CAPÍTULO V
Harry movia-se depressa e em silêncio pela floresta, apesar de detestar agir furtivamente. Preferia enfrentar seus adversários em um campo aberto de batalha do que esgueirar-se por entre árvores. Os homens de Luna poderiam estar em qualquer lugar, até mesmo acima de sua cabeça e, por isso, ele tratou de ser cauteloso, pois ainda se lembrava com clareza da sensação de um dos bandidos aterrissando sobre suas costas.
A lembrança alimentou-lhe a ira, pois Harry sempre se considerara invencível.
Desde muito jovem, vencia todos os seus irmãos em lutas, assim como qualquer um que o desafiasse. Com exceção de Dunstan, claro. Harry franziu o cenho, considerando a antiga competição com o mais velho dos Potter. Dunstan seria sempre o primogênito, muitos anos mais velho que ele. Ainda assim, Harry ainda se esforçava para igualar-se a ele. Ou até mesmo superá-lo.
A raiva tornou-se ainda mais intensa, quando Harry pensou nos esforços inúteis que fizera, desde sua chegada ali. A idéia do irmão rindo e zombando dele funcionou como combustível para sua busca. Embora não lutasse pelo rei, como Dunstan lutara, Harry servia sua família com dedicação e lealdade e estava determinado a resolver o que quer que estivesse acontecendo de errado nas terras do irmão. O que incluía acabar com um infame grupo de bandidos.
Um leve odor de madeira queimada chamou-lhe a atenção e ele o seguiu, decepcionando-se ao se deparar com um velho forno para fundição de ferro. Árvores haviam sido cortadas para serem usadas como lenha e uma pilha de barras de ferro comprovavam seu uso. Porém, como muitas outras fundições da região, fora abandonada havia tempos.
Talvez seu nariz o houvesse enganado, mas Harry decidiu não ignorar o leve cheiro de fumaça. Por isso, ajoelhou-se para examinar o solo. Descobriu que a grama apresentava-se amassada, indicando movimento recente e, então, seguiu uma trilha quase imperceptível, que levava a uma mina abandonada.
Harry aproximou-se da entrada devagar e estreitou os olhos, contrariado. Nunca se importara por ficar em lugares fechados. Aposentos abafados, em castelos, e até mesmo cavernas, eram uma coisa. Uma mina, com suas passagens estreitas e paredes úmidas, era outra história. De um momento para outro, a terra que fora escavada poderia, facilmente, desabar sobre um homem, tirando-lhe a vida.
Embora a idéia de entrar não o agradasse, Harry não era covarde. Assim, enfiou a cabeça na abertura e apurou os ouvidos. Como não ouvisse som algum, entrou devagar.
Mesmo assim, não havia o menor ruído lá dentro. A menos que os bandidos estivessem, no fundo da mina, mantendo silêncio total, não havia ninguém ali. Mas de uma coisa, ele estava certo: haviam estado lá e, sem dúvida, voltariam. Tudo o que tinha de fazer era encontrar um bom ponto de observação e esperar.
Ao sair do túnel, Harry respirou fundo, apreciando o ar fresco. Em seguida, encaminhou-se para as árvores, à procura de um esconderijo. Após uns poucos passos, algo chamou-lhe a atenção e ele ficou imóvel. Seu coração ameaçou parar de bater quando Harry deu-se conta do que estava, finalmente, à sua frente. Luna estava sentada em um tronco caído, a cabeça abaixada, concentrada na tarefa de amarrar a corda de um arco. A cena simples adquiria um ar quase irreal, uma vez que o sol, filtrado pelas folhas das árvores, cobria-a como um manto dourado.
Por um longo momento, Harry limitou-se a observá-la, incapaz de explicar os sentimentos estranhos que se apoderavam dele. Reconheceu a satisfação da descoberta, do desafio e da luta que viria. Ao mesmo tempo, havia algo mais, que ele nunca sentira antes, que insinuava um perigo totalmente desconhecido. Tentou desvencilhar-se de tais sensações, dizendo a si mesmo que sua excitação não passava de um instinto animal, despertado pela visão de sua presa. Porém, continuou hesitante, embriagando-se com a beleza de Luna. Tudo nela parecia mais luminoso do que a imagem que ele guardara na lembrança, desde a trança dourada, aos traços bem marcados do rosto. E aqueles lábios… Harry imaginou o que Stephen diria sobre eles.
E, ainda, havia as pernas. Harry já vira pernas femininas antes, mas não envoltas por vestimentas masculinas, que deixavam pouco por conta da imaginação. O tecido colava à pele de Luna, fazendo a boca de Harry secar, enquanto seus olhos subiam lentamente até as coxas bem torneadas.
