CAPÍTULO CINCO
Tudo o que Gina queria era uma barra de chocolate. Passara a maior parte do dia testemunhando no tribunal, e seu horário de almoço tinha sido devorado pelo telefonema de um informante, que lhe custara cinqüenta dólares, mas a colocara na dianteira em um caso de contrabando que resultara em dois homicídios, e no qual ela já vinha quebrando a cabeça há dois meses.
Tudo o que queria era uma dose rápida de qualquer substituto de açúcar, antes de voltar para casa a fim de se preparar para o encontro com Potter, marcado para as sete horas.
Poderia ter passado em qualquer uma das inúmeras Insta Stores drive-through, mas preferiu a pequena delicatessen na esquina de Setenta e Oito Oeste, apesar, ou talvez pelo fato de que ela pertencia e era gerenciada por François, um rude refugiado com olhos de cobra que escapara rumo aos Estados Unidos depois que a Reforma Social Armada provocara a queda do governo francês, uns quarenta anos antes.
François detestava o país e os americanos, mas a Reforma Armada o tinha despachado para lá mais ou menos uns seis meses depois do golpe, e o francês foi ficando, se maldizendo e reclamando atrás do balcão da loja da Rua Setenta e Oito, onde ele adorava despejar insultos e absurdos políticos.
Gina o chamava de Frank, para irritá-lo, e passava por ali pelo menos uma vez por semana para ver que novo esquema ele tinha inventado para explorá-la e deixá-la sem dinheiro.
Com a cabeça na barra de chocolate, entrou pela porta automática. O vidro ainda nem tinha começado a se fechar atrás dela quando seu instinto bateu.
O homem que estava no balcão, de costas para ela, usava um casaco grosso com um capuz que cobria tudo, menos o tamanho do seu corpo, que era considerável.
Um metro e noventa e dois, ela avaliou, e uns cento e vinte quilos. Nem precisava ver o rosto magro e aterrorizado de François para saber que havia problemas. Dava para sentir o cheiro, tão forte e amargo quanto o da carne vegetal picada que estava na promoção do dia.
Nos segundos que se passaram até a porta se fechar, ela considerou e em seguida rejeitou a idéia de sacar a arma.
- Para cá, vagabunda. Anda logo!
O homem se virou para ela. Gina notou a cor da pele, dourada clara, típica de uma herança multirracial, com os olhos de um homem muito desesperado. E enquanto guardava na memória sua descrição, olhou para o pequeno objeto redondo que ele tinha na mão.
O explosivo caseiro era preocupante. O fato de que ele estava balançando a mão que o segurava e tremia de nervoso tornava tudo ainda pior.
Homens com bombas caseiras eram notoriamente instáveis. O idiota era capaz de matar a todos, só por suar em demasia.
Gina lançou um rápido olhar de alerta para François. Se ele a chamasse de tenente, todos ali iam virar carne moída bem depressa. Mantendo as mãos à vista, foi até o balcão.
- E-Escute... Não quero problemas. - disse ela, fazendo a voz tremer de nervoso, tanto quanto a mão do ladrão. - Por favor, moço, eu tenho filhos em casa.
- Cale a boca. Simplesmente cale essa boca. No chão. Deite-se na porcaria desse chão.
Gina se ajoelhou, deixando a mão sob o casaco escorrer para onde a arma aguardava.
- Quero tudo. - ordenou o homem, fazendo gestos com a pequena bola mortal. - Pode me dar tudo. Dinheiro, fichas de crédito, e ande rápido!
- Foi um dia fraco. - gemeu François. - Você precisa entender que os negócios não andam tão bem como antes. Vocês, americanos...
- Quer engolir isso? - ofereceu o homem, empurrando o explosivo na direção do rosto de François.
- Não, não. - Em pânico total, François digitou a senha de segurança da gaveta do caixa com dedos trêmulos. Quando o compartimento se abriu, Gina viu o ladrão olhar para o dinheiro que estava lá dentro, e logo a seguir para a câmera de segurança, que estava gravando toda a cena.
Então viu a idéia se estampar em seu rosto. Ele sabia que sua imagem estava guardada ali, e que nem todo o dinheiro de Nova York poderia apagá-la. O explosivo sim, poderia fazer isso, se fosse atirado displicentemente por sobre os ombros quando ele saísse correndo para a rua, para logo ser engolido pela multidão.
Gina prendeu a respiração, como um mergulhador pronto para saltar. Chegou com força, por baixo do braço dele. O inesperado golpe fez a bomba saltar para o ar.
