Capítulo 15
Acerto de contas
Quando a noite chegou, a maioria dos habitantes do castelo ainda não tinha se refeito da chegada espetacular do Xerife de Nottinghan. Bem, talvez, espetacular fosse um adjetivo forte demais. Afinal, a palavra, provavelmente, tinha mais a ver com ursos amestrados e encantadores de fogo do que com a chegada nada amistosa do visitante. Contudo, Harry tinha certeza, qualquer um que tivesse visto seu pai e Severus Snape se encarando, não deixaria de pensar em ursos e cuspidores de fogo.
Harry já tinha deduzido algumas coisas sobre Snape, pelo que juntara de conversas aqui e ali e, claro, pela que entreouvira James e Dumbledore falando. A primeira conclusão era bem óbvia: seu pai e o novo xerife se odiavam. Profundamente. A segunda, a julgar pelas palavras de James, era a de que Snape não odiava Lily, muito pelo contrário. Mas Harry não conseguiu saber se as rusgas dos dois haviam começado ou não por causa dela. O que sua mãe sentia a respeito de Severus Snape é que era um mistério. De qualquer forma, Harry decidiu que não gostava dele no instante em que chegou ao pátio para saudar Dumbledore e os olhos dos dois se cruzaram. O xerife era um homem mirrado, de cabelos escuros e oleosos que caiam como uma cortina sem vida ao lado de um rosto descorado. Tinha o nariz adunco e os lábios crispados num mau humor, aparentemente, permanente. Mas o que chocou e decidiu Harry contra ele foi o fato de que, nunca, em toda a sua vida, alguém o olhara com tanta raiva. E para quem fora criado na casa de Vernon Dursley isso era um feito. Era como se a própria existência de Harry afrontasse alguma coisa muito importante e sagrada no entender de Severus Snape.
Dumbledore, porém, abriu um largo sorriso ao vê-lo. Ele acabara de desmontar elegantemente de seu cavalo – um animal alto e castanho – e parecia completamente alheio a tensão que, muito provavelmente, causaria.
– Harry! Meu jovem amigo! – Ele se adiantou e apertou efusivamente a mão de Harry.
O garoto correspondeu com simpatia. Estava realmente feliz em rever o alquimista.
– Olá senhor. Fez boa viagem?
– Excelente, meu rapaz, excelente. Aparatar é rápido, mas nada se compara a uma boa jornada a cavalo, sentindo o vento e percebendo a terra mudar em mais uma estação... – ele completou num tom quase sonhador. Então, parecendo descer à terra, o velho bruxo percebeu educadamente que Harry estava acompanhado. – Ah, vejo que estão quase todos os jovens aqui – falou com um sorriso encantado. – Minha bela Lady Marian – ele beijou a mão de Marian. – Lady Hermione! Então minha cara, como vão nossas aulas? Seus tutorados têm dado muito trabalho?
– De forma alguma, senhor – respondeu Hermione, orgulhosa. – O senhor ficará contente com nossos resultados.
– Ah, eu tenho certeza, eu tenho certeza. – Ele se adiantou e, com o mesmo entusiasmo, saudou Ron, Neville e Ginny. Depois, ele retornou para junto de onde estava o homem de cabelos escuros, ainda silenciosos e com os olhos presos em Harry, e o apresentou. – Bem, eu não creio que vocês conheçam o novo xerife do condado de Nottinghan. Este é Severus Snape. Severus, este é Harry – apresentou com um orgulho evidente, mas o complemento fez com que Snape torcesse o rosto como se estivessem lhe pisando no pé – o filho de Lord e Lady Potter. Os outros jovens encantadores, e meus alunos, em magia são Lady Hermione, irmã de Lord Potter; – o olhar de Snape para Hermione não foi muito melhor do que o que ele dirigia para Harry – Neville, filho de Lord e Lady Longbotton, mas por hora servindo como escudeiro a Lord Pettegrew. Você conhece Pettegrew, estou certo. – Snape rosnou alguma coisa em resposta. – Ah, esta encantadora jovem é Lady Marian, protegida de Pettegrew. E, claro, Ronald e Ginny Weasley. Você com certeza já ouviu falar dos Weasley, não é? Artur Weasley é o castelão de James e... Oh, por falar em James.
Uma das portas para o pátio se abriu naquele instante e James saiu por ela andando resoluto em direção ao grupo. Remus e Peter estavam imediatamente atrás dele, com semblantes preocupados, e Harry pode ver que Lily, com o rosto muito aflito, os acompanhava.
Foi ainda mais estranho.
Contrastando com o falatório animado de Dumbledore, a chegada do pai de Harry pareceu ser capaz de tornar a situação quase alarmante. A tensão preencheu o ar de forma perigosa e Harry teve certeza de que não fora somente ele que percebera que seu pai vinha armado, com a espada embainhada presa ao cinto e, junto dela, ao alcance da mão, a varinha. Remus e Peter não estavam com as espadas, mas as varinhas estavam bem à vista. Só isso já era o suficiente para causar aflição. Afinal, Harry jamais vira seu pai andar armado dentro da própria casa.
Pelo canto dos olhos, Harry viu quando Snape imediatamente levou a mão ao punho da própria espada, enquanto a outra mão mergulhava em sua capa, com certeza, para encontrar sua varinha.
– James! – saudou efusivamente Dumbledore.
A voz animada do bruxo pareceu deslocada em meio à tensão do pátio. Mas, Harry tinha certeza de que ele havia percebido todos os detalhes aterrorizantes da situação, apenas não pretendia dar espaço para que qualquer coisa além do razoável acontecesse. Obviamente não era essa a disposição de James, ele mal pareceu registrar o cumprimento alegre do alquimista.
– O que ele faz aqui, Dumbledore?
O sorriso do bruxo desapareceu, mas ele não alterou a expressão controlada.
– Temos assuntos em comum para discutir, James. Creio que essa conversa seja necessária antes de Severus assumir definitivamente seu novo cargo.
– E você o traz à minha casa? – James perguntou entre os dentes, sem se deixar convencer.
– Caso não tenha percebido, Potter – a voz de Snape combinou perfeitamente com sua expressão, era provocativa e desdenhosa, cheia de rancor – eu sou uma autoridade! O selo real exige que eu seja recebido em qualquer casa do condado.