Sem perceber, ele devia ter produzido algum ruído, pois Luna ergueu a cabeça subitamente, e os olhos alertas fixaram-se em Harry. Embora ele houvesse se imaginado bem escondido, ela o viu, pois colocou-se em pé de um pulo. No mesmo instante, Harry estava no encalço de Luna. Sem dificuldade, conseguiu alcançá-la, segurá-la e tombar no chão, com ela bem presa em seus braços. Já fizera isso antes, mas desta vez, estava plenamente consciente de que era uma mulher quem lutava para se libertar de suas mãos.
Tal conhecimento só tornou sua dificuldade maior, pois ao mesmo tempo que tentava não machucá-la, Harry tinha de manter total domínio sobre ela, pois agora sabia que, assim como ele, Luna levava uma faca escondida nas roupas. Como não pretendia permitir que ela lhe cortasse a garganta, usou o peso do próprio corpo para imobilizá-la, prendendo as pernas dela com as suas, enquanto segurava-lhe os braços com força. Nada disso era fácil, pois ela lutava desesperadamente, tentando acertar-lhe uma cabeçada no queixo.
Finalmente, Harry conseguiu dominá-la, mas não saberia dizer se a imobilidade dela significava rendição fingida, ou se, de alguma maneira, ele a ferira. Deslizou as mãos pelos braços dela, até chegar perto dos punhos. Então, ergueu a cabeça bruscamente para fitá-la.
- Você tem músculos. - falou, ao sentir as formas rígidas sob os dedos.
- Tantos quanto você! - ela replicou com ar de desprezo.
Tal afirmação era absurda e Harry teria caído na gargalhada, não fosse pelas sensações que o corpo dela sob o seu lhe provocava. A força de Luna o excitava e, perplexo, ele sentiu seu corpo manifestar, da maneira mais primitiva, os sinais de tal excitação. Evidentemente, Luna também sentiu, uma vez que seus corpos encontravam-se inteiramente colados, e não pôde impedir que seus olhos se arregalassem de surpresa.
- Talvez, - Harry respondeu ao último comentário dela, com um sorriso resignado - mas eu possuo um determinado músculo que você não tem.
Preferiu omitir o fato de que estava mais do que disposto a partilhá-lo com ela. O desejo de ter aquela mulher para si era tão intenso, que ele chegou a se sentir atordoado. Porém, Luna não o queria. Com expressão chocada, empurrou-o e Harry a soltou. Ele ficou desapontado e perturbado com a rejeição dela, além da traição cometida por seu próprio corpo. Afinal, não era um jovem fogoso como Stephen, e orgulhava-se de seu autocontrole. Foi invadido por uma profunda raiva de si mesmo, pois aquela não era uma das prostitutas que ele, às vezes, pagava para satisfazer suas necessidades mais básicas. Luna era uma mulher diferente de todas as outras que ele jamais conhecera, dona de habilidades que nenhuma outra possuía. Embora duvidasse que ela fosse capaz de vencê-lo novamente, deu-se conta, tardiamente, de sua breve falta de atenção.
Luna levantou-se com rapidez, seguida por Harry, que protestou:
- Este não é um bom lugar para ficarmos. Minas podem desabar a qualquer momento.
Ignorando as palavras dele, Luna fitou-o nos olhos, furiosa.
- O que está fazendo aqui? Ficou louco? Alguém poderia tê-lo visto e cravado uma flecha em suas costas! Onde estão seus homens?
- Vim sozinho.
Apesar de também estar furioso, Harry descobriu-se desejoso de sorrir para ela.
Luna ficava magnífica com aquela expressão irada no rosto.
- Você está, definitivamente, louco! - ela quase gritou. - Somente um homem fora de seu juízo perfeito atira-se em território de um exército inimigo. Poderia estar morto!
- Um exército? - Simon repetiu irônico. - Seu bando não é tão grande. Além disso, sua preocupação com o meu bem-estar não tem razão de ser, pois são os seus homens que deveriam ter cuidado comigo.
Reprimiu um sorriso, ao vê-la ficar vermelha de raiva.
- Não me importo nem um pouco com você! - Luna sibilou. - Na verdade, ficaria satisfeita se o visse com uma flecha no coração, pois isso significaria um problema a menos para mim! Por que está aqui, afinal? O que deseja? - inquiriu, cruzando os braços.
