CAPÍTULO I
Harry Potter queria lutar. Embora houvesse negado, caso questionado, Harry escolhera deliberadamente seguir pela estrada que cortava a floresta, como se estivesse desafiando bandidos a atacar seu grupo. Sentia-se entediado e desbaratar um bando de salteadores, se fossem tolos o bastante para tentar um assalto, seria o melhor remédio para aquele mal.
Quando aceitara a missão proposta pelo irmão, Dunstan, acreditara haver encontrado uma boa maneira de fugir da paz excessiva que reinava nas propriedades de seu pai. Porém, depois de dias intermináveis na estrada, sem ter se deparado com qualquer incidente, Simon começava a ficar inquieto. Embora seu destino, o castelo Baddersly, não estivesse muito longe, a perspectiva de administrar as terras do irmão não era das mais atraentes.
Durante toda a sua vida, Harry sentira-se em constante competição com os seis irmãos. Especialmente, Dunstan, o mais velho, que servira o rei Edward, no país de Gales e, assim, recebera suas próprias terras. Embora a necessidade de provar seu valor houvesse diminuído nos últimos dois anos, à medida que Simon passara a assumir responsabilidades maiores, ele ainda esperava, impaciente, por desafios, como se em sua vida existisse a falta de algum tipo de glória.
Tal necessidade não encontraria satisfação em uma simples incursão pela floresta, Harry pensou, enquanto seu corcel adentrava a mata. Os homens que o seguiam ficaram em silêncio. Durante algum tempo, os únicos sons eram produzidos pelo roçar do couro nas armaduras flexíveis, confeccionadas em malha de fio metálico, bem como dos cascos das montarias batendo contra a terra seca da estrada. Simon tinha certeza de que seus irmãos não teriam escolhido aquele caminho. Na verdade, podia ouvir o sensato Geoffrey lembrá-lo de que não estava conduzindo um exército, mas sim um pequeno grupo de guardas montados. Como podia ser tão imprudente com respeito à vida de seus homens?
Tal pensamento só fez piorar o humor de Harry, que fincou os calcanhares no cavalo.
Porém, era tarde demais para se arrepender da decisão tomada, pois um pouco adiante, à sombra escura que as árvores lançavam sobre a estrada, havia um tronco enorme caído, atravessado. Certo de que não se tratava de um acidente, Harry concluiu que chegara o momento da esperada luta. Em silêncio, ergueu uma das mãos, em um gesto de advertência para aqueles que o seguiam. Então, desembainhou a espada.
- Pare e identifique-se. — gritou uma voz, de trás do tronco.
Naquele momento, Harry desejou poder trocar um de seus cavaleiros por um bom arqueiro. Estreitando os olhos, observou o dono da voz subir no tronco. Muito esperto, de fato, o sujeito vestia túnica e braies, ambas de um marrom escuro, de maneira a ser facilmente confundido com a paisagem. Não empunhava nenhuma arma, mas plantou os pés separados e colocou as mãos na cintura, assumindo uma postura petulante, que fez Harry ranger os dentes. Tinha uma pequena espada na bainha e usava uma espécie de armadura encurtada. A última, provavelmente, roubada de algum cavaleiro cativo, ou morto, Harry pensou, furioso.
— Saia do caminho, pois nego-me a responder a bandidos.
— Diga seu nome, a quem presta obediência e qual o seu propósito nesta floresta. — o assaltante replicou, mostrando-se impassível.
Parecia ser muito jovem e tolo, também. A menos que as árvores ocultassem um grande número de homens, melhor equipados do que ele, o rapaz não teria a menor chance de vencer a disputa com um bando de guerreiros experientes.
— Sou Harry Potter, leal a meu pai, conde de Campion, e a meu irmão, barão de Wessex. Meu propósito não é da sua conta. Não cometa o erro de desafiar-me. Agora, desapareça, ou será morto.
— Não! Foi o senhor quem cometeu um erro ao vir aqui, lorde Potter… se esse é mesmo o seu nome. Entreguem suas armas, pois estão cercados!