Gritos, xingamentos e preces se misturaram. Ela pegou o explosivo com a ponta dos dedos, em um vôo que parecia um lance de beisebol, com dois homens fora e as bases ocupadas. No momento em que apertou as mãos em volta do explosivo, o ladrão girou o braço e a atingiu.
Foi com as costas da mão, em vez dos punhos, e Gina se considerou com sorte por isso. Viu estrelas ao atingir o balcão de grãos de soja, mas segurou a bomba na mão, com firmeza.
Peguei com a mão errada, droga, com a mão errada, ela teve tempo de pensar enquanto o balcão desabava sob o peso dela. Tentou usar a mão esquerda para pegar a arma, mas os cento e vinte quilos de fúria e desespero se jogaram sobre ela.
- Aperte o alarme, idiota. - gritou, enquanto François continuava parado como uma estátua, abrindo e fechando a boca. - Aperte a droga do alarme. - Ela gemeu de dor quando o soco em suas costelas roubou-lhe o ar. Desta vez ele usou o punho.
Ele chorava, agora, arranhando e apertando o braço dela em uma tentativa de reaver o explosivo.
- Preciso do dinheiro. Tenho que pegá-lo. Vou matar você. Vou matar vocês todos.
Ela conseguiu dobrar o joelho e atingi-lo. A velha tática de defesa lhe deu alguns segundos, mas não teve o poder de colocá-lo fora de combate.
Ela viu estrelas mais uma vez quando a cabeça bateu com força na lateral do balcão. Dezenas das barras de chocolate que ela tanto queria choveram em sua cabeça.
- Seu filho da mãe. Seu filho da mãe. - Ela só ouvia a si própria repetir isto, sem parar, enquanto atingia o rosto e o nariz dele com três socos curtos. Sangue começou a espirrar do nariz atingido, e ele agarrou o braço dela.
Gina sabia que o braço ia quebrar. Sabia que ia sentir a qualquer momento a dor aguda e fina, e ouvir o estalo do osso fraturando.
Mas no exato instante em que tentava tomar ar para gritar e sua visão começou a se embaçar com a agonia, sentiu que o peso era retirado de cima dela.
Com a bola ainda apertada entre os dedos, rolou de lado e ficou sobre o quadril, tentando respirar e lutando contra a vontade de vomitar. Daquela posição, ela viu os sapatos pretos e brilhantes que sempre indicavam um policial.
- Pode levá-lo. - Ela tossiu uma vez, com dor. - Por tentativa de roubo. Estava armado, carregava um explosivo, e me agrediu. - Ela gostaria de ter acrescentado que tinha sido uma agressão a uma policial, com resistência à prisão, mas como não havia se identificado para o ladrão, estaria ultrapassando um limite.
- Está se sentindo bem, senhora? Quer que eu chame os para-médicos?
Gina não queria os para-médicos. Queria a porcaria de uma barra de chocolate.
- Eu sou tenente. - corrigiu ela, levantando-se e exibindo a identificação. Viu que o criminoso já estava bem preso, e que um dos dois policiais tinha sido esperto o suficiente para usar a sua arma de choque para imobilizá-lo. - Precisamos de uma caixa de segurança, depressa. - Ela viu os policiais empalidecerem ao ver o que ela carregava na mão. - Este explosivo já foi sacudido demais. Temos que neutralizá-lo.
- Sim, senhora. - O primeiro policial já estava fora da loja em um instante. Durante os noventa segundos que levou para voltar com a caixa preta usada para transportar e desativar explosivos, ninguém deu uma palavra.
Nem respiraram.
- Levem-no. - repetiu Gina. No momento em que o explosivo foi isolado, os músculos de sua barriga começaram a tremer. - Deixem que eu faço o relatório. Vocês estão com a Unidade Cento e Vinte e Três, não é?
- Estamos, tenente.
- Foi um bom trabalho. - Esticou o braço com cuidado, para não forçar o braço machucado, e pegou uma das barras de Galaxy que não tinham ficado esmagadas na luta. - Vou para casa.
- Você não pagou pelo chocolate. - berrou François, para ela.
- Vá à merda, Frank. - gritou ela de volta, e continuou indo embora.
O incidente atrasou a sua programação. Quando chegou na mansão de Potter, já eram sete e dez da noite. Gina usara a medicação que tinha em casa para aliviar as dores no braço e no ombro. Se não estivesse melhor em dois dias, ia ter que se apresentar para fazer exames. Ela detestava médicos.
Estacionou o carro e ficou um instante analisando a casa de Potter. Parecia mais uma fortaleza, pensou. Seus quatro andares se elevavam acima das árvores cobertas de geada do Central Park. Era uma daquelas construções antigas, com quase duzentos anos de idade, construídas com pedra de verdade, se seus olhos não a estavam enganando.
