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3. Capítulo 2


Fic: Maldição da Lua - UA NC18 - DHr - Finalizada


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo II


 


No dia seguinte Angelina não apareceu para ajudar Hermione a se preparar para a festa dos Delacour. Papoula contou que Peter a despedira. Sabia que ele tomara aquela atitude pelo fato de ela ter enfrentado o irmão, pedindo explicações. Embora soubesse que a amiga ficaria bem melhor longe dali, gostaria de ter se despedido da criada. Seus pensamentos ainda estavam voltados ao que mais poderia ter feito pela moça, quando Gaunt chegou para acompanhá-la até a festa.


Ao chegarem ela notou que todos pareciam animados com a ocasião, menos ela.


 — Como se sentiu? — Gina Weasley, a jovem socialite a quem tinha sido apresentada anteriormente, perguntou baixinho.


— Desculpe-me, não entendi. — Hermione achou que havia se distraído e perdido parte da conversa. — Como é dançar e depois sair acompanhada pelo lorde Wulf? — a moça reformulou a pergunta. Era certo que todos haviam testemunhado sua atitude no baile anterior.


— Foi um erro — ela murmurou, tentando mostrar desinteresse pelo assunto.


— Você foi a única a realizar o sonho de todas nós — a dama admitiu. E disposta a saber mais detalhes, Gina puxou-a pelo braço, afastando-a do pequeno grupo. — O que aconteceu quando vocês ficaram sozinhos?


Hermione não gostou muito de ser interrogada daquela forma, mas se não satisfizesse a curiosidade da moça com muita educação, seria alvo de mais fofocas.


— Não houve nada, lorde Wulf foi um perfeito cavalheiro — mentiu.


— Ah, que pena — Gina lamentou, franzindo a testa em sinal de desapontamento, mas seus olhos claros brilhavam maliciosamente. — Acho uma injustiça que o homem mais atraente de Londres seja proibido para nós.


Chocada pela franqueza da moça, Hermione apenas assentiu.


— Acho que os rumores de ele ser um homem perigoso são um tanto exagerados. Não acredito que o fato de eu tê-lo procurado para dançar tenha chamado tanta atenção assim.


— Pois é aí que você se engana, todos notaram. Eu mesma morri de inveja da sua audácia. Imagine ter a coragem de dançar com o monstro em pessoa. Ninguém jamais vai esquecê-la, Hermione, pode estar certa disso. Acho sua ousadia admirável. Nenhuma teria coragem suficiente para desrespeitar as regras e ser alvo de fofocas.


— Você também não é nada comum, não é? — Hermione comentou sorrindo.


— Acho que não sou mesmo — Gina respondeu, dando de ombros. — Minha mãe costuma dizer que com esse atrevimento vai acabar manchando minha reputação. Cá entre nós, espero que ela esteja certa.


Gina era de fato diferente das demais. Hermione sorriu novamente e descobriu-se divertindo na companhia da nova amiga.


— Seu irmão parece mantê-la sob rédea curta — Gina comentou. — Aliás, ele está vindo em nossa direção e não me parece satisfeito por estarmos conversando.


Hermione olhou na direção em que vira Peter e Gaunt pela última vez.                                                                                  


— Com licença, o acompanhante da minha irmã precisou se ausentar, mas pediu que eu me certificasse de que ela aproveitaria o baile — Peter as interrompeu, tomando Hermione pelo braço com uma força desnecessária.


Ele não precisou dizer mais nada para fazer com que Gina voltasse às pressas para o lado da mãe.


— Eu estava apenas fazendo amizade com Gina...


— Você não precisa de amigas — Peter disse em tom ríspido. — Se precisar, Gaunt as escolherá para você depois de casados.


— Eu ainda não concordei com esse casamento. E se eu escolher outra pessoa? Quem sabe um homem que aceite pagar suas dívidas e me aceite sem dote?


— Não conte demais com sua aparência, minha querida. Você não tem muita escolha. Eu até tinha outros nomes, mas desde que Gaunt se interessou por você, seu futuro ficou decidido. Aliás, ele deixou isso claro hoje à tarde.


— Aquele homem me causa repulsa, se ao menos ele fosse um pouquinho mais gentil...


— Pare com essa lamentação tola — Peter a repreendeu. — Não estou nem um pouco interessado em suas opiniões. Mas como não sou tão ruim assim, posso confortá-la contando um segredinho sobre o nosso visconde.


— Um segredo? — perguntou ela curiosa.


— Nosso visconde tem problemas com suas partes masculinas. Duvido que consiga manter sua masculinidade ereta por tempo suficiente para consumar o matrimônio. Embora goste de um bom jogo, como se fazer passar por um homem capaz de tudo.


Hermione não era tão ingênua para não entender o que Peter acabara de dizer. Embora fizesse o casamento com um homem parecer um pouco menos intolerável, o visconde ainda a enojava com sua conversa libidinosa e mãos grudentas. Ela se perguntou então por que sua reputação seria tão importante para um homem que não podia cumprir com suas obrigações maritais.