Harry achou que James pularia no pescoço do homem.
– James, acalme-se – sussurrou Remus segurando o amigo pelos ombros, com a ajuda de Peter.
– Na minha casa a lei sou eu, Snape!
A réplica de Snape foi calada com um olhar de Dumbledore. Depois, o alquimista se voltou para James, encarando-o severamente por sobre as lentes em forma de meia lua.
– James, meu amigo, somos todos adultos e temos, acima de nossos gostos pessoais, uma missão e um propósito. Acredite, eu não traria Severus a sua casa se eu não tivesse a plena convicção de que ele é um aliado em nossa luta e de que ele fará tudo ao alcance dele para proteger o seu filho.
Um silêncio incômodo seguiu às palavras do alquimista. Nem James, nem Snape retiraram as mãos de suas espadas e, tampouco, Remus e Peter largaram o amigo. Foi Lily quem, para o óbvio rancor de James, se manifestou.
– Sendo assim – ela disse em voz alta, depois caminhou para ultrapassar James, Remus e Peter e parou a alguns passos de Snape – seja bem vindo a esta casa, xerife.
O tom, a postura, tudo nela indicava uma perfeita dama. Harry já estava se acostumando a ver mais freqüentemente essa mãe tão diferente da mulher que o tinha criado, porém, Lily parecia muito à vontade no papel. O jeito dela não impressionou apenas a ele. Os olhos negros do visitante brilharam como se apenas naquele momento ele tivesse percebido a presença dela em totalidade. Havia um ar de deslumbramento no rosto dele enquanto inclinava a cabeça e dizia de forma quase reverente:
– Milady...
Ela não sorriu, quando inclinou a cabeça. Depois, se dirigiu um pouco mais calorosa para Dumbledore.
– Ficamos felizes com seu regresso Dumbledore, vou providenciar acomodações para que possam descansar e se revitalizar. Contudo, eu peço para que deixem esses assuntos mais... complicados para amanhã. Deve lembrar que estamos em meio a uma festa por aqui, não é?
Dumbledore abriu os braços, parecendo muito satisfeito com a intervenção da mãe de Harry, e sorriu largamente.
– Ah com certeza, Lady Lily! A sagração de nosso bravo Percy Weasley como cavaleiro! É um evento maravilhoso! Molly e Arthur devem estar estourando de orgulho. Onde eles estão?
A conversa pareceu desanuviar um pouco o ambiente e Dumbledore ofereceu o braço para Lily guiá-lo para dentro do castelo. Severus continuou parado no mesmo local, assim como James. Foi preciso que Dumbledore chamasse o xerife para segui-los e que Remus e Peter continuassem contendo James pelos ombros. Depois que os três sumiram nas portas largas do castelo, Remus ergueu a voz e dispersou os curiosos que ainda estavam por ali. Peter fez um gesto para que o grupo que cercava Harry também fizesse o mesmo. Harry já estava saindo com eles quando ouviu a voz imperativa do pai.
– Harry, você fica! Preciso falar com você.
Hermione, Rony e Ginny ficaram se virando para trás até sumirem por uma das portas e James dispensou Remus e Peter com algumas palavras em voz baixa. Os dois cavaleiros entraram rapidamente no castelo, indo pela mesma porta em que Dumbledore, Lily e Snape haviam sumido. James ainda ergueu a voz num chamado e, como que por encanto, Hagrid e Little John apareceram quase ao seu lado.
– Little John arrume acomodações para a comitiva do xerife. Quero que todos os soldados sejam bem tratados dentro desta casa – e, virando-se para os homens do xerife, acrescentou em voz ainda mais alta – e espero que vocês retribuam respeitando-a.
Os homens o olharam com alguma impertinência, na opinião de Harry, mas assentiram. James se voltou para Hagrid.
– Hagrid, por favor, providencie baias, água e comida para os cavalos. Eles devem estar cansados.
– Com certeza, Sir – concordou o gigante e, sem dar atenção às expressões estupefatas dos soldados, Hagrid recolheu rapidamente todas as rédeas e saiu puxando os animais em direção aos estábulos.
Harry viu o pai respirar fundo alguma vezes e depois ele fez um sinal para que o garoto se aproximasse, assim que ele chegou ao seu lado, James se pôs a caminhar em direção aos portões. Levou ainda algum tempo para que ele começasse a falar. Os dois já cruzavam a ponte sobre o fosso quando, com esforço evidente, James começou.
– Esse homem...
– Você não gosta dele, não é? – atalhou Harry.
Deu para ver James segurar uma ironia, mas ele se limitou a um meio sorriso antes de responder.
– É, não gosto. E gosto menos ainda de ele estar dentro da nossa casa. E, apesar de tudo o que Dumbledore venha a dizer, eu não confio nele. Foi por isso que eu o chamei para conversar, filho.
James parou de andar no fim da ponte, numa distância segura dos guardas que montavam sentinela ali.
– Enquanto Snape estiver por aqui, eu quero que você fique o mais longe possível dele, entendeu? E isso é uma ordem, Harry. Uma ordem que eu não espero vê-lo desobedecer. E eu quero que você figure muito claro na sua cabeça que uma ordem minha, direta, para você, é superior a qualquer coisa que Dumbledore ou Lily venham a lhe dizer, você entendeu?
– Por que está me dizendo isso, dessa maneira? – Harry percebeu o tom de mágoa em sua voz e tentou ocultá-lo quando falou novamente. – Eu respeito tudo o que você me diz.
– E também ao que diz Dumbledore e – James fechou os olhos por um segundo antes de encará-lo – eu nem imagino competir em sua relação com sua mãe, Harry. Por anos foram apenas vocês dois e eu tenho medo que seu amor por ela, o faça seguir o julgamento dela quanto a esse... esse...
– Eu sei pensar sozinho, pai.
A frase pareceu surpreender James, depois o fez sorrir largamente. Ele colocou as mãos sobre os ombros de Harry e olhou dentro dos seus olhos.
– Eu não quero que nada nos afaste novamente, meu filho. Nada! Isso seria a morte para mim. Você entende?
Harry lhe sorriu de volta.
– Entendo sim, pai.