Deseja… A palavra ecoou na mente de Harry, enquanto seus olhos pousavam na curva dos seios, acentuada pelo movimento que ela acabara de fazer. Perguntou-se se Luna os apertava, a fim de disfarçá-los e parecer-se mais com um garoto. Foi invadido por um súbito impulso de descobrir a verdade. Imediatamente, descartou tamanha tolice e amaldiçoou o próprio corpo pela reação instantânea a seus pensamentos descabidos.
- Desejo informações. - respondeu afinal.
A expressão de Luna tornou-se dura.
- Que tipo de informações?
- Quero respostas simples, Luna. - Harry falou, enfatizando o nome dela e admirando-a ainda mais pelo controle perfeito que ela demonstrou ter sobre as próprias reações. - Respostas como, por exemplo, por que devolveu meus homens e meus cavalos.
- Que diferença faz? Não pode, simplesmente, pegá-los e ir embora?
- Você faria isso?
Luna virou-se e, em vez de responder à pergunta, murmurou um palavrão um tanto incomum nos lábios de uma mulher. Assim que ela começou a se afastar, Harry seguiu-a de perto, jurando descobrir o que queria saber, a qualquer preço. Após alguns passos, segurou-a pelo braço.
- Diga-me Luna, por que nos capturou, para nos libertar em seguida? Por que vive na floresta, liderando um bando de assaltantes, quando poderia viver com todo luxo? Quem é você, afinal, Luna?
Ela o fitou nos olhos, provocando em Harry mais uma pontada de admiração.
- Solte-me. - Luna murmurou.
Ele obedeceu, dando-se conta de que aquela mulher vestida de homem possuía mais dignidade do que qualquer outra que ele já conhecera. Luna não chorava, nem desmaiava, ou gritava sua indignação. Nem por uma vez, Harry a ouvira queixar-se, ou pedir clemência. Agora, ela simplesmente se mantinha impassível e sustentava-lhe o olhar, como um homem faria. Sem saber por quê, Harry sentiu um forte aperto no peito.
- Muito bem, vou lhe dar as respostas, lorde Potter.
- Simon. - ele disse sem pensar, no desejo de se distinguir dos irmãos e de que Luna se dirigisse exclusivamente a ele. - Meu nome é Harry.
- Está bem… Simon. Só espero que não me culpe se as respostas não forem do seu agrado. Venha.
Luna virou-se e tomou o rumo da clareira. Harry seguiu-a, mantendo-se alerta, pois conhecia o risco de estar sendo conduzido a uma armadilha. Ao mesmo tempo que seus instintos lhe diziam que deveria confiar nela, não era ingênuo a ponto de obedecê-los cegamente.
A certa altura, ela parou e voltou a fitá-lo.
- Depois, você deve partir, sem que ninguém o veja. - insistiu com intensidade.
Harry não respondeu, pois não sabia exatamente o que havia por trás daquelas palavras. Seria preocupação pela vida dele? Ora, que tolice! Luna, sem dúvida, tinha suas razões particulares para querer que ele se fosse, mas Harry jurou que descobriria os motivos dela.
Ele voltara, como Luna sabia que aconteceria. Apavorada, ela escondeu seus sentimentos sob uma capa de irritação. Ele só podia ser louco, para ter voltado! Se Snape o tivesse visto, certamente, o teria matado. Embora houvesse, ela mesma, sentido impulsos assassinos, nos últimos meses, Luna não tolerava sequer pensar na morte daquele grande cavaleiro.
Tal imagem perturbou-a de maneira muito intensa, e ela tratou de afastá-la depressa e voltar a concentrar-se na loucura que ele fizera. Perguntou-se como Harry Potter chegara até a idade atual, sem ser morto. Alguém tinha de cuidar dele, impedir que obedecesse aos ímpetos inconseqüentes! Porém, a idéia de cuidar de Harry Potter provocou-lhe um arrepio, além de pensamentos confusos, que ela se apressou em reprimir.
Por que aquele homem não a deixava em paz? Contendo o medo pelo perigo que se abrigava dentro de seu próprio peito, caminhou apressada até a mina, onde havia montado acampamento com seus homens. Se ele realmente só queria informações, talvez, depois de ouvir a história dela, finalmente fosse embora. Luna já não acalentava a esperança de que ele os ajudasse, pois suspeitava de que o preço por tal ajuda seria alto demais para ela.
Atravessou a entrada do túnel com passos rápidos, ansiosa para pôr um ponto final àquela questão. Harry, porém, não a seguiu. Ficou parado do lado de fora, o rosto uma máscara de desagrado.
