CAPÍTULO QUATRO
Gina estava se sentindo mais do que exausta quando acabou de preparar o relatório para Lupin e voltou para casa. Estava furiosa. Queria muito ter conseguido pegar Potter de surpresa com o trunfo de já saber que ele era o dono do Gorham. O fato de ter sido ele a comentar isso com aquele tom cuidadosamente educado que usara para lhe oferecer café tinha feito a primeira entrevista entre eles terminar com vantagem para ele.
Ela não gostou do placar.
Estava na hora de empatar o jogo. Sozinha na sala de estar, e tecnicamente fora do horário de serviço, ela se sentou diante do computador.
- Conexão para Weasley, acesso a Código Cinco, senha 53478Q. Abrir o arquivo DeBlass.
- Pesquisa de voz e senha reconhecidas, Weasley. Pode prosseguir.
- Abra o sub-arquivo Potter. Suspeito Potter, conhecido da vítima. De acordo com a fonte C, Sebastian, a vítima alimentava desejos pelo suspeito. O suspeito atingia as suas exigências para parceiro sexual. Possibilidade de envolvimento emocional elevada. Oportunidade para cometer o crime... - continuou. - O suspeito é proprietário do prédio onde fica o apartamento da vítima, o que lhe fornece acesso e provavelmente conhecimento da estrutura de segurança no local do crime. O suspeito não apresentou álibi para um período de oito horas na noite do assassinato, período que inclui o intervalo de tempo necessário para apagar os discos com as imagens da segurança. O suspeito possui uma grande coleção de armas antigas, incluindo a que foi utilizada para matar a vítima. O suspeito admite ser um exímio atirador. Fatores da personalidade do suspeito. - disse em seguida. - Ele é altivo, arredio, confiante, auto-indulgente e muito inteligente. Possui um interessante equilíbrio entre agressividade e charme. Motivo...
E aqui, ela esbarrou em um problema. Com ar calculista, levantou-se e deu uma volta pela sala enquanto o computador aguardava por mais dados. Por que motivo um homem como Potter mataria alguém? Por lucro, em um ato passional? Ela achava que não. Riqueza e status ele conseguiria obter por outros meios. Mulheres, para sexo ou o que quer que fosse, também poderia conseguir sem esforço. Gina suspeitava que ele fosse capaz de atos violentos, e que os executaria de modo frio.
O assassinato de Sharon DeBlass tinha sido carregado de sexo. Havia uma camada de crueldade em torno dele. Gina não conseguia associar isso com o homem elegante com quem compartilhara o café.
Talvez estivesse aí a questão.
- O suspeito considera a moralidade uma questão mais pessoal do que legislativa. - ela continuou, ainda caminhando pela sala. - Sexo, restrição ao porte de armas, drogas, restrições ao uso de tabaco e bebidas, assassinato, tudo isso tem a ver com posturas morais que foram consideradas criminais ou regulamentadas. O assassinato de uma acompanhante licenciada, filha única de amigos, única neta de um dos mais conservadores e atuantes legisladores do país, um assassinato cometido por uma arma banida da sociedade. Será isso um exemplo elaborado das falhas que o suspeito considera inerentes ao sistema legal estabelecido? Motivo... - ela concluiu, acomodando-se na cadeira novamente. - Auto-indulgência. - Deu um profundo e satisfeito suspiro. - Favor computar a probabilidade.
O sistema fez um ruído agudo, de algo girando velozmente, fazendo-a lembrar que aquela era uma das coisas em sua casa que precisavam de reposição. Finalmente, o ruído se transformou em um zumbido estremecido.
- Probabilidade de Potter ser o autor do crime, considerando os dados e as suposições apresentados: 82,6%.
Ora, então era possível, pensou Gina, recostando-se na cadeira. Houve um tempo, em um passado nem tão distante, em que uma criança poderia ser alvejada por outra criança com uma arma de fogo por causa dos tênis novos.
