Capítulo III
Draco resistiu ao desejo de irromper no quarto de Hermione e terminar o que haviam começado. Em vez disso, preferiu vestir-se e sair de casa.
De longe, viu que Peter deixava a cocheira e decidiu segui-lo. A noite já estava alta, mas não era de se estranhar que ele estivesse se dirigindo a Travessa do Tranco, ponto de prostitutas da cidade.
Draco descobrira, fazia oito meses, que Marieta Edgecombe freqüentara aquela mesma região. Ele tinha fortes suspeitas de que a última mulher que fora achada em seu estábulo também trabalhava nas ruas.
Um pouco adiante, o coche de Peter parou em uma esquina onde quatro mulheres estavam paradas. Uma delas usava um vestido bem curto, revelando as coxas esbranquiçadas, uma indumentária típica para mulheres daquela profissão.
Draco fechou os olhos, concentrando-se em ouvir o que diziam:
— Está procurando companhia, querido? — uma das mulheres perguntou a Peter.
— Estou sim, mas não a sua. Quero aquela morena de vestido vermelho. Ela faz mais o meu gênero.
— Ela é esquelética — a mulher contra-argumentou. — Minhas formas são bem mais generosas. Acho que os homens preferem o meu corpo àquele monte de ossos. Comigo você tem mais o que segurar, amor.
— Tome aqui uma moeda para fazer o que peço. Chame a morena e seja rápida.
Um pesado silêncio se seguiu e Draco apertou os olhos para conseguir enxergar no escuro a mulher que se aproximou da carruagem de Peter.
— Pansy disse que você está interessado em mim — disse ela, olhando por cima dos ombros. — Tenho uma cama...
— Não será necessário — Peter a interrompeu. — Vamos a um lugar especial.
A moça colocou as mãos nos quadris, contrariada.
— E como você espera que eu volte? Não quero andar até a cidade...
— Não se preocupe, eu arrumo um jeito de trazê-la de volta. Agora, ande, suba logo.
Draco seguiu o coche a uma distância segura para não ser visto. Onde quer que Peter estivesse levando aquela mulher, era o lado oposto de sua casa. A vizinhança ficava pior na medida em que avançavam. Se não estivesse com a atenção voltada para o coche, Draco teria notado que ele próprio estava em perigo. Mas quando percebeu, era tarde demais.
De repente, cinco homens surgiram das sombras e partiram para cima dele. O cavalo de Draco empinou e enquanto ele tentava controlar o animal, um dos homens puxou-o pela perna, fazendo-o cair no chão.
Na queda, ele bateu a cabeça em uma pedra.
— Pegue a bolsa de moedas. — Ouviu um homem dizer. — Vamos aproveitar para tirar mais alguma vantagem depois de tanto trabalho.
Mãos pesadas buscaram nos bolsos de Draco que não estava totalmente consciente para impedi-los. Os rostos daqueles que o atacaram ainda estavam fora de foco por conta da pancada na cabeça, mesmo assim ele reuniu forças para agarrar um deles pelo pescoço. Depois, com o punho fechado conseguiu desferir um soco no nariz do agressor e imediatamente sentiu o sangue jorrar em suas roupas. O homem levantou-se cambaleando.
— Diabos, ele quebrou meu nariz!
O cheiro e o gosto do sangue agiu estranhamente em Draco, dando-lhe forças para se reerguer e livrar-se dos outros quatro atacantes. Não demoraram muito para formar um semicírculo à volta dele, como se fossem lobos famintos.
— Segure-o pelas costas — um deles gritou para o outro. Draco virou-se rapidamente, acertando o pé na cabeça do agressor. O bandido foi ao chão. Com agilidade impressionante, virou-se para os outros dois, levantou os punhos e aguardou o ataque.
— Você viu a agilidade do homem? — um dos ladrões comentou. — Nunca vi um homem se movimentar tão rapidamente quanto este.
— Peguem-no — alguém gritou.
Dois homens foram de encontro a Draco, enquanto um outro, após se recuperar, prendeu-lhe os braços por trás. Draco levou um soco no maxilar, mas lançou a cabeça para trás com força suficiente para atingir o homem que o segurava, que gemendo de dor, soltou-lhe os braços.
Com os pulsos livres, ele acertou o estômago de um, fazendo-o perder o ar. Quando o outro tentou atacá-lo, com um golpe rápido de pernas, ele passou uma rasteira, derrubando-o.
Draco sentiu o sangue pulsar em suas veias, fazendo-o lutar como nunca houvera feito antes. Todos os seus sentidos estavam aguçados ao máximo, a ponto de proporcionar a nítida sensação de poder ler a mente dos agressores. Novamente em posição de ataque, esperou ser agredido outra vez. Só não esperava que os homens fossem bater em retirada.
— Santo Deus. Olhe os olhos dele! Nunca vi nada parecido.
Draco não teve tempo de imaginar como estava encarando aqueles homens, pois de repente, uma pedra atingiu sua cabeça e tudo se transformou em total escuridão.
* * *
Hermione ocupava-se em prender o cabelo quando notou as marcas. Aproximando-se do espelho, afastou a mecha de cabelo que cobria seu pescoço e notou aquelas manchas estranhas. Eram como se fossem duas pequenas pintas vermelhas que se destacavam na pele alva. Poderiam ser marcas de dentes, mas eram muito pequenas. Observou mais atentamente e concluiu que eram marcas de dentadas de um cão talvez.
Lembrou-se de como Draco beijara avidamente seu pescoço na noite anterior. A sensação que sentira voltou com a mesma intensidade, fazendo-a corar.
Depois da intimidade compartilhada na noite anterior, esperava que Draco invadisse seu quarto, exigindo os direitos de marido, mas não foi o que aconteceu.
Na verdade, não o via desde que adormecera, esperando por ele.
A primeira coisa que fez ao acordar foi fixar os olhos na porta ainda trancada, depois de um breve silêncio, colou o ouvido na madeira, mas não ouvindo nada.
Ainda indecisa, colocou a mão na maçaneta, girando-a bem devagar para não fazer barulho. Em seguida entrou no quarto e viu que o marido não estava ali.
A banheira já havia sido removida, a cama arrumada e intacta. Procurando uma proximidade maior com Draco, ela sentou-se à beirada da cama. Imaginou que não demoraria para dividir o leito com ele. Depois de senti-lo tão vulnerável em sua mão e perceber através da intensidade daquele olhar, que provava que o desejo não se limitava somente a sexo, Hermione entendeu que o casamento não demoraria a se consumar.
Logo lembrou do corpo viril e sentiu o sangue aquecer seu corpo por inteiro. Naquele momento, seu maior desejo era sentir a masculinidade latejante pressionada contra suas coxas.
Levantando-se da cama, esticou a colcha, tirando assim a marca de sua presença dali. Depois olhou em volta, tocou os objetos de barba e outros itens pessoais que tanto lembravam o perfume de Draco.
De repente, uma batida na porta e Snape entrou no quarto.
— Bom dia, lady Wulf — ele cumprimentou-a sem alterar a expressão do rosto por encontrá-la ali. — Vim para dizer a lorde Wulf que o café da manhã está servido.
— Ele não está lá embaixo?
— Não, milady — Snape respondeu, franzindo a testa. — Eu não o vejo desde ontem à noite, quando saiu de casa.
— Draco tem o costume de fazer a própria cama? — Hermione quis saber.
— Muito raramente, milady.
Os dois se entreolharam sabendo que, em vista das evidências, Draco não havia dormido em casa. Hermione ainda não conhecia os costumes do marido para saber se era comum ele pernoitar fora ou se deveria ficar preocupada pelo comportamento inusitado. De qualquer maneira, como esposa deveria mostrar-se preocupada, pois, se não estava ali, estaria na cama de quem?
— O café está pronto, não é? — inquiriu, quebrando o silêncio pesado que se abateu no quarto.
— Sim, milady. A senhora vai descer ou prefere que eu traga uma bandeja aqui no quarto?
— Vou descer.
Hermione seguiu Snape pelo corredor. Ao entrar na sala de jantar, a esperança de encontrar Draco ali como passe de mágica, esvaiu-se. O lugar à cabeceira da mesa estava vazio. Procurando agir normalmente, sentou-se e começou a se servir, embora não estivesse com fome alguma.
Depois de alguns minutos, Snape atravessou a sala.
— Lorde Wulf já chegou?
— Ainda não, milady — o mordomo respondeu, erguendo uma sobrancelha, mas não demonstrando qualquer sinal de preocupação.
Hermione levantou-se, desistindo de comer. Enquanto Draco não aparecesse não conseguiria digerir nada. De volta ao quarto, tomou a cesta de costura, com esperança de distrair-se com os bordados.
* * *
Draco acordou vagarosamente confuso e com a cabeça latejando. Não conseguia se lembrar de onde estava e nem como fora parar na cama. Aliás, não se recordava como chegara em casa na noite anterior. Ao se virar, deparou-se com Hermione dormindo de costas para ele.
O que ela estaria fazendo em sua cama? Tocando-a no ombro nu, tentou acordá-la:
— Hermione?
