Cap 2 – Memórias
“Querido Diário, ou nem sei se devo começar assim... já faz tanto tempo que eu não escrevo nada em cadernos...”
Suspirei. Já faz dois anos desde a Câmara Secreta. Desde que Voldemort me usou através do diário de Tom Riddle. Já faz dois anos que eu descobri o que aconteceu de verdade durante aquele embate no Beco Diagonal.
“Fiquei muito tempo sem escrever por que não queria dar sorte pro azar. Depois de Tom ter se aproveitado da minha carência de amizades. Depois da vergonha que eu senti ao saber que fora eu quem abriu a Câmara Secreta e deixei várias pessoas petrificadas na Ala Hospitalar. Tive medo de voltar a escrever, confesso. Mas cá estou. De volta. Firme. E Vou te contar como que esses dois anos mudaram minhas ideias de amizade e lealdade...”
Eu tinha acabado de ser resgatada por Harry. Fazia uma semana que o pesadelo com o diário de Tom Riddle tinha acabado. Mas aquilo me deixou marcas. Marcas na alma. Eu vivia com uma insônia constante e Madame Pomfrey estava me ajudando com poções do sono ocasionais. Afinal, eu não poderia beber remédios para dormir todos os dias, tendo somente treze anos.
Eu seguia para uma aula de Herbologia, nas estufas, quando o vi. Ele estava sozinho no corredor, seus lacaios não estavam à vista. E eu? Bem, eu estava atrasada para a aula, logo também estava sozinha. Confesso que tive medo de passar por ele no corredor. E se ele me azarasse ali? Sim, porque depois do que o pai dele havia feito comigo, sem o menor motivo, bom... eu estava apreensiva, lógico. Mas esse medo se foi assim que seus olhos de tempestade encontraram os meus.
_Eu não mordo, Weasley – ele disse com um sorrisinho de canto de boca. “Idiota”, pensei.
Não respondi nada. Apenas continuei meu caminho. Passei por ele com passos firmes e quando achei que tinha conseguido segurar a vontade de sair correndo, meu braço é segurado com força. Virei-me para encarar aquela mão pálida e fria me segurando. Antes de eu dizer qualquer coisa ele foi mais rápido.
_Não tenha medo de mim. – ele disse calmo, mas ainda me segurando – eu não sou o meu pai.
_Olha, Malfoy – reuni coragem e respirei fundo – eu não quero falar sobre isso. O que seu pai fez... o diário.. a câmara...
_Ele foi um babaca. Eu sei – ele disse me olhando intensamente – olha, me desculpe. Pelo que você passou. Mas eu não sou ele.
_Certo – falei desconcertada. Ele parecia “perdido?”. O meu braço ainda preso em seu aperto– pode me soltar, Malfoy? Por favor... – falei num fio de voz.
_Eu não sou ele, Weasley. – ele disse rápido, como se estivesse recobrando seus pensamentos. Soltou-me e desapareceu no corredor.
“Esse foi a primeira conversa real que eu tive com Draco, diário. E ele foi bem diferente do que eu esperava, na época. Parecia confuso, quase arrependido de estar em um caminho que não era o escolhido por ele. Eu me senti estranha depois disso. Minhas insônias aumentaram bastante. Eu quase não dormia, quando conseguia eram pequenos cochilos no dormitório da Grifinória. Eu estava confusa, pois Malfoy não deveria ocupar minha cabeça por causa de um simples papo no corredor. Eu não queria me concentrar nele, nem na família dele e nem no que eu havia passado naquele ano por que ainda doía. ..”
Alguns meses depois...
“Sirius escapou com o Bicuço, Graças a Merlin. Seria muita crueldade a morte desses dois. Harry está desolado com a partida do padrinho, mas nunca o vi tão feliz antes. Ele agora tem uma família, como ele mesmo diz. E eu estou feliz por ele.
Os Malfoy não gostaram nada da escapada do hipogrifo que “atacou” o Draco. Sinceramente? Uma palhaçada. O bicho nem sequer encostou nele, como haviam me dito. Ele só estava chateado de não ter sido ele a montar o Bicuço e sim o Harry. Esses meninos vivem de implicância um com o outro. Seria tão mais fácil seguir em frente. Temos tanto o que fazer no castelo... enfim...
Sigo com minhas anotações aqui porque, bem, eu não tenho muitos amigos pra conversar mesmo. E ser parente de um dos integrantes do Trio Maravilha também não faz bem pra mim. Fred e Rony nem sequer perguntam se estou bem. O único que nota meu real estado - com olheiras enormes e falta de apetite – é Jorge. Ele é um bom irmão. Sempre cuida de arranjar uma poção do sono para que eu durma bem. Sempre me pergunta se eu preciso de ajuda nos deveres, mesmo ele estando em ano de NOMs. Ele é uma boa pessoa, esse meu irmão.
Já haviam se passado as férias de fim de ano. Como sempre Harry e Hermione estavam lá na Toca com a minha família. Mamãe estava muito feliz, ela adorava uma casa cheia. Eu já não me sentia tão desconfortável na presença de Harry. Conseguíamos ate ter uma conversa normal, porém não tínhamos muito assunto. Eu era oficialmente a irmãzinha do seu melhor amigo, e pela primeira vez, esse título não me deixava triste. Acho que minha paixonite pelo Potter estava findando.
Nesse ano houve um torneio na escola. E diário, tenho que escrever isso aqui para que fique registrado: Eu tive medo. Medo por constatar que me sentia sozinha naquele castelo enorme. Medo pela volta de Tom. Medo de ninguém acreditar em Harry e em Dumbledore.
A sociedade bruxa estava um caos. Diggory havia morrido, sem maiores explicações além daquelas que Harry já havia dado. Ele tinha mudado tanto. Estava tão mais distante, mais sério, mais frio. Meu irmão e Hermione eram os únicos que ainda tinham acesso a ele. A amizade ali era grande e, certamente, não cabia espaço para mais ninguém, por mais que eu desejasse estar ali presente para eles.
Eu comecei a passear pelo castelo à noite. Era o melhor momento para organizar meus pensamentos. Colocar a cabeça no lugar e escrever. Já tinha 14 anos agora. Não era mais uma garotinha que se assustava fácil com a escuridão do corredor. A escuridão já fazia parte de mim desde meus 11 anos e o episódio da Câmara. Eu nunca mais fui a mesma e agora estava cansada de tentar me enganar quanto a isso.”
Andava pelos corredores vazios da escola, não sabia nem em qual andar eu estava agora. Mas achei o que eu precisava. Uma sala vazia, cuja porta apareceu magicamente no corredor. Uma sala que me daria tudo o que eu precisasse, uma grande escrivaninha com penas e tinteiros e uma cama de dossel enorme para que eu tentasse dormir alguma coisa. Merlin estava ao meu favor. Eu tinha encontrado a Sala Precisa.