The Cadence of His Last Breath
Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir
Às vezes os sentimentos, não importando sua intensidade, não devem ser reprimidos. Não devem somente ser sentidos, e sim expressos.
Um homem na penumbra de um quarto sem vida ou na solidão de uma masmorra fria. Este sou eu, Severus Snape.
Melhor dizendo, este era eu. Sozinho, amargo, rude e insensível.
Eu era especialista em trancar-me em minha apertada farsa. Quatro paredes cercavam-me. Minha mentira sufocava-me cada vez mais e simplesmente não havia espaço. Eu vivia sem ar. Mesmo assim o espião-duplo não fracassou, não por completo.
Eu guardei um primeiro amor, reprimi meu mais inocente desejo. E só provei a dor da perda, nada além da dor. E da culpa.
Por anos mergulhei na mais profunda amargura. Estava dilacerado. E também estava morto, ou quase.
Mas eis que o destino – sempre tão cruel – provou-se, ainda que por um breve instante, um acolhedor amigo. Colocou em meu caminho os olhos mais sinceros.
Então rasguei o disfarce negro, a muralha de indiferença que me cercava desmoronou. Abri a porta e as janelas. Libertei-me e amei. Somente amei.
Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquenta
E permitir
Ansiava pelo momento em que poderia externar o que de mim brotava. Cheguei ao meu estado mais alto de enleio e me declarei.
“Eu amo você.” – disse somente.
Ver seus olhos derramando lágrimas e seus lábios ensaiarem um sorriso reparou muito de todo o sofrimento passado.
Hermione coloriu meus dias escuros e trouxe ânimo, compensando os momentos de depressão, com o menor gesto. Trouxe calor à minha vida tempestiva. Era meu sol, meu passeio no campo. Minha mulher.
“Eu amo você.” – repeti.
Mais uma vez ela sorriu.
A noite tornou-se dia, e eu me uni a você.
Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar
Então toquei seus cabelos, me permiti sentir a pele macia de seu rosto. Perdi-me na imensidão do seu abraço e beijei-lhe os lábios. Nosso olhar soletrou tudo aquilo que queríamos dizer.
Pela primeira vez nos amamos. Eu me deitei ao seu lado e apertei sua mão. Queria agradecer por aquele momento:
“Obrigado por estar aqui.” – encarei-a, sendo aquelas palavras talvez as mais sinceras já ditas por mim – “Prometa-me que nunca vai me deixar.”
Sem pronunciar qualquer palavra, você prometeu. Prometeu com o olhar. E eu conhecia o idioma de seus olhos, me permiti interpretá-lo do meu jeito.
Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar
Mal sabíamos que aquela promessa precisaria ser quebrada. Uma conversa mudaria tudo.
Dumbledore me convocava até seu escritório. Por seu rosto inexpressivo e cético percebi que novamente más notícias chegariam a meus ouvidos. Os fortes raios que anunciavam uma tempestade pareciam também premeditar o que o velho bruxo tinha a me dizer.
“Você terá que ser ainda mais forte, Severus.” – o Diretor apoiou melhor os óculos em formato de meia-lua no nariz torto. – “Eu preciso que você prossiga com nosso plano, que termine o trabalho do jovem Malfoy, não quebre o Voto Perpétuo. Quero que até me tire a vida se necessário.”
“Você não propõe somente que eu o mate.” – dirigi-me à porta. – “Aceitando seu pedido, você sabe quem mais sofrerá e quem morrerá por dentro.”
Eu não tive forças para retrucar, carregaria o peso de mais uma vida, ou morte, em minhas costas. Somente pensei em Hermione e em como aquilo seria doloroso para ela.
Novamente eu estaria entre as trevas e a luz.
As Masmorras de Hogwarts há tempos não eram palco de tão abrasante e acalorada discussão.
De um lado, a grifinória inconformada; de outro, o sonserino vivendo uma dualidade inquietante.
“Granger, suma daqui agora!” – ele disparou pela segunda vez em poucos minutos.
“Qual o seu problema, Severus? Há pouco confessava seus sentimentos e agora quer me deixar sem mais nem menos quando pediu que eu não o fizesse?”
“Eu menti.” – ele foi direto e categórico.
Percebeu que ele fugira de sua pergunta, mas, ao invés de exigir resposta para ela, Hermione fez uma segunda – “Mentiu sobre o quê?”
