CAPÍTULO 11
MUNDO TRAGICAMENTE PEQUENO
_Há cerca de quatro anos atrás, havia um oficial superior, o Coronel Adriano Sandoval, que retornara de uma comissão como adido militar na Embaixada do Brasil na Inglaterra, trazendo sua família, formada pela esposa, Marilise, e pela filha única de treze anos, Janine. Ele permaneceria como adido ao Comando da Brigada de Infantaria Paraquedista até o final do ano, quando seria promovido e assumiria o comando. Aos quarenta e oito anos de idade ele seria o mais jovem General-de-Brigada do Exército Brasileiro. Também, pudera. Medalha Marechal Hermes ouro, com três coroas, Segurança Presidencial, um comando importante, Ordem do Mérito Militar, Missões de Força de Paz, Medalha do Pacificador, Aditância em Embaixadas nos EUA, Austrália e Inglaterra, etc.
_???
_Condecorações militares, garotas. A Marechal Hermes, por exemplo, significa aplicação em estudos. Ouro, com três coroas, significa que ele foi primeiro colocado de turma na AMAN, na EsAO, Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e na EsCEME, Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Nós, Daniel e eu, éramos Segundos-Tenentes e havíamos feito a Área de Estágio da Brigada, a fim de nos brevetarmos como paraquedistas militares. Servíamos no Esquadrão de Cavalaria Paraquedista e foi lá que conhecemos o Coronel Sandoval, pois ele sempre estava auxiliando nas instruções.
_E qual era a aparência dele, como ele era? _ perguntou Milly.
_Era alto, tipo atlético, cabelos castanhos e olhos azuis. Um cara que faria muitas garotas com um terço da idade dele suspirarem. Naquele ano, estávamos planejando uma demonstração de salto a ser executada nas comemorações da Semana da Pátria, depois do desfile do dia sete de setembro. Haveria um salto enganchado com arremesso de precisão, onde deveríamos lançar um peso em um alvo no chão. Depois um salto livre, onde os paraquedistas formariam uma enorme estrela, vestidos com macacões de salto com as cores da Bandeira Nacional, verde, amarelo, azul e branco, antes de acionarem os paraquedas, aterrando nas proximidades do Monumento ao Expedicionário, no Aterro do Flamengo. Bem, foi aí que a coisa desandou.
_O que aconteceu? _ perguntou Blaise.
Daniel continuou a explicação de Marino.
_Eu e Marino havíamos acabado de saltar e atirar nossos pacotes nos alvos. Eu fiquei em primeiro e ele em segundo lugar. Logo depois, foi a vez da equipe de salto livre, comandada pelo Cel Sandoval. Eles saltaram, agruparam-se, formaram uma estrela perfeita e então separaram-se e acionaram os paraquedas.
_Foi aí que o velame do paraquedas principal dele encharutou, quer dizer, não se enfunou, permanecendo fechado. _ disse Marino.
_Todos já estavam com os paraquedas abertos e aí viram que o Cel Sandoval estava com problemas. _ continuou Daniel _ Mas ele sabia como proceder. Soltou o velame do paraquedas principal e acionou o reserva. Mas o reserva também não se abriu e ele continuou caindo como uma bomba até que, em uma medida heróica, ele rasgou a caixa do reserva e aí o velame se abriu, retardando a velocidade da queda, mas não o suficiente. Ele bateu no solo em altíssima velocidade. Janine, que estava na arquibancada, saltou por cima de todos e correu até onde ele caiu, desviando-se de todos os que queriam impedi-la. Na época ela já praticava vários esportes radicais e tinha um excelente condicionamento físico, além de ser perita em artes marciais, com vários prêmios em torneios. Nós estávamos ao lado do coronel quando ela chegou e parecia que ele estava resistindo apenas para aguardar a chegada dela, pois ele disse seis palavras e fechou os olhos, morrendo em seguida.
_Que palavras foram? _ perguntaram as bruxinhas.