Harry soltou uma risada, ao ouvir uma ordem tão pomposa, proferida por um salteador.
— Pelo que estamos cercados, além de árvores? — indagou.
Ora, mesmo que o jovem tivesse companheiros por perto, eles pouco poderiam fazer contra cavaleiros armados. Com certeza, o garoto atrevido perceberia o absurdo de seu desafio.
— Além das árvores, milorde, por arqueiros, também. — o rapaz respondeu.
Tal afirmação foi seguida por murmúrios dos homens de Harry. Ele ergueu os olhos e constatou que havia vários homens posicionados em galhos altos das árvores, todos apontando suas flechas na direção dos cavaleiros. Ficou perplexo. Como era possível que meros bandidos houvessem se tornado tão bem treinados e organizados?
Harry rangeu os dentes, pensando nas advertências de Geoffrey sobre colocar em risco desnecessário a vida de seus homens.
— Entreguem suas armas — o rapaz repetiu.
Para Harry, não habituado a receber ordens, especialmente do que classificou como "pedaço de gente", aquela foi a gota d’água. Que os arqueiros fossem para o inferno! Não se renderia sem luta. Erguendo a espada, soltou um rugido feroz e incitou o cavalo à frente, determinado a separar a cabeça do fanfarrão do resto de seu corpo.
Finalmente, encontrara a batalha que estivera esperando. Juntamente com a fúria, sentiu a familiar excitação, diferente e mais intensa que qualquer outra, provocada pelo som de espadas se chocando.
Ouviu os gritos de guerra dos cavaleiros que o seguiam e deixou que a sede de sangue o dominasse. Porém, sua espada cortou o ar, uma vez que o rapaz saltou para fora de seu alcance. Antes que tivesse a chance de atacar de novo, Harry sentiu um golpe nas costas, forte o bastante para derrubá-lo de cima do cavalo, deixando-o caído, sem espada e sem fôlego. Apesar de se sentir atordoado, virou-se e colocou-se de pé, na velocidade de um raio, livrando-se do homem que havia se atirado sobre ele.
Flechas voavam em todas as direções, mas ele avistou o jovem, que gritava ordens para os companheiros, protegido pelo tronco caído. Tal demonstração de covardia deixou Harry cego de ódio. Com rapidez e precisão, saltou no ar, agarrando o rapaz e levando-o ao chão, tudo em um só movimento.
— Solte-me! — o garoto gritou, a voz subitamente estridente, pelo pânico que o invadira.
Por um momento, Harry sentiu-se satisfeito, mas no mesmo instante, sentiu o contato de uma lâmina com seu pescoço. Qualquer outro homem teria se imobilizado, então. Harry, porém, jamais fora capaz de manter a calma e o sangue frio. Com outro rugido selvagem, afastou o punhal, ignorando a dor provocada pelo corte em sua pele.
Quando a arma caiu no chão, longe do alcance de seu oponente, Harry agarrou-lhe o pescoço, decidido a estrangulá-lo. O jovem debateu-se e esperneou, desesperado, até que seu joelho atingiu Harry bem entre as pernas, arrancando-lhe um gemido de dor.
Ainda assim, Harry conseguiu manter cativo o assaltante, ao mesmo tempo que abaixava uma das mãos, a fim de devolver-lhe a dor na mesma proporção. Bastaria um apertão, pensou, para fazer o patife falar ainda mais fino. No entanto, foi Harry quem arregalou os olhos, surpreso, quando sua mão não encontrou nada que pudesse ser apertado. Desconsertado, deu-se conta de que sua mão pousara sobre os contornos macios de uma mulher.
— Bastardo! — o oponente sibilou.
Ainda chocado, Harry ergueu a cabeça, mas antes que pudesse examinar as feições da criatura estranha, sentiu o forte impacto de uma pedra contra sua cabeça, logo acima da orelha. Piscou os olhos algumas vezes, confuso por ver as feições do garoto se transformarem nas de uma mulher e, então, o mundo mergulhou na escuridão.
