As famílias bruxas de sangue puro, que seguiam o tradicionalismo e conservadorismo, tinham prestígio em dizer que sabiam muito bem como educar uma criança, e não era diferente para a família Black. Mas o que essa família não sabia que era que Narcisa ia contra as regras por debaixo do queixo de todos, sem que ninguém percebesse. A dinastia Toujours Pour possuía muitos segredos obscuros, e uma das primeiras regras que os novos integrantes da família aprendiam – depois da importância de manter-se o sangue puro e a castidade até o casamento – era que não era permitido desenterrar esses segredos.
Narcisa ia contra esse princípio todos os dias, visto que além de mentir para os pais o real motivo de se refugiar na casa da tia, ainda enganava a mesma e desenterrada vários – e obscuros – segredos da família. O envolvimento dos Black com a magia negra, e os meios que utilizavam para manter o nome da família sempre limpo, eram alguns dos conteúdos que a pequena Rosier-Black descobria no sótão da Mansão Original Black.
Cartas, objetos que ela nem mesmo se atrevia a tocar, receitas de poções e feitiços: a menina achava de tudo um pouco no meio em que estava, e a frase “os fins justificam os meios” nunca fez tanto sentido para ela – afinal, era uma fã nata do grande bruxo Nicollo di Machiavèlle.
Narcisa sempre se orgulhou muito de ser uma Black, e não ficou desapontada em descobrir os modos e meios que a família usava para obter poder. Ela se orgulhara imensamente da astúcia de seus ascendentes, e agradecia internamente à Merlin por ter nascido herdeira desse império de inteligência e manipulação. Todavia, o que mais chamou a atenção da loira fora um pequeno e já bem gasto livro, que continha capa preta simples e páginas amarelas – prova concreta da idade já avançada do objeto. Na capa, letras douradas bordadas ilustravam um nome até então desconhecido pela garota: “Oclumência”.
Fora por causa desse livro que Narcisa passara a ir quase todos os dias de suas férias de verão para a casa da tia. Ela recusava sempre os convites das irmãs para irem ao laguinho nadar, não se interessava pelas cartas das amigas, – que sempre continham convites para festas do pijama, e todo esse tipo de entretenimento – e também nunca queria acompanhar os pais nos eventos sociais. Fora esse último fato que despertou a atenção de Andrômeda, pois a mesma estava acostumada com o jeito narcisista da irmã, que adorava ir a todos os eventos sociais importantes, somente para exibir sua beleza e seu maravilhoso glamour. Os outros integrantes da família ignoraram as mudanças comportamentais da menina: para os pais, era apenas a fase de transição entre menina e moça. “Coisas da idade. Não gosta de ficar andando mais com os pais” era o que Druella dizia. Já Belatriz, esta estava ocupada demais trocando cartas com seus “homens”, sempre arrumando um jeito de iludi-los cada vez mais, só para jogar fora depois, “como ingredientes vencidos no armário de Poções.” – era o que a morena falava.
Faltavam apenas duas semanas para o retorno das aulas em Hogwarts, e Narcisa, mais uma vez, estava trancada no sótão velho e escuro da Mui Nobre e Antiga Casa dos Black. Ela empunhava a varinha na mão direita e o livro de Oclumência na mão esquerda, e estava pronta para praticar alguns truques que havia aprendido com as inúmeras leituras que fez do livro, quando a porta do sótão se abriu vagarosamente, levantando poeira e emitindo um rangido – nheeerc – assustador. A caçula Rosier-Black levou um susto que quase parou seu coraçãozinho, e deixou o livro e a varinha caírem no chão, fazendo um ruído alto e levantando mais poeira.
Quem apareceu no batente da porta foi Andrômeda, e ela fechou-a atrás de si logo após passar para dentro do sótão. Olhava Narcisa com um olhar desconfiado, e foi direto ao assunto:
- Eu descobri que tinha algo errado quando você de repente começou a recusar todas as formas de se exibir para a sociedade. Se me contar o que está tramando, eu prometo não te entregar à papai e mamãe.
