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1. Noite infeliz


Fic: Natal em preto e dourado.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Uma primeira nota sobre as coisas de natal. A neve embaçava os vidros das janelas já foscas de poeira antiga. Em seu quarto, de poucas velas, Sirius Black observava uma legião de trouxas em frente ao Largo Grimmauld, nº12, na “Mui Antiga e Nobre Casa da Família Black”. Todos andavam apressadamente, rua acima, rua abaixo. Nos braços, uma infinidade de embrulhos e caixas. Coisas brilhantes, coisas coloridas, coisas de natal.

Sirius Black nunca teve paciência para o natal. Parentes distantes enchendo a casa. Competição pelo melhor presente. Sua mãe, o dia todo aos gritos com os elfos domésticos na cozinha. Mesa farta. Muito vinho, pratos requintados, tilintar de taças de cristal. Sangue puro, pessoas falsas, sorrisos frios, olhares distantes. Era esse o detestável natal da nobre família Black. Quatorze anos preso em Azkaban fizeram Sirius Black sentir saudades do natal em sua velha casa, com sua esnobe família.

Com seus olhos perdidos entre as cortinas negras corroídas pelo tempo, ele desejava cada insuportável membro de sua família de volta nem que fosse por uma noite apenas. Só mais um natal. Após sua fuga da prisão, seus dias na antiga casa eram, quase sempre, solitários. Amigos, prudentes, o visitavam rapidamente para não levantar suspeitas. No mais, tinha de se contentar com o som das tábuas rangendo sob seus passos, com os estalos da velhice da casa e com os resmungos e lamentações de seu velho elfo doméstico, Monstro. Nos últimos dias, o lugar preferido de Sirius era a biblioteca do casarão.


Nota sobre a velha biblioteca: Monstro levava lanches para Sirius de manhã e à tarde sempre resmungando e reclamando o fato de ter que servir a Sirius a quem considerava indigno de viver na casa de sua “nobre senhora Black”. A biblioteca era ampla cheia de estantes de madeira negra e grandes armários de mesma cor com serpentes talhadas em suas portas. Ao fundo da sala havia uma mesa retangular com as pernas em forma de imponentes serpentes negras de madeira e logo atrás uma poltrona de couro preto com o brasão da família Black no encosto. Ao centro, havia um enorme tapete de cor vinho e preto, mas o tempo já não permitia mais que se distinguisse o que estava estampado ali, pois estava encardido e rasgado nas laterais. No teto, pendia um pomposo candelabro com centenas de gotas de cristal brilhando em meio às teias de aranha denunciando um passado de luxo e glória que estava entregue á decadência implacável do tempo. Centenas de livros, a maioria de capas pretas com inscrições prateadas, se amontoavam nas velhas estantes e Sirius já havia perdido as contas de quantos lera nas últimas semanas. Leu velhos e divertidos romances bruxos onde lindas bruxinhas conquistavam seus amados através de encantamentos que na realidade nunca existiram, aventuras gloriosas de bruxos que lutaram em guerras passadas, biografias, contos, histórias de elfos, duendes, fadas e textos sobre estudos de magia. Apesar do prazer da leitura, com o tempo as aventuras das bruxinhas apaixonadas perdera a graça, o vinho, após o jantar, já não tinha mais o mesmo sabor e Sirius não suportava mais os sanduíches mal feitos e as frutas mal lavadas no lanche que Monstro servia.

Monstro interrompe os pensamentos de Sirius.
_ O que vai querer para a ceia, senhor?
_ Nada. Responde Sirius sem tirar os olhos da pequena multidão e suas coisas de natal. Os últimos raios solares extinguem-se vencidos pela neve, vencidos pela noite. Uma lua pálida surge no horizonte noturno. É noite de natal, nem a lua quer ficar escondida, solitária.

Sirius toma um longo banho. Esquece seu corpo na antiga banheira com pés de serpentes douradas. Chega a adormecer. Penteia os cabelos que lhe caiam pelos ombros. Faz a barba. Vesti-se de preto. Calça e blusa. Algumas das poucas peças de roupas em bom estado que encontra no armário. Perfuma-se. Para quem? "Apenas para mim".

Desce as escadas vai até o antigo porão. Escuridão total.
_ Lummus ! Luz na ponta da varinha. Olhos atentos procuram por uma garrafa de vinho em meio às cortinas de teia de aranha. Pergaminhos amarelados, quadros quebrados, livros destroçados por fadas mordentes e antiguíssimos álbuns de retratados que insistem num passado de glória da família Black. Nobreza, pureza de sangue. Lá está, descansando dentro de um velho caldeirão de estanho, três grandes garrafas de vinho tinto, escuras de vinho e poeira.

Sirius sobe as escadas, senta-se na sala de estar.
_ Monstro?
_ Sim, meu senhor.
_ Ascenda a lareira.
_ Sim...meu senhor. O elfo obedece de pés rastejantes, resmungos escapando-lhe da garganta contraída.
_ Agora sente-se.
_ Senhor?
_ Sente-se, Monstro. O velho elfo ajeita seu avental esfarrapado e senta-se numa poltrona diante da lareira, de frente para seu senhor que tem duas taças de cristal nas mãos. Enche as duas com vinho e entrega uma a Monstro.
_ Feliz Natal, Monstro. Sirius ergue a taça. Mostro, perplexo, de pé sobre o tapete, olha para os lados como quem acabara de chegar a um planeta estranho. Taça de vinho tinto em uma mão, a outra, aperta a barra do avental.
_ Falou comigo, senhor?
_ Claro seu elfo estúpido. Acaso há mais alguém aqui? _ Vamos brindar a esse natal. Só temos um ao outro nesta noite, não é?
_ Sim, meu senhor. Taça erguida timidamente por uma mão de elfo. Tilintar de cristais.
_ Feliz na-natal, Sirius Black, senhor.
_ Para você também. A lenha crepita na lareira. A primeira garrafa já está vazia. Sirius abre a segunda.


Nota descritiva sobre a antiga sala Penumbra. Luz fraca de algumas poucas velas, Sirius Black de olhos vidrados no fogo da lareira. Na poltrona em frente, um elfo embriagado, dorme, taça de cristal tombada sobre o tapete encardido. Não há árvore, não há bolas coloridas, nem luzinhas piscantes, nem presentes, nem gente, nem família e, à mesa, apenas um vaso de cristal com meia dúzia de flores murchas de cor indefinida.

Metade da segunda garrafa. O elfo de olhos semicerrados se levanta.
_ Algo mais, meu senhor?
_ Não. Pode ir.

Um estardalhaço na cozinha. O elfo, tonto, derruba alguma coisa que se parte em alguns pedaços. Na sala, Sirius adormece. Perde a luta contra o sono. Tenta manter os olhos pestanejantes abertos, realmente é vencido. Mais uma taça tomba sobre o tapete. Ele não ouviu o baquezinho surdo.

Explosão na lareira. Impossível não ouvir. Sirius salta da poltrona com a varinha em punho. Seus pés esmagam a taça sobre o tapete. Em meio a uma cortina de fumaça verde-esmeralda surge um vulto encapuzado. Sirius dá alguns passos inseguros para trás. O vulto avança lentamente. O vulto pára diante dele. Sua mente projeta a imagem de sua antiga cela na prisão de Azkaban. "Eles me encontraram, esses malditos!" Seu coração dispara, seu corpo se paralisa de pavor e seus lábios aguardam pelo beijo gélido e mortal.

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