Gina se olhou no espelho de corpo inteiro sem ver a imagem que se refletia no cristal. A mulher alta e magra vestida com um conjunto cor ametista, cuja saia de crepe caía como uma brisa enfeitada, era incapaz de admirar a imagem que lhe devolvia a superfície lustrosa do espelho. A mente de Gins recordava os acontecimentos que se desenvolveram aquela mesma tarde e suas emoções variavam do prazer, à irritação e do desengano à pura diversão.
Uma vez que a Condessa lhes deixou a sós, Gina tinha levado Colin a conhecer os arredores do castelo. Ele se tinha mostrado vagamente impressionado pelos formosos jardins, admirando sua beleza superficial, já que sua mentalidade lógica e racional era incapaz de ver além das rosas e os gerânios para entrar no romance que mantinham as cores, texturas e aromas. Colin se sentiu gratamente surpreso quando divisou o ancião jardineiro e ligeiramente inquieto ante a paisagem assustadora que podia admirar-se do terraço. Ele preferia, segundo suas palavras, algumas casas ou, ao menos, um pouco de tráfego. Gina tinha balançado a cabeça pela sua evidente falta de sensibilidade mas, de uma vez por todas, tinha compreendido o pouco que tinha em comum com o homem com quem tinha compartilhado tantos meses.
Colin, entretanto, sentia-se completamente fascinado pela proprietária e senhora do castelo. Nunca tinha conhecido a nenhuma mulher como a condessa, tinha afirmado com grande respeito. Ela era incrível, acrescentou, e Gina assentiu em silêncio, embora talvez por razões muito diferentes. A condessa parecia pertencer a um trono do qual concedesse suas indulgências, e além disso tinha sido muito amável, ao mostrar-se tão interessada em tudo o que ele havia dito. Oh, sim, tinha concordado Gina em silêncio, tentando sentir-se indignada e fracassando em seu intento. Oh, sim, querido e ingênuo Colin , ela se mostrou terrivelmente interessada. Mas qual era o propósito do jogo que a condessa estava jogando?
Quando Colin foi instalado em seu aposento, estrategicamente escolhido, conforme percebeu Gina, no extremo mais afastado do corredor com respeito a seu próprio quarto, ela foi em busca de sua avó com a desculpa de agradecer o convite a Colin.
A Condessa, que estava sentada em uma elegante escrivaninha tipo Regência em seus vastos aposentos, escrevendo cartas em folhas com seu anagrama, saudou-a com um sorriso inocente que lhe conferia o aspecto do gato que acaba de comer um canário.
- Bem? - A condessa largou a pena e lhe indicou que se sentasse em um divã baixo e decorado com brocado - Espero que seu amigo tenha gostado de seu quarto.
-Oui", Grandmère, estou muito agradecida de que tenha convidado a Colin a passar a noite no castelo.
- Pás de quoi, ma chérie. - A magra mão tinha gesticulado vagamente - Deve pensar neste castelo como se fosse seu lar.
- Merci, Grandmère - disse Gina modestamente, deixando que fosse a condessa quem realizasse o seguinte movimento.
- Um jovem muito educado.
- Oui, Madame.
- Além disso, muito atraente... - fez uma leve pausa - embora em um estilo comum.
-Oiu Madame - assentiu Gina devolvendo a bola ao campo contrário.
A bola foi recebida e enviada de volta imediatamente.
- Sempre preferi traços menos convencionais em um homem, mais força e vitalidade. Talvez - acrescentou curvando os lábios - como os de um pirata, se souber a que me refiro.
- Ah, oui, Madame. - Gina assentiu enquanto mantinha um olhar inocente - Sei perfeitamente a que se refere.
- Bem. - A condessa moveu seus magros ombros - Algumas mulheres preferem homens dominantes.
- Isso parece.
- Monsieur Creevey é um homem muito inteligente e refinado. E também muito lógico e formal.
E entediante. Gina tinha acrescentado a este último comentário antes de falar em voz alta.
- Ajuda as velhinhas a cruzar a rua duas vezes ao dia - disse.
- Ah, uma bênção para seus pais, estou segura disso - decidiu a Condessa, sem perceber a ironia que se desprendia das palavras de Gina ou ignorando-a por completo - Estou certa de que Harry se sentirá encantado de lhe conhecer.