“Eu não a amo, Granger. Nunca amei, garota tola.” – a dor latente em seu peito desmentia a gargalhada vil que veio após essas palavras. – “Pouco me importa você perto ou longe. Você foi apenas a diversão do solitário Professor de Poções, contente-se com isso.”
Cansada de persuadi-lo do contrário, a paciência de Hermione se esgotou – “Sofrerá as consequências, Snape.” – as palavras firmes contrastavam com sua voz chorosa. – “Dumbledore logo saberá sobre os comportamentos nada profissionais do Mestre de Poções dessa Escola. Nada escapa da percepção dele. Nada.” – enxugou rudemente as lágrimas dos olhos com as costas da mão direita. – “Se escapar dessa vez, eu conto tudo.”
“Conte.” – um sorrisinho enviesado brincava em seus lábios. Escárnio e zombaria pareciam, mais do que nunca, uma marca registrada sua – “Ele não acreditará em você.” – o sorriso alargou-se, mostrando os dentes amarelados do homem – “E, mesmo que deseje abrir essa maldita boca, sei que não tem coragem para tal. Isso significa que caiu na Casa errada, Granger.”
No fundo Hermione sabia que ele tinha razão. Não sobre ser de outra Casa, mas sobre abrir o jogo com Dumbledore. Mesmo que ele agisse como um biltre da pior estirpe, ela o amava.
“Pare de chorar!” – E venha para os meus braços, seu inconsciente tratou de completar, mas seu tom manteve-se igual ao de antes, incorruptível. Mostrou-se tão persuasivo, que seu fingimento era quase capaz de convencer até a ele próprio – “Está ensopando o carpete da minha sala. Vá para o cabeça-de-fogo, ele é um partido bem melhor do que eu. Ele não hesitaria em lhe oferecer um ombro amigo. Você é até bonitinha e o estúpido do Weasley fácil demais de dobrar.” – por sua feição, ele não parecia lamentar por pedir-lhe para correr para os braços de Ron; pelo contrário, parecia divertir-se bastante com a ideia.
Por mais egocêntrico e possessivo que fosse, precisou dizer aquilo. Era o xeque-mate, a jogada final para afastá-la dele, uma última tentativa para fazer com que ela o odiasse.
“Então, vá para o inferno com seu egoísmo, Severus.” – olhos negros indecifráveis observavam atentamente cada passo dado por ela até a porta, sem olhar para trás.
“E é Professor Snape para você, Granger.” – desfechou, antes de vê-la sumir de suas vistas e de ouvir a porta ser batida com força.
Ele inclinou-se, ainda de pé, até sua mesa, apoiando os dois braços e abaixando a cabeça. Não era o tampo desgastado de madeira que ele enxergava, entretanto, e sim a lembrança do primeiro sorriso envergonhado que ela lhe dera – semicoberto por cabelos castanhos revoltos – misturada a lágrimas há muito tempo guardadas dentro de si, embaçando sua visão.
Hermione era um anjo, doce e inocente como uma menina. Diferente dele, que precisava lidar com seus demônios e estava condenado a uma vida solitária, de trevas e de ódio.
Ela, dali não muito distante, escorou-se nas gélidas paredes de pedra das Masmorras de Hogwarts. Voltar para a Sala Comunal, e dar de cara com bisbilhoteiros, ou passar pelos corredores mais iluminados naquele momento poderia lhe causar problemas. O jantar havia sido servido há pouco e muita gente deveria estar circulando pela Escola; afinal, Hermione Granger de olhos vermelhos e abatida certamente despertaria olhares curiosos e especuladores.
Para Snape, aquele lugar estava mais frio do que de costume.
No dia anterior ele confessava seu amor pela jovem grifinória que perturbava incessantemente seus pensamentos, já nos seguintes ele seria o assassino mais caçado e perseguido pelo mundo bruxo. E ali Severus Snape sabia que ela o odiaria. Então, por que adiar o inevitável e fugir do destino tão óbvio? Preferiu dar-lhe um motivo e explicações – ainda que mentirosas – do porquê de querê-la longe do que esperar para ver, sabendo que a cabeça dela se encheria de perguntas.
Meses, que mais pareciam anos, se passaram. Snape como diretor de Hogwarts, permanecia a maior parte do tempo inconformado com as escassas informações que o quadro de Phineas Nigellus lhe podia passar. Queria saber como o trio de ouro estava, como ela estava.
É por ela que estava ali, é por ela que seguiria até o fim. E, quando menos esperava, o dia da Grande Batalha chegou.