A loira parecia aliviada com o que ouviu, e logo se abriu à irmã:
- Andy, eu descobri um livro que me interessou. Olhe – disse, passando o pequenino objeto para a irmã – Oclumência. Já ouviu falar? É fantástico.
- Nunca ouvi nada a respeito – proclamou Andy – mas podemos perguntar à Bela assim que chegarmos em casa. O que acha?
- Acho uma excelente ideia. Vamos para casa então. – Narcisa escondera o livro por entre as vestes, e desejara ter uma capa para poder colocá-lo lá.
Naquela noite, talvez pelo fato de que o dia havia sido de um calor escaldante e um sol intenso, a chuva resolveu descer. Cair seria uma palavra fraca, a chuva desmoronou, despencou do céu. Com direito à raios, trovões e árvores sacudindo, seria uma longa noite para as senhoritas Rosier-Black. Sozinhas em casa, reunidas no quarto de Belatriz, as três discutiam Oclumência. Ninguém sentia medo do clima que a tempestade trazia. Na verdade, as três bruxas concordavam que aquela chuva criara o ambiente perfeito para as descobertas que iriam fazer.
Como mais velha e mais experiente, Bela resolveu dizer tudo o que sabia sobre o assunto:
- A Oclumência é coisa obscura, só os poderosos e temidos dominam a arte. Basicamente, é a defesa magica da mente contra invasões externas. Alguém que entende e pratica a arte da legilimência pode entrar na cabeça do outro e ler seus pensamentos e lembranças, e a Oclumência serve para ocultar ou dificultar isso.
As duas mais novas escutavam compenetradas, e quando Bela terminou de falar, um silencio pairou no ar – e só foi cortado por um estralo de um relâmpago, seguido por seu clarão e uma trovoada de tremer o chão. Andrômeda estava pensativa, mas Narcisa tinha mil perguntas a fazer:
- E por que alguém usaria legilimência hoje em dia? Qual a necessidade de saber e controlar os pensamentos do outro?
- Eu não sei te responder, irmãzinha. – Bela percebeu o semblante triste da menor, e tratou de incrementar sua resposta - Mas existem muitas pessoas pelo mundo afora que buscam poder, glória, e dominar a legilimência e Oclumência são passos a serem dados, visto que são características que auxiliam na manipulação de um ser sobre outro.
Narcisa ficou calada encarando o chão. Pensava nos segredos da familia que havia descoberto nesse verão, e um única pergunta ecoava em sua mente: será que os pais e seus antecessores eram adeptos da legilimência e Oclumência? Embora estivesse intrigada, a menina sabia que ainda ouviria muito o que falar sobre esses dois temas, e resolveu guardar o livro consigo mesma.
O verão acabara, e mais um ano em Hogwarts se iniciara. Antes de embarcar no trem, Narcisa ganhara de seu pai uma imensa capa preta com verde, com seu nome bordado em fios de prata na altura do braço, e com inúmeros bolsos e esconderijos por dentro – tudo isso porque havia se tornado uma moça durante o verão.
Como de costume, no dia primeiro de setembro, acontecia o jantar de boas vindas, a cerimônia de seleção e a festa privada para os sonserinos na sala comunal. Narcisa reparou que pelo menos 6 alunos haviam se integrado à Sonserina. Alheia aos fatos que estavam acontecendo, a menina só conseguia se entregar à releitura do livro de Oclumência. Percebeu alguém a observando, e rezando para que não fosse Lúcio ou Rabastan, resolveu encarar de volta. Infelizmente, era a primeira opção.
- Perdeu alguma coisa, Lúcio? – A loira o provocava, falando enquanto levantava apenas a sobrancelha esquerda. – Eu sei que sou muito fantástica, mas você poderia parar de babar?
Lúcio, que não havia reparado que Narcisa pegara-o olhando para ela, sentiu um afronto frente às falas da menina, e resolveu desafiá-la de volta:
- Eu não estava olhando para você, deixe de ser enxerida. Estava olhando para aquela moça. – e apontou uma das colegas de classe de Narcisa, seguindo em sua direção.