Ela não respondeu e ele notou como sua pele estava fria. Sentou-se na cama e virou o corpo da mulher. Assustou-se ao deparar-se com um par de olhos vidrados. Um veio de sangue escorria pela boca, terminando no colo, passando pelo queixo tomado por um enorme hematoma.
— Meu Deus!
Aquela não era Hermione. Apavorado, olhou em volta e percebeu que estava em um quarto estranho. Não havia nada além da cama onde passara a noite ao lado de uma mulher morta! Imediatamente pulou da cama, sentindo uma forte pontada na cabeça.
Olhando em volta mais uma vez, tentou reconhecer o lugar e lembrar como fora parar ao lado daquela desconhecida. Tornou a observar a mulher, nua com o corpo parcialmente coberto por um lençol.
De repente os acontecimentos da noite anterior voltaram à sua mente. Havia seguido Peter até Travessa do Tranco, e o vira conversar com uma prostituta... uma mulher, tal como a que jazia ali.
Ao passar a mão na cabeça percebeu o galo que se formara e recordou-se da luta com os ladrões. Ao apalpar os bolsos, percebeu que haviam levado sua carteira. Um daqueles homens o atingira fortemente com uma pedra provavelmente.
Um movimento do lado de fora da casa chamou sua atenção. Foi até a janela e viu que estava no segundo andar de uma casa abandonada. No jardim, havia um homem, que seguido por um casal dirigiam-se para a entrada.
Draco tentou abrir a janela, mas estava emperrada. Fechou os olhos e concentrou-se em ouvir a conversa dos três:
— A casa precisa de uma reforma. É por isso que o aluguel está barato. Acho que é exatamente o que vocês estavam procurando. Nada que uma boa faxina e um pouco de tinta não resolva.
— A vizinhança não me parece boa — a mulher comentou. — Não quero viver com medo de ser assaltada.
— Ora, Susan, não é tão ruim assim — replicou o homem mais moço. — Aqui teremos muito mais espaço do que todos os outros lugares que já vimos.
Draco ouviu um barulho de chaves e a porta da frente sendo aberta.
— Vejam só, a porta da frente nem está trancada — comentou o senhor com um riso nervoso. — Devo ter esquecido de trancá-la depois da última visita.
Draco sabia estar em apuros, pois não demoraria muito para aquelas pessoas subirem e encontrá-lo ali com uma mulher morta. Em desespero, tentou abrir a janela novamente, sem sucesso.
— Há dois quartos lá em cima — dizia o senhor. — Acho que um deles será perfeito para o bebê.
Ouviu-se o som do ranger da madeira da escada.
* * *
— Onde está meu irmão?
Papoula ficou surpresa ao encontrar Hermione parada à porta.
— Ele está no escritório, lady Wulf. Mas a senhora não deveria estar aqui sozinha.
— Preciso falar com ele — Hermione anunciou, abrindo caminho até a saleta onde Peter deveria estar.
A tarde já havia caído e Draco ainda não voltara para casa. Hermione estava com o estranho pressentimento de que algo grave havia acontecido ao marido. E o maior suspeito pelo desaparecimento era certamente Peter.
Ao abrir a porta com um empurrão, deparou-se com o irmão estudando alguns papéis.
— O que você fez com Draco? — exigiu saber. Peter limitou-se a levantar a cabeça com a maior calma.
— Que bom revê-la, irmãzinha.
— Onde meu marido está? — ela continuou inquirindo sem se deixar levar pela falsa gentileza.
Peter saiu de trás da escrivaninha e aproximou-se.
— Eu não vejo seu marido desde que nos encontramos na manhã em que você se casou com o infeliz. Por acaso tem noção da situação complicada em que me deixou? Mas não se importa comigo, não é?
— Não — respondeu com rispidez. — Da mesma forma como você também não liga a mínima para os meus sentimentos. Draco não voltou para casa ontem à noite. Alguma coisa me diz que você é responsável por isso.
— Ora, ora... Já está tendo problemas de relacionamento? — Peter arqueou uma das sobrancelhas. — Fique sabendo que não tenho a menor idéia de onde esteja seu marido. Quem sabe ele não tem o costume de passar a noite na farra? Pode ser que prefira passar a noite com mulheres mais experientes do que você. Por um acaso considerou alguma dessas hipóteses antes de vir aqui me acusar? — Fez uma pausa para continuar. — Não que eu não goste da idéia de vê-lo sumido. Afinal ele roubou uma coisa que me pertence.
— Eu nunca pertenci a ninguém — Hermione argumentou de queixo erguido. — Muito menos a você.
Logo percebeu que agira como tola, imaginando que o irmão pudesse ajudá-la. Sem dizer mais nada, virou-se para sair, mas Peter a interpelou.
— Você realmente não faz idéia de como estou furioso com você, não é?
Infelizmente sabia muito bem...
— Por favor, deixe-me passar. Não preciso mais obedecer às suas ordens. Daqui em diante terá que sair de suas encrencas sozinho, nunca mais vai poder me usar para nada.
— Sua vadia! — Peter vociferou, levantando a mão para agredi-la.
Ela encolheu-se para se defender de um golpe que não aconteceu, pois o irmão congelou com os olhos estáticos.
— Se encostar um dedo nela, será a última coisa que fará na vida, Peter.
— Draco! — Hermione exclamou, correndo para refugiar-se nos braços dele. Ele estava sujo e com aparência horrível, mas ainda era o homem mais bonito e forte que conhecera.
— Volte para casa, querida — ele disse, sem desviar o olhar de Peter. — Vá, agora!
— Você não é bem-vindo nesta casa, Wulf. Saia imediatamente! — Peter gritou, baixando o braço.
— E você também não tem permissão para ameaçar a minha esposa — Draco continuou a ameaça. — Nunca mais faça isso, caso contrário eu o matarei.
Peter gargalhou, deixando evidente sua culpa no que acontecera a Draco.
— Dormiu bem a noite passada, Wulf?
Hermione entendeu que estivera certa ao desconfiar do irmão.
— Você matou aquela mulher! — Draco agora estava ainda mais feroz.
— Verdade? Então prove. — Peter sorriu como se já tivesse triunfado.
— É isso que vou fazer. Você não perde por esperar. — Em seguida, virou-se para amparar Hermione. — Venha, querida, vamos embora.
Tomou a mão da esposa, conduzindo-a para fora da sala.
Saíram em silêncio, mas a mente dela fervilhava com perguntas. Contudo, só começou a falar quando já estavam perto de casa.
— O que houve? Onde esteve a noite passada? Que mulher era essa que vocês falavam?
— Depois explico — Draco respondeu, seco. — Espere até chegarmos em casa.
Engraçado ele se referir à sua casa como sendo dela também. Poderia vir a ser um dia, mas por enquanto não era assim que ela sentia. Depois de morar por um breve período com Peter, percebeu como era solitária e carente de uma família de verdade.
Snape abriu a porta assim que os ouviu chegar. Apesar de manter a expressão inalterada, Hermione sabia do seu alívio ao ver o patrão chegar em casa a salvo.
— Preciso de uma tina de água para me lavar — Draco pediu, assim que entrou em casa. — Por favor, leve até o meu quarto.
— Imediatamente, senhor — Snape respondeu. Hermione seguiu Draco escada acima. Assim que ele bateu a porta do quarto, mirou-a enraivecido:
— Já não pedi para não ir à casa de seu irmão sem que eu estivesse junto?
Ela ficou chocada com a ira do marido.
— É verdade — admitiu. — Mas eu estava preocupada com você. Imaginei que Peter...
— Não me importa a razão que a fez ir até lá — ele a interrompeu. — Você se arriscou muito. Foi um ato tolo e impensado.
Hermione sentiu as pernas fraquejarem depois de tantos acontecimentos seguidos. O sumiço de Draco, depois o confronto com Peter, e agora aquela agressividade toda do marido levaram-na às lágrimas.
— Desculpe-me por me preocupar com você — disse quase num sussurro e em seguida seguiu para seu quarto, batendo à porta.
No segundo seguinte, Draco irrompeu quarto adentro.
— Se eu não tivesse chegado a tempo, Peter a teria agredido, Hermione. Ou quem sabe não teria feito pior. Você não percebe que estamos lidando com um bandido? Ou quem sabe até um assassino?
— Como tem tanta certeza do que diz? — Hermione sentiu um aperto no peito. — O que aconteceu na noite passada?
— Milorde? — Snape interrompeu a discussão. — Aqui está a tina. Quer que eu o ajude?
Sem dirigir mais nenhuma palavra a ela, Draco virou-se e voltou para o outro quarto. Hermione o seguiu, parando à porta ao observá-lo arrancar o capote e a camisa imunda. Gemeu quando viu vários cortes nas costas e nas mãos dele. Afinal, o que teria acontecido? Ele não tinha o direito de esconder os fatos. E antes que pensasse em ajudá-lo, Snape umedeceu uma pequena toalha e começou a limpar os ferimentos.
— Pode deixar que eu mesma cuido disso — Hermione disse, tomando a toalha.
Em dúvida, Snape buscou um olhar de aprovação do patrão.
— Tudo bem — Draco consentiu.
