CAPÍTULO 5
BRASIL, ESTAMOS CHEGANDO!
No Aeroporto de Heathrow, vários olhares masculinos dirigiam-se às duas jovens que, após realizarem o Check-In, tiveram conferidos seus passaportes diplomáticos e foram conduzidas à Sala VIP. Uma delas, esbelta e de cabelos escuros, usava um vestido colante cinza-prata, inconfundivelmente Dior, que realçava suas formas elegantes. Os sapatos e a bolsa Gucci, mais os óculos Dolce e Gabanna completavam o conjunto. Ao seu lado uma outra jovem, esta loira e mais robusta, porém não gorda e sim tendendo mais para o porte atlético, despertava fantasias inconfessáveis dentro de um Moschino verde-esmeralda, complementado por sapatos e bolsa Prada, além de óculos Gucci. No carrinho delas, um conjunto de malas de viagem Louis Vuitton, as quais foram prontamente despachadas, com o máximo de cuidado. Mas o que nenhum daqueles que as admiravam, de queixo caído, chegaria a ver era um acessório que ambas levavam no antebraço esquerdo.
Uma bainha que ficava magicamente invisível e que acondicionava dentro dela uma varinha mágica. Haviam tomado conhecimento da bainha que Harry havia ganho de “Olho-Tonto” Moody em seu aniversário e acharam bastante útil, também adquirindo as suas.
Na Sala VIP, enquanto aguardavam a chamada para seu vôo (Primeira Classe, of course), Milly e Blaise saboreavam cada uma delas uma taça de Don Pérignon, cortesia da sala e liam um exemplar da Caras. Por mais que conseguissem disfarçar, era impossível deixar de sentir uma certa ansiedade pois, afinal de contas, era a primeira vez na qual as duas sonserinas voariam em algo que não fosse uma vassoura ou um tapete mágico. Procuraram recordar-se de tudo o que haviam visto sobre viagens aéreas em Estudo dos Trouxas. Enfim, foram chamadas. Percorreram o túnel de acesso e foram gentilmente conduzidas pelo comissário (Blaise e Milly seriam capazes de jurar que uns três chegaram a disputar a oportunidade de atendê-las) até seus assentos, na Primeira Classe. Guardaram suas bolsas no compartimento acima dos assentos, sentaram-se e afivelaram os cintos de segurança.
Dali a pouco o Airbus começou a taxiar e logo estava na cabeceira da pista. Adquiriu velocidade suficiente e abandonou o solo, provocando uma sensação engraçada no estômago das duas. Pouco tempo depois estavam em altitude de cruzeiro, sobrevoando o Oceano Atlântico, rumo ao Aeroporto de Guararapes, em Recife. Como estavam na Primeira Classe, tinham monitores e aparelhos de DVD individuais. Escolheram um entre os disponíveis, deliciando-se com as peripécias de Julia Roberts e Richard Gere, em “Uma Linda Mulher”. Interromperam o filme quando os comissários iniciaram o serviço de bordo, voltando a assisti-lo depois da refeição. Depois do filme, ligaram-se em um canal de notícias. Ao término do noticiário, Blaise perguntou:
_E quanto ao idioma, Milly?
_Pois é, Blaise. No Brasil fala-se o português, mas é diferente do falado em Portugal. Há várias peculiaridades que o tornam praticamente um outro idioma.
_Acho bom tomarmos nossas providências.
_Não providenciamos pílulas de idioma, portanto... “Vernaculum Brasiliana”. _ murmurou Milly, apontando a varinha para si mesma. Blaise fez o mesmo e, imediatamente, as duas jovens estavam falando e compreendendo perfeitamente o português falado no Brasil. Ninguém havia percebido o feitiço executado pelas duas. Ambas falavam o idioma com um leve sotaque britânico sendo que, na voz de Blaise, ainda ouvia-se um suave acento italiano.
_É melhor assim do que ter de ficar lembrando-se de tomar uma pílula a cada 12 horas. _ disse Blaise.
Sem dúvida. _ concordou Millicent. Começou a se entreter com uma revista, enquanto Blaise ouvia música em um dos canais de áudio disponíveis. Algum tempo depois, vencidas pelo cansaço, ambas adormeceram profundamente.
Despertaram quando o Airbus aproximava-se do espaço aéreo brasileiro, um pouco tontas pela diferença de fuso horário. Era a primeira vez que sentiam os efeitos de um “Jet Lag”. Aproveitaram para dar um jeito na cara, antes da aterrissagem. Em um instante, ambas estavam lindas e prontas, como se tivessem acabado de sair de um salão de beleza (“Eis uma vantagem de ser bruxa. Fica muito mais fácil se arrumar”, pensou Milly. “Bastam uns feiticinhos e pronto. Novamente produzidas”, Blaise olhou-se no espelho e pensou, sorrindo).
Reanimadas com um bom café da manhã, revisaram as bagagens de mão e distraíram-se com um filme brasileiro, o excelente “O Que é Isso, Companheiro?”. Não imaginavam que o Brasil tivesse passado por um momento político-social como aquele. Era algo que contrariava a idéia que se fazia da índole pacífica e hospitaleira daquele povo. Se bem que o conhecimento de história trouxa que os bruxos possuíam era muito superficial. Poucos puro-sangue, Draco Malfoy era um deles, preocupavam-se em conhecê-la mais a fundo. Foi muito interessante descobrir que um daqueles militantes que haviam seqüestrado o Embaixador dos EUA fora depois anistiado, retornara ao país e hoje era um deputado.
