All I learned


Was how


To be strong


Alone.

-  Unknown


 


    Sete dias, cento e sessenta e oito horas, dez mil e oitenta minutos, seiscentos e quatro mil e oitocentos segundos - essas seriam as medidas usuais para uma semana, mas Narcissa poderia contar o mesmo tempo nas seis noites mal dormidas, ou nas três garrafas de uísque de fogo que ela e Rodolphus haviam consumido naquele tempo, ou nas quinze corujas que enviara com cartas a Draco ou Bellatrix. Estranhamente, após o ocorrido com Rodolphus, as coisas haviam se acalmado entre ela e a irmã. Nem mesmo ela poderia negar que Bellatrix havia tirado um peso de suas costas, mesmo que somente para compensar o peso que anteriormente lá colocara.


    A seu lado, Rodolphus permanecia calado, comendo enquanto a loira mal havia tocado seu prato. Sua expressão era impassível, coordenada com a promessa que ele havia feito de não interferir na decisão que ela tinha que tomar. “Eu não posso ter isso em minha conta,”,em algum momento ele havia dito, provavelmente entre uma conversa que ela esquecera dentre os beijos que eles não pareciam ser capazes de deixar de trocar, ainda que não tivessem progredido além daquilo, não sem que a situação dela com Lucius se resolvesse “não para você se arrepender futuramente e culpar a mim. Essa é a razão pela qual Bellatrix te escolheu, pra começar.”. Ela o odiara momentaneamente, assim como a todos que lhe dirigiram a mesma resposta, mas eles estavam certos, aquilo tinha que vir de dentro dela, e só dela.


- Eu… - ela limpou a garganta, brincando displicentemente com seu café da manhã, os talheres brilhantes refletindo sua aparência cansada. - Eu sei o que fazer. - o homem imediatamente repousou os próprios talheres e, calmamente, limpou os cantos da boca com o guardanapo e a encarou, estendendo-lhe a mão, que Narcissa segurou sem nem ao mesmo pensar.


- Imagino que não vá me dizer? - ele sorriu, e ela soltou uma risada quase aliviada. - Não antes de contar a Vossas Majestades, o rei e rainha…. Regente, pelo menos. - ele sussurrou a última parte, como se Lucius pudesse ouvir, e Narcissa riu com mais vontade, assentindo. - Não seria certo, de qualquer forma. Fico somente feliz que você tenha decidido, receei que decidiria lá, em cima da hora…


- Não vou negar que era uma possibilidade… - Narcissa confessou, suspirando ao fim da frase, os olhos descendo para fitar seu próprio colo. - Honestamente, eu só quero me livrar disso tudo, desse peso, mas… não podia deixar de pensar em todas as possibilidades, é algo grande demais, estamos falando da vida de uma pessoa, e eu… Eu não sou a Bellatrix, ou o Lorde das Trevas, ou…


Narcissa parou abruptamente, e engoliu seco, voltando a encarar um Rodolphus que sorria de volta pra ela. Com um aperto na mão dela, Rodolphus completou a frase. - Ou eu.


- Eu não quis dizer de forma negativa, o contrário na verdade, vocês decidiriam com tanta facilidade… e com todas as provas, só o fato de que eu teria dúvidas do que fazer, mostra que eu não fui feita pra estar tão próxima ao círculo íntimo, mas o destino tem truques esquisitos… Irmã da rainha. - ela deu uma risada amarga e rolou os olhos. - E tão fraca.


- Diferente, não necessariamente fraca, Cissy. - ele a corrigiu. - Já passou pela sua cabeça que talvez tenham te escolhido para ajudar na mudança de nossa imagem? Sua irmã não é generosa o suficiente para ter feito isso somente por você, e nem rainha de nada, aliás.


- Só porque ela não quer… - Narcissa sorriu, e causou uma risada de um Rodolphus que não podia deixar de concordar. - Mas será, e nesse caso espero que esteja certo sobre a coisa toda de mudar a imagem, porque eu não sei se consigo ser mais fria.


- Não deixe que ela te ouça falar com tanta certeza sobre o futuro dela, por mais certa que esteja, mas pode ter certeza que eu não estou tão longe da verdade… queremos nos mostrar muito mais justos do que somos, e dizer ao povo que não recorremos a penas capitais como primeira opção sempre, e qual melhor modo de mostrar isso do que dentro de casa e logo para alta-traição? Até porque, se formos sinceros, mesmo em sua volta o Lorde das Trevas não matou todos que o negaram e traíram dando informações à Ordem e ao Ministério, após sua queda. Ele perdoou a muitos, inclusive. Por incrível que possa parecer para o mundo lá fora, o Lorde das Trevas é muito mais justo com os seus do que muitos seriam, sempre foi…


- E ele quer que o povo o veja assim, misericordioso quando obedecido e respeitado… - Narcissa assentiu. - E, fazendo isso em relação a Lucius, quer lembrar aos comensais quem ele realmente é, quem ele foi, antes de Potter, antes do descontrole que tomou conta dele nos últimos anos da guerra. - ela parecia pensar, o cenho franzido, e em sua concentração não podia notar o orgulho com que Rodolphus a encarava, fascinado com a Narcissa que florescia em meio àquela luta toda.


- E você tem a coragem de insinuar ser inútil para a causa porque puxar uma varinha e matar alguém não é seu primeiro instinto? - ele levantou o copo de suco de abóbora a sua frente. - Falou como uma perfeita estrategista, minha cara Cissy… E acabou de provar que a fruta realmente nunca cai tão longe assim da árvore. Você é uma Black, sempre foi, e isso nunca vai mudar.


Com um sorriso tímido, Narcissa pegou o próprio copo e o levantou em cópia ao gesto dele. Os dois beberam e, após uma breve bronca de Rodolphus, voltaram a um café da manhã em que Narcissa finalmente comia mais tranquila. Ela teria um dia para aproveitar, um dia com a decisão tomada e com seu coração calmo, e aquilo alegrava a ela menos somente do que a Rodolphus, que mal podia esperar por vê-la tão mais tranquila e decidida. Como ele diria a ela em poucos minutos, “qualquer que seja a decisão que você tomou, morte, vida, exílio, perdão, por mim tanto faz...Eu estou orgulhoso de você, mas agora: vamos aproveitar o dia.”.


 


Quietos, Voldemort - que havia oficialmente “acabado de voltar de viagem” - e Bellatrix tinham um café-da-manhã muito diferente daquele que Rodolphus e Narcissa estavam tendo. Para a sorte ou tremendo azar deles, a também “recém retornada” princesa Melinda havia escolhido tomar o próprio desjejum em seu quarto, com Draco e Pandora, portanto estavam completamente sozinhos com os servos na mesa do jardim.


Inconformado com o terrível silêncio, Voldemort brutalmente jogou o guardanapo sobre a mesa e suspirou alto, lambendo os lábios, antes de se dirigir aos servos a seu redor. - Fora, todos. - ele ordenou, com a voz de comando que ela tão bem viera a conhecer. As expressões de surpresa nos rostos deles delataram que aquela fora a primeira vez desde o início da monarquia em que eles haviam recebido aquela ordem. Alguns, em sua inocência e proatividade, abriram os lábios para emitir algum tipo de protesto e foram imediatamente calados. - Agora. - “Sim, majestade.”, fora tudo o que eles ouviram a partir dali, enquanto o som de passos apressados chegava a seus ouvidos. - E não quero ser incomodado. - ele ordenou, por fim, sem mais protestos.


- Isso foi mesmo necessário…? - ela se atreveu a perguntar, e foi recebida com uma expressão séria por parte dele.


- Você me diz, vossa graça. - ele deu de ombros e deixou-se relaxar na cadeira, parecendo inconformado. - Porque se manter os servos aqui significa que não vamos falar sobre o que aconteceu, então sim, foi extremamente necessário.  


Bellatrix abriu e fechou a boca algumas vezes, sem ter certeza do que responder exatamente. “O que aconteceu”, ela sabia bem ao que ele se referira. Ao pesadelo, e à forma trágica como o mesmo terminara quando ela abrira os olhos e o encontrara lá. Por mais que quisesse que ele estivesse lá, e que a presença dele nos segundos seguintes tivesse sido essencial para trazê-la de volta a si, abrir os olhos e o ver tão perto no primeiro instante fizera com que ambos agradecessem aos feitiços silenciadores que um dia haviam sido colocados naquele quarto, por razões muito mais confortáveis. A forma como ela gritara havia claramente o atingido, e ela também não havia saído sem cicatrizes do acontecido.


- Não há o que dizer… nós dois sabíamos do começo que era uma jogada perigosa e que, por mais que eu desejasse te ter lá caso eu tivesse um pesadelo, não tínhamos como saber o que aconteceria no momento em que eu acordasse. - ela respondeu, sincera. - E foi negativo, infelizmente, mas… no fundo eu estava certa, ninguém mais poderia ter me acalmado tão rápido quanto você, por mais contraditório que possa parecer.


- Porque o monstro de seus pesadelos não parece assim tão monstruoso na vida real… - ele concordou, amargo, virando o suco batizado a sua frente em um gole só, o uísque de fogo que ele havia adicionado causando o pigarro que se seguiu. - Não quando está tentando te acalmar, pelo menos.


- Sabe bem que não é isso…


- Não…? Então me explica porque estamos assim? De volta à estaca zero? Não éramos amigos até ontem? - ele questionou, servindo-se de uma dose de uísque puro. - E agora mal nos falamos, a não ser que eu expulse os empregados e demande que falemos sobre isso.


- Não estamos de volta à estaca zero, - ela negou com a cabeça - por mais que possa parecer. Eu só preciso esquecer o que aconteceu, o pesadelo eu digo, o que eu vi, o que eu lembrei.


Voldemort, que parecia inclinado a fazer algum comentário, fechou os lábios e fitou o próprio colo, assentindo calmamente com a cabeça. Ele por fim suspirou, girando o copo em sua mão, enquanto eles descendiam novamente ao incômodo silêncio de antes.


- Milorde… - Bellatrix foi a primeira a falar, por mais que não soubesse bem o que queria dizer.


- Não. - ele respondeu, com uma certeza que fez com que ela se calasse imediatamente. - Não precisa e nem deve dizer nada, Bellatrix. - ele deu de ombros e virou o uísque de uma só vez. - A verdade é que se eu não queria me tornar a figura que assombra seus pesadelos, não devia ter me comportado como tal.


Bellatrix não teve resposta para aquele comentário, e se contentou em observar atentamente o não muito interessante guardanapo em seu colo; em seu dedo anelar, o anel deles pesava mais do que o normal, e as rosas a seu redor pareciam mais opressivas do que encantadoras. Respirando fundo, ela fechou os olhos por um momento, agradecida pela privacidade de mente que ele a concedia, apenas para perceber, ao abri-los, que ele havia deixado o jardim. Diferentemente do que ela havia imaginado, a visão da cadeira vazia fora enfurecedora e não tranquilizante.


No mesmo ímpeto que ela imaginava tê-lo acometido, ela se lançou Mansão Slytherin adentro, conhecendo-o o suficiente para saber que não precisaria procurar muito para encontrá-lo, pois havia somente um lugar para o qual ele poderia ter ido.


A porta do escritório trazia um senso de comodidade que ela preferia ignorar, principalmente devido às lembranças recentes de governar daquele lugar que ela tinha, e Bellatrix a abriu de uma vez, encontrando-o exatamente onde havia esperado: sentado na poltrona, com outro maldito uísque de fogo na mão. Ela não pediu licença, nem quando entrou sem permissão e fechou a porta atrás de si, nem quando se serviu de uma dose como a dele.


- Eu acharia sua interminável insolência charmosa, se não fosse tão irritante. - ele comentou, quando ela tomou a cadeira a sua frente. A reação dela, dando de ombros e cruzando as pernas displicentemente, somente confirmou a alegação dele sobre insolência. - Não me lembro de ter te dado permissão para entrar…


- Não me lembro de precisar de permissão. - ela retrucou, mais seca do que planejara, e Voldemort franziu o cenho e a estudou com o tipo de expressão que sempre lhe causara um arrepio na base da espinha, do tipo ruim. Poucas vezes ele reservara aquele olhar para ela, e nenhuma delas terminara bem. - Não se preocupe, não planejo um golpe ou qualquer coisa do tipo… só quis dizer que, até o fim de hoje, eu ainda sou sua Regente. - a mulher tentou suavizar o comentário com um sorriso e bebeu lentamente o líquido cuja queimação era reconfortante e um tanto anestesiante em uma situação tão tensa.


- Você me confunde, Bellatrix. - ele admitiu, a expressão se suavizando e aos poucos tornando-se mais pacífica e preocupantemente cansada. Preocupante, porque ainda que ela não admitisse, no fundo da mente de Bellatrix permanecia viva uma parte da mulher que ficava aterrorizada com a possibilidade de um Voldemort que desistisse dela, deles, se cansasse e seguisse sua vida. Ela não podia tê-lo, não naquele momento, mas também não estava pronta para abrir mão de tudo, da história, e até mesmo do jogo de gato e rato que se tornara a vida deles. Voldemort, no entanto, por mais paciente e incansável que fosse em seus objetivos, não era tolo e não se prestaria ao papel de amante penitente para sempre. Em algum ponto, ela ou cederia ou o perderia para sempre, e ela não estava pronta para nenhum dos dois e menos ainda sabia se era capaz de agir em qualquer uma das duas direções.  - Igualmente irrefutável e resoluta tanto em seu desejo de se manter afastada quanto em sua sede de poder, por mais que ambos anseios sejam tão brutalmente opostos.


- Alguns dizem que não me conformo em deixar de ser relevante, - ela arqueou a sobrancelha. - imagino que começa a ressoar com essas vozes, milorde?


- Não necessariamente. - ele negou com a cabeça. - Eu diria que você, nos cantos mais escondidos de sua alma, ainda mantém resquícios da Bellatrix Black que um dia eu conheci: brilhante, com infinito potencial, mas criada no luxo e no privilégio, acostumada a ter tudo o que quer sem precisar se preocupar com o preço que se deve pagar. - a bruxa franziu o cenho e abriu e fechou os lábios sem saber como responder, e Voldemort riu-se. - Oh, minha cara, por um momento você teve dezessete anos novamente, de forma tão visível que eu não precisaria da Legilimência para saber o que se passou na sua cabeça. Ah, preciso admitir que em momentos sentirei falta dessa Bella, a que morre de medo de me desagradar, de não ser absolutamente perfeita. - Bellatrix tentou fortemente não corar, mas soube ser inútil. - Sim, minha cara, sinto se os últimos trinta anos foram uma mentira, mas quando nos conhecemos adicionei defeitos à lista de qualidades que vi em você, afinal você ainda é somente humana e era extremamente jovem e mais mimada do que jamais irá admitir.


- E minha recusa em me afastar do poder como me afastei do homem que o detém, na esperança de manter somente um quando os dois tão claramente vem em pacote, é um reflexo dessa jovem aristocrata que um dia eu fui… - Bellatrix pareceu pensativa, enquanto voltava a beber do uísque em suas mãos, os olhos de Voldemort a observando atentamente, em silêncio por vários segundos, até que o silêncio foi finalmente quebrado.


- Sim, mas vai um pouco além disso...  - ele respondeu com certeza e simplicidade, dando de ombros. - O ponto, Bella, é que você não quer meu poder para você, é leal demais para isso, mesmo depois de tudo. Você quer poder, se alimenta dele assim como eu, mas do seu poder, o poder que eu te dei quando te fiz Lady da Trevas. Você foi a segunda em comando por tempo demais, com acesso ilimitado a mim e todos os assuntos relevantes, você estava no centro de onde tudo acontecia, dividindo meu poder. É isso que você quer: ser minha rainha. - ela arregalou os olhos, mas não conseguiu negar. - Em tudo o que compete à posição, menos ser minha esposa, mas não é aí que para… você sabe que não consegue ser a rainha que quer ser, por todos os motivos brutalmente expostos essa noite, mas a Bellatrix aristocrata está no desejo de que ninguém além de você jamais ocupe a posição. Você não vai ser, então ninguém mais será…


- Achava que você não queria outra rainha…  - Bellatrix deixou escapar, e se arrependeu imediatamente ao notar que estava provando em voz alta o ponto dele. - E nunca prometi ser descomplicada, ou altruísta.


- Altruísta? - ele soou incrédulo, e ela novamente se repreendeu. - Ah, sim, em entregar de bandeja a outra mulher tudo aquilo que você construiu como minha rainha, quando o título era outro, mas a posição a mesma. Afinal de contas, sem você não haveria reino para rainha alguma… - ele parecia satisfeito demais, e ela se odiava um pouco. - Ou um rei vivo… mas esse não é seu maior medo. - a bruxa gelou, os poucos momentos descontraídos entre eles acabando imediatamente para levá-los à tensão do que ela sabia estar por vir. - Depois da noite que tivemos, vou te poupar de dizer em voz alta, mas é evidente que eu sei, sua mente não é tão bem escondida quanto você pensa. - ele soou quase cruel. - E é isso que me confunde mais.


A fúria que ela sentira quando ele se retirara da mesa do café da manhã estava de volta, borbulhando em seu estômago como lava e tirando-a de seu mais perfeito juízo. Desde os acontecimentos da noite, ela estava abalada e as provocações dele não estavam ajudando em nada. Ela não precisava ser poupada de nada, e nem sabia se era capaz de conter as palavras que inevitavelmente saíram de sua boca.