Assim que o mordomo deixou o quarto, ela prosseguiu com a limpeza e com o interrogatório:
— Como você se cortou? E onde esteve a noite passada? — seguiu, sem dar tempo para respostas. — Como tem certeza de que Peter é responsável pelos assassinatos?
Em silêncio, Draco ainda lutava para se acalmar. Até Hermione entrar em sua vida, nunca tivera problemas em se controlar diante de situações adversas. Agora enfrentava desafios nunca antes imaginados.
— Fui forçado a me jogar do segundo andar de uma casa hoje cedo.
— Ainda bem que não se machucou muito — Hermione comentou, piscando atônita diante do relato.
De fato, a atitude também o surpreendera, mas não tivera outra alternativa a não ser se jogar contra a janela emperrada. Por sorte, conseguira cair sobre o telhado, que cobria o andar inferior, rolar até a beirada e pular para o gramado. Por certo Hermione aguardava por maiores explicações, porém ficou quieta enquanto, na ponta dos pés, tentava alcançar os ferimentos do pescoço. Notando sua dificuldade Draco sentou-se na beira da cama para facilitar o trabalho.
— Por que precisou pular da janela? — perguntou ela, finalmente. — Por favor, conte o que aconteceu.
A toalha roçava nos ferimentos, enquanto ele tentava reconstituir o que acontecera na noite anterior, até o momento em que havia acordado ao lado do corpo de uma mulher. Aos poucos lembrou-se de cada passo, contudo hesitou em contar a Hermione os detalhes.
— Oh, Deus... — ela murmurou. — Não consigo acreditar. Poderiam tê-lo assassinado. Você não estava inconsciente?
De repente, Draco entendeu tudo.
— Foi uma armadilha! — exclamou. — Peter sabia que eu ia segui-lo e contratou os bandidos. Lembro-me de ter ouvido um deles dizer que pegaria minha carteira, para ganhar um pouco mais na barganha. — Passando a mão pela cabeça, notou o galo que se formara ali. — Isso virou um jogo para ele. Ele está brincando com assassinatos!
Hermione sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O marido estava tão bravo por ela ter desobedecido, que sequer pensou na coragem que tivera para enfrentar o homem que mais temia, e por amor a ele!
Ao mesmo tempo, Draco a estudava, imaginando que poderia ter sido ela a estar sem vida naquela manhã. Movido pelo carinho, tocou a face delicada com a ponta dos dedos, para em seguida puxá-la de encontro a seu peito. Ao afastar os longos cabelos para trás dos ombros, viu a marca.
— O que é isso em seu pescoço?
No mesmo instante, Hermione passou os dedos sobre o machucado.
— Não sei. Talvez seja uma mordida.
— Mas, mordida de quê? — ele quis saber, afastando a mão para analisar o ferimento mais de perto.
— Acho que foi você — Hermione respondeu num sussurro.
* * *
Começava a escurecer quando Draco voltou a Travessa do Tranco. Pettigrew o ameaçara com a acusação de assassinato de outra mulher, então ali era o melhor caminho para começar a descobrir a verdade.
Como era mais cedo do que o dia anterior, havia mais mulheres circulando pelas ruas. Mas ele estava procurando uma em especial e se bem recordava, seu nome era Pansy.
Não demorou muito até vê-la subindo a rua em sua direção. Caminhava movendo os quadris de forma sensual, expondo a coxa nua pela fenda do vestido justo. Ele esporeou o cavalo, aproximando-se. Quando ela o divisou, lançou um olhar de soslaio, piscando insinuante.
— Será que tirei a sorte grande por ser procurada por você, amor?
Draco apeou do cavalo, segurando as rédeas enquanto a mulher estreitava a distância entre eles.
— Pansy? É esse seu nome, não?
— Como sabe? — perguntou, surpresa. — Não me lembro de já termos saído juntos. Como eu poderia esquecer um homem tão charmoso como você?
— Quero apenas fazer algumas perguntas.
— Lamento, mas não tenho tempo a perder. Estou trabalhando.
— Então eu pago a sua hora — Draco ofereceu, tirando a carteira do bolso do casaco.
— Se é assim... Suponho que conversar seja mais fácil do que suportar seu peso sobre mim, não que eu me importe.
Ele continuou impassível, não cedendo ao charme feminino.
— Você estava com outra mulher ontem à noite; uma morena, vestida de vermelho.
— Não acredito que um homem se interesse por aquele monte de ossos — Pansy replicou, girando os olhos em desaprovação. — Minhas curvas são muito mais interessantes. Não entendo essa preferência.
— Ela foi assassinada.
Qualquer reação seria esperada, menos a risada de escárnio de Pansy.
— Bem, então acredito que é uma morta-viva que vem descendo a rua agora mesmo.
Draco virou-se na direção que Pansy apontava e viu outra mulher se aproximando. A morena estava com o mesmo vestido vermelho da noite anterior.
— Olá, Dafne, você deveria estar morta. O que está fazendo aqui na minha esquina? — Pansy perguntou.
— E quem disse que não estou viva? — Dafne quis saber, apreciando Draco dos pés à cabeça.
— Eu a vi saindo com um homem ontem à noite e... — respondeu ele, visivelmente embaraçado por ter sido pego de surpresa.
— Era um cretino — praguejou Dafne. — Ele me levou para dar um passeio, trouxe-me de volta e me mandou descer. Não pagou nem pela minha hora perdida.
Não seria aquele mais um truque? Peter poderia ter presumido que seria seguido. Na certa conversara com Pansy para que ela pudesse servir de álibi, dizendo que ele fora o último a ser visto com a vítima. E a armadilha funcionara perfeitamente. Peter trouxera a suposta vítima de volta e escolhera outra para que fosse encontrada morta a seu lado. Não havia dúvida de que se tratava de um ardil.
— Bem, deve ter ocorrido algum engano — desculpou-se e, tirando algumas moedas do bolso, distribuiu entre as duas. — Desculpem-me por incomodá-las.
No caminho de volta, imaginou no trabalho que Peter estava tendo para incriminá-lo. Mas além do fato de ter se casado com Hermione, por que mais ele o odiaria tanto? De repente teve uma idéia. O próximo passo para desvendar o mistério que o envolvera na noite anterior seria procurar as casas para alugar ou vender nos arredores de Londres.
Hermione estava na sala de visitas, tentando ler um livro, quando ouviu um barulho vindo da porta da frente.
— Boa tarde, meu senhor — Snape cumprimentou. — A sra. Wulf está na sala. Devo lhe trazer algo?
— Um brandy, por favor — Draco pediu. — Aceita um cálice também, Hermione?
Afora ocasionais taças de champanhe, ela nunca provava outras bebidas alcoólicas.
— Acho que vou experimentar — disse ela ao mordomo, que assentiu com um sinal de cabeça e deixou a sala.
Draco deixou-se cair em uma poltrona, e esfregou o rosto com as mãos.
— Peter cobriu todas as pistas deixadas ontem à noite.
Hermione fechou o livro, colocando-o na mesinha ao lado. O fogo da lareira aquecia o ambiente e ela havia tirado os chinelos, colocando os pés no sofá.
— O que houve na Travessa do Tranco? Você se encontrou com a mulher que procurava?
— Encontrei as duas e também conversei com a que supostamente estava morta.
— Como assim?
— A uma certa altura da noite, Peter a deixou na Travessa do Tranco e tomou outro rumo. Acredito que em algum outro ponto da cidade, ele pegou uma mulher morena, matou-a e depois deixou-a ao meu lado.
— É muito trabalho para um homem só, não? — Hermione quis saber, ajeitando-se no sofá.
— Foi exatamente o que pensei — comentou ele, passando os dedos pela cabeleira farta.
Snape entrou na sala trazendo uma bandeja com dois cálices cheios de um líquido cor de âmbar, deixou as bebidas ao lado de Hermione e saiu.
Draco levantou-se, pegou os dois cálices e estendeu um à esposa.
— E agora? O que você pretende fazer? — indagou ela, levando o cálice à boca e tossindo ao tomar o primeiro gole. Draco sorriu. — Nossa, isso queima.
— Não, querida, aquece — ele a corrigiu, sentando-se a seu lado. — Preciso sair para tomar algumas providências amanhã, mas não gosto de deixá-la sozinha. Especialmente com um vizinho como Peter.
— Ah... — Hermione lembrou-se do convite que havia colocado dentro do livro. — A condessa de Grifinória convidou-me para um chá amanhã.
Draco observou-a atentamente e estreitou a distância que os separava.
— Já lhe disse o quanto a desejo?
Hermione deu uma tossidela. Agora que o assunto assassinato tinha se esgotado, voltavam a falar de sedução... e como ele era bom naquele assunto.
— Devemos aceitar o convite para o chá amanhã? — quis saber, numa tentativa de mudar de assunto.
— Sim, acho que você estará em segurança lá — Draco sussurrou-lhe ao ouvido, enquanto mordiscava o lóbulo da orelha.
Hermione tremeu de prazer ao senti-lo alternar beijos rápidos pelo pescoço, rosto, colo... até concentrar-se em apalpar os seios fartos. Seus mamilos enrijeceram, enquanto ele se ocupava em desabotoar os minúsculos botões do vestido.