A imponente aeronave baixou seus trens de pouso. As jovens já estavam com seus cintos de segurança afivelados e os assentos em posição vertical. Após um pouso suave, o Airbus taxiou em direção à área de desembarque do Aeroporto Internacional de Guararapes, em Recife. Após a parada total dos motores, as duas desembarcaram e dirigiram-se ao terminal de bagagens, aguardando suas malas, ao lado da esteira rolante. Assim que o conjunto de malas Louis Vuitton passou por elas, pegaram-nas e colocaram-nas no carrinho.
Passaram pela alfândega onde, novamente, seus passaportes diplomáticos eliminaram a burocracia e foram para o saguão do aeroporto. Lá um jovem que vestia uma camiseta polo com o logotipo da operadora de turismo pela qual viajavam levantou um cartaz, onde lia-se: “Ms. Bulstrode and Ms. Zabini”. As jovens sonserinas aproximaram-se dele, que logo as cumprimentou:
_ “Nice to meet you, Ms. Bulstrode, Ms. Zabini. My name is Alves, Sérgio Alves. I’ll be your...” _ no que foi educadamente interrompido por Millicent:
_Pode falar em português, Sr. Alves. Eu e Blaise falamos e compreendemos o seu idioma, sem a menor dificuldade.
_Certo, senhoritas. Queiram, por gentileza, me acompanhar. A van está logo ali fora.
Embarcaram na van e Alves foi, durante o caminho, contando alguns fatos sobre a cidade de Recife:
_Devido a possuir muitas pontes, Recife é conhecida como a “Veneza Brasileira”. A cidade teve grande importância durante a invasão holandesa. Embora os holandeses, principalmente Maurício de Nassau, tenham proporcionado um grande progresso à cidade, o patriotismo dos brasileiros falou mais alto e, pela primeira vez, formou-se uma tropa militar organizada para combater os invasores, formada pelas três raças que, basicamente, compõem o povo brasileiro: o branco europeu, o negro africano e o índio, nativo deste país. A batalha decisiva ocorreu nos Montes Guararapes e culminou com a expulsão dos holandeses. O aeroporto foi batizado em homenagem à batalha e, há alguns anos, o nosso Exército escolheu a data de 19 de abril, dia decisivo desse conflito, como o seu dia pois, além de termos formado pela primeira vez um exército regular, também foi a primeira vez em que a palavra “Pátria” foi utilizada em um documento oficial... _ as duas ouviam, atentas, as palavras de Alves, o qual demonstrava grande conhecimento de História, algo muito útil na profissão de guia turístico e que também ampliava o conhecimento das jovens.
A van chegou ao Resort em Porto de Galinhas, perto de Recife. Enquanto descarregava as malas, Alves ainda contou às sonserinas a origem do nome do local:
_Chegou um tempo no qual a escravidão africana já era internacionalmente mal-vista. Como inglesas, as senhoritas devem ter lembranças do decreto “Bill Aberdeen”, o qual permitia que navios ingleses atirassem e afundassem navios de traficantes de escravos, navios negreiros. Aqui era um porto de desembarque de escravos e, quando chegava uma nova leva, não se dizia explicitamente que haviam chegado escravos, mas sim que “Chegou Galinha d’Angola no Porto”. Como uma grande parte dos escravos vinha de Angola, todos sabiam que era um navio negreiro aportando. A escravidão foi abolida no Brasil, por decreto da Princesa Isabel, da Casa de Orleans e Bragança, filha do Imperador D.Pedro II. Mas a expressão ficou tão forte, que o lugar passou a ser conhecido como Porto de Galinhas, mesmo hoje em dia.
_Mas a situação dos escravos libertos não melhorou muito depois daquilo, não foi? _ perguntou Blaise _ Foram simplesmente jogados no mundo, sem uma proposta sequer de inclusão social, simplesmente poupando as despesas dos seus antigos senhores, ainda considerados cidadãos de segunda classe. No final isso acabou ensejando a imigração, pois as fazendas continuavam precisando de trabalhadores.
_Realmente, Srta. Zabini. Como não tinham acesso a uma educação formal, o mercado de trabalho não lhes proporcionava oportunidades. Minha família chegou a sentir isso na pele, pois minha avó era negra, filha de um escravo forro. Mesmo com uma certa instrução, foi difícil obter emprego. Eu mesmo tive grandes dificuldades para estudar, tendo sempre como objetivo uma universidade pública, a fim de economizar as mensalidades. À custa de muito esforço, consegui e hoje tenho grau superior em Turismo. Mas não pensem que é fácil. Srta. Zabini, Srta. Bulstrode, desejo-lhes boas férias. Eis o meu cartão. Precisando de algo, tipo informações, passeios, me liguem. _ embarcou na van e seguiu destino.
Na Recepção, uma funcionária bastante gentil conferiu as reservas e lhes deu o formulário de registro. Enquanto Milly preenchia os dados, com a caneta que lhe deram (“Bastante prático, mas ainda estou mais habituada com as penas”), perguntava a Blaise:
_Como é que você sabe tanto sobre aquela época da História?
_Alguns parentes, mais especificamente dois irmãos do meu bisavô, emigraram da Itália para o Brasil, junto com famílias trouxas. Foram para São Paulo e, antes de se estabelecerem em negócios bruxos, trabalharam em fazendas de café. Devo ter alguns primos distantes em São Paulo, tanto na capital quanto no interior, creio eu que em Ribeirão Preto e Itu. Em suas cartas, diziam que a vida era dura, o salário era pequeno e o regime era de semi-escravidão. Depois alguns deles conseguiram ir para a capital e começaram a trabalhar com poções e objetos mágicos.