Havia muitas vidraças e luzes brilhando, douradas, por trás das janelas. Havia também um portão de segurança, atrás do qual arbustos, pinheiros e árvores elegantes estavam artisticamente plantados.
Ainda mais impressionante do que a magnífica arquitetura e o tratamento paisagístico era a quietude. Não se ouviam os barulhos da cidade, ali. Nenhum ruído de trânsito, nem o caos dos pedestres. Até mesmo o céu acima deles estava sutilmente diferente do que ela estava acostumada, no centro da cidade. Ali, dava para ver estrelas de verdade, em vez do brilho e do clarão dos meios de transporte.
Vida boa para quem pode, meditou, e entrou com o carro. Aproximou-se do portão e se preparou para mostrar a identificação. Viu a pequena luz vermelha de um scanner piscar, para a seguir se manter acesa. Os portões se abriram silenciosamente.
Então, ele havia programado o sistema para recebê-la, pensou, sem saber se devia se sentir satisfeita ou desconfortável. Entrou pelo portão, subiu pelo pequeno aclive de acesso, e deixou o carro ao pé da escadaria de granito.
Um mordomo abriu a porta para ela. Gina jamais vira um mordomo de verdade, a não ser em filmes antigos, mas aquele ali não desapontava a idéia formada pela fantasia. Tinha cabelos brancos, olhos impassíveis, e vestia um fraque preto com gravata bem apertada em um nó antiquado.
- Tenente Weasley.
Havia nele um sotaque muito leve, que soava britânico e eslavo ao mesmo tempo.
- Tenho um encontro marcado com Potter.
- Ele a espera. - O mordomo a conduziu até um saguão largo com pé-direito alto, que mais parecia a entrada de um museu do que o hall de uma residência.
Havia um imenso lustre de cristal com pingentes em forma de estrelas, que espargia luz sobre um piso de madeira brilhante coberto por um tapete em padrões vibrantes de vermelho e azul-petróleo. Uma escadaria em curva elevava-se para a esquerda, e um grifo mitológico entalhado, com cabeça de águia, servia de coluna na base dos degraus.
Havia pinturas nas paredes, do tipo que ela vira uma vez em uma excursão da escola ao Museu Metropolitan. Impressionistas franceses de um século que ela não lembrava qual. O Período da Revisitação, movimento artístico que surgira no início do século vinte e um, a cumprimentava também, com suas cenas pastorais e cores gloriosamente suaves.
Nenhum holograma ou escultura viva. Só pintura e telas.
- Posso pegar seu casaco?
Ela colocou os ombros para trás e pensou ter percebido um clarão de presunção condescendente naqueles olhos inescrutáveis. Liberada do casaco, Gina observou o mordomo enquanto ele carregava o agasalho de couro de forma excessivamente cuidadosa, entre os dedos com unhas bem tratadas.
Diabos, ela conseguira tirar a maior parte das manchas de sangue dele.
- Por aqui, Tenente Weasley. Se a senhorita não se incomoda de aguardar na sala de visitas, Potter está atendendo a uma chamada transoceânica, neste instante.
- Tudo bem.
O clima de museu continuava, ali. A lareira estava acesa, de forma tranqüila. O fogo formado por genuínas toras de madeira crepitava em uma base entalhada em lápis-lazúli e malaquita. Duas lâmpadas estavam acesas, com cores de pedras preciosas. Os dois sofás idênticos tinham encostos curvados e um exuberante estofamento, que complementava os tons de safira que havia em todo o ambiente. A mobília era em madeira, polida quase a ponto de estar espelhada.
Aqui e ali, objetos de arte estavam dispostos. Esculturas, tigelas e peças de cristal facetado.
As botas dela fizeram ruídos secos sobre a madeira, e depois abafados, quando ela chegou ao tapete.
- Gostaria de beber alguma coisa, tenente?
Ela olhou para trás e notou, com certo divertimento, que ele continuava a segurar o casaco entre os dedos como se fosse um pano de chão sujo.
- Aceito, sim. O que tem para me oferecer, Senhor...?
- Moody, tenente. Apenas Moody, e estou certo de que consigo providenciar qualquer coisa que deseje.
- Ela adora café, - disse Potter da porta - mas acredito que gostaria de experimentar o Montcart, da safra quarenta e nove.
Os olhos de Moody piscaram rápidos com horror, pelo que Gina percebeu.
- O da safra quarenta e nove, senhor?
- Isso mesmo. Obrigado, Moody.
- Sim, senhor. - Balançando o casaco, retirou-se, ereto como uma tábua.