– Vai fazer o que eu... – ele hesitou – pedi?
Talvez James não soubesse o quanto Harry confiava nele. Uma confiança que não poderia ser descrita pelo tempo de convivência ou pelas ações. Era algo que Harry nem conseguia calcular de onde vinha. Era infantil e irrestrita. Mas ele mergulhara feliz nela assim que sua intuição a mostrou.
– Eu acho que você nem precisava ter pedido.
Nenhum dos dois conseguiu sustentar o olhar por muito tempo. Harry ficou um pouco constrangido com o jeito com que o pai, cheio de orgulho, o abraçou. Ele jamais culparia sua mãe por tê-los afastado, mas nunca, também, deixaria de sentir que sua infância fora roubada por ele não tê-la passado ao lado do pai e da mãe, que era como devia ser.
Pouco tempo depois, ele corria para se reunir novamente com os amigos. Encontrou Hermione, Ron e Ginny no jardim que existia na parte externa dos muros e que dava para o lago. Neville tinha sido chamado por Peter e Marian fora auxiliar Lily na recepção aos hóspedes. Os três estavam muito curiosos em relação à conversa de Harry com o pai e assim que o garoto contou, nenhum deles se furtou a dizer coisas negativas sobre o tal Snape.
– Mas apesar disso, acho que Dumbledore tem razão – comentou Hermione. – James tem que ter cuidado de não hostilizá-lo tão abertamente. Ele é um dos homens do rei.
– Ele pode ter sido responsável pela separação dos meus pais! – objetou Harry revoltado. Estava disposto a odiar Snape com todas as forças, sem fazer concessões a qualquer tipo de prudência política.
– Eu não sei, Harry... – falou Hermione pensativa. – Dumbledore não acredita nisso. Ou não teria o trazido aqui.
– Dumbledore não é infalível, Hermione – disse Ron e a garota o encarou com seriedade. – Ok, ele é o máximo e tudo mais, mas ninguém é infalível. Eu conheço cada história desse Snape... Papai fala horrores dele. Eu não me surpreenderia se ele estivesse enganando o alquimista.
Os dois garotos trocaram um olhar cúmplice e sustentaram o argumento, muito senhores de si. Hermione deu um bufo e voltou-se para Ginny pedindo ajuda para a sua posição. A menina estava sentada em uma pequena mureta balançando os pés longe do chão.
– Bem, se querem a minha opinião – ela começou – eu não acho que Dumbledore esteja enganado. – Harry e Ron lhe lançaram olhares de “traidora” e Hermione os encarou triunfante. – Todos confiam no julgamento de Dumbledore. Inclusive os nossos pais. Mas eu achei o homem odioso assim mesmo, se querem saber e... – ela olhou para Harry e depois para Hermione – bem, ele encarou lady Lily de um jeito... Eu entendo Sir James não gostar nem um pouquinho dele.
Os quatro ainda gastaram uma boa parte da tarde discutindo sobre o xerife e o que a sua chegada iria significar para a vida de todos por ali. Só não alongaram mais a conversa porque Molly Weasley os veio buscar, praticamente pelas orelhas, para que se arrumassem para a cerimônia do início da noite. Ela pegou mais pesado com Ginny, que teria um papel fundamental na festa.
Quando o sol começou a se pôr todos estavam prontos. Os habitantes – e os visitantes – do castelo se reuniram no pátio em frente à entrada da capela. Como esta era pequena demais para receber a todos e estava sendo preparada para a noite de vigília de Percy, um altar fora montado junto à porta. O capelão de Godric’s Hollow celebraria a missa e dirigiria o ritual. O homem era um frei gordo, jovem, bonachão e, claro, bruxo. E, até onde Harry sabia, nenhuma pessoa por ali via qualquer inconveniente nisso. É claro que, nos tempos atuais, posições como a do frei Tuck ficavam cada vez mais difíceis. Havia setores da igreja que tinham uma desconfiança cada vez maior com os bruxos. Um deles em suas fileiras, atuando numa comunidade mista de bruxos e comuns, era algo cada vez mais difícil de ser visto e, por muitos, de ser aceito.
Após a missa – Harry, Ron e os gêmeos ganharam grandes cutucões nas costelas por não conterem o riso quando o frei cantava as passagens – iniciou-se a cerimônia de sagração de Percy como cavaleiro. Ela só terminaria no dia seguinte, ao fim da vigília das armas, mas, antes disso, o novo cavaleiro deveria receber um novo batismo. Foi nesse momento que toda a vontade de rir sumiu dos meninos presentes. Não havia nada que aqueles garotos ansiassem mais que o dia em que se tornariam cavaleiros. Fred e George chegaram até mesmo a olhar com respeito para Percy quando ele foi trazido por Remus e Peter até o centro da cerimônia.
Então, os dois cavaleiros despojaram o rapaz de suas roupas de escudeiro, deixando-o apenas com os calções. Levaram-no até uma bacia de prata, onde ele entrou com os dois pés. Os dois padrinhos o ladearam, enquanto frei Tuck derramava água benta sobre a cabeça do rapaz, como batizado-o novamente para servir ao Senhor. Percy tremeu com o frio do fim da tarde, mas logo seus padrinhos o enrolaram em um grande pano de linho branco. Fred e George trouxeram uma cadeira e Percy sentou, sem tirar os pés da bacia. Foi então que as pessoas abriram espaço para que Ginny passasse. Ela vinha com uma longa túnica branca e uma coroa de flores secas.
A menina se ajoelhou diante do irmão e começou a lavar-lhe os pés. Harry olhou para Hermione pedindo uma explicação.
– Faz parte da purificação dele – explicou Hermione aos sussurros. – Ginny é donzela e pertence à família dele, então, ela representa a pureza.
– Ahh...
Ela deu de ombros.
– Na sua vez, provavelmente serei eu. – Harry arregalou os olhos e Hermione riu baixinho. Ele, às vezes, esquecia que Hermione era sua tia. Na maior parte do tempo, ela era como se fosse sua irmã. Bem, fazia sentido, então, se era preciso alguém da família. – Se eu já não estiver casada, é claro – ela completou.