Harry recobrou a consciência, com um sobressalto, ao sentir algo úmido em sua pele. Quando tentou movimentar-se, descobriu que tinha as mãos amarradas. Debatendo-se com violência, praguejou, furioso.
— Fique quieto, seu tolo! — ordenou a voz feminina, ligeiramente irritada.
No mesmo instante, Harry ficou imóvel, tentando reconhecer o rosto à sua frente.
As feições eram jovens, a pele clara apresentava nuances douradas, provocadas pelo sol.
Os olhos castanho-claros, emoldurados por cílios espessos, eram realçados pelas linhas perfeitas do nariz. Por um momento, ele se limitou a fitar aqueles traços, sentindo-se confuso. De repente, reconheceu na mulher diante de si o garoto com quem lutara antes.
— Você! — esbravejou.
— Quem esperava que fosse? — ela retrucou, voltando a aplicar a substância úmida ao pescoço de Harry. — Minha intenção não era feri-lo, Sr. Cavaleiro, — falou em tom zombeteiro — mas não aprovo a sua maneira de lutar.
A fúria de Harry foi tamanha que, por um momento, ele não conseguiu falar. Como aquela… criatura atrevia-se a falar com ele naquele tom?
— Se não quer ser confundida com um homem, não se vista como tal. — resmungou, afinal, depois de examiná-la da cabeça aos pés, com ar de desprezo.
— Desculpe-me, mas eu não sabia que o código de honra dos cavaleiros inclui agarrar as partes íntimas, uns dos outros. — ela devolveu, com expressão de repulsa.
— Você me atingiu primeiro! — Harry gritou, esquecendo-se de que não estava discutindo com um de seus irmãos, mas sim, com uma mulher.
Quando se lembrou disso, ficou ainda mais chocado com o insulto. Nunca antes uma mulher falara sobre aquele tipo de assunto com ele, especialmente com tamanha ousadia. Perguntou-se se ela seria uma prostituta, mas todas as que conhecera usavam saias. Na verdade, Harry jamais ouvira falar de uma mulher que vestisse roupas de homem. Quem era aquela criatura, afinal?
— Eu estava apenas me defendendo. — ela disse. — Se houvesse entregue suas armas, como pedi, não teria se machucado. Agora, vários de seus homens estão feridos e sou obrigada a cuidar deles. — Com mãos nada gentis, aplicou mais uma porção da mistura mal-cheirosa ao pescoço dele. — Devo admitir que sempre quis assistir a um homem cortar o próprio pescoço, mas nunca havia presenciado uma cena assim, até hoje.
Harry sentiu um rubor inesperado tomar conta de suas faces. Embora houvesse lutado com valentia, a moça falava como se ele fosse um idiota incapaz. Mais uma vez, tentou livrar-se das cordas, mas os nós eram firmes e resistentes. Proferiu um palavrão.
— Por acaso está querendo morrer? — ela sibilou impaciente. — Se espera que seus ferimentos cicatrizem, deve ficar quieto. E se continuar a fazer todo esse barulho, serei obrigada a amordaçá-lo.
Amordaçá-lo? Harry lançou-lhe o mesmo olhar que já fizera muitos homens se encolherem, mas foi em vão.
— Não tenho o menor respeito por você, mercenário. — ela continuou impassível. — Se me der um bom motivo, não hesitarei em matá-lo.
Harry reprimiu uma gargalhada. Embora não houvesse servido o rei, como Dunstan servira, já participara de muitas lutas e batalhas, chegando a reaver o castelo do irmão, que fora tomado por um vizinho.
— Homem nenhum conseguiu me derrotar. Certamente, não será uma camponesa vestida de garoto que vai conseguir! Não passa de uma grande tola, se pensa assim.
Ela sorriu, chamando a atenção de Harry para os lábios generosos.
— Caso não tenha percebido, já o derrotei. — murmurou.