- Desculpe-me por deixá-la esperando. - Potter começou, e então seus olhos se apertaram sombrios.
- Não há problema. - disse Gina enquanto ele se aproximava dela. - Eu estava só... Ei!
Ela afastou o queixo enquanto a mão de Harry tentava tocá-la, mas os dedos dele a seguraram com firmeza e viraram o seu rosto na direção da luz.
- Seu rosto está machucado. - A voz dele estava fria ao afirmar isso, quase gélida.
Seus olhos, enquanto ele avaliava a área machucada, não demonstravam nada. Seus dedos, porém, eram quentes, tensos, e fizeram alguma coisa se agitar em seu estômago.
- Foi numa briga por causa de uma barra de chocolate. - explicou ela, encolhendo os ombros.
Seus olhos se encontraram com os dela, e ficaram parados por um instante a mais do que seria confortável, até que ele perguntou:
- Quem ganhou?
- Eu. É um erro tentar me impedir de alcançar comida.
- Vou me lembrar disso. - Ele a soltou e enfiou a mão que tocara o rosto dela dentro do bolso, porque queria tocá-la novamente. Ficou preocupado pela intensidade com que queria apagar aquela marca roxa que manchava o rosto dela. - Creio que você vai aprovar o cardápio desta noite.
- Cardápio? Eu não vim aqui para comer, Potter. Vim aqui para analisar a sua coleção.
- Você fará as duas coisas. - Ele se virou quando Moody chegou com uma bandeja que exibia uma garrafa de vinho da cor de trigo e dois cálices de cristal.
- O quarenta e nove, senhor.
- Obrigado. Pode deixar que eu sirvo. - Ele se virou para Gina enquanto falava isso. - Imagino que a safra deste vinho vai lhe agradar. O que lhe falta em sutileza... - e se virou, oferecendo um dos cálices - É compensado pela sensualidade. - Brindou batendo o copo contra o dela, fazendo o cristal tinir. Em seguida, ficou observando enquanto ela bebia.
Deus, que rosto, pensou ele. Todos aqueles ângulos e expressões, toda aquela emoção e controle. Naquele exato momento ela tentava evitar uma exibição de surpresa e prazer, enquanto o sabor do vinho se acomodava à sua língua. Ele mal podia esperar pelo momento em que o sabor dela se acomodaria à língua dele.
- Aprovou? - perguntou ele.
- É bom. - Aquilo era o equivalente a sentir ouro líquido escorrendo pela garganta.
- Fico feliz. O Montcart foi minha primeira incursão no ramo das vindimas. Podemos nos sentar e aproveitar o calor do fogo?
Era tentador. Ela quase podia se imaginar sentada ali, com as pernas colocadas bebendo vinho enquanto as em um ângulo certo para receber o calor perfumado, luzes em tons de jóias preciosas dançavam.
- Esta não é uma visita social, Potter. É uma investigação de assassinato.
- Então você pode me investigar enquanto jantamos. - Ele tomou-a pelo braço, levantando uma sobrancelha quando ela ficou rígida. - É de se imaginar que uma mulher que luta por uma barra de chocolate poderá apreciar devidamente um filé com cinco centímetros de altura, ao ponto.
- Filé? - Ela fez força para não babar. - Filé de verdade, vindo de uma vaca?
- Acabou de chegar de Montana. - Um sorriso apareceu em seus lábios. - O filé, não a vaca. - Ao ver que ela ainda hesitava, tombou a cabeça para o lado. - Ora vamos, tenente. Eu não acredito que um pouco de carne vermelha vá embotar os seus consideráveis dotes investigativos.
- Uma pessoa tentou me subornar um dia desses. - murmurou ela, lembrando-se de Sirius e seu robe preto de seda.
- Com o quê?
- Nada tão interessante quanto um filé. - Lançou um longo olhar, de igual para igual. - Se as evidências apontarem na sua direção, Potter, saiba que vou derrubar você.
- Não esperava menos que isso. Vamos comer.
Ele a conduziu até a sala de jantar. Mais cristais, mais madeira polida, outra lareira crepitante, desta vez cercada de mármore com veios cor-de-rosa. Uma mulher vestida com um uniforme preto os serviu com aperitivos de camarão, mergulhados em molho cremoso. O vinho foi trazido, e seus cálices, completados.
Gina, que raramente se preocupava com a aparência, sentiu que deveria estar usando algo mais adequado para a ocasião, em vez de calça jeans e um suéter.
- E então, como foi que você ficou rico? - perguntou a ele.
- De várias formas. - Ele gostava de vê-la comer, conforme acabara de descobrir. Havia uma certa obstinação naquilo.
- Cite uma.