_Ele disse a ela: “Eu amo vocês. Jamais se entreguem.” Ela não chorou nem gritou. _ disse Marino _ Em vez disso, apenas ficou ali quieta, com o olhar parado, em estado de choque. Eu e Daniel tomamos a iniciativa de carregá-la para dentro de uma ambulância, junto com os avós e nós mesmos dirigimos a viatura até o HCE, o Hospital Central do Exército. Providenciamos a internação dela e, algum tempo depois, a mãe dela, Sra. Marilise, chegou. Ela estava tomando as providências para a liberação do corpo do marido. Por uma questão de honra e solidariedade, permanecemos com a família durante todo o tempo, revezando-nos à cabeceira da garota. Ela ficou sem dormir, comer, se mover ou falar durante uns dois dias. Apenas permanecia com os olhos abertos, fixos em um ponto do apartamento, como se estivesse vendo alguém ou alguma coisa que a deixava mal.
_No terceiro dia, aconteceu uma coisa estranha. _ continuou Daniel _ Eu estava sentado à cabeceira de Janine, quando abri uma barra de chocolate. Ela então, pela primeira vez, mudou a direção do olhar e olhou para mim, dizendo apenas uma palavra: “Chocolate!” e estendeu o braço para pegar um pedaço. Dei parte da barra a ela, que comeu e então olhou para nós. Perguntou: “Ele morreu, não foi?” e nós respondemos afirmativamente. Foi só aí que ela caiu no choro, sendo abraçada pela mãe. Depois disso, fechou os olhos e dormiu, por mais dois dias seguidos.
_Acredito que deva ter sido um Dementador. _ disse Blaise.
_Aquelas criaturas horríveis que sugam a felicidade das pessoas e que podem arrancar a alma delas? _ perguntou Marino _ Mas trouxas não podem vê-los, foi o que os instrutores de Assuntos Bruxos nos disseram.
_Janine Sandoval nasceu trouxa mas é paranormal, nós soubemos. _ comentou Milly _ Por isso ela conseguia, desde a infância, enxergar criaturas mágicas. E o chocolate é uma coisa que faz o humor da gente melhorar, portanto afasta os dementadores. Embora trouxas não possam vê-los, podem sentir sua presença, como crises de depressão.
_Pois é, meninas. Eu havia comprado o chocolate porque estava meio para baixo naquele dia. E chocolate é uma coisa que anima todo mundo, não é? Creio que foi isso que a fez sair da crise. Depois disso teve alta e retornou para o PNR que ocupavam na Vila Militar, de onde mudou-se para o Rio Grande do Sul, para a estância dos avós, junto com sua mãe. Nunca mais chorou nem se entregou a qualquer tipo de tristeza, continuando a praticar esportes radicais e a malhar. Depois que ela se mudou, nunca mais a vimos nem soubemos dela, até agora. Então ela manifestou magia e é colega de vocês em Hogwarts?
_Sim, Daniel. _ disse Milly _ O que é um PNR?
_É uma casa ou apartamento funcional em uma vila militar, Milly, que o militar ocupa enquanto está servindo naquela guarnição. O nome é “Próprio Nacional Residencial” e são imóveis bastante bons. Marino ocupa um, lá em Brasília.
_Ela é uma garota e tanto. _ disse Blaise _ No início, não gostávamos dela, devido à tradicional rixa Grifinória/Sonserina, mas aprendemos a perceber o seu valor e seguimos vários dos seus conselhos. Voldemort mandou dois Death Eaters raptá-la, a fim de que ela fosse sacrificada em uma cerimônia para que ele obtivesse um objeto místico de grande poder. Soubemos que o intento do Lorde das Trevas foi frustrado pelo fato dela não ser mais virgem pois, por sorte, ela e Draco Malfoy conheceram-se nas últimas férias de verão e apaixonaram-se. Acabaram fazendo amor e ela perdeu a utilidade para Voldemort. Ouvi dizer que o louco ficou uma fera. Vamos vê-la novamente no início das aulas.
_Transmitam a ela um grande abraço. _ disse Marino _ Acredito que ela ainda deve lembrar-se de nós, embora as circunstâncias não tenham sido das melhores.
_Diremos isso a ela, com certeza. _ disse Milly _ Melhor ainda, não diremos nada e vocês poderão cumprimentá-la pessoalmente.
_Como assim? _ perguntou Daniel.
_Fazemos questão de ter vocês como nossos convidados na formatura, no próximo verão.
_Ficaríamos honrados e teríamos o maior prazer. _ disse Marino, com um sorriso _ Jamais estive na Inglaterra e gostaria muito de conhecer Hogwarts. Nosso instrutor de Assuntos Bruxos nos falou bastante de lá. Disse que o lugar é impressionante.
