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2. Capítulo 2


Fic: Memórias de uma Weasley


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Capítulo 2

Mais tarde eu fui descobrir que de japonesa ela só tinha os olhos puxados e a forma física mirrada. Seu primeiro nome é Amanda. Não sei por que, mas várias pseudo-japonesas chamam-se Amanda. É um dado interessante, mas bem inútil.
Ela não gostava muito de ter um nome tão comum, preferia ser chamada de May, mesmo que parecesse um pouco formal. Ela suspira até hoje quando eu a chamo de Amanda, acho que para ela é um símbolo de toda a nossa intimidade, coisa que ela raramente permitia acontecer. Poucas pessoas podem se dizer íntimas da May, e eu tenho o prazer de poder chamá-la de Amanda até os
dias de hoje.

Ela tinha uma espécie de ritual, toda segunda-feira ela acordava mais cedo do que todas as garotas do dormitório, tomava banho e saia caminhar nos terrenos do castelo. Que coragem, hein! Para mim é terrível ter que levantar antes das 10 horas, desde sempre e para sempre.

Numa noite horrível de insônia, eu a vi pela primeira vez fazendo isso. Devia ser no máximo 6h da manhã, e ela se levantou de um pulo. Senti preguiça só de olhar. Meus olhos acompanharam cada movimento dela desde o momento no qual meus ouvidos perceberam barulhos na cama dela.

Foi em câmera lenta, ela esfregando os olhos, sonolenta, a camisola curta deixando a mostra as pernas morenas e definidas. Nessa hora me deu até vontade de levantar, e olha que eu só tinha dormido 3h naquela noite. Eu fiquei em silêncio, tentando parecer adormecida, mas meu coração estava acelerado. Esse, senhoras e senhores, foi o começo do meu interesse físico por ela. O sentimental já havia despertado havia muito tempo. E esse foi o início das minhas noites de cortinas fechadas inspiradas por aquela japonesa que dormia logo a minha frente.

Um tempo depois eu comecei a fazer companhia nessas loucas caminhadas logo de manhã cedo. Você pode usar isso como prova de que meu interesse por ela era real. Além de vê-la todo santo dia nas aulas, eu queria estar perto dela até de manhã, mesmo eu odiando caminhar, ainda mais de madrugada. É como alguém que odeia comer berinjela, e come só para acompanhar alguém que ela gosta. São sacrifícios que acabam se tornando prazeres, porque são inspirados pelo amor.

No geral, ela andava feliz pelo gramado, sorrindo e conversando, enquanto eu contava os minutos para chegarmos perto das estufas de herbologia, que era onde nós parávamos para descansar e eu ficava admirando-a enquanto ela suspirava abaixada.

De vez em quando eu sentia os olhos dela sobre mim, mas assim que eu olhava de volta, ela mudava a direção do olhar e comentava sobre algo banal. No começo eu achei que era impressão minha, que eu estava vendo o que eu queria ver, mas depois daquele dia no campo de quadribol, eu comecei a achar que era verdade mesmo. Os olhares começaram a não se limitar às caminhadas, e eu comecei a senti-los também nas aulas, no refeitório, na sala comunal ou em qualquer lugar onde nós estivéssemos próximas. Eu claro adorava quando a pegava em flagrante. Ela ruborizava, e era incrível a capacidade que ela tinha de desconversar. Eu sempre quis aprender como fazer isso, mas ela sempre disse que eu simplesmente não sei disfarçar absolutamente nada. Essa troca de olhares foi ficando insuportável. Ela sentia os meus e eu sentia os dela, mas nenhuma das duas era capaz de fazer alguma coisa que passasse disso.

Num sábado chuvoso, eu me lembro exatamente do dia, foi em março, eu e a May estávamos voltando de um passeio pela cozinha, e encontramos o Harry, Hermione e meu irmão no salão comunal. Como de costume, eu tentei dar a impressão de que estava lá admirando o Harry, mesmo que eu já não estivesse mais sentindo tanta coisa por ele mais. A conversa entre eles era a mais chata possível, mas eu notei algo que não acontecia antes. O Harry estava olhando para mim. Mais que isso, ele estava me notando! Eu não fui a única a ver, a May também percebeu, e aí então eu tive mais um sinal de que não era só eu quem sentia coisas diferentes pela minha colega.