- Não vou entrar. Prefiro ficar onde posso respirar. E você deveria fazer o mesmo. - resmungou.
Surpresa, Luna observou-o pelo canto do olho. Seria possível que aquele cavaleiro forte e corajoso, tivesse medo de entrar nas minas? Ela não deu qualquer indicação de suas suspeitas. Simplesmente, fez um sinal para que ele a seguisse para dentro da mata, pois teriam de conversar em um lugar onde não fossem vistos. Assim, Luna não só o protegeria do temperamento irascível de Snape, como também ficaria mais à vontade para conversar com Harry, sem preocupar-se com as perguntas e suspeitas de seus homens. Disse a si mesma que tal decisão era apenas a atitude normal da líder do bando, mas no fundo, sabia que queria muito ficar a sós com ele, mesmo que fosse só para saber um pouco mais daquele guerreiro.
Quanto tempo fazia que não conversava com alguém do seu nível? Ora, isso nunca havia acontecido, Luna refletiu. Ao menos, não desde a infância, quando seguia os ensinamentos do pai, que a tratava como uma aluna brilhante. Afastando as lembranças, Luna deu-se conta de que, sendo filho de um conde, Harry Potter dificilmente a consideraria uma igual.
Na verdade, a idéia de igualdade trouxe um leve sorriso aos lábios de Luna, pois o grande cavaleiro deixara bem claro que sua opinião sobre as mulheres era das piores. Para ela, porém, depois de ter passado anos na companhia de parentes medíocres e, mais tarde, tornado-se líder de ex-criados, mineiros e aldeões, Potter era a única pessoa que ela jamais conhecera, capaz de compreender a vida de um líder guerreiro.
Evidentemente, era isso, entre outras coisas, que a atraía para ele, pensou. Ao mesmo tempo, sabia que os interesses comuns, as características semelhantes, representavam uma ameaça, pois a mesma chama que aquecia e confortava, também poderia queimar. Se fosse sensata, trataria de livrar-se rapidamente daquela chama em particular, antes de sofrer mais do que deveria.
Uma vez certa de que se encontravam em um local seguro, sentou-se em um tronco caído e fez um sinal para que Harry também se sentasse. Embora sorrisse, como se surpreso pela cortesia dela, Harry permaneceu de pé, os olhos atentos e alertas, para qualquer sinal de perigo.
- Estamos bem longe das sentinelas. - Luna assegurou, ao mesmo tempo que admitia para si mesma que, se estivesse no lugar dele, não confiaria nas palavras que acabara de dizer.
- Tem certeza absoluta de que seus homens obedecem a todas as suas ordens? - ele perguntou em tom casual.
Bastou um olhar para Luna saber que era a Snape que Harry se referia. Provavelmente, a pergunta fora feita para provocá-la e, sabendo disso, ela decidiu não cair na armadilha. Dobrando uma das pernas e abraçando o joelho, fitou-o com expressão séria.
- Tenho. - respondeu.
- Vocês seguem algum código de bandidos? - Simon inquiriu com ironia.
- Não somo bandidos! Meus homens são trabalhadores honestos, lutando contra a injustiça.
- E parte dessa luta envolve capturar viajantes na estrada?
Luna deu-se conta de que ele ainda não havia recuperado o orgulho ferido pela derrota.
- Só quando precisamos de dinheiro. Deseja respostas ou uma discussão, milorde?
- Harry. - ele a corrigiu irritado. - Desejo respostas. Em primeiro lugar, quero saber por que você roubou a identidade de uma mulher morta.
- Roubei? - Luna repetiu indignada. - Não roubei nada que já não me pertencesse, incluindo o meu nome. Sou Luna Lovegood, quer você acredite, ou não.
Harry sustentou-lhe o olhar frio, dando a ela a impressão de que, na verdade, sabia muito bem quem ela era, e só queria uma confirmação definitiva. Tal possibilidade perturbou-a. Desde o primeiro encontro, dera-se conta de que aquele cavaleiro era forte e muito hábil, mas não imaginara que ele fosse um homem realmente inteligente. Talvez fosse melhor ter mais cuidado naquela conversa.
- Quem é seu pai?
- Xenófilo Lovegood.
- O senhor de Ansquith?
- Ele era. - Luna respondeu com honestidade, estudando-o com atenção - Mas agora é prisioneiro em sua própria casa. Se é mesmo quem diz ser, então, como lorde de Baddersly, é sua responsabilidade libertá-lo.
O último comentário foi feito apenas para alfinetá-lo, pois ela não tinha mais esperanças de receber ajuda daquele homem.