- Não se dê ao trabalho, se poupar fosse seu forte eu teria uma coroa na cabeça e não estaríamos tendo essa conversa, não é mesmo? - ela podia jurar que Voldemort estava a ponto de estourar o copo de cristal com os próprios dedos, mas foi a expressão dele que a trouxe de volta para a realidade do que havia acabado de dizer. Não fora a fúria dele, tão perfeitamente em sincronia com a dela e tão similar às vezes em que ele a castigara, que a deixou desconfortável em sua poltrona e trouxe lágrimas a seus olhos: fora a dor por trás de tudo, que ele falhou em esconder, por mais que apenas por um segundo, antes que a fúria tomasse conta. Ah, ela sabia que se arrependeria. Haviam os dois voltado ao ciclo de violência e dor em que haviam se instalado, próximo do fim da guerra? Havia ele finalmente desistido de tratá-la como um perfeito cavalheiro o tempo todo? Desistido dela? Eles eram inflamáveis, todos sabiam, esperando apenas para explodir, e a explosão estava próxima.


Com calma, ele se levantou da própria poltrona e, com precisão assustadora, deixou o copo em cima da mesa e se aproximou dela, agachando-se na frente da poltrona em que ela se sentava, com as mãos repousadas calmamente nos apoios de braço, a encarando de mais perto do que ela acharia confortável: olhos alinhados, rostos próximos, um sorriso calmo e obviamente falso estampado no rosto dele. A lava que antes tomara conta dela fora se tornando gelo, não por causa do mesmo tipo de medo que tomara conta dela na noite e no hospital meses antes, mas sim um receio ligado às verdades que ela estava para ouvir.


- Como quiser, minha cara. - ele sussurrou. - Vamos enfrentar os fatos: a grande verdade é que eu te deixei bem confortável quanto ao poder, você continua minha segunda em comando, com títulos e terras e cargos para se deliciar com tudo o que tem, para ser sempre incluída, com nobres e plebeus dobrando joelhos para você, sem ninguém acima de você além de Melinda e mim, e sabe muito bem que dificilmente coroarei outra rainha precisamente porque não dividirei meu poder com facilidade. - ele lambeu os lábios, e ela engoliu seco. - A não ser que… - ele parou para ajeitar uma mecha do cabelo dela, e Bellatrix se segurou para não fechar os olhos. - Eu me apaixone, não é mesmo? Eu sou capaz de amar, o mundo inteiro sabe! E se eu me apaixonasse por alguma outra mulher e fizesse dela minha rainha, não é esse seu maior medo, Bellatrix? Porque você se recusa a aceitar que você já ocupou esse lugar, mas a ideia de que outra o ocupe, quando você esperou décadas por isso, é aterrorizante demais até para pensar. Pode ficar tranquila, Bella. - ele deixou-se rir, e se afastou. - Para minha desgraça, aparentemente, sua posição nesse quesito está tão segura quanto no resto. E, apesar de suas incansáveis tentativas de me afastar, parece que seu feitiço é forte demais para que eu tenha a decência ou a dignidade de deixar de te amar. - ele se jogou de volta na poltrona, e pegou de novo o uísque, para levantar um brinde sarcástico. - Ótimas notícias, seus maiores medos nunca serão verdade e você estava certa, eu não quero outra rainha. Péssimas noticias? Nenhum de nós jamais será feliz, ao que parece, esse é o nosso amaldiçoado espólio de guerra. A outra boa notícia, contudo, é que você volta pra França hoje e não precisará me encarar.


- É aí que fico confusa novamente? - ela perguntou, encarando a mesa. - Porque, apesar do pesadelo e do que o seguiu, eu não consigo parar de pensar no que aconteceu depois. - ela admitiu. - E me faz não querer voltar tanto quanto o resto me faz querer. - era quase como se as palavras rasgassem sua garganta ao saírem, mas ela não podia deixar de dizê-las. - Perdão se o confundo, ou se pareço brincar com seus sentimentos...


- Bella, eu nunca tirei seus motivos, apesar de minha frustração. - ele a interrompeu. - E hoje eu vi o poder deles, e estou mais irritado comigo do que com você, apesar do que possa parecer, apesar de ter sido contraditório e explodido com você. Queria ficar sozinho,  porque sei que sou o culpado do que aconteceu, mas parece que você se recusa a me deixar remoer… e eu olho pra você, e só lembro do horror no seu rosto.


- Não ouviu nada do que eu disse? - ela respondeu, cansada, e se levantou, deixando o copo esquecido sobre a mesa, enquanto a circundava na direção dele. - Foi positivo estar aqui, porque o pouco que me consolou...compensou o medo e o susto, e sou eternamente grata pelas noites tranquilas que sua legilimência me proporcionou.  - ela se sentou sobre a mesa, e Voldemort franziu o cenho. - E sim, eu sou uma confusão ambulante! Eu quero ser sua rainha mais do que tudo e ser sua esposa… eu sempre achei que desmaiaria com essa possibilidade, mas nossas vidas não podem ser isso. - ela gesticulou ao redor. - E sabe disso, é por isso que está tão impossivelmente incomodado. Quer mesmo ter que consolar sua esposa e rainha uma vez por semana porque ela teve pesadelos com você? Com o passado de vocês? Ou ter que controlar todos os meus sonhos pra sempre? Seríamos infelizes de qualquer forma, é a verdade, e é por isso que nos contentamos em ser amigos, porque você insiste, mas mantém certa distância… - o pé dela repousou perigosamente entre as pernas dele na poltrona, e Voldemort deixou-se rir. - Porque não conseguimos nos afastar, mas não podemos ficar juntos, seria injusto arruinarmos tudo o que construímos, então somos pacientes e esperamos que um dia eu conseguirei esquecer, que você conseguirá não se sentir culpado. E, sim, eu temo que nesse meio apareça alguém menos complicada que me roubará de tudo que é por direito meu, mas… não posso ser culpada de torcer pelo contrário, não é? - ela cruzou a perna, deixando a fenda do vestido revelar ainda mais sua pele e Voldemort a encarou com o que ela descreveria como uma expressão divertida.


- E obviamente fará de tudo para garantir que isso não aconteça. - ele, por fim, comentou. - Como exibir tudo o que estou perdendo em minha frente, me lembrando constantemente do que quem sabe um dia eu posso voltar a ter.


- Talvez… - ela deu de ombros, mas desceu da mesa, apenas recostando-se à madeira. - Preciso manter nossas opções abertas.


- Suas opções. - ele a corrigiu. - A ideia aqui é restringir as minhas.


- Era você quem não queria opções, quem disse que não podia tê-las. - ela soou quase inocente, e Voldemort não pôde evitar o sorriso que tomou conta de si.


- Touché. Quando paramos de tentar nos machucar?


- Em algum momento quisemos? Ou paramos? Eu nunca sei… somos uma contradição ambulante, somos quem que mais fere o outro e nos amamos com uma intensidade assustadora… Como você disse, nosso espólio de guerra, não tínhamos como ter o mundo e nenhuma cicatriz.


Voldemort não respondeu imediatamente, o que causou estranhamento em uma Bellatrix já habituada com as prontas resposta do rei, que parecia imensamente interessado em algo que ela tinha dito. Sem saber o que havia causado a pausa dele, Bellatrix franziu o cenho e cruzou os braços, sem o mínimo pudor em mostrar a confusão em sua mente e face.


- Você nem reparou, o que faz a coisa toda ainda mais prazerosa… “Nos amamos”. - ele repetiu, e Bellatrix finalmente reparou onde havia deslizado. - Está admitindo, finalmente, aquilo que te deixa tão desconfortável, minha cara?


Ela não tinha a resposta para aquela pergunta. Queria acreditar com todas as suas forças de que era real, e não algo de que ele havia se convencido, e uma parte subconsciente dela obviamente já estava confortável com a ideia de admitir o amor dele, de deixar-se ser amada pelo homem que idolatrara sua vida toda, mas a verdade é que Bellatrix não tinha certeza e não sabia quando poderia ter. Mas ele estava disposto a fazê-la acreditar, e ela sentia-se pouco inclinada a recusar um futuro em que Voldemort usava todas as armas possíveis para provar que ela estava errada.


- Não arruíne o momento. - ela respondeu e, para tremenda surpresa de Voldemort, sentou-se no colo dele. De lado, rostos alinhados, nada como ela costumava fazer no passado, quando teria sentado-se de frente para ele, com os corpos encaixados, lábios perigosamente próximos, mas ainda sim aquela fora a última reação que ele esperaria. Com as mãos congeladas ao lado do corpo, ele a encarou com uma interrogação, e Bellatrix sorriu. - Eu não mordo… - as mãos dela foram aos ombros dele, e uma delas deixou-se vaguear até a nuca do homem, que arqueou uma sobrancelha em resposta.


- O que diabos está fazendo, Bellatrix? - ele perguntou, sério demais para um momento que parecia tão descontraído. As mãos dele foram até a cintura da bruxa, com clara intenção de empurrá-la para longe. - Falando em arruinar o momento, é uma brincadeira muito sem graça.


- Não é brincadeira! - ela agarrou-se com força à nuca e ao ombro dele, para impedi-lo de afastá-la. - Estou apenas fazendo por você o que fez por mim ontem à noite… Esteve lá para me consolar quando precisei, e você obviamente precisa de ajuda em lidar com tudo isso, então minha vez de retribuir o favor.


- E pretende me ajudar a lidar com a inevitabilidade de nossa separação sentada no meu colo, trazendo à tona tudo o que em teoria precisamos esquecer? - ele quase soaria cômico, se não estivesse tão claramente magoado.   


- Como eu disse, somos uma contradição ambulante. Eu também não faço ideia do que estou fazendo, só sei que vai funcionar.  - ela sorriu, e deixou os olhos caírem sobre os lábios dele.


- Bella… - era um aviso de que logo ele a afastaria novamente.


- E que mal isso pode ter? - ela encostou os lábios sobre os dele, rapidamente, de forma fantasma, sem dar atenção à tentação que lhe intimava a permanecer ali, a abrir os lábios e deixar que sua língua explorasse a boca dele, que fazia-lhe desejar que ele a jogasse naquela mesa como tantas vezes no passado, mas nada disso era deles mais. Assim, ela se contentou em tocar os lábios dele por um longo segundo, e deitar a cabeça no ombro dele rapidamente, antes que mudasse de ideia e o rumo daquilo fosse completamente diferente.


A cabeça de Voldemort encostou-se à dela quase imediatamente, enquanto suas mãos a traziam para mais perto de si, e a forma como ela se encolheu em seus braços, confortavelmente se aninhando e fechando os olhos, fez com que Voldemort se rendesse à vontade e plantasse um beijo na testa dela, antes de seguir o movimento da mulher e fechasse os olhos. As duas pessoas mais poderosas do mundo, amaldiçoados em encontrar tranquilidade e conforto apenas na única pessoa que podia feri-los, pois era também a única que podia consertá-los. Perdidos em sua contradição, eles permaneceriam por um longo tempo, até que uma batida na porta os tirasse de sua calmaria. As duas pessoas mais poderosas do mundo tinham um reino para governar, e os milhões de súditos e inimigos abaixo deles não esperariam até eles estarem inteiros novamente. Voldemort perguntaria, logo depois de atender o mensageiro, se ela preferia ir descansar ou ficar com sua filha e sua neta, e a resposta da bruxa, não sem um insolente revirar de olhos, seria: - Regente, doze horas para expirar, me mostre o caminho. - Ele discutiria que tecnicamente a regência acabara no momento em que ele “voltara”, mas manter a companhia dela superava qualquer tecnicalidade. Bellatrix sabia de tudo aquilo, e concordava com o modo de pensar ele. Doze horas, e eles aproveitariam cada minuto.  


  


Draco não precisou perguntar porque Melinda escolhera tomar café da manhã somente com ele e Pandora, ou porque Gabrielle e Nicky haviam aparecido para o almoço algumas horas depois e se estendido a maior parte da tarde para terem uma desculpa para tomar o chá da tarde com eles. Melinda estava por detrás daquilo tudo, para tirar a mente dele das preocupações: o destino de Lucius, o impacto que aquilo teria em sua família dali pra frente e, por cima de tudo, a forma distante e excludente que Voldemort insistia em tratá-lo - além, é claro, da eterna negação de Melinda sobre o assunto. Ele não sabia o que estava impactando mais o relacionamento deles: a evidente frieza de seu sogro, ou o interminável desejo de Melinda que tudo estivesse somente na cabeça de Draco. A triste verdade, contudo, era que não estava.


Algo acontecera na guerra, algo que Voldemort não lhe diria e Melinda tinha medo descobrir. O que aconteceria com a Princesa das Trevas, a herdeira, caso aquela questão terminasse mal? Onde a lealdade dela ao pai terminava e o amor ao namorado começava? Dois anos antes, durante o período com sua missão sobre Dumbledore, Voldemort vencera a luta pelo apoio de Melinda e aquilo quase os destruira… Por que seria diferente, daquela vez? Pandora, talvez? Ao observar o amor de sua vida brincar com sua pequena menina, Draco deixou-se sorrir sob o atento olhar de Gabrielle, que permanecera a seu lado quando Melinda e Nicky levaram Pandora para a grama.


- Ela sabe? - Gabrielle perguntou, a xícara de chá esquecida entre os finos dedos. - Que você ainda olha assim pra ela? - a loira sorriu. - Tanto encantamento, e certo medo?


- Seríamos todos tolos de não temê-la, Gaby. - foi a resposta que Draco conseguiu encontrar dentro de si. - E é claro que ela sabe, ela lê nossas mentes.


- Não é a resposta que eu esperava de um homem apaixonado… - ela levantou a sobrancelha. - Algo está acontecendo?


- Além do iminente desastre em minha família, do afastamento do Lorde das Trevas, e da negação de minha bela e perigosa namorada? - Draco sorriu sarcasticamente, e Gabrielle, muito mais familiar com os problemas dele do que o loiro podia imaginar, fitou o próprio colo em silêncio. - Desculpe-me, Gaby, não é culpa sua… eu só estou nervoso, com tudo o que acontecerá hoje, e minha mãe não se abre comigo, apesar de encontrar imenso conforto em meu tio Rodolphus…


- Ciúme, Draquinho? - Gabrielle escapou de dizer-lhe que tinha muito mais impacto em seus problemas do que gostaria de admitir com uma leve provocação, que tirou um sorriso sincero do antes taciturno Draco. - Eu soube da história de sua mãe com Rodolphus, Melinda me contou, e aparentemente nem o Lorde e nem a Lady das Trevas viram problema algum com o relacionamento. E eu te garanto que eles olharam todas as variáveis.


- Tia Bellatrix acaba com você, se te ouvir chamá-la de Lady das Trevas, aliás. E eu não saberia o que o Lorde das Trevas pensa, caso Melinda não me contasse, como você bem sabe… não recentemente, pelo menos.


Gabrielle estudou o próprio chá com um interesse desproporcional por um líquido com o qual estava tão acostumada. Ela teria que medir as próprias palavras com imenso cuidado para não dizer mais do que ela podia, mas ver o amigo tão preocupado, e o impacto que aquilo estava tendo na vida dele e de Melinda, era algo que ela não podia suportar.


- Draco… - ela começou, testando as próprias palavras, e colocando uma mão de suporte no ombro dele. - Tudo vai se resolver, e eu sei que isso soa estúpido, clássica resposta para problemas, mas eu sei do que eu estou falando. O Lorde das Trevas está em adaptação, ainda digerindo tudo o que aconteceu na guerra, mas mesmo assim todos nós sabemos o valor que você tem. Draco, você matou Dumbledore, foi você. Isso nunca mudará! E o Lorde… ele é generoso com os seus, e no fim das contas sempre justo, você sabe disso.


- É o que eu venho me dizendo há meses, Gaby… - Draco forçou um sorriso. - Eu só espero que todos nós estejamos certos…


- Qualquer coisa que tenha ficado estranha entre vocês na guerra, ele resolverá em tempo. - Gabrielle deitou a cabeça no ombro dele. - E talvez se sua tia parar de correr dele…


- Eu não me meteria nesse ninho de vespas, se fosse você, querida Gabrielle.


- Não consigo, mas obrigada pelo conselho. Como eu dizia, ele teria mais tempo para resolver os outros problemas…


- “Lady das Trevas”, “resolver os outros problemas”, alguém está bem liberal com as palavras hoje… - Draco deu risada, e Gabrielle deu de ombros, dizendo que só estavam eles ali e que todos sabiam que era a verdade. - Talvez um dia desses eu devesse dar uns conselhos pra tia Bella, não que ela vá ouvir é claro. - aquilo fez Gabrielle rir, enquanto eles observavam Pandora encantada com as mudanças de aparência de Nicky e os fogos de artifício que Melinda estava criando.


- Sem varinha… - Gabrielle comentou, sinalizando para a varinha presa à perna da princesa. - Impressionante.


- Como eu disse, seríamos todos tolos de não temê-la. - Draco respondeu, mas daquela vez com um sorriso. - E de não amá-la com toda nossa alma.


- Agora sim o Draco que eu procurava… E sobre ela, bem, dizem que as mulheres da família Black tem esse efeito: fáceis de amar, ainda mais fáceis de temer… Hoje à noite, veremos se aplica a todas elas, eu tenho um pressentimento que sim.


- Meu pai acha que não, com certeza, mas também suspeito que ele está errado. - Draco não conseguiu esconder o orgulho em sua voz, e Gabrielle se afastou para observá-lo com um questionamento no rosto. - Ele merece tudo o que vier a ele, Gaby, sem exceção. - ao longe, ouviram Pandora chamar, levantando-se da grama com os braços estendidos, as palavras “papai” e “estrelas” sendo as únicas audíveis para eles. Draco se levantou, e beijou a mão de Gabrielle, que rolou os olhos. - Obrigado por me ouvir, vossa graça, depois de tantos meses escutando que estava imaginando coisas, foi bom ter alguém de fato procurando entender.


- Não seja tão duro com ela, - Gabrielle pediu, e Draco assentiu. - essa coisa toda também não é fácil para ela, Melinda sabe e pensa muito mais do que você pode imaginar.