Terminaram o registro e foram para as acomodações reservadas, um bangalô de frente para a praia. O calor estava começando a pegar e o sol estava ótimo. Após guardarem as roupas com um feitiço:
_Fator 30 e praia? _ sugeriu Milly.
_É para já. _ concordou Blaise.
Em um instante as duas estavam prontas e logo estiraram-se ao sol, devidamente protegidas e vestindo biquinis de parar o trânsito, Blaise com um azul e Milly com um vermelho. Contrariando as especulações de Jorge Weasley, Millicent Bulstrode não ficava nada mal de biquini, fato confirmado pelos rapazes que passavam quase despindo as duas com o olhar, os que estavam acompanhados por garotas levando cotoveladas de suas companhias.
Blaise estudava o folheto de atividades oferecidas pelo Resort e comentou com Milly:
_Que tal uma pequena loucura?
_Tipo?
_Curso de mergulho. Veja as fotos submarinas, que maravilha!
_Ainda dá tempo para nos inscrevermos. Vamos nessa!
Inscreveram-se, passaram por uma avaliação médica e foram consideradas aptas para as aulas (“Como se duas jogadoras de Quadribol não estivessem em uma forma física pelo menos razoável”, pensaram). Acharam a teoria bem interessante e adoraram os vídeos de paisagens submarinas. Na piscina, rapidamente aprenderam a manusear e montar o equipamento, adorando a sensação do mergulho autônomo. Terminaram a aula e retornaram para o bangalô. No box, Milly aproveitava o máximo da ducha, retirando os resíduos de protetor solar da pele. De repente, sentiu um par de mãos esfregando suas costas com uma esponja, suavemente.
_Blaise?
_Quem mais, cara mia? _ Blaise Zabini continuou a passar a esponja nas costas de Millicent Bulstrode, provocando arrepios na loira. Dali a pouco, começou a passar a esponja pela frente, abraçando Milly por trás e beijando sua nuca. Ao passá-la pelos seios, demorou-se bastante, sentindo os mamilos se enrijecerem ao contato de suas mãos. Em seguida desceu para a barriga e logo para a pelve da namorada, acariciando-lhe as coxas firmes e passando os dedos ensaboados pelo púbis depilado dela, separando os grandes lábios e, suavemente, atritando os dedos contra o clitóris, enviando ondas de incontrolável excitação pelo corpo dela.
_Assim não vale, “Sandalhinha”. Isso me deixa toooodiiiinhaaa aaaaceeeeeesaaaaaaa! _ Millicent virou-se de frente para Blaise e beijou-a, correndo as mãos pelo corpo da outra, até também capturar o clitóris de Blaise entre seus dedos, estimulando-o e fazendo tremer o corpo de Zabini. Em seguida, ajoelhou-se e começou a passar a língua por ele, de vez em quando sugando-o e dando leves mordiscadas. Blaise começou a perder a firmeza das pernas e também ajoelhou-se. Por sua vez começou a sugar o clitóris de Milly e introduzir o dedo na vagina da sua querida, iniciando um suave vai-e-vem que a levava a alturas indescritíveis. Dali a pouco, excitando-se mutuamente, as duas chegaram a um relaxante orgasmo, no box do bangalô, banhadas pela ducha.
Depois do banho vestiram-se com roupas leves, pois o calor estava pegando. Saíram para dar uma volta e conhecer o Resort, que ficava perto da área das piscinas naturais. Conferindo as atividades, viram que constava do cronograma uma coisa que parecia estar deslocada em um hotel de luxo no litoral do Nordeste Brasileiro, uma palestra cujo título era: “O Cidadão Comum e o Terrorismo Internacional”.
_Que estranho. _ comentou Blaise _ uma palestra dessas parece tão fora de lugar.
_A preocupação com o terrorismo existe em nível mundial, Blaise. Mesmo um país pacífico como o Brasil deve manter-se alerta. Inclusive, em um dos muitos atentados terroristas trouxas em Israel, brasileiros saíram bastante feridos. Foi o que vi em jornais, há algum tempo.
_O terrorismo não escolhe, cara mia. Diferente do Lorde, que tem seus alvos bem definidos, um atentado trouxa só causa destruição.
_Para eles, Blaise, quanto mais vítimas, quanto maior o banho de sangue, melhor. Chama mais atenção para sua “causa”.
Enquanto levavam essa conversa, tomando cada uma um Mai-Tai no bar, as duas não perceberam que eram o alvo do diálogo entre dois rapazes, em uma mesa vizinha:
_Cara, que garotas lindas!
_Com certeza não são brasileiras, Marino, embora falem muito bem o português. Repare no sotaque.
_Britânico. As duas são inglesas. Se bem que a morena tem, ao falar, um certo acento italiano. Mas são inglesas, com certeza, Daniel.
_Acha que vale investir?
_Oficial superior tem gemada nas platinas?
_OK, Marino. Gentlemen em ação.
_Ainda mais que, sendo inglesas, poderão ajudar bastante na palestra, já que a Inglaterra também é um alvo para terroristas.
_Ei, elas estão fazendo o curso de mergulho! Acabei de reconhecê-las.
Então os dois aproximaram-se das garotas e, educadamente, cumprimentaram-nas:
_Boa tarde. Gostando do Resort? _ perguntou Daniel.
_Ei, lembro-me de você. Instrutor do curso de mergulho, seu nome é Daniel, não é? _ disse Milly, olhando nos olhos verdes dele. _ Sou Millicent Bulstrode e ela é Blaise Zabini. Prazer em conhecê-lo.