Uma débil sensação de intranqüilidade se instalou no cérebro de Gina.
- Tenho certeza de que assim será.
- Certamente que sim. - A Condessa sorriu - Harry se sentirá muito interessado em conhecer um amigo tão íntimo seu.
A ênfase que tinha dado à palavra “íntima” era inconfundível e a intranqüilidade de Gina aumentou, enquanto todos seus sentidos ficavam em estado de alerta.
- Não compreendo por que teria Harry que se sentir tão interessado no Colin, Grandmère.
- Ah, ma chérie, estou certa de que ele achará seu Monsieur Creevey verdadeiramente fascinante.
- Colin não é meu Monsieur Creevey - corrigiu Gina, ficando em pé e aproximando-se da Condessa - E não acredito que tenham absolutamente nada em comum.
- Não? Perguntou a Condessa com uma inocência tão irritante que Gina fez um esforço para não rir.
- A senhora é uma mulher esperta Grandmère. O que está tramando?
Os olhos azuis da Condessa brilharam com a inocência de uma menina.
- Gina, ma chérie, não tenho idéia do que está falando. - Quando ela abriu a boca para lhe replicar, a condessa se afiançou uma vez mais em sua postura real - Devo terminar minha correspondência. Verei-te a hora do aperitivo.
A sugestão tinha sido absolutamente clara e Gina se viu obrigada a abandonar o ambiente sentindo-se insatisfeita. A violência com que fechou a porta foi a única concessão de seu mau humor.
Os pensamentos de Gina voltaram para o presente. Lentamente, sua magra figura vestida em cor ametista ficou perfeitamente enfocada no espelho. Passou a mão pelos cachos, com ar ausente, e apagou a expressão sombria que tinha no rosto. Jogaremos com muita tranqüilidade - disse a si mesma, enquanto colocava os brincos de pérolas - Ou muito me equivoco ou a minha aristocrática avó gostaria de acender alguns foguetes esta noite, mas as faíscas não chegarão até mim.
Bateu na porta do quarto de Colin. - Colin, sou eu, Gina. Se já estiver preparado, desceremos juntos ao salão. - Colin lhe gritou que entrasse e ela abriu a porta, vendo o homem alto e de aparência agradável que lutava com as abotoaduras - Problemas?
- Muito engraçado. - Colin a olhou com severidade - Não posso fazer absolutamente nada com a mão esquerda.
- Meu pai tampouco podia - disse Gina, muito nostálgica - Mas estava acostumado a amaldiçoar maravilhosamente. Era realmente assombrosa a quantidade de adjetivos que empregava para qualificar a um simples par de abotoaduras. - aproximou-se dele e agarrou seu pulso - Me deixe ajudá-lo . - Gina começou a manipular a pequena abotoadura. Não sei o que teria feito se eu não o acudisse - disse.
- Teria passado toda a noite com uma mão no bolso - respondeu ele brandamente - Teria sido uma espécie de postura educada e muito européia.
- Oh, Colin! - Gina elevou a vista com um amplo sorriso e os olhos brilhantes - Às vezes é incrivelmente encantador.
Um ruído no corredor chamou a atenção de Gina e voltou a cabeça quando Harry passou pela porta aberta e se deteve um instante para observar a cena da moça sorridente que colocava as abotoaduras do homem, enquanto ambos mantinham as cabeças muito juntas. Uma sobrancelha escura se elevou quase imperceptivelmente e, com uma leve inclinação de cabeça, Harry continuou seu caminho deixando Gina ruborizada e desconcertada.
- O que foi isso? - perguntou Colin com evidente curiosidade, e ela se inclinou para ocultar o intenso rubor de suas bochechas.
- Le Comte Potter - respondeu com estudada indiferença.
- Não será o marido de sua avó?
Sua voz estava cheia de incredulidade e a pergunta provocou uma sonora risada de Gina contribuindo a dissipar a tensão.
- Oh, Colin é encantador! - Deu uns suaves tapinhas em seu pulso, onde a abotoadura já tinha ficado firmemente presa, e lhe olhou com olhos faiscantes - Harry é o atual Conde e é o neto de minha avó.
- Oh. - A expressão de Colin se tornou pensativa - Então ele é seu primo.
- Bom... - Gina pronunciou lentamente as palavras - Não precisamente... - Explicou a complicada história de sua família e a resultante relação entre ela e o Conde bretão - De modo que - concluiu, agarrando Colin pelo braço e abandonando o quarto de uma maneira indireta nos poderia considerar primos.