- Eu sei, só queria que ela deixasse de tentar me proteger…


- Ela não seria a nossa Melinda se o fizesse, meu caro príncipe. - Gabrielle sorriu quando ele não a corrigiu e se afastou para ficar com a filha que novamente o chamava. Ele ainda não era o príncipe, mas se dependesse dela e de seus estudos, ele logo seria.  


Ao longe, vendo como ele pegou a pequena Pandora no colo e a jogou para cima, enquanto a menina ria incontrolavelmente e apontava para os fogos de artificio, ou como ele parou para pousar um delicado beijo nos lábios de Melinda, ninguém diria que eles tinham os problemas que tinham, contudo Gabrielle se deixaria imaginar num mundo em que aquilo duraria para sempre e ela faria de tudo para tornar aquilo realidade.


 


Mansão Slytherin - 10 de agosto de 1998 - 20h49


 


A Sala do Trono estava um pouco diferente do que estivera horas antes, com o trono de Voldemort movido um pouco para o lado e uma segunda cadeira tão belamente enfeitada colocada a seu lado. Todos os servos se contentaram em não comentar o fato de que ele tinha na Mansão uma duplicata de seu trono, com enfeites um pouco diferentes - incluindo diversas rosas cravadas no metal - mas todos sabiam porque aquela cadeira existia e ninguém era tolo de comentar.


À frente, abaixo dos degraus, no lugar da enorme mesa em que os Comensais geralmente se reuniam, diversas cadeiras haviam sido colocadas em um semicírculo, com uma única cadeira no meio, cercada por visíveis feitiços de proteção. Em dez minutos, o círculo íntimo tomaria aquelas cadeiras, e Lucius ocuparia a do meio.  


Sons de aparatação começavam a encher a propriedade e, da janela do quarto, Bellatrix podia ver os sinais luminosos que a magia de alerta ao redor da Mansão emitia quando alguém chegava. As mãos de Voldemort em seus ombros traziam um estranho conforto, e a forma como ele massageou os músculos tensos conseguiu tirar a mente dela do problema a sua frente por alguns segundos.


- Preocupada em não concordar com a resolução de sua irmã? - ele perguntou, parando de massagear por um instante. - Podemos sempre agir…


- Sabe que não podemos. - Bellatrix suspirou e encostou a cabeça ao vidro. - Se ela decidir perdoá-lo, terei que viver com isso, todos teremos.


Bellatrix se afastou e decidiu dar uma uma última olhada no espelho da penteadeira, sentando-se com uma calmaria anormal para o momento que passava, ajustando roupas e jóias que já estavam seus devidos lugares, somente para ter o que fazer. Atrás dela, Voldemort parou para observar, e notar que ela usava não só o anel, mas também o famoso colar com cobras ao redor de um coração de esmeralda que ela costumava amar tanto. É claro, com todos os significados, se eles estivessem juntos de fato ela estaria usando aquilo com a mesma frequência de antes.


- Tem certeza de que está confortável com o show que daremos graças à sua irmã? - ele questionou, e Bellatrix assentiu com um sorriso.


- Eu fui a Rainha por uma semana, posso ser por mais algumas horas…


- Não é a mesma coisa…


- Eu sei, - ela o encarou pelo espelho. - mas nós estivemos juntos por décadas, creio que conseguiremos passar credibilidade por algumas horas. Mesmo que seja apenas para atormentá-lo durante o julgamento, caso ela decida perdoá-lo.


Voldemort fez um pequeno aceno com a cabeça e sumiu na direção do closet, deixando para trás uma confusa e ainda mais ansiosa Bellatrix. Na volta, ela reparou em uma caixa quadrada de veludo que ele trazia nas mãos, e respirou fundo ao concluir o que havia dentro.


Ele parou atrás dela e colocou a caixa na penteadeira ao lado das mãos dela, mas ainda sem abrir. Bellatrix observou a caixa e deixou que os dedos tocassem o tecido delicado, um sorriso conformado chegando sem ser chamado a seus lábios.


- Achei que seria apropriado você usar, - ele comentou, abrindo a caixa para revelar uma coroa de cinco pontas, toda de ouro branco, cravejada em esmeraldas ao redor das belas curvas que o metal fazia, formando algumas rosas em baixo relevo. Em cada ponta, uma esmeralda brilhava, tão delicadamente inserida no metal que ela mal podia ver onde o ouro branco terminava e a pedra preciosa começava. - já que será rainha pela noite. - a tiara que ela anteriormente havia pensado em usar ficara esquecida do outro lado da penteadeira, sua beleza pálida perto da jóia que acabara de ser exibida. Dentro da coroa, ela conseguia ver algo gravado: per aspera ad astra. - “Às estrelas através das adversidades”, ele traduziu sem que ela pedisse, em uma língua antiga. Parecia apropriado, na época.


- Ainda é… - foi somente o que ela respondeu, tocando o frio metal com a ponta dos dedos. - Então é verdade…


- Que existe uma coroa de Rainha? - Ele riu-se, rolando os olhos, e pegou a coroa entre as mãos. - É evidente que sim, mas existem duas.


- A de coroação, com o veludo por dentro? - ela perguntara antes de pensar.


- Exatamente, mas essa você não verá, minha cara. - Voldemort respondeu, num tom mais relaxado. - A não ser quando quiser ser coroada, é claro. - ele piscou, e ela rolou os olhos, momentaneamente esquecendo-se do que estava por vir.


Ele então colocou a coroa delicadamente no topo da cabeça dela, e a forma como ela serviu perfeitamente não fora surpresa, apesar de ainda assim trazer lágrimas aos olhos dela. Ele havia feito questão de não bagunçar o penteado que ela havia feito, mesmo que tivesse curiosidade de ver como ela ficaria com o cabelo solto, mas teria que se contentar em imaginar.


Bellatrix olhou o próprio reflexo, mas não conseguiu encarar-se por muito tempo, não daquele jeito, ou ela não conseguiria garantir que dormiria na própria cama aquela noite. Depois da conversa que haviam tido, não podia cometer um absurdo daqueles. A mão estendida a seu lado foi o único convite que a mulher precisou para levantar-se e esquecer-se dos pensamentos que passaram por sua cabeça. Eles tinham algo urgente para resolver, algo que já havia passado do tempo, e ela não podia estar mais ansiosa.


 


Todos, com exceção do réu, estavam presentes quando o rei e sua temporária rainha entraram na sala. O círculo íntimo sabia que aquele pequeno teatro fazia parte do julgamento, um pedaço do castigo de Narcissa a Lucius, mas quando eles entraram de braços dados, conversando ao pé do ouvido do outro, ambos magníficos com suas belíssimas coroas, muitos deles secretamente desejaram que aquela brincadeira durasse mais tempo - era natural, e esperado, e ver qualquer outra coisa causava uma incômoda estranheza.


Foi somente quando eles estavam confortavelmente sentados em seus tronos, que o prisioneiro foi finalmente trazido. Em meio a todas aquelas figuras belamente trajadas em negro, com exceção de uma Bellatrix completamente esmeralda, todos cobertos de jóias e finos tecidos, Lucius pareceu ainda mais acabado. Diversas marcas de feridas mal cicatrizadas cobriam seu corpo e, mesmo com as novas roupas negras que lhe foram colocadas, ele tinha um aspecto de sujeira que não o deixara, o cabelo loiro ficara cinzento e com partes eternamente manchadas de vermelho nas pontas, deixando um aspecto estranho e alaranjado. Sua pele estava translúcida, e ele mais magro do que qualquer deles jamais o havia visto.


Forçado de joelhos pela guarda, na base das escadas que levavam aos tronos, Lucius sussurrou algo que deveria ser “Vossa Majestade”, e manteve seu olhar fixo no mármore à sua frente.


- Majestades, Malfoy. - Bellatrix o corrigiu, com um prazer que se repreendia por sentir. A mão de Voldemort segurou a dela, apertando em aprovação, e ela continuou. - Ainda somos dois, e rainhas também são majestades, caso tenha se esquecido. - ele não havia se esquecido, evidentemente, mas ela não perderia a oportunidade de pisá-lo.


- Majestades. - Lucius se corrigiu, e Voldemort fez um aceno para que os guardas o soltassem. - Peço perdão por meu lapso.


- Imagino que podemos adicionar à lista de razões pelas quais veio implorar nosso perdão, Lucius. - Voldemort respondeu, frio, e Lucius o encarou com claro terror. - Infelizmente, como já deve saber, não é o nosso perdão que deve implorar.


Lucius olhou por cima do ombro para encontrar Narcissa de dedos entrelaçados com Rodolphus, Draco sentado ao lado deles, com uma mão no ombro da mãe. Ele faria algum comentário, mas preferiu ficar quieto para não piorar a própria situação, Narcissa era sua melhor chance.


- Milorde, Milady, Cissy… - Lucius começou, lambendo os lábios. - Sei que cometi diversos erros, e que mereço estar em julgamento por todos eles...


- “Crimes” é a palavra que procura, Malfoy. - Bellatrix descruzou as pernas e inclinou-se para a frente, para encará-lo mais de perto. - E não adianta de nada discursar agora, você terá sua oportunidade mais tarde. - ela fez um sinal para que os guardas o levassem para a cadeira protegida por feitiços, mas Lucius não foi tão pacífico quanto seria esperado e precisou ser arrastado.


- Milorde! Já não fui suficientemente punido por meus crimes? - Lucius conseguiu soltar-se dos guardas por um momento, levantando as mangas para mostrar as marcas de mais feridas, feias cicatrizes que fizeram alguns dos mais experientes comensais desviarem o olhar. - Não perdi partes de mim o suficiente nas mãos habilidosas de sua amada rainha, como punição? Meses de tortura, até que ela mesma se cansou!


- Saudades, querido? - Bellatrix respondeu, em provocação, quando os guardas conseguiram finalmente arrastá-lo para detrás dos feitiços. - A masmorra sempre estará lá para nós, com todas as encantadoras lembranças que construímos juntos! Desculpe-me se estava ocupada demais governando sete países e sendo feliz para lembrar-me de continuar nossa bela dança, meu caro, eu deveria ter te dado mais atenção nesses últimos meses. Infelizmente, como sou uma monarca agora, preciso entender a diferença entre vingança e justiça. E é para isso que estamos aqui hoje.


- Então vamos mesmo fingir que terei um julgamento justo? - Lucius riu-se e forçou-se contra os feitiços, apenas para ser jogado sentado novamente. - Poupe-me, Bellatrix.


- Dirija-se a sua rainha com o respeito devido, Malfoy, ou piora suas chances. - Voldemort avisou, sem mudar de expressão, e Lucius engoliu seco. Um Voldemort irritado era sempre melhor do que a versão calma dele. - E foi exatamente em busca de um julgamento justo que entregamos seu caso a sua esposa, para que as experiências e mágoas da minha não interferissem na sentença. Contudo, precisamos lembrar que temos mais do que meras acusações, e provas, temos um flagrante. Terá um julgamento justo, sim, mas tão justo quanto alguém pego em flagrante cometendo alta traição pode ter.


- Antes de começarmos oficialmente, - Bellatrix voltou a falar. - gostaríamos de agradecer a presença de todos em meio a um assunto tão delicado, e esclarecer que em momento algum tentamos guiar as escolhas da Sra Malfoy neste assunto e que qualquer veredito em que ela chegar será respeitado, independente de minha opinião ou do rei, e que não existe restrição alguma ao que ela pode fazer. Dessa forma, Narcissa tem total carta branca para perdoar, caso assim ache adequado, e esse perdão será concedido e respeitado. Estamos claros?


Uma onda de confirmações encheu a sala, e Lucius olhou a seu redor, estudando os antigos colegas que o cercavam. Os olhares deles não mentiam, todos sabiam. Era impressionante que Bellatrix contara a todos o que acontecera, mas ele devia ter esperado que ela não deixaria detalhe algum de fora, suporte nenhum acessível a ele. Ali, ele não tinha mais amigos, e nem mesmo seu filho o encarava com qualquer simpatia. Os repetidos avisos da rainha, a ideia quase o queria fazer vomitar, sobre o respeito às decisões de Narcissa eram somente mais indicativos daquilo.


- Lucius Malfoy, - Bellatrix chamou a atenção dele para si. - você se apresenta hoje aqui em julgamento pelas acusações de agressão, estupro e alta traição, todas anteriores seguidas de agravantes de premeditação e as duas primeiras de reincidência após seu último perdão, concedido três anos atrás na ocasião do retorno do Lorde das Trevas. Por mais inútil que possa parecer devido a seu flagrante, sejamos justos. Como você se declara?


- Culpado, majestade. - Lucius respondeu, seco. - Entrego-me à misericórdia de minha esposa e dos presentes, e agradeço a oportunidade de ser perdoado caso Narcissa assim o deseje.


- Todos aqui já estão familiares com as acusações, então não creio que precisei repetir os detalhes. - Bellatrix continuou, mas somente para ser interrompida novamente por Lucius.


- Eu não entendo, contudo, porque ainda consideramos alta traição. - Lucius falou, ganhando alguns suspiros cansados em resposta. - Você não era rainha ainda, majestade, e como todos nós sabemos, já não era mais Lady das Trevas quando minha reincidência ocorreu. O Lorde das Trevas a havia abandonado na Mansão Malfoy, à sua própria sorte, com o resto de nós, você era somente mais uma Comensal da Morte! - ele cuspiu, numa vã tentativa de conseguir algum suporte.


Voldemort ajustou-se na cadeira, numa posição similar à de Bellatrix, para olhar Lucius mais de perto, ainda que com o mesmo nojo. - É aí que se engana, Lucius. Bellatrix de fato deixou de ser a Lady das Trevas por um período, antes de se tornar rainha, mas isso ocorreu nos dias seguintes ao ocorrido. Antes, e durante o crime, ela ainda era a Lady das Trevas, independentemente de quaisquer castigos que estivessem sendo aplicados a ela. - Lucius pareceu tornar-se ainda mais pálido. - E, na ocasião de seu perdão, eu jamais me referi a ela como a “Lady das Trevas” quando ordenei que se mantivesse afastado. É acusado de alta traição não somente por ter atacado a então Lady das Trevas, mas por ter quebrado os termos de seu acordo comigo e traído minha confiança e misericórdia. Tudo esclarecido?


- Sim, majestade, claro como água. - Lucius fitou os próprios sapatos.


- Evidentemente, em qualquer situação normal, a pena para esses crime é a morte. - Bellatrix reforçou, com um sorriso, mas Lucius não levantou os olhos para encará-la. - Em nossa nova maneira de governar, inspirada em como as coisas funcionavam na primeira guerra, e buscando justiça e misericórdia, entregamos a palavra e seu caso para sua esposa. Cissy, a partir daqui, a palavra e as decisões são suas. - Bellatrix apontou a mão na direção de Narcissa, que assentiu e se levantou, parecendo trêmula.


- Majestades, - ela fez um aceno com a cabeça, que foi repetido pelos dois. De mãos dadas, com os dedos entrelaçados, finalmente sentando-se novamente de forma confortável em seus tronos, eles aguardaram a continuação dela. - demais presentes, boa noite. Desde nosso último encontro, na semana passada, tive imensa oportunidade de refletir sobre este tema tão infeliz. E, ainda que tenha sido agraciada com imenso suporte e compreensão, reforço que a decisão à qual cheguei é minha e de mais ninguém. Agradeço a todos a meu redor, vossas majestades em especial, por terem confiado que seria capaz de encontrar a melhor solução para esse problema que nos cerca há tantos anos. Durante estes dias, analisei cada detalhe desses crimes terríveis, mas também os impactos que eles tiveram não somente em nossa família, mas na causa como um todo. - Narcissa parou para respirar e, muito breve e discretamente, Rodolphus encostou na cintura dela, como um sinal para que ela se acalmasse, e Draco segurou uma de suas mãos e sorriu para a mãe, também em sinal de apoio.


Ao longe, a loira conseguia ver claramente por trás da máscara de beleza e compostura da irmã. Bellatrix estava tão nervosa quanto ela, ou mais, e a forma como fortemente agarrava-se à mão de Voldemort era o único indicativo que ela deixava escapar. A pausa na fala de Narcissa somente piorou a situação de Bellatrix, que moveu-se desconfortável no trono, sem jamais tirar os olhos da irmã.


- A conclusão a que cheguei foi: os danos foram tão terríveis que mal consigo mensurar. Uma família destruída, perda de confiança em nosso alto comando, desconfiança entre amigos e colegas, entre irmãs. Lembro-me de quando descobri o ocorrido, como o réu tentou virar-me contra minha irmã e superior, pintando-a como um tipo de vilã, tentando transferir-lhe parte da culpa, e como ainda hoje desafia e agarra-se a qualquer resquício de poder que possa ter. - Narcissa lambeu os lábios. - Sua sede de poder, de submeter e humilhar alguém pelo simples motivo de ter sido rejeitado após um flerte adolescente, de ferir a mulher que alega amar, passando por cima de sua família, de seu mestre, é tudo tão doentio e ao mesmo tempo tão premeditado e perfeito que me fez pensar que ‘doentio’ não é o adjetivo correto. Tudo o que você fez, Lucius, - pela primeira vez, ela se dirigiu diretamente a ele, que virou-se na cadeira para encará-la. - foi pensado e estudado para causar a maior dor possível. Você não a ama, você a odeia e não consegue aceitar que ela sempre estará acima de você, que você nunca foi e nem nunca seria o suficiente. Sim, meu caro, você não passou de um brinquedo adolescente, e eu não sei de onde você tira a certeza de que isso te dá o direito de tirar dela o que quiser, como quiser e quando quiser, em retaliação, mas não confunda nada disso com amor, ou saudade, ou desejo. Retaliação é o que você buscava, ter poder sobre ela, machucá-la da pior forma possível, infligir dor a ela e, por tabela, a todos nós. A todos aqueles que, por diversas razões, se colocaram em seu caminho ou te lembravam como sua vida real era. Draco e eu nunca fizemos nada para merecer tamanha dor, pelo contrário, tudo o que fizemos foi amá-lo. - Lucius encarou o próprio colo. - E, mesmo assim, nenhum de nós estava em sua cabeça quando decidiu prosseguir com sua estúpida violência. Não que ela tenha merecido, longe disso, ela também não tinha culpa de sua incapacidade de funcionar como um adulto normal, e o Lorde das Trevas…? Quem poderia culpá-lo de algo? Ter sido o alvo do amor que você queria? Poupe-nos, Lucius. E, mesmo depois de ser perdoado, você foi lá e… - Narcissa fitou o chão e suspirou. - O quão burro pode ser? Teve uma segunda chance, uma terceira, mas percebo que é movido pelo rancor e pelo ódio, muito além da inteligência que um dia sei que teve.