O som da palavra fez Ron se virar para eles tão rápido que foi possível ouvir um creck em seu pescoço. Artur deu um cutucão no filho e lançou-lhe um olhar que o fez desistir de falar. Harry e Hermione se calaram e também se voltaram para frente.
Nesse instante, Ginny terminava sua parte no ritual. Ela secou os pés de Percy e se afastou. Então, Remus e Peter calçaram o rapaz com sandálias de pescador e ele pode pisar no chão. Já em pé, o linho foi tirado de suas costas e substituído por uma camisa longa e muito fina que os dois padrinhos o ajudaram a vestir. Sobre ela, uma túnica vermelha foi colocada e amarrada com um cinto de corda. Frei Tuck abençoou Percy mais uma vez e ele e seus padrinhos caminharam para dentro da capela. Antes de entrarem, Remus e Peter carregaram com eles as armas de Percy que haviam ficado todo o tempo ao pé do altar. Quando eles retornaram, as portas da capela foram fechadas e essa parte da cerimônia acabou.
James ergueu a voz e, como anfitrião, convidou a todos para se acomodarem enquanto diversas mesas longas começavam a espocar pelo pátio, obra, certamente, dos elfos domésticos. Imediatamente o pátio se encheu de riso e de conversas altas dando início à grande festa daquela noite. Durante os preparativos, se havia decidido que, apesar do frio do outono, o banquete seria no pátio porque no salão grande não haveria espaço para todos. Mas barrar o frio era fácil quando quase todos os convivas ali presentes eram bruxos. Assim, logo muitos dos homens e mulheres que ali estavam, sacaram de suas varinhas e se puseram a conjurar lanternas que, presas em postes, distribuíam ao mesmo tempo luz e calor em uma estranha luz azul.
Em questão de instantes, uma bolha morna cobria todo o pátio do castelo e sob ela, uma grande quantidade de mesas soçobrava de iguarias de encher os olhos. Javalis assados, faisões, cisnes recheados com codornas ao mel, bolos de passas, imensos pães brancos, frutas em compotas, secas e frescas, conservas de todos os tipos de legumes, pudins de carne e de rins, enormes jarras com vinho, cerveja e hidromel, abarrotavam cada pequeno espaço das longas pranchas de madeira.
– Deus abençoe – suspirou Ron se acomodando ao lado de Harry em uma mesa – que só o Percy precise jejuar.
Harry não precisou olhar para Hermione para vê-la revirar os olhos, Ginny riu baixinho. Ela estava parecendo uma fadinha – daquelas das histórias trouxas – com aquela roupa, talvez por isso não tenha querido trocá-la. E, como todos da família Weasley, estava muito feliz e nunca parava de sorrir. Harry sabia que era graças à proteção de seu pai que os Weasley estavam conseguindo armar seu terceiro filho cavaleiro. Ele se sentiu orgulhoso por isso. Imaginou que, no futuro, quando ele fosse o senhor, queria saber ser tão generoso quanto seu pai era.
As mesas somente pararam de se encher de comida quando os convidados mal podiam permanecer sentados sem afrouxarem os cintos. Então, um grupo de músicos, que James havia mandado buscar em Londres, e que estava em um pequeno estrado em um dos extremos do pátio, mudou o ritmo das músicas, algumas mesas foram afastadas e, logo, muitos se entusiasmaram para começarem a dançar. Hermione deu várias indiretas de que adoraria dançar, mas Harry e Ron fizeram de conta que não haviam percebido que a insinuação era para eles. Ron, porém, fechou a cara quando ela aceitou, muito feliz, o convite de Neville. Até Ginny parecia estar aproveitando o fato de que seus treze anos já completos não a fazia mais contar como criança. E, como estava muito bonita, quase não ficou sentada. Dançou com o pai, com os gêmeos, com Neville (nesta dança, Fred substituiu-o como par de Hermione) e várias com Seamus Finninghan. Harry ficou se perguntando se os irmãos não a achavam jovem demais para ficar flertando daquele jeito. Ele achava. E Ron concordou com ele. Porém, a Sra. Weasley não deixou que ele interrompesse as danças de Ginny, e Harry e Ron sentaram num canto, de braços cruzados e cara amarrada pelo resto da festa.
Apesar disso, a noite bem que poderia ter acabado por aí.
Contudo, quando nada mais de interessante parecia que ia acontecer, Harry viu sua mãe deixar discretamente o pátio e também viu quando Severus Snape a seguiu. Suas entranhas se remexeram desconfortavelmente. Tentou não fazer nenhuma idéia do que aquilo poderia significar, porque tudo o que lhe ocorria era odioso demais. Levantou da cadeira, disposto a segui-los, porém duas coisas o impediram. Primeiro, ele percebeu que James tinha visto os dois se afastarem e a expressão do pai era de tal dor que Harry considerou imediatamente ir até ele. James havia levantado de sua cadeira e saído do pátio também, mas numa direção completamente oposta. O segundo impedimento veio de Dumbledore. Ele chamou Harry e encetou uma conversa sobre os progressos do garoto em magia, não dando espaço para que ele soubesse o que aconteceu a seguir.
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Naquela noite, a balaustrada que se estendia sobre o lago, estava vazia. A grande maioria dos convidados permaneceu no pátio, onde havia música, dança, comida e bebida à vontade. Lily especulou consigo mesma que, provavelmente, os casais de namorados, que buscassem alguma privacidade, poderiam ser tentados a virem até ali. Contudo, poucos seriam tão ousados em ultrapassar partes íntimas do castelo para chegarem àquele lugar. Além disso, estava frio, pensou enquanto se aconchegava no xale que precisara conjurar ao sair do pátio aquecido. Se bem que, frio certamente não seria um problema para apaixonados.
– Lily...
Ela voltou-se com um pequeno sorriso enquanto observava Severus se aproximar com passos largos. Ele tomou suas duas mãos nas dele e beijou-as com imenso carinho.
– Como vai, Severus?
– Olhando para você novamente – ele disse enlevado – estou melhor do que nunca. Obrigado por ter aceitado vir encontrar comigo. Não achei que... seu marido permitiria.
O sorriso de Lily sumiu um pouco e ela retirou delicadamente as mãos das dele. Por alguns instantes ficou indecisa sobre o que responder, mas achou que James não era o melhor tópico para começar uma conversa entre eles. Então, aproximou mais o xale do corpo e seguiu outro rumo.