- Primos que se beijam - observou Colin franzindo o cenho.
- Não seja tolo - protestou ela subitamente, perturbada pela lembrança de uns lábios ardentes e exigentes sobre sua boca.
Se Colin se surpreendeu da veemente negativa e do rubor de suas bochechas, não fez nenhum comentário.
Os dois entraram no salão de braços dados e Gina sentiu que seu rubor se intensificava devido ao olhar fugaz mas descarado de Harry. Seu rosto permanecia totalmente inexpressivo e Gina desejou com repentino ardor poder ler os pensamentos que havia detrás daquela fria máscara.
Gina viu que o olhar se desviava para o homem que estava a seu lado mas seus olhos permaneceram inescrutáveis.
- Ah, Gina, Monsieur Creevey! - A condessa estava sentada na elegante poltrona que havia junto à enorme lareira e era a viva imagem de uma monarca recebendo seus súditos. Gina se perguntou se a eleição daquela poltrona tinha sido deliberada ou acidental - Harry, me permita apresentar Monsieur Colin Creevey, dos Estados Unidos, o convidado de Gina.
Gina percebeu que a condessa tinha catalogado Colin como sua propriedade pessoal. - Monsieur Creevey - continuou a anciã sem alterar seu ritmo - me permita lhe apresentar seu anfitrião, Lê Comte Potter.
O título foi sublinhado com delicadeza, estabelecendo claramente a posição de Harry como senhor do castelo. Gina olhou a sua avó com olhos perspicazes.
Os dois homens trocaram algumas formalidades e Gina pôde observar a velha rotina de medir-se, própria dos homens, como se fossem dois mastins estudando ao adversário antes de entrar em combate.
Harry serviu um aperitivo a sua avó e então perguntou a Gina o que desejava beber, antes de dirigir-se a Colin. Ele pediu um vermute, a mesma bebida que Gina tinha eleito, e ela sorriu levemente, conhecendo a predileção de Colin por vodca, martini sem gelo ou os ocasionais conhaques.
A conversação fluiu agradavelmente e a Condessa inseriu numerosos dados pessoais que Colin se encarregou de lhe ministrar àquela tarde.
- É verdadeiramente tranqüilizador saber que Gina se encontra em tão boas mãos em Washington - disse a Condessa com um gracioso sorriso, e continuou, ignorando deliberadamente o olhar de Gina - Faz muito tempo que são amigos, não é?
A leve acentuação, apenas perceptível, da palavra "amigos" fez que Gina franzisse o cenho.
- Sim - assentiu Colin dando uns tapinhas afetuosos na mão de Gina - Nos conhecemos faz um ano em uma festa. Lembra-se, querida?
Colin se voltou com um amplo sorriso e Gina trocou rapidamente a expressão severa de seu rosto.
- Naturalmente. Foi na festa que os Carson deram.
- E agora viajou de tão longe só para lhe fazer uma breve visita. - A Condessa sorriu com carinhosa indulgência - Foi um belo gesto de sua parte, não é mesmo, Harry?
- Muito atencioso - disse ele.
Inclinando ligeiramente a cabeça, Harry elevou sua taça e bebeu lentamente.
Ora sua mulher ardilosa - pensou Ginny - Sabe bem que Colin veio em viagem de negócios. O que é que pretende?
- É uma verdadeira lástima que não possa ficar mais tempo entre nós, Monsieur Creevey. É muito agradável que Gina possa desfrutar da companhia de seus amigos americanos. Você monta a cavalo?
- Montar a cavalo? - repetiu, Colin surpreso - Não, temo que não.
- É uma pena. Harry esteve dando aulas de equitação a Gina. Como progride sua aluna, Harry?
- Muito bem,Grandmère - respondeu Harry, olhando Gina - Tem uma habilidade natural e agora que já perdeu o temor inicial - um sorriso fugaz iluminou o rosto de Harry e ela se ruborizou ao recordar aqueles momentos - estamos fazendo muitos progressos, não é, mignonne?
- Sim - assentiu ela, surpreendida por sua carinhosa atitude depois de vários dias de fria cortesia - Me alegra que tenha me convencido a que aprendesse a montar.
- Foi um verdadeiro prazer.