Os demais presentes permaneciam calados, mudas testemunhas do que estava acontecendo e do que estava por vir. Respeitosamente, pouco se comentara naquela semana sobre o julgamento, e sobre o possível resultado. - Mas eu não sou. - Narcissa continuou. - e é por isso que fui escolhida, porque de todos aqui sou a menos movida a ódio e a violência, por mais que você mereça isso e muito mais de mim. Nesses dias, por muito tempo ponderei o quanto queria deixar que você me tornasse uma pessoa que não sou, se deixaria tudo para trás, puxaria a varinha e te mataria aqui, na frente de todos, o perfeito final para uma história trágica e o inesquecível renascimento daquela que sempre vivera à sombra dos outros. Para sua sorte, ou talvez azar, todo o seu controle sobre minha vida acabou, Lucius. Eu tomo minhas decisões, e não pretendo deixar que você molde quem eu sou, quem vou me tornar, nunca mais. E não passarei meu futuro tentando ser minha irmã também. Recentemente me corrigiram, me dizendo que o fato de que meu primeiro instinto não é eviscerar alguém não significa que sou fraca, e não sou Lucius. Eu não preciso acabar com você para provar que sou forte, não preciso ser alguém que não sou, preciso somente apagar você de minha vida, - Narcissa entrelaçou os dedos de sua mão livre com os de Rodolphus, para todos verem. Se o momento fosse menos tenso, murmurinhos teriam começado. - seguir com ela, ser feliz, assim como minha irmã acaba com você apenas por sentar naquele trono, feliz do lado do homem que sempre amou, apesar de todas as suas tentativas de acabar com eles. Não preciso te matar, Lucius, para te destruir, porque você já está destruído, tornou-se uma chateação irrelevante com a qual devemos lidar.


- Imagino que o passado do novo amor de sua vida também é irrelevante? Pois até pouco tempo atrás, Rodolphus e eu tínhamos interesses muito similares. - Lucius respondeu, encarando o outro homem com evidente nojo. - Criou um hábito de limpar as migalhas de sua irmã, Cissy? Deixe de rodeios, se vai mesmo me perdoar ou me exilar, já que não pretende se rebaixar a me matar, faça-o logo e nos poupe de mais discursos.   


Olhando para cima, Narcissa observou como Bellatrix levou a mão livre aos lábios, fechando fortemente os olhos, sem a menor intenção de esconder o próprio desapontamento. Os olhos verdes estavam marejados, e Voldemort colocara mais uma mão sobre as mãos entrelaçadas deles. A ideia de um Lucius vivo e livre era evidentemente estressante para a bruxa, que teria o matado muito antes se pudesse, mas era uma possibilidade que precisara ser contemplada desde que ela passara à irmã a responsabilidade de decidir o final daquela história. O beijo que Voldemort deu na tempora de sua falsa rainha tomou a atenção de Narcissa por mais um segundo, antes que ela continuasse.


- Exílio. - ela finalmente falou. - Em algum canto gelado e sem magia, sua varinha quebrada, com ordens de ser morto se chegasse perto desse país, seria o castigo perfeito para você. - o soluço de Bellatrix foi audível, e Narcissa olhou rapidamente para ver que ela escondera o rosto no ombro de Voldemort para esconder as lágrimas que, com certeza, manchavam seu rosto. A sua esquerda, Narcissa viu um sorriso compreensivo no rosto do filho, e uma expressão chocada em Melinda, que escolhera sentar ao lado de Draco e não dos pais, para dar-lhe apoio, e mantinha a mão segurando a dele firmemente desde o começo. A princesa copiou a reação da mãe e deitou a cabeça no ombro do namorado, que estava muito mais contido do que a loira esperara. - Majestades, - Narcissa chamou os dois, mas foi encarada somente por Voldemort, que fez um sinal para que ela prosseguisse, enquanto acariciava o lado do rosto de Bellatrix para tentar acalmá-la. - esse foi o veredito ao qual eu cheguei.


- Se está confortável com sua decisão, Malfoy, seguiremos com ela, conforme prometido. - Voldemort respondeu, correndo com as palavras, usando toda a sua força para soar impassível, inabalado.


- Este é o ponto, milorde, eu não estou, e nem jamais poderia estar. - Narcissa respondeu, sincera. - Porque olhando para os olhos dele, e vendo o alívio que os cobriu, eu por momentos acreditei que havia encontrado a solução perfeita, mas mesmo agora eu vejo a maneira como ele encara nossa rainha, o ódio, a expressão de vencedor, e isso tudo confirma a última dúvida que ainda me assombrava: se teríamos paz. - Lucius pareceu congelar em sua cela mágica, e Narcissa negou com a cabeça. - Qual a função de segundas e terceiras chances, sendo que você sempre as queima, meu caro? Sendo que eu sei que virá atrás dela, e de mim, de Draco, Melinda, Rodolphus, de quem for, para se vingar, para continuar o ciclo de violência. Eu não quero me rebaixar a te matar, e meu desejo era te exilar, mas você mesmo assinou sua sentença de morte, Lucius. Enquanto você viver, nenhum de nós terá paz, e por Merlin nós merecemos paz. - as lágrimas que Narcissa reprimira o tempo todo vieram a seus olhos, e ela viu a irmã gradualmente mudar de posição, saindo de seu esconderijo nos braços de Voldemort para assimilar o que estava ouvindo. - Obrigada por sanar minhas dúvidas, meu caro, e confirmar meus medos. Milorde, eu recomendo, por fim, a pena de morte.


Narcissa sentira as mãos de Rodolphus e Draco apertarem com força as suas, e ouviu um soluço contido de Melinda, que abraçou o namorado com força, mas fora a reação de Bellatrix que enchera a sala, por cima do barulho de um Lucius que lutava contra os feitiços que o prendiam. O choro silencioso de Bellatrix aumentara de intensidade, quando a notícia chegou a seus ouvidos e todo o desespero de segundos antes e de anos de medo e humilhação a atingiam e qualquer receio que ela tinha de desmoronar em frente ao círculo íntimo desapareceu, os soluços altos misturados de alívio e felicidade preencheram os quatro cantos da sala, e ela encolheu-se no trono. A seu lado, Voldemort abaixou-se para segurar os ombros dela, e acenou para Narcissa com a cabeça, tranquilidade e orgulho estampados em sua expressão.


- Como se você conseguisse me matar, sua vagabunda! - Lucius gritou e cuspiu na direção dela, mas não conseguiu mudar a expressão da mulher.


- A vantagem de ter todo um sistema atrás de mim é que eu não preciso ser também o carrasco, meu caro, posso somente dar sua sentença e apontar quem a cumprirá, se assim vossa majestade permitir. - ela olhou para Voldemort, que confirmou com a cabeça. - E, pode até ser que você não esteja errado e eu falhe, mas nunca saberemos, porque existem candidatos muito mais qualificados aqui para isso. E, discutivelmente, que merecem a honra mais do que eu. Bella, ele é todo seu.


Lentamente, os olhos de Bellatrix procuraram os da irmã, que sorria para ela. Bellatrix abriu e fechou os lábios algumas vezes, e olhou pra o lado para encontrar a aprovação de Voldemort, que em algum momento nos dois segundos anteriores invocara a varinha da bruxa, e agora a entregava com calma nas mãos dela.


Ainda assimilando tudo o que acontecera, Bellatrix respirou fundo e tomou a varinha entre os dedos, testando a madeira entre seus dedos, antes de se levantar. Segundo protocolo, todos os que ainda estavam sentados, com exceção de Voldemort, se levantaram em respeito, enquanto ela descia calmamente os degraus na direção da cela de Lucius.


- Onde foi parar todo aquele enfrentamento? - Bellatrix perguntou, ao encontrá-lo calado.


- No mesmo lugar em que encontrará sua dignidade, majestade. - ele respondeu, com o resto de sarcasmo que ainda conseguia ter. - Esperava mais de você do que lágrimas, Bellatrix, sua maquiagem está toda borrada! Tenha compostura, mulher, não é a Rainha da Inglaterra?


- Todos podem se sentar. - foi a resposta que ela deu, e a imediata reação em cadeia, com todos os comensais voltando a seus assentos, foi o único recado que ela precisou dar a Lucius. - Últimas palavras? - ela girou a varinha entre os dedos e arqueou a sobrancelha.


- Vá se foder, sua vadia maldita! - Lucius gritou, e cuspiu no rosto dela, acertando pela proximidade como não conseguira fazer com Narcissa. - Você, a vagabunda da sua irmã, sua filha bastarda, seu marido mestiço, seu ex-marido frouxo e todos esses idiotas que babam em vocês! - ele olhou na direção de Draco. - Incluindo o idiota que eu chamo de filho, e cresceu pra ser um babaca que fica lambendo o chão por onde a putinha da prima herdeira anda. Filho de uma mulher tão patética e mimado como foi, só podia virar um capacho de merda mesmo!


- Draco é dez vezes o homem que você jamais foi, Lucius, - Bellatrix respondeu. - mas ele não precisa que eu o defenda, não é como se nós estivéssemos ouvindo qualquer coisa que você diz, de qualquer forma. Uma pena que tenha desperdiçado suas últimas palavras.


- Me mata então, sua puta! Mata logo, vai, aproveita e bate uma depois, pra satisfazer sua doença, mas pensa bastante e mim! - Lucius piscou e, com um movimento da varinha, Bellatrix trouxe a língua dele para sua mão, o sangue escorrendo por seu pulso e pelo rosto do bruxo muito antes que os Comensais reparassem no que ela havia feito. Sem poder gritar, ele apenas urrava.


- Nem mesmo nesse momento tão sublime você seria capaz de me excitar, Malfoy. - ela jogou a língua no chão, e olhou para ver Narcissa horrorizada, cobrindo o rosto com as mãos. - Como eu disse, depois de hoje, se alguém ainda pensar em você vai ser com essa imagem… patético, acabado. - o sangue manchava o chão e os Comensais se revezavam entre parecer horrorizados com tamanha bagunça, preferindo que ela tivesse o matado de forma limpa e rápida, ou encantados com a macabra poesia da coisa toda. - Sabe, Lucius, eu poderia te torturar por horas aqui, mas eu me diverti com você por meses e, francamente, tenho coisas melhores a fazer. - ela discretamente olhou por cima do ombro na direção de Voldemort, com um sorriso, e voltou a encarar o bruxo mudo a sua frente. - Perdemos tanto tempo com você, e nem vale a pena. Adeus, meu caro, até nunca mais!. - Bellatrix virou-se de costas e andou na direção do trono, para confusão de todos.


Quando terminou de subir os degraus, ela guardou a varinha na liga na perna e despudoradamente sentou-se no colo de Voldemort, passando a mão manchada de sangue pelo rosto pálido dele, que concordou mentalmente com ela em manter a farsa até o último segundo, e beijou o pulso manchado dela, suas mãos repousando confortavelmente na cintura fina dela.


    - É quase fofo que ele realmente achou que eu ia gastar a minha magia com ele, - ela comentou, na direção de Voldemort, como se os outros não estivessem mais ali. - que tal, não sei, o entregarmos para os dementadores? - ela pode ouvir Lucius se debater na cela.


    - Como você preferir, my queen. - Voldemort respondeu, entre os beijos no pulso e mão dela.  


    - Será que eu posso assistir? - ela questionou, se aproximando dele, os lábios quase se tocando.


    - Você é a Rainha da Inglaterra, quem irá dizer que não pode? - ele respondeu, e Bellatrix sorriu, deixando os lábios se pressionarem contra os dele, sem jamais abri-los, mas ninguém estava de fato prestando atenção. A única pessoa ali que não sabia que estavam fingindo estava com dor demais para reparar que eles não estavam sendo tão ardentes quanto geralmente eram, mas mesmo com os lábios fechados, ela conseguira sentir o gosto metálico do sangue nos lábios de Voldemort, e foi incapaz de não sorrir ao ver a mesma faísca nos olhos dele. Em outros tempos, eles teriam se deleitado, mas tudo havia mudado.


    - Então faremos assim: aos dementadores com ele, e eu estarei lá para ver cada segundo. -  ela se levantou e estendeu a mão a Voldemort. Alguém menos experiente tentaria dizer a ela, um dos guardas por exemplo, que o beijo de um dementador era algo horrivel demais para uma dama presenciar, mas o show sangrento que ela proporcionara matou qualquer pensamento do tipo. - Agora, se nos dão licença, temos países a governar. - Voldemort pegou a mão dela e se levantou. - E uma lua de mel para continuar. - ela precisou adicionar. - Cissy, Draco, eu me retiraria conosco se fosse vocês, porque aos demais eu concedo a chance de se vingar por tudo o que Lucius disse ou fez nos últimos minutos ou anos. Quem quiser, fique a vontade, só o deixem vivo o suficiente para os dementadores amanhã. No mais, boa diversão.


    Bellatrix puxou Voldemort para longe da sala, e o Lorde das Trevas nem mesmo dignou Lucius um olhar ao passar. Atrás deles, eles ouviram Narcissa e Draco os seguirem, acompanhados de Melinda e Rodolphus. Eles não saberiam exatamente o que aconteceu naquela sala, somente que a maioria dos Comensais permaneceu lá e se retiraria somente bem mais tarde.


    - Obrigada, - Bellatrix agradeceu a irmã, quando estavam longe o suficiente da sala. - por me dar a chance de acabar com ele.


    - Eu jamais teria sido tão… - ela olhou para a mão ensanguentada da irmã, e rolou os olhos. - Poética?


    Rodolphus abraçou os ombros de Narcissa e beijou o topo da cabeça da loira, que fechou os olhos e suspirou aliviada. - Você foi fortíssima, de qualquer forma, um time perfeito que vocês se tornaram no fim.


    - Os dementadores ainda precisam fazer a parte deles. - Draco comentou, frio, e Narcissa não conseguiu esconder a tristeza. - Não se preocupe comigo, mãe, ele merece tudo o que vem a ele, e você fez um trabalho magnífico e certeiro, não tinha como ser outra coisa. - Draco beijou a testa da mãe, e sorriu para Rodolphus. - Agora você ganhou o direito de descansar. Rodolphus, você  acompanha?


    - Sempre. - o outro homem confirmou. - Isso é, se vossas majestades nos liberaram?


    - Bom, eu não mando nada, como você bem sabe. - A bruxa tirou a coroa da cabeça, e olhou na direção de Voldemort.


    - Estão todos liberados. - ele respondeu. - Fez um ótimo trabalho em terríveis circunstâncias, Narcissa, meus parabéns. - o bruxo segurou a mão da loira e beijou-lhe o dorso educamente. - Descanse todo o tempo que precisar, agora finalmente tudo isso acabou.


    - Milorde. - Narcissa fez uma discreta reverência e virou-se para Bellatrix. - Um dia você me disse que eu te agradeceria por ter deixado a escolha para mim... Obrigada, não consigo descrever a felicidade que sinto de ter tirado eu mesma esse peso de nossas costas. Você me avisa, quando tudo acabar? Não terei estômago para assistir a execução.


Bellatrix assentiu, e viu a irmã e Rodolphus se afastarem na direção da porta, enquanto Melinda e Draco pediam licença e iam para seus respectivos quartos. Ela e Voldemort se encararam por alguns segundos, até que ela entregou a coroa nas mãos dele. - Isso pertence a você. - ela começou, desconfortável. - Obrigada por me emprestar, para isso tudo.


- Não posso negar que tenha me divertido, minha cara, então não agradeça. - Voldemort respondeu, segurando a joia cuidadosamente entre as mãos. - Os servos prepararam um dos quartos de hóspedes para você passar a noite. - a forma como ela franziu o cenho e piscou algumas vezes, confusa, foi mais satisfatória do que Voldemort havia imaginado. -  Não pensei que gostaria de se manter em nosso antigo quarto, agora que oficialmente voltei? - ele sussurrou o final.


- Não, é claro, faz todo o sentido. - Bellatrix respondeu rapidamente, tentando mascarar seu lapso e a vergonha que sentia por querer tanto ficar na suíte antiga deles. - Eu só me acostumei, por causa de todos os dias. Minhas coisas…


- Estão lá.


- Ótimo… eu vou então.  - a bruxa apontou para as escadas, e ele acenou com a cabeça. - Boa noite, majestade.


- Uma última coisa, vossa graça.


- Sim?


- Irá para a França logo após a execução, imagino? - Bellatrix respondeu com um aceno de cabeça. - Perfeito, deixarei algumas instruções debaixo de sua porta pela manhã, então, nada demais, apenas algumas ocasiões em que preciso que me represente. - Voldemort passou por ela, e começou a subir as escadas. - Boa noite, vossa graça, e bom retorno.