Não demorou muito para que Draco conseguisse desabotoar o vestido inteiro, para depois encará-la. Não houve tempo para perguntas, pois ele a beijou em total volúpia. O restinho de brandy que sobrou nos lábios dos dois, misturou-se à saliva de cada um, transformando-se em uma bebida única, doce como o mel, que apenas começaria a saciar a sede pelo prazer.
Draco puxou-a para si, amoldando os corpos e aprofundando ainda mais o beijo com uma língua afoita. Foi como se o calor da lareira, que antes apenas amornava a sala, se transformasse em fogo ardente.
Ele era mestre na arte de beijar, de fazer brotar em Hermione seus desejos mais primitivos. Com vagar, prendeu-lhe o lábio inferior, sugando-o, para libertá-lo em seguida, numa trégua calcinante.
Hermione estava tão entregue às carícias que não percebeu quando mãos hábeis e rápidas puxaram seu vestido.
— Draco — sussurrou-lhe ao ouvido. — A porta está aberta...
Ele levantou-se para fechar as portas da sala, enquanto Hermione ria baixinho.
— Onde estávamos mesmo? — perguntou em tom insinuante e voltou a trilhar os ombros e o colo ofegante com a ponta da língua, divertindo-se ao ver a resposta nos ligeiros espasmos.
— Degustar seu sabor é como provar o néctar dos deuses. Quero sentir você inteirinha...
E assim Hermione deixou-se beijar nos seios sobre a camisola, arqueando o corpo para facilitar o caminho de um seio a outro, oferecendo os mamilos para serem beijados.
— Quero vê-la nua.
Foi então que ela se lembrou que já o vira nu e que ficara extasiada com o corpo perfeito. Será que ele também a admiraria da mesma forma?
Como se para sanar suas dúvidas, Draco a beijou novamente. E ela esqueceu o que havia pensado. O fato é que não conseguia emendar as idéias quando era tomada daquela forma. Bastava um simples toque para que a razão ficasse esquecida; para prevalecer a indiscrição do coração, que já não se importava mais em ocultar o seu pulsar.
Enquanto estava sedada pelas carícias loucas, Draco tirou-lhe também a camisola, aprisionando os seios com as mãos. A partir dali, seguiram-se carícias ainda mais voluptuosas. As mãos que acariciavam e circulavam os mamilos operavam milagres na libido feminina.
Quando Hermione gemeu de prazer, ele entendeu que ambos mereciam mais e, de súbito, tomou-a nos braços, fazendo-a sentar em seu colo. Como que preparada pelo instinto para o que viria, ela virou-se de frente para ele, tratando de acomodar suas pernas lado a lado nas coxas musculosas.
Por um laivo de lucidez ainda pensou em ressaltar a indecência da posição, porém Draco não lhe deu tempo para expressar nada além do prazer de elevá-la à altura da boca pecaminosa e continuar a explorar com a língua a pele alva dos seios.
Ela deixou os receios de lado e ofereceu-se inteira, tomando-o com força, guiando a boca ávida a alternar-se de um mamilo a outro, esfregando os seios na pele áspera do rosto tão amado.
Afoito para prová-la inteira, Draco permitiu que ela sentisse a força de seu desejo bem próxima ao ventre. Ao percebê-la em total arrebatamento, beijou-a com lascívia. Aquela altura, ela não mais era dona do próprio corpo, que agia sozinho, dançando num insano ir e vir de quadris na tentativa de acomodar o membro rijo.
Entendendo a súplica do corpo feminino, Draco insinuou os dedos por entre a calçola, atingindo-a em seu ponto mais sensível.
A frustração deu lugar ao êxtase de ser tocada tão profundamente. A reação instintiva de fêmea foi de mexer os quadris, ajudando o movimento dos dedos hábeis.
— Vamos, querida, liberte-se — sussurrou ele, aumentando a pressão dos dedos.
A voz gutural serviu como a derradeira carícia para levá-la às alturas. Com as unhas cravadas nas costas de Draco, ela experimentou sensações únicas, intensas, jamais sonhadas. Murmurando ofegante, aninhou-se a ele como se o corpo musculoso fosse seu único contato com a realidade e deixou-se descansar da viagem enlevada da qual acabara de chegar.
— O que foi isso? — perguntou sem entender o que havia acontecido.
—Você conheceu o prazer na definição mais pura da palavra.
Qual seria a estranha magia que ainda fazia seu ventre latejar? Apesar de terem partilhado um momento tão magnífico, Hermione sabia que faltava algo mais.
Amor, pensou ela, na busca por uma explicação. É isso que falta entre nós.
Draco levantou-se e segurou-a no colo.
— O que está fazendo?
— Vou levá-la para a cama.
Hermione sentiu o coração pulsando em descompasso, enquanto Draco a carregava para o quarto. Imaginou que havia chegado o momento de ele querer consumar o casamento. Afinal, provocara-o demais, permitindo toda sorte de liberdades. Agora era tarde para chorar, embora sua vontade fosse essa mesmo. Draco já havia provado que o ato de dar e receber prazer entre um homem e uma mulher poderia ser a coisa mais extasiante do mundo. Mas ainda restava a curiosidade de saber como seria aquela entrega se de fato existisse amor. Talvez nunca descobrisse...
Depois de acomodá-la gentilmente na cama, Draco curvou-se para beijá-la. Ainda entorpecida pelo toque dos lábios quentes, Hermione imaginou se ele não se despiria e se aconchegaria a ela sobre as cobertas.
— Boa noite, querida — disse ele formalmente, já a caminho do outro quarto.
— Você vai me deixar aqui sozinha? — Hermione quis saber, arqueando uma das sobrancelhas.
— Quer que eu fique? — Draco virou-se no mesmo instante, dependendo de uma resposta para seguir com o próximo movimento.
— Não... — ela titubeou. — Digo, sim... Bem, não sei!
— Então, quando decidir, estarei no quarto ao lado. — Saiu, fechando a porta ao passar.
Hermione ficou olhando para o vazio que a presença dele deixara. Entretanto, depois de alguns minutos naquele estado meio hipnótico, começou a sentir o sangue ferver de raiva. Teve vontade de invadir o quarto ao lado e exigir que ele a possuísse, consumando o casamento de uma vez por todas. Aquela altura já havia rompido as barreiras, pouco se importando se estava pronta para o ato ou não.
De repente, a razão impediu-a de prosseguir. Lembrou-se de que ele a avisara de que não jogaria limpo naquela questão. E foi exatamente o que fizera, invertendo as posições. Passara a agir como o rejeitado, esperando que ela tomasse a iniciativa.
— Muito esperto — murmurou. — Mas não o suficiente... Reunindo toda a coragem, ela se levantou e com passos firmes seguiu até a porta, abrindo-a sem pensar duas vezes. Draco estava se lavando sem camisa. Ao vê-la entrar, endireitou o corpo, permitindo que a água escorresse pelos músculos do peito, delineando-os. Passada a surpresa, pegou uma toalha e enxugou o rosto.
— Precisa de alguma coisa?
Ainda entretida em observá-lo, ela suspirou antes de responder:
— Eu... esqueci de dizer boa noite... meu marido.
Dizendo isso, voltou para o quarto, apoiando o corpo trêmulo de encontro à porta fechada, blasfemando contra a tolice que acabara de cometer.
* * *
Draco acordou de péssimo humor. Não dormira quase nada na noite anterior e a dor de cabeça agravava ainda mais o humor irascível. Hermione decididamente o estava levando à loucura. Ele a desejava como jamais imaginara ansiar por algo ou por alguém. Presenciar o doce clímax que havia proporcionado a ela, seguido de murmúrios de prazer quase destruíram sua sanidade. Estava tão ansioso por possuí-la na noite anterior que a tentação havia superado os limites e por pouco a promessa feita de não ultrapassar os limites não permitidos, quase se perdera.
Depois do café da manhã, resolveu tratar de outros assuntos para aliviar a dor e a frustração da noite anterior.
Agora entrava no escritório de um corretor imobiliário. Aquele já era o terceiro estabelecimento que visitava naquele dia. Um homem magro, com os óculos apoiados na ponta do nariz e um grande molho de chaves pendurado no cinto, cumprimentou-o:
— Boa tarde, senhor. Em que posso ajudá-lo?
De imediato Draco reconheceu aquela voz. Era a mesma do corretor que estava mostrando a casa ao casal quando do incidente do dia anterior.
— Estou interessado em comprar algumas propriedades — anunciou. — O que o senhor teria disponível para mostrar?
Por trás das lentes, os olhos do corretor reluziram com o brilho da ganância.
— Sente-se, por favor — ele convidou, indicando uma cadeira à frente da escrivaninha já em estado de virar lenha de lareira. Em seguida, abriu uma gaveta, de onde tirou um enorme livro. — Tenho várias propriedades à venda, como pode ver — continuou, mostrando a lista dos imóveis. — Precisamos apenas restringir a busca. Devo procurar por bairro, preço, ou...
— Procuro algo do lado leste — especificou ele. — Não quero nada muito caro.
— Claro — concordou o homem, examinando a lista. — Tenho algumas propriedades perto da área em que está interessado. A maioria das casas está alugada a trabalhadores de fábrica. Algumas delas inclusive precisam de uma boa reforma.