O enigmático sorriso de Harry não fez mais que aumentar a confusão de Gina.
- Talvez você possa ensinar Monsieur Creevey a montar quando tiver oportunidade. - A Condessa incitou sua atenção e os olhos ambarinos se entrecerraram ao perceber a falsa inocência de sua voz.
Como é intrometida! - estalou Gina internamente - Está incitando Harry e Colin, e eu estou no meio como se fosse um osso apetitoso. A irritação se converteu em um sorriso divertido quando os olhos claros da Condessa se posaram nos dela e um diabo travesso dançou dentro deles.
- Talvez,Grandmère, embora duvide de que seja capaz de dar o salto de aluna a instrutora. Foram somente duas lições e isso, evidentemente, não me converte em uma perita.
- Mas haverá mais lições, não é? - Ignorando a réplica de Gina, a Condessa ficou em pé com um fluido movimento - Monsieur, faria-me a honra de me acompanhar à sala de jantar?
Colin sorriu, gratamente adulado, e ofereceu o braço à condessa, embora quem acompanhava o outro fosse dolorosamente óbvio para Gina.
- Alors, chérie. - Harry se aproximou dela e estendeu uma mão para ajudá-la a levantar da poltrona - Parece que terá que me aceitar como substituto.
- Acredito que poderei suportá-lo - replicou ela, ignorando os furiosos batimentos de seu coração quando sua mão agarrou a dele.
- Seu amigo deve ser um homem muito lento - começou a dizer Harry retoricamente, retendo a mão de Gina e erguendo-se frente a ela com atitude indiferente - Faz um ano que te conhece e ainda não é seu amante.
O rosto de Gina se voltou de cor púrpura e lhe olhou com fúria, sentindo-se ferida em sua dignidade.
- Realmente, Harry, surpreende-me! Essa foi uma observação incrivelmente grosseira.
- Mas verdadeira - disse ele imperturbável.
- Nem todos os homens pensam exclusivamente em sexo. Colin é uma pessoa carinhosa e atenciosa, e não um ser arrogante como outros que conheço.
Harry sorriu com exasperante segurança em si mesmo.
- Acaso seu Colin faz com que seu pulso se acelere deste modo? - O polegar de Harry acariciou seu pulso - Ou que seu coração se estremeça como faz agora?
Sua mão cobriu o coração que galopava freneticamente como se fosse um cavalo selvagem e seus lábios roçaram sua boca com um beijo suave e prolongado, um beijo tão diferente dos outros que Harry lhe havia dado que Gina permaneceu imóvel, apanhada por sensações que a deixaram totalmente aturdida.
Os lábios de Harry percorreram seu rosto, atrasando-se nos detalhes da boca e retendo a promessa do prazer com a experiência do avantajado sedutor. Seus dentes mordiscaram brandamente o lóbulo da orelha. Gina lançou um estremecido suspiro quando a pequena dor enviou inapreciáveis e agradáveis correntes ao longo de sua pele, narcotizando-a com um delicioso e lento prazer. Com incrível suavidade os dedos de Harry se deslizaram por sua coluna vertebral e logo continuaram seu caminho com devastadora excitação sobre a nua pele de suas costas até que Gina sucumbiu ofegante entre os braços de Harry enquanto sua boca procurava com paixão a satisfação de seu desejo. Só lhe fez provar brevemente o sal de seus lábios antes de deslizá-los para a rosada garganta, enquanto as mãos viajavam por cada curva do corpo de Gina. Os dedos roçaram simplesmente os túrgidos seios antes de iniciar uma suave massagem em seus quadris.
Murmurando seu nome, Gina se esmagou contra o corpo de Harry, incapaz de exigir aquilo que ela implorava, desejando febrilmente a boca que lhe negava. Desejando só ser possuída, necessitando o que só ele podia lhe dar, seus braços o atraíram para ela em uma silenciosa súplica.
- Me diga - sussurrou Harry e, através de uma bruma de lassidão, Gina percebeu uma ligeira brincadeira em sua voz - Acaso Colin a ouviu suspirar entre seus braços e sussurrar seu nome? Ou sentiu seus ossos derretidos contra seu peito enquanto a abraçava?
Gina, total e absolutamente aturdida, desfez-se de seu abraço enquanto podia sentir como a ira e a humilhação se mesclavam com o desejo.