Então, depois de se certificar de que os pés dele também se encontravam firmemente amarrados, virou-se e começou a se afastar.
A afirmação arrogante fez o sangue de Harry ferver. E o fato de ela estar dizendo a verdade só serviu para deixá-lo ainda mais furioso.
— Volte aqui! — gritou.
— Quando você estiver disposto a conversar, sem gritar, talvez eu volte. — ela respondeu com simplicidade, por cima do ombro.
Sentado no chão, amarrado como um animal, Harry observou-a afastar-se, dando-se conta de que não poderia haver dúvida quanto ao sexo dela. Os cabelos loiros, presos em uma trança que chegava ao meio das costas, e os quadris, cobertos apenas por braies e túnica, balançavam com sensualidade, apesar dos passos largos e decididos com que ela caminhava.
— Meretriz! — Harry gritou, mas ela continuou andando, sem se abalar.
Um chute atingiu-lhe as costas.
— Quieto! — uma voz masculina pouco amigável advertiu.
Pela primeira vez na vida, Harry sentiu-se indefeso. Quando Dunstan fora preso em sua própria masmorra, Harry lançara-se na luta para resgatar o irmão mais velho.
Porém, não lhe ocorrera que o mesmo aconteceria com ele. Ninguém jamais o capturaria. Especialmente, uma mulher! Agora, era fácil imaginar a zombaria dos irmãos, se pudessem vê-lo ali, prisioneiro de uma mulher. Cerrou os dentes ao pensar que, antes de morrerem de rir, eles o ajudariam.
Tal pensamento provocou uma onda de fúria que o sacudiu. Não precisava que ninguém o resgatasse. Era perfeitamente capaz de se libertar sozinho. Depois disso, buscaria a sua vingança. Com forte determinação, tratou de controlar os ímpetos e pôs-se a examinar os arredores, na intenção de planejar sua fuga.
Encontravam-se em uma clareira, cercada por árvores imensas, que ofereciam um esconderijo natural. Vários homens, vestindo trajes idênticos aos da mulher, ocupavam postos de sentinela, nos limites da floresta. Outros, vigiavam Harry e os feridos. De repente, ocorreu-lhe que talvez, nem todos fossem homens. Depois de um exame cuidadoso de panturrilhas grossas e ombros largos, concluiu serem todos homens. O fato de obedecerem ordens de uma mísera mulher era um grande mistério para Harry.
Tudo ali era muito estranho. Notando que todos carregavam aljavas repletas de flechas, presas às costas, perguntou-se, mais uma vez, como simples salteadores podiam ser tão bem treinados e equipados. Além disso, quaisquer bandidos teriam matado a ele e a seus homens, roubado seus cavalos e armas e, então, desaparecido na floresta.
Aqueles, porém, eram diferentes. Não haviam matado ninguém. Estariam planejando pedir resgate para libertá-lo? Tal prática era comum, em se tratando de cavaleiros derrotados em batalha, mas não de guardas e soldados comuns. A possibilidade de seu pai ter de dar dinheiro a bandoleiros como aqueles o enfureceu mais ainda. Especialmente porque sabia que tudo acontecera por um erro de julgamento que ele mesmo cometera.
A raiva de si mesmo pôs fim ao tênue controle que conseguira manter por alguns instantes e ele voltou a se debater, na tentativa de livrar-se das cordas. Mais uma vez, foi um esforço inútil e Harry teve de lutar para dominar os impulsos. Respirando fundo, tentou se concentrar, como Geoffrey faria. Muitas vezes, ele havia zombado da cautela excessiva com que o irmão traçava seus planos. Agora, porém, via-se obrigado a admitir a necessidade de raciocinar com calma e clareza.
Olhou em volta, à procura de algum indício de quem eram aqueles bandidos, e quais seriam os seus propósitos. Não só haviam poupado todos os homens de Harry, mas ainda tratavam dos feridos. Nada disso fazia sentido para um cavaleiro como ele, não habituado a decifrar enigmas, nem a estudar inimigos e suas intenções.