— Teve alguma delas que sofreu uma queda de preço recentemente?
Draco estava certo de que o boato sobre a mulher morta já havia se espalhado. O proprietário da casa, com certeza, não lucrara nada com o ocorrido.
— Bem... — O corretor afastou uma mecha de cabelo da testa e deu uma tossidela antes de continuar. — Tenho uma casa que o proprietário está muito ansioso por vendê-la, baixou o preço esta manhã. Houve um incidente desagradável ontem. — Fez uma pausa e Draco levantou uma sobrancelha, ainda parecendo casual. — Acharam uma prostituta morta no local.
— Alguém chegou a ver o assassino?
— Não.
— É uma pena — Draco comentou, fingindo estar desolado. —Houve mais gente procurando pela casa em especial?
— Nada definitivo — o homem respondeu, meneando a cabeça. — Eu ia mostrá-la hoje a outro comprador que perdeu o interesse depois do acontecido.
Bem, até aquele ponto, Draco entendeu que não havia sido difícil para Peter escolher uma casa para concluir seu plano e menos complicado ainda, saber se a casa seria visitada por corretores na manhã seguinte ao crime.
Agora, precisava ir até o fim e ir diretamente ao ponto que o levara até ali.
— A pessoa que perdeu o interesse na compra por acaso chama-se Peter Pettigrew?
Os olhos do corretor mostraram mais espanto.
— Mesmo que fosse, eu não poderia divulgar a informação. Tenho diversos clientes que investem na compra e venda de imóveis e todas as transações são mantidas no mais absoluto sigilo.
— O senhor está certo. O Sr. Pettigrew é meu vizinho e sei que ele lida com esse tipo de negociação. Quis saber para evitar uma situação constrangedora entre vizinhos, fazendo uma oferta a um mesmo imóvel que ele.
— Isso quer dizer que o senhor está interessado na casa? — o corretor quis saber, já com os olhos brilhando.
— Talvez sim... — Draco respondeu vagamente, levantando-se. — Vou pensar no assunto e volto a lhe procurar.
— Está certo, Sr...
Draco saiu do escritório sem dizer seu nome e desceu a rua em direção à carruagem.
Uma hora antes de ir tratar de negócios, ele havia deixado Hermione na casa da condessa de Grifinória. Mas antes de ir buscá-la, iria passar em uma das lojas da Bond Street e solicitar que uma costureira atendesse a esposa, pois sabia que ela havia saído de casa com poucas roupas.
— Como foi o chá? — Draco perguntou, enquanto ajudava Hermione a subir na carruagem.
— Foi ótimo. A condessa e eu nos demos muito bem. Gina, uma moça que conheci nos baile dos Delacour também estava lá com a mãe e conversamos bastante.
— Fico contente que tenha se divertido. Entre uma reunião e outra que tive esta manhã, parei em uma loja da Bond Street e marquei uma hora com a costureira para tirar suas medidas. Achei que talvez quisesse renovar seu guarda-roupa.
Draco poderia ser egoísta em compartilhar sentimentos, mas em coisas materiais parecia não haver limites. Primeiro lhe dera a égua, agora um novo guarda-roupa, que ela de fato precisava e muito. Com um sorriso, ela colocou a mão sobre a dele.
— Obrigada, Draco. Não tinha idéia de como estava fora de moda. Os poucos vestidos que Peter me deu, não eram do meu gosto, por isso não os levei quando fui para sua casa.
— Eu quero que seja feliz — Draco disse, ao entrelaçar os dedos nos dela. — Redecore a casa se quiser. Sei que a mobília é antiquada, mas como sabe, os solteiros não ligam muito para essas coisas.
Draco deu a impressão de que daria tudo o que ela quisesse... menos seu coração. Hermione não viu muita vantagem na compensação, porém optou por não comentar nada. Mesmo porque, ainda estava tentando decifrar os próprios sentimentos por ele. Debatia-se com a idéia de amá-lo de fato. Havia algumas evidências a favor, como por exemplo, o quanto ficara preocupada quando ele não voltara para casa na noite anterior. Sabia também que tinha ciúme e que o desejava de corpo e alma. No entanto, será que a somatória dessas emoções resultaria em amor?
A carruagem passou pela casa de sua madrasta e ela olhou de relance. Só em observá-la ao longe, sentiu um frio na espinha, como se o diabo morasse ali.
Quando a carruagem fez uma curva, ela lembrou-se das instruções que havia dado a Papoula. Naquele momento, foi possível ver que o lençol branco estava estendido na varanda de seu antigo quarto.
— Lá está o sinal de Papoula — ela disse a Draco. — Peter não está em casa e posso visitar minha madrasta em segurança. Será que podemos ir até lá? Preciso ver como a duquesa está passando.
— Bem, vou acompanhá-la e ficar observando de longe. Se Peter voltar e você ainda estiver lá, vou resgatá-la num piscar de olhos.
Assim que chegou à casa do irmão, Hermione se dirigiu à porta dos fundos e bateu. Papoula veio atendê-la com um sorriso no rosto.
— Fiquei em dúvida se veria o meu sinal — disse ao fechar a porta.
— Como está a duquesa? — Hermione quis saber.
— Infelizmente, está na mesma. Estava preparando o chá que ela toma diariamente.
— Pode deixar que me encarrego disso. Não tem sentido subirmos as duas até o terceiro andar.
— Deus a abençoe, milady. Ando com muitas dores nas pernas, acho que estou ficando velha. Se ao menos o Sr. Pettigrew contratasse mais alguém para me ajudar, mas agora que a senhora se foi, acredito que ele não vai mais se importar com isso.
Então Peter não mudara, continuava avarento, cruel e, se Draco estivesse certo, assassino. Assim que a criada aprontou tudo, ela levou a bandeja escada acima.
— Veja se consegue fazer com que ela beba tudo — Papoula instruiu do pé da escada. — O Sr. Pettigrew disse que é a única coisa que a mantém viva, e tenho de concordar. Ultimamente não consigo fazê-la tomar nenhum caldo.
— Farei o possível.
Ao entrar no quarto, viu a duquesa sentada em sua cadeira usual perto da janela, com o olhar perdido.
— Boa tarde, senhora — cumprimentou, tentando passar um pouco de ânimo pelo tom de voz. — Trouxe seu chá.
Conforme o esperado, a duquesa não demonstrou ter entendido. Ao servir-lhe o chá, Hermione notou que o líquido não estava fumegante, e resolveu prová-lo para ter certeza de que a temperatura estava adequada. A bebida tinha um gosto exótico com forte sabor de cravo. Para certificar-se do sabor, curiosa, tomou outro gole, mas o chá realmente não era dos melhores.
Aproximando-se, colocou a xícara nos lábios frágeis da madrasta.
— Seria tão bom que tomasse um pouco. A senhora precisa se alimentar, está ficando mais fraca a cada dia.
Para sua surpresa, a duquesa bebeu todo o conteúdo da xícara, como se quisesse deixar claro que o fazia para agradar a enteada.
— Queria tanto que estivesse bem. Tenho tanta coisa para lhe contar, perguntar... Sinto falta da mãe que a senhora foi para mim. Preciso tanto dos seus conselhos, um abraço, um carinho...
A duquesa havia fechado os olhos, com certeza já caíra no sono. Com um suspiro, Hermione caminhou até a mesa e recolocou a xícara vazia na bandeja.
— Acho que estou apaixonada... — comentou calmamente. — Bem, estou casada e deveria mesmo estar amando, não é? Mas nem todos os casamentos são resultado de um grande amor. Gostaria tanto que pudesse me explicar esse sentimento. A sensação é muito boa, mas de vez em quando me sinto tão sozinha...
De repente, lembrou-se de que Draco a aguardava para um passeio a cavalo, e animou-se em partir. A caminho da porta, pegou a bandeja, deu um beijo na testa da duquesa e saiu.
— Vou embora, mas voltarei logo. Por favor, tente melhorar. Preciso muito da senhora.
Era certo que a madrasta não ouvia sua súplica. Contudo, para sua surpresa, em um último olhar, notou que uma única lágrima descia naquele rosto sofrido e marcado pelo tempo.
Draco estava quase indo buscar a esposa quando a viu caminhando pelo gramado na direção do estábulo. Ela o viu e acenou.
Ao se aproximar, Hermione tropeçou e ele imediatamente correu para ampará-la, mas ela logo se recompôs, alcançando-o. Os cavalos estavam selados, e Draco carregava uma cesta de piquenique.
— O que temos aí? — ela quis saber com um sorriso terno no rosto.
— Uma porção de coisas gostosas. Vamos aproveitar que está um dia lindo.
— Que surpresa ótima! Acho que não vou a um piquenique desde criança.
Quando HDraco foi ajudá-la a montar, ela quase desfaleceu. Por sorte, estava ali para segurá-la.
— O que houve?
— Senti uma tontura, mas já passou — respondeu, embora ainda estivesse zonza.
Apesar da tentativa de esconder o mal-estar, Draco percebeu que ela estava muito pálida e decidiu descartar os planos do passeio.
— Vamos para casa. É melhor deitar-se.
