“Eu não pertenço a você
Bem, talvez eu quisesse
Mas não consigo me ver
Vivendo ao teu lado.
E eu tento esquecer daquele beijo roubado[...]”
Encontrava-me no quarto, me arrumando para o meu encontro com Marcus, estávamos namorando pouco mais de cinco meses, e saíamos algumas vezes durante a semana. Marcus era professor de Durmstrang, estatura mediana, olhos verdes, cabelos negros, com um corpo definido, o ideal de um homem para qualquer mulher. Enquanto colocava o longo vestido, a imagem de um rosto invadiu a minha mente, fiquei surpresa, mas era o rosto perfeito de Azzurra, nunca havia reparado em como os cabelos na altura da cintura emolduravam seu rosto perfeitamente, o sorriso, o contorno da boca, a delicadeza do nariz e a intensidade que os seus olhos transmitiam parecia ser desenhado, estava em transe, consegui afastar imediatamente as imagens e aquele pensamento da cabeça. Concentrei-me novamente na minha vestimenta, pulei para os acessórios, colocando os brincos combinando com o vestido preto e um cordão prata com pequenas contas, fiz uma maquiagem leve e sai do quarto, inspirando e expirando, preparando-me, pois no fundo sabia o que estava me esperando. Rumei para o Café da Madame Poddefoot, parei na entrada, frente a ele cumprimentando-me.
- Oi! – Marcus abriu um largo sorriso, dando-me um selinho e eu o retribui com um sorriso para não demonstrar a agonia que eu me encontrava por dentro. Mas ele não esperou outra reação minha, pegando-me pela minha mão puxando-me para dentro, quando sentamos, uma senhora nos atendeu, Marcus pediu dois chocolates quente, foi nesse instante que ele estranhou meu silêncio e perguntou. – Tudo bem com você? – ainda estava segurando a minha mão e alisou os meus dedos.
- Estou bem, só cansada. – respondi sem entusiasmo algum, fitando o movimento que começara a incomodar.
- Compreendo Erin, você se dedica demais... Sorte que faltam duas semanas para o natal, assim você vai poder descansar. – Finalmente soltou minha mão, encostou-se à cadeira de um modo relaxado, coçando o alto da cabeça de seu cabelo arrepiado, ajeitou alguns fios, observando a senhora caminhando em nossa direção com uma bandeja com duas xícaras de chocolate. Ela nos serviu e o cheiro do chocolate logo invadiu as minhas narinas, parecia delicioso, concentrei-me na fumaça que saia, tomei uma dose e comprovei o quanto estava certa sobre, estava realmente muito bom. Ele prosseguiu a conversa.
- Você pensou na proposta que te fiz? – perguntou sério e inseguro. – Sobre morarmos juntos no final do ano? – Senti seu corpo enrijecer quando abri a boca para responder.
- Marcus, nós já conversamos, eu não sei, não estou pronta para deixar Hogwarts. – Falei angustiada, pois já não suportava mais aquela pressão.
- Erin, você está adiando, sempre que o assunto envolve um futuro a dois... O nosso futuro a dois... – Ficou evidente a sua cara de desgosto, sua feição se transformara em uma careta.
- Desculpa, eu realmente preciso pensar mais. Não gosto de ser pressionada e você sabe disso, nos conhecemos há tanto tempo que pensei que soubesse o mínimo de mim, das minhas reações. – respondi indignada, mas continuei. – Estou há anos em Hogwarts, sigo o legado do meu tio, Snape, não posso deixar assim... Tenho uma vida ali, tenho os alunos que gostam de mim. – Terminei de falar com os olhos marejados, odiava a ideia de chorar na frente dele, me controlei o máximo que pude.
- Tudo bem, eu vou esperar o tempo que for. – Marcus estava inconsolável e na verdade eu não me importava com isso, eu gostava dele, porém aquele passo era muito além do que os meus pés alcançavam.
Duas horas se passaram enquanto, apesar do clima pesado, trocávamos poucas palavras e bebíamos bastante, deu a hora de voltar para a Escola, fomos à direção à porta, eu não queria que ele me acompanhasse então nos despedimos e seguimos rumos opostos... Caminhei vagarosamente, pensei na minha vida e no que queria futuramente, mas no fundo eu sentia-me presa ao passado... Eu sentia falta dela, ainda a amava e o fato de não tê-la mais me corroia por dentro, por não ter podido salvá-la, no fundo eu me culpava. Cheguei à Escola pouco depois das dez, subi as escadas e parei para olhar o céu, estava estrelado e de um azul escuro que atraia a minha atenção. Passei alguns minutos apenas observando, senti um toque leve nas minhas costas e quando me virei ali estava ela, com os mesmos olhos intensos e um sorriso que me paralisava por completo passei um breve momento encarando-a, quando me dei conta, já era tempo demais. Azzurra também me encarava era indecifrável a sua expressão, dei por mim quando disse:
- Boa noite, Erin. – Cumprimentou-me sorrindo. Aquele sorriso me encantava.
- Boa noite, Azzurra. – respondi formalmente.
- Por favor, me chame de Azz, sem cerimônias. – pediu despreocupada tirando o cabelo da face.
- Hum... Azz... Bem, o que faz aqui há essa hora? – perguntei, percebendo que ela já deveria estar no dormitório.