_O prazer é meu. Sim, sou instrutor de mergulho aqui, mas somente nos finais de semana e, mesmo assim, quando não estou de serviço, pois sirvo em uma unidade do Exército, em Recife. Este é meu amigo, Marino.
Blaise olhou para os dois e perguntou:
_Juntam-se a nós?
_Com muito gosto. _ respondeu Marino. Os dois amigos sentaram-se à mesa, com as bruxinhas.
_Você disse, Daniel, que é instrutor de mergulho nos finais de semana. O que você faz?
_Eu e Marino somos oficiais do Exército, Primeiros-Tenentes, para ser mais exato. Formamo-nos na mesma turma da AMAN, Academia Militar das Agulhas Negras, curso de Cavalaria. Servimos em unidades diferentes, mas acabamos por nos reencontrar este ano.
_Estou encarregado da palestra sobre Terrorismo, amanhã à noite. Recebi essa missão por estar no setor de Inteligência, em Brasília. Como vocês estão lidando com isso, lá na Inglaterra, quero dizer, não as medidas governamentais de segurança, mas como é que os cidadãos estão encarando? _ perguntou Marino.
_Bem, nós duas estudamos em uma escola no Norte do país, longe dos grandes centros e minha família vive no campo. _ disse Blaise.
_Mas minha família vive em Londres e procura se cuidar. Não é bom dar chance para o azar, embora não devamos levar isso ao ponto da paranóia. _ comentou Milly.
_Vocês aceitariam dividir suas experiências com os outros, na palestra?
_Claro que sim, Marino. _ disse Blaise _ E você, Milly?
_Conte comigo. Amanhã à noite, no auditório, não é?
_Sim, garotas. Vocês são demais. Muito obrigado.
Ficaram conversando até o anoitecer, quando despediram-se e foram para suas acomodações.
_Que caras legais, não é, Blaise?
_E são dois gatos.
_Estou ficando com ciúmes, meu amor.
_Não se preocupe, cara mia. Mesmo que pinte um gatinho de vez em quando, nem que seja para quebrar a rotina, meu coração pertence a você, como sempre pertenceu.
_Tem razão, “Sandalhinha”. Um namorico de veraneio não muda o que sentimos uma pela outra. Sem contar que são de cair o queixo. Se todos os militares brasileiros forem assim...
_O Exército Brasileiro deve ter só capas de revista. Imagino como devia ser o pai da índia.
_O pai da Sandoval? Se formos julgar por ela, devia ser um Apolo! Ele morreu em um acidente de pára-quedas, não foi?
_Foi. E ela viu tudo.
_Ninguém merece. Nem ela.
_Voltando a falar dos rapazes...
_... Acho que mal não fará.
_Além do mais, torcendo um pouco o que o Draco nos disse lá no Três Vassouras, no Dia dos Namorados...
_... Somos homo por opção, mas não somos heterófóbicas.
_Fora que seria um desperdício deixar passar aqueles dois gatos.
_Então, “Sandalhinha”, se rolar...
_... É isso aí, “Coturno”. Rolou.
As amigas riram como duas crianças e foram separar trajes para o jantar, que foi saboreado na companhia dos dois Oficiais. Marino não conseguia tirar os olhos de Blaise e Daniel parecia estar se dando muito bem com Milly. Depois do jantar, um passeio pela praia, à luz do luar (“Que noite linda. Só não é legal para lobisomens”, pensou Blaise, recordando-se do Prof. Lupin). De mãos dadas com Marino ela viu, mais adiante, Milly e Daniel trocarem um doce beijo e ambos viram algo mais.
Três rapazes, um deles com um revólver em punho, aproximavam-se do casal que, entretido com o beijo, sequer percebera sua chegada. Anunciaram o assalto:
_Passem tudo ou a garota leva bala!
Daniel, bastante tranqüilo, disse:
_Não precisam usar de violência. Estou tirando a carteira do bolso.
Mas, ao tirá-la, deixou que caísse ao chão. Quando os assaltantes olharam para baixo, distraindo-se, forneceram os instantes dos quais ele necessitava. Um bem aplicado Yoko-geri fez com que o revólver voasse longe. Com a inversão do elemento-surpresa, os meliantes ficaram meio desorientados, permitindo que Daniel atingisse um deles com um Uraken na têmpora, que o deixou prostrado no chão. O segundo ainda tentou tirar um canivete do bolso, mas um Shuto na nuca também o colocou fora de combate. Mas o terceiro, que se encontrava a uma certa distância, localizou o revólver perdido e correu para pegá-lo. Não conseguiu.
O punho fechado de Marino atingiu seu nariz, com a força de um bate-estacas, deixando-o inconsciente na hora. Daniel olhou para ele e comentou:
_Fim de festa?
_E eu ia deixar a diversão toda para você? O que vamos fazer com esses caras?
_Amarra em um poste e chama o 190. Os PMs vão ficar faceiros por termos poupado o trabalho deles. O Sargento que comanda o Destacamento daqui me disse que eles estão atrás desses pés-de-chinelo há uns dois meses.
Depois que a PM recolheu os ladrões, Marino olhou para Daniel e disse:
_Hora da crítica.
_Lá vem você. Até parece que estamos de volta à Academia. Bem, vamos lá.
_OK. Onde acertamos?
_No aproveitamento da distração dos caras, quando deixei a carteira cair no chão. Aquilo criou a oportunidade para inverter o elemento-surpresa a nosso favor.
_Muito bem. Onde erramos?