_E como! _ disse Blaise _ É uma propriedade enorme, com uma floresta, montanhas e um lago que, no inverno, congela e nos permite patinar. No verão nadamos e, às vezes, levamos alguns sustos com uma lula gigante que vive lá.
_Fora isso, ainda há o povoado de Hogsmeade. _ continuou Milly, com uma expressão sonhadora nos olhos azuis _ O único povoado inteiramente bruxo da Grã-Bretanha. Poucos trouxas já foram até lá, mas vocês podem, mesmo desacompanhados, pois têm acesso Nível 4. Garanto que adorariam o Três Vassouras, a Dervixes e Bangues e a Dedosdemel, a mais espetacular doceria que já conheci, mesmo para padrões bruxos.
Contem com a nossa presença, garotas. Quando chegar a época, mandem-nos uma coruja. _ disse Daniel, divertido.
_Parecem até bruxos falando. _ brincou Milly _ Só não se esqueçam de que o traje é a rigor.
Como Daniel e Marino tinham acesso Nível 4, as garotas podiam falar de assuntos bruxos com eles, sem restrição. Continuaram a conversar até que chegou a hora de se recolherem. Marino ficou cuidando de Blaise e Milly dormiu no bangalô de Daniel. Dedicar-se-iam, no dia seguinte, a preparar o equipamento e a bagagem para os dias que passariam em Fernando de Noronha, fechando com chave de ouro o período de férias no Brasil.
Blaise massageava as costas de Marino, retribuindo os carinhos que ele lhe fizera. O jovem relaxava sob a suave pressão dos dedos da garota, que subiam e desciam pelo seu dorso fazendo-o gemer, principalmente quando ela começou a beijá-lo e suas mãos desceram até o membro dele, ereto e firme. Outro beijo e ele ajustou a proteção, começando a penetrá-la com suavidade, um perfume evolando-se pelo ar, excitando-a cada vez mais. Após atingirem juntos um orgasmo arrebatador, Blaise disse:
_Aromatizados com menta? Golpe baixo, Marino. Você sabe como isso consegue me fazer sair do chão.
_Literalmente. _ disse Marino.
_Como assim? _ perguntou Blaise.
_Você está levitando. _ Blaise olhou para baixo e, suavemente, retornou para a cama.
_Mais uma emissão. _ disse ela _ Isso acontece quando o amor é verdadeiro.
_Teremos de tomar cuidado para não sairmos voando por aí. Seria difícil explicar. _ comentou Marino, sorrindo.
No bangalô de Daniel, ele e Milly também haviam acabado de experimentar um orgasmo simultâneo, depois ficando apenas a se olharem. De repente, ele arregalou os olhos.Milly estava brilhando, uma luminosidade rosa-clara envolvendo seu corpo, realçando os seus cabelos loiros e os olhos azuis. Ele sorriu e segurou as mãos dela, sentindo um formigamento em seus braços, causado pela energia liberada pela sonserina. Abraçaram-se e beijaram-se, a aura luminosa agora envolvendo a ambos. Quando ela se desvaneceu, Daniel disse:
_Jamais passei por uma experiência assim, Milly. Gostaria de também ser bruxo, para poder proporcionar uma emissão mágica que demonstrasse o quanto eu te amo.
_Você não precisa disso, Daniel, pois eu já sei. E também te amo demais. Te amo tanto que posso ter emissões mágicas involuntárias por nós dois. Nunca alguém fez com que eu me sentisse assim, exceto Blaise. Mas são maneiras diferentes de amar alguém.Saiba que meu coração pertence a vocês dois, Daniel Wiesenthal e Blaise Zabini. Não me sinto culpada, pois sei que é sincero.
_Só fico triste pelo fato de que as férias estão terminando e logo vocês terão de retornar para a Inglaterra. Ficarei com muitas saudades e acabarei por dar uma canseira nas corujas, de tantas cartas que vou mandar. Também me preocupo em como vocês vão dizer aos seus pais que romperam com as Trevas e estão namorando dois trouxas. Temo que isso possa colocá-las em posição desfavorável ou mesmo torná-las alvos para Voldemort e os seus Death Eaters.
_Não pense nisso agora, Daniel. Apenas faça amor comigo novamente, para que viajemos para um lugar onde não nos alcancem. _ e, acariciando o namorado onde ela sabia que ele mais se excitava, amaram-se com o mesmo ardor da primeira vez. Adormeceram abraçados. O dia seguinte seria de preparação para sua excursão a Fernando de Noronha.