- Desejo. - respondeu, e deixou a palavra flutuar entre eles.
- Só isso não adianta. - Ela pegou o vinho de novo, olhando diretamente para os olhos dele. - A maioria das pessoas tem o desejo de ser rica.
- Elas não querem o suficiente. Não lutam por isso. Não correm riscos por isso.
- Mas você correu.
- Corri. Ser pobre é, digamos, desconfortável. Eu gosto de conforto. - Ofereceu-lhe um enroladinho retirado de uma bandeja de prata, enquanto a salada era servida. Uma salada verde bem fresca misturada com ervas delicadas. - Nós dois não somos muito diferentes, Gina.
- Sim... sei.
- Você queria ser uma policial. Queria o bastante para lutar por isso. O bastante para correr riscos por isso. Acha que quebrar as leis é algo desconfortável. Eu faço dinheiro, você faz justiça. Nenhuma dessas duas coisas é algo simples. - Ele esperou um momento. - Você sabe o que Sharon DeBlass queria?
O garfo de Gina ficou parado no ar, e então pegou uma porção macia de chicória que acabara de ser colhida, há menos de uma hora.
- O que você acha que ela queria, Potter?
- Poder. Sexo é muitas vezes uma forma de obter isso. Ela tinha dinheiro suficiente para estar confortável, mas queria mais. Porque dinheiro também é poder. Mas ela queria poder sobre os clientes dela, sobre si mesma, e, acima de tudo, queria ter poder sobre a família dela.
Gina pousou o garfo. Sob a luz do fogo, na dança do brilho das velas com o dos cristais, ele parecia perigoso. Não no sentido de uma mulher ter medo dele, mas porque ela mesma poderia deseja-lo. Sombras brincaram em seus olhos, tornando-os ilegíveis.
- Essa é uma análise e tanto de uma mulher que você afirma que mal conhecia.
- Não leva muito tempo para se formar uma opinião sobre alguém, especialmente se a pessoa é óbvia. Ela não tinha a sua profundidade, Gina, nem o seu controle, e nem o seu foco tão invejável.
- Não estamos falando de mim. - Não, ela não queria que ele falasse dela, nem que ficasse olhando para ela daquele jeito. - Na sua opinião, ela estava sedenta de poder. Sedenta o suficiente para ser morta antes de conseguir dar uma mordida muito grande?
- Uma teoria interessante. A pergunta seria, uma mordida muito grande do quê? Ou em quem?
A mesma atendente silenciosa levou a salada e trouxe imensos pratos de porcelana, cheios de pedaços de carne ainda chiando e fatias finas e douradas de batatas grelhadas.
Gina esperou até que eles estivessem novamente sozinhos e então começou a cortar seu filé.
- Quando um homem acumula uma grande quantidade de dinheiro, posses e status, passa a ter muito a perder.
- Agora estamos falando de mim. Outra teoria interessante. - Ele ficou parado ali, com um olhar de curiosidade e ao mesmo tempo divertido. - Ela me ameaçou com algum tipo de chantagem e, em vez de pagar algum dinheiro a ela ou desprezá-la como se fosse ridícula, eu a matei. Será que dormi com ela antes?
- Você é quem tem que me contar. - disse ela impassível.
- Combinaria com o enredo, considerando-se a escolha da profissão dela. Pode haver alguma pressão sobre a imprensa nesse caso em particular, mas não precisamos ter um poder de dedução tão grande assim para concluir que a chave de tudo é o sexo. Eu a tive, e depois a matei... se é que vamos aceitar essa teoria. - Ele pegou um pedaço de carne, saboreando-o e a seguir engolindo-o. - Há um problema, porém.
- E qual é?
- Eu tenho o que talvez você considere uma peculiaridade fora de moda. Desprezo todo tipo de violência contra as mulheres, sob qualquer forma.
- O que torna o que disse fora de moda é que seria mais adequado falar que você despreza violência contra pessoas em geral, sob qualquer forma.
- Como eu disse, é uma peculiaridade. - Ele moveu os ombros, com elegância. - Acho desagradável olhar para você e ver a luz das velas se desviar ao atingir a marca roxa em seu rosto. - Surpreendeu-a, esticando a mão e passando o dedo sobre a mancha, muito delicadamente. - Acredito que teria achado ainda mais desagradável matar Sharon DeBlass. - Recolheu a mão e voltou à refeição. - Embora as pessoas saibam que eu, ocasionalmente, faça algumas coisas que não me agradam. Quando é necessário. Como está a comida?
- Está ótima! - O ambiente, a luz, a comida, tudo estava mais que ótimo. Era como estar sentada em um outro mundo, em um outro tempo. - Quem, afinal de contas, é você, Potter?