O que parecia frieza da parte dele a assustou, pegando-a desprevenida depois de uma semana de tanta proximidade, e Bellatrix não sabia bem como reagir. Era exatamente o que ela queria, que eles fossem amigáveis e confortáveis, profissionais, mas somente momentos antes ela chorara no ombro dele, dividira com ele um dos momentos mais incríveis de sua vida e, com somente uma despedida formal, ele sumia na noite. Mentalmente se repreendendo, e sem saber o imenso prazer que sua confusão e incômodo causavam nele, Bellatrix seguiu-o escada acima, sabendo que elfos haviam sido deixados para indicar o caminho a ela, por mais que suas pernas quisessem levá-la a outro lugar.





Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts - 31 de outubro de 1998


 


A carta que ela recebera quase dois meses antes estava esquecida no bolso de suas vestes e, de tanto ler seu conteúdo, Bellatrix já a havia decorado. Uma série de pequenos eventos na França, jantares oficiais e diplomáticos com nobres da área, nada muito grande, e no fim da lista, o maldito baile de Hallloween que Snape insistira em dar. Talvez para não agraciar Snape com sua presença, ou para evitar novos confrontros com um Harry Potter que fazia seu último ano, Voldemort decidira não comparecer ao baile e pedira que ela viesse em seu lugar.


Bellatrix teria questionado o porquê de estar ali, quando Melinda poderia muito bem representar o pai, mas ela não havia aberto a discussão quando recebera as instruções e se tornara menos e menos inclinada a fazer aquilo conforme as semanas foram se passando. No fim das contas, ela ainda era alta inquisidora de Hogwarts, então fazia apenas sentido que ela abrisse o tão infame baile de máscaras. Havia apenas algumas horas que ela chegara à escola e tudo o que ouvira fora sobre aquele baile - era como se as crianças houvessem esquecido os demais afazeres e preocupações e o baile fosse tudo o que importava. Ela precisaria dar os créditos à ideia de Snape, que estava dando frutos.


Em sua chegada, ele a levara para caminhar na propriedade e a apresentara a alguns alunos, sem nunca questionar porque ela não estivera presente no primeiro dia de aula de Hogwarts, ou porque deixara de vir ao Reino Unido no aniversário de Melinda. Ele havia, contudo, a avisado sobre o extremo interesse das primeiranistas nas colunas de Rita Skeeter que a envolviam, então alguns comentários poderiam chegar a ela. O cuidado que Snape demonstrava seria estranho, caso ela não soubesse que ele procurava maneiras de se reaproximar do círculo íntimo.


Caminhando na direção do Salão Principal, Bellatrix ajustou a máscara negra no rosto, de renda como o longo vestido que usava. Ela respirou fundo e encontrou Snape à porta do Salão, esperando-a.


- Vossa Graça, - ele fez um aceno com a cabeça e estendeu-lhe o braço. - preparada para encarar as crianças?


- Não tenho o menor receio de um bando de crianças com acesso irregular a colunas de fofoca, Snape, o que de pior pode acontecer? Um monte de adolescentes me perguntando quando me tornarei rainha? Não tem muita diferença para os Comensais da Morte, recentemente. - ela pegou o braço do bruxo, a contragosto, mas pronta para atuar seu papel na Escola. - É tudo o que me perguntam, e honestamente as pessoas só querem uma rainha porque temos um reino jovem, logo essa obsessão comigo passa.


- Diga isto às centenas de adolescentes lá dentro, e às dezenas que te tirarão para dançar. - Snape devolveu, sinalizando para o alto homem que guardava a porta. - Falo apenas para alinhar suas expectativas, para seu próprio bem.


Bellatrix deu risada, rolando os olhos, impressionada com o quão inacreditável Snape conseguia ser quando queria. - E desde quando se importa com meu bem estar, Snape?


- Por incrível e absolutamente impossível que possa parecer, desde que você me ajudou a salvar o mundo. E imaginei que nossas diferenças haviam acabado? Qual a razão da implicância? Você ganhou, esteve certa o tempo todo, eu não preciso tomar cuidado com você me descobrindo, não é um tanto redundante nos mantermos em um ciclo que não tem relevância mais? - ele questionou, mas a porta foi aberta antes que ela pudesse responder.


Ao longe, Bellatrix ouviu seu nome ser anunciado, junto com a sempre crescente lista de títulos - dessa vez com “alta inquisidora de Hogwarts” incluído na equação devido ao local em que se encontravam - enquanto eles  adentravam o salão. Olhando para cima, Bellatrix não pode deixar de sorrir ao encontrar o salão todo enfeitado com árvores cheias de velas e cristais negros, abóboras com lanternas encantadas por todo o lugar, numa mistura de elementos típicos de Halloween com a elegância de um baile de máscaras da Corte. Os estudantes estavam lindos em seus vestidos de baile e máscaras, e as crianças mais jovens comentavam e apontavam para a tiara de Bellatrix, ao mesmo tempo em que faziam reverências animadas e com todo o esforço para serem perfeitas. Alguns dos alunos mais velhos pareciam recear ao se curvarem, e quatro deles apenas olharam para baixo, deixando claro para Bellatrix quem eles eram: Potter, Granger e os dois Weasley. Um sorriso veio aos lábios de Bellatrix ao constatar a teimosia deles, mas ela não faria uma cena, com o tempo eles mesmos se queimariam, mas o desconforto deles com a reação dos mais jovens era evidente.


Conduzida por Snape até a frente do salão de baile, Bellatrix deu uma última olhada a seu redor. Bebidas já eram servidas aos adultos e adolescentes, as quatro grandes mesas haviam dado lugar a mesas menores, e um grande espaço no meio era reservado como pista de dança, um grande lustre negro flutuava no teto encantado, mas as velas dele ainda estavam desligadas, assim como os instrumentos encantados não faziam som algum. Parada de frente para todos, através da máscara, ela por um momento observou os rostos curiosos em uma infinidade de cores e estilos de máscaras, mas quase todos com uma aura de diversão e felicidade. Snape havia tido sucesso naquela empreitada, e ela precisaria admitir em algum momento.


- Boa noite.  - a voz de Snape fora projetada por algum feitiço previamente colocado no local, e os alunos educadamente responderam. Claramente, Snape ainda não era amado pela maioria de seus alunos, mas Bellatrix notava uma onda de boa vontade maior do que da última vez que estivera ali. A razão era, ela imaginava, o fato de que todos agora sabiam quem Snape era, seus ideias e por qual lado lutara, além de seu nome estar incluído junto ao dela e de Minerva Mcgonagall na lista de pessoas que efetivamente acabaram com a guerra. - Não creio precisar apresentar nossa convidada de honra, que nos deu o prazer de sua presença no primeiro baile de Halloween de Hogwarts. Vossa Graça, por gentileza. - Snape deu alguns passos para o lado e cedeu seu lugar no meio a Bellatrix, que se colocou com desconfiança. A mudança de comportamento nele, por mais que fosse compreensível, era estranha. Na plateia, Bellatrix procurou a face conhecida de Gabrielle Ceresier, e encontrou-a na primeira fileira, reconhecível através de sua máscara rendada pela forma que encarava Snape, com total desgosto e incredulidade.


- Boa noite, Hogwarts. - Bellatrix começou, com o sorriso que reservava a ocasiões oficiais. - Gostaria de começar me desculpando por não ter comparecido ao início do ano letivo, tive compromissos oficiais na França que infelizmente me impediram de estar aqui, mas pisar novamente nos corredores sagrados dessa escola me enche de alegria. - com uma pequena pausa, ela se deu um momento para observar que as reações ainda permeavam a plateia de forma heterogênea, mas ela pretendia mudar aquilo. Eles precisavam ser amados, e seriam. - Hoje, contudo, não estou aqui como alta inquisidora de Hogwarts, ou simplesmente como uma nobre marcando presença em uma festa a convite de seu anfitrião. Coloco-me aqui, nesta bela comemoração, como representante oficial da Coroa, a pedido pessoal de Sua Majestade o Rei. Como ele e a Princesa, infelizmente, não conseguiram comparecer pessoalmente, Sua Majestade entendeu que precisava de alguma forma estar presente, prestigiar a escola e, por isso, enviou-me aqui esta noite e pediu-me para estender a todos vocês seus mais sinceros votos de uma noite de incrível diversão e um maravilhoso Halloween! - Bellatrix sorriu quando uma explosão de palmas invadiu a plateia, e ela foi encarada com uma enxurrada de rostos sorridentes, que em muito superavam as expressões desconfiadas ou irritadas. - Este recado dado, imagino que queiram que eu dê início às festividades? - um alto coro de “Sim” respondeu, e Bellatrix deixou-se rir, novamente com a risada de eventos oficiais, tão típica de sua persona social e diplomática.


Bellatrix teria continuado e utilizado mágica para acender o enorme lustre e iniciar os instrumentos, mas o zelador de Hogwarts cujo nome ela não se lembrava mais entrou correndo pelo salão, corado e ofegante, rapidamente se desculpando e sussurrando algo na direção de Snape, que o encarou num misto de surpresa e choque e fez um sinal para que ele novamente deixasse o salão.


- Perdoe-me, vossa graça, mas precisaremos fazer uma pequena pausa. - Snape a interrompeu, e alguns murmurinhos começaram no salão, mas quando as enormes portas se abriram e o homem que a anunciara mais cedo se colocara no início do corredor, Bellatrix começou a entender. - Prezados alunos, temos a mais incrível surpresa nesta noite.


- Por gentileza, - o anunciador começou e Bellatrix o observou curiosa, sabendo o que estava por vir somente pela reação de todos os que sabiam o que estavam acontecendo. - todos levantam-se para receber Sua Majestade, o rei, acompanhado de Sua Alteza Real, a Princesa Melinda.


A plateia mal teve tempo de se virar agitada e curiosa na direção da porta, quando Voldemort - todo vestido de preto muito similarmente a Bellatrix, tanto suas roupas e máscara quanto a coroa - e Melinda praticamente flutuaram pra dentro do salão. De braço dado com o pai, a Princesa era uma visão. Com um vestido de tom claro, um tipo de rosa queimado metálico, com diversas camadas de tule, renda e transparências, ela parecia uma fada ao andar elegantemente salão adentro, sendo recebida por sorrisos e reverências. A máscara de Melinda tinha o mesmo tom do vestido, e suas jóias e eram de ouro rosado, para combinar com o restante de suas roupas. A tiara que ela usava, também do mesmo metal, era formada por diversas folhas e flores que se entrelaçavam delicadamente entre o belo cabelo preso da Princesa, o tom claro em destaque contra as madeiras negras. Em contraste com um sóbrio Voldemort a seu lado, ela brilhava, e Bellatrix sabia que era proposital. Ele precisava representar calma, experiência, confiança; Melinda, tão jovem e já herdeira de tudo, precisava transpirar esperança e empatia. Eles eram um time perfeito.  


- Mãe! - ela soltou-se da mão do pai, dentro de sua jovial e encantadora persona, e andou rapidamente na direção de Bellatrix, segurando as volumosas saias entre os finos dedos.


- Alteza. - Bellatrix fez uma delicada e elegante reverência, antes que a filha chegasse e a abraçasse com um exagerado carinho. - Quanto amor… - ela sussurrou no ouvido de Melinda, que riu.  


- Pare com isso, eu sempre te amei! - ela respondeu no ouvido da mãe. - Nossas desculpas, diretor, por aparecermos atrasados!


- Mas não podíamos deixar de comparecer, quando notamos que a oportunidade apareceu. - Voldemort surgiu de detrás dela, e imediatamente os professores, Snape e Bellatrix se curvaram, murmurando frases contendo “Majestade” ou “vossa majestade”. - Vossa Graça, - Voldemort estendeu a mão a Bellatrix que, beijando o anel no indicador dele com o brasão da Coroa, segurou-a e colocou-se de pé. Em retorno, Voldemort beijou o dorso da mão dela. - nossas desculpas por interrompermos seu discurso que tenho certeza que foi extremamente encantador. - na plateia, Bellatrix podia ver algumas adolescentes muito interessadas naquela troca.


- De forma alguma precisa se desculpar, Majestade, é um prazer te-los aqui! Não passo de uma representante da Coroa, aqui para servir, por favor… nos dê a honra de iniciar as festividades! - Bellatrix fez menção de se mover para dar lugar a ele, mas Voldemort negou com a cabeça e segurou-a firmemente pela mão.


- Eu não poderia aceitar algo assim, não quando se dispôs tão prontamente a nos representar! - Voldemort retrucou, puxando-a de volta para o meio. - Digo, veio de tão longe… por que não iniciamos as festividades juntos? - a última palavra causou um burburinho entre os mais jovens, e algumas pessoas andaram mais para a frente para ver melhor. Ela imaginava que Potter estava vomitando, mas não conseguia se importar.


Voldemort deu alguns passos para trás, ficando parado bem no meio da pista. Observando-o de mais longe, ela deixou-se reparar como a capa de veludo de viagem ainda não fora tirada, e como jamais ficava debaixo dos pés dele, obviamente encantada para se mover com ele. Com um sorriso, e um comentário de “seria um imenso prazer”, Bellatrix se aproximou de Voldemort, aceitando a mão que ele estendera.


O bruxo pegou a varinha, mas em vez de encantar o lustre ou os instrumentos, ele fez um simples aceno e a guardou novamente, atiçando a curiosidade de todos e, principalmente, a dela. A mão livre da varinha colocou-se na cintura da bruxa, que repousou sua mão livre no ombro dele.


- Não temos música… - ela comentou, divertida, para que todos ouvissem.


- E quando isso nos impediu? - o fato de que ele respondera em alto e bom som mostrava apenas que Snape estivera certo o tempo todo, com dezenas de jovens estudantes parecendo acordar imediatamente ao ouvirem aquilo, e que Voldemort sabia e se aproveitaria daquilo.


- Aparentemente somos o novo tópico favorito de Rita Skeeter e de todos os pré adolescentes, - ela sussurrou, quando ele começou a se mover, conduzindo-a. - mas você já sabe disso, claramente.


- “Amantes separados pelas terríveis circunstâncias da guerra”, - ele sussurrou de volta. - é o que ela diz. “Um rei que tem tudo menos o amor de sua vida”, não é de se impressionar que os adolescentes estejam encantados, todos gostam de bons contos de fadas, perdoe-me por me divertir e buscar formas de usar isso a nosso favor.


- Está perdoado. - ela respondeu sincera. - Eu faria o mesmo… então, por que não damos a eles um show? - Bellatrix piscou e Voldemort assentiu, concentrando-se mais na valsa e aumentando o ritmo e precisão dos movimentos, até que eles tivessem começado a deslizar pelo mármore brilhante abaixo deles.


A medida em que eles assumiram um ritmo de dança, pequenas linhas de luz começaram a sair deles na direção primeiramente do lustre, e depois dos instrumentos, acendendo as velas do lustre imediatamente e um instrumento por vez à medida em que eles dançavam. Palmas vieram da plateia, e Bellatrix teria comentado algo se não fosse tão genial. Eles estavam dando um show, criando um conto de fadas em cima deles mesmos, e ela tinha certeza que se arrependeria, mas não podia negar que era extremamente divertido.


Quando todos os instrumentos estavam tocando uma bela melodia, Melinda entrou na pista acompanhada de Draco - que havia entrado pouco depois da família real, de forma discreta, e Bellatrix não havia reparado - e começou a valsar com o namorado, oficialmente abrindo a pista. Imediatamente, diversos casais os seguiram, tanto de estudantes como de professores. Alguns segundos depois, Bellatrix viu Harry Potter praticamente arrastar Ginny Weasley para dançar, e ela quase riu com a clara tentativa de provocação. Ela e Voldemort, contudo, estavam ocupados demais deslizando e rodopiando habilmente pelo salão pra se importar com as provocações adolescentes dele.


- Por quanto tempo planejou tudo isso? -em algum momento ela perguntou, e Voldemort teve a decência de fingir não entender.


- Tempo nenhum, soube hoje que viria… - Bellatrix rolou os olhos e assentiu, murmurando um “sei” bastante insolente. - Desde quando Snape me disse sobre o baile. Você viria se eu simplesmente te convidasse?


- Claro!


- Mentirosa… - Voldemort zombou. - Você ficaria na França, arrumaria alguma desculpa, e é um baile em Hogwarts! Quase um crime você perder, até Shacklebolt está aqui…


- Nem o vi, sinceramente, mas não me impressiona que esteja em qualquer lugar que nós estamos. O homem acha que consegue nos controlar, pobre tolo. - Bellatrix riu-se, e deu de ombros. - Enquanto isso, minamos o poder dele mais a cada dia.


- E ganhamos o povo… - ele olhou na direção dos adolescentes de olhos brilhantes. - como deve ser.


- Como deve ser. - Bellatrix sorriu sincera, enquanto os últimos acordes da música os faziam diminuir até parar com palmas enchendo o salão.


Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Snape aproximou-se deles e estendeu-lhe a mão, indicando para Voldemort o espaço na mesa dos professores que ele havia reservado para ele; o rei, contudo, não conseguiu ir muito longe, quando uma jovem loira mascarada se aproximou e tocou seu ombro respeitosamente.


    - Seria permitida a uma jovem condessa a honra de dançar com o rei? - a inconfundível voz de Gabrielle Ceresier encheu os ouvidos deles, um leve sotaque francês começando a ser novamente notável na voz da jovem. - Isso é, se a duquesa for mesmo conceder a mesma honra a nosso diretor… - a loira jamais olhou para Snape, ou disse seu nome, o que não passou despercebido para ele. Bellatrix apenas confirmou com a cabeça.  - Ótimo, jamais me atreveria a interromper.


    - A honra seria minha, vossa graça. - Voldemort beijou a mão de Gabrielle, e com um aceno de cabeça, afastou-se de Snape e Bellatrix.