- Está muito seguro de si mesmo, Harry - disse - Não interessa o que eu possa sentir quando estou com o Colin.
- Acha que não? - perguntou Harry com voz amável - Devemos discutir esse tema mais tarde, minha querida prima. Agora acredito que será melhor que nos reunamos com a Grandmère e nosso convidado. - Sorriu-lhe maliciosamente e Gina sentiu grandes desejos de lhe assassinar - Devem estar perguntando-se onde diabos estamos.
Era evidente que nenhum dos dois tinha se preocupado por onde eles estivessem, percebeu Gina quando entrou na sala agarrada ao braço de Harry. A condessa tinha engenhado maravilhosamente para entreter Colin falando sobre a fascinante coleção de caixas Fabergé que se exibiam em uma ampla vitrine.
O jantar começou com vichyssoise, um prato frio e refrescante, e a conversação se desenvolveu em inglês como deferência para Colin. Os temas eram gerais e impessoais e Gina se sentiu relaxada, ordenando a seus músculos que se desenredassem, quando terminaram a sopa e procederam a servir o homard grillé. A lagosta era deliciosa e ela pensou ociosamente que, se a cozinheira era efetivamente um dragão como tinha brincado Harry no primeiro dia, não havia dúvida de que era um dragão muito habilidoso.
- Imagino que sua mãe fez a transição do castelo para sua casa Georgetown com muita facilidade - disse Colin de repente e Gina lhe olhou confusa.
- Acredito que não entendo muito bem a que se refere.
- Existem tantas similaridades básicas - observou ele e, ao perceber a expressão sobressaltada de Gina, acrescentou - Naturalmente, no castelo tudo está construído a uma escala maior, mas repara nos altos tetos, nas lareiras em cada aposento, no estilo dos móveis. Mas até o corrimão das escadas é igual. Não é possível que não tenha se dado conta?
- Pois, sim, suponho que sim - respondeu Gina lentamente - embora não com a claridade com que o vejo agora.
Talvez, refletiu, seu pai tinha eleito precisamente aquela casa em Georgetown porque ele também tinha notado essas similaridades e sua mãe tinha escolhido os móveis seguindo os padrões de sua memória, cujas lembranças a remontavam à infância transcorrida no castelo. Esse pensamento lhe produziu uma cálida sensação.
- Sim, inclusive os corrimões das escadas - continuou dizendo com um brilhante sorriso - Eu costumava deslizar por eles continuamente, do estúdio que estava no terceiro andar até o primeiro piso e então continuava por esse improvisado tobogã até o térreo. - O sorriso se converteu em uma sonora gargalhada - Mamãe costumava me dizer que outra parte de minha anatomia devia ser tão dura como minha cabeça para suportar esse castigo.
- Ela também costumava me dizer o mesmo - disse Harry subitamente e o surpreendido olhar de Gina se voltou para ele - mais oui, petite. -Harry respondeu a seu olhar sobressaltado com um de seus incomuns sorrisos - Que sentido tem caminhar se a gente pode deslizar?
A imagem de um menino moreno voando para baixo pelo estreito sulco do corrimão e de sua mãe, Molly, jovem e formosa, lhe observando sorridente, encheu sua mente. Seu olhar de assombro se converteu gradualmente em um sorriso que imitava o de Harry.
Gina deu conta do estupendo soufflé, ligeiro como uma nuvem, acompanhando-o com uns sorvos de champanhe seco e borbulhante. Descobriu que desfrutava autenticamente do jantar e deixou que a conversação fluísse calidamente a seu redor.
Quando o jantar terminou, dirigiram-se ao salão principal e Gina recusou o oferecimento de uma taça de conhaque ou licor. A sensação de plenitude persistia nela e suspeitou que ao menos parte dessa sensação, tinha decidido não pensar na outra parte e na apaixonada cena que tinha compartilhado com Harry antes do jantar, devia atribuí-la ao vinho que tinha bebido. Nenhum dos presentes pareceu notar seu estado pensativo, suas bochechas rosadas e suas respostas quase mecânicas. Seus sentidos estavam insuportavelmente atentos enquanto ouvia a música das vozes, o tom grave dos homens mesclando-se com os tons cristalinos da voz de sua avó. Inalou com prazer sensual a fumaça que se desprendia do cigarro de Harry e aspirou profundamente a combinação de seu perfume e o da condessa com o aroma sutil das rosas que enchiam cada vaso do salão. Um agradável equilíbrio, refletiu, a artista respondendo e desfrutando da harmonia e da fluida continuidade da cena que se desenvolvia diante de seus olhos. As luzes suaves, a tênue brisa que agitava apenas as cortinas, o apagado som das taças ao serem depositadas sobre a mesa... tudo se fixava em um tecido impressionista que seu olho registrava e armazenava em sua mente.