- Você tem uma maneira estranha de tratar aqueles a quem precisa pedir ajuda. - Harry observou.
- Não estou pedindo a sua ajuda. Estou apenas lembrando-o das suas obrigações.
E, pela expressão do cavaleiro, ele não gostara nem um pouco de ter sido lembrado. Estaria perturbado por considerá-la impertinente, ou por alguma razão mais grave? Luna ainda não descartara totalmente a possibilidade de ele ser um aliado de Draco. A presença dele ali poderia ser uma simples tática para conhecer a fundo a localização do acampamento dela, seus planos, seus pontos fortes, suas fraquezas.
Luna estudou-o com atenção, sentindo o coração apertar-se diante da possibilidade de uma traição da parte dele. Seria muito pior do que ter sido traída por Draco. Talvez pior até mesmo que a traição de seu pai, embora Luna não soubesse explicar por que a simples idéia era tão dolorosa. Disse a si mesma que a dor era resultado do fato de ela admirar aquele cavaleiro. Ele era um guerreiro forte e atraente, além de parecer um homem honrado. Mas… e se não fosse?
- O que acha de me explicar como esse tal de Draco mantém seu pai prisioneiro, em sua própria casa? - Harry sugeriu.
Luna hesitou, consciente de que poderia recusar-se a responder. Porém, tal atitude só serviria para prolongar ainda mais a presença dele ali, o que lhe provocou um arrepio. E, afinal, o que poderia haver de errado em contar a ele a verdade? Decidiu satisfazer a curiosidade dele e, ao mesmo tempo, escolher cuidadosamente as palavras.
- Sou filha única e meu pai me educou como se eu fosse o filho que ele não teve… até a morte de minha mãe. Então, uma tia veio nos visitar e ficou horrorizada com meu comportamento de menino. - falou em tom seco, surpresa pela dor que persistia, tantos anos depois daquela traição.
- Por que seu pai não a defendeu, se havia encorajado tal comportamento? - Harry inquiriu, irritado.
Luna fitou-o, espantada pelo fato de um homem aparentemente tão limitado, mostrar-se tão perceptivo. Ao mesmo tempo, a expressão dele manteve-se dura, indicando uma grande impaciência contida.
- Ele estava muito abalado pela perda de minha mãe. - ela respondeu, dando de ombros. - Achou que essa tia sabia o que era melhor para uma menina.
Tal explicação era difícil de formular, uma vez que Luna também desejara que o pai a houvesse defendido, bem como à falecida esposa, que não só aprovara, mas também ajudara a criar a filha daquela maneira. Gunilda, porém, sabia ser persuasiva e até mesmo razoável, quando lhe era conveniente. E, finalmente, conseguira convencê-lo a separar Luna de tudo o que ela mais amava.
- Por isso - Luna continuou - entregou-me aos cuidados dela, na esperança de que eu fosse educada como uma verdadeira dama.
Teve de reprimir uma gargalhada, pois, na verdade, fora tratada como pouco mais que uma criada. Vestia roupas femininas, claro, mas de lã grosseira, em vez dos tecidos finos e delicados dos trajes da tia. Sem dúvida, aprendera rapidamente qual era o lugar de uma mulher no mundo, mas não permitira que apagassem de seu espírito a força e a coragem que desenvolvera antes.
E nunca deixara de escrever para o pai, na esperança de que ele a libertasse daquela escravidão, da prisão que se opunha à vida livre e saudável que Luna experimentara na infância. Mesmo assim, não recebera uma resposta sequer. Ninguém fora tirá-la de lá, até tempos bem recentes.
- Há alguns meses, fui chamada de volta à minha casa… para me casar. - disse mantendo os olhos fixos no chão, ao lembrar-se de como sua alegria havia se transformado em raiva.
Tinha certeza de que Deus perdoaria os sentimentos de ódio que a haviam invadido, quando descobrira que fora levada de volta à sua casa, não por algum sentimento nobre, mas para ser tratada como uma mercadoria. Tendo conhecido a verdade sobre o papel de uma mulher em sua própria casa, enquanto estivera aos cuidados de Gunilda, Luna não tinha o menor desejo de se submeter ao domínio de homem nenhum, mas voltara ansiosa pela recepção calorosa do pai.
Porém, quem a recebera fora Draco Malfoy.
- Quando voltei para casa, descobri que meu pai havia envelhecido. - contou com a voz estrangulada pelo nó que se formara em sua garganta. - Não estava somente mais velho, mas também frágil e doente, apesar de ter sido um dos homens mais robustos que já vi. A única conclusão a que pude chegar, foi que a capacidade de julgamento dele ficou prejudicada por sua doença… pois logo descobri que meu pretendente, Draco Malfoy, é um homem desprezível.