O que era isso, senão uma forma obscena de auto-indulgência?
Ele teve a oportunidade. Tinha os meios. E, se sua arrogância era para ser levada em consideração, tinha o motivo.
Então por que razão, meditou Gina enquanto observava as próprias palavras piscando no monitor e estudava a análise impessoal do computador, ela não estava conseguindo fazer toda aquela história funcionar dentro da sua cabeça?
Simplesmente não conseguia ver o fato acontecer, admitiu. Não conseguia visualizar Potter em pé, atrás da câmera, apontando a arma para a mulher indefesa, nua, sorridente, e cravando uma bala dentro dela, talvez poucos momentos depois de ter colocado a si próprio dentro dela.
Mesmo assim, certas coisas não podiam ser desprezadas. Se ela conseguisse reunir fatos em número suficiente, poderia conseguir uma permissão para promover uma avaliação psiquiátrica dele.
Não seria interessante? Pensou, quase sorrindo. Viajar por dentro da cabeça de Potter seria uma jornada fascinante.
Ela daria o próximo passo às sete horas da noite seguinte.
A campainha da porta trouxe um franzir de aborrecimento aos seus olhos.
- Arquivar e desligar por comando de voz, Weasley. Código Cinco. Desconectar.
O monitor apagou com um blip curto enquanto ela se levantava para ver quem viera interrompê-la. Uma olhada na tela de segurança apagou seu aborrecimento.
- Oi, Luna.
- Você se esqueceu, não foi? – Luna Lovegood irrompeu no apartamento, envolvida por um emaranhado de braceletes e uma nuvem de perfume. Seus cabelos estavam com um tom brilhante de prata naquela noite, um tom que certamente iria se modificar conforme o seu estado de espírito. Ela os atirou para trás, e os fios brilharam como estrelas pelas costas abaixo, até a altura da sua cintura, inacreditavelmente estreita.
- Não, não esqueci. - Gina fechou a porta e colocou todas as trancas. - Esqueci o quê mesmo?
- Jantar, dançar, badalar. - Com um suspiro pesado, Luna atirou seus quarenta e cinco quilos cobertos por uma roupa colante sobre o sofá, e olhou com desdém para o tailleur cinza de Gina. Você não pode sair vestida com isso.
Sentindo-se pobre e apagada, como era comum se sentir quando Luna estava por perto, Gina olhou para a própria roupa, concordando.
- Não, acho que não posso.
- Então, - Luna esticou um dos dedos pintados com esmalte cor de esmeralda - você se esqueceu.
Ela se esquecera, mas estava se lembrando naquele momento. Elas haviam feito planos de conhecer o novo clube noturno que Lun descobrira nas docas espaciais em New Jersey. Segundo Luna, os gatões ali viviam em estado de excitação constante. Algo a ver com sua forma física.
- Desculpe, Luna. Você está espetacular.
Era verdade, sem dúvida. Oito anos antes, quando Gina tinha levado Luna para a prisão por causa de um pequeno furto, ela já parecia ótima. Uma malandra de rua coberta de seda, com dedos ágeis e um sorriso brilhante.
Nos anos que se passaram, acabaram se tornando amigas. Para Gina, que podia contar nos dedos os amigos que não eram tiras, aquela era uma amizade preciosa.
- Você parece cansada - disse Luna, com um tom mais de acusação do que de pena - e está faltando um botão na sua roupa.
Os dedos de Gina voaram automaticamente para o paletó e sentiu as pontas soltas da linha.
- Droga! Eu sabia. - Desgostosa, tirou o paletó e o jogou longe. - Olhe, me desculpe. Eu esqueci, realmente. Estive com a cabeça cheia, hoje.
- Isso tem a ver com os motivos de você ter precisado do meu casacão preto?
- Tem, sim. Obrigada. Quebrou um galhão.
Luna se sentou por um minuto, tamborilando com as unhas verdes no braço do sofá.
