— Isso é muito injusto — Rony disse pelo que parecia ser a décima quinta vez só naquele dia.
— Não sei por que você fica falando isso. Você sabe muito bem que se quiser viajar com quem quer que seja o papai e a mamãe vão deixar.
Rony optou por resmungar ao invés de responder. É claro que era verdade que se ele quisesse ir poderia, mas a questão é que ele não iria. Logo, se sentia no direito de reclamar porque a sua irmã mais nova estava indo para as Ilhas Capri. Mas, como era óbvio pra todos, principalmente para Gina, ele só reclamava porque não queria que ela saísse de casa para um lugar longe com sua melhor amiga, que apesar de legal, era meio destrambelhada. Estava com ciúmes, simples assim.
— Deixa ele, Gina. Assim que você voltar viva ele vai esquecer que ficou bravo. Só tenha juízo, ok? — Hermione falou.
— E por acaso já houve algum dia em que eu não tive?
Hermione se limitou a arquear a sobrancelha esquerda e encarar a amiga. Para ela era muito claro que diversas vezes Gina tinha deixado o juízo de lado. A começar pela época em que ela e Michael estavam juntos: Mione a viu fugindo da Grifinória várias noites, depois do horário permitido, para se encontrar com o quase–namorado em algum corredor vazio e fazer sabe–se lá o quê. E ela também tinha certeza que quando Gina e Isabelle se juntavam uma das últimas coisas que elas se lembravam de colocar na cabeça era juízo.
Seu pensamento foi cortado por uma loira linda que veio correndo na direção deles.
— Gi! — ela gritou ao abraçar a amiga.
Isabelle parecia, se é que era possível, ainda mais bonita que da última vez que elas tinham se visto. Em seus olhos também havia um brilho a mais, como se alguma coisa tivesse acontecido naquele ano escolar que fez com que ela tivesse se tornado mais... madura.
— E vocês! — Isabelle cumprimentou o resto das pessoas — Como foi o ano? E o Roniquinho te deu muito trabalho, Mione? Não sei como você suporta essa coisa laranja — ela disse brincando.
Rony fez uma careta e reclamou, e Hermione riu.
— Eu admito que toma muito da minha paciência e que é preciso muito amor...
— Ei! — Rony protestou — É de mim que você está falando!
Todos riram e deram petelecos em Rony. Foram andando até o carro, onde seus pais os esperavam, conversando e rindo. Como os pais de Harry não eram mais vivos — mas isso é história para outra hora — o seu padrinho, Sirius Black, era quem estava lá.
Gina soltou um suspiro baixo de preocupação ao ver Sirius. Ele e Isabelle tinham tido uma "coisa" nas férias passadas, e não pareciam muito dispostos a evitar que acontecesse de novo. Claro que Gina não culpava cem por cento a amiga, ele era mesmo um pedaço inteiro e bem chamativo de mau caminho.
Aliás, ele era quase um bilhete premiado de acesso instantâneo ao inferno.
Alto, cabelo preto um pouco comprido e bagunçado, olhos azuis e aquele tipo de barriga que faz você recorrer à piada clichê "lugar de mulher é no tanque". Para piorar, Sirius tinha aquela voz rouca e um jeito de olhar para as mulheres que quase fazia com que elas abaixassem as calças.
Gina, que conhecia Harry desde os dez anos de idade, já tinha se acostumado ao Sirius como um tio. Um tio descolado, legal e gato, mas um tio. Já Isabelle, que tinha entrado na vida de Gina há apenas três anos e tinha conhecido o Sirius há menos tempo ainda, não o via de maneira alguma da mesma forma.
Lembrava–se perfeitamente de quando e como aquela coisa entre Sirius e Isabelle tinha começado. Ele nunca esteve muito disposto a resistir às mulheres, galinha do jeito que era, e Isabelle também não parecia nem um pouco disposta a parar de caçar sarna para coçar naquele território em particular. Ele sabia que ela era, pelo menos, uns vinte anos mais nova que ele, mas Isabelle não tinha cara de criança, muito menos jeito.
Eles tinham ido a um bar com karaokê, ideia de Harry. Sirius tinha ido para "tomar conta dos meninos", apesar de ter feito vista grossa às carteiras falsas que eles carregavam e aos drinks que beberam. Tinham ido Rony, Hermione, Gina, Harry, Fred, George e, claro, Isabelle. Em algum momento da noite, Isabelle subiu ao palco com seu copo de Martini nas mãos e cantou Do You Wanna Touch, deixando bem claro para qualquer pessoa sóbria e esperta daquele lugar — o que incluía Gina, Sirius e Hermione — que estava dedicando a música ao homem sentado de frente para ela.