Voltou a pousar os olhos sobre a mulher, ajoelhada ao lado de Aldhelm, que fora atingido por uma flecha no ombro. A trança dourada deslizou por sobre um dos ombros dela, e foi imediatamente atirada para trás. As pernas envoltas por braies e botas, eram claramente visíveis e, embora Harry censurasse a maneira de ela se vestir, não pôde evitar que seus olhos se demorassem em cada uma daquelas curvas.
Forçou-se a erguer os olhos, o que não resolveu seu problema, uma vez que ela havia se inclinado sobre Aldhelm, a fim de aplicar a mesma mistura mal-cheirosa no ombro dele. Sem saber por quê, Harry foi invadido por um sentimento desagradável ao ver os dedos dela tocarem a pele de seu soldado.
Incapaz de reconhecer a sensação, Harry refletiu que, talvez, houvesse se ferido mais do que imaginava. Então, culpou a mulher por tudo o que sentia no momento. Ora, o que ela pretendia, desafiando as leis de Deus e dos homens, vestida como um cavaleiro?
Harry já não dava grande valor às mulheres, quando vestidas como deveriam. Sua mãe morrera quando ele ainda era muito pequeno e, embora ele houvesse desenvolvido um afeto infantil pela segunda esposa do pai, ela também morrera, deixando nele a impressão de que as mulheres eram criaturas fracas.
Todos sabiam que elas eram menores, menos inteligentes e menos capazes que os homens. Embora seus corpos proporcionassem certo prazer, Harry raramente usufruía deles e, quando o fazia, pagava por tal uso, como pagaria por qualquer outro conforto. Na verdade, por mais que o pai discordasse, Harry sempre considerara as mulheres como seres inferiores. Vestirem-se de homens não as tornaria melhores.
Um sorriso curvou-lhe os lábios e ele recuperou a sua arrogância habitual. Afinal, era um Potter, um cavaleiro, segundo filho de seu pai, e ninguém seria capaz de mantê-lo cativo por muito tempo. Assim que se libertasse, trataria de punir aquela atrevida por sua insolência. Pensou em amarrá-la e perguntar-lhe o que achava disso. Ou, talvez, torná-la sua escrava! A imagem daquela criatura petulante curvando-se para ele trouxe grande satisfação, mas ele logo se lembrou de que não deveria entregar-se ao prazer da vitória antes do tempo. Assim, desviou os olhos da visão que o distraía e concentrou-se em suas estratégias de fuga e na avaliação das condições de seus homens… e dos dela.
Levava na bota uma faca, cuja existência nem mesmo os irmãos conheciam. Tal recurso já fora útil inúmeras vezes. Se conseguisse ficar de pé, encontraria um meio de retirá-la do esconderijo e cortar as cordas que o prendiam. Então, só teria de esperar pelo anoitecer para fugir. Pelo que podia ver de seus homens, nenhum sofrera ferimento grave. Trataria de levar consigo tantos quantos conseguisse libertar, mas sem armas, poderiam encontrar dificuldades.
Estreitou os olhos e examinou a clareira, mas não viu sinal de sua espada, ou de sua armadura. Sentia-se nu sem elas, o que era mais um motivo para desprezar a maldita… Voltou a se concentrar no plano de fuga. Sabia que até mesmo homens bem treinados relaxavam a guarda à noite. Era possível que aqueles bandidos bebessem cerveja antes de dormir. Quando isso acontecesse, Harry decidiu, com ou sem seus homens e armas, ele desapareceria pela floresta e encontraria um meio de chegar a Baddersly. Desde que estivessem próximos ao local onde haviam sido emboscados.
Praguejando, Harry olhou para o céu e amaldiçoou as nuvens, pois elas o impediam de determinar sua localização através das estrelas. Ora, decidiu, farejaria o caminho até o castelo, se fosse necessário. E, embora Dunstan não mantivesse um grande exército em suas terras, Harry os convocaria para segui-lo até ali, a fim de apanhar aquela mulher e seu bando de seguidores.