- Assuntos da polícia. E eu toda crente, na esperança de que você tinha um encontro. Sabe Gina, você precisa começar a se encontrar com homens que não sejam criminosos.
- Eu me encontrei com aquele consultor de imagens que você me arrumou. Ele não era criminoso. Era apenas idiota.
- Você é que é muito exigente, e isso aconteceu há mais de seis meses.
Considerando-se que ele tentara fazer com que ela perdesse o emprego ao sugerir uma tatuagem labial, de graça, Gina achou que seis meses eram até pouco tempo, mas guardou a opinião para si mesma, e disse:
- Vou trocar de roupa.
- Já vi que você não está a fim de sair esta noite e ficar dançando e batendo a bunda com os garotos espaciais. - Luna se levantou de novo, e os compridos brincos de cristal que batiam nos ombros espargiram raios de luz. - Vá em frente e tire essa saia horrorosa. Vou pedir um pouco de comida chinesa.
Uma onda de alívio fez os ombros de Gina relaxarem. Por Luna, ela teria tolerado uma noite em um clube noturno apinhado e detestável, com música alta, pilotos calouros e técnicos espaciais sedentos de sexo se atirando em cima dela. A idéia de saborear comida chinesa em casa, com os pés para cima, era uma visão do paraíso.
- Você não se importa, Luna?
A amiga dispensou a idéia com um aceno, enquanto digitava no teclado do computador o nome do restaurante que queria, dizendo:
- Eu passo todas as minhas noites em um clube desses.
- Que trabalheira! - gritou Gina do quarto, já entrando no banheiro.
- Nem me conte. - Com a língua entre os dentes, Luna analisava o menu na tela. - Há alguns anos, eu saberia que essa história de cantar em troca de comida era a maior enganação, a maior furada em que eu poderia me meter. No final, estou trabalhando mais do que nunca, enganando os turistas. Você vai querer enroladinhos de ovo?
- Vou. Mas você não está pensando em desistir, está?
Luna ficou em silêncio por um instante, enquanto escolhia os pratos.
- Não. Sou ligada demais nos aplausos. - Sentindo-se generosa, pagou pelo jantar com o seu World Card. - E desde que renegociei o contrato com a boate, estou ganhando dez por cento do preço da entrada. Virei uma mulher de negócios, como qualquer pessoa normal.
- Não há nada de normal em você. - discordou Gina. E voltou, usando uma confortável calça jeans e uma camiseta do Departamento de Polícia de Nova York.
- É verdade. Ainda tem daquele vinho que eu trouxe da outra vez em que estive aqui?
- A segunda garrafa quase toda. - E por lhe parecer que aquela era a melhor idéia que surgira o dia inteiro, Gina se desviou em direção à cozinha para servir o vinho. - E você, continua saindo com o dentista?
- Não. - De modo preguiçoso, Luna foi até a unidade de lazer e a programou para música. - Aquilo estava ficando sério demais. Não me incomodo com o fato de ele ter se apaixonado pelos meus dentes, mas de repente ele estava a fim do pacote completo. Queria se casar.
- Que cretino!
- Não se pode confiar em ninguém. - concordou Luna. - E como andam as coisas na área de proteção à lei e à ordem?
- No momento, um pouco pesadas. - Olhou por sobre o vinho que estava servindo quando ouviu a campainha tocar. - Não pode ser o jantar, assim tão depressa. - Enquanto dizia isso, ouviu Luna caminhando alegremente, fazendo barulho no piso da sala com os sapatos de salto quinze. - Olhe quem é pelo monitor de segurança, Luna. - disse depressa, e já estava a meio caminho da entrada quando a amiga abriu a porta de uma vez só.
Teve apenas um momento para xingar e outro para tentar pegar a arma que na verdade não estava usando. Então, o riso de flerte agudo e rápido de Luna fez sua adrenalina disparar novamente.
Gina reconheceu o uniforme da companhia de entregas, e não viu mais nada, a não ser a cara de satisfação e um pouco de embaraço do jovem que entregava um pacote para Luna.