    Dançar com Snape era, para dizer o mínimo, esquisito para Bellatrix, mas enquanto eles deslizavam pelo salão, cumprindo os silenciosos protocolos e ritos esperados deles, ela tinha tempo para pensar em tudo o que estava acontecendo e analisar as reações ao redor deles. Melinda, não muito longe, ainda estava com Draco, conversando durante a valsa e dando deliciosas risadas de alguma coisa que ela não podia ouvir, e os dois estavam exuberantes em sua bela jovialidade.


- Ele parece finalmente ter superado. - Snape comentou, casualmente. - Toda aquela questão da Batalha de Hogwarts com nós dois, ou não teria simplesmente saído com Gabrielle.


- Simplesmente porque não havia muito o que superar, - Bellatrix respondeu, mais amarga do que esperava soar, e ele franziu o cenho. - foi uma simples questão de ler nossas mentes, depois que o calor da batalha passou. Ele sabe que você armou tudo pra distraí-lo, não há motivos para ter qualquer tipo de reação. Mesmo porque não faria sentido mais, de qualquer forma.


- O fato de que vocês não estão juntos não o impedirá de ter ciúme de você, espero que saiba disso. - Snape devolveu. - Não espere nada diferente. Bom, e não é como se algo diferente pudesse ser esperado de você, pelo o que os rumores dizem.


- Você deveria ouvir menos a rumores e tablóides, Snape, não combina com você. - Bellatrix respondeu, rolando os olhos, por mais que soubesse que havia verdade nas palavras dele. De certa forma, Snape não estava errado, pois a mera ideia de ver Voldemort com outra mulher lhe embrulhava o estômago, mas ela não daria aquele gostinho a seu mais antigo inimigo ainda vivo.


Não muito longe, ela via Amico e Alecto Carrow dançando polidamente um com o outro, também sem trocar de pares, com os olhos sempre em Harry Potter e Ginny Weasley a alguns passos deles. Também de olho nos dois estavam Ron Weasley e Hermione Granger, com expressões preocupadas, como se temessem que Potter a qualquer minuto faria uma cena - e possivelmente não estavam errados. Do outro lado do salão, Voldemort deslizava com Gabrielle, mas prestando atenção, ela podia ver que eles conversavam seriamente sobre alguma coisa. Interessante, para dizer o mínimo.  


    - Por mais encantadora que sua companhia seja, Srta Ceresier, imagino que não tenha me tirado para dançar somente por minha enorme habilidade. - Voldemort comentou, tentando evitar que sua seriedade transparecesse demais. Com um enorme sorriso, Gabrielle assentiu.


    - Por mais hábil e incrível condutor que seja, milorde, está certo. Eu iria pedir licença para ir até a Mansão Slytherin, já que o assunto é delicado demais para ser discutido por coruja, mas já que nos encontramos nesta adorável festa, não vejo porquê adiar. - Gabrielle olhou ao redor, através da máscara vermelha, para garantir que ninguém desagradavel estava por perto. - Derrote-o. - ela sussurrou, e deixou os olhos caírem sobre Draco e Melinda a alguns metros de distância. - É o suficiente.


    - Derrotá-lo? - Voldemort franziu o cenho. - Em combate, imagino que é o que você quer dizer.


    - Sim. Ele obviamente não pode saber a função disso, para não deixar-se ser derrotado. - ela abaixou ainda mais a voz. - Mas sim, as lendas foram mal interpretadas. É por isso que Dumbledore era o mestre da varinha mesmo antes de Grindelwald morrer.


    - Porque foi ele quem o derrotou. - Voldemort assentiu. - E Dumbledore possivelmente sabia disso.


    - Sim, porque a Varinha das Varinhas escolhe seu mestre baseada em poder e não em morte. Com o passar dos séculos, os novos donos a associaram à morte do dono anterior, pois o poder dela corrompe quem a quer, essa é a maldição que a morte colocou sobre a varinha, a de transformar qualquer um que a quer em assassinos.


    - Por receio de que o dono anterior busque a varinha de volta. - ele completou. - Não é caso, se Draco nem mesmo sabe que é o mestre atual da varinha.


    - Sim, mas temos um problema. - Ela pareceu preocupada. -  E isso terá que ser muito bem feito, ou pode não funcionar: em teoria, o ideal seria que ele fosse derrotado em posse da Varinha das Varinhas.


    Voldemort, então, sorriu. O gesto causou enorme confusão em Gabrielle, e o fim da música que os fez parar a decepcionou ainda mais. Ela não estava entendendo a felicidade dele, e nem esperava que ele fosse explicar naquele momento ou em momento algum no futuro, se o conhecia. Com um beijo no dorso da mão dela, Voldemort respondeu a única coisa que indicava que jamais diria algo a ela sobre aquele assunto novamente.


- Não se preocupe, vossa graça, cuidarei disso. - ele sussurrou. - Obrigado novamente pelo incrível trabalho que prestou, com as informações que me deu, tudo será resolvido.


- Majestade. - ela se curvou, e assistiu-o se afastar.  Em seu coração, ela realmente esperava que sua ajuda tivesse salvado Draco, que Voldemort conseguisse tornar-se o mestre da varinha sem precisar matar o genro. Melinda não suportaria algo do tipo, e o reino inteiro estaria em perigo. Com toda a pesquisa que fizera, contudo, ela tinha certeza do que dizia, era possível, e Gabrielle tinha total confiança de que Voldemort era astuto o suficiente para enganar Draco e resolver o problema sem que o loiro reparasse. O problema é que ela só conseguiria se acalmar quando tudo estivesse acabado. No fundo, ela tinha mais um assunto para falar com Voldemort, mas aquele esperaria mais um pouco, mesmo porque ela precisava ter absoluta certeza do que ia fazer. Pelo canto da máscara, ela viu Snape andar na direção da mesa dos professores e respirou fundo, ela tinha muito o que pensar. Olhando para a frente, ela viu Draco e Melinda se aproximando com um sorriso, e limpou sua mente. Ela teria tempo para pensar sobre problemas depois.


 


- Já cansada? - Voldemort provocou ao ver Bellatrix sentada com uma taça de champagne na mão. Ele não sabia bem desde quando bebidas com álcool eram permitidas oficialmente em Hogwarts, mas imaginava que algum tipo de feitiço de idade fora colocado nas taças. - Não é mais a mesma, milady. - Bellatrix rolou os olhos, ignorando a forma como ele a chamara, e observou-o sentar-se a seu lado, servindo-se também de uma taça.


- Não, apenas não quero dançar com todos que querem dançar comigo. - a morena respondeu, soando incomodada. - Muito menos com um bando de adolescentes loucos pelas mais novas fofocas da realeza.


- Ou loucos para dançar com a futura rainha. - ele piscou, e Bellatrix deu uma cotovelada sem força no braço dele. - Ah, por favor Bella, só imagine! As histórias que teriam para contar para seus filhos e netos: posso ser plebeu, mas uma dia dancei com a rainha em pessoa.


- Não tem a mínima graça!


- Pra mim tem. - ele deu de ombros, e ela bebeu o champagne de uma vez só. Seguindo o movimento dela, Voldemort também esvaziou a própria taça e se aproximou mais dela. - Mas não estou aqui para discutir seus companheiros de dança menores de idade, por mais engraçado que possa ser, e sim para fazer uma pergunta muito importante: quer sumir daqui? Dar algo para eles comentarem por algum tempo?


- Por Merlin, majestade, tem o hábito de fazer propostas indecentes assim para todas as nobres que encontra pelo caminho? - Bellatrix provocou, fingindo choque e ofensa, mas segurando a risada. Foi a vez de Voldemort rolar os olhos e negar com a cabeça.


- Sabe muito bem que não. Esse privilégio é só seu, vossa graça, e para sua informação não estou propondo nada indecente, a não ser que você esteja interessada, aí podemos incluir a indecência. - Bellatrix deixou o queixo cair e o fitou séria. - Sem indecência, então. Eu só queria te mostrar a minha Hogwarts, Bella, se te interessar.


Bellatrix não precisou de outra palavra para segurar a mão dele e se levantar, puxando-o para fora do salão, sob os olhos curiosos de dezenas de adolescentes e de alguns adultos parecendo mais preocupados do que deveriam por acharem que sabiam o que eles estavam indo fazer, mas a verdade era que não tinham a mínima ideia. Conhecer a escola pela perspectiva dele, tendo uma aula sobre a história dele e da causa, era muito mais interessante para Bellatrix do que mais um baile oficial. Bailes ela teria vários, aquela oportunidade era única.


 


Após percorrer diversos corredores, e fazer uma visita à sessão proibida da Biblioteca, atentamente ouvindo de Voldemort suas histórias sobre seu tempo de Hogwarts, onde cada coisa começou, quais eram seus lugares favoritos, onde cada plano foi feito, Bellatrix agora se encontrava do lado de fora do castelo, a noite estrelada acima deles, apesar do frio que cortava seus ossos. Por duas vezes, ela negou pegar emprestada a capa de veludo do bruxo, mas acabou sendo vencida, ao perceber que não tinha como aquele vestido de renda, decotado e com uma enorme fenda na lateral, suportar o frio do outono escocês.


- É só uma capa, não um pedido de casamento, minha cara. - Voldemort comentou, quando colocou-a sobre os ombros da bruxa. De paletó e calças longas, ele estava muito mais confortável do que ela, claramente, além de sua sobre humana capacidade de suportar frio. O bruxo levantou a varinha iluminada e continuou puxando-a floresta adentro.


Aquela floresta era conhecida por suas criaturas e perigos, mas não era como se ela conseguisse temer qualquer coisa quando estava ao lado dele - exceto, talvez, o próprio Voldemort. Pelo menos, recentemente, aquela era a verdade. Naquela noite, contudo, ela não conseguia temê-lo, não mais, guiada pela curiosidade que enchia sua alma, pela familiaridade da presença dele e dos segredos que dividiam. A noite fria, os barulhos que deviam preocupá-la, nada disso a incomodava, nem mesmo para puxar a varinha, que mantinha-se segura dentro de suas roupas.


Quanto mais para o meio da floresta eles andavam, menos ela entendia para onde Voldemort a estava levando, e sua curiosidade fazia-a sentir-se mais uma vez aquela adolescente impressionável que um dia conheceu o bruxo mais poderoso do mundo, e um poderoso senso de nostalgia tomou conta dela, trazendo uma certa melancolia consigo, uma saudade de um tempo em que tudo era tão menos complicado, onde tão pouco era capaz de encantá-la e satisfazê-la por meses.


Aquele sentimento, o temor de nunca mais sentir aquele tipo de encantamento completo e sem ressalvas, sumiu no momento em que eles entraram uma clareira e, logo no primeiro passo, o cenário ao redor deles se transformou e a floresta ao redor sumiu, dando lugar a uma confortável sala. Por mais que fosse pequeno, o cômodo escondido no meio da floresta tinha uma mesa de madeira com várias cadeiras, diversos livros em uma estante, e algumas poltronas. Do outro lado, uma lareira há muito não ligada chamava a atenção.


- O que diabos? - Bellatrix olhou boquiaberta para o ambiente a seu redor. - Como? Onde estamos?


- Na floresta. - ele respondeu, com naturalidade, acendendo a lareira com magia. - Se der algum passo através das paredes, estará de volta na clareira. A magia desse lugar mescla a Sala Precisa com a Plataforma Nove e Três Quartos. - Voldemort explicou. - Criei em meu sexto ano, quando percebi que a Sala Precisa não era um lugar assim tão escondido como devia ser.


- Outras pessoas usando quando tentou usar?


- Exatamente. - Voldemort sentou-se em uma das poltronas, agradecendo a si mesmo por tê-las enfeitiçado, ou estariam cobertas de poeira. - Pensando bem, deveria ter colocado o Diadema aqui. - falou para si mesmo.


- Até que alguém descobrisse que esse lugar existia e viesse atrás do diadema. - ela respondeu. - Era muito menos óbvio estar lá do que em um lugar seu, ninguém nunca devia ter sequer imaginado que você o deixou lá, mas também não adianta remoermos nada disso.


- Eu sei, - ele concordou. - assim como nunca teríamos imaginado que Granger literalmente se transformaria em você para pegar a taça. A Guerra ficou para trás, e lá deve ficar. - Voldemort apontou a outra poltrona para ela, que se recusou com um aceno de cabeça, muito ocupada analisando os livros que ele tinha lá.


Delicadamente, Bellatrix deslizou os dedos pelas lombadas dos livros, lendo seus títulos e autores quase apagados. A grande maioria daqueles livros era muito mais antigo do que podia parecer, e provavelmente haviam sido roubados por um jovem bruxo da seção restrita da biblioteca. Alguns artefatos duvidáveis enfeitavam a estante, mas era a mesa que lhe chamava mais a atenção: aquele não era somente o lugar em que o jovem Voldemort se escondia dos outros alunos e professores.


- Foi aqui que….? - ela questionou, olhando por cima do ombro com um sorriso, para encontrar os olhos vermelhos a observando.


- Que tudo começou? Sim. Nessa mesma sala, as primeiras Marcas Negras foram queimadas em braços de homens que nem estão conosco mais. Seu ex-sogro, por exemplo… Seu pai e seu tio chegaram a pisar nas primeiras reuniões, mas a família Black sempre foi um suporte muito mais passivo do que ativo, então ninguém foi marcado ou tornou-se parte do círculo íntimo. Isso é…


- Até chegar a mim. - Bellatrix completou, com um sorriso. - E depois o idiota do meu primo.


- Aparentemente, os homens da família Black não tinham o que era necessário. - Voldemort comentou, displicente.


- Eram todos fracos nesse sentido, se eu for ser sincera. Um bando de aristocratas que se achavam muito bons em tudo, mas éramos nós, mulheres, que mantínhamos aquela família de pé, que tínhamos o estômago para fazer o que tinha que ser feito. Eu devia ter quatro ou cinco anos quando nosso primeiro elfo doméstico morreu e eu pedi para fazer o ritual, a decapitação com fio de prata para depois enfeitar a sala. Regulus e Sirius participaram de só uma, eu estava lá, e eles se recusaram a olhar. E olha que a Cissy, que era muito mais nova em sua primeira, sempre olhou. É, está completamente certo, a força dos Black estava nas mulheres. - ela parou, e pareceu decepcionada. Se tia Walburga não fosse tão tradicionalista, teria sido uma adição incrível a nossos ranques, uma pena que ela não quis participar sem meu tio Órion.


- Tenho certeza que sim, mas a verdade é que você estava destinada a ser a primeira, minha cara. - Voldemort respondeu, aumentando o sorriso no rosto dela. - A primeira e a melhor de todos eles. - Bellatrix tinha certeza que, muito pouco tempo antes, teria corado, mas ela se contentou em acenar positivamente com a cabeça, ainda encantada com toda a história a seu redor. Encontrando alguns cadernos, elas os folheou com enorme fascinação, reconhecendo a letra dele, entrando por alguns momentos na mente do recém criado Lord Voldemort, com seus Comensais novos em folha, planejando o futuro em que eles agora viviam.  


    Observando mais um pouco, algo chamou-lhe imensamente a atenção, e Bellatrix quase perdeu o ar quando viu bem ao canto da sala um local escondido, com colchões e almofadas no chão, com lenços translúcidos caindo do teto e cobrindo a diferente e linda cama. Ela teria perguntado se ele dormia ali por algumas noites, mas ela sabia que aquela não era a resposta. Por um instante, ela lembrou-se do comentário que Snape fizera mais cedo.


    - Majestade… - ela virou-se para fitar Voldemort, que já olhava com uma expressão de provocação, provavelmente sabendo a pergunta que estava por vir. - É impressão minha ou me trouxe… Era pra cá que trazia suas conquistas em Hogwarts? - ela soou muito mais horrorizada do que tinha planejado, e a satisfação no rosto de Voldemort fez com que ela se arrependesse imediatamente.


- O que posso dizer? Como eu disse, foi aqui onde tudo começou, inclusive a ascensão de um jovem mestiço e pobre aos mais altos ranques da aristocracia bruxa, muito antes de eu ser sequer considerado para os ciclos de amizade dos herdeiros que se tornaram meus Comensais depois. - ele deu de ombros. - Não pode me culpar pelo fato de jovens aristocratas serem o caminho mais rápido até o meio onde eu queria estar, além de facilmente seduzíveis e impressionáveis.  


Bellatrix desviou o olhar da cama e o encarou em completo choque e horror, não conseguindo formar palavras, muito para a diversão dele. O comentário seguinte, “Bella, por Merlin, eram apenas negócios.”, somente piorou a situação, até que ela finalmente conseguiu disparar a rir. - Eu não sei se fico impressionada ou enojada, - ela confessou. - mas me alegro de ter funcionado.


- Ah sim, funcionou extremamente rápido, em questão de meses eu sentava à mesa com os grandes nomes das trinta famílias sagradas. - ele parecia muito mais orgulhoso do que a deixaria confortável. - Há alguns meses, eu faria algum tipo de comentário inapropriado sobre como você hoje colhe os frutos de todo esse trabalho nada ortodoxo de meu eu adolescente, mas te pouparei disso.


Bellatrix fechou o caderno em suas mãos e o colocou de volta na estante, cerrando os olhos e suspirando em derrota, quando o comentário dele não ajudou em nada a aliviar a situação. - Eu nunca conseguirei tirar essas imagens da cabeça. - Bellatrix confessou, mas já em um tom muito mais divertido. - Obrigada, majestade, pela confiança em me mostrar as relíquias de nossa causa e… dividir esses detalhes tão íntimos.  - ela parou e o estudou por um segundo, antes de continuar. - Uma última pergunta: vinte anos juntos, e decide me contar esses pequenos detalhes sórdidos agora?