A Condessa, magnífica em seu trono de brocado, presidia a reunião bebendo nata de hortelã em uma delicada taça com borda de ouro. Colin e Harry estavam sentados frente a frente, como a noite e o dia ou anjo e demônio. Esta última comparação sobressaltou Gina. Anjo e demônio?, repetiu em silêncio enquanto estudava aos dois homens.
Colin, o doce, confiável e previsível Colin, que aplicava a mais tenra das pressões. Colin, o da infinita paciência e dos planos cuidadosamente raciocinados. O que sentia por ele? Afeto, lealdade, gratidão por estar aí quando ela necessitava dele. Um amor aprazível e confortável.
Seus olhos se moveram para Harry. Arrogante, autoritário, exasperante e excitante. Um homem que exigia aquilo que desejava e acabava por tomá-lo, utilizando seu súbito e inesperado sorriso para lhe roubar o coração como um ladrão noturno. Harry era taciturno, enquanto Colin era constante, um era imperioso enquanto que o outro era persuasivo. Mas se os beijos de Colin tinham sido prazerosos e incitantes, os do Harry eram grosseiramente perturbadores e convertiam seu sangue em um rio de fogo e a transportavam a um mundo desconhecido de sensações e desejos. E o amor que sentia por ele não era aprazível nem confortável, era impetuoso e inevitável.
- É uma verdadeira lástima que não toque piano, Gina.
A voz da Condessa a fez retornar à realidade com um súbito estremecimento.
- Oh, mas Gina toca piano, madame! - informou Colin com um amplo sorriso - Horrivelmente mal, mas o toca.
- Traidor! - exclamou Gina com um encantador sorriso.
- Não toca bem o piano? - a Condessa se mostrava absolutamente incrédula.
- Lamento trazer a desgraça novamente à família, Grandmère - se desculpou Gina - Mas não só não toco bem, sinto que o faço completamente mal. Inclusive ofendo a sensibilidade de Colin, que é virtualmente surdo em questões musicais.
- Querida, ofenderia um cadáver com sua forma de tocar.
Colin afastou um cacho rebelde do rosto de Gina, com um gesto casual e carinhoso.
- É verdade. - Lhe sorriu antes de olhar a sua avó - Pobre Grandmère, não faça essa cara tão triste.
O sorriso de Gina se desvaneceu quando seus olhos perceberam o frio olhar de Harry.
- Molly, por sua vez, tocava maravilhosamente - disse a condessa agitando uma mão.
Gina voltou a atrair a atenção da condessa, tratando de sacudir o calafrio que lhe tinham produzido os olhos de Harry. - Ela nunca pôde entender por que eu assassinava a música mas, inclusive com sua infinita paciência, finalmente se deu por vencida e me deixou com meus tecidos e minhas pinturas.
- Extraordinaire! - A Condessa meneou a cabeça e Gina se encolheu de ombros e bebeu lentamente seu café - Já que você não pode tocar para nós, ma petite - disse a anciã com uma repentina mudança de humor - talvez agrade Monsieur Creevey dar um passeio pelo jardim. - Sorriu perversamente - Gina desfruta muitíssimo do jardim à luz da lua, não é mesmo?
- Isso soa muito tentador - concordou Colin antes que Gina pudesse responder. Enviando a sua avó um olhar carregado de significado, Gina convidou a que Colin a acompanhasse ao jardim.
Comentem e faça essa pobre autora feliz.
Me enganei na contagem dos capítulos mas agora está certo temos apenas mais 2 capítulos para o fim dessa fic
Bianca – Obrigada por comentar, que bom que está gostando, o livro da Nora é o Mistérios e a história é Em busca do amor.
Natalia Reis- Querida vc não me abandona nunca, fico super feliz quando vejo seus comentários.
Bom espero que vcs gostem desse capítulo e podem chmar o Harry de cretino, pois eu já chamei várias vezes rsrs
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