- Adoro presentes. - dizia ela, balançando as pestanas pintadas de prata em direção ao rapaz, que já recuava, envergonhado. - Você também veio de brinde?
- Deixe o garoto em paz. - Balançando a cabeça, Gina pegou o pacote das mãos de Luna e fechou a porta.
- Ah, eles são tão engraçadinhos nessa idade. - Jogou um beijo em direção ao monitor de segurança antes de se virar para Gina. - Nossa, por que você está tão nervosa hoje, Weasley?
- O caso em que estou trabalhando está me deixando abalada, eu acho. - Ela olhou o papel laminado dourado e o laço elaborado sobre o pacote que segurava, com mais suspeitas do que prazer. - Não tenho idéia de quem poderia estar me mandando um presente.
- Tem um cartão aí. - observou Luna secamente. - Você bem que poderia ler o que está escrito. Pode haver alguma pista.
- Agora veja quem é que é a engraçadinha. - Gina puxou o cartão do envelope dourado.
Harry Potter
Ao ler o nome por cima do ombro de Gina, Luna assobiou baixinho.
- Não pode ser o Harry Potter! O incrivelmente rico, maravilhosamente lindo de se olhar, o misterioso e sexy Potter, que possui aproximadamente vinte e oito por cento de tudo o que há no mundo e em seus satélites?
- Ele é o único que eu conheço. - Tudo o que Gina sentia era irritação.
- Você o conhece? - Luna revirou os olhos pintados com sombra verde. - Weasley, eu subestimei você de uma forma inaceitável. Conte-me tudo. Como, quando, por quê? Você já dormiu com ele? Diga-me que dormiu com ele e depois me descreva tudo nos mínimos detalhes.
- Temos um caso secreto e ardente há uns três anos, e nesse período eu tive um filho dele, que no momento está sendo criado em um lugar afastado, na superfície da Lua, por monges budistas. - Com as sobrancelhas franzidas, Gina sacudiu a caixa. - Controle-se, Luna! Isso tem a ver com um caso em que estou trabalhando e - acrescentou antes de dar à amiga a chance de abrir a boca - trata-se de um assunto confidencial.
Luna não se deu ao trabalho de revirar os olhos de novo. Quando Gina falava a palavra confidencial, não havia lisonja que resolvesse, e não adiantava implorar nem choramingar, que ela não cederia um centímetro.
- Tudo bem, mas pelo menos me conte se ele parece tão bonito pessoalmente quanto nas fotos.
- Mais bonito. - balbuciou Gina.
- Meu Deus, sério? - Luna gemeu e se deixou cair sobre o sofá. - Ai, acho que acabei de ter um orgasmo!
- Bem, você deve saber. - Gina colocou a caixa sobre a mesa e ficou olhando de cara feia. - Como é que ele sabe onde é que eu moro? Você não pode pegar o endereço de uma policial no catálogo. Como foi que ele descobriu? - repetiu baixinho. - E o que está planejando?
- Pelo amor de Deus, Weasley, abra logo. Ele provavelmente simpatizou com você. Alguns homens acham que as mulheres frias, desinteressadas e reticentes são as mais atraentes. Faz com que pensem que elas são profundas. Aposto que são diamantes. - disse Luna, batendo com o dedo na caixa, a paciência por um fio. - Uma gargantilha. Uma gargantilha de diamantes. Talvez rubis. Você ia ficar sensacional usando rubis.
E rasgou o papel caríssimo sem dó nem piedade, atirando longe a tampa da caixa e enfiando a mão dentro da embalagem com borda dourada.
- Mas que diabo é isso?
Gina já havia sentido o aroma e, sem conseguir evitar, começou a sorrir.
- É café. - explicou ela, em um murmúrio, sem notar a forma como sua voz se tornou mais macia enquanto esticava o braço para pegar o saco marrom que Luna segurava.
