Meu coração está palpitando. O elevador chega ao primeiro andar, e saio ás pressas tão logo as portas se abrem e logo estou livre no ar revigorante, limpo e úmido, então fecho meus olhos e respiro fundo, tentando recuperar o equilíbrio que me resta.
Homem nenhum jamais me afetou como Harry Potter, e não consigo entender por quê, será sua aparência, sua educação, sua riqueza ou poder? Não entendo minha reação irracional. Dou um imenso suspiro e tento me acalmar e organizar meus pensamentos.
Consigo me estabilizar e me encaminho para o carro, deixando para trás os limites da cidade, confiro o velocímetro. Estou dirigindo com mais cautela do que estaria em qualquer outra ocasião e sei que é por causa da lembrança de dois olhos cinzentos me encarando me dizendo para dirigir com cuidado.
Balanço a cabeça e me repreendo "Esqueça isso Gina", e decido que no geral foi uma experiência interessante, mas que não devo ficar pensando nela.
"Não pense mais nisso, eu não vou vê-lo nunca mais" e imediatamente, me animo com essa ideia. Ligo o som e aumento o volume, recosto no banco e ouço o rock indie retumbante enquanto piso no acelerador.
Morramos num pequeno condomínio de apartamentos dúplex em Vancouver, perto do campus da WSU. Tenho sorte, pois Luna me convidou para morar com ela e pago uma ninharia de aluguel, moro com ela á quatro anos.
Quando estaciono na frente de casa, sei que Luna vai querer um relato detalhado e ela é tenaz. Bem, pelo menos ela tem o gravador e espero que ela goste de tudo.
-Gina! Você voltou.
Luna está sentada na sala de estar, cercada de livros. É óbvio que andou estudando para as provas finais, ainda está usando seu pijama de flanela rosa estampado com coelhinhos fofos que ela reserva para quando rompe com os namorados, para todo tipo de doenças e para o baixo astral em geral, ela se lenta num salto e me dá um abraço apertado.
-Estava começando a ficar preocupada, esperava você mais cedo.
-Ah, achei que fiz um bom tempo, considerando a duração da entrevista - Aceno o gravador para ela.
-Gina, muito obrigada, fico lhe devendo essa. Como foi? Como ele é?
"Ah, não, lá vem a inquisição de Luna Lovegood", faço um esforço para responder suas perguntas "Hum o que posso dizer?"
-Ainda bem que acabou, e não preciso vê-lo novamente, ele é bastante intimidador, sabe? - Dou de ombros.- É muito focado, chega a ser intenso... e jovem, muito jovem.
Luna me olha inocentemente e lanço um olhar desdenhoso para ela.
-Não faça essa cara de boba. Porque não me deu uma bibliografia? Ele fez com que eu me sentisse uma idiota por não ter feito se quer uma pesquisa básica.
Luna tapa a boca com a mão.
-Nossa, Gina, desculpe. Eu não pensei nisso.
Bufo com raiva
-No geral, ele foi educado, formal, ligeiramente antiquado, como se tivesse envelhecido antes do tempo. Ele não fala como um homem de vinte e poucos anos. Quantos anos ele tem afinal?
-Vinte e sete, ou vinte e oito, acho. Nossa, Gina, desculpe, eu deveria ter preparado isso para você, mas estava muito apavorada. Passa o gravador vou começar a transcrever a entrevista.
-Você parece melhor, tomou a sopa? - Pergunto, querendo mudar de assunto.
-Tomei, e estava uma delícia, como sempre. Estou me sentindo bem melhor, sorri agradecida para mim.
-Tenho que correr, ainda dá para pegar meu turno na Clayton's.
-Gina, assim você vai ficar exausta.
-Vou ficar bem, vejo você mais tarde.
Trabalho no Clayton's desde que entrei na WSU, ela é a maior loja de material de construção na área de Portland e, posso me considerar apta sobre quase tudo que vende nesta loja. Ainda bem que posso trabalhar, pois isso me dá algo em que pensar que não seja Harry Potter. A senhora Clayton fica muito aliviada quando me vê.
-Gina! Pensei que não conseguiria vir hoje.
-Minha reunião não demorou tanto quanto eu esperava, posso trabalhar algumas horas.
-Estou muito feliz em ver você.
Ela me manda para o deposito a fim de começar a reabastecer as prateleiras, e logo a tarefa me absorve.
Quando chego e casa, Luna está com os fones de ouvido e trabalhando em seu laptop. Tem o nariz ainda rosado, mas está totalmente envolvida com o artigo, digitando com fúria. Atiro-me no sofá, pensando no texto que preciso terminar e em tudo que não estudei hoje porque estava entocada com... ele.
Então Luna, percebe que cheguei.
-Gina, você conseguiu um bom material, ótimo trabalho. Não posso acreditar que você não aceitou quando ele quis levá-la para conhecer a sede. Ele obviamente queria passar mais tempo com você. - Ela me lança um olhar rápido e intrigado.
Fico vermelha, e minha pulsação inexplicavelmente se acelera. Com certeza a razão não foi aquela, ele só queria mostrar as instalações para eu poder ver que ele era dono daquilo tudo.
-Ouvi o que você disse sobre ele ser formal. Anotou alguma coisa? -Pergunta ela.
-Não.
-Tudo bem, ainda posso fazer o artigo com isso aqui, pena que não temos fotos. O filho da mãe é bonito, não é?
-Acho que sim. - Tento soar desinteressada.
-Ah, o que é isso, Gina! Nem você pode ficar imune a beleza dele.
"Droga, ela é inquisitiva. Porque não pode simplesmente deixar para lá?"
-Então, Gina! O que achou dele?
-Ele é ambicioso, controlador, arrogante, assustador mesmo, mas muito carismático. Da para entender o fascínio - acrescento sinceramente, esperando que isso a cale de uma vez por todas.
-Você? Fascinada por um homem? É a primeira vez. -Diz ela, com desdém.
-Por que queria saber se ele é gay? A propósito, essa foi a questão mais embaraçosa, fiquei mortificada, e ele ficou irritado com a pergunta.
-Quando aparece nas colunas sociais, nunca está acompanhado.
-Foi uma saia justa, ainda bem que nunca mais vou ter que olhar para ele.
-Ah, Gina, não pode ter sido tão ruim assim. Pela voz dele, acho que ficou bastante impressionado com você.
"Impressionado comigo? Agora a Luna está sendo ridícula."
-Quer um sanduíche?
-Por favor.
Então encerramos a conversa sobre Harry Potter naquela noite, para meu alívio e pelo resto da semana também, pois tive que me dedicar aos estudos e ao meu trabalho na Clayton's e Luna também estava bastante ocupada, copilando sua última edição no jornal antes que cedê-la á nova editora enquanto se esforça para as provas finais.