CAPÍTULO 12
GOLFINHOS E TUBARÕES
O dia seguinte foi passado em torno da preparação para a semana que passariam em Fernando de Noronha. Verificaram equipamentos, carregaram os cilindros de ar, estudaram os locais, fazendo o planejamento dos mergulhos. As garotas mostravam-se bastante curiosas e, por que não dizer, ansiosas pelos dias em que conheceriam aquele paraíso, do qual somente haviam ouvido falar.
Com tudo pronto, dirigiram-se a Recife, utilizando a van do sempre solícito e prestativo guia Sérgio Alves, até o campo de pouso no qual o Beechcraft já os esperava.
_E aí, Marino, Daniel, tudo bem? Bom dia, garotas. Meu nome é Correa, André Correa. Esses caras me falaram de vocês, mas não me disseram que eram tão lindas.
_Muito obrigada, André. _ disse Blaise _ Um elogio é uma das melhores maneiras de se começar um dia.
_Não caiam na conversa desse esperto, garotas. _ disse Daniel _ Se ele cair em uma panela de água fervente, vira canja.
_Que injustiça, Daniel. _ respondeu André _ assim as garotas vão ficar com uma péssima impressão a meu respeito.
_Ainda assim a impressão será muito melhor do que a realidade, seu penoso! _ Marino observou, divertido. Todos riram com ele.
Carregaram o Beechcraft e embarcaram. Em menos de uma hora, estavam aterrissando em Fernando de Noronha e colocaram o material em um jipe, que já os esperava. Em seguida foram para a pousada. Instalaram-se e foram dar uma volta, para que as garotas conhecessem a ilha. Ficaram maravilhadas em saber que o turismo estava sendo manejado de forma a não prejudicar o meio ambiente. Ao final da tarde admiravam o pôr-do-sol, em um morro com vista para a praia. Retornaram à pousada e foram para seus quartos.
De manhã, carregaram o equipamento para o barco e dirigiram-se ao ponto de mergulho, nas proximidades de um recife rico em vida marinha, onde as garotas poderiam tirar excelentes fotos. O piloto permaneceu no barco, monitorando as condições do mar. Se elas mudassem ele mandaria um sinal para os quatro mergulhadores. As jovens sonserinas faziam dupla com seus respectivos namorados. Desceram, equalizando a pressão, até chegarem às proximidades do recife. Havia uma variedade de peixes multicoloridos, corais de formas variadas, arraias planando na água como se voassem, gordos pepinos-do-mar, gorgônias, lagostas, caranguejos, tartarugas, moréias e algo mais, que os quatro facilmente perceberam, pois a visibilidade estava de cerca de trinta metros.
Um tubarão cabeça-chata aproximava-se dos mergulhadores, com uma cara de quem havia encontrado a sua presa do dia. Daniel e Marino fizeram sinal para as garotas se afastarem e sacaram dois emissores de feixes de ultra-som de altíssima freqüência, a fim de desorientar o animal (pelo menos foi o que os criadores do aparelho lhes haviam dito). Prepararam-se para apertar o botão que acionava o aparelho, mas nem foi preciso. “De novo, não!”, pensou Blaise, sacando a varinha da bainha de antebraço e preparando-se para lançar uma Maldição Cruciatus e espantá-lo, como já fizera antes. Mas qual não foi a surpresa dos dois casais de mergulhadores quando o tubarão interrompeu sua trajetória de ataque e, mais do que depressa, deu meia-volta e saiu nadando para o mais longe possível da garota, com uma incrível velocidade.
Os tenentes arregalaram os olhos, espantados. Jamais haviam visto o feroz predador agir daquela forma. Milly e Blaise olharam uma para a outra e começaram a rir. Tiraram da boca os bocais dos respectivos segundos estágios e executaram Feitiços Cabeça-de-Bolha nelas mesmas e depois nos namorados. Assim poderiam conversar mesmo sob a água, embora a voz saísse um tanto abafada.
_Alguém, por favor, poderia me explicar o que acabou de acontecer por aqui? _ perguntou Marino, vendo as duas bruxinhas rirem a não mais poder.