Voldemort se levantou, aproximando-se dela até que seus corpos quase se tocassem. Pela expressão dele, Bellatrix se arrependeria da pergunta, mas não tinha mais como retirar o que havia perguntado, e ela esperava conseguir lidar com a resposta que no fundo de seu coração já conhecia. - O que posso dizer, vossa graça? Agora somos amigos, e eu posso dividir esse tipo de detalhe sórdido sem temer, digamos, retaliações? Ou qualquer clima estranho entre nós, afinal de contas, não é mais como se tivéssemos mais motivos para ter ciúme um do outro, não é mesmo? - ele abaixou um pouco o rosto, para ficar no mesmo nível dela. - Não me importa o que Snape diga, - é claro que ele sabia. - eu sei que somos maduros o suficiente para isso. - e por Merlin, eles não eram e ele sabia disso. O sangue borbulhante dela não a deixava mentir.


- É claro, milorde, pergunta estúpida… - ela mordeu o lábio para não se entregar ainda mais com seus comentários. - Agradeço a sinceridade e abertura.


- Não há de que, vossa graça. Agora, para compensar as indelicadas imagens mentais que lhe causei, gostaria de levá-la a mais um lugar. E tenho um pressentimento de que será seu favorito. - ele provavelmente não estava errado.





- Milady, bem vinda à infame Câmara Secreta. - ao ser arrastada por banheiros e passagens secretas, Bellatrix jamais conseguiu conceber para onde ele a estava levando, mas quando chegaram à porta com as enormes serpentes de ferro ela perdera a respiração. Mesmo enquanto ele falava algo que ela não entendia, e o ferro ancião encantado se movia sem dificuldade para deixá-los entrar, Bellatrix não conseguia assimilar o fato de que conheceria a Câmara Secreta, aquela que ouvira tanto em suas histórias de infância, e da qual ele era Mestre e Herdeiro.


Voldemort entrou de costas no lugar, estendendo os braços para guiar os olhos dela pelas altas paredes de mármore daquele lugar que para eles era praticamente sagrado. Tanta história, tantos sentimentos e esperanças foram colocadas naquele lugar, e andando cuidadosamente por aquele longo corredor, Bellatrix receava respirar alto demais e perturbar a paz que a Câmara lhes trazia.


- É magnífica… - Bellatrix disse, com a voz baixa, em completo fascínio de sequer pisar ali. Voldemort a observava atento, parecendo tão fascinado com a reação dela quanto ela estava com a experiência. - Eu nem sei o que dizer, estou completamente sem palavras. - As mãos alvas de Bellatrix tocaram o mármore gelado de uma das pilastras e ela sorriu, sentindo como se todo o histórico daquele lugar estivesse sendo fundido com ela mesma, com sua própria essência somente por ter a oportunidade de conhecer aquelas paredes sagradas.


- Ainda não trouxe Melinda aqui, - ele comentou casualmente, encostando as mãos na pilastra ao lado das dela. - mas tenho um pequeno pressentimento de que é possível que ela tenha encontrado o caminho pra cá sozinha, enquanto ainda estudava aqui. Uma parte de mim torce para que sim, mas nunca vamos saber.


- Você pode saber, se quiser.


- Entre nós, - ele abaixou a voz como se precisasse. - ela é tão talentosa em Oclumência quanto você e, além disso, eu costumo dar-lhe alguma privacidade. Saber tudo o que todos pensam o tempo todo não é tão divertido quanto parece, apesar de extremamente útil.


Bellatrix deixou-se dar risada do comentário dele, e seus olhos vaguearam para o fundo da câmara, onde enormes ossos estavam jogados em um canto. Ela reparou como Voldemort desviou os olhos daquele específico lugar, e o questionou silenciosamente.


- Harry Potter. - Voldemort cuspiu. - Aquele costumava ser o Basilisco de Slytherin, a criatura que nas lendas habitava a Câmara. Viveu aqui por um milênio, até Lucius se precipitar com meu Diário, entregar para a garota Weasley e, bem, esse é o resultado. - ele indicou o esqueleto da enorme serpente com um aceno de cabeça.


- Ainda sinto por isso… - Bellatrix comentou, engolindo seco. - O Diário era meu pra guardar.


- E como exatamente acha que poderia ter evitado isso tudo, se estava em Azkaban quando Lucius pegou o diário? Eu te disse isso quando voltei e descobri, e repito agora: não se culpe pelas idiotices de seu falecido cunhado, ele já recebeu o que é dele por isso e muito mais. E como nós mesmos já falamos, deixamos as questões da Guerra para trás e não viemos aqui remoer tragédias passadas. Este lugar é sagrado demais para isso. - Voldemort a puxou pela mão para o meio da Câmara e segurou-a em posição de valsa.


- O que propõe, então? Que criemos novas lembranças mais felizes e à altura desse lugar?


- Sim, - ele começou a se mover com ela, que o seguiu sem pestanejar nem fazer nenhum comentário idiota. - afinal esse lugar é meu de direito, e eu me recuso a deixá-lo ser manchado e definido pelas ações de meus inimigos. Salazar Slytherin deixou esse marco para seus herdeiros se inspirarem, e foi o que eu fiz. Com basilisco ou sem ele, olhe onde estamos, aonde chegamos. O mundo é nosso, e esse era o ponto de meu ancestral.


- Salazar Slytherin estaria extremamente orgulhoso, disso não há dúvidas. Ele começou a linhagem que geraria o bruxo mais poderoso da história, conquistador do mundo bruxo, que fez com que todos seus inimigos literalmente se ajoelhassem. - Bellatrix sorriu, em meio à lenta valsa. No passado, o teria beijado nos lábios, mas se contentou em esconder o rosto na curva do pescoço dele.


A valsa sem música, que a fez lembrar com carinho e diversão do comentário dele minutos antes quando abriram o baile, continuou por mais alguns minutos, com os dois calados, os sons naturais da câmara e o eco dos saltos dela no mármore os embalando.


O frio ali embaixo era ainda mais intenso do que na floresta, mas nenhum dos dois parecia se importar muito com aquilo, ou com qualquer outra coisa. Acima deles, uma festa muito mais animada ocorria, e ainda assim não os atraía tanto quanto aquela comemoração secreta. Muitas coisas ficaram não ditas, diversas ações presas somente nas mentes dos dois, em face de todos os problemas com os quais eles ainda precisavam lidar, todas as feridas que ainda estavam pendentes de cicatrizar. Uma delas, contudo, não podia passar a noite sem ser endereçada.


- Dezessete anos… - ela sussurrou, afastando seu rosto para olhá-lo, usando toda a sua força para não deixar que as lágrimas viessem a seus olhos. - Desde que… - ele assentiu. - E eu sei que vencemos, que tudo isso ficou para trás, mas…


- Não é como se pudesse ser esquecido. - ele concordou, sério. - Eu bem sei, minha cara.


- Quando me disse que não podia vir e me pediu para te representar, uma parte de mim imaginou que era por isso. Não entendia porque Melinda não podia vir, é claro, mas mesmo assim algo em mim ficava me trazendo de volta aos significados dessa data e…  Acho que o Halloween sempre será agridoce para nós. - ela mordeu o lábio e escondeu o rosto novamente no ombro dele, segurando o braço dele com força.


- Não posso discordar… - foi tudo o que ele respondeu, o clima entre eles pesado com as lembranças de tempos menos felizes e de tudo o que havia acontecido. Por mais que não gostassem de remoer, e que procurassem criar lembranças felizes para a data, cicatrizes passadas não sumiriam com tanta facilidade. Ele havia ficado treze anos sem corpo, e ela havia enfrentado a todos que diziam que ele estava morto e a seus próprios fantasmas que queriam convencê-la de que aquilo era verdade; mais de uma década de sofrimento em formas diferentes, mas em intensidade similar.  


Subitamente, Bellatrix se afastou, a respiração ofegante e o rosto confuso. A mente dela, Voldemort via claramente, era a perfeita explicação para a expressão e reação inesperada dela. A cada segundo que eles passavam ali, Bellatrix se tornava menos resoluta em suas decisões, e ela temia como nunca fazer algo que se arrependeria. Voldemort preferiu não comentar nada, e observá-la calado.


- Eu acho que estamos dando pauta demais para os tablóides… - foi a desculpa que ela conseguiu arrumar. - Estamos há muito tempo sumidos, digo. - a voz dela beirava o tom de súplica, e o bruxo apenas estendeu-lhe a mão e assentiu, decidindo que as emoções haviam sido suficientes para uma noite.





- Você está sendo óbvio. - Melinda sentou-se ao lado de Snape, na mesa dos professores, enquanto ele observava Gabrielle.


- Alteza. - ele fez um sinal com a cabeça. - Também é ótimo vê-la.


- Não seja assim, meu caro Severus. - a princesa brincou com a taça em suas mãos. - Estou apenas tentando te ajudar! Bem, ajudar Gabrielle, mas dá no mesmo, imagino.   


- Significa que vai me matar? Isso faria aquela garota feliz.


- Também não podemos dizer que ela não tem razão… - Melinda o julgou com uma expressão nem um pouco simpática, em nada escondida pela delicada máscara. - Digo, você arruinou a relação de vocês por causa de seu amor de adolescência, traiu a confiança dela, e a causa à qual ela dedicou sua alma. Sim, Gabrielle nunca esteve mais furiosa com você, com toda a razão.


Snape virou-se para analisar a jovem, que o estudava com curiosidade. Ele jamais entenderia quais motivos levariam Melinda a querer ajudá-lo, quando Gabrielle o queria morto no melhor dos casos. A mente da princesa, contudo, era um grande branco, até mesmo para ele. Maldita Bellatrix.


- Boa tentativa, Severus querido, mas preciso te dizer que é extremamente mal educado ler as mentes alheias. Principalmente quanto tentam te ajudar! O ponto é: desde que tudo aquilo aconteceu, a Gabrielle se tornou outra pessoa. Ela agora é negativa e amarga com a maioria das coisas, e eu sei que ela não gosta de ser assim, e se te ajudar é o jeito de trazê-la de volta, que seja. - ela deu de ombros. - Primeiro, pare de ser tão óbvio! Qualquer um pode ver há milhas, e não é muito apropriado.


- Diz a garota que namora o primo e cria a filha da irmã que ela matou.


- Sim, eu não tenho balança moral alguma para te julgar, mas o resto dessas pessoas acha que tem. Mantenha seu emprego, pois é ele que te mantém perto de Gabrielle, e… bem, ótima jogada fazendo dela Monitora Chefe. - Melinda se levantou. - Uma única dica que te darei essa noite: crie um calendário fixo de reportes dos monitores. Com todos. Será chato, mas ela será obrigada a lhe ver periodicamente, e não poderá fugir.


Snape encarou Melinda em descrença, ainda absorto em tentar entender o que a levara a querer ajudá-lo, porque a explicação dela não o convencera nem um pouco. Ele, na situação que estava, não estava exatamente numa posição para negar conselhos, e o dela fora na verdade muito bom. Era um passo, pequeno, mas melhor do que nenhum. - Obrigado, alteza, farei isso. - Melinda fez um aceno de cabeça e girou nos calcanhares para sair dali, quando viu Voldemort e Bellatrix entrando novamente pela porta. Muito tempo antes, eles haviam sumido, enchendo o salão de burburinhos e risadinhas adolescentes. Ela conseguira ver algumas pessoas quase entrarem em combustão espontânea com a agitação que aquilo causara, e o retorno deles não foi muito diferente. - Falando em pessoas óbvias… - Snape comentou, e Melinda suspirou.


- Não seria o sonho de todos nós? - ela perguntou, movendo-se para ir na direção de onde Draco e Gabrielle estavam. Pelas expressões nos rostos de seus pais, pelo estado perfeito em que eles se encontravam, e pela aura pesada que os seguia, não era nada do que aquelas pessoas estavam pensando. “Boa tentativa, pai.”, sua mente pensou, mas era evidente para ela que estavam muito próximos de como estavam quando haviam sumido.


- Acha que eles…? - Gabrielle perguntou, mordendo o lábio em animação, quando Melinda chegou.


- Não… - ela negou com a cabeça, fazendo Gabrielle ficar emburrada. - É, eu sei, mas tenho boas notícias. Está feito. - ela sussurrou.


- Ele não desconfiou?


- Lógico que sim, ele é mais inteligente do que o damos crédito, mas ele está interessado demais em reatar para se importar com isso. - Gabrielle fez uma expressão irritada. - Já comentou com meu pai de seus planos?


- Você vai mesmo fazer isso? - Draco perguntou, não escondendo o horror em sua voz. - Voltar com ele para vigiá-lo? Para reportar ao Lorde das Trevas? - Gabrielle assentiu, séria.


- Ele tem poder demais, como diretor de Hogwarts. - a loira respondeu. - E ele já fez demais para nos atrapalhar. Sendo um dos heróis de guerra, com apoio popular, alguém tem que o manter sob vigia. Ele é astuto demais para ficar livre assim… e ninguém melhor do que eu. Vou avisar o Lorde das Trevas logo, mas não vejo porque iria se opor. - ela não estava errada, portanto Draco e Melinda deixaram o assunto morrer, mas ambos compartilhavam do mesmo medo: até que ponto Gabrielle conseguiria levar aquilo? O quão poderosa era a determinação dela? E, mais importante, o quão poderoso era o amor que ela ainda sentia? Draco e Melinda temiam que ela se machucaria muito com aquele caminho, mas a resolução dela era tão forte que tudo o que podiam fazer era ajudá-la o máximo que conseguissem para que ela saísse daquilo o menos ferida possível.


 


Apesar da hora avançada, já bem próximo da meia noite, o baile continuava em alto nível, com a música tocando e o salão ainda lotado. McGonagall havia puxado Bellatrix para algum canto para conversar por volta de dez minutos antes, sobre o que Voldemort não tinha a menor ideia, possivelmente algo sobre Hogwarts ou sobre como as coisas funcionavam em Beauxbatons - porque era tão típico daquela mulher falar de trabalho em meio a um evento daquele. Sem muita demora, Kingsley Shacklebolt fez o mesmo com ele e decidiu que aquele era o melhor momento para discutir as novas pautas do Ministério e, por mais que tudo o que Voldemort quisesse fosse observá-la ao longe, decidiu dar atenção ao Ministro para que ele fosse logo embora.


- Minerva, eu não estou tão familiarizada assim com as políticas de Beauxbatons. Então não sei te dizer as posições deles em relação ao equilíbrio de gêneros nos times de quadribol ou ao favorecimento por professores; honestamente, eu concordo que Hogwarts precisa evoluir muito nesses dois temas, mas sou guardiã da França apenas pelos últimos seis meses. Não seria mais fácil falar diretamente com Snape?


- Como se Severus Snape fosse ouvir alguém, ou acha que teria vindo falar diretamente com você, não é como se fossemos amigas.


- Sutil.


- É a verdade, somente acabamos com uma guerra juntas. - Minerva cruzou os braços. - Mas você tem poder sobre ele, e sei que gosta de exercê-lo.


- De fato, a única coisa que nos une é nosso amor pela brutal sinceridade e nosso desgosto por Snape. Ah, é, e o mundo.  - Bellatrix sorriu sarcástica, e Minerva rolou os olhos. - Que seja, vou fazer algumas pesquisas e trazer alguns fatos, está bem? Exercer meu poder sobre ele, como tão felizmente colocou.


A resposta de Minerva foi cortada pela chegada de uma menina, que devia ter por volta de seus doze anos, que segurava dois copos do que parecia ser suco de abóbora. Ela fez uma reverência alinhada e visivelmente treinada, mesmo que ela lutasse para manter os copos alinhados.


- Vossa Graça. - ela disse, sorrindo, e Bellatrix cerrou os olhos, estudando a garotinha. - Eu estava com vergonha de vir, mas meus amigos me disseram que eu não podia perder essa chance… - ela parou e mordeu o lábio. - Sinto muito se estiver sendo rude, ou não sabendo meu lugar, mas ouvi tanto seu nome que precisava te conhecer de perto.


Sob os olhos atentos de Minerva McGonagall, Bellatrix abaixou-se para ficar no mesmo nível da menina, não sem antes ver a expressão cômica no rosto da mulher mais velha. Não era de se esperar que ela aprovaria a persona oficial de Bellatrix, não a conhecendo tão bem no passado, mas não era como se a opinião dela importasse.


- Ouviu meu nome?


- Sim, madame. Meus pais falam muito bem da senhora, minha mãe fala sempre que é tão bonita e se porta sempre tão bem, e que não teremos nunca uma rainha melhor. - a menina corou e fitou os sapatos, de forma que não viu como Bellatrix engoliu seco e respirou fundo.


- Minha cara… Qual o seu nome, mesmo?


- Emily… Emily Rodwell. Segundo ano, Corvinal. - a garota sorriu.


- Bom, Srta. Rodwell, diga a sua mãe que agradeço muito os elogios, mas que tenho certeza que qualquer rainha que Sua Majestade escolha será motivo de orgulho para todos vocês. - a menina fez menção de parecer triste, mas o sorriso de Bellatrix a fez parecer mais animada novamente. - Mas, quem sabe, um dia, pode até ser que seja eu. Nunca se sabe... - ela piscou após sussurrar, e a menina riu-se, deleitando-se em alegria. - Essa parte você não diz pra ela nem pros seus amigos, combinado? É o nosso segredinho.   


- Combinado! - a menina mordeu os lábios, sem muita capacidade de esconder a animação em ter aquele “segredo” com Bellatrix. McGonagall parecia que ia vomitar. - Ah, eu quase me esqueci, madame Lestrange! Eu imaginei que a senhora poderia estar com sede, depois de tantas horas dançando! Então eu trouxe isso! - ela estendeu um dos copos de suco de abóbora para Bellatrix, que agradeceu e o pegou educadamente. - Trouxe um para você também, professora McGonagall… - Minerva aceitou o copo, com uma expressão séria.