— Sei o que está pensando — Peter comentou. — Gaunt está solteiro há muito tempo, por isso é muito importante que se case com uma dama de boa reputação e boa linhagem, para afastar qualquer comentário. Devo avisar que se tiverem filhos, não serão dele e sim de um pai que ele próprio escolherá.


Ela sentiu o estômago se contrair só em pensar naquela hipótese.


Desviou o olhar para o salão e assustou-se ao vislumbrar Draco se movimentando fora da pista. Como de costume, ele estava de preto em um contraste perfeito com os cabelos claros e a pele bronzeada.


De repente ela percebeu que aqueles olhos misteriosos estavam concentrados em seus movimentos pela pista. A distância, como um felino à espreita, ele continuava parado, analisando-a.


— Não olhe para ele — Peter sibilou. — Vocês dois estão dando um espetáculo!


Difícil imaginar que faziam parte de algum show quando estavam distantes por dez passos. Contudo, havia certa razão no comentário do irmão. De uma hora para outra o ambiente ficou pesado, como se o ar estivesse carregado de especulações. Entretanto não conseguia desviar do olhar que a hipnotizava. Sentia-se como um coelho indefeso, prestes a ser devorado por um predador.


Sentiu o sangue corar suas faces, mas Peter a trouxe de volta à realidade, apertando sua mão com uma força que quase a fez gritar de dor.


— Está na hora de nos despedirmos e partir — falou ele entre os dentes. — Aquele homem a faz perder a cabeça. Não deixarei que ele estrague tudo! Está me ouvindo, Hermione?


— Peter... — chamou ela, apressando o passo para alcançá-lo.


— Você não tem jeito mesmo, Draco Wulf — a condessa de Grifinória declarou. — Aqui estava eu pensando na auréola que rodeia sua cabeça angelical, erroneamente julgado pelas fofocas infundadas, quando o pego em flagrante, provando que estão todos certos.


Draco forçou-se a desviar seus olhos de Hermione e encontrar a testa franzida da condessa. Ele ergueu uma sobrancelha como que inquirindo sobre o que estava fazendo de errado. E a resposta silenciosa veio por meio do leque apontado para Hermione, de quem ele não havia tirado os olhos desde que chegara à festa de lady Delacour.


— Agindo assim tão descaradamente, lançando olhares significativos a lady Hermione, vai acabar levantando as piores especulações a seu respeito.


— Não tinha notado que a estava encarando — disse com ar maroto.


— Ora, ora — a condessa comentou sorrindo. — Draco Wulf finalmente se apaixonou! Já era hora. Eu estava certa quando disse que vocês fazem um belo par.


 — Posso garantir que não é meu coração que olha para lady Hermione.


 A condessa o golpeou fortemente com o leque.


— Mas que coisa! Você deveria controlar sua libido em público! Do jeito como a encara parece que vai despi-la e possuí-la aqui mesmo, em frente a todos nós. Você é sempre tão intenso assim?


Sem desviar os olhos de Hermione, ele pensou um momento antes de responder.


 — Sou sim.


— O irmão dela está ficando cada vez mais tenso — comentou a condessa. — Você deveria disfarçar um pouco, Draco. Sabia que ela chegou aqui pelos braços rechonchudos de Gaunt? Espero que a pobrezinha consiga alguém melhor do que ele. Seria uma pena vê-la casada com aquele canalha.


Então, Hermione havia permitido que o visconde a conduzisse à festa? Uma resolução difícil de entender, quando se tratava da mulher mais linda que ele já tinha visto. Se quisesse, ela poderia ter qualquer homem! Qualquer um, menos ele próprio...


— Não pense que vou fazer papel de idiota perante ela — advertiu ele, forçando-se a desviar o olhar de Hermione. — A senhora bem sabe que fiz um juramento de nunca me casar.


— Não percebeu que já está fazendo papel de tolo? — perguntou a condessa em tom suave. — Não foi para me ver que está aqui, tenho certeza.


Sim, estava ali para encontrar Hermione novamente, admitia-se totalmente incapaz de lutar contra a forte atração que os unia.


— Não entendo a dúvida. Claro que vim vê-la, milady. — Draco direcionou todo o seu charme e atenção para a mulher que fora amiga de seus pais e que não abandonou as crianças quando a maldição se abateu sobre sua família. — Eu a adoro, e se existe uma mulher em toda a Londres que me faça considerar quebrar o juramento de permanecer solteiro, é a senhora.


A condessa, apesar da idade, corou como uma garota. Porém, logo se recompôs, acertando o leque no braço forte.


— Ora, pare com isso.


Durante a viagem para casa, Peter não tirava os olhos da irmã. Para fugir do assédio, Hermione fechou os olhos e se recostou contra o assento, revivendo os acontecimentos da noite.


Os sentimentos conturbados que a invadiam toda vez em que se aproximava de Draco não lhe faziam bem. Seu futuro marido já estava escolhido, e mesmo se não estivesse, Peter jamais permitiria que fosse cortejada por um Wulf.