– Como eu poderia não aceitar conversar com você, Severus. Depois de tantos anos. Além disso, da última vez em que nos encontramos...
– Não falemos nisso – pediu ele.
– Eu espero que não guarde nenhum rancor de mim.
– Não! – protestou ele. – Você estava amedrontada, confusa e havia sofrido uma grande decepção. Não creio que eu tenha sido muito sensível em me declarar a você naquele momento. Espero que tenha me perdoado.
Foi instintivo para Lily baixar os olhos. Ela nunca conseguia olhar de frente para Severus quando ele falava daquele jeito. Era estranho, mas suas palavras quase sempre lhe soavam como um texto previamente decorado – correto, sem dúvida – e que ele recitava com perfeição. Não era sempre, mas freqüentemente ele lhe causava esta impressão. É claro, ela sabia por que era assim. Severus não fazia nada sem pensar muito bem antes. Nada mais distante dele que a eterna impulsividade de James, sempre fazendo as coisas como lhe davam na veneta no instante em que começava a fazê-las.
– É claro que o perdoei, Severus. Como eu disse, foi há muito tempo.
– Ainda assim... – ele se aproximou mais dela – nada mudou para mim.
Lily deu um passo para trás e o rosto de Severus se torceu brevemente, mas logo a expressão composta e carinhosa estava lá mais uma vez.
– Eu duvido, Severus – ela falou em tom de graça. – Tantos anos na corte. Tantas damas belas e educadas a sua volta.
Ele não embarcou no tom dela, manteve o rosto sério e intenso.
– Você é única, Lily. É a única para mim. Sabe disso. – Severus fez um gesto para tomar-lhe a mão outra vez, mas ela escapou delicadamente.
– Eu preferia que você não voltasse a isso, Severus.
A máscara educada caiu dessa vez, e ele crispou os lábios.
– Então... você voltou para o seu marido.
Lily deu um suspiro.
– Não é bem assim, Sev. Estou aqui porque Harry está aqui. Estarei onde meu filho estiver.
Um ricto satisfeito apareceu no canto da expressão dele, mas seu olhar dizia mais. Estava exultante.
– Há quanto tempo estão aqui?
– Alguns meses. James nos encontrou e... bem, se tornou impossível separar Harry e ele.
– Ele a arrastou para cá usando o seu filho! – acusou Severus.
– Não foi isso que eu disse...
– Mas foi o que ele fez, não foi? Típico de James Potter!
Ela cruzou os braços e o encarou.
– Ainda está decidido a odiar qualquer coisa que ele faça, não é?
– Até que a morte nos separe – rosnou ele cheio de sarcasmo.
Por um instante, Lily negou com a cabeça.
– Eu gostaria muito que fosse diferente, Severus. Estamos do mesmo lado, lutamos pelas mesmas coisas. Você é, apesar de tudo, minha única e verdadeira família e... – não foram as palavras que faltaram, mas a expressão de Severus que a calou. Lily, no entanto, respirou fundo e decidiu continuar. Afinal, era tristemente óbvio que Severus ainda mantinha esperanças em relação a ela. Esperanças que ela jamais poderia lhe dar. – Eu sinto muito, Sev. Eu continuo amando você da mesma maneira que há treze anos. Você é como um irmão para mim, meu único e...
– Não – a voz dele a interrompeu num lamento e ele pegou as mãos dela trazendo-a para perto. – Você bem disse: isso foi há muito tempo, Lily. Agora, talvez, haja uma chance para nós. Quem sabe, logo, você possa me ver com outros olhos. Somos diferentes do que éramos, Lily. Estamos mais velhos, vivemos muita coisa. Eu tenho certeza de que conversando, nós encontraríamos não só nossa antiga camaradagem, mas mais!
Era possível sentir que ele via promessas onde não havia e isso machucou Lily. Ela procurava nunca ter pena de Severus, porque sabia que ele a odiaria por isso. Mas, como ela poderia não magoá-lo outra e outra vez, se ele não se convencia de que, entre eles, nada mudaria. Nunca. Lily retirou uma das mãos, ergueu-a e emoldurou o rosto dele.
– Eu sinto tanto, Severus... tanto. Gostaria que entendesse – ele retesou sob sua mão. – Não há como isso acontecer.
Severus recuou, saindo de perto dela. Seu rosto perdera qualquer traço de cortesia ou bondade.
– É ele, não é!Sempre ele. Isso é uma doença, Lily! E depois de tudo o que ele fez a você! Ele a traiu!
As palavras foram cuspidas com ódio, mas machucaram muito menos a Lily do que ela teria imaginado. E isso só era possível por que, no fundo, ela sabia que aquilo não era verdade. E, talvez, depois de tantos anos “servindo” Voldemort, Snape soubesse mais do que dizia a ela. Afinal, ele nunca diria nada que pudesse favorecer James, não é? Disposta a arrancar o que pudesse, ela ergueu o queixo e o enfrentou.
– Se James fosse um dos homens de Voldemort, por que o próprio Voldemort o considera um problema?
Houve um ligeiro titubear na atitude de Severus quando ela falou aquilo.
– Como... como sabe disso?
– Por uma ótima fonte.
– Potter e os amigos dele – desdenhou Snape.
– Pelos homens de Voldemort – a resposta novamente o desarticulou. Lily preferiu não dizer que fora Harry quem ouvira a informação, mas também viu ali a oportunidade de tirá-la a limpo. – Eu os ouvi por acaso, em uma taberna, na aldeia próxima à casa da minha irmã. James nunca foi um deles, não é?
– Lily, eu...
Mas ela avançou sem lhe dar chance de retrucar.
– Você me disse, há treze anos, que não havia como saber. Que nem todos do círculo de Voldemort se davam a conhecer, muitos copiavam o mestre e se escondiam nas sombras.
– E é verdade, eu...
– Não minta para mim, Severus! – A calma de Lily, que ela usava tão cuidadosamente para ocultar o temperamento explosivo, tinha ruído de vez. – Você sabia! Você sabia que James não era um deles! Não era por que ele e os amigos sempre foram um problema para os planos de Voldemort! E mesmo assim me deixou pensar...