- Você é que é a tira, aqui. - sorriu ele, completando os cálices. - Descubra.
Ela ia descobrir, prometeu a si mesma. Por Deus, ela ia descobrir, antes de aquilo acabar.
- Que outras teorias você tem a respeito de Sharon DeBlass? - perguntou a ele.
- Nada de especial. Ela gostava do que era excitante, e gostava do risco, e não hesitava em criar embaraços para os que a amavam. No entanto ela era...
- O quê? - Intrigada, Gina se inclinou para junto dele. - Vamos, termine.
- Digna de pena. - respondeu Potter, em um tom que fez Gina acreditar que ele não queria dizer nem mais nem menos do que aquilo. - Havia algo de triste por baixo de toda aquela camada espessa de brilho. Seu corpo era a única coisa em si mesma que respeitava. Assim, ela o utilizava para dar prazer e causar dor.
- E ela o ofereceu para você?
- Naturalmente, e supôs que eu aceitaria o convite.
- E por que não aceitou?
- Já expliquei isso. Posso me estender mais e acrescentar que prefiro um tipo diferente de mulher para levar para a cama, e também que prefiro tomar minhas próprias iniciativas.
Havia outros motivos, mas ele preferiu guardá-los para si.
- Quer mais filé, tenente?
- Não, obrigada. - Gina olhou para baixo e notou que comera tudo, só faltara raspar os desenhos gravados no fundo do prato.
- Sobremesa?
- Não. - Ela detestava dispensar a sobremesa, mas já havia concedido coisas demais a si mesma. - Quero apenas ver a sua coleção.
- Então, vamos deixar o café e a sobremesa para mais tarde. - Ele se levantou, oferecendo-lhe a mão.
Gina simplesmente franziu os olhos ao ver aquilo e afastou a cadeira da mesa.
Deliciado, Potter fez um gesto em direção à porta, conduzindo-a de volta ao hall e subindo as escadas.
- É muita casa para um homem só.
- Você acha? Já eu sou da opinião que o seu apartamento é que é pequeno demais para uma mulher só. - Ao parar de repente no fim da escadaria, sorriu. - Gina, você já sabe que eu sou o dono do prédio em que mora. É claro que foi verificar isso assim que recebeu minha pequena lembrança.
- Devia mandar alguém até lá para fazer uma revisão nos encanamentos. - disse a ele. - Não consigo manter a água do chuveiro quente por mais de dez minutos.
- Vou providenciar isso. Mais um lance de escadas.
- Estou surpresa por ver que você não tem elevadores. - comentou ela, enquanto continuavam a subir.
- Mas eu tenho. Pelo fato de preferir as escadas, não significa que a minha equipe de empregados não possa ter escolha.
- E por falar em equipe de empregados, - continuou ela - ainda não vi nenhum empregado eletrônico na casa, nem um andróide.
- Tenho alguns. Mas prefiro pessoas em vez de máquinas, na maior parte do tempo. Chegamos.
Colocou a palma da mão em um scanner, digitou um código, e as portas duplas entalhadas se abriram. Um sensor fez as luzes se acenderem ao cruzarem o portal. O que quer que ela estivesse esperando, não era o que estava à sua frente.
Aquilo era um museu de armas: revólveres, facas, espadas, peças de arco e flecha. Armaduras diversas estavam expostas, desde alguma da era medieval até os recentes uniformes impenetráveis que eram de uso corrente nas forças armadas. Cabos de armas cromados, alguns com aço e outros com pedrarias, cintilavam por trás de portas de vidro, brilhando ao longo das paredes.
Se o resto da casa parecia ser um outro mundo, talvez mais civilizado do que o exterior lá fora, que ela conhecia, aquele aposento a remetia, com grande contraste, na direção oposta. Era uma celebração da violência.
- Por quê? - Foi tudo o que conseguiu dizer.
- É uma coisa que me interessa, estudar o que os seres humanos usaram para ferir e destruir outros seres humanos através da História. - Atravessou a sala, tocando uma bola dentada que vinha presa a uma corrente. - Cavaleiros anteriores ao período do Rei Arthur carregavam armas como esta em disputas e batalhas, há mais de mil anos. - Apertou uma série de botões em um armário envidraçado e tirou lá de dentro uma arma lisa que cabia na palma da mão, a ferramenta para matar, preferida das gangues de rua, durante a Revolta Urbana em princípios do Século XXI. - Temos aqui algo menos elaborado, mas igualmente letal. Um avanço sem progresso. - Colocou a arma de volta, fechou e trancou o armário. - Mas você está interessada em algo mais novo que o primeiro e mais antigo que o segundo. Você mencionou uma Smith & Wesson, modelo Dez.