- Café!? - Com as ilusões despedaçadas, Luna ficou com o olhar parado. - O sujeito tem mais dinheiro do que Deus e lhe manda de presente um saco de café?
- É café de verdade.
- Ah, bom. - Desgostosa, Luna balançou a mão. - Olhe, não quero saber quanto custa um quilo dessa porcaria, Weasley. O que uma mulher quer é brilho.
- Não esta mulher aqui. - Gina levou o saco até perto do rosto e cheirou profundamente. - O filho da mãe sabia direitinho como poderia me impressionar. - Ela suspirou. - E de mais de uma maneira.
Gina se deleitou com uma xícara do líquido precioso logo na manhã seguinte. Nem mesmo o seu temperamental AutoChef conseguira estragar o sabor rico e denso. Foi dirigindo até o Departamento de Polícia, com o seu aquecedor enguiçado, sob um céu cheio de chuva misturada com neve, enfrentando um vento gelado que fazia a temperatura ficar a quinze graus abaixo de zero, e mesmo assim exibia um sorriso no rosto.
O sorriso ainda estava lá quando ela entrou no escritório e encontrou Neville esperando por ela.
- Ora, ora. - Ele a analisou. - O que tomou no café, parceira?
- Café. Simplesmente café. Tem alguma coisa para mim?
- Fiz uma pesquisa completa em Richard DeBlass, Elizabeth Barrister e o resto do clã. - Ele lhe entregou um disco marcado Código Cinco em grandes letras vermelhas. - Não há grandes surpresas. Não consegui nada de extraordinário em Rockman, também. Quando tinha vinte e poucos anos, ele pertencia a um grupo paramilitar denominado Rede de Segurança.
- Rede de Segurança. - repetiu Gina, com o cenho franzido.
- Você devia ter uns oito anos quando o grupo foi desmantelado, garota. - disse Neville com um riso forçado. - Mas deve ter ouvido falar dele nas aulas de História.
- Estou me lembrando vagamente. Não foi um daqueles grupos que surgiram quando estivemos em conflito com a China?
- Foi; e, se eles tivessem conseguido que as coisas corressem do jeito que queriam, a crise teria sido bem mais do que um conflito. Com um desentendimento causado pela posse de espaço internacional, a coisa poderia ter ficado feia. Mas os diplomatas conseguiram ganhar a guerra antes que eles a começassem de verdade. Poucos anos depois, a organização foi desmontada, embora ainda surjam boatos de vez em quando a respeito de uma facção da Rede de Segurança que continua agindo secretamente.
- Já ouvi falar deles. Ainda ouço, até hoje. Você acha que Rockman está envolvido com um grupo fanático e desarticulado como este?
- Acho que ele sabe onde pisa. - disse Neville, levando apenas um momento antes de balançar a cabeça. - Poder reflete poder, e isso DeBlass tem de sobra. Se acabar conseguindo chegar na Casa Branca, Rockman vai estar bem ao lado dele.
- Por favor. – Gina apertou a mão sobre o estômago. - Assim você vai me causar pesadelos.
- É um longo caminho, mas ele já está com bastante apoio para as próximas eleições. - Neville moveu os ombros.
- Rockman tem um álibi, de qualquer modo. Do próprio DeBlass. Os dois estavam em Washington. - Gina se sentou. - Tem mais alguma coisa?
- Sirius Black. Ele tem levado uma vida interessante, mas não apareceu nada de sombrio. Estou trabalhando nas anotações da vítima. Você sabe, às vezes se você não toma todo o cuidado na hora de adulterar arquivos, deixa pontas à mostra. A mim, parece que uma pessoa que acabou de matar uma mulher pode cometer um descuido desses.
- Então encontre essa ponta, Neville, puxe-a para fora e eu lhe compro uma caixa daquele uísque horroroso que você adora.
