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6. Adolescência


Fic: Sanctimonia Vincet Semper


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Ser um Malfoy nunca foi fácil: além de ter que sustentar toda uma linhagem de sangue puríssimo, uma beleza e inteligência esplêndidas, ainda tinha o fato de que deveriam sempre ser discretos, nunca mostrando de cara lavada seus pensamentos. Todavia, quase todos os herdeiros Malfoy (isso mesmo, só nasciam homens) trabalharam no Ministério da Magia, e isso já estava virando regra, fato que deixava Lúcio temeroso. E se ele não fosse bom o bastante para tal cargo?



 



O garoto, que agora contava com 14 anos completos, passava por uma crise existencial dura. O que mais o fazia sofrer era o fato de que não podia – e nem devia – demonstrar suas emoções, e ele pensava que nem mesmo seu pai, Abraxas, era uma opção para ouvi-lo. Para descontar suas frustrações, escolhia meios violentos, como bater e xingar os empregados e elfos, e com esses últimos ele também praticava as maldições imperdoáveis: a maldição imperius era a que mais chamava a atenção do menino, - mas ele não descobrira ainda o truque para conjurá-la de forma correta – e a cruciatus era a que mais exigia esforço, já que para fazê-la bem sucedida, a pessoa deveria realmente querer ver o sofrimento humano.



Apesar de ser proibido usar mágica fora da escola, o garoto não era repreendido pelo Ministério por dois motivos: o primeiro deles era que Lúcio não chegava a realmente fazer mágica, - visto que não dominava as táticas para as maldições, e só chegava a lançar jatos coloridos que derrubavam os elfos – e o segundo motivo era que Abraxas trabalhava diretamente com o ministro, e ele sabia muito bem manter o nome de sua família limpo, e sempre conseguia dobrar todos ao seu redor.



Apesar disso, Abraxas não ficava contente com os comportamentos cada vez mais obscuros do filho. Nem sempre fora assim, na verdade. Houve um tempo em que Lúcio ainda era capaz de amar, não tinha o olhar tão duro e o coração tão gelado. Esse tempo coincidia com o tempo em que sua mãe ainda era viva. Enquanto Mildred Malfoy não sofria de varíola de dragão, ela fazia questão de cuidar do filho com as próprias mãos, e não deixava nenhum empregado ou elfo ajudar. Mãe e filho possuíam um laço profundo de carinho, e apesar de Lúcio já ter nascido com um gosto peculiar pela maldade, objetos proibidos e poder supremo, quando ainda não era órfão de mãe, seu coração de criança ainda possuía uma parte pura e doce.



Depois da morte de Mildred, logo após o aniversário de Lúcio de 6 anos, o garoto mudou totalmente de comportamento, e passou a se interessar cada vez mais pelo errado, pelo obscuro e pelo mal. Vivia estressado, e mesmo antes de ter uma varinha (de madeira) já lançava “Crucio” e “Imperio” nos seres da casa, usando gravetos que ele mesmo envernizava e cuidava como se fossem mágicos. Além do mais, o luto de Abraxas não permitia que ele se importasse com o filho: o homem só conseguia se lembrar da imagem da amada esposa no caixão, e durante quase 2 anos inteiros, a única coisa que fazia era trabalhar e dormir. Não se importava com o filho, não se importava com os amigos, com os acontecimentos do mundo. O Sr. Malfoy nunca se casou de novo, – e também nem deveria, pois esse hábito trouxa era mal visto na sociedade bruxa. – e só voltou a realmente viver, e não só sobreviver, quando Lúcio já tinha 8 anos.



Abraxas tinha seus casos com mulheres por aí, – todas puro sangue e solteiras – e também começou a cultivar hábitos peculiares como seu filho, porém totalmente opostos. Enquanto Lúcio gostava de colecionar objetos maléficos e estudar a arte das trevas, seu pai gostava de animais místicos: tudo que fosse peculiar, diferente e difícil de encontrar, e que possuísse a maior quantidade de mágica possível. Assim, Abraxas começou a criar unicórnios, pavões, hipogrifos, e todo tipo de animal que lhe chamava a atenção pela mágica contida. Apesar de ser um sonserino nato, o homem não se alegrava com as cobras, achava-as animais selvagens demais, e mantinha distância das mesmas.