O barulho dos cascos dos cavalos contra as pedras da rua e o balançar da carruagem embalaram os sonhos de Hermione. De súbito estava revivendo aquela noite inesquecível em outra carruagem, com outro homem.


E na escuridão, Draco se fez presente, fazendo-a arrepiar-se diante das súplicas daqueles lábios exigentes contra os seus. Sentiu os seios doídos com saudade das carícias, da boca sequiosa e da língua atrevida. Em segundos seu corpo inteiro voltou a clamar por aqueles braços fortes que amoldaram seus corpos com a habilidade de um escultor, transformando-os em um só. O calor do desejo a envolveu, a voracidade da paixão... E foi o som do próprio gemido rouco que a trouxe de volta à realidade, e abriu os olhos abruptamente.


Peter a encarava com a expressão de um gato faminto que estuda o rato adormecido, pensando em torturá-lo, antes de qualquer outra coisa.


— Com o que você estava sonhando ainda agora? —- inquiriu ele. — Ou devo perguntar, com quem?


Hermione se endireitou.


— Devo ter cochilado. Já chegamos em casa? — Abriu a cortina da carruagem. — Oh! Vejo que já chegamos. Estou exausta!


— Não pense que vai se refugiar no quarto e escapar da punição pelo seu comportamento dessa noite — Peter sibilou. — Tenho pensado no que seria apropriado.


— Sou uma mulher adulta. Não posso admitir ser punida como uma criança nem por você e nem por homem algum.


A sobrancelha erguida e o ar de falso espanto foi uma resposta muito mais contundente do que se ele tivesse reagido com raiva.


— Isso é o que veremos. — Ele se inclinou e abriu a porta da carruagem, então saiu. Quando estendeu a mão para ajudá-la a descer, Hermione se recusou, saindo sozinha do coche.


— Você não vai me bater — sentenciou ela severamente. — Não vou mais suportar esse abuso.


A máscara de cinismo caiu do rosto de Peter e os olhos brilharam com a fúria conhecida.


— Como ousa me dizer o que posso ou não fazer sob meu teto?


Peter agarrou-a pelo braço, quase o deslocando. Ela engasgou com a dor. Em pânico, tentou escapar. O primeiro lugar que pensou em ir foi para a casa vizinha. Mas teria que correr muito antes que o irmão a alcançasse.


— Você acha que ele pode ajudá-la? — Peter falou em baforadas ao ouvido dela. Apertou o braço já dolorido com mais força, fazendo-a choramingar. — Ninguém pode ajudá-la, Hermione!


O desespero a fez pronunciar o nome de Gaunt enquanto Peter a arrastava em direção da casa. Ele apenas riu da insinuação.


— Ele não se importa, desde que os machucados não apareçam. — Passeou os olhos pelo corpo dela. — Claro que primeiro precisamos nos livrar desse vestido. Custou uma fortuna e eu não quero vê-lo rasgado ou manchado.


Hermione tentou afundar os saltos do sapato no chão, mas não funcionou. Peter era muito forte. Mesmo se Papoula abrisse a porta e testemunhasse a cena, não seria capaz de ajudá-la. Realmente não havia qualquer saída a não ser submeter-se à vontade do irmão. Peter arrastou-a para dentro, levando-a na direção das escadas. De repente pararam diante da visão aterrorizante que surgiu à frente dos dois.


Ali, presa à viga que corria pela extensão do teto havia uma corda, da qual pendia um corpo, que balançava para frente e para trás. Hermione levou as mãos à boca. Era Angelina.


Draco havia acabado de chegar em casa, depois de umas poucas rodadas de carteado e acabara de tirar o casaco quando o som chegou até ele. Aguçou os ouvidos em direção à janela aberta e ouviu o som distante de um choro.


Por conta da maldição, alguns de seus sentidos eram mais aguçados do que em outras pessoas. A audição e o olfato eram os mais afiados. Era como se fosse um animal... que aguardava para ser libertado a qualquer momento.


E por isso não tinha dúvidas de que quem chorava era Hermione. Havia algo errado e a necessidade de vê-la tornou-se iminente.


Sem se importar em colocar o casaco, ele deixou o quarto apressado. A mansão estava em silêncio, nenhum serviçal acordado.


Desceu as escadas e irrompeu pela porta da frente. A noite estava úmida, a grama molhada e uma neblina espessa não permitia a visão ao longe. Ainda assim, seguiu sob uma chuva fria e fina. Quanto mais se aproximava da casa de Hermione, mais nítido era o choro, mais palpável tornava-se aquela angústia.


Sem esforço algum, escalou as treliças até a varanda do quarto. Por um instante imaginou se as portas não estariam trancadas, mas por sorte estavam apenas encostadas. Com a agilidade de um ladrão, esgueirou-se para dentro do quarto. Seus olhos se ajustaram facilmente à escuridão. Foi então que ele a viu, encolhida sobre as cobertas.


— Hermione? — chamou-a em um sussurro.


Com um pulo, ela jogou as cobertas de lado e se sentou.


— Oh! Draco! — Ela saiu da cama e atravessou o quarto, surpreendendo-o ao enlaçá-lo pelo pescoço à procura de proteção. — Foi horrível!