Era uma sala terrível, foi o que Gina achou. Terrível e fascinante. Olhou para ele do outro lado do aposento, compreendendo que aquele tipo de violência elegante combinava com o dono, de modo perfeito.
- Você deve ter levado anos para reunir todas essas peças.
- Quinze. - confirmou ele, enquanto caminhava sobre o piso liso, sem carpete, até outra seção. - Quase dezesseis, na verdade. Adquiri meu primeiro revólver quando tinha dezenove anos. Comprei-o do homem que o estava apontando para a minha cabeça.
Ele franziu a testa. Não pretendia contar aquilo a ela.
- Pelo jeito, ele errou o tiro. - comentou Gina, enquanto se juntava a ele.
- Felizmente se distraiu com o chute que dei em sua genitália. A arma era uma Baretta nove milímetros semi-automática, que ele contrabandeara da Alemanha. E assim as Indústrias Potter nasceram, a partir do erro de julgamento de um ladrão. Aqui está a arma que interessa a você. - acrescentou, apontando com o dedo enquanto abria a porta de outro armário expositor, na parede. - Imagino que você vai querer pegar nela, para ver se foi disparada recentemente, analisá-la à procura de impressões digitais, e assim por diante.
Ela concordou lentamente, enquanto sua mente trabalhava. Apenas quatro pessoas sabiam que a arma do crime tinha sido deixada na cena do crime. Ela mesma, Neville, o comandante e o assassino. Ou Potter não era culpado ou era muito, muito esperto.
Ficou imaginando se ele poderia ser as duas coisas.
- Obrigada pela sua cooperação. - Pegou um saco para guardar provas na bolsa que trazia pendurada no ombro e esticou a mão para pegar a arma, que era idêntica à que já estava em posse da polícia. Levou apenas um segundo para reparar que não era a mesma que Potter havia apontado.
Seus olhos se viraram para ele e o encararam. Ah, ele estava observando-a, sem dúvida, cuidadosamente. Embora ela deixasse a mão vagar hesitante diante da seleção de armas, ela sabia que eles tinham se compreendido.
- Qual é, mesmo? - perguntou ela.
- Esta. - Ele bateu no quadro bem abaixo da arma de calibre 38. Depois que ela já a tinha selado dentro do saco e colocado na bolsa, ele fechou a porta de vidro. - Não está carregada, é claro, mas eu tenho munição, se você quiser levar uma bala para amostra.
- Obrigada. Seu espírito de cooperação será ressaltado em meu relatório.
- Será mesmo? - Ele sorriu, pegando uma pequena caixa em uma gaveta e oferecendo-a a ela. - O que mais será ressaltado, tenente?
- Tudo o que for adequado. - Colocando a caixa da munição dentro da bolsa, também, pegou um notebook, teclou seu número de identificação, a data e a descrição de tudo o que estava levando. - Aqui está seu recibo. - disse-lhe, entregando-lhe um pedaço de papel que o notebook imprimira e liberara. - Este material lhe será devolvido o mais rápido possível, a não ser que seja analisado e considerado como prova. Você será notificado, de uma forma ou de outra.
Ele enfiou o papel no bolso, e mexeu com os dedos em mais alguma coisa que estava lá dentro.
- A sala de música é a nossa próxima parada. Podemos tomar café e conhaque lá.
- Provavelmente não temos um gosto em comum para música, Potter.
- Posso surpreendê-la, - murmurou ele - com relação às coisas que temos em comum. - Tocou-lhe o rosto de novo, desta vez deslizando os dedos em torno dele, até acariciar-lhe a nuca. - Ou com relação ao que vamos compartilhar.
Ela ficou rígida e levantou a mão para afastar o braço dele, mas ele simplesmente apertou os dedos em volta de seu pulso. Ela poderia tê-lo derrubado de costas no chão em um piscar de olhos, foi o que disse a si mesma. Apesar disso, deixou-se ficar ali, com a respiração suspensa e o pulso disparado.
Ele já não estava rindo.
- Você não é covarde, Gina. - Ele disse com suavidade quando seus lábios se colocaram a poucos centímetros dos dela. O beijo estava pairando no ar, apenas a um sopro de distância, até que a mão que ela levantara contra ele perdeu a força. E ela se inclinou em sua direção.
Gina não pensou. Se tivesse pensado, nem que fosse por um instante, saberia que estava quebrando todas as regras. Mas queria ver, precisava saber. Queria sentir.