_Digamos que aquele tubarão era uno vecchio conhecido que não estava a fim de repetir uma experiência desagradável. _ respondeu Blaise, às gargalhadas, contando aos dois como espantara, coincidentemente, aquele mesmo tubarão durante o mergulho de Check-Out. Os dois ouviram o relato e acabaram rindo junto com as bruxinhas. Depois que o Feitiço Cabeça-de-Bolha foi desfeito, todos recolocaram os bocais e, quando os manômetros mostravam 50 BAR, os quatro subiram de volta para o barco. Mais uma vez Milly havia fotografado as desventuras do grande peixe que, novamente, teria de ir para outro lugar se não quisesse ficar com fome.
Retornando para a ilha e para a pousada, notaram que cerca de vinte golfinhos acompanhavam o barco e que havia um certo padrão no canto deles. Curiosa com aquilo, Blaise aproveitou que o piloto do barco não estava olhando e resolveu arriscar um Feitiço de Idioma sem saber se daria certo, afinal de contas aquele feitiço jamais havia sido experimentado em animais, embora com o cérebro privilegiado daquela espécie... talvez desse certo.
_ “Vernaculum Delfinica”. _disse Blaise em voz baixa, apontando a varinha para si mesma e para Marino. Vendo aquilo, Milly fez a mesma coisa consigo mesma e com Daniel. Em seguida, pediram para que o piloto parasse o barco por algum tempo. O feitiço dera certo e eles conseguiram saber o que era aquele canto:
_“Como explicar o que ocorre
quando tal sentimento nos atinge?
Não importa por que ou por quem,
Tudo o mais fica pequeno.
Sentes que o Universo te pertence
E que queres com alguém dividi-lo.
És senhor e servo, vencedor e vencido.
Fogo e gelo estão juntos dentro de ti
E isto te faz contente e completo.
Sois homem ou sois mulher, é irrelevante
Pois, por dentro, sois somente metade
Que só se torna um quando a outra encontrar.
Anjos de uma só asa, que se unem para que possam voar
Atingindo as alturas, sem conhecerem limites
Um todo em duas partes dividido
Que leva a vida a buscar ser unido.
Oh, humano poder, desconhecido e misterioso
Que provoca as guerras e promove a paz
Igual às divindades te tornas
E, ao mesmo tempo,és o menor dos seres.
Os poetas já cantaram e os sábios já estudaram
E a nenhuma conclusão chegaram.
Só se sabe que é bom sentir e dizer
Que tal magia habita dentro de ti.
Não te importas em sofrer quando ela te causa dor
Pois maior do que tudo é o verdadeiro amor.”
O Feitiço de Idioma se desfez automaticamente, para admiração das bruxinhas e dos tenentes. A Humanidade ainda não estava preparada para saber o que tinham a dizer os golfinhos. Um deles chegou bem perto de Blaise, que estava debruçada na amurada do barco e piscou para ela e Marino. Em seguida, deu um salto e juntou-se aos outros, afastando-se. A jovem sonserina jamais saberia que aquele canto havia sido o mesmo entoado pelos extraordinários mamíferos aquáticos quando da primeira vez em que o casal se amara. Lágrimas de emoção correram pelos rostos dos quatro.
De volta à pousada, no final da tarde, os mergulhadores já haviam tomado banho e aguardavam a hora do jantar. Blaise observava Marino esmagar alguns limões com açúcar em um copo , acrescentando um líquido transparente e algumas pedras de gelo. Em seguida, sacudiu a mistura em uma coqueteleira e a dividiu em quatro copos, servindo o grupo.
_Marino, o mestre dos coquetéis e sua super caipirinha. _ comentou Daniel, divertido.
_Caipirinha? _ perguntaram as garotas.
_Ah, é. Vocês ainda não conhecem o coquetel-símbolo do Brasil. Limões socados com açúcar em um pequeno pilão, acrescenta-se aguardente e gelo e aí está. Pode ser feita com cachaça, vodka ou rum. _ Marino explicou _ Nesse último caso o nome passa a ser “Margarita” e o copo deve ter as bordas umedecidas e passadas em sal, sendo mais comum em Cuba. Esta é de cachaça. Vamos ver se ficou boa embora, modéstia à parte, não possa ter ficado de outra maneira. _ Lavou as mãos, para remover os vestígios de caldo de limão e serviu as bebidas.
_Convencido. _ brincou Blaise e os quatro experimentaram a caipirinha, que estava excelente.