Por impulso, ele deixou as mãos deslizarem por entre os longos cabelos cacheados, que pareciam a mais fina seda debaixo de seus dedos.


— O que foi horrível? Por que está chorando?


— Amgelina — ela começou a contar entre soluços. — Ela se enforcou!


Draco conduziu-a até a cama, sentando-se a seu lado.


— Quem era Angelina?


— Minha criada — ela respondeu. — Peter a demitiu no começo da semana, mas hoje à noite quando chegamos dos Delacour, lá estava ela, o corpo inerte pendendo de uma corda.


Quando Hermione cobriu o rosto com as mãos soluçando, Draco cedeu ao impulso de aconchegá-la, passando o braço sobre os ombros trêmulos.


— Foi por minha culpa. Foi por minha causa que Peter a expulsou daqui. Acredito que por não ter arranjado outro emprego, ou outra maneira de sobreviver, ela não viu outra saída senão dar fim à própria vida.


O sofrimento profundo de Hermione por causa da criada o surpreendeu. Se ela fosse como as outras moças da sociedade, teria esquecido o problema rapidamente. O que reafirmava o fato de ter a seu lado uma mulher diferente e sensível.


— Ela deixou algum bilhete? Qualquer explicação sobre o motivo de ter tomado tal decisão? — Draco quis saber.


— Não. Nada que alguém tivesse achado pelo menos. Ela...


— O que houve?


— Ela estava com o corpo tomado por hematomas.


— Hematomas? — No mesmo instante Draco associou os fatos.


— No rosto — Hermione continuou. — A impressão é que havia sido espancada recentemente. Segundo Peter, ela andava com um bando de arruaceiros. Eu o ouvi dizendo ao policial que provavelmente um desses homens a teria machucado.


— Seu irmão a acompanhou durante a noite inteira?


— Sim, por que pergunta?


Draco tinha fortes suspeitas sobre Peter, porém se Hermione confirmava que ele estivera em sua companhia, talvez não tivesse participado diretamente.


— Por que ela foi demitida?


De repente, Hermione desviou o olhar para evitar a resposta. Draco tocou-a no braço e ela involuntariamente soltou um gemido de dor.


— O que foi isso? — indagou ele, notando os hematomas no braço delicado.


— Eu devo ter esbarrado em alguma coisa — Hermione respondeu baixinho, ainda recusando-se a encará-lo.


— Como?


— Não me lembro.


Uma onda de ódio o invadiu. Movido pela certeza que já tivera antes, Draco rasgou a manga da camisola e, perplexo, viu a nítida marca de dedos na pele alva de Hermione.


— Quem fez isso a você?


Diante da dolorida evidência, ela soluçou, desta vez não disfarçando o pranto que precipitava em seus olhos.


— Peter — respondeu depois de respirar fundo. — Não é a primeira vez. Ele tem um temperamento horrível!


Draco praguejou, levantou-se e dirigiu-se para a porta do quarto.


— Vamos ver se ele é valente o suficiente para agredir um homem!


Hermione saltou da cama, postando-se à sua frente, impedindo a passagem.


— Não, Draco, não piore a situação! Peter nem mesmo está em casa. Depois do incidente ele saiu, provavelmente para ir jogar cartas.


Determinado, Draco voltou para a sacada. A raiva crescendo a cada minuto, tomando-o por completo.


— Então, vou procurá-lo.


— Por favor, não me deixe sozinha!


Ele cedeu ao apelo e, movido por um misto de sensações entre desejo e afeto, aproximou-se e envolveu-a num abraço terno.


— Volte para a cama. Você deve estar exausta.


Como uma criança obediente, ela entrou debaixo das cobertas, sem deixar de observá-lo. Draco sentou-se na beira da cama. Sua camisa estava úmida por conta da garoa ou talvez pelo calor da paixão que o fazia transpirar.


— Naquela noite do baile de Greenley você não tropeçou se machucando também, não foi?


— Não — ela murmurou. — Peter me bateu por eu... ter saído com você.


— Isso deixa claro que você não me procurou naquela noite para impressionar suas amigas, não é?


— Não tenho amigas. Peter não permite. Ele decidiu que devo me casar para ajudá-lo em suas finanças. Se você tivesse manchado minha honra naquela noite, não haveria casamento e eu poderia voltar para o interior.


Draco suspirou, afastando uma mecha de cabelos úmidos da testa.


— Hermione, deve haver alguém que possa ajudá-la. Família...


— Engano seu, não tenho ninguém. Meu pai me deixou aos cuidados de minha madrasta. Infelizmente ela adoeceu e minha guarda passou para Peter, que já acabou com minha herança.


Draco percebeu que a realidade era ainda pior do que suas suspeitas.


Se Peter aparecesse naquele instante, ele o esganaria.


— Por que você não me disse a verdade quando nos encontramos?


— Eu não o conhecia. Não sabia como poderia pedir ajuda, além da maneira como fiz — ela respondeu com o olhar baixo.