- Ele não é jovem e atraente o bastante para agradá-la? - Harry perguntou em tom de acusação.
Surpresa, Luna ergueu os olhos para fitá-lo. Atribuiu a expressão irada no rosto dele ao machismo que o cavaleiro não se preocupava em esconder. Evidentemente, como homem, sentia-se na obrigação de defender seu próprio sexo até a morte. Contrariada, sustentou-lhe o olhar, sem se deixar intimidar.
- Ah, sim! Ele é jovem e muito atraente, cheio de sorrisos e palavras bonitas. Ao mesmo tempo, é um mentiroso, um caçador de fortunas… um ladrão!
Um brilho estranho passou rapidamente pelos olhos de Harry, mas Luna preferiu não criar ilusões sobre a possibilidade de ele compreender seus sentimentos. Assim, continuou:
- Comecei a investigar e descobri que Draco havia chegado em Ansquith pouco mais de um mês antes. Aparecera nos portões da propriedade, dizendo que seus homens haviam sido atacados por bandidos.
- Uma ocorrência comum, por aqui. - Harry comentou com ironia.
- Pelo que sei, não era comum naquela época. - ela o corrigiu irritada.
- Então, você decidiu mudar tudo isso. - Quando, indignada, Luna fez menção de se levantar, Harry ordenou: - Sente-se e termine a sua história.
- Embora ele não parasse de falar das muitas propriedades que possui, ninguém em Ansquith viu qualquer evidência da existência delas. E eu, apesar de ter continuado minha investigação discreta, não encontrei ninguém que o conhecesse, ou sequer tivesse ouvido falar desse homem. Concluí que era tudo mentira, talvez o próprio nome que ele usa.
- E o que seu pai fez?
- Desde a minha chegada, fui imune à influência de Draco e, à medida que fui descobrindo mais inconsistências nas histórias dele, tentei conversar com meu pai sobre isso. Foi impossível. - Luna contou em tom frustrado. - Draco não nos deixava a sós e, logo, meu pai ficou acamado. Então, os guardas de Draco passaram a vigiar o quarto, impedindo-me de entrar! É evidente que Draco soube conquistar a simpatia de meu pai. Trata-se de um homem velho, que se casou tarde e, depois da morte de minha mãe, passou a viver uma vida muito solitária, especialmente depois da minha partida. Ao menos, foi o que me contaram. Aparentemente, a chegada inesperada de Draco gerou um movimento que a casa não via havia muito tempo. As histórias que ele conta sobre suas viagens e feitos heróicos são uma boa distração e devem ter agradado a um velho que não se divertia havia anos. - Luna fez uma pausa para fitar Harry nos olhos. - Não se engane. Draco é capaz de sorrir e falar com tamanha simpatia, que só mesmo pessoas vigilantes e desconfiadas prestariam maior atenção a ele.
- E você possui as duas características?
- Como não desejava me casar, fui mais cuidadosa do que a maioria das mulheres seria, na mesma situação. - ela admitiu. - Mas depois de algum tempo, quando ninguém ainda havia posto os olhos na grande riqueza de Draco, ou em seus incontáveis criados, ficou óbvio, até mesmo para os mais ingênuos, que havia algo errado na história dele. Infelizmente, àquela altura, o domínio que ele exercia sobre meu pai, a propriedade e os guardas era firme e inabalável.
- Mesmo com relação a você?
Ela soltou uma risada amarga.
- Especialmente com relação a mim, uma vez que somente alguns dos criados mais velhos lembravam-se bem de mim e nem todos mantiveram-se fiéis.
Haviam sido justamente os poucos que haviam permanecidos leais a ela que haviam salvo sua vida e seu destino, mas Luna não daria tal informação por nada, enquanto não tivesse absoluta certeza de que Harry Potter realmente não era aliado de seus inimigos.
Ao mesmo tempo que refletia sobre isso, ela se deu conta de que falara livremente, mais do que havia planejado. Perguntou-se como aquele homem taciturno conseguira fazê-la contar tanto sobre si mesma.
- E quanto ao casamento? - Harry perguntou em tom rude.
- Não aconteceu. - Luna admitiu, arrepiando-se ao lembrar de como chegara perto daquela calamidade. - Quando me recusei a casar com ele, Draco atirou-me no calabouço, mas eu consegui fugir. - explicou, omitindo a ajuda que recebera de dois de seus mais fiéis criados. - Então, desapareci na floresta. - acrescentou, também sem contar que fora recebida em diversas casas, onde ficara escondida por algum tempo.