E não importa a diferença de idade: Isabelle era capaz de provocar um homem, se quisesse. A maior prova disso era que um de seus professores era apaixonado por ela — e aceitou muito infeliz o término do caso que estavam tendo quando ela enjoou dele.
— Sirius — Isabelle disse, cumprimentando o padrinho de Harry como se eles fossem apenas bons amigos.
— Belle. Gina — ele cumprimentou as duas — E Mione! Ainda suportando o Rony, pelo que vejo — ele disse, abraçando o Rony de lado e sorrindo.
— E você que ainda nem arrumou alguém que consiga te suportar, hein? — Rony revidou, também sorrindo.
— Porque eu não quero. Chovem mais mulheres aos meus pés por dia do que você já viu em toda sua vida, Roniquinho.
Todos riram e Rony tratou de dar um soco em Sirius, de brincadeira. Jogaram conversa fora mais alguns minutos e então se despediram: Harry e o padrinho foram na BMW preta de Sirius, Rony, Gina e Isabelle entraram na Ferrari vermelha chamativa da Sra. Weasley, que aparentemente não achava suficiente levar uma trupe de cabelos vermelhos, e Hermione foi com os próprios pais no Volvo preto.
— Então, de verdade, como foi o ano? — Isabelle tornou a perguntar quando ela e Gina estavam a sós no quarto.
— Só posso te dizer uma coisa: graças a Deus que ele acabou — Gina respondeu ao mesmo tempo em que se jogava na cama.
— Harry?
— Como você adivinhou?
O tom irônico na voz da amiga fez Isabelle rir baixinho. Era tão claro para qualquer pessoa que tivesse olhos que Harry já estava irritando Gina com o seu fanatismo...
— Relaxa, amiga. O pior ainda nem aconteceu.
— Você tá certa. Ainda corro o risco dele um dia se declarar para mim ou sei lá, aparecer na minha frente com um pedido de casamento e um anel de diamantes.
As duas riram.
— Sério, Gina. Ele ainda não se declarou, e então você não precisou dar um fora nele. Só precisa fingir que é completamente cega, idiota, retardada...
— E que não percebo que ele tem um santuário para mim no quarto.
— Exato. Aliás, você nem vai ver ele direito nessas férias. Vamos viajar depois de amanhã e você só volta no dia 29 de julho.
— É... Mas Belle! Vamos falar sobre você! Você parece ter mais coisa para contar do que eu.
— Uhm... Talvez — Isabelle deu um sorriso torto, que significava algo como "aprontei". Gina imediatamente se sentou e se pôs a ouvir a história da amiga.
Resumindo: o professor que tinha se apaixonado por Isabelle, com quem ela tinha tido um caso no começo do ano escolar, em setembro do ano passado, ficou correndo atrás dela o ano inteiro. Mesmo assim, ela conseguiu se desvencilhar dele e acabou ficando com um menino do último ano, que era mais conhecido por ser o "traficante" do lugar. Era ele quem arrumava maconha para os que queriam relaxar, cigarros para os que queriam aparecer, bebida para os que queriam se divertir e coisas mais pesadas para os que lhe pagavam muito bem.
— Tem certeza que foi uma boa idéia? Quero dizer, se alguém descobrir...
Mas Isabelle entendeu o que a amiga quis perguntar: "tem alguma chance de alguém saber que, além de ficar com ele num local proibido, você experimentou algumas das coisas que ele vende?".
— Acho que não existe essa chance. Não aconteceu muitas vezes, e eu não me diverti muito. Mas admito que ele era um pedacinho de caminho ruim.
— Porque também, depois do Sirius vai ser difícil achar um homem que seja um caminho ruim inteiro — Gina brincou, e elas riram.
Conversaram por mais alguns minutos, quase meia hora, e se dirigiram à casa de Isabelle, que ficava logo em frente, para que Gina pudesse dar um olá aos pais da amiga. Combinaram de fazer a mala juntas por telefone de manhã quando acabaram de jantar e perceberam que já era muito tarde.
O dia seguinte amanheceu nublado, como quase todos os dias em Londres. Assim que podia ter certeza que a amiga tinha acordado, Gina abriu as duas malas Louis Vuitton em cima de sua cama e pegou o telefone, discando o número de Isabelle em seguida.
— Bom dia, flor do meu dia! — a loira respondeu do outro lado da linha.
— Bom dia, pessoa animada. Preparada para nossa batalha?
— Nem um pouco! Vamos nessa...