_Sempre se deve lavar as mãos após manipular limões. Se permanece algum vestígio de caldo ou sumo ele reage com a luz, manchando a pele. É chamado “Fitofotodermatose”, um médico do Hospital das Forças Armadas, lá em Brasília, me explicou. _ disse Marino _ O que acharam, garotas?
_Forte, mas gostosa. _ disse Milly _ o limão e o açúcar atenuam a potência alcoólica da cachaça. Creio que ficaria ao gosto dos bruxos, pois gostamos de bebidas mais doces e de teor alcoólico de baixo a médio, tipo a cerveja amanteigada, a água de gilly e outras, embora hajam exceções. O uísque de fogo, por exemplo, é bastante forte, fazendo justiça ao seu nome.
Marino então verteu um dedo de cachaça em um pequeno copo e levou para as garotas experimentarem e formarem sua opinião sobre a aguardente pura. Cautelosamente, cada uma tomou um pequeno gole:
_Fogo líquido. _ disse Milly.
_O uísque de fogo perdeu longe. _ disse Blaise, de repente lembrando-se de Pansy Parkinson e começando a rir.
_O que foi? _ perguntaram os outros.
_Me lembrei de um episódio, ocorrido no ano passado, que envolvia cachaça. Aliás, Janine participou dele.
_Como foi? _ perguntaram os rapazes.
_Pansy Parkinson, nossa colega da Sonserina, era apaixonada por Draco Malfoy desde criança, mas não era recíproco. Quando ela descobriu que ele e Janine estavam namorando, os dois tiveram uma tremenda discussão na Sala Comunal da Casa, assistida por quase todos os colegas, inclusive por nós, onde ela acabou tomando um banho de uma nuvem de chuva, conjurada por Draco. Depois, no Três Vassouras, entrou em um episódio de depressão, caindo de boca em chocolates e cerveja amanteigada. Janine trouxe-a de volta à razão, de um modo bem drástico. Pansy me contou que ela disse, exatamente, assim: “Aah, larga mão de ser fiasquenta, guria. Só o que tu vais conseguir com cerveja amanteigada e se empanturrando de chocolates vai ser uma indigestão e quilos a mais na balança. Queres te entchuquetar, te embriagar de verdade? Toma isto aqui: ‘Acqua non per Avis’!” e conjurou uma dose de cachaça. Pansy tomou um gole, cuspiu metade fora e perdeu totalmente a vontade de tomar um pileque. Hoje as duas são grandes amigas e Pansy está noiva de Fabian Sheldrake, que é locutor esportivo na Rede Radiofônica dos Bruxos, narrando e comentando partidas de Quadribol.
_Nunca me lembrei de perguntar, mas vocês jogam Quadribol lá em Hogwarts? _ perguntou Daniel _ Há algum campeonato entre as Casas?
_Sim, meu amor. _ respondeu Milly _ E, inclusive, eu e Blaise fazemos parte da equipe da Sonserina, eu como Artilheira e ela como Goleira.
_Queria poder vê-las jogando, algum dia. _ disse Daniel, mentalmente formando a imagem das duas garotas em uniformes de Quadribol e montadas em vassouras _ Mas, voltando à cachaça, nem todas são de boa qualidade. O controle agora é bastante rigoroso, principalmente para as que são exportadas, sejam as novas ou envelhecidas. Essas últimas não são incolores, mas amareladas, devido à madeira dos tonéis nos quais envelhecem. Isso as suaviza um pouco.
_Você entende da coisa, hein, Daniel?! _ comentaram os outros.
_Mais ou menos, gente. Entre os meus projetos para o futuro (e piscou para Milly) há um que já está em andamento. Sou proprietário de um alambique, no litoral Sul do Rio de Janeiro, perto de Paraty e destilo uma cachaça que, modéstia à parte, é bastante apreciada. O negócio está em nome de uma prima, pois militares não podem, por força do regulamento, serem proprietários de estabelecimentos comerciais ou empresas. Ela administra o local e me mantém informado de como estão as coisas. Nossa produção é pequena, mas de alto nível e boa parte dela é exportada.
_Já ouvi falar de Paraty, Daniel. _ disse Blaise _ Gostaria de conhecer o lugar, talvez depois de formada.
_Seria muito legal. _ disse Milly _ Principalmente se pudermos contar com a companhia de vocês.