_Foi muito arriscado fazer isso. Poderia expor Milly a um perigo mortal. Também rateei por não perceber que o terceiro elemento estava prestes a recuperar o revólver. Porém eu percebi que você estava próximo o suficiente para incapacitá-lo, portanto não foi uma voada total. Aliás, aquele lá vai dar sinal de ocupado e não vai aceitar cartões por, pelo menos, umas duas semanas.
_O que foi isso? _ perguntou Milly.
_Mania de militar. Sempre que retornamos de uma ação, realizamos a crítica, para identificarmos eventuais erros e não repeti-los. _ disse Daniel _ Me desculpe por tê-la exposto a um risco desses, Milly, mas eu sabia que aqueles caras não iriam se contentar em nos assaltar. Com certeza iriam querer abusar de você e isso eu não poderia, de modo algum, permitir. Não haveria outra oportunidade, portanto eu deveria aproveitá-la e agir.
_Está totalmente desculpado, Daniel. _ disse Millicent, frisando suas palavras com um beijo no rapaz.
Voltaram para o bar, a fim de tomarem algo para que pudessem relaxar, após o susto. Sentados em sofás, no Lounge, esticaram a conversa e Milly perguntou:
_E como você, sendo de São Paulo, veio parar em Recife, Daniel? Não é um pouco longe?
_Coisas do Exército, Milly. Um oficial deve ter vivência nacional, portanto passa por várias regiões. Mas antes eu servia no Mato Grosso do Sul, no 11º RCMec, em Ponta Porã. Foi lá que eu recebi a pior notícia da minha vida.
_O que foi? _ perguntou Blaise.
_Minha família, que vivia em Caraguatatuba, litoral Norte do estado de São Paulo, foi assassinada, em circunstâncias bastante misteriosas.
CAPÍTULO 6
LEMBRANÇAS, REFLEXÕES E QUESTIONAMENTOS
_Como é? _ perguntaram, juntas, Millicent e Blaise.
_Exatamente como eu disse. Meus pais e minha irmã, que na época tinha quinze anos, foram encontrados mortos em casa. Não apresentavam um ferimento sequer, mas o legista disse que morreram instantaneamente. A necropsia não revelou sinal algum de envenenamento ou intoxicação alimentar, apenas níveis sangüíneos altíssimos de adrenalina e aldosterona, como se tivessem passado por uma situação de estresse ou de extremo pavor, como mostravam as expressões de seus rostos.
_Pavor? _ Marino estava intrigado _ Você nunca mencionou isso, Daniel.
_Sim. Foi a coisa mais misteriosa.
_Mas por que alguém assassinaria uma família inteira? _ perguntou Milly, curiosa.
_Meus pais eram proprietários de uma grande área que duas construtoras concorrentes queriam comprar, a fim de construir um Resort de luxo. Uma delas tinha uma proposta de manejo da área que não agrediria o meio ambiente e a outra não apresentava nada nesse sentido. Meu pai vendeu o terreno para a primeira, mesmo que o segundo grupo tivesse feito uma oferta de maior valor. Nunca conseguimos provar, mas ninguém me tira da cabeça que foi o dono daquele grupo que encomendou o crime.
_Por que você pensa assim? _ perguntou Blaise.
_Teve as características de coisa de profissionais. Por sempre ter sido da Inteligência, desenvolvi um faro para coisas que não se encaixam. Investiguei por conta própria, mas não consegui estabelecer uma ligação dos assassinos com o empresário. Mas descobri qual a quadrilha que fez aquilo. Pena que nunca consegui pegá-los. Eles tinham uma marca registrada. Sempre soltavam um balão luminoso no local onde matavam alguém.
_E como era esse balão? Com o que ele se parecia? _ perguntou Milly, involuntariamente sentindo um incômodo calafrio, sem saber por que.
_Parecia uma caveira, com uma cobra saindo da boca, como se fosse uma língua.
Blaise também sentiu um arrepio, mas conseguiu disfarçar e ainda perguntar:
_Esse grupo, essa quadrilha... eles tinham algum nome, em particular?
_Sim, Blaise. Eram conhecidos como “Os Necrófagos”, um grupo extremamente cruel. Creio que uma tradução aproximada para o inglês seria...
_ “The Death Eaters”. _ sussurrou Milly, empalidecendo.
_Exatamente, Milly. “The Death Eaters”. Um grupo de assassinos de aluguel, trabalhando como freelancers, oferecendo seus serviços a quem pagar mais. Ninguém conseguiu pegá-los até hoje. Mas sempre conseguem fazer contato com quem requisita os seus serviços e cobram bem caro.
Milly ia ficando mais e mais pálida. Blaise notou aquilo e, mais do que depressa, tratou de disfarçar:
_Milly, acho que é melhor nos recolhermos. Já tivemos emoções suficientes para um dia. Amanhã a gente se vê, certo, rapazes?
_Tudo bem, garotas. _ os rapazes beijaram-nas em despedida e as bruxinhas foram para o bangalô.
No bangalô, sem a presença dos jovens tenentes, as duas sonserinas encaravam-se mutuamente, sem coragem para falar. Blaise foi até o frigobar, abriu uma garrafa de água mineral com gás e encheu dois copos. Deu um para Milly e ficou com o outro. Somente depois de tomar um bom gole foi que Milly rompeu o silêncio:
_Não acredito, Blaise! É demais para a minha cabeça! Death Eaters, estabelecendo uma base de operações aqui no Brasil e, como se não bastasse, agindo como vulgares assassinos de aluguel! E ainda se dão ao luxo de projetar a Marca Negra! Como é que pode? Aliás, muito obrigada por ter percebido a situação que estava para se formar e criado rapidamente uma desculpa para que saíssemos dali bem depressa.