Hermione tinha razão. O que poderia fazer por ela exceto matar o homem que ousava tratá-la daquela forma? Porém, se o fizesse, a sociedade iria aplaudir por finalmente poder provar que ele era de fato um assassino.


Como faria para protegê-la sem que seu nome fosse citado? O que poderia oferecer a ela? Provavelmente muito menos do que ela merecia, pois seu futuro estava preso a uma maldição que não lhe permitia laços afetivos.


— Você está tremendo...


Draco puxou as cobertas para cobri-la. No entanto, o tremor não seria apaziguado por lã, tampouco pelo fogo. Ciente disso, ele tirou a camisa úmida e, ao deitar-se, puxou-a para bem perto, emprestando o calor do seu corpo.


— Não tenha medo de mim — disse, fazendo-a apoiar a cabeça em seu peito.


Não demorou muito para que Hermione se aquietasse sob o bálsamo daquele perfume cítrico e se deixasse envolver pela ternura do momento.


—Você não me disse por que a criada foi demitida.


Hermione aninhou-se ainda mais àqueles músculos firmes, como se procurasse abrigo até por mencionar o nome do irmão.


— Poucas horas antes, Angelina me contou que Peter a violentava. Fiquei furiosa quando soube e chamei a atenção dele. Ele ficou furioso e a demitiu.


Um estuprador, além de espancador de mulheres? Quanto mais a verdade sobre Peter se desnudava, mais Draco pensava em Marieta Edgecombe. Na época, ele não havia entendido como aquela mulher aparecera em seu estábulo.


Mas agora, os fatos começavam a fazer sentido. E se Marieta estivesse fugindo da propriedade vizinha para se esconder ali?


— Por favor, fique mais um pouco — Hermione pediu. — Até eu adormecer.


— Está bem, eu fico — ele respondeu, acariciando-lhe os cabelos. De repente uma dúvida o assolou: — Qual é o papel de Gaunt em tudo isso?


— Peter deve muito dinheiro a ele por dívida de jogo. Ele me quer em troca.


— E seu irmão se propôs a negociá-la como se fosse um objeto?


Hermione permitiu que um silêncio eloqüente servisse de resposta. Sentia-se humilhada por revelar seus segredos e por não ter como reagir. Naquele instante, Draco lhe fez uma promessa velada: faria tudo o que estivesse ao seu alcance para tirá-la daquela casa. E o mais rápido possível. Finalmente a exaustão a dominou. Havia praticamente esgotado seu pranto. Permitiu-se fechar os olhos enquanto ele gentilmente afagava suas costas. Não precisaria existir o amanhã, se o mundo terminasse naquele momento, ela estaria feliz.


A madrugada já estava alta quando Draco levantou-se da cama de Hermione. Enquanto vestia a camisa, seu olhar estava fixo na silhueta feminina desenhada sobre os lençóis. O rosto perfeito era emoldurado por uma profusão de cachos castanhos. A boca rosada era um convite a beijos tórridos, ao início de uma busca por uma plenitude maior.


Difícil acreditar que passara a noite inteira ali, abraçado à dona de seus pensamentos, sem sequer tentar seduzi-la. Mas saber que conseguira com que ela relaxasse em seus braços já o compensava, ao menos por enquanto...


A uma certa hora da noite ouviu Peter chegar e teve vontade de enfrentá-lo. Porém com receio de não ter explicações convincentes para estar no quarto de Hermione àquela hora, preferiu dominar a ira. Pretendia agir com cautela, agora que sabia das verdadeiras intenções de Hermione ao abordá-lo naquela noite. Decidiu que visitaria a condessa de Grifinória e solicitaria sua ajuda para tirar Hermione daquela casa.


Já vestido, dirigiu-se à porta da sacada.


Depois de descer pela treliça e vencer a distância que separava as duas propriedades, Draco alcançou seu estábulo, quando notou algo estranho. Os cavalariços já estavam acordados e conversando.


Um deles, Colin, o viu antes de ele chegar ao estábulo. Os olhos do rapaz se arregalaram assustados, enquanto fazia sinais para que Draco se afastasse. Mesmo sem entender a razão ele se escondeu atrás de uma árvore. Em seguida dois homens saíram do estábulo. Eram os inspetores que o interrogaram na noite em que Marieta Edgecombe fora assassinada.


— Lá está ele! — gritou um deles ao vê-lo. — Não tente correr, lorde Wulf!


Por que correria? De longe já sentira o cheiro de sangue, antecipando pelo pior. Mantendo-se calmo, caminhou em direção aos homens da lei.


— Lorde Wulf — o inspetor o interpelou assim que se reuniu ao grupo. — O senhor está preso por assassinato!


Draco passou pelo grupo e entrou no estábulo. Ali no chão do mesmo jeito que encontrara Marieta havia outra mulher espancada e morta. A pintura do rosto, nos lábios e a maneira de se vestir mostravam claramente que também era uma prostituta.


— Lorde Wulf, existe alguma testemunha que possa nos dizer onde passou a noite?


Sim, ele tinha um álibi, mas jamais o revelaria.


— Não — respondeu seco.


— Então terá de nos acompanhar.