Lúcio odiava todos os animais do pai, mas só tinha um deles que era quase impossível de ser odiado: o cachorro que Abraxas arrumara para pastorear seus unicórnios. O canino era da raça Border Collie – a mais inteligente dentre todas – e possuía uma pelagem branca com preta lisa e brilhosa, que balançava com o vento enquanto o animal corria. Ele levava o nome de Risk, e era astuto feito um sonserino, sempre fazendo perfeitamente seu trabalho de juntar os unicórnios no fim do dia. Lúcio e Risk desenvolveram tamanha amizade que, um dia, uma elfa que trabalhava na mansão - localizada em Wiltshire, Inglaterra – chegou a tirar uma foto dos dois enquanto brincavam juntos no extenso gramado da propriedade. A foto foi emoldurada e colocada no hall, ao lado da foto da família de quando esta ainda era completa, e chamava atenção por sua moldura prata com pedras verdes cravejadas, e pelos dois seres sorridentes em seu cerne, que se moviam – como toda foto bruxa – e levavam as cores preto e branco.



Depois que Lúcio entrara na adolescência, não tinha um dia que não brigasse com seu pai. Se Abraxas falava “ você deve se casar com uma mulher puro-sangue”, mesmo concordando, o menino retrucava. Se Abraxas dizia para seu filho treinar o vôo no quintal, mesmo querendo, o menino não treinava. E isso não foi diferente no verão de 1969, quando as brigas só atenuavam-se cada dia mais. O motivo era o de sempre: o desejo, a dependência que Lúcio sentia pelas artes das trevas.



- Pai, eu PRECISO de ir ao Borgin&Burkes comprar alguns artefatos. – O menino esbravejava.



- Meu filho – o pai era sereno, tentando controlar a vontade de bater no menino até sangrar – nosso porão está lotado de objetos das trevas, você não precisa de mais nenhum.



- Pai, chegou uma mão amaldiçoada lá, matou 19 trouxas. Eu não tenho nenhuma mão amaldiçoada! Além do mais, foi meu aniversário na semana passada.



No dia 20 de agosto Lúcio completara 14 anos, e foi o único dia de todos os 3 meses de férias que pai e filho não tiveram uma discussão. Cansado de tanta birra, Abraxas permitiu então que o filho fosse à loja, mas teria uma conversa séria com o menino assim que o mesmo retornasse.



Assim que os pés do filho tocaram o brilhoso chão da Mansão Malfoy, o pai fê-lo sentar no sofá, e falou sem pausas:



- Eu não concordo com sua dependência pelo mal. Mas sempre foi assim, você nasceu assim, com essa sede de poder e vitória. Tudo ficou pior quando Mildred morreu, você se tornou frio e calculista desde criança. Eu te criei na crença do sangue-puro perfeito, e ambos concordamos com a teoria do nosso antepassado Salazar, de que o sangue deve manter-se imaculado para que a mágica não sofra perdas. Mas nossos pensamentos sofrem divergências enormes, meu filho. Eu não sujaria minhas mãos matando trouxas ou sangue-ruins, e você está disposto à tudo, em nome do mal. Você já é um homem, e eu só peço que tome cuidado, muito cuidado. Logo deverá escolher uma esposa para acompanhá-lo pelo resto de toda sua vida, e com certeza a escolhida não gostará de ter um marido procurado por dementadores ou preso em Azkaban. Não estou te pedindo para não trilhar o caminho do mal: não seria capaz de tamanha estripulias. Mas só te peço o seguinte: quando praticar o mal, faça escondido, mas bem escondido mesmo, de modo que nem eu fique sabendo. Por favor, honre a memória da sua falecida mãe.