Narcisa não desviou o olhar um segundo sequer, nem quando o loiro começou a beijar sua colega descaradamente, na frente de todo mundo. Cissa apenas revirou os olhos, pensando em como os homens são infantis, e voltou a ler o seu livro. Não reparou quando o Malfoy olhou em direção à ela, sem quebrar o beijo, só para conferir se ela estava o observando – e quebrou a cara. Tampouco observou que, momentos depois, o menino saiu da festa e seguiu para seu dormitório. Sozinho no quarto escuro, Lúcio não teve medo de admitir para si mesmo que estava, realmente, olhando para Narcisa naquele momento de constrangimento em meio à sala comunal.
Os dias passavam rápido na luta diária dos alunos de Hogwarts, e cada dia mais as novidades surgiam: Lúcio foi incorporado ao time de quadribol como apanhador (depois de muita insistência de seu pai, Abraxas, em cima do diretor da Sonserina), Andrômeda aceitara o pedido de namoro de Augustus, Bela – que estava agora no 6° ano – andava cada dia mais com Rodolfo; “uma amizade colorida”, era o que eles falavam. Narcisa estava cada dia mais bonita e inteligente, e chamava a atenção de professores e alunos por isso. Além do mais, ela se dedicava ao estudo da Oclumência com mais afinco, e estava se destacando nas aulas de Quadribol também, já que aprendera a voar com apenas cinco anos de idade.
Foi só no Halloween que a maior mudança de todas aconteceu: na hora do assustador banquete, o diretor anunciou que foram abertas novas oficinas extraclasse na escola, e que acrescentariam pontos às casas. De tal forma, a primeira apresentação formal seria na véspera da semana de recesso do natal, e os alunos interessados deveriam se inscrever com os diretores das suas casas. Narcisa apurou os ouvidos para escutar os nomes dos habilidades disponíveis, e ficou encantada ou ver que música e teatro estavam entre elas.
- Os alunos das casas deverão trabalhar juntos, sem discriminação e sem...
Mas ninguém mais ouvia ao diretor: os alunos, alvoroçados, conversavam entre si, e alguns já se levantavam para falar com o diretor de sua respectiva casa. Narcisa já se decidira: se inscreveria em música e teatro, e mostraria aos leigos daquela escola o que era arte de verdade.
Duas semanas antes, Narcisa nunca iria imaginar que sentiria tanta pena do Malfoy assim: após o anuncio do diretor sobre as atividades, o prazo estipulado para a inscrição fora de duas semanas, e após o fim do prazo, alguns testes vocacionais foram feitos. Correndo entre o grupo de música e o de teatro (havia sido aprovada nos dois), Cissa fazia questão de assistir aos testes alheios, e foi numa tarde úmida de sexta-feira que ela quase passara mal de tanto rir – e depois sentira pena – de Lúcios Malfoy. O menino havia se inscrito no grupo de teatro, e mostrou-se um verdadeiro ogro na arte da atuação. Gaguejou, errou a fala dezenas de vezes, e por fim, rasgou o script. Por medo de novos escândalos, o diretor da Sonserina permitira que ele escolhesse outro grupo para entrar, – mesmo que fora do prazo final – e Lúcio entrou no de música, surpreendendo Narcisa e todos os outros que assistiam ao teste com sua voz angelical e seus dotes no piano.
- Foi minha mãe quem me ensinou a tocar e cantar. – Lúcio admitiu, envergonhado, em frente ao publico. Narcisa não deixou passar o fato de que era a primeira vez que ele falava algo da falecida mãe.
Muitos e muitos ensaios depois, chegara o dia da tão esperada apresentação – e das férias de natal. Narcisa foi a personagem principal na peça do grupo de teatro, e levara nota máxima para sua casa, sendo aplaudida de pé pela escola inteira. Ela tinha talento, e acima de tudo, estilo. Na última apresentação da noite, do grupo de música, a escola foi surpreendida com um conjunto de musicistas que tocavam uma melodia suave ao fundo, enquanto um casal se posicionava para performar um dueto. Toda a escola soltou o ar que havia sido prendido ao ver que o casal era formado por, nada mais nada menos, Narcisa e Lúcio. Alguns suspiraram, outros e outras sentiram inveja, e boa parte dos alunos aprovou. Assim, o casal começou seu dueto por cima da melodia que era tocada pelo resto do coro.