Voltou a sorrir e, quando ela se encaminhou para ele, Harry foi capaz de assumir uma postura mais austera. Era um bom guerreiro, com boa visão de qual posição era mais vantajosa. Na verdade, Dunstan havia comparado as suas habilidades às do rei! E uma vez definido o seu plano, nenhuma mulherzinha arrogante o deteria.
— O que você quer? — inquiriu, quando ela se aproximou.
— Isso depende de você, mercenário. — ela respondeu, sentando-se sobre a raiz de uma grande árvore, dobrando uma perna e passando os braços em torno do joelho dobrado.
Harry perguntou-se se ela sempre exibia as pernas daquela maneira, ou se estava apenas tentando provocá-lo. E por que faria isso?
— Quanto ele está lhe pagando?
— Quem? — Harry indagou, voltando a fitá-la nos olhos.
Ela riu.
— Não tente me enganar, Potter, se é mesmo quem diz ser.
Se não fosse, como esperavam conseguir um resgate por ele? De uma maneira ou de outra, Harry não poderia aceitar aquele insulto.
— Ninguém questiona meu bom nome, ou minha honra. Basta levar-me a Campion, ou a Baddersly, e saberá a verdade.
As palavras provocaram nela uma reação estranha, que Harry não foi capaz de definir.
— O que você faz em Baddersly?
— Vim em nome de meu irmão, que é o lorde de Baddersly. — Simon respondeu, sem acrescentar que Dunstan não tinha paciência com bandidos e não pensava duas vezes antes de matar aqueles que rondavam suas terras. Porém, a idéia de ver aquela mulher morrer, provocou-lhe um sentimento horrível. — Se nos libertar agora, talvez ele os trate com misericórdia.
Ela riu. Apesar de sua oferta não ter sido sincera, Harry teve o ímpeto de atirar-se sobre ela, mesmo amarrado. Foi apenas a presença dos guardas, bem como de seus soldados feridos, que o impediu de agir assim. Irritado pela constatação de que suas faces voltavam a corar, deu-se conta de que haviam invertido papéis. Ele ruborizava como uma donzela, enquanto ela o interrogava como um cavaleiro!
— E que missão é essa, Potter?
— Devo administrar as terras de meu irmão. — Harry respondeu entre dentes, inconformado por ser obrigado a responder a ela, estando acostumado a dar ordens o tempo todo. — A missão envolve diversas tarefas, inclusive a de eliminar bandidos que rondem a propriedade.
— Então, está aqui para nos destruir? — ela acusou.
— Escute, moça. Não faço idéia de quem são vocês, ou o que fazem aqui, mas aconselho-os a irem embora, pois Dunstan não permitirá ataques em suas terras.
Ela permaneceu calada, estudando-o. Os olhos de Harry baixaram para os seios fartos, cujos contornos eram delineados pela túnica. Viu-se invadido por uma necessidade súbita de cobri-la, a fim de impedir que outros olhos desfrutassem da mesma visão.
— E quanto a Severus Snape? Não foi contratado por ele, mercenário?
— Estou ficando cansado das suas perguntas, moça. Não conheço Snape e nunca um Potter foi mercenário. Servimos apenas Campion e Edward!
— Se não são mercenários, são soldados que vêm a Baddersly, a fim de lutar pela causa dele. — ela declarou em tom amargo.
— Que causa? Quem é Snape? Onde ele governa? — Harry perguntou, curioso.
— Ele não governa! — ela respondeu com olhar faiscante, como ele já vira no rosto dos irmãos. — Ele não passa de um ladrão!
Ela se pôs de pé, exibindo tamanha fúria, que Harry sentiu uma excitação muito parecida à que o invadia, diante da perspectiva de uma batalha iminente.
— Luna.