Abraxas terminara de falar e, antes que Lúcio pudesse esboçar reação, se retirou. O menino ficara lá, largado no sofá com cara de tacho, pensando no que o pai falara. Mas não pensava tanto na questão da arte das trevas: isso entrara por um ouvido e saíra pelo outro. O que deixou Lúcio apreensivo fora a menção que o pai fizera à noiva e casamento.



Como de costume, os jovens estudantes embarcavam para Hogwarts no dia primeiro de setembro, e dessa vez Abraxas foi acompanhar seu filho até a porta da locomotiva. Assim que se despediu do pai, Lúcio se encaminhou para o vagão de sempre, e antes de entrar escutou uma risada bem debochada.



Atrás dele, no corredor do trem, Narcisa não acreditava no que via: Lúcio Malfoy havia deixado o cabelo crescer durante as férias! Merlin, como estava engraçado, os fios loiros e lisos chegavam às orelhas, como um cantor de rock ou algo do tipo. A menina não aguentou segurar e gargalhou, e o dono dos cabelos crescidos se virou para conferir o que era aquela algazarra toda:



- Ah! Tinha que ser. Black! – Lúcio falava com sua voz arrastada e cheia de preguiça. – Não sabia que o circo havia chegado aqui no trem. Ou você está rindo de si mesma?



- Cala a boca, Malfoy. – Narcisa continuava rindo – Esqueceu de cortar a juba durante as férias, foi?



- Ah. – Lúcio passou involuntariamente as mãos na cabeleira loira. – Você gostou? – disse, com ar de safado, dando uma piscadela para a menina. Depois se lembrou que a odiava, e acrescentou:



- Você está com inveja, não é, querida Cissa? Queria ter um cabelo tão brilhoso quanto o meu.



A menina estremeceu ao escutar o inimigo falando seu apelido, mas não entendia porque seu corpo havia expressado tal reação. Parara de rir após ouvir o insulto vindo do menino, e foi logo retrucando:



- Nem em mil anos eu gostaria de ter esse cabelo oleoso, parece que passa óleo de mandrágora estragada. Você não sabia que eu tenho o cabelo mais invejado de toda Hogwarts? – Dizendo isso, a menina fez questão de esvoaçar os cabelos compridos, que chegavam à cintura num corte em V, com aquele tom loiro dourado um pouco mais escuro que o de Malfoy.



“É” – pensava Lúcio – “Não foi só eu que mudei nas férias. Cissa está bonita, o corpo se desenvolveu.” Mas como se odiavam, ele não falou nada. Apenas mostrou-a sua língua e entrou no vagão preenchido pelos mesmos de sempre: Bela, Andy, Augustus, Waden, Rodolfo, e Avery, sendo seguido pela loira. A viagem correu tranquila para todos, exceto para Narcisa, que sentia os olhares de Avery e Waden para ela.



As mesmas festas de sempre: jantar de seleção dos novatos, festa lotada de bebida na sala comunal. A diferença foi que, dessa vez, a maioria dos participantes da festa estavam em casal: Belatriz e Rodolfo, – mesma amizade colorida – Andrômeda e Augustus, – namoro sério. Da parte dela. – Rabastan e uma menina ruiva da idade dele, Waden acompanhado de DUAS meninas do 6° ano, e até Lúcio tinha companhia: uma garota de cabelos negros e lisos, pareciam ser da mesma idade. Cissa não se sentia mal por estar desacompanhada, mas também não se sentia bem. Dentre o resto do pessoal da festa, com certeza haveria alguém que estava sozinho e iria querer fazer-lhe companhia.



Foi o que aconteceu. Aproveitando-se da situação, logo Avery, que cursava o último ano, se aproximou da menina, e ficaram conversando amenidades por um bom tempo. Por fim, Narcisa riu irônica e disse:



- Você não deveria estar estudando para os NIEM'S?



- Ah Cissa, sabe, eu gosto de ter boas notas, mas não me interessa essa coisa de provas e exames. Eu quero fazer algo grande, ser como meu pai: alguém importante que tenta impedir a mistura do sangue mágico com o sangue trouxa.



- Ou seja, você quer ser alguém mal. – Retrucou a menina.