- Combinado. Ainda estou trabalhando em Potter. - acrescentou. - Ali está um homem que não é descuidado. Todas as vezes que eu acho que consegui ultrapassar uma barreira de segurança, dou de cara com outra. Quaisquer que sejam os dados a respeito dele, estão muito bem guardados.
- Continue tentando ultrapassar essas barreiras. Enquanto isso, eu vou cavando por baixo delas.
Quando Neville saiu, Gina se virou para o monitor. Não quis fazer a pesquisa na frente de Luna, e preferiu, nesse caso, usar o computador do escritório. A pergunta era simples.
Gina digitou o nome e o endereço de seu prédio. A seguir perguntou quem era o proprietário. E a resposta era simples: Potter.
A licença de Lola Starr para trabalhar com sexo tinha sido emitida há apenas três meses. Ela entrara com o pedido no dia do seu décimo oitavo aniversário, a data mais prematura que a lei permitia. Gostava de dizer aos amigos que até então havia sido apenas uma amadora.
Foi este o mesmo dia em que ela deixou sua casa em Toledo, e o mesmo dia em que trocou de nome, abandonando o antigo, Alice Williams. Tanto a velha casa quanto o antigo nome haviam sido muito maçantes para Lola.
Tinha um rosto bonito, de fada. Perturbara, implorara e choramingara até que seus pais concordaram em lhe dar um queixo mais afilado e um nariz arrebitado como presente, aos dezesseis anos.
Lola pretendia ter a aparência de um elfo muito sexy, e pensou ter conseguido.
Seus cabelos eram pretos como carvão, bem curtos, e com pontas audaciosas. Sua pele tinha a brancura do leite e era firme. Estava economizando dinheiro para ter a cor dos olhos alterada de castanho para verde-esmeralda, cor que imaginava que ia combinar melhor com a sua imagem. E tinha tido a sorte de ter nascido com um suculento corpinho que não precisava de mais nada, senão manutenção básica.
Sonhara em ser uma acompanhante autorizada por toda a vida. Outras garotas sonhavam em seguir carreiras em Direito ou Finanças, e estudavam muito para entrar na área médica ou na indústria. Lola, porém, sempre soube que havia nascido para o sexo.
Por que não ganhar a vida usando o que sabia fazer de melhor?
Queria ser rica, desejada e mimada. A parte do desejo ela achava fácil. Os homens, particularmente os mais velhos, estavam dispostos a pagar bem por alguém com os atributos de Lola. As despesas da sua profissão, porém, haviam se mostrado muito mais elevadas do que ela previra quando sonhava em seu lindo quarto, ainda em Toledo.
As taxas para conseguir a licença, os exames médicos regulares obrigatórios, o aluguel e o imposto sobre atividades pecaminosas devoravam todo o lucro. Depois de ter acabado de pagar pelo treinamento, sobrara-lhe apenas o suficiente para manter um pequeno conjugado com quitinete, nas imediações da Calçada das Prostitutas.
Mesmo assim, era melhor do que trabalhar nas ruas, como muitas ainda faziam. E Lola tinha planos para alcançar coisas maiores e melhores.
Um dia ela ainda iria morar em uma cobertura, e aceitar apenas a nata dos clientes. Seria levada para jantar e tomar vinho nos melhores restaurantes, e voaria para lugares exóticos para satisfazer à realeza e aos ricos.
Era boa o bastante no que fazia, e não pretendia ficar no pé da escada por muito tempo.
As gorjetas ajudavam. Uma profissional não deveria aceitar dinheiro extra ou bônus. Pelo menos, não tecnicamente. Mas todas faziam isso. Ela ainda era jovem o suficiente para aceitar os presentinhos que alguns dos clientes lhe ofereciam. Mas guardava o dinheiro religiosamente e sonhava com a cobertura.
Naquela noite ia receber um cliente novo, um homem que pedira especificamente para ser chamado de ”Papai”. Ela concordou e esperou até que todos os arranjos fossem feitos, antes de se permitir um sorriso afetado. O sujeito provavelmente estava achando que era o primeiro a querer que ela fosse a filhinha dele. O fato é que, naqueles poucos meses em que já estava trabalhando, a pedofilia começava rapidamente a se transformar na sua especialidade.