– Comensal da Morte ou não – Snape ergueu a voz para interrompê-la – ele ainda estava com outra mulher na cama!
– Estava? – duvidou ela. Um pequeno demônio em sua mente a instigava a colocar Severus Snape mais e mais contra a parede. Ela sabia que ele não a amava como uma irmã, mas jamais achou que ele poderia jogar tão baixo. Algo lhe dizia que ele poderia ter ocultado muito mais para fazê-la ficar com ele. Era isso que ele lhe tinha proposto há treze anos. Ele fugiria com ela e Harry, mas como seu homem e não como seu amigo. Lily tinha recusado e achara melhor que ele não a ajudasse em sua fuga. De fato, até mesmo dele, ela tinha fugido. Agora, porém, as coisas que ela não quisera ver por estar magoada e cheia de dor vinham em enxurrada a sua mente. – Eu posso citar uma boa quantidade de feitiços que colocariam isso em questão.
– O que? – ele desdenhou. – Imperius? Todos sabem que isso funciona muito mal com o seu marido! Ele não é famoso por sua resistência? Um filtro amoroso? Até poderia ser, mas se ele a amasse, pensaria que a mulher com ele era você. Iria chamá-la pelo seu nome! Mas não foi o que você viu, foi?
– Um metamorfogo poderia tê-lo imitado!
– Um metamorfogo não poderia imitar a voz! Você mesma afirmou que não confundiria a voz dele!
Lily respirou rápido.
– Bem, ainda tem a poção de Mérlin, não é mesmo?
Uma palidez mortal cobriu o rosto de Severus e ele não foi rápido o bastante para ocultá-la. A luz da lua crescente o tornou quase cadavérico.
– Isso... é uma lenda.
– Eu tive muito tempo para pensar nisso nos últimos meses, Severus. Milhões de possibilidades... Então, eu me lembrei, você tinha obsessão por descobri-la quando éramos garotos, não tinha? – ela pressionou-o mais. – Talvez, até tenha descoberto.
– Está sugerindo...?
– Estou sugerindo que alguém pode tê-la redescoberto e eu não duvidaria se fosse você. Afinal, precisaria ser um gênio em poções, o que você é. E ter uma mente brilhante, o que você tem.
– Isso resguardaria a honestidade do seu amado James e me colocaria como um canalha a serviço do Lord das Trevas. A troca a faria feliz, Lily?
O homem parecia sangrar, mas Lily já passara por coisa pior. Ela já sentira aquela dor muito mais profundamente e ele... ele não a amara o bastante para lhe estender a mão, para impedir que ela sofresse. Poderia se arrepender depois, mas não teve piedade.
– Essa pessoa não precisaria estar a serviço de Voldemort, ela poderia ter simplesmente deixado a fórmula escapar ou...
O rosto de Snape era uma máscara inexpressiva, agora.
– Ou?
– Usado o segredo desta para conquistar uma posição inquestionável no grupo. Convenhamos, isso seria excelente para um agente duplo, estou errada?
Um silêncio se alongou entre os dois e, enquanto Lily esperava que ele respondesse, ela pode ouvir as conversas alegres dos convidados aos longe e o vento gelado mexendo a superfície do lago.
Severus, porém, não se moveu. Ele jamais confirmaria. Ele jamais diria a ela o que ela queria e precisava saber. Contudo, e ao pensar isso seus ombros relaxaram e ela quase sorriu, o silêncio dele era a resposta. Se suas suposições estivessem erradas, Lily sabia que Severus faria qualquer coisa para demovê-la de acreditar nelas. Não ficaria ali, na sua frente, rígido como se tivesse sido congelado, a expressão tão cheia de contrariedade, ódio, raiva, dor.
– Você acreditará no que quiser, Lily – foi o que ele finalmente conseguiu dizer, por entre os dentes.
E, de fato, foi toda a resposta que Lily precisou. Ela lhe deu as costas e saiu apressada em direção ao castelo, tinha algo para fazer e rápido.
– Lily! – gritou Severus e ela se virou. – Nunca terá certeza!
– Eu tenho! – sorriu. – Eu tenho!
Demorou a perceber que estava correndo. Não era apropriado, mas ela nem sonhava em dizer para que suas pernas andassem de outra maneira. Parou afogueada junto a uma das portas que dava para o pátio e procurou por James com os olhos. Levou vários e preciosos instantes para se convencer de que ele não estava lá. Pensou em chamar por Remus, perguntar, mas tudo lhe parecia levar tempo demais.
– Alea! – chamou em voz alta e a elfa apareceu imediatamente aos seus pés com uma reverência formal. Alea nunca escondia que tinha raiva de Lily. Ela fora a babá de James, praticamente o criara após a morte da mãe e Lily fora a mulher que tivera a ousadia de abandonar o seu menino. Em outra situação, Lily não a chamaria, mas Alea era o modo mais rápido.
– O que deseja, minha senhora? – a voz rouca da velha elfa não tinha nada de gentil ou subserviente.
– Onde está James?
Alea cruzou os braços, de má vontade.
– Ele já se recolheu. A senhora poderá procurá-lo amanhã, talvez, depois da missa...
– Ele está no quarto dele? – Lily cortou ansiosa.
– Sim, minha senhora – a outra respondeu ofendida. – Foi o que acabei de dizer, meu senhor James já se recolheu e...
Lily não tinha tempo para a elfa. Depois, a agradaria, faria alguma coisa por ela. Agora, porém, qualquer conversa comprida demais era perda de tempo. Praticamente voou pelas escadas até parar em frente ao quarto de James. Nem parou para pensar, ficou batendo freneticamente na porta, com medo que ele não ouvisse ou fingisse não ouvir. Àquela altura, já pouco lhe preocupava resguardar um mínimo que fosse de dignidade. Só parou de bater quando uma voz incomodada berrou lá de dentro:
– Remus! Vá-embora!
– James, sou eu, Lily! Abra por favor!
Demorou um tempo que pareceu um século antes de ela ouvir os passos arrastados e James finalmente abrir a porta. Ele não parecia, em absoluto, estar pronto para dormir. Havia retirado as roupas de festa, as botas, mas mantinha as calças e a camisa e tinha uma taça nas mãos.