- Espertinha você. – O moreno sorria – Que tal se a gente saísse um pouco dessa festa e fossemos ali nas masmorras de astronomia, aonde dá para ver a lua?



A loira assentiu, e foram juntos até as masmorras. Chegando lá, Cissa já sabia o que viria, e aguardava pacientemente pelo momento. Depois de algumas trocas de olhares, Avery a abraçou, e encostando a testa na dela, juntou seus lábios num beijo intenso e molhado. A princípio, Cissa achou estranho ter a língua de outra pessoa na sua boca, mas depois se acostumou e começou a ver prazer naquele ato. Depois de inúmeros beijos, voltaram para a Sala Comunal, e o garoto convidou-a para irem juntos à Hogsmeade no primeiro dia de visitas, que seria dali a 2 semanas.



O tempo passou rápido, como sempre, e logo as folhas no chão deram lugar à neve branca e casta. Belatriz estudava o tempo todo, pois queria ser a melhor de todos os alunos do 7° ano no exame NIEM'S. Andrômeda jogava quadribol como nunca, mas também vivia estudando, já que prestaria o NOM'S, e Narcisa continuava a ver Avery, até que cansou dele e o deu um fora. “ Eu mereço mais, mereço o melhor”, pensava a loira, mas no fundo ela ficava incomodada com a maldade presente no coração do menino. 



Depois das férias de fim de ano, – Cissa completara 13 anos – ao retornar à escola, a menina recebeu uma carta, trazida por sua coruja Kit. A letra era pequena, e os dizeres eram o seguinte:



Encontre-me na biblioteca às 16h.



Lúcio Malfoy



A menina ficou incomodada com a petulância de seu inimigo, que além de pegar sua coruja sem pedir, ainda teve a audácia de mandar uma carta para ela. “Quem ele acha que é, para tentar qualquer contato comigo? Não dei permissão.” Mas ficou com pena de ignorar o pedido do encontro, já que adorava ter a mínima oportunidade de demonstrar seu ódio por Lúcio.



Chegando à biblioteca, conferiu em seu relógio de ouro e eram exatamente 16h. Perfeito. Amava ser pontual. Entrou e logo viu Lúcio encarando a enorme janela dos fundos do lugar, que dava vista para o Lago Negro, que acabara de descongelar-se. O aposento possuía mais de 30 prateleiras gigantescas, de mogno, além da área restrita. As prateleiras iam do chão ao teto, abarrotadas com livros e mais livros de todas as cores e tamanhos, todos bem cuidados, que precisavam de escada para serem retirados. Um lustre gigantesco, armado com velas brancas, iluminava o espaço, preso ao centro. A menina amava o cheiro da biblioteca, cheiro de sabedoria e de antiguidade.



Foi logo se dirigindo à Lúcio, que estava de costas, observando a vista do Lago. coincidentemente, antes que o chamasse, o mesmo disse:



- Olá, Narcisa. Pontual como sempre.



- Como sabia que era eu? Nem falei nada. – A menina parecia desconfiada.



- Erh, eu senti o seu cheiro. – Lúcio parecia corar – Eu conheço esse seu perfume do dia a dia, é o mesmo que usava na nossa infância.



- Hum. - Narcisa sentiu vontade de rir, mas ao mesmo tempo achara fofa a atitude do garoto. - Vamos logo, por que cometeu a estripulia de me chamar aqui? Não tenho tempo para gracinhas.



- Para ficar de gracinhas com Avery você tinha tempo. – Lúcio zoava a menina, que ficou vermelha. – Mas tudo bem. Eu te chamei aqui porque queria dizer que não quero que sejamos mais inimigos. Tivemos uma briga boba aos cinco anos de idade, e isso já ficou no passado. Aceita ser minha amiga? – Lúcio estendeu a mão.



A menina encarou a mão branca e alva à sua frente, com dedos longos e finos, típicos de um pianista. Não sabia o que fazer, nem como reagir. Seria tudo uma pegadinha?



 



 



 



 



Encarou Lúcio nos olhos e reagiu de forma não esperada.


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