Assim, de forma adequada, ela se sentaria no colo dele e deixaria que ele a espancasse. Depois, ia ficar repetindo que precisava ser castigada. Na verdade, era mais ou menos como fazer uma brincadeira, e quase todos os homens eram bem delicados com ela.
Com tudo isso em mente, escolheu uma saia plissada curta e uma blusa branca, com gola colegial. Por baixo não usava mais nada, a não ser as meias brancas.
Raspara os pêlos pubianos, e era lisa e macia como uma menina de dez anos.
Depois de examinar o próprio reflexo, adicionou um pouco mais de cor nas bochechas e mais brilho nos lábios, fazendo um beicinho.
Ao ouvir a batida na porta, sorriu, e seu rosto ainda sem muita malícia lhe sorriu de volta do outro lado do espelho.
Ela ainda não tinha dinheiro para instalar uma câmera de segurança, e usou o olho mágico para avaliar o visitante.
Ele era bonito, o que a deixou satisfeita. E tinha idade suficiente para ser pai dela, o que o deixaria igualmente satisfeito.
Abriu a porta, e lançou um sorriso tímido e recatado, dizendo:
- Oi, papai.
Ele não queria perder tempo. Era a única coisa que tinha de pouco naquele momento. Sorriu para ela. Para uma prostituta, até que ela era uma gracinha. Quando a porta se fechou em suas costas, apalpou por baixo da saia dela, e ficou feliz ao ver que ela estava nua. As coisas seriam mais rápidas se ele ficasse logo excitado.
- Papai! - fazendo o papel dela, Lola soltou um gritinho entremeado de risos. - Isso é feio!
- Ouvi dizer que você se comportou mal. - Tirou o casaco e o colocou cuidadosamente de lado, enquanto ela fazia cara de zanga para ele. Embora ele fosse precavido e tivesse selado as mãos, não tocaria em nada no quarto, a não ser nela.
- Mas eu tenho sido uma boa menina, papai. Muito boa.
- Você tem se comportado muito mal, filhinha. - Colocando a mão no bolso, pegou uma pequena câmera de vídeo, que ligou e apontou na direção da estreita cama que ela havia enchido de travesseiros e bichos de pelúcia.
- Você vai tirar fotos?
- Isso mesmo.
Ela deveria avisar a ele que isso ia lhe custar um dinheiro extra, mas resolveu esperar até que tudo tivesse terminado. Os clientes não gostavam de ver suas fantasias interrompidas pela realidade. Ela aprendera isso no treinamento.
- Vá se deitar na cama.
- Sim, papai. - Ela se aninhou entre os travesseiros e os animais sorridentes.
- Ouvi dizer que você andou tocando em si mesma.
- Não, papai.
- Não é bonito contar mentiras para o papai. Vou ter que castigar você, mas depois vou dar um beijinho ali e tudo vai ficar bem. - Quando ela sorriu, ele caminhou em direção à cama. - Levante a saia, garotinha, e me mostre como foi que você tocou em si mesma.
Lola não ligava muito para essa parte. Gostava de ser tocada, mas o contato das próprias mãos a deixava pouco excitada. Mesmo assim, levantou a saia e se acariciou, mantendo os movimentos envergonhados e hesitantes, como imaginou que ele quisesse.
Aquilo o excitou, ver o deslizar de seus dedos miúdos. Afinal, era para aquilo que uma mulher era feita. Para se usar, e para usar os homens que a queriam.
- Como é a sensação?
- Macia. - murmurou ela. - Venha tocar, papai. Veja como é macia.
Ele colocou a mão sobre a dela e se sentiu enrijecer de modo satisfatório ao colocar um dos dedos dentro dela. Aquilo seria rápido, para ambos.