_De nada, Milly. Também estou de queixo caído com isso. Bruxos das Trevas matando, a soldo de trouxas mal-intencionados. Será que o Lorde sabe disso lá na Inglaterra ou em qualquer lugar no qual esteja oculto?
_Acho que não, Blaise. Nem mesmo V-V-Voldemort é onisciente.
_Você falou o nome do Lorde das Trevas! Gaguejou um pouco mas falou!
_Creio que é besteira ficar com medo do nome dele, Blaise. Ele é terrível e perigoso, todos nós sabemos. Mas minha língua não vai cair se eu falar “Voldemort”. Muita gente fala e nunca houve nada.
_O que você acha que está havendo por aqui, Milly?
_Eu acredito, Blaise, que aqui no Brasil a Ordem das Trevas não deve possuir muita força. Então seus membros ficam meio que nas sombras. Mas os Death Eaters, esses gostam de torturar e de matar. Então, para não ficarem inativos, alugam suas varinhas a quem pagar mais. Pela descrição de Daniel, o assassinato da família dele teve todas as características de uma “Avada Kedavra”. Nenhuma marca, expressões de pavor nos rostos e Daniel disse que os níveis de adrenalina e aldosterona eram altíssimos nas amostras de sangue dos cadáveres. Isso só ocorre em situações de fúria, estresse, esforço ou pavor extremo. A Maldição da Morte enquadra-se perfeitamente nessas situações.
_É duro ter de reconhecer isso, principalmente pelo fato de que nossos pais são Death Eaters. Me magoa e mesmo me enoja compará-los a esses tarados, mas quem garante que não fizeram nada parecido? Ou que ainda possam vir a fazer, se o Lorde assim o ordenar? _ Blaise sentou-se no sofá ao lado de Milly e abraçou a namorada, acariciando seus cabelos _ Fico pensando, Milly, em como vamos reagir, caso o Lorde nos ordene que façamos algo semelhante. Sinceramente, eu não sei o que eu faria.
_O que está querendo dizer, “Sandalhinha”? Está vacilando em sua lealdade ao Lorde das Trevas? _ Millicent Bulstrode perguntou e levantou-se, dando voltas pela sala do bangalô. Vendo que Blaise não respondia, parou, encarou sua querida namorada e sufocou um soluço _ O fato, Blaise, é que... que eu t-também não s-sei como reagiria. Se me ordenassem: “Mate fulano de tal! Torture beltrano!”, eu só tenho certeza de que iria hesitar. Não vou e nem posso mentir para você, pois te amo desde criança. Apesar desse meu jeito de valentona do colégio, pregando peças, intimidando e fazendo brincadeiras de mau gosto, não tenho perfil para crueldades. Estou apavorada, pois é certo que nossos pais vão querer que nos tornemos Death Eaters como eles, sem ao menos nos consultarem para saber o que achamos.
Blaise Zabini tinha úmidos e pesados os seus olhos castanhos, a exemplo dos azuis de Millicent Bulstrode. Esta sentou-se novamente no sofá e as duas ficaram um tempo abraçadas em um silêncio que foi, depois de alguns minutos, rompido por Blaise:
_Milly,me responda sinceramente. Você acredita que a sua devoção às Trevas desde a infância, assim como a minha, é algo que vem de dentro de você ou um comportamento familiar que assimilamos e que sempre foi, muito convenientemente, incentivado por nossas famílias, que viam nisso um meio de perpetuar a tradição trevosa?
_É meio difícil responder a isso, Blaise. Tudo o que vimos, desde que éramos crianças, foram as tradições das Trevas e o orgulho exacerbado dos puros-sangues radicais. Fomos selecionadas para a Sonserina por qualidades pessoais de persistência, criatividade, astúcia ou por descendermos de uma linhagem de sonserinos puro-sangue que, na imensa maioria, seguiram o caminho das Trevas? Eu não me preocupava muito com essas reflexões, até há uns três anos atrás, quando vi e tomei conhecimento de muita crueldade gratuita praticada em nome das Trevas, muitas mortes sem sentido. Acredita, Blaise, que o Lorde mandou que Wormtail matasse o Diggory só porque não precisaria dele? E ele fez isso, na frente do Potter, naquele ano do Torneio Tribruxo. Pansy me confirmou o que Dumbledore disse, no banquete de encerramento do quarto ano,pois Potter e os Inseparáveis disseram a ela. Depois começamos a travar mais conhecimento com a cultura trouxa, descobrindo que gostávamos de vários dos seus aspectos. Prova disso é a decoração do apartamento que compramos. Se o Lorde entrasse nele iria, com certeza, querer explodir tudo, por achar trouxa demais. A verdade é que eu estou, cada vez mais, deixando de me identificar com esses aspectos tristes e sombrios da vida. Tenho dezessete anos, quero conhecer muita coisa boa do mundo, viver com o coração menos apertado, poder curtir sem reservas o amor que sentimos uma pela outra. E o que você acha, Blaise, meu amor? Qual a sua opinião sobre tudo isso que está acontecendo e que ainda vai acontecer?
_Eu acho, cara mia, que a guerra está ficando cada vez mais explícita e aberta. Logo os nossos pais vão nos cobrar uma posição e teremos de nos definir. Ou estaremos com V-Voldemort ou com Dumbledore, pois não dá para assumir uma postura de neutralidade. Estou assustada e, por que não dizer, até meio revoltada. Lembra-se de que, desde a infância, sempre demonstramos lealdade e convicção com a doutrina das Trevas? Pois fiquei sabendo, recentemente, de coisas que me levam a crer que não estão nem aí com a gente, que somos apenas peões, como o Draco nos disse no ano passado, lembra-se? Ele conceituou os seguidores das Trevas como bucha de canhão.