Ela me olhou com uma cara extremamente irritada, e subiu para o dormitório, mesmo nós tendo combinado de jogar uma partida de xadrez. Quando isso aconteceu, nós já éramos bem amigas. Eu subi atrás dela, preferia muito mais estar lá em cima, mesmo que brigando com ela, do que ficar lá na companhia daquele garoto metido a herói. Quando eu entrei no quarto, ela estava arrumando alguma coisa nos pertences dela, com uma expressão indefinida. Ela não me escutou entrando, e eu cheguei bem devagar perto dela, sentindo o cheiro do shampoo que ela usava. Eu tinha vontade de abraçá-la e dizer o quanto aquela garota era especial para mim, mas antes de eu alcança-la, ela se virou e me viu. Ela corou, eu cheguei mais perto e ela me abraçou. Foi um contato eletrizante, por falta de palavra melhor. Eu senti meu corpo todo se arrepiar, e senti os dedos dela tremeram nas minhas costas.
Aquilo era pura tensão sexual, se alguém colocasse um dedo em alguma de nós duas, poderia levar um choque. Ela soluçou e eu a apertei mais forte, fazendo nossos corpos se encostar por completo. Ela encostou a testa dela contra a minha e nosso lábios ficaram a centímetros um do outro. Eu podia ver as lagrimas que não haviam caído nos olhos negros dela, que me olhavam com confusão. “Eu não sei o que fazer, Gina”, ela disse. Eu virei o rosto e me enterrei no ombro dela, pois eu também não sabia o que fazer. Eu não sei quantas vezes nós ficamos nessa de quase-beijo, mas foram várias. Muitas delas nós nos controlamos, pois não tínhamos certeza de que era aquilo mesmo que a outra queria. Acho que nós duas tínhamos a esperança tola de que o que sentíamos era só curiosidade, e de que se nós resistíssemos, iríamos esquecer aquelas idéias sem fundamento. Bom, de nada adiantou, o dia em que não agüentamos mais chegou, e eu posso dizer com certeza que foi o beijo mais sincero que eu já ganhei em toda minha vida. Foi apaixonado, largamente esperado e cheio de desejo.

Como a vida não é só feita de amores homossexuais possivelmente platônicos, tenho que falar da merda da guerra que estava estourando ao nosso redor.
Minha família, como todos sabem, sempre foi envolvida com a Ordem e com todo tipo de força contra as Trevas. Isso é algo que realmente me dá orgulho. Sempre fomos honestos, e se não fosse por nós, seus bruxos medrosos, você estariam mortos ou subjugados ao Lord Voldemort nesse momento! As pessoas sempre querem tirar o mérito da família Weasley na derrota do Lord, coisa que eu não vou deixar. Parentes meus morreram por isso!

Bom, eu puxei esse lado “corajoso” da família, mas a May era completamente ao contrário. Ela parecia conformada achando que o Lord nunca voltaria, assim como quase todo mundo. Quando ele voltou, eu vi o terror nos olhos daquela menina.
A família dela era visada, seu pai era um grande comerciante de produtos diversos do mundo bruxo, descendente de japoneses. A mãe era trouxa, apesar de conviver com o universo bruxo. Voldemort teve uma rixa com o pai dela, assim como ele teve com outras milhares de famílias. O Sr. May não quis vender alguns artefatos e pergaminhos ao Lord, e ele em represália seqüestrou o May pai, e ele só conseguiu sobreviver porque estava aprisionado quando o Lord caiu na casa dos Potter. Com Voldemort de volta, o Sr. May tinha muito que temer, assim como sua filha.
Eu realmente não sabia o que fazer para ajudá-la. Sugeri que os pais delas ganhassem proteção da Ordem, mas ela não teve tempo de falar aos pais. Eles morreram antes que a carta chegasse.

Foi uma época difícil para nós. Ela ficou realmente mal, e eu acabava ficando também de ver ela daquele jeito. Ela estava sozinha no mundo. Os parentes não queriam muito contato com ela, com medo de o Lord vir atrás dela e acabar com seus familiares também. Então, além da perda dos pais, ela ainda teve que suportar a rejeição das únicas pessoas que podiam ajudá-la. Ela não mantém contato com esse lado da família até hoje. Ao menos ela tinha a mim, e eu sempre estaria ao lado dela. Com o tempo, ela se recuperou do choque, mas isso marcou a vida dela e nossa história. Ela amadureceu mais ainda, aprendeu a lidar com a perda, e isso foi de grande ajuda para mim e para tantas outras pessoas depois. As palavras dela confortaram e ajudaram muitas famílias que perderam seus filhos e irmãos na guerra.

Nas férias ela ficava lá em casa, e quando ela fez 17 anos, montou um apartamento para ela com o dinheiro que os pais deixaram. E fui eu que passei a ficar as férias na casa dela. Imagine, nós duas sozinhas por duuuuuuas semanas inteiras!
Foi numa dessas estadias uma na casa da outra de férias que rolou aquele nosso primeiro beijo, como eu disse, sincero, apaixonado, largamente esperado e cheio de desejo.

Ela foi pra Toca passar as férias de natal. Assim como o Harry. Nessa época, o desejo entre nós estava quase palpável, de tão grande que era. Tudo que eu queria e pensava era naqueles lábios me beijando, e eu estava decidida que daquele natal não passava. Eu ia beijar aquela japonesa linda.
Elaborei os planos infalíveis mais falíveis do mundo. Pensei, pensei e pensei, mas tudo que eu pensava acabava com ela dizendo que não era nada daquilo e que ela queria ser só minha amiga. Decidi que quanto mais eu pensava, mais complexada e medrosa eu ficava. No fim, tudo aconteceu naturalmente. Planejar acaba com a espontaneidade, que é a melhor coisa quando você está apaixonado.