— De jeito nenhum! — Hermione protestou. — Não quero estragar nossos planos. Logo estarei melhor, acredite.
— Não se brinca com a saúde. Iremos outro dia. É perigoso cavalgar nesse estado.
— Mas... — E antes que terminasse a frase, suas pernas fraquejaram novamente. — Creio que tenha razão.
Draco fez menção de levá-la no colo para dentro de casa.
— Estou bem. Acho que posso andar.
— O caminho até em casa é acidentado demais. Temo que tropece novamente. Além de não estar bem, acredito que esteja muito cansada depois de tantas coisas que aconteceram nos últimos dias.
— É verdade. Estou me sentindo exausta e acho que dormir um pouco me fará bem.
Hermione tinha o peso de uma pluma para aqueles braços fortes. Draco levou-a até o quarto, depois de sentá-la gentilmente na cama, começou a desabotoar os botões do vestido.
— Posso perguntar o que está fazendo? — ela quis saber com a voz ligeiramente modulada.
— Estou fazendo com que se sinta mais confortável...
Como não houve nenhum outro comentário, continuou com a tarefa sensual. Não demorou para as mãos fortes fazerem deslizar a roupa, desnudando a pele clara dos ombros.
— Parece que tem muita habilidade em despir uma mulher.
Ele sorriu com malícia.
— Não sou um santo. Você sabia disso quando se casou comigo.
Ela franziu a testa, contrariada.
— Aliás, é uma das poucas coisas que sei a seu respeito.
Draco ajoelhou-se e começou a tirar-lhe os sapatos. Em seguida puxou o vestido, deixando-a apenas de combinação, espartilho e uma fina anágua. Depois foi a vez de soltar os cabelos, que estavam presos em fileiras de cachos, que caíam pelas costas com um sedoso véu castanho.
— Você é linda... — Sabia que não era hora para elogios, mas a emoção de dizer o que sentia se fez mais forte. A resposta veio com um sorriso.
— Você também é...
Os braços penderam ao lado do corpo cansado, foi então que Draco deitou-a na cama. A impressão foi de que Hermione adormeceu antes mesmo de ele puxar as cobertas. Encantado com a expressão tranqüila, ficou a observar a respiração cadenciada, assumindo que estava tudo bem. Mesmo assim, tomou-lhe o pulso e, ao sentir a pulsação normal, relaxou. Porém antes de soltar o braço, Draco sentiu a visão embaçada e, de repente, suas mãos se transformaram: estavam cobertas por grossos pêlos, garras despontavam de seus dedos. Com o coração aos pulos, ele levantou as mãos para observá-las. Entretanto, a visão voltou ao normal e com ela suas mãos também.
O que estaria acontecendo? Já havia sido estranho pular da janela do quarto de Hermione e cair sem se ferir. E a maneira como seus sentidos se aguçaram ainda mais durante a luta com os ladrões? Draco pressentiu que a maldição o rondava.
O barulho acordou Hermione de sobressalto. Raios de luz invadiram o quarto, seguidos por um barulho ensurdecedor. Ainda sonolenta, sentiu-se desorientada, olhando pelo quarto escuro na tentativa de reconhecer onde estava. De repente, viu a silhueta de um homem, parado diante da janela. A sucessão de flashes o iluminou.
— Draco? — perguntou, assustada.
— Você está melhor? — Saindo das sombras, ele se aproximou da cama. — Está dormindo há muito tempo.
Aos poucos ela lembrou-se da vertigem que a acometera.
— Já é tarde?
— Quase meia-noite — respondeu ele ao lado da cama. — Pensei que fosse dormir até amanhã de manhã.
— A tempestade me acordou. — Um novo trovão ecoou. — Não gosto desse tempo. Tenho medo.
Draco dirigiu-se até a lareira e colocou mais lenha no fogo. No mesmo instante o amarelo das chamas dissipou as sombras do quarto, fazendo-a sentir-se melhor.
— Você não está com fome? Não comeu nada desde o café da manhã.
— Sim, estou — ela admitiu, sentindo o estômago reclamar.
— Tenho uma bela surpresa — anunciou ele, trazendo até a cama a cesta de piquenique.
Hermione desmanchou-se em um sorriso, sentindo-se como uma criança travessa, comendo na cama.
— Vai ficar aqui, não? Aposto que tem muita coisa aí dentro, não vou conseguir comer tudo sozinha.
— Mas é claro que vou, afinal não tem graça nenhuma fazer piquenique sozinho — brincou ele, sentando-se e tirando as botas.
— Bem, vamos ver o que temos aqui. — Hermione sentou-se, prendendo os cabelos atrás da orelha.
— Duas tortas de carne — Draco anunciou, conforme tirava os pratos da cesta. — Queijo, pão, vinho e maçãs cortadas. O que quer experimentar primeiro?
— A torta e um pouco de vinho, estou com a boca muito seca.
— Não parece — Draco encheu uma taça, servindo-a em seguida. — Seus lábios me lembram frutinhas vermelhas, reluzentes pelas gotas de orvalho.
Hermione sentiu o rosto corar.
— Ora, ora. Vejo um poeta diante de mim, ou talvez o mais sábio dos sedutores — ela acrescentou, aproveitando a chance para provocá-lo.
— Não exagere... — comentou ele, ao mesmo tempo em que servia a torta.
Hermione começou a comer de imediato e o fitou. Com um cálice de vinho na mão, ele esticou-se na cama e ficou a observá-la.
Naquela posição, ele mais parecia um gato selvagem com o brilho do fogo conferindo uma tonalidade dourada aos olhos claros.
— Você saiu esta tarde? — ela perguntou.
— Não. Eu queria ter certeza de que você estava bem.
— Estou melhor agora. Nunca me senti daquele jeito antes. Talvez tenha sido o cálice de brandy que tomei — acrescentou, sorrindo timidamente.
— Não há nada de mais em uma mulher tomar um brandy — ele retorquiu. — Gostei de lhe servir um à noite passada.
— Você não está comendo — comentou ela, mudando de assunto.
— Não, mas satisfaço-me com o banquete de poder observá-la.
Hermione corou ao perceber que estava diante dele vestindo apenas roupas de baixo.
— É comum tentar seduzir mulheres doentes?
— Você disse que estava se sentindo melhor — Draco respondeu, espreguiçando-se languidamente como um felino.
Em vez de responder, ela escondeu o sorriso maroto. Tomou um gole de vinho e terminou de comer a torta e as fatias de maçã. O silêncio que se abateu sobre os dois, levou-a a lembrar-se da maneira como aquelas mãos grandes a haviam acariciado, levando-a às alturas de um prazer que jamais sonhara existir.
— Por que você não toma aquilo que lhe pertence? — Hermione respirou fundo, recobrando-se da coragem que a fizera fazer uma pergunta tão ousada.
— Isso é um convite? — Draco quis saber, olhando-a por sobre o cálice.
— Não. Mas você é meu marido e tem todo o direito de exigir seus direitos como tal.
— Mas não é o que você deseja. Fiz uma promessa e não pretendo quebrá-la. Não importa o quanto eu esteja tentado — sentenciou ele, com o brilho da paixão dançando em seus olhos. — Você parece irritada em saber que posso resistir. É por isso que ficou brava de repente?
Seria muito infantil aborrecer-se pelo fato de ele cumprir a promessa que fizera. Talvez o que a deixasse chateada fosse ele ter um surpreendente controle, enquanto que o bom senso a abandonava, quando estava presa naqueles braços fortes. No entanto, além do aborrecimento, pesava ainda mais a mágoa de estar apaixonada enquanto que ele havia jurado não corresponder.
— Por que você disse que nunca vai me amar? — ela quis saber, ao colocar o cálice de vinho na mesa lateral, arrependendo-se de ter perguntado no mesmo instante.
— Já disse o porquê — foi a resposta evasiva que Draco deu ao desviar o olhar.
— Aquilo foi uma desculpa — reagiu ela. — Depois você disse algo sobre uma maldição e uma oração que nunca descobri o real significado.
— Vamos deixar este assunto de lado, está bem? Contente-se com o que posso oferecer agora. Não peça por mais.
— E o que você pode me dar? Proteção? Vestidos bonitos e uma casa bem decorada? E por que não filhos? Amor? É preciso que haja sempre de maneira tão fria?
— Fria? — interrompeu ele. Já não era mais um gato preguiçoso, de repente estava de pé, colocando o cálice de vinho na mesinha. E num gesto imprevisível, tirou a camisa, fazendo-a tocar em seu peito. — Pareço frio? Eu vivo em chamas por você e a sinto queimar por mim. Sempre houve um calor intenso entre nós. Por que você não se conforma com isso?
Sem mais explicações, tomou-a num beijo para elucidar que "frio" não era uma palavra adequada para definir o que existia entre eles. Com um dos braços, jogou no chão tudo o que estava sobre a cama e deitou-se sobre Hermione, comprimindo seu corpo contra o dela.
Enquanto deslizava os lábios pelo pescoço delicado, com as mãos em concha, prendia um dos seios, acariciando-o com vagar.