_Contem conosco sempre, garotas. _ disseram Marino e Daniel.
Já estava ficando tarde e os casais recolheram-se aos seus quartos. No dia seguinte mergulhariam em outro ponto pela manhã e tirariam a tarde para surfar.
No quarto,deitada na cama e abraçada a Marino, Blaise disse:
_Que pena que as férias estão terminando e logo deveremos retornar para a Inglaterra, meu amor. Jamais pensei que passaria semanas tão maravilhosas nem que o mundo dos trouxas fosse assim tão bom.
_Falando assim até parece que vocês foram criadas dentro de uma redoma de vidro, sem contato com o mundo exterior.
_Com grande parte dos bruxos, principalmente os de sangue puro e, entre eles, os partidários das Trevas é assim. Vivem à parte, achando que a cultura trouxa é algo decadente por não depender da magia, considerando os trouxas como crianças ignorantes quando, na verdade, eles é que são os ignorantes por não saberem ou não se importarem em saber dos avanços da sociedade não-mágica, permanecendo parados no tempo, recusando-se a reconhecer que o convívio é inevitável e a harmonia com os trouxas um objetivo a ser alcançado... tenho até vergonha de dizer que, até há pouco tempo atrás, eu mesma pensava assim. Ainda bem que minha mente se abriu e, devo dizer, você foi um dos maiores responsáveis por isso. _ e beijou Marino, apaixonadamente.
_Fico muito contente por saber disso, Blaise. Quando comecei a tomar conhecimento do mundo bruxo, sempre procurei pautar meus atos por uma linha de respeito e convivência harmoniosa e, agora que te conheci, mais do que nunca eu pretendo lutar pela harmonia entre bruxos e trouxas.
_Nem que seja para mostrar a muitos deles que as pessoas já não se vestem mais como na Era Vitoriana. Ainda hoje há muitos que usam vestes que parecem saídas do final do Século XIX. Os que pensam se vestir de forma mais moderna, parecem saídos daquela comédia de espionagem, “Austin Powers”, como se ainda estivessem na Carnaby Street dos anos 60.
_Aqui no Brasil já não é assim. Nosso clima obrigou os bruxos a se adaptarem, principalmente nos trajes. Atualmente é praticamente impossível distinguir um trouxa de um bruxo brasileiro pelas suas roupas trouxas. E mesmo as vestes bruxas são bem leves. Só lá no Sul que eles usam trajes mais pesados no inverno.
_Te amo, Marino. E você é o primeiro homem para quem eu digo isso. _ Blaise beijou Marino, novamente, acariciando sua nuca e, em seguida, descendo suas mãos para o peito largo do namorado, sentindo a pele dele se arrepiar ao contato de seus dedos. Logo os dois estavam, uma vez mais, unidos como se partilhassem de um único corpo, Marino penetrando-a e ambos viajando para uma dimensão de puro prazer, na qual todos os problemas, mesmo a guerra contra Voldemort e as suas hordas de bruxos das Trevas deixava de ter importância.
Em outro quarto da pousada, Milly e Daniel haviam, novamente, se amado e agora estavam deitados, ela descansando a cabeça no peito dele, seus cabelos loiros displicentemente espalhados, emoldurando o seu rosto.
_Então, Daniel, você não se importa? Não sente nem mesmo uma pontinha de ciúmes do meu relacionamento com Blaise?
_Nem um pouco, Milly. Já lhe disse que te amar é um prazer e uma honra, não importando se você é bruxa ou trouxa, tampouco sua orientação sexual. Lembro-me de que você mesma deixou claro que são maneiras diferentes de amar alguém e vocês duas se amam desde que eram crianças. O verdadeiro amor é, em sua maior parte, espiritual como descobrimos e tivemos a confirmação, depois de ouvirmos aquela canção dos golfinhos. Só me importa saber que nossas almas se tocaram e se harmonizaram. Acredito que, no dia em que a Humanidade, tanto bruxa quanto trouxa, descobrir essa dimensão tão transcendental do amor os preconceitos cairão por terra, a Ordem das Trevas perceberá o quanto é sem sentido essa busca de poder e supremacia sobre o lado da Luz e mais um grande passo na direção da harmonia entre bruxos e trouxas será dado. Posso estar até falando besteira mas acho que, um dia, até mesmo um ser maligno como Voldemort terá de render-se ao peso da verdade.