_Como posso me esquecer? Ainda não sei como foi que ele me nocauteou, apenas tocando no meu pescoço. Só acordei depois que você me levou para fora do Três Vassouras.
_Pois antes daquilo aconteceu algo que eu nunca contei a ninguém, até hoje. Depois do jogo contra a Corvinal, Draco me repreendeu, no vestiário, devido ao meu péssimo desempenho como goleira. Eu quase lancei uma Cruciatus nele, só que ele foi mais rápido e, antes que eu terminasse de invocar a maldição, me atingiu com um Feitiço Silenciador e com um Furnunculus. Eu não acredito que ia fazer aquilo, Milly. Não era eu. Sempre fui amiga dele e, mesmo depois dele ter começado a namorar a Sandoval e grudado na turma do Potter, nunca deixei de querê-lo bem, mesmo que todos acreditem que nós, da Sonserina, não somos capazes de cultivar amizades sinceras. Fiquei com medo de mim mesma e comecei a refletir sobre meu comportamento... estava começando a me tornar amarga e rancorosa. Tratei de me policiar quanto a isso, pois sabia que iria acabar prejudicando a nós duas. Depois, no Dia dos Namorados, quando a Sandoval nos “presenteou” com os apelidos “Coturno e Sandalhinha”, gostei tanto daquela brincadeira dos versos e me senti tão bem em declamá-los para você. Mesmo depois que ela nos pegou com aquele Feitiço de Diarréia, no Expresso de Hogwarts, eu não consegui sentir raiva dela de verdade. Na hora me deu vontade de lançar nela uma ou duas Maldições Imperdoáveis, mas a vontade passou logo depois. Lá no Ministério conseguimos, por uma tarde, deixar novamente as diferenças de lado. Isso não pode estar acontecendo à toa, Milly.
_E o que você está querendo dizer, meu amor?
_Estou querendo dizer que, por mais que eu tente fingir, eu não sou uma malvadona de verdade, como muitos acham que sou, cara mia. Além disso, há algumas coisas que eu não lhe disse. Lembra-se de quando eu falei que você podia ter certeza da minha lealdade às Trevas e do meu amor por você?
_Sim, lembro. Foi logo que entramos para o apartamento. Alguma coisa nisso mudou, Blaise?
_Sim, Milly, mudou. E não foi o meu amor por você, pois isso não mudará jamais.
_Está questionando sua lealdade às Trevas... assim como eu mesma estou? _ as últimas palavras de Millicent foram lançadas como um desabafo, como se ela estivesse a livrar-se de algo que a oprimia _ E o que precipitou esses questionamentos, meu bem?
_Muitas coisas, sendo que entre elas houve algo no St. Mungus, quando você foi fazer a Reformatação Facial Mágica com o Dr. Tangway. Enquanto eu te esperava, fui à cafeteria, mas primeiro tomei um caminho errado e fui parar na Enfermaria de Danos Permanentes Causados por Feitiços.
_Sim, você me disse que viu lá o Prof. Lockhart.
_Acontece, Milly, que não foi só o Prof. Lockhart que eu vi. Lembra-se de Frank e Alice Longbottom?
_O casal de Aurores, pais do Neville? Sim, ouvi falar. Depois que Voldemort tentou matar o Potter, este ainda com um ano de idade e foi derrotado, desaparecendo, vários seguidores dele começaram a procurá-lo. Um grupo, liderado por Bellatrix Lestrange, capturou os Longbottom e os torturou, achando que eles teriam conhecimento do paradeiro de Voldemort. Veja, estou conseguindo dizer o nome dele sem gaguejar! Bem, eu soube que enlouqueceram devido às torturas e faleceram no St. Mungus. Isso foi o que meu pai me contou.
_Só que eles não morreram, Milly. Eu encontrei Neville Longbottom e a avó dele, acompanhados de Luna Lovegood, que haviam ido visitá-los.
_Eles estão vivos?
_Estão, Milly. E o estado deles é de cortar o coração. Não reconhecem ninguém, estão alheios a tudo. Neville ainda tem esperanças de que encontrem uma poção que possa curá-los, por isso quer se especializar em Farmacologia Bruxa, depois de formado. E a avó dele ainda me disse para que tomássemos cuidado.
_???
_Sabendo da nossa inclinação para as Trevas, bem como da tradição familiar, ela disse exatamente assim: “Vocês são jovens e ainda têm tempo para descobrir que o caminho das Trevas, por mais sedutor que possa parecer, mais cedo ou mais tarde sempre cobra o seu preço o qual, geralmente, é bem alto”.
Então você acredita que estejamos recebendo avisos sobre que caminho tomar?
_Exatamente, Milly. Voltando ao dia em que Draco me enfeitiçou, lembro-me de que ele me chamou de fanática e disse que para mim não havia mais salvação. Não é verdade, “Coturno”. Eu acho que ainda não estou totalmente entregue às Trevas. E nem você. Tenho certeza de que ainda há tempo para que possamos definir nossas posições.
_Sabe, Blaise, certa vez eu li um livro trouxa intitulado “A Leste do Éden”, de autoria de John Steinbeck. Em uma parte dele, dois personagens discutem sobre um determinado trecho da Bíblia, onde havia uma polêmica sobre o seu significado. No final, ambos chegam à conclusão de que a resposta estaria na própria pessoa, devido a uma palavra em hebraico.