Basicamente toda a escola sabia do desafeto que era compartilhado por ambos os cantores ali presentes no palco, e isso só deixava tudo mais interessante. Após terminarem o dueto, Lúcio e Narcisa se cumprimentaram com um aperto de mão, e só isso. Mais nada. Os amigos de ambos e as irmãs da moça fizeram graça, puxando um coro de “beija, beija”, mas que foi logo cortado pelo diretor.
No dia seguinte, a maioria dos alunos embarcara para casa, pois era semana do Natal. Cussa completara 12 anos no dia 23, e como recompensa por ter passado mais um ano viva, pediu aos pais uma reforma no quarto. Estava decidida a tirar a cor rosa das paredes, tirar todas as coisas fofas e delicadas, e acrescentar objetos do seu mais novo estilo de vida: agora, ela era uma artista. As paredes ganharam um tom de azul claro, que combinava com os olhos da menina, e vários enfeites como notas musicais penduradas no teto e até um kit de perucas artísticas foram acoplados à decoração do espaço. A caçula dos Black vivia cantando, dançando e atuando pela casa, e os pais apenas assistiam à fase em que a filhinha estava passando. Cygnus observava os novos gostos da filha com cautela – afinal, não queria sua pequena flor rodando pelo país como uma qualquer, em busca de fama. Mas permitia que a filha desfrutasse do auge da carreira artística agora, e como não permitiria? Não conseguia negar nada ao seu narcisinho de porcelana.
No dia da ceia de natal, reunidos ao redor da enorme mesa na casa de Walburga, Andrômeda entretia a família enquanto reclamava de um rival no quadribol:
- Um sangue-ruim grifinório, chamado de Ted Tonks. Além de escória, é metamorfomago, e vive por aí mudando a cara e o cabelo. É batedor do time e acha que pode me enfrentar, vive me jogando balaços.
Os parentes riam com vontade, e seu pai esticou o assunto:
- Esse garoto, Theodore, é da sua idade? – após receber a confirmação da filha, prosseguiu: - nunca ouvi falar na família dele.
- Ele é nascido trouxa, papai.
A fala de Belatriz foi forte o suficiente para acabar com as gargalhadas da família.
Com a chegada da primavera e a aproximação dos exames finais, os grupos de atividades extraclasse foram deixados de lado pelos alunos. Uma nova apresentação estava marcada para o ultimo dia letivo, mas tudo bem – eles tinha talento, e haveria tempo para ensaios. Narcisa não tinha dúvidas de que seria, novamente, a melhor aluna da sua idade de toda a escola, e seus estudos sobre Oclumência não tinham como progredir mais: ela já era expert, só precisava que alguém tentasse a legilimência com ela para que confirmasse na prática a sua sabedoria sobre o assunto. Ela não errou quanto ao mérito de melhor aluna.
Mais um fim de ano letivo chegou, e no último dia de aulas houve, após a entrega da taça das casas, – na qual a Sonserina ganhara de novo – a última apresentação dos grupos extraclasse. Narcisa se demonstrava cada dia mais uma artista nata, cantando, dançando e atuando como ninguém. Lúcio esquecera-se da apresentação, pois estava aos beijos com uma menina do 4° ano pelos corredores.
O fim do ano letivo pesava na cabeça dos alunos, pois todos sabiam que o ano seguinte seria mais puxado que o que havia acabado. Esse peso era ainda maior na cabeça de Belatriz, que entraria para o último ano em Hogwarts, e teria que prestar os NIEM'S. A pressão era gigantesca, e para amenizar isso, ela saia com Rodolfo.
As férias de verão corriam tranquilas na casa dos Rosier-Black – mas nem todos tem a mesma sorte. Na casa dos Malfoy, as brigas eram constantes, e o motivo era sempre o mesmo: a tendência para a magia negra que Lúcio possuía.