- Desabotoe a blusa. - ordenou ele, enquanto continuava a manipulá-la e ela abria a própria roupa, da gola para baixo. - Agora, vire-se.
Quando ela fez isso, ele levou a mão até a sua agitada região na parte de baixo do corpo, e deu tapinhas rápidos em suas nádegas que fizeram a carne macia ficar um pouco vermelha, enquanto ela gemia em resposta.
Não lhe importava se ele a estava machucando ou não. Ela se vendera para ele.
- Isso, boa menina... - Ele estava totalmente ereto agora, e começando a latejar.
Mesmo assim, seus movimentos eram cuidadosos e precisos enquanto tirava a roupa.
Nu, ele a colocou de pernas abertas e deixou suas mãos deslizarem por trás de suas costas e ir para a parte da frente, até poder apertar-lhe os seios. Tão nova, pensou, e se permitiu tremer com o prazer de uma carne que ainda precisava ser refinada.
- Papai agora vai lhe mostrar como faz para premiar as boas meninas.
Ele queria que ela o tomasse na boca, mas não podia se arriscar. O método de anticoncepção que o registro dela citava iria destruir o esperma vaginal, mas não o oral.
Em vez disso, ele se agarrou aos quadris dela, levando algum tempo para passar a mão por todo aquele corpo com carne jovem, enquanto se impulsionava para dentro dela.
Ele foi mais violento do que ambos esperavam. Após a primeira e violenta estocada, diminuiu o ritmo. Não queria machucá-la a ponto de fazê-la gritar. Embora, em um lugar como aquele, duvidava de que alguém fosse reparar, ou se importar.
Mesmo assim, ela ainda tinha pouca experiência, e era charmosamente ingênua.
Ele assumiu um ritmo mais lento, mais gentil, e descobriu que isso também lhe dava mais prazer.
Ela se movia bem, no ritmo dele, acompanhando-o. A não ser que ele estivesse muito enganado, nem todos aqueles gemidos e pequenos gritos eram simulados. Ele a sentiu ficar tensa e tremer por dentro. Sorriu então, satisfeito por ter sido capaz de levar uma prostituta a um clímax genuíno.
Fechou os olhos e se deixou transbordar dentro dela.
Ela suspirou e acariciou uma das almofadas. Tinha sido bom, melhor, muito melhor do que ela esperava. E achou que tinha conseguido um novo cliente regular.
- Fui uma boa menina, papai?
- Muito. Uma menina muito boa. Mas ainda não acabamos. Vire-se de novo.
Enquanto ela se girava na cama, ele se levantou e saiu do campo de alcance da câmera.
- Agora nós vamos assistir ao vídeo, papai?
Ele simplesmente balançou a cabeça para os lados. Lembrando-se do seu papel, ela fez um biquinho.
- Mas eu gosto de ver vídeos. Podemos assistir, e depois você pode me mostrar como ser uma boa menina novamente. - Ela sorriu para ele, na esperança de um extra. - Eu poderia tocar em você dessa vez. Gostaria de tocar em você.
Ele sorriu e pegou a SIG 210 com silenciador, no bolso do casaco. Viu quando ela piscou com curiosidade, enquanto ele apontava a arma.
- O que é isso? É de mentirinha, para eu brincar com ele?
Ele atirou primeiro na cabeça dela, a arma fazendo pouco mais do que um leve espocar enquanto ela era lançada para trás. Friamente, ele atirou de novo, no espaço entre os seios jovens e firmes, e por fim, com o silenciador já meio gasto, no seu púbis, macio e liso.
Desligando a câmera, arrumou o corpo dela com cuidado, entre os travesseiros empapados de sangue e os animais de pelúcia sorridentes e cheios de respingos, enquanto ela continuava com os olhos voltados para ele, arregalados de surpresa.
- Isso não era vida para uma mulher jovem. - disse-lhe com gentileza, e então voltou para a câmera, a fim de gravar a última cena.
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