Se aquela fosse uma lição de anatomia, ela desejava ser uma aluna exemplar. Uma estudante querendo decorar cada músculo daquele peito forte, delineando-o com os dedos. Draco tinha uma pele aveludada e macia. Gemeu ao sentir que mãos ansiosas a despiam da camisola, desnudando seus seios. Enquanto o marido sugava-lhe os mamilos, ela entremeou os dedos pela vasta cabeleira, conduzindo os movimentos, como se fosse preciso mostrar o caminho do prazer para o mestre, que agora fazia pequenos círculos com a língua, levando-a a perder a razão.
Aos poucos as roupas foram jogadas ao chão e Hermione se viu totalmente nua e ardente, exatamente do jeito que ele a desejava... ou que ela própria ansiava. Compreendeu então que Draco havia provado que não era necessário amar para compartilhar daquele doce desvario.
— Não... — sussurrou ela. — Isso não é o suficiente.
Ao fitá-lo notou que os olhos felinos não estavam apenas incandescentes, mas exibiam as labaredas do fogo que o estava consumindo.
Hermione sentiu medo pelo que viu naqueles olhos e pelos traços que agora conferiam uma aparência selvagem a Draco. Ele estava ofegante, e, por entre os lábios entreabertos, ela vislumbrou o que poderiam ser presas e não dentes.
Fechando os olhos e soltando um urro, Draco deixou-se cair a seu lado.
— Desculpe. Não sei qual demônio que se apossou de mim, mas fique certa de que eu jamais a machucaria. Jamais tomaria algo que você não quisesse me dar.
Em silêncio ela o observava, recusando-se em acreditar que o que acabara de ver não era normal. A estranha luz que reluzia naqueles olhos já havia apaziguado e ele a olhava do mesmo jeito de sempre: sensual, lindo e irresistível.
— Diga alguma coisa... — pediu ela, reparando que os dentes dele voltara ao normal.
— O que quer ouvir?
— Você me odeia?
Draco gargalhou e tomando a pequena mão, conduziu-a até sua rígida ereção.
— Isso responde a sua pergunta?
— Mas você não me ama.
— Esta parte do meu corpo a ama.
Hermione pensou em puxar a mão, mas uma força oposta a fez continuar ali, lembrando-se do quanto tinha gostado de tocá-lo no dia em que o vira nu na banheira. Draco dissera que suas carícias inocentes o levariam ao êxtase. Será que seria algo similar ao que ele lhe proporcionara na noite anterior?
— Posso tocá-lo de novo? — perguntou, reunindo toda a sua coragem.
— Por que quer me torturar?
— Só estou querendo retribuir o prazer que me fez sentir.
Deitando-se de lado e apoiando-se no cotovelo, ele a encarou.
— Só se você realmente quiser. Você não me deve nada, fui eu quem começou esse jogo sensual entre nós.
— A verdade é que estou curiosa — admitiu. Embora soubesse aonde aquilo os levariam. — Ensine o que devo fazer.
Draco pensou que se tivesse o mínimo de bom senso, levantaria da cama naquele instante, seguiria para o outro quarto, e trancaria a porta ao passar. No entanto, algo maior que a razão o atingiu. Luxúria. Uma luxúria irracional e despreocupada. Por um momento, sentiu a tentação de possuir Hermione fosse esse ou não o desejo dela.
— Estou sendo muito ousada — disse ela, puxando a mão, mas ele a impediu.
— Sou seu marido, você nunca será ousada demais comigo.
Em um consentimento silencioso. Ela então passou a desabotoar as calças, insinuando a mão pelo membro túrgido, expondo-o.
Sentir os dedos delicados envolvendo-o foi o suficiente para mostrar a ela que estava no caminho certo para o total delírio.
—Você é tão grande. Será que quando... vai me machucar?
Ele riu, embora não tivesse tão bem-humorado assim.
— Não, minha querida, você foi feita para me acomodar, não se preocupe.
— Como faço para agradá-lo? — ela perguntou, deslizando habilmente as mãos para cima e para baixo.
Ele estremeceu ao toque, contraindo-se em pequenos espasmos de prazer.
— Continue fazendo exatamente assim.
E ela continuou. Senti-lo crescer em sua mão, saber-se responsável por excitá-lo, deixou-a também em estado semelhante. Com movimentos suaves, continuou a acariciá-lo, sempre atenta às mudanças no corpo, na expressão do rosto, dos olhos...
Movida pelo desejo de saborear o fruto de sua audácia, Hermione se inclinou e beijou-o, abocanhando-o por inteiro, saboreando e brincando com a língua sobre toda aquela masculinidade voluptuosa.
Draco a guiou, fazendo-a aprender rapidamente o ritmo que suas carícias deveriam ter, convidando-a para entregar-lhe o corpo que também ansiava pelos toques mais íntimos. Não demorou muito para que ela entrasse em sintonia e estivesse pronta para recebê-lo.
A luz dourada do fogo conferia uma cor bronzeada ao corpo musculoso, deixando-o ainda mais belo, primitivo, poderoso. E totalmente à sua mercê, ao menos naquele instante. Seguindo o instinto, ela aumentou a pressão da mão. Ele fechou os olhos. Os longos cílios apoiados no rosto contraído e o maxilar tenso foram prova de que ele lutava contra o poder que Hermione exercia sobe a parte mais sensível de seu corpo. Percebendo a relutância, ela aumentou o ritmo, querendo liberá-lo dos medos e receios. De repente, um gemido ecoou no quarto e os dedos longos entremearam-se pelos cabelos dela, trazendo-a de volta para selar o momento com um beijo ardente e selvagem...
Em seguida Draco jogou-se ao lado, agarrou os lençóis com as mãos e implorou:
— Continue, não pare...
Hermione obedeceu e sentiu que ele crescia e enrijecia ainda mais, como se fosse possível. Até que de repente ele deixou escapar um som diferente, animalesco, com o corpo estremecendo por inteiro. Ela o segurou até sentir o líquido quente escorrer por entre seus dedos, espalhando-se pelos lençóis.
Tentando protegê-lo, ela se amoldou ao corpo forte que ainda se contraía de prazer. Com a cabeça apoiada no peito largo, foi possível sentir a respiração acelerada, acalmando-se aos poucos.
Lá fora, a chuva ainda fustigava, mas o quarto estava envolvido por uma aura morna e diferente. Aquela noite havia sido diferente, pois parte dele ainda estava em suas mãos. Hermione sentiu que seria apenas uma questão de tempo para que ele a amasse.
Tempo que se esvaía sem que Draco pudesse ter o menor controle. Na noite anterior havia adormecido nos braços de Hermione, acordara na madrugada fria e fugira para o outro quarto como se fosse um covarde. Se por algum instante preocupara-se com a perda do controle, agora afligia-se com os fortes sentimentos que o invadiam ao acordar aninhado ao corpo da esposa. Assustou-se ainda mais ao perceber que o que sentia era o natural, o certo. Oh, Deus, eles pertenciam um ao outro.
E os sentimentos que ela despertava não eram apenas sexuais, e sim emoções que havia muito estavam enterradas em seu coração. E, fosse de sua vontade ou não, Hermione já habitava a parte mais pura de seu coração.
Nunca antes havia se visto como um covarde, mas, naquela manhã, ele saiu de casa para não ter de encarar Hermione no café da manhã. Temia que ela visse em seus olhos os sentimentos verdadeiros trancafiados ali.
Caminhou pela Bond Street sem nenhum destino em mente. Não havia nenhuma notícia nos jornais a respeito de outra prostituta assassinada. Naquela noite seguiria Peter, apenas seria mais cauteloso para não cair em possíveis armadilhas novamente.
De repente, uma carruagem parou ao seu lado, afastando-o dos pensamentos.
— Draco, querido, venha até aqui — chamou a condessa de Grifinória.
Sorrindo ao reconhecê-la, Draco aproximou-se para cumprimentá-la.
— Entre — instruiu ela, abrindo a porta.
— Que bom encontrá-la — disse, entrando na carruagem. — Precisava mesmo pedir um favor.
— Faço qualquer coisa, menos ir para a cama com você — ela brincou. — Você é um homem casado agora.
Ele gargalhou e foi direto ao ponto:
— Hermione precisa de vestidos novos. Não quero que ela se exponha a fuxicos desnecessários indo à loja sozinha. Posso marcar com a costureira para atendê-la em sua casa? Duvido que encontre alguém que se disponha a ir até a minha.
— Claro, meu querido. Providenciarei para que sua esposa seja vestida como uma rainha.
— Já cheguei a imaginá-la uma princesa — comentou ele, pensativo.
— Fico feliz que tenham se encontrado. — A condessa acariciou-lhe a mão. — Ela o ama. Ame-a também.
— Como sabe que ela me ama? — quis saber, sentindo o coração acelerar.
— Ora, qualquer tolo enxerga o óbvio, não? E é evidente que você também a ama. Peço que não demore muito em dizer isso a ela.
De repente o momento doce transformou-se em pânico. O peito apertou a ponto de fazê-lo temer não conseguir respirar.
— Jamais poderei confessar uma coisa dessas.
— Claro que pode — ela argumentou. — Você não é um fraco!
— A senhora sabe do que estou falando!
— Fui a melhor amiga de sua mãe. Sei como ela padeceu com o coração dilacerado. Seu pai fez a pior escolha para os dois, não dando nenhuma chance a ela. Não cometa o mesmo erro.