Seguiram conversando. O que poderia ter sido um trabalho de no máximo uma hora, acabou se transformando em três, porque elas estavam sempre mudando de assunto, rindo de uma bobagem e só lembrando meia hora depois que precisavam terminar a mala.
— Você vem almoçar aqui?
— Não sei. Combinei de sair praa jantar com os meus pais hoje, mas não lembro se eles prepararam algo para o almoço. Espera um minutinho... — Gina ouviu Isabelle gritar ao longe e depois ela retornando ao telefone: — Acho que vou sim.
— Ótimo! Porque eu preciso desesperadamente de alguém para me ajudar com as minhas unhas, considerando que elas estão detestáveis.
— Vou aparecer na sua porta em 3, 2...
E desligou o telefone. Gina olhou pela janela de seu quarto, viu uma loira maluca correr a rua e ouviu a campainha de sua casa soando alto logo em seguida. Dois minutos depois, Isabelle estava de frente para ela e elas pegavam o material que usariam para fazer as unhas dos pés e das mãos.
Gastaram o resto da manhã nisso e depois foram almoçar. Quando eram 14h, receberam uma mensagem do Harry, dizendo para todo mundo ir para casa dele e passar a tarde lá, e Isabelle recebeu uma mensagem do Sirius, dizendo "espero que você possa vir, também".
— Você quer fazer o favor de me explicar, antes da gente ir, qual é a dessa tensão sexual entre você e o Sirius? — Gina pediu, encarando Isabelle, que ainda lia a mensagem pensando se devia ou não responder.
Lentamente, levantou os olhos e pareceu notar Gina.
— Não tem tensão sexual nenhuma, Gina, e você já sabe o que aconteceu: nós nos beijamos bastante e fim. Não vejo o que mais posso explicar.
Gina ergueu uma sobrancelha em tom de suspeita, não acreditando completamente. Belle ignorou.
Gui, o irmão mais velho de Gina, apareceu na sala enquanto as duas esperavam Fred, George e Rony para poderem ir para o Harry. Ele era muito bonito e, claro, tinha cabelos ruivos; estes eram longos e ele os mantinha presos em um rabo de cavalo. Tinha também um brinco na orelha esquerda, coisa que a Sra. Weasley não aprovava totalmente.
— Não agüento mais! Desde que a mamãe entrou na menopausa parece que estou vivendo na Rússia!
Gina e Isabelle riram. A mãe de Gina, Molly, abaixava tanto a temperatura dos ambientes toda vez que pisava neles que o resto da família quase congelava.
— Meninas — ele sorriu — Esperando as donzelas, imagino?
— Como sempre — Gina revirou os olhos.
— Ei, Gui, você não quer levar a gente, não?
Não é nem preciso dizer que Gina deu outro suspiro de preocupação. A questão é: se tinha um irmão com o qual se preocupar quando o assunto era sua melhor amiga, definitivamente era Gui. Na verdade, ela não sabia como ainda não tinha ficado louca, considerando que Isabelle tinha um radar que disparava apenas por homens com os quais seu envolvimento poderia resultar em confusão.
— Com você pedindo eu não vou negar, né linda? — ele respondeu, piscando e pegando as chaves do carro — De qualquer forma, eu também preciso falar com o Sirius.
Gina apenas levantou as sobrancelhas e olhou para amiga. Belle deu de ombros e seguiu sorridente o ruivo lindo que ia em direção à garagem.
"Linda" pensou Gina. Por que também todo homem, mesmo sabendo que vai dar confusão, cai nas garras dessa loira descontrolada que eu chamo de amiga? Mas ela não saberia responder. Isabelle conseguia o que queria. Fim.
Em alguns minutos eles estavam na casa de Sirius e Harry, que não era muito longe. Esperava-se que Isabelle ficasse ao menos um pouco aflita de ver dois de seus casos se encontrando, mas aparentemente, não.
— Sirius! — ela disse feliz ao abraçá-lo.
— Belle. Gui! — cumprimentou o irmão de Gina com entusiasmo — E claro, nossa ruivinha preferida — sorriu.
— Ou a única — ela comentou, também sorrindo.
Sirius e Harry estavam fazendo um churrasco no quintal. O dia já não estava tão nublado como amanheceu e era possível ver o sol, apesar de ainda não ser exatamente um dia de verão. Mas um mormaço leve pairava no ar, portanto era um bom dia para se fazer um churrasco e até curtir uma piscina.
Afinal, qualquer calorzinho em Londres já era o suficiente para tirar os shorts e os biquínis do fundo do armário.
— Comprei umas cervejas. Quem quiser, estão na geladeira.
— Eu vou buscar. Quem quer o quê? — Gina disse.