– O que quer, Lily? – ele perguntou sem mudar a expressão mal humorada.
– Conversar.
James encarou a taça cheia com um líquido marrom e depois voltou a olhar para ela.
– Seu senso de oportunidade piora a cada dia – resmungou, e começou a fechar a porta. – Falamos amanhã.
Lily calçou a porta com o pé e arremessou o corpo para dentro do quarto.
– Eu insisto.
Antes que ele reagisse, ela tomou a taça das suas mãos e emborcou de um gole enquanto caminhava até o centro do quarto. Ela queria coragem, mas o que quer que fosse aquilo que tinha bebido, tinha gosto de veneno para ratos!
– Credo! – fez uma careta e tossiu. – Que diabo é isso?
– Uma tentativa do Hagrid de melhorar o whisky dos escoceses – respondeu James. O mau humor parecia ter sido vencido por uma enorme curiosidade. – Ele quer chamar de whisky de fogo ou algo assim – completou.
– É um ótimo nome. Eu estou me sentindo um dragão – ela falou tossindo mais e colocando a taça sobre uma mesa que havia no quarto.
James quase riu. Ainda com a mesma expressão curiosa, ele soltou a porta para que ela se fechasse e a encarou com os braços cruzados sobre o peito.
– É, mas você não veio aqui para debater as invenções alcoólicas do Hagrid, certo? Nem tampouco para surrupiar a minha bebida, eu imagino. Diga Lily, existe algum assunto entre nós que não possa esperar até amanhã?
Ela confirmou com a cabeça várias vezes. Estava quase intimidada com toda aquela frieza, mas Lily tinha um propósito e não se desviaria dele. Pensou em pesar as conseqüências, mas afastou isso da mente com rapidez. Lidaria com as conseqüências depois. Tomou o maior fôlego que conseguiu com a garganta arrebentada pelo maldito whisky e começou.
– Eu vim pedir desculpas. Digo, eu vim pedir que você me perdoe. – Lily desviou um pouco os olhos do rosto confuso dele. – Eu errei (e sei que você adora quando admito isso, como da vez em que admiti que amava você) e – tentou puxar o ar, mas ele não pareceu chegar – o que quero dizer é: eu fui tola e precipitada, e nada que qualquer um venha a me dizer (mesmo que você venha um dia a me perdoar), nada poderá amenizar a minha culpa por ter roubado o Harry de você, por ter arriscado a vida dele, por ter sido tão idiota e facilmente enganada. Até o fim dos meus dias eu vou arrastar e isso e talvez, depois, porque certamente alguém do outro lado vai cobrar o que eu fiz e... eu acho que vou para o inferno.
James havia se aproximado e apegou pelos ombros e a fez olhar para ele.
– Está dizendo que acredita em mim? – Lily confirmou. – Acredita que jamais quis entregar o Harry? – Ela confirmou novamente. – E que nunca a traí com qualquer outra mulher?
– Sim, sim, sim! Eu sei que não mereço, James, não depois de tudo o que causei. Eu terei de pedir perdão ao Harry também, afinal... mas eu precisava, eu queria tanto que você...
As mãos dele colaram-se ao seu rosto e a puxaram para si como se ele pudesse devorá-la. E foi quase isso. Um beijo alucinado a fez quase sair do chão, voar. Lily não esperava nenhum arroubo da parte dele. Mesmo depois do único beijo que ele havia lhe dado, ela jurava que a raiva de James por ela era maior que qualquer sentimento que ele ainda pudesse guardar. Ainda assim, Lily não o interrompeu. Queria tanto beijá-lo que a vontade doía. Pouco importava se depois ele ia culpar a bebida. Lily não se importaria em dar-lhe um porre todos os dias para que ele voltasse a agir com ela como era antes. Suspirou pesadamente. Antes de ela agir como a mulher mais burra do universo e estragar tudo!
No entanto, James não parecia disposto a largá-la ou parar o beijo, sequer em diminuir o ritmo. Lily ficava antecipando cada momento em que as desculpas e o afastamento viriam, mas não aconteceram. Sem que James afastasse os lábios dos dela, Lily se viu erguida do chão e carregada até a cama grande que ficava junto a uma das paredes. Ele a jogou sobre ela, mas não se afastou, continuou a beijá-la e a passar as mãos pelo corpo de Lily com tanta força que parecia ser para ter a certeza de que ela era real. Mas então, ele parou. Lily soltou um lamento baixo, mas ficou quieta. Esperando o que ele diria, só aí ela poderia argumentar.
James se apoiou no antebraço, mas não se afastou dela. Pelo contrário, seu outro braço continuava a prender Lily contra a cama e havia uma curva clara de zombaria no canto da sua boca. Lily o conhecia o suficiente para que aquilo a fizesse respirar mais leve.
– Há algo que eu preciso saber – disse James.
– Sim?
– Você saiu da festa e o Ranhoso a seguiu – afirmou ele. – Vocês conversaram? – Lily confirmou. – Posso saber sobre o quê?
Lily bateu duas vezes a cabeça contra a cama. Devia ter rezado para que ele não a tivesse visto. Ou ao Severus. Mas, ela também podia ter imaginado que algo assim viria pela forma como ele a recebeu.
– Isso é importante?
– Estou curioso.
– Certo – ela ergueu um pouco o corpo da cama, apoiando-se também nos ante-braços. Aquilo colocaria tudo a perder, ela sabia. James odiaria saber que fora uma conversa com Severus que a tinha levado até ali. Mas ela não tinha como mentir, então, arcaria com as conseqüências. Ao fim de tudo, era tudo culpa dela mesmo. Respirou fundo e começou: – Falamos de quanto tempo havia passado, pedimos perdão por nossas atitudes antigas, ele acusou você de ter me arrastado de volta para cá, e pediu novamente que eu me fosse com ele.
A expressão de James não se fechou como ela imaginava que ele faria ao ouvir isso. Ao contrário, ele manteve o mesmo ar que mesclava interesse e deboche, como se antecipasse alguma coisa.
– E então?
– Bem, eu me recusei e ele me acusou de ser doente por você – dessa vez ele deu sorriso tão presunçoso que Lily teve vontade de estapeá-lo. – Mas ele também o acusou de ter me traído.