Draco sentia-se sufocado. Para aliviar a sensação afrouxou a gravata. Não contente, abriu a porta e saiu da carruagem. Sem se despedir da condessa, saiu andando. Precisava pensar, fugir, correr...
* * *
O dia estava ensolarado e a terra exalava um perfume revigorante depois da tempestade da noite anterior.
Após o café da manhã, Hermione decidiu caminhar até o estábulo para apreciar a vista dali. E, admirando o pasto verdejante até a propriedade vizinha, viu o lençol branco tremulando ao vento. Era o sinal de Papoula.
A duquesa não havia melhorado. Hermione acompanhou-a no chá com esperanças de poderem manter um diálogo, mas como isso não aconteceu, ela se viu cochilando em vários momentos, enquanto a madrasta roncava sonoramente, sentada na cadeira em frente à janela.
— É melhor ir embora, lady Wulf — advertiu Papoula, tocando-a no ombro. — Já é tarde e não tenho idéia de quando o Sr. Pettigrew retornará.
Hermione sentiu as pálpebras pesadas, precisou forçá-las para abrir e perceber que o sol já tinha se posto e que a lua se apressava em tomar seu lugar.
— Devo ter cochilado — comentou enfraquecida. Ao tentar se levantar, as pernas fraquejaram. Mesmo assim conseguiu levantar e foi tropeçando até a porta.
— A senhora está bem? — Papoula inquiriu com a testa encrespada de preocupação.
— Sim... — assegurou Hermione. — Acho que minhas pernas adormeceram também.
— PAPOULA!
Ao som da voz conhecida, as duas sentiram o sangue gelar.
— Quero meu jantar pronto imediatamente! Tenho outros planos para hoje à noite.
— Deus meu, ele chegou — Hermione constatou. — É melhor que ele não saiba que estou aqui.
— Mas como a senhora vai sair? — Papoula quis saber, preocupada. — Ele está lá embaixo.
Hermione lembrou-se de que só havia uma maneira de escapar.
— A treliça do lado de fora do meu quarto. Foi por lá que desci uma vez e posso fazer o mesmo outra vez.
— Oh, Céus. — Papoula continuava apavorada. — Eu não deveria ter permitido que ficasse por tanto tempo.
— Papoula, desça e fique na escada para se certificar que ele não vai subir.
A criada assentiu com um sinal de cabeça.
Hermione foi para seu antigo quarto. Andar rápido não estava sendo uma tarefa muito fácil, uma vez que seus olhos estavam embaçados e a escada parecia mover-se sob seus pés. Mesmo assim ela conseguiu descer.
— Ande logo — sussurrou Papoula da escada.
— PAPOULA! Não está me ouvindo?
— Desculpe, Sr. Pettigrew, eu estava no quarto de sua mãe.
— Então desça logo para preparar meu jantar. Preciso sair de novo e gostaria de comer antes.
— Sim, senhor — acatou Papoula, descendo as escadas. — O senhor vai subir?
— Ora, mas é claro que vou. Quero trocar de roupa antes de sair.
— Como preferir, senhor.
Hermione esforçou-se para chegar ao quarto antes que Peter chegasse ao primeiro andar. O mundo parecia girar a sua volta, foi preciso amparar-se na parede para não perder o equilíbrio.
Finalmente ela conseguiu abrir a porta e entrar. A porta-balcão estava aberta. Pulou a mureta, esgueirando-se pela parede lateral da casa até a treliça. Aguardou um pouco na esperança de o coração se acalmar e a cabeça parar de girar. De repente, ouviu passos. Oh, Céus, ela havia deixado a porta do quarto aberta. Peter certamente desconfiara de algo.
Com a respiração suspensa, ouviu os ruídos de gavetas sendo abertas e fechadas, rezando para não ser vista ali. Não demorou muito, ouviu o barulho da porta sendo fechada e supôs que ele houvesse saído.
Por garantia, permaneceu imóvel por mais alguns minutos. Quando o silêncio pareceu reinar, alcançou a treliça. Pela experiência, sabia que as duas anáguas que usava por baixo do vestido só atrapalhariam na descida. Então com destreza, removeu-as, deixando-as amontoadas em um canto, antes de se firmar na grade.
Ainda titubeante, apoiou-se na mureta e procurou apoio para o pé. Assim que sentiu que estava firme, pôs o outro pé. Neste momento, um dos pés escorregou e ela ficou pendurada com as pernas balançando até encontrar apoio novamente. Olhou para baixo e sentiu a cabeça girar, temendo cair e quebrar o pescoço.
Reunindo todas as forças, agarrou-se na grade até que conseguiu apoiar os pés por entre as folhas da videira e começar a descer lentamente. As folhas ainda estavam molhadas da chuva da noite anterior, fazendo com que escorregasse a todo instante.
Sentindo-se zonza, imaginou que fosse ficar enjoada, o que complicaria ainda mais a empreitada. Quando estava quase chegando, escorregou novamente.
De repente, ela perdeu o controle e começou a cair, mas foi amparada por braços fortes.
— Que diabos está fazendo, Hermione?
Draco! Assim que o reconheceu, agarrou-se a ele, puxando-o para encostar na parede.
— Você ainda não me respondeu.
— Shhh! Fique quieto. Peter está em casa. Tive de fugir sem que ele me visse.
— Não ligo a mínima se for visto — ralhou ele, afastando-se da parede.
— Mas eu me preocupo. Se ele me vir, não permitirá que eu volte para ver minha madrasta.
— Você já passou dos limites. Achei que não conseguiria chegar a tempo de impedi-la de cair.
— Você está falando alto demais — advertiu Hermione. — Podemos discutir isso mais tarde.
— Pode estar certa que vamos falar a respeito.
A volta para casa não foi rápida. Hermione tropeçava e Draco tinha de voltar para socorrê-la a todo instante. Ao final, ele terminou por carregá-la no colo.
Ao entrarem em casa, ele seguiu direto para o quarto. Snape correu para saber o que havia ocorrido, mas pelo olhar do patrão, achou melhor se recolher.
Draco colocou-a gentilmente sobre o acolchoado macio, embora sua expressão fosse bem distinta de seus gestos.
— Snape não faz idéia de onde você foi — repreendeu-a. — Quando eu seguia para o estábulo para selar meu cavalo, vi o lençol estendido na janela. Logo em seguida a vi descendo pela treliça.
— Eu adormeci — ela explicou. — Não disse a Snape aonde estava indo porque pretendia ficar pouco tempo por lá. Acontece que Peter chegou e não tive como fugir senão pela grade. Eu estava com muita tontura e acabei por perder o equilíbrio.
— Vou chamar um médico. Essas tonturas têm acontecido com muita freqüência.
— Foram só duas vezes. Estranho é que foram exatamente nas vezes em que visitei minha madrasta. — Hermione buscou alguma lógica, quando de repente lembrou: — O chá!
— Como assim? Do que você está falando?
Os acontecimentos começaram a fazer sentido. E se estivesse certa, talvez a madrasta não estivesse doente de fato.
— Acho que ele a está drogando — explicou. — Tem algum ingrediente a mais no chá que Papoula dá para a duquesa diariamente.
— Do que você está falando, Hermione?
Ela sentiu mais uma onda de vertigem, fazendo-a levar a mão à testa.
— Acho que as folhas que Peter dá a Papoula para preparar o chá têm alguma substância de efeitos entorpecentes, mantendo-a naquele estado de letargia. Da última vez que estive lá, tomei um golinho do chá para testar se não estava muito quente. Hoje tomei uma xícara inteira.
— Mas qual o interesse de Peter em dopar a própria mãe?
Hermione ficou pensativa por alguns instantes.
— A menos que ela tenha informações importantes — Draco concluiu.
— Sobre os assassinatos?
— Sobre Marieta Edgecombe — ele insinuou. — Se ela soubesse que o filho havia matado uma mulher, o que faria?
— Bem, minha madrasta sempre o protegeu, sem se importar se ele houvesse cometido os atos mais hediondos. Por outro lado sei que ela é uma pessoa de princípios, então não sei o que pensar... Peter vai sair esta noite — Hermione se lembrou de comentar o que ouvira.
— Isso quer dizer que eu também vou sair. Quero que durma para se livrar da droga que causa essas vertigens.
— A razão por ele dopá-la ainda não faz muito sentido. Se pressentisse que ela soubesse alguma coisa sobre os crimes, por que então não matá-la?
Draco afastou uma mecha que caía sobre o rosto delicado.
— Talvez não tenha coragem o suficiente para matar a própria mãe. Ou quem sabe, imaginou que seria muito mais esperto manter a duquesa drogada e contar a todos de sua morte lenta. Ninguém questionaria a morte de alguém que já estava tão debilitada.
— Preciso salvá-la — prometeu Hermione em um sussurro.
— É melhor dormir um pouco.
Aos poucos ela sentiu o manto da escuridão da noite envolvê-la como se quisesse niná-la.
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Obrigada e até logo.
E respondendo a pergunta da Dark Moon, esta história tem 6 capítulos ao todo, incluindo o prólogo.
Bjos, Isa Bebel.