- Estou apenas andando um pouco. – remexeu em um dos bolsos no casaco e tirou um maço de cigarros, pegou um, ofereceu-me e o acendeu.
- Não, obrigada, eu não fumo. E nem você deveria... Aonde você os conseguiu? – perguntei realmente intrigada.
- É eu também não fumo... Consegui por ai. – levou o cigarro à boca, puxou e logo depois soltando a fumaça.
- Você estava fumando quando a vi pela primeira vez. – ela gargalhou e eu não entendi.
- Pois é, foi naquele dia que eu comecei. – relaxei um pouco. Não sei por que, mas eu gostava de conversar com ela.
- Você devia parar com isso. – alertei.
- Ah, eu não ligo, não queria estar aqui. Você conhece algum lugar legal por ai? – vi a curiosidade brilhar em seus olhos.
- Sim, mas já está um pouco tarde, você deveria estar no dormitório. – falei de um jeito quase repreensivo notando a expressão em seu rosto murchar. – Bem, acho que uns minutos não vão fazer mal a ninguém, mas melhora essa carinha.
- Sério? – sua expressão se transformou em um largo sorriso. – Vamos?
Fomos caminhando apressadamente a torre Leste, muitos adoravam aquele lugar, mas hoje estava vazio e conversamos, não percebi mas ao invés de minutos passaram-se pouco mais de uma hora. Dei um pulo e ela me perguntou o que havia acontecido.
- Está tarde demais, você precisa voltar... – vacilei nas palavras corrigindo-as após - quero dizer, precisamos voltar.
Azz seguiu rumo ao dormitório e eu ao meu quarto, despi-me ali mesmo e fui para o banheiro, enchi a banheira, mas antes retirei a maquiagem. “Preciso dormir melhor.”. Resmunguei enquanto via duas bolsas escuras embaixo dos olhos. Fui para a banheira com a água morna cobrindo o meu corpo nu, fechei os olhos e comecei a relaxar, após um breve momento, os pensamentos que tanto me atormentavam invadiram a minha mente.
-------------------------------------Flash Back --------------------------------------
Estava na casa que os meus pais me deram quando me formei, uma batida na porta e desci para atender. Abri a porta e ela estava parada a minha frente com um sorriso lindo. Era Jenny, minha melhor amiga e namorada.
- Oi, linda. – disse ainda com um sorriso.
- Oi, entra... – dei um meio sorriso.
- Acho que nós precisamos conversar, eu preciso explicar algumas coisas pra você... E também quero pedir desculpa por tudo o que vai acontecer. Espero que me perdoe um dia. – aquele sorriso imediatamente desapareceu e a chama em seus olhos se apagou.
- Do que você está falando? O que quer dizer? – perguntei com um aperto no peito.
- Nada, amor, eu só preciso... Bem, não importa, estou só de passagem. – os seus olhos se encheram de lágrimas, que logo rolaram em sua face.
- Jen, me diz o que aconteceu. Eu posso te ajudar, mas preciso que confie em mim pra isso. – disse me aproximando um passo.
- Não tem como, Erin, sinto muito... – fitou o vazio ao continuar – e eu confio em você, confio muito e a amo acima de tudo. Você é a mulher mais especial da minha vida. Crescemos juntas, começamos a sentir o amor, um amor diferente e estamos aqui... Juntas.
- Eu sei. Olha pra mim. – ordenei. - Olhando em meus olhos. – acrescentei. – Você se sente sufocada?
- Não, não me sinto assim com você... – Chorava copiosamente com as mãos cobrindo o rosto. Andei mais um passo. Agora estávamos a um passo de distância, podia sentir o calor do seu corpo, o medo que estava a sua volta.
- Jen... – disse em um sussurro quase inaudível.
- O que? – respondeu com a voz embargada.
- Eu estou com você e não a deixarei sozinha. Eu te amo. – Diminui a distância entre nós e a envolvi em meus braços. Tentando protegê-la do mundo e do que a estava deixando tão angustiada, fazendo-a sofrer. Ela me olhou ainda chorando e tocou os seus lábios nos meus. O gosto salgado das lágrimas que vinham da sua boca invadiu a minha. Entreabri os lábios e nos beijamos delicadamente, docemente. Uma dor invadiu o meu corpo, aquele beijo parecia uma despedida, ficamos abraçadas por um tempo, tempo que pareceu pouco. Ela por fim se acalmou, ofereci uma bebida e aproveitando do silêncio passamos uma última noite juntas, com ela em meus braços, protegida do frio, parecia uma criança indefesa que precisava de cuidados e proteção.
----------------------------Fim do Flash Back-------------------------------------------------
Estava inerte em meus pensamentos e quando voltei à água já tinha deixado de ser morna e percebi que estava chorando. Lembrar daquela noite me angustiava. Levantei-me da banheira e vesti o roupão, fui para o quarto e pus a roupa de dormir, bebi um copo d’água, dei uma última olhada no espelho constatando que meus olhos estavam vermelhos e as pálpebras inchadas por ter chorado e ainda com as olheiras. Eu estava horrível, mas com a esperança que uma noite de sono melhorasse o meu físico porque meu emocional esttava totalmente abalado, me deitei na cama fazendo um ninho aconchegante com as cobertas, afundei a cabeça no travesseiro, me revirei um pouco e acho que estava cansada demais, porque em instantes o sono me venceu.