_Do modo com que você fala, Daniel, eu acredito que a paz será possível. Seu jeito de falar e as palavras que você usa lembram bastante o nosso Diretor, Alvo Dumbledore.
_Já ouvi falar dele. Todos os que têm acesso ao mundo bruxo já ouviram falar. Presidente da Suprema Corte dos Bruxos e da Confederação Internacional dos Bruxos, Ordem de Merlin Primeira Classe, Diretor de Hogwarts e... um grande jogador de boliche e apreciador de doces trouxas. _ os dois riram juntos _ Mal posso esperar para que chegue o próximo verão e, na sua formatura, eu possa conhecê-lo pessoalmente.
_Você vai gostar dele. Ele tem uma grande afeição pelos trouxas, algo que eu também aprendi a ter. Você pode não acreditar, Daniel mas, nem sempre eu fui assim. Antes eu era tão preconceituosa, tinha aquele orgulho besta de “sangue-puro” e desprezava os trouxas. Por Merlin, quanto tempo da minha vida eu desperdicei! Deixei de viver, de sorrir, de me divertir como uma adolescente normal. Eu cheguei até mesmo a achar que Voldemort estava certo e a considerar uma honra me juntar a ele, no futuro. Receberia aquela horrível Marca Negra no antebraço e ficaria, para o resto da vida, à mercê daquele monstro. Eu e Blaise seguiríamos os passos dos nossos pais e nos tornaríamos bruxas das Trevas, Death Eaters. Não teríamos a oportunidade de conhecer o verdadeiro mundo dos trouxas, nem de conhecer vocês e nos apaixonarmos. Seríamos apenas duas bruxas bissexuais, predominantemente lésbicas, que acreditariam serem más por natureza e que teriam orgulho disso, como se fosse uma g-grande c-coisa... _ e começou a chorar, abraçada a Daniel, as lágrimas rolando livremente dos seus olhos azuis e, a cada uma delas que a loira vertia, o coração ficava mais leve e ela ia ficando mais aliviada, como se confessasse um grave pecado, como se expiasse uma culpa que a afligia. Daniel abraçou a sonserina com mais força e disse:
_Não precisa chorar, Milly. Vocês conseguiram acordar a tempo e trilhar o caminho certo. Eu fico orgulhoso de que eu e Marino tenhamos feito parte desse processo. Eu te amo e nunca vou te abandonar. O amor que temos um pelo outro e que você e Blaise têm entre si é a maior arma contra quaisquer ameaças das Trevas. Somente unidos teremos chance de vencer, creio que é o que Dumbledore diria.
_Pode ter certeza disso. _ disse Milly, enxugando as lágrimas e beijando Daniel, apaixonadamente. De alma leve após aquele desabafo, a jovem sonserina aninhou-se nos braços do namorado e dormiu, com uma expressão inocente no rosto, que a deixava parecida com uma criança.
Depois de uma semana de amor, diversão, mergulhos, surf, trilhas e outras atividades, com muitas fotos, havia chegado a hora de retornarem para o Resort. Dali a dois dias as bruxinhas teriam de se deslocar para Recife, a fim de embarcarem de volta para Londres, pois as férias, as suas Férias Secretas estavam chegando ao fim. Carregaram com suas bagagens o Beechcraft de André Correa e embarcaram, de volta para o continente.
No bangalô, Milly e Blaise olharam para as roupas espalhadas e meio bagunçadas e olharam uma para a outra, sem nenhuma dúvida sobre o que teriam de fazer.
_ “Fazer Malas”! _ em um instante as roupas estavam devidamente dobradas e, junto com os acessórios das garotas estavam devidamente guardados nas malas Louis Vuitton.
_Eu adoro magia. _ disse Milly, sorrindo. Blaise sorriu de volta e beijou a namorada. O carregador logo chegou e levou as malas para o saguão, embarcando-as na van de Sérgio Alves. Fecharam a conta e, acompanhadas por Marino e Daniel, entraram e puseram-se a caminho do Aeroporto de Guararapes. No caminho, pararam no Atelier de um tatuador e os quatro mandaram que fossem tatuados os Kanji do Amor e da Amizade. Daniel os recebeu na espádua direita, Marino na esquerda e as bruxinhas na base do pescoço. Depois disso, embarcaram novamente na van e foram para o aeroporto.