*    *    *


Hermion surpreendeu-se ao ver Peter ainda pela manhã. Era de costume sabê-lo dormindo durante a maior parte do dia, por conta das altas horas que costumava chegar em casa.


Estranhou ao notar que o irmão, contrariando o costume, estava de bom humor e muito contente.


— Tenho novidades sobre nosso vizinho — anunciou ele, passando manteiga em uma fatia de pão. — Parece que lorde Wulf foi preso hoje de manhã por assassinato. Encontraram outra mulher morta em seu estábulo.


Hermione o encarou por sobre a mesa com o garfo a meio caminho da boca.


— Duvido que desta vez alguém o ajude a livrar-se da culpa. Não há testemunhas de que o tenham visto a noite passada, eu inclusive. Nos depoimentos, os empregados dele disseram que, por volta da meia-noite, estava tudo normal, quando terminaram uma rodada de carteado antes de se recolher. Além disso, o responsável pela segurança se embebedou até cair e não ouviu nada.


— Ele não é culpado — Hermione murmurou.


— Como pode ter tanta certeza? — Peter perguntou, parando de mastigar. — Só porque ele é atraente? Ou por que você quer que seja verdade? — indagou, rindo alto antes de morder o pão. — Todos os desejos do mundo não salvarão o pescoço dele dessa vez, irmãzinha.


Hermione sentiu o estômago embrulhar. Outro assassinato. Outra mulher morta encontrada no estábulo de Draco. Tentou se lembrar do momento em que o sentiu levantar-se de sua cama. Não podia precisar, apenas sabia que já amanhecera, prova incontestável de que ele não era o assassino.


Draco continuava sendo interrogado por várias horas a fio. As perguntas repetiam-se, alterando-se apenas na forma e as respostas também eram iguais. Estivera sozinho durante toda a noite. Não, nada tinha a ver com a morte de outra mulher, encontrada em seu estábulo, mas não tinha testemunhas para depor a seu favor.


Uma leve batida na porta interrompeu o interrogatório. Antes mesmo que o visitante fosse convidado a entrar, Draco sentiu o perfume de lavanda já tão conhecido.


Que diabos Hermione estava fazendo ali?


Depois de trocadas algumas palavras, ela entrou na sala minutos depois.


— Essa dama tem informações sobre lorde Wulf — um dos inspetores comunicou ao outro. — Parece que ela sabe onde ele esteve na noite passada.


— Não faça isso, Hermione — Draco ordenou calmamente. Ela endireitou os ombros, ignorando-o.


— Quem é a senhorita? — o inspetor, que estava sentado, perguntou.


— Lady Hermione Granger, filha do falecido duque de Corvinal e vizinha de lorde Wulf.


— A senhorita por acaso viu algum movimento estranho de sua janela ontem à noite? — o inspetor perguntou, arqueando as sobrancelhas.


— Não — Hermione admitiu. — Não vi nada, mas sei onde lorde Wulf esteve.


— Hermione — Draco a advertiu novamente. — Pense bem no que está fazendo.


— Cale-se enquanto lady Hermione estiver falando — um dos homens interveio. — Caso contrário, seremos forçados a tirá-lo da sala até que a dama tenha saído.


— Mas ela está mentindo! — Draco estava quase gritando.


— Como pode saber se ainda não ouvimos o que ela tem a dizer? — foi o que um dos inspetores perguntou atônito.


— Sei o que ela vai dizer — Draco respondeu. — Espero estar errado — acrescentou, encarando Hermione, que fingia não vê-lo.


— Lady Hermione, se não o viu pela janela, ou de sua propriedade, como sabe onde lorde Wulf estava? — o inspetor reiniciou o interrogatório.


Ela observou a tensão de Draco com o canto dos olhos antes de prosseguir, mesmo assim não desistiu de ir em frente.


— Sei porque ele estava comigo — ela respondeu sem titubear. — Em meu quarto, na minha cama.


Draco teria adorado apreciar a expressão de espanto de todos na sala se não fosse pela seriedade da situação. Depois da confissão receou as conseqüências que recairiam sobre Hermione.


— A senhorita jura estar dizendo a verdade, lady Hermione? Admitir uma coisa dessas vai gerar comentários a seu respeito. Pessoas duvidarão do seu caráter. Pergunto mais uma vez: Tem certeza do que está me dizendo?


— Sim, eu estou ciente das conseqüências, inspetor. Mas não posso permitir que um homem inocente seja condenado por um crime que não cometeu. Tenho obrigação de dizer a verdade.


— Posso ter uma palavrinha a sós com ela? — Draco pediu.


Era preciso fazer com que Hermione retirasse a declaração. Ela precisava entender que se arruinasse sua reputação, nem mesmo a condessa de Grifinória poderia ajudá-la. Se assim fosse, teria que voltar a ficar à mercê de Peter e o sonho de liberdade jamais seria alcançado.


— Lorde Wulf, até agora não podemos inocentá-lo. Seria loucura demais de nossa parte deixar um assassino a sós com uma dama — um dos homens ressaltou.