_Que palavra era essa?
_ “Timchel”. Em hebraico, significa “Poderás”. Então ficou claro que não havia a obrigatoriedade do homem entregar-se ao mal ou de dominá-lo, mas sim, devido a essa injunção, o homem poderia escolher entre as opções. Entende? “Poderás dominar”. Segundo essa interpretação, Deus coloca em nossas mãos a responsabilidade. Sucumbir ao mal ou dominá-lo e dele escapar. Agora, minha amada “Sandalhinha”, que caminho você e eu deveremos escolher? Integrar as hordas de Voldemort, com seu fanatismo e ódio pelos trouxas ou viver como um ser humano normal, aproveitando o que o mundo e ambas as culturas, tanto bruxa quanto trouxa, podem nos oferecer de bom?
_Sinceramente, minha querida “Coturno”, a segunda opção é a que oferece uma vida muito mais saudável e sem neuroses. Não quero ser mais uma rês no rebanho daquele monstro. E será muito melhor se eu puder ter você ao meu lado nisso.
_De acordo, Blaise. Não desejo viver uma vida inteira me privando de ser feliz. Na ordem das Trevas nós não poderíamos fazer nem metade do que qualquer adolescente normal faz. Ao Inferno com Voldemort e seus Death Eaters. _ disse, tocando o copo de água de Blaise com o seu, em um brinde.
_Vai ser difícil fazer com que nossas famílias entendam.
_Acho que Dumbledore poderá nos ajudar a fazê-los entender que nós é que escolhemos o nosso próprio caminho.
_Eu te amo, Milly. Mais do que nunca.
_Eu também te amo, Blaise. Sempre te amei e sempre estarei com você.
_Acredito que, em Hogwarts, deveremos continuar a manter uma fachada de sonserinas valentonas.
_Sim, Blaise. Duas sapatonas que continuarão fingindo ser as Bad Girls da escola.
_ “Sapatonas” é meio forte e pejorativo, cara mia. Acho que, para nós, “Lesbian Chic” cairia melhor. Não temos mais aquela imagem estereotipada de fanchona e Mary Femme. Somos duas garotas que se amam e que são bem resolvidas quanto a isso.
_Em parte devemos isso à índia e ao resto da turma do Potter.
_Por mais que eu deteste admitir, você está certa. Os conselhos dos “Insuportáveis Inseparáveis” foram bastante úteis.
_Lord Voldemort é que não irá gostar nem um pouco disso, Blaise.
_Depois de tudo o que vi e soube, por mim ele e a Ordem das Trevas podem ir à PQP de rodinha. _ ambas riram e beijaram-se, apaixonadamente.
Blaise Zabini massageava os ombros de Millicent Bulstrode, tentando relaxar os músculos da namorada, tensos com aquele desabafo e com aquela tomada de posição. Soltou as alças da blusa da loira e começou a beijar sua nuca, sentindo a pele dela se arrepiar. Suas mãos começaram a descer para os seios. Em um instante, Milly estava livre do sutiã, com os dedos de Blaise a acariciar seus mamilos, que logo estavam enrijecidos. Blaise desceu ainda mais suas mãos e logo encontrou o fecho da saia de Milly, que logo estava no chão, com a calcinha fazendo companhia a ela. Millicent virou-se de frente para Blaise e logo tirou a blusa e as bermudas de sua amada. O sutiã e a calcinha não demoraram muito para também irem ao chão. Foram para a cama e, logo que se deitaram, Blaise pegou a varinha e disse: “Dildo”.
_Oh, Blaise, isso é mesmo especial. _ Blaise havia conjurado um membro artificial, com um cinto para adaptar na cintura.
Embora jamais tivessem tido um homem na vida, Blaise Zabini e Millicent Bulstrode já não eram mais virgens desde os catorze anos quando, em um pacto de amor, haviam se deflorado mutuamente com um acessório igual àquele, revezando-se no uso dele, para que cada uma delas pudesse, por sua vez, desempenhar o papel ativo. Blaise adaptou o acessório na cintura e, em seguida, começou a beijar e a sugar o clitóris de Milly, até que a vagina da namorada estivesse lubrificada de prazer. Então, colocou-se entre as pernas dela e começou a penetrá-la, suavemente, em um movimento de vai-e-vem que lhe provocava ondas de prazer que mais e mais se avolumavam, como se fossem as lavas de um vulcão prestes a entrar em erupção, com a saliência no dorso do acessório a lhe atritar o clitóris e logo a erupção de prazer veio, na forma de um incontrolável espasmo. Trocou de posição com Blaise, vestindo o acessório e dedicando-se a proporcionar à sua amada tanto prazer quanto ela lhe proporcionara. Devido a uma pequena extensão do aparelho, que massageava sua própria sentinela do prazer, explodiu novamente, junto com Blaise Zabini, em um gozo estratosférico. Ao retornarem à Terra e Milly dizer: “Dildo evanesco”, estranharam não ter havido nenhuma manifestação de emissão mágica involuntária, até que ambas sentiram um leve calor no dedo anular da mão direita. Ao olharem, viram que havia sido conjurado, do nada, um anel de compromisso para cada uma delas.
_São lindos, Blaise. Adorei.
_E o melhor, Milly, é que nem precisamos fazer a encomenda na Encantos Brilhantes e ficar esperando a chegada deles.
As namoradas beijaram-se apaixonadamente e adormeceram abraçadas, experimentando um relaxamento físico e uma paz de espírito como jamais haviam conhecido antes.