A sua boca era macia de encontro à dela, mais persuasiva que possessiva. Seus lábios mordiscaram levemente os dela para abri-los, a fim de permitir a passagem da língua através deles, entre eles, e enevoar-lhe os sentidos com o seu sabor.
Um calor começou a se concentrar em seus pulmões como uma bola de fogo, antes mesmo que ele a tocasse com aquelas mãos destras que a moldaram, pousadas sobre o brim macio que envolvia os seus quadris, e deslizando sedutoramente por baixo do suéter para alcançar a pele.
Com a sensação deliciosa de chegar à beira do abismo, ela sentiu que estava ficando úmida.
Era a boca de Gina, aquela boca generosa e tentadora que ele pensou que quisesse. No momento, porém, em que a provara, compreendeu que desejava tudo nela.
Gina estava grudada nele; aquele corpo firme e anguloso começou a vibrar. Seu seio pequeno e firme estava gloriosamente envolvido pela mão dele. Ele parecia ouvir o zumbido de paixão que vinha do fundo de sua garganta e o saboreava, enquanto os lábios dela se moviam ardentemente sobre os dele.
Ele queria jogar para o alto toda a paciência e o controle que ensinara a si próprio como forma de vida, e simplesmente devastar.
Ali. A violência de suas necessidades pareceu entrar em erupção dentro dele. Ali e naquele instante.
Ele a teria puxado para o chão naquela hora, se ela não tivesse de repente lutado contra aquilo e se afastado, pálida e ofegante.
- Isso não vai acontecer.
- Ao diabo que não vai. - replicou ele, de volta.
O perigo estava tremulando em volta dele naquele instante. Ela viu isto tão claramente quanto os instrumentos de violência e morte que os rodeavam. Havia homens que sabiam negociar, quando queriam algo. E havia outros que simplesmente tomavam posse.
- A alguns de nós não é permitido se entregar por completo.
- Danem-se as regras, Gina.
Ele deu um passo na direção dela. Se Gina tivesse recuado, ele a teria perseguido, como qualquer caçador atrás da presa. Mas ela resolveu encará-lo com firmeza, e balançou a cabeça.
- Não posso comprometer a investigação de um crime por estar atraída fisicamente por um suspeito.
- Mas que droga, eu não a matei!
Foi um choque ver o controle dele desaparecer. Ouvir a fúria e a frustração em sua voz, testemunhar essa raiva passar vividamente pelo seu rosto. E era aterrorizante compreender que ela acreditava nele, sem ter certeza, sem estar completamente certa se acreditava porque precisava acreditar.
- Não é tão simples assim aceitar a sua palavra. Tenho um trabalho a fazer, uma responsabilidade com a vítima, com o sistema. Tenho que me manter objetiva, e eu...
Não posso, ela compreendeu. Não consigo.
Eles continuaram a se olhar fixamente, e de repente o comunicador em sua bolsa começou a tocar.
As mãos dela não estavam completamente firmes quando ela se virou de costas e pegou o pequeno aparelho. Reconhecendo o código do Departamento de Polícia no display, digitou sua identificação. Depois de inspirar profundamente, respondeu ao chamado para ter sua voz reconhecida.
- Weasley, Tenente Gina. Sem som, por favor, apenas imagem.
Potter só estava conseguindo vê-la de perfil, enquanto ela lia a transmissão. Foi o suficiente, porém, para avaliar a mudança brusca em seus olhos, a forma com que se tornaram sombrios, e a seguir voltaram a ficar neutros e frios.
Ela desligou o comunicador, e ao se virar para ele havia muito pouco da mulher que acabara de vibrar em seus braços.
- Tenho que ir. Vamos manter contato a respeito de seus pertences.
- Você faz isso muito bem. - murmurou Potter. - Veste a sua pele de tira com muita rapidez, e ela encaixa certinho em você.
- É melhor assim. Não se dê ao trabalho de me acompanhar. Encontro a saída.
- Gina.
Ela parou na porta e olhou para trás. Ali estava ele, uma figura vestida de preto e rodeada por séculos de violência. Dentro da pele da policial, o seu coração de mulher estremeceu.
- Nós nos veremos novamente. - afirmou ele.
- Pode contar que sim. - concordou ela.
Ele a deixou ir, sabendo que Moody iria se materializar por trás de alguma sombra para devolver o casaco de couro e lhe desejar uma boa noite. Sozinho, Harry pegou no bolso o pequeno botão revestido com tecido cinza que encontrara no chão da limusine. O mesmo botão que se despregara do paletó daquele horrível conjunto cinza que ela usara na primeira vez em que ele a vira. Estudando-o com atenção, e sabendo que não tinha nenhuma intenção de devolvê-lo, sentiu-se tolo.
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