— Mas eu sei que estarei perfeitamente segura — Hermione os interrompeu. — Lorde Wulf não é um assassino. Caso contrário, não permitiria sua presença em meu quarto por mais de uma vez.


— Então, são... amantes?


— Tudo indica que sim — ela respondeu sentindo o rosto arder em brasa.


Draco teve vontade de gritar para impedi-la de continuar falando. Aquela altura não sabia se era melhor morrer enforcado ou passar o resto da vida atrás das grades, que certamente eram opções melhores do que a atitude que se via obrigado a tomar. Mas Hermione o forçava a quebrar um juramento feito aos irmãos. Não restava outra saída.


— A senhorita faria um depoimento por escrito? — pressionou-a o inspetor.


— Sim, claro que sim.


O inspetor que estava sentado em silêncio até então, inflou as bochechas, soltando o ar ruidosamente. Em seguida, lançou um olhar gélido para Draco ao acrescentar:


— Estranho, lorde Wulf, mulheres aparecem mortas em sua propriedade e o senhor tem sempre um álibi que o permite se safar dos crimes.


— E se a culpa for de alguém que obviamente está querendo me incriminar? — Draco perguntou com uma calma apenas aparente. — Quando sair daqui, meu maior objetivo será descobrir quem é essa pessoa.


— Se for verdade, garanto que compartilhamos do mesmo desejo — o inspetor assegurou antes de dirigir-se a Hermione. — Mora sozinha, lady Peter? Preciso do seu depoimento por escrito, admitindo estar com lorde Wulf na hora do crime.


— Moro com minha madrasta e meu irmão — ela respondeu. — Peter Pettigrew.


— Pettigrew? — O inspetor estava providenciando papel e tinta. — Se não me engano houve uma morte em sua casa também. Embora sabemos que não foi crime, a mulher se enforcou, não foi?


— Sim, uma criada, Angelina. Peter a havia demitido e acredito ser essa a razão de seu suicídio. Aliás, foi por isso que lorde Wulf me procurou... para me confortar.


Os investigadores se entreolharam com risos maliciosos. Era evidente que todos imaginaram como ele a havia confortado.


— Seu irmão o deixou entrar pela porta da frente? — o interrogatório recomeçou.


Hermione negou com um sinal de cabeça.


— Não. Lorde Wulf escalou uma treliça que termina na varanda do meu quarto. Meu irmão não tem sequer noção dessas visitas.


— Sei. — O inspetor entregou papel, pena e tinteiro. — A senhorita sabe que o Sr. Pettigrew logo saberá do seu depoimento, não?


— Sim, Hermione, você tem consciência disso? — Draco acrescentou. — Ainda está em tempo de mudar de idéia.


Ela finalmente encarou Draco.


— Eu não poderia viver com a culpa de ver um inocente ir para a cadeia se soubesse como devolver sua liberdade. Entendo e agradeço que esteja sacrificando a vida para manter minha reputação, mas não vou voltar atrás na minha decisão.


— Bem, Hermione, se assinar esse papel, estará concordando em ser minha esposa — Draco sentenciou para surpresa de todos.


— Como? — ela perguntou, sentindo o sangue sumir do rosto.


— Eu seria incapaz de expô-la a esse ponto para depois deixá-la vivendo sob o mesmo teto de Peter — Draco justificou-se. — Pense muito bem antes de assinar porque estará se comprometendo comigo. Mas será um casamento sem amor. — Embora o olhar significativo de Hermione o tenha atingido profundamente, ele não vacilou em continuar: — Eu não a amo e provavelmente nunca amarei.


Hermione sentiu o corpo inteiro falhar e ouviu quando o inspetor praguejou contra Draco. Contudo chegou a duvidar que aquele homem que a confortara na noite anterior fosse o mesmo que estava ali sentado à sua frente, assumindo uma frieza incomum.


Por mais que doesse o fato de ele não ter amor por ela, admitia que estava recebendo o amparo e a ajuda que solicitara quando o conhecera. No entanto, por mais que a razão favorecesse Draco, ouvi-lo admitir que jamais a amaria era de uma crueldade ímpar. Ao mesmo tempo, sabia que estava fadada a um casamento por conveniência. Se não fosse esposa de Draco seria de Gaunt. Ao menos tinha certeza de que lorde Wulf jamais levantaria a mão para agredi-la, mas talvez para acariciar-lhe os cabelos ou aninhá-la em seus braços fortes.


Mesmo com todas as considerações favoráveis, sabia que a sociedade a evitaria no momento em que entrasse para a família Wulf. Contudo era melhor ser rejeitada, mas casada, do que ser aceita por todos e viver sob o mesmo teto de Peter ou Gaunt.


Hermione tentou controlar o tremor enquanto escrevia a declaração inocentando-o do assassinato. Quando terminou, deixou a pena sobre a mesa e respirou fundo, aprumando-se.


— Você está livre, lorde Wulf — concluiu o inspetor. — Mas saiba que o estaremos vigiando. Reze para não aparecer outra mulher assassinada em sua propriedade.