– Wow! Essa parece ser a parte interessante. O que aconteceu?
– Eu... bem, ele está lá dentro, não é? Freqüenta o covil de Voldemort a mando de Dumbledore.
– É o que Dumbledore acha – desfez James.
– Você quer mesmo levar o assunto para esse lado? – ela perguntou impaciente.
– Não. Claro que não. Continue, por favor.
Lily se deixou cair de novo na cama e fechou os olhos. Era agora que ele se afastaria dela e pediria que ela fosse para o próprio quarto. James a odiaria por precisar da confirmação de Snape para procurá-lo.
– Você não vai gostar – anunciou. – Eu o pressionei. O fiz confirmar que você não era um dos homens de Voldemort. E, ah James! Ele sempre soube disso e me deixou pensar que você era um deles. Ele tentou usar o flagrante para que eu duvidasse de você, mas... ora, ela é um dos tais Comensais, não é? Todos os nossos falam disso. E ele está lá dentro e... grrr. Em resumo – Lily abriu os olhos para encará-lo – se você tivesse uma vez, uma única vez, estado com Bellatrix Lestrange, eu tenho certeza de que Severus não só saberia como faria qualquer coisa para que eu tivesse certeza sobre isso. Mas quando eu o pressionei, ele... ele não conseguiu falar nada.
Ao acabar de falar, Lily sentia o corpo exausto e pesado. Ficou quase imóvel esperando pela reação dele. Esperava a pior possível, mas após encará-la com a mesma expressão debochada por alguns instantes, James desatou a rir. Aquilo com certeza a desconcertou, mas James parecia estar se divertindo muito.
– Foi algo que eu disse?
– Com certeza, minha querida – ele riu mais um pouco, depois voltou a prensá-la de um jeito quase selvagem sobre a cama. – Você se enganou, Lily. Eu simplesmente adorei o fato de você ter obrigado o Seboso a confirmar a minha inocência e depois, pelo que entendi, deixá-lo trovando e vir direto para minha cama.
Para a imensa surpresa de Lily, James estava extasiado. Ela piscou algumas vezes, incrédula até que: Homens!
– Ah, meu Deus – gemeu ela. – Você nunca vai se portar como um adulto, não é James Potter?
Ele gargalhou mais alto ainda. É claro que as palavras dela não soaram como uma crítica, embora ela assim o quisesse. Mas a verdade é que estava feliz demais para insistir nisso. O riso de James estava muito além do mero perdão que ela havia pedido, assim como os braços dele, mantendo-a prisioneira junto à cama...
– Hei! Eu não o deixei trovando para vir direto para a sua cama! Você me jogou aqui!
James fez uma careta de descaso.
– Detalhes, meu amor... além do mais, eu não estou falando do que aconteceu, mas de como eu vou contar.
Ela até tentou bater nele, mas a vontade durou pouco porque James já a estava beijando e livrando-a das roupas como se não tivesse passado um dia sequer, desde a última vez.
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N/B Sônia: O capítulo começando, o Snape surgindo, e a minha ojeriza borbulhando! E o capítulo prosseguiu, e fui aprendendo mais sobre a cerimônia de sagração de um cavaleiro, me divertindo com as peripécias dos jovens, (rir do Frei Tuck cantando é a cara dos gêmeos), e me enternecendo com o CIÚMES que o Harry JÁ sente da “fadinha” dele, bem como com o “crack” delator do pescoço do Rony... ;D - E a ojeriza aquietou um pouco, observando de lado meu divertimento. – E aí Sebosus Mor seguiu a Lily para longe da festa, e bancou o sedutor, e tentou enganar mais uma vez, e difamou o James, outras tantas. E minha ojeriza subiu às alturas! A ponto de ficar difícil ler... Foi aí que, abençoada seja, Lily acordou para o mundo! =D - E deixou o Ranhosão trovando, para ir reto e direto para os braços do James!!!! Yes! Yes! Yes! – Minha alma está lavada, a ojeriza aplacada e meu coração feeeeeeliiiiiiiiiiiiiiizzzzzzz!!!! – Anam amada! F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O!!!! Quando eu crescer quero escrever um décimo de centésimo do que você escreve, ídola minha! Em cada pormenor, em cada lance decisivo, em cada tirada de humor, em cada cena de amor... Fantástico! – Aplaudindo sempre, deixo aqui meu pedido de mais, muito mais, e em breve! =D –Adoro você, Talentosa! Beijos muitos e até o próximo! (Logo?... Por favor?... ;D)
P.S.: Um beijo demorado, estalado, especial e carinhoso na minha afilhada (o)!!!! =D
N/A:
Bem, eu já me desculpei pela demora e agradeço muitíssimo a compreensão de vocês. Obrigada por todo o carinho e desejos de saúde e felicidades para o bebê. Estou aproveitando muito cada segundo dessa fase =D
Agora, sobre o capítulo?
Gostaram?
Confesso que eu gostei, hehe.
Algumas coisinhas que sei que vão perguntar.
Sobre a sagração do cavaleiro: os rituais variaram de lugar para lugar e época para época. Inicialmente, eles tinham uma forma completamente laica, não religiosa. Mas em fins do século XII (onde nossa história se passa), o ritual já tinha assumido muito da religião católica. Além disso, a época das Cruzadas reforçou ainda mais a figura do Cavaleiro de Cristo.
O que escrevi é uma recriação minha, usando alguns elementos históricos, mas com liberdade, ok? Certamente, vocês não acharão isso em algum livro, apenas alguns elementos, como o novo batismo e a vigília das armas. Ainda falta o fim da sagração, mas esta teve de ficar para o próximo capítulo.
Sobre o fim, ahh fiquei tão feliz de finalmente poder escrever o James e a Lily como realmente os imagino e não as pessoas feridas e machucadas que eles foram até agora. Tenho certeza de que, daqui para frente, vocês vão gostar ainda mais deles.
Perdão por não responder aos comentários individuais, vcs sabem que os aprecio imensamente. Mas se for responder, levarei mais tempo para postar. Vocês compreendem, não é?
Prometo que agora nas férias vou responder a todos, bem bonitinho.
Um beijo enorme
meu e do meu filhote
Sally
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