Mais tarde, haviam lhe contado que Draco, incapaz de acreditar que uma mulher fosse capaz de se cuidar sozinha, fingira-se arrasado quando seus soldados retornaram à propriedade de mãos vazias. Sorriu ao pensar que conseguira enganá-lo, pois essa era a sua única fonte de prazer.
- E por que correm boatos de que você morreu?
Luna deu de ombros.
- Acho que Draco achou melhor livrar-se de mim, definitivamente, fosse em realidade, ou em ficção, mas a comemoração dele foi um tanto… prematura.
- Ele teria mandado matá-la?
O tom de Harry era feroz, contendo uma ameaça tão assustadora, que ela teria recuado, caso estivesse de pé. Felizmente, encontrava-se sentada e pôde disfarçar o desconforto que a reação dele lhe causava.
- Naturalmente. - Luna respondeu. - Por que acha que ele está contratando mercenários? O dinheiro de meu pai está sendo usado para matar sua única herdeira.
- Por que permite que ele faça isso? Por que não voltou para o lugar onde foi criada, ou foi diretamente ao rei, ou mesmo a uma propriedade vizinha, como Baddersly? - Harry argumentou, como se a atitude dela o irritasse profundamente.
- Aqueles que me criaram não me ajudariam. - Luna falou com sinceridade, sabendo que eles talvez lhe oferecessem um lar, mas ela preferia a liberdade da floresta à prisão daquela casa. - Tudo o que sempre quiseram de mim foi uma criada que não recebesse pagamento. Quanto ao rei, não me parece preocupado com este fim de mundo. - Assim como mais ninguém, Luna pensou com amargura. - E como algum vizinho poderia me abrigar, quando estou oficialmente morta? Poucos chegaram a me ver, depois do meu retorno para casa. Alguns nem se lembram de mim, na infância. Como eu provaria a minha identidade? Seria a minha palavra contra a de Draco, e ele conta com uma excelente retaguarda. Depois de anunciar a minha morte, ele assumiu controle total da propriedade. Diz a todos que meu pai está doente, mas o mantém isolado no quarto, de maneira que ninguém da minha confiança pudesse vê-lo. Temo pelo pior, que meu pai esteja morto, ou morrendo. Finalmente, não fui a Baddersly porque não sei nada sobre aquele lugar, exceto que tratamos de nos manter distantes de Harold Peasley.
- Peasley está morto. - Harry declarou impaciente. - Baddersly pertence ao meu irmão, agora.
- E o que eu sei sobre os Potter?
Embora soubesse que não deveria provocar aquele homem, Luna não se conteve. Como poderia confiar nele, quando dependia exclusivamente de seus instintos?
- Os Potter não se vendem como mercenários, nem se aliam a usurpadores. Na verdade, meu irmão tomou Baddersly de volta por sua esposa, a verdadeira herdeira do castelo. Se houvesse procurado o lorde a quem deve sua lealdade, que é meu irmão, não estaria vivendo como assaltante, na floresta!
A acusação feriu-a.
- E devo aceitar a sua palavra pela honra dos Potter? Desculpe-me, mas acho que não!
Como dois animais, fitaram-se ferozes por um longo momento. Ao perceber que Harry cerrava os punhos, Luna acreditou-o capaz de atacá-la. Que o fizesse, pensou. Trataria de garantir que ele se arrependesse disso. Afinal, derrotara-o mais de uma vez, e poderia vencê-lo de novo.
- Nossa honra é conhecida nestas terras, mocinha tola, e não permitirei que a ponha em questão!
- Então, prove! Acabe com Draco!
Sabendo que acabara de lançar um desafio que um verdadeiro guerreiro não poderia recusar, uma causa que um cavaleiro honrado não poderia ignorar, Luna prendeu a respiração, sentindo a esperança voltar a crescer. Porém, decepcionou-se mais uma vez, pois Harry limitou-se a proferir um palavrão, em uma negativa clara.
- E como poderei fazer isso, se não consigo sequer atravessar os portões da propriedade? É uma guerra o que você quer, Luna? - ele perguntou com expressão dura. - Se deseja uma batalha, garanto reunir um exército como esta região nunca viu antes.
Tal promessa provocou uma onda de entusiasmo que tomou conta de Luna e ela teve uma visão de si mesma, destruindo o inimigo com a força combinada dos Potter. A visão era clara: cavaleiros, arqueiros, soldados a pé, espalhados sobre as montanhas, convergindo para Ansquith. A animação, porém, abandonou-a, afastada pela frustração transmitida pelo homem que a fitava.