- Não pense que isso vai ajudar em suas notas de transfiguração, Rodwell. - a menina corou, e assentiu.


- Estou certa de que a professora McGonagall está agradecida, mas não sabe separar o trabalho de diversão, Emily. Posso te chamar de Emily? - Bellatrix perguntou, e a menina arregalou os olhos, assentindo imediatamente.


- Claro, vossa graça! Eu… eu não vou mais importuná-las, com certeza estavam falando de coisas muito importantes. Obrigada por falar comigo. - ela fez uma nova reverência.


- Lembre-se de nosso segredo, Emily.


- Sempre! - ela se afastou, e McGonagall bufou.


- Está abraçando criancinhas agora? Ou só dando a elas esperanças não realistas? - ela perguntou, incrédula, e Bellatrix deu risada. - O que? Mudou de idéia? Ou só está lucrando com sua própria desgraça?


- Eu não posso falar por meu eu de daqui a cinco ou dez anos, Minerva querida, e além disso… se a tragédia é minha, o que me impede de lucrar com ela?


- Eu falaria “princípios”, mas você claramente não tem nenhum… - ela bufou, o que só fez Bellatrix rir mais. - Auto-estima, no entanto…


- O que isso quer dizer?


- “Cinco ou dez anos”...? E você tem certeza de que a Coroa ainda estará vaga… Por Merlin, nos ensine a nos amar assim! - Minerva caçoou, e Bellatrix não a dignificou com uma resposta além de uma revirada de olhos.


Ainda buscando encerrar o assunto, a duquesa bebeu do suco que Emily havia lhe dado, agradecendo a tudo o que podia ser agradecido que Minerva fez o mesmo e não decidiu continuar com aquela história. Aparentemente, aquela mulher não relaxava jamais na vida. Infelizmente, o suco acabou rápido demais, e elas se viram em um silêncio desconfortável.


- Bem, agradeço sua disposição em falar com Snape, aguardarei então as notícias. - Minerva disse, em tom de despedida. - Com licença.


- Toda… - Bellatrix sorriu, enquanto ela se afastava, o copo esquecido em uma mesa próxima no caminho. O copo de Bellatrix, contudo, espatifou-se no chão.


 


Kingsley finalmente parecia estar chegando ao fim de seu monólogo sobre as contas do Ministério, quando Voldemort virou-se para o lado e pegou um drink para cada um deles, e viu ao longe algo que incomodou-o mais do que deveria. Um copo de vidro caiu das mãos de Bellatrix, ficando esquecido no chão.


- Majestade…?


A mulher ficou parada no mesmo lugar por alguns segundos, antes de começar a bruscamente andar pelo salão na direção dele. Outras pessoas notaram a velocidade anormal com que ela andava, e a expressão preocupada que começava a se formar no rosto dela. Rapidamente, Bellatrix se livrou da máscara, visivelmente com dificuldade de respirar. Ao longe, Snape e Minerva McGonagall se levantaram, assustados, assim como Melinda e Gabrielle, seguidas por Draco.


A música ainda corria, e diversos casais dançavam quando ela cruzou a pista de dança com dificuldade, cambaleando como se tivesse tomado doses e mais doses de uísque de fogo. Definitivamente, algo estava errado. Voldemort levantou-se com urgência, largando os copos na mesa, junto a um Kingsley confuso e desejando que não tivesse entendido que algo estava muito errado.


Aos poucos, os casais iam dando espaço para que ela passasse, e Bellatrix agradecia por não ter que desviar deles mais. Seus pulmões queimavam para respirar, e sua mente queria desligar, por mais que ela lutasse contra. O anel de esmeralda em seu dedo anelar nunca parecera tão pesado, quase como se a puxasse para o chão, e ela mal podia mais manter-se de pé, quando ela encontrou os olhos vermelhos de Voldemort a poucos metros de si. Ele se aproximava rapidamente, e ela sentia a presença dele tentando transpor as barreiras de sua mente. Sem lutar, ela deixou que todas caíssem, uma palavra tomando conta de sua cabeça: Veneno. Ela pensou que fosse cair de joelhos, mas os braços dele já estavam ao redor de seu corpo no momento em que suas pernas perderam a força. A música havia parado.


- Ve…- os dedos dele tocaram os lábios de Bellatrix, impedindo-a de falar.


- Snape, se você ainda tem alguma esperança de cair em minhas graças novamente… - Voldemort começou, a voz carregada de ódio e irritação, sem esconder a dor e preocupação que tomavam conta dele. Snape passara correndo ao lado deles, na direção da porta, precisando desviar dos irmãos Carrow que acabavam de retornar ao salão e olhavam horrorizados para a cena que encontraram. “Bezoar, deixe comigo” Snape completou a frase ao passar, e Voldemort assentiu. - Rápido! - assim que Snape passou pela porta, Voldemort puxou a varinha e apontou-a na direção da porta. Uma barreira azul subiu entre os portais, causando tumulto nos presentes. - Ninguém sai até ele voltar!


- Majestade, - Kingsley começou. - tenho certeza de que…


- De que um envenenamento foi um acidente, Shacklebolt? - Voldemort explodiu, os olhos queimando em fúria. - Poupe-me de sua diplomacia! E esteja avisado, eu vou encontrar o culpado e, por Merlin, ele vai se arrepender! - Kingsley não teve outra opção senão olhar na direção dos outros ex membros da Ordem presentes, que estavam tão estupefatos com o que estava acontecendo quanto ele. Quase que instintivamente, ele olhou na direção de Harry, e notou que os amigos do garoto também o fitavam desconfiados. Ele, contudo, parecia tranquilo, mas não escondia o prazer que tinha em ver Voldemort ajoelhado no chão, com uma Bellatrix que lentamente mudava de cor nos braços.


Bellatrix buscou desesperadamente pela própria varinha, sem encontrá-la e, ignorando os pedidos de Voldemort para que ela ficasse quieta, ela virou-se para o lado e forçou os dedos contra a própria garganta, forçando-se a vomitar todo o conteúdo de seu estômago. Muitos dos curiosos se afastaram rapidamente, andando para trás para não serem atingidos. Melinda, que tinha acabado de conseguir se aproximar, sorriu ao entender o que ela tinha feito.


- Ela…? - Draco perguntou, parecendo mais orgulhoso do que era apropriado.


- Evitou de absorver mais veneno… - Melinda assentiu, com um sorriso, e ajoelhou-se ao lado de Voldemort. - O idiota que fez isso esqueceu que está lutando com uma mulher que lutou no front de duas malditas guerras. -  Melinda deixou os olhos caírem sobre Harry Potter, que simplesmente cruzou os braços.


- Bella! - Voldemort a sacudiu ao ver que os olhos dela queriam se fechar. - Você tem que se manter acordada! - ele segurou o rosto dela. - Eu sei, eu sei que é difícil, mas você não pode desistir. Onde está Snape com o maldito bezoar? - a pergunta foi abafada pelo som que Melinda emitiu ao notar que a mãe havia desmaiado. - Bella… - Voldemort a chamou mais uma vez, mas ela nem se mexeu. Ele via que ela ainda respirava, ainda que com dificuldade, mas mesmo a mente dela já estava longe.


Mesmo cercado de dezenas de pessoas, Voldemort não teve pudor algum de dar alguns tapas no rosto dela, sendo que o último fora forte o suficiente para deixar uma marca avermelhda. Não que ele se importasse, se aquilo pelo menos a tornasse mais responsiva. Nada. A mente dela continuava longe, quase sem atividade, e ele conseguia ver um líquido avermelhado espumoso tomar conta dos lábios ela. - Não, não, não, não! Bellatrix, não se atreva! Não nessa droga de salão, não de novo! - ele a sacudiu com força, e viu Melinda esconder o rosto entre as mãos. - Você não tem permissão de morrer em Hogwarts, e muito menos no Halloween! - a voz dele beirava o desespero. - Vamos… Eu sei que você consegue me ouvir, e você luta como ninguém! - A respiração dela era fraca, e as mãos de Voldemort já tremiam. O prospecto de perdê-la na data mais infeliz de sua vida, e ainda por cima no mesmo cenário em que ela quase morrera poucos meses antes, era demais para que ele pudesse suportar. O som de explosão quando Snape passou pela barreira quase o fez gritar, e quando o bruxo jogou-se ao lado deles sem pensar duas vezes, em meio ao sangue que já escorria da boca e do nariz dela e ao vômito, Voldemort não sabia se enchia seu peito de ódio ou alívio.   


Com pressa, Snape abriu a boca dela e Voldemort enfiou a pequena pedra, forçando-a com os dedos garganta abaixo de uma inconsciente Bellatrix, lutando contra o desespero que queria tomar conta de sua mente e seu corpo quando viu seus dedos cobertos de sangue, e nos segundos que se seguiram em que tudo o que podiam fazer era esperar.


Draco e Gabrielle abraçaram Melinda, que começara a chorar, um de cada lado, protegendo-a e tentando consolar a garota, que tinha dificuldade em manter-se sã. Era tudo muito recente, e ela se via na mesma situação desesperadora de meses antes, quando ela mesma fora envenenada e quase perdera a mãe. Seria Hogwarts um lugar amaldiçoado para eles? Estaria aquela família fadada a não pisar nunca mais naquela escola?


O resto das pessoas estava em silêncio absoluto, observando em um um misto de horror, antecipação e curiosidade. As crianças mais jovens escondiam os rostos e algumas choravam, enquanto os mais velhos trocavam olhares e tentavam prever o que estava por vir. Em algum momento, Ginny Weasley perguntara com a voz trêmula e chorosa “Harry, o que você fez?”; “Eu estava com vocês o tempo todo, como eu poderia ter envenenado alguém?    Não é como se eu fosse o único inimigo que essa vadia tinha.” em um sussurro quase inaudível, foi o que ele respondeu, sem convencer muito nenhum de seus amigos.


- Bella, por favor. - Voldemort encostou a testa à dela, falando para que somente ela pudesse ouvir. - Volta pra nós, volta pra mim. Você é mais forte do que isso, desistir vai parecer mais fácil, mas você foi uma lutadora a vida toda e eu te proíbo de desistir. Bellatrix, que merda, responde!


O som fora quase inaudível, quando os pulmões dela mais uma vez se abriram normalmente, mas quando o corpo dela se movera violentamente, jogando-a quase sentada com a força com que seu organismo usara para junto com o bezoar se livrar do veneno, não houve mais dúvida de que ela estava tentando lutar. Ainda semiconsciente, a bruxa começou a tossir freneticamente, e rapidamente Voldemort invocou um balde de gelo de uma mesa próxima e colocou-o na frente dela, que em poucos instantes voltou a vomitar o conteúdo envenenado de seu estômago, junto a pedaços parcialmente digeridos do bezoar. Muitas pessoas desviaram o olhar, mas o som de alívio conjunto era inconfundível, principalmente porque Melinda caíra sentada no chão, chorando copiosamente de alívio e ódio misturados.    


Voldemort, por sua vez, segurou Bellatrix com força, dando-se à liberdade de beijar o topo da cabeça dela. Ele sabia que ela ainda estava muito longe de fora de perigo, mas vê-la pelo menos respirando e consciente era um avanço com o qual ele se contentaria momentaneamente. Quando ela se acalmou, Bellatrix deixou-se descansar nos braços dele, ainda não completamente consciente, mas com a respiração mais regular e forte.


- Milorde… - Snape estendeu a mão na direção dos dois. - Precisamos levá-la para a enfermaria, buscar um antídoto específico.


Voldemort levantou-se, trazendo uma adormecida Bellatrix em seus braços, e assentiu. O campo que protegia a porta desfez-se imediatamente, e Voldemort virou-se na direção da filha. - Draco, leve Melinda embora daqui imediatamente. Oliver, - o cavaleiro da princesa saiu do meio da multidão que os cercava. - Sabe o que fazer.


- O quê? - Melinda se levantou subitamente. - Acha mesmo que eu vou embora? Eu não saio daqui até saber como ela está.


- Quem quer que fez isso com a sua mãe tem um prato cheio com você aqui, e por Slytherin eu não vou deixar a sua teimosia te colocar em risco, porque não existe a possibilidade de vocês duas se machucarem hoje! - ele soava cansado e irritado, e a menção que ela fez em discutir foi um claro erro. - Oliver.


Sem pensar duas vezes, o jovem cavaleiro pediu desculpas a Melinda, que não entendeu até que ele pegou a varinha e a fez desmaiar, para choque de todos que assistiam, principalmente Draco, e a pegou no colo. Com um sinal para que Draco o seguisse, ele andou rapidamente na direção da saída, e foi seguido por Voldemort, Snape, e Kingsley, que se separariam deles para irem até a enfermaria. O salão entrou em completo silêncio. O choque e o peso do que acontecera acabando com a noite de todos.


 


Pacificamente dormindo na cama da enfermaria, numa imagem que era dolorosamente parecida com a de meses antes, ninguém diria que Bellatrix estivera praticamente morta poucos minutos atrás. Madame Pomfrey aplicou um antídoto mais potente assim que eles chegaram, não deixando de fazer um comentário infeliz sobre como aquilo estava se tornando um hábito. Foi necessária toda a força de Voldemort para não explodir ali mesmo com ela, mas era a presença de Kingsley, junto a toda uma gama de professores de Hogwarts, assustados demais com a possibilidade de que alguma consequência chegasse a eles, que o incomodava mais.


- Imaginei que o espetáculo tivesse acabado. - ele disse, as palavras duras e pesadas, encarando cada um deles, e espantando todos com somente um olhar, com exceção do próprio Kingsley, Minerva McGonagall e Snape. - De repente, tem tantos amigos, minha cara. - ele acariciou os cabelos dela, sarcástico. - O que ainda fazem aqui?


- Queria que soubesse que vamos usar todos os recursos dentro do Ministério para descobrir o responsável. - Kingsley não disse sequer uma palavra, antes de ser jogado na parede pela fúria de Voldemort, que se levantou em seguida e segurou-o pela gola.


- Descobrir o responsável? Todos nós sabemos quem foi. - Voldemort cuspiu as palavras, torcendo o pano das vestes de Kingsley como queria fazer com o pescoço dele. - E é por isso que estamos aqui, não? Para que todos vocês me convençam de que estão comprometidos com a paz, e que farão de tudo para trazer justiça, porque vocês sabem muito bem que o mesmo acordo que querem tanto citar me dá o direito de revidar e jogar o protegido de vocês em Azkaban, se eu quiser. Eu prometi não atacar, meus caros, mas ele atacou primeiro, e por Merlin eu vou responder à altura.  


- Milorde, entendo que esteja furioso e tem todas as razões, mas precisamos pensar aqui no que é melhor para o país e… - Snape interveio e foi calado com um soco certeiro que o fez cuspir sangue.


- Isso é pelo comentário estúpido e pela demora. - Voldemort explicou, e massageou os próprios dedos. - Eu sei muito bem que precisamos pensar no que é melhor para o país, e não pretendo acabar com o reino em outra guerra, mas o querido Harry Potter não vai escapar ileso dessa. Eu posso estar impedido de matá-lo, mas me divertirei tremendamente em fazê-lo sofrer de muitas outras formas, como me é de direito.


- Depois de provado. - Minerva retrucou, respirando fundo. - Podemos ter todas as suspeitas do mundo, mas precisa provar que Harry fez isso, antes de qualquer ação. Eu sei bem como as coisas funcionam em seu círculo íntimo, mas a desvantagem de estar no comando desse país é que ainda existem leis.


O sorriso que tomou conta dos lábios de Voldemort foi, certamente, a coisa mais aterrorizante que qualquer um naquela sala já havia presenciado, a fúria dele deformando o que deveria ser um símbolo de felicidade, e a forma como ele encarou Minerva McGonagall deu a todos a impressão de que ele poderia fazer ela entrar em combustão somente com o olhar. Mais do que nunca, o erro de timing do comentário dela ficou claro, mas ela não retiraria suas palavras.


- Está corretíssima, - Voldemort respondeu, a voz baixa como um silvo, cortante como uma navalha. - e provaremos sem o menor problema, a vantagem de estar numa escola com acesso a Veritasserum. Corrija-me se estiver errado, Kingsley, esse uso ainda é legal, não é mesmo? - o Ministro assentiu. - Que reconfortante, então, que você esclareceu que usaremos todos os meios. Agora, façam o favor de se retirar daqui, creio que nossa talentosa curandeira concordará comigo que é o melhor. - daquela vez, nenhuma palavra de discussão foi ouvida. Minerva e Kingsley sabiam que haviam ganhado tempo, no máximo, e precisariam pensar cuidadosamente no que fazer para evitar outra tragédia naquela escola. Voldemort ainda permaneceria naquela ala de enfermaria por horas, antes que Madame Pomfrey sugerisse que seria melhor se ele também se retirasse, e à contragosto o rei se retirou, deixando dezenas de membros da guarda ao redor da enfermaria, com ordens de não deixarem ninguém entrar.


 


Escuridão fora tudo o que os olhos de Bellatrix encontraram ao se abrir, horas depois, suas mãos cega e instintivamente procurando por algo ou alguém que não mais estava ali. A bruxa sentou-se rapidamente na desconfortável e estranhamente familiar cama da enfermaria, tentando juntar as peças em sua cabeça do que havia acontecido, imagens desconexas inundando sua mente cansada e forçando-a a usar sua energia para colocá-las em ordem e entender tudo o que havia acontecido, e à medida em que o quebra-cabeça se completava, lágrimas começavam a se acumular em seus olhos. Respirando dolorosamente, ela se levantou da cama, acostumando seu corpo novamente àquela posição vertical, mas com a certeza absoluta de que precisava desesperadamente sair dali.     

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