“Mate!” – eu ouvi a familiar voz sibilada proferir, e então me senti sufocar no sentido mais amplo da palavra. Nagini envolvia o meu corpo, presas dilaceraram meu pescoço.
Olhos ofídicos deleitavam-se com a imagem da varinha antes minha e que agora estava em outras mãos. Tomada. Arrancada.
Então o Lorde das Trevas dali desapareceu, e o silêncio aparentava ser minha única e derradeira companhia.
O sangue me abandonava, a vida igualmente. Não somente de forma literal, figurativamente também. Morrerei eu sem redenção? Talvez eu devesse pagar pelos meus pecados, ser julgado por cada um deles. Sem me redimir, sem testemunhas vivas para desmistificar o que fiz, os segredos que guardei, daquilo por que lutei.
Se eu pudesse enxergá-la diante de mim por pelo menos mais uma vez...
Eu vi o Potter. E então eu, sofregamente, também a avistei. O garoto parecia surpreso com o que presenciara. Minha menina aparentava confusão, como se fosse muita informação a digerir em pouquíssimo tempo.
Meses antes eu busquei dar-lhe motivos para odiar-me. E consegui.
Poderia morrer e deixá-la apenas com as lembranças que reservei em mim.
Reservados para ela, devo dizer. Manifestar-lhe, através de uma penseira, tudo em silêncio. No descanso eterno, sem ter como voltar atrás ou uma segunda chance.
Tinha a possibilidade, além disso, de decompor em palavras os meus sentimentos, ainda em vida. Mas meu tempo era curto, restava pouca areia na ampulheta nos Céus que determinava por quanto tempo mais eu viveria.
Então eu percebi castanhos em mim, como se apenas seu fitar fosse capaz de queimar minha pele. O brilho em seus olhos a denunciou.
“Harry, me espere lá fora.” – ela pediu sem sequer tirar os olhos de mim.
O jovem Potter pareceu não compreender muito bem o porquê daquele pedido dela, mas obedeceu.
O seu amor é uma coletânea de tormentas que eu cacei através dos céus
Um momento em seus braços se tornou a compensação
E você continua sendo a única luz que completa o vazio
A única de que eu preciso até meu último suspiro
Por você eu persisti, por você eu segui em frente nesta maldita guerra. Por você eu morreria, minha cicatriz, minha verdade.
Meu coração parecia bater a contragosto, minha respiração mais lenta ficava e meu tórax mais pausadamente se elevava.
A inversão do mundo, a cor da sua alma
Aquele amor pode matar a dor
A verdade nunca é vã.
Ela transforma estranhos em amantes
E inimigos em irmãos
Foram anos do duelo entre o Severus homem e o Snape Comensal. E talvez o empate fosse o resultado mais justo. Antes de eu conhecê-la.
De professor e aluna, meros estranhos, fomos além. Destinos se entrelaçariam, almas também.
Poucos momentos juntos foram suficientes para fazer de você a pessoa mais importante para mim. Eu a amei, e pouco depois precisei que me odiasse.
Só me diga que você entende
Eu nunca havia planejado isso
Parece que aqueles que amamos são os que iludimos
“Hermione, permita-me explicar...”
“Não fale, Severus.” – ela sussurrou, ajoelhando-se ao meu lado – “Eu soube, sempre soube, que não havia me enganado.” – seus olhos, antes somente marejados, agora mal comportavam as lágrimas que derramavam-se teimosamente pelas bochechas dela – “Pensei que o odiava naquela noite em que me disse tudo aquilo, no dia seguinte tudo parecia se confirmar. Compartilhei por alguns meses o ódio do Harry por você, mas quando a Guerra via seu desfecho se aproximar, eu finalmente compreendi.”
Senti o calor de sua mão na minha.
“Eu não me importei com sua dor, Severus. E lamento tanto.”
Como poderia você viver com minha dor quando sequer sua própria você era capaz de suportar?
“Hermione, me perdoe.”
Eu não disse adeus. Não enxergava a morte como despedida no sentido mais cru da palavra. Para mim a morte, ali, era o começo. O começo da verdade que se oporia ao caminho de mentiras sobre o qual caminhei por todos aqueles anos.
Então eu me lembrei de pelo que eu estava morrendo. A fé recuperava meu sonho de um papel que estive interpretando nas telas que são seus olhos. E, quando eu os fitei, a vida parou de contar mentiras e o destino, enfim, convenceu-se de que você era a metade que me faltava. Talvez tarde demais.