- E, se Draco não se render, está preparada para permitir que ataquemos a propriedade de seu pai? - ele perguntou.
Luna emitiu um soluço abafado e Harry aproximou-se, erguendo a mão como se fosse tocá-la, apenas para deixá-la cair ao lado do corpo.
- Talvez você não tenha noção das conseqüências de uma ação como essa, mas eu tenho. Acha que seria capaz de submeter os habitantes de sua própria casa à fome, de tomar tudo o que encontrar nas redondezas, seja de aldeões ou lavradores, para alimentar o seu exército?
Luna sacudiu a cabeça, envergonhada por não ter considerado a realidade de tal estratégia, quando aquele homem, a quem ela rotulara de inconseqüente e pouco inteligente, pensara em tudo.
- E quanto a seu pai? - Harry inquiriu em um sussurro.
Ela respirou fundo, afastando de uma vez por todas o sonho de recuperar sua propriedade das mãos do intruso, pois sabia a resposta para tal pergunta.
- Draco certamente mataria meu pai e, então, toda a luta teria sido por nada. - murmurou.
- Exatamente. - Harry concordou sombrio. - Droga! Tem de haver uma maneira… - parou de falar, virando-se de repente e provocando um aperto no coração de Luna.
Agora, era fácil acreditar que ele realmente queria ajudá-la. O temor de permitir que Potter se juntasse a ela havia se dissipado. Sem pensar, Luna segurou-lhe o braço.
- Não precisamos de um grande exército para atacá-lo. Temos conseguido atormentá-lo com um pequeno bando, embora nosso contingente venha aumentando a cada dia, pois são muitos os que não suportam mais serem explorados por Draco. Ele aumentou a porcentagem cobrada dos mineiros, passou a cobrar impostos dos aldeões e lavradores, além de expulsar vários deles de suas casas.
Harry olhou para a mão delicada em seu braço e Luna retirou-a depressa.
- E o que vocês fazem? Apenas tiram-lhe o sossego, como faria uma mosca insistente! Isso não é lutar! - ele protestou.
Dolorosamente consciente de que aquele homem poderia não ser o que ela gostaria que fosse, Luna escolheu suas palavras:
- Roubamos ovelhas, pagamentos e suprimentos. - E esperavam que Draco saísse para atacá-los, mas até aquele momento, o covarde permanecera na segurança confortável de seu novo lar. - Acredito que fazemos uma grande diferença. - ela acrescentou.
- Deixe que ele traga mercenários, pois eu mesmo os esmagarei! - Harry declarou furioso. - Mas não tenho estômago para esse banditismo.
Embora a voz dele fosse naturalmente rude, o que se tornava mais intenso quando a raiva o assaltava, Luna sentia-se atraída por aquele tom. Era como o próprio homem que falava daquela maneira: forte, valente e arrogante… e se ela não tivesse cuidado, acabaria permitindo que ele a dominasse.
Ora, isso era impensável! Ele poderia estar apenas fingindo, esperando pelo momento certo para revelar os segredos dela e destruir a todos. Mesmo sem um exército, Harry Potter era uma grande ameaça. Luna sentia o perigo que pairava no ar, bem como aquele que vinha de dentro de seu próprio ser.
Fechou a mão, ainda sentindo o braço dele sob os dedos. Nunca antes sequer pensara em tocar um homem, mas também não pensara antes de tocá-lo. Então, uma vez que ele se encontrava de costas, deixou que os olhos passeassem pelos ombros largos, o corpo musculoso, as pernas fortes. Qualquer mulher admiraria aquelas formas, a força, o poder, mas ela não era qualquer mulher. Não tinha qualquer desejo por homem algum, especialmente por um que poderia não lutar por seus direitos.
- Deve haver um meio de chegar a ele, sem colocar em risco a vida de seu pai. - Harry declarou de súbito. - Draco é um covarde, que se esconde atrás dos muros da propriedade. Não me permitiu entrar, mas creio que aceitaria um convite de seu senhor.
Luna tentou impedir que a chama da esperança voltasse a se acender em seu peito, mas um brilho repentino nos olhos de Harry provocou nela uma nova onda de entusiasmo. Quando ele a fitou com um sorriso triunfante nos lábios, ela soube que seria impossível não partilhar de tal triunfo.
- Talvez não seja tão difícil atrairmos esse sujeito para uma armadilha.
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