A ceia de natal já tinha sido servida, e eu estava no mínimo uns três quilos mais gorda. Como de costume, o jantar era servido no jardim da Toca, com toda nossa família reunida numa mesa imensa cheia de comida deliciosa. Todo mundo conversava, e o assunto principal era o Torneio Tribuxo e Harry Potter. Aquilo não me interessava mais, passei dois meses escutando sobre aquilo. Toda aquela história de “colocaram meu nome no cálice” me irritava. Pra mim parecia óbvio que aquele garoto só queria mais atenção e provar que era um verdadeiro heróis, e cada vez eu me cansava mais dele. Estava perdendo o encanto.

A May parecia feliz. Elogiou minha família e disse que adoraria fazer parte de uma família assim. Juro que meus olhos brilharam com esse comentário, mas a coragem de tentar algo ainda conitnuava bem longe de mim.
Olhei infeliz o relógio, e vi que faltavam 45 minutos para meia noite. Meu plano de ficar com ela de qualquer jeito antes do natal estava indo por água abaixo e eu me sentia deprimida.
Ela veio meio alegre me desejar um feliz natal, e meus olhos arderam com as lágrimas que eu queria segurar. Pó, chorar ali na frente dela não ia ajudar em nada. Mas ela percebeu que eu não estava muito legal, e pelo jeito associou isso ao Harry. Achou que eu estava com medo do que poderia acontecer com ele, ou que eu me incomodava com o que rolava entre ele e a vaca da Cho Chang. Se ela soubesse...

A May me olhou fundo nos olhos, pegou na minha mão e me puxou pra dentro de casa. Eu me derreti toda só com aquele toque, e não, não foi efeito das cervejas amanteigadas que eu tomei em larga escala aquela noite. Era como se descargas elétricas passassem pelos nossos dedos. Excitante. Subimos as escadas até meu quarto. Eu corri pra perto da janela, pra tentar disfarçar meu rosto vermelho.
“Ei, gatinha, não fica assim. Um dia ele percebe que você gosta dele”, ela disse. Ela deu um sorriso amarelo, e eu percebi que não era bem aquilo que ela queria que acontecesse, mas tentava me animar mesmo que aquilo a machucasse. Achei isso extremamente fofo da parte dela. Gente, o amor é simplesmente lindo e deixa as pessoas, sem exceção, patéticas. Tudo é lindo, brilhante, feliz. Boring.
“Queria que outra pessoa percebesse”, eu disse, em tom triste, mesmo tendo ficado feliz pelo que ela falou antes. Fazer um teatrinho básico. Decidi ver até onde aquilo ia, mesmo sem achar que ela ia fazer o que ela fez.
Ela me olhou de novo daquele jeito que só ela faz, e eles brilharam quando ela entendeu o que eu quis dizer. Ficamos um tempo em silencio, que pra mim pareceram horas de tanta expectativa. Ela finalmente quebrou o gelo. “Vai ver ela já percebeu”. Eu gelei. Realmente não esperava que ela já soubesse, mesmo tendo dado todos os sinais e desejado que sim. É aquele sentimento que antecede uma coisa muito esperada, é ansiedade, sensação de borboletas no estomago. Ela se aproximou de mim, eu recuei. Porra, na hora H eu fiz isso¿¿ Mas eu estava nervosa! Ela graças a Merlin não desistiu e foi em minha direção mesmo assim. Quando eu vi, ela já estava com as mãos na minha cintura, me puxando pra mais perto dela.
“Ela já percebeu”, ela disse, e encostou os lábios nos meus.
Foi naquele dia frio de dezembro que eu finalmente me senti realizada. Era como se eu nunca tivesse beijado outra pessoa e queria compensar o tempo perdido. O beijo dela era lento. Ela mexia a língua dentro da minha boca com delicadeza, e parecia que sabia fazer aquilo muito bem. Mordia meu lábio sempre que trocava de lado. Eu me senti um neném em comparação ao beijo dele. Acho que antes dela eu só abria a boca e esperava o menino “fazer o serviço” e chamava aquilo de O beijo. Foi ela quem me ensinou, e muito bem.
Ficamos naquela de não saber o que fazer, de onde tocar e colocar a mão depois do beijo. Eu sorri e ela riu de volta, meio envergonhada. A única coisa que conseguimos fazer foi abraçar e beijar mais. Ria leitor, pode rir, nós éramos inocentes!

Depois de um tempo nós resolvemos descer, afinal já fazia um tempinho que a gente tinha desaparecido da festa. Olhei no relógio da sala quando nós passamos por lá, e faltavam dez minutos pra meia noite. Me senti a vencedora de uma guerra, consegui derrotar minha maior inimiga, o medo

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