— Cerveja — Gui disse e Sirius concordou.
— Vou com você — Isabelle seguiu a amiga até a cozinha.
Pegaram três cervejas, uma água para Gina e foram para o quintal. Isabelle entregou as cervejas aos respectivos donos e abriu uma para si mesma. Harry cuidava do churrasco, e usava nada além de uma bermuda verde. Sirius e Guilherme ainda mantinham a blusa no corpo, para a sanidade geral da nação. Mas não pareciam aguentar muito mais tempo, e alguém que nós conhecemos bem e tem cabelos loiros também parecia disposta a sugerir a ideia até que aceitassem.
— Até que se você se aproveitasse um pouquinho do Potter não ia ser tão ruim assim, hein? — Belle sussurrou no ouvido da amiga.
Gina apenas balançou a cabeça e riu. Aquela menina era impossível, mesmo. Não podia ver um homem bonito, ou pior: um homem sem camisa.
— Você é atacada, Belle.
— Eu ouvi isso — Sirius disse, se aproximando.
Gina se retirou imediatamente, deixando os dois sozinhos, e foi cumprimentar Harry. Isabelle abriu um sorriso sedutor para Sirius.
— Não só ouviu...
— Já comprovei — ele também abriu um sorriso igualmente sedutor.
Por mais que estivesse acostumada com homens bonitos, Isabelle não conseguia não ter vontade de suspirar cada vez que Sirius abria um daqueles sorrisos ou ainda quando ele falava com aquela voz arrastada...
— Sabe? Eu gostaria muito que você tivesse estudado na minha época em Hogwarts. Claro que o James teria se interessado por você também, o que seria uma pena.
Belle riu, entrando na brincadeira.
— Claro que ele teria se interessado por mim. Mas eu não consigo imaginar como eu trocaria isso — apontou para ele — por outra coisa qualquer, ainda mais se "isso" estivesse na minha sala todos os dias.
— E você sabe lá se eu era feio?
— Ah, sei sim.
— Pois bem, eu não era feio. Mas James era meio que o garoto mais desejado da escola. Aquela coisa dele ter os cabelos despenteados, ser, sei lá, sarado e capitão do time de futebol, e bonzinho. Ou seja, uma versão bem menos cafajeste minha.
— Uhm... — ela fingiu refletir sobre a situação — Mas sabe o quê? Nada me dá mais tédio do que um bom moço. Cafajestes, entretanto...
Sorriu para ele e foi cumprimentar Harry, que acenava frenético em sua direção, obviamente avisando que ela se esqueceu de dizer oi.
Alguns minutos depois chegaram Rony, Hermione, Fred e George. Charlie ainda estava na Romênia. O que fazia lá exatamente, ninguém sabia, mas ele dizia que trabalhava como antropólogo, estudando e buscando fósseis de criaturas legais que já não existiam mais, como dinossauros.
Gui também trabalhava fora, na França, em um banco famoso. Apesar disso, era — como Gina adorava dizer — descolado. Era quase impossível imaginá-lo em um terno, apesar de ficar muito sexy em um. E Percy, o irmão com quem Gina menos tinha contato, vivia grudado na sua Universidade, provavelmente puxando o saco de algumas pessoas importantes.
A tarde passou rápida com todo mundo conversando e se divertindo. Gina não ficou espantada de ver que Isabelle conseguia dividir seu charme igualmente entre Guilherme e Sirius, e os dois mal pareciam notar. Do Sirius Gina não tinha a menor pena. Sabia que ele não queria mais que se divertir e que Isabelle sabia proporcionar diversão — não só do tipo que as mentes más dos dias de hoje pensam, mas também pela sua presença, que era, no geral, divertida.
Mas de seu irmão ela tinha um pouco, além de um pé atrás, porque sabia que ele era bem capaz de acabar se apaixonando por aquela louca. Ela fazia exatamente seu tipo.
Quando, porém, ficou perto da hora do jantar, Isabelle disse que precisava ir para casa, pois já tinha combinado de sair com os pais antes de viajar. Rony, aproveitando que Hermione também queria ir, deu carona para ela. Gina ficou mais um pouco, rindo bastante de seus irmãos, Fred e George, que contavam casos e mais casos engraçados da loja que tinham aberto: Gemialidades Weasley. Quando escureceu, foi com eles, pois Gui sairia com Sirius mais tarde para algum pub. Harry foi para casa dos Weasley também, para não ficar sozinho à noite.
Gina, assim que chegou a seu quarto, deitou na cama. Estava cansada, mas sabia que seria impossível dormir. A viagem era amanhã!