Quando ela se virou na direção da voz que a chamara, Harry respirou fundo, chocado pela própria reação. Por um momento, aquela mulher estranha parecera um guerreiro, forte e poderoso, sedento de sangue. Ele franziu o cenho e sacudiu a cabeça, a fim de livrar-se de tal impressão. Afinal, a armadura curta e explosão de raiva não a transformavam em cavaleiro. Longe disso, ela não era nada mais que uma mulher, vestida como seus superiores.
Quando voltou a fitá-la, parecia mais calma, embora seus olhos ainda exibissem um brilho perigoso.
— Se sua missão é pacífica como diz, — Luna falou — não será difícil verificar. Tragam a algibeira dele!
Indignado, Harry observou-a apanhar sem a menor dificuldade a pesada bolsa de couro que alguém atirou de longe, e examinar a correspondência de Dunstan. Sabia que não havia muita coisa, além de uma carta ao administrador, uma ordem dando a Harry o direito de falar em nome de Dunstan, perante a corte, e coisas assim.
Permaneceu quieto, enquanto Luna examinava cada documento. Surpreendeu-se ao constatar que ela sabia ler. Que tipo de bandido possuía uma habilidade tão rara? E por que ela se preocupava tanto com mercenários? Seria aquele bando tão poderoso, que só temesse serem destruídos por soldados? Ora, não era possível que homens assim respondessem ao comando de uma mulher!
Luna voltou a fitá-lo, exibindo expressão mais amena. Harry perguntou-se como fora confundi-la com um rapaz. Tratava-se de uma linda mulher.
— Talvez esteja dizendo a verdade, Potter. — ela declarou, guardando os documentos. — Ou, então, assim como Snape, prefere esconder seus verdadeiros propósitos atrás de palavras bonitas e cortinas de fumaça.
— Snape de novo! Quem é esse desconhecido que teria poderes sobre mim? E quem é você, para tomar um Potter como refém? Explique-se!
Por pouco, Potter não se levantou, sem esperar pelo anoitecer. Só controlou o impulso por saber que havia arqueiros espalhados por todo canto, prontos a disparar suas flechas, caso ele fizesse o menor movimento suspeito.
Percebendo que um dos bandidos puxava Luna de lado para uma discussão acalorada, estreitou os olhos, perguntando-se se o sujeito baixinho e atarracado estaria tentando impedi-la de dar a Harry as informações que ele exigira.
Seria amante dela? Definitivamente, não. Luna mantinha a postura de um guerreiro, costas eretas, cabeça erguida, sem demonstrar o menor sinal de subserviência.
Por outro lado, dirigiu toda a atenção ao homem. Ora, uma mulher com aquela postura não se entregaria a qualquer um. Não? Harry não sabia nada sobre ela e, ao que parecia, continuaria não sabendo, pois os dois se afastaram e desapareceram entre as árvores.
O sentimento de frustração de Harry crescia mais e mais. Orgulhava-se de suas habilidades, considerando-se melhor que os irmãos. Embora não houvesse estudado tanto quanto Geoffrey, possuía maior compreensão de questões de guerra. Conhecia Baddersly e os arredores muito bem, uma vez que havia recuperado o castelo para Dunstan, dois anos antes. Mesmo assim, jamais ouvira falar de Severus Snape. Era evidente que Luna e seu bando haviam aparecido por ali depois de sua última visita, assim como o infame Snape, fosse ele quem fosse.
Ora, não estava acostumado a ficar desinformado e despreparado. Preferia morrer a ficar sentado ali, em tamanha humilhação. Voltou a praguejar e recebeu outro chute nas costas. O lembrete dos guardas que não podia ver levou-o a lutar, mais uma vez, para controlar os ímpetos.
Respirou fundo e tratou de ser paciente. De nada adiantaria chamar a atenção do inimigo. Deveria ficar quieto, fingindo-se derrotado. O que importava era a vitória final.
Haviam sido capturados no meio da tarde. Logo a noite chegaria.
Enquanto esperava, Harry imitaria Geoffrey, observando tudo à sua volta… até que chegasse o momento de subjugar aquela mulherzinha vestida de homem!
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