Draco levantou e encaminhou-se para a porta. Hermione o seguiu.


Quando saíram da delegacia, a carruagem de Draco os aguardava.


— Para onde vamos, agora? — ela questionou assim que entraram no coche.


— Vamos procurar o arcebispo de Hogwarts. Conseguirei uma licença especial e nos casaremos hoje.


— Hoje?


— Você acha que teremos tempo e permissão para publicar os proclamas e planejar uma festa?


— Claro que não.


Imaginar a reação de Peter quando soubesse que ela se casara sem seu consentimento a fez tremer de pavor.


— Você não precisa tomar uma atitude tão drástica, Draco — ela ponderou tão logo a carruagem se pôs em movimento. — Não quero forçá-lo a se casar. Vim ajudá-lo da mesma forma como fez comigo ontem à noite.


— Entenda Hermione, não pretendo ser cruel. Mas fiz um juramento com meus irmãos que nunca nos casaríamos. Existe uma forte razão para isso.


— Por causa da maldição?


— Isso mesmo.


— Talvez você e seus irmãos sejam poupados da insanidade que acometeu seus pais.


Draco a surpreendeu com uma sonora gargalhada. Era um riso cínico e sem humor, como se estivesse fazendo chacota da própria sorte.


— Dizem que a maldição que recaiu sobre os irmãos Wulf está ligada à loucura, mas a verdade é bem diferente.


— Então qual é? — Hermione perguntou confusa.


— Reze para nunca descobrir. — sentenciou ele, virando-se para a janela.


Já era noite alta quando Hermione acordou com a parada da carruagem em frente à casa de Draco.


O dia havia sido extenuante e tão logo iniciaram a jornada de volta, ela adormeceu profundamente. O casamento fora realizado em uma pequena paróquia a duas horas de viagem, tendo como testemunhas o ferreiro e seu filho.


Agora, em vez de desfrutar de momentos mágicos ao lado do homem amado, Hermione foi invadida por uma onda de medo e insegurança.


Mal se lembrava de ter dito "sim" durante a cerimônia que a unia para sempre a Hermione Wulf. Sim, havia se casado com um estranho, pois o conhecera havia apenas uma semana.


Draco ajudou-a a descer da carruagem e seguiram para a porta da frente, que foi imediatamente aberta pelo prestativo Severo Snape.


— Por favor, prepare o quarto ao lado do meu para lady... lady Wulf.


— Está certo, milorde — o mordomo respondeu sem demonstrar qualquer espanto pela novidade. — Coloquei à mesa uma refeição fria, na esperança que voltasse para casa ainda esta noite.


— Obrigado, Snape — Draco agradeceu e conduziu Hermione para dentro da mansão sombria.


A sala de jantar estava iluminada por um enorme candelabro, colocado ao centro da mesa longa com apenas um lugar arrumado à cabeceira. Draco dirigiu-a para uma poltrona ao lado da sua.


— Como sua presença não era esperada, vamos dividir o prato. Está com fome?


— Muita — ela respondeu, ansiosa por livrar-se do vazio no estômago.


A mesa era farta e Draco serviu-os com pedaços de presunto, galinha, grossos pedaços de queijo e pão. Em seguida, pegou a taça de vinho, provou a bebida e passou-a para que Hermione fizesse o mesmo. Por mais bizarro que pudesse parecer, compartilhavam de um jantar íntimo.


— Precisamos discutir alguns assuntos importantes — ele anunciou.


De fato havia muita coisa por definir, a primeira delas seria estabelecer quais os deveres de uma esposa em um casamento tão inusitado quanto aquele. Depois, certamente teriam que resolver como procederiam em relação a Peter e sua mãe. Em meio a tamanho tumulto, Hermione esquecera-se completamente de suas obrigações com a madrasta.


— Não quero que volte àquela casa sem a minha companhia.


— Está bem — Hermione concordou. — Não pretendo ficar sozinha com Peter. Nunca mais.


— Da mesma forma como se você quiser sair ou mesmo comparecer a algum evento social, eu a acompanharei. Se bem que, agora que estamos casados, tenho dúvidas de que será convidada para algum evento, infelizmente. Se quiser fazer compras, Snape ou eu mesmo a acompanharemos. Não pretendo mantê-la como prisioneira, mas quero protegê-la como prometi.


Draco assumiu um tom extremamente formal, embora sem perder o charme.


— E quanto a nós dois? Qual o tipo de relacionamento que teremos daqui para frente? — Hermione perguntou, corajosa.


A luz amarelada das velas refletiu-se nos olhos de Draco, quando ele a encarou.


— Está em dúvida se partilharemos o mesmo leito?


— Exatamente — ela respondeu, ignorando o sangue arder em suas faces.


— Não...


— Não? — Hermione insistiu, corando ao perceber a doce provocação. — Nunca?


— Prefiro deixar a seu critério. Apesar de ter direitos como marido, não vou exigi-los a menos que seja de sua vontade. O que não me impede de tentar infringir a regra...


— E filhos?


Mesmo antecipando a resposta, Hermione resolveu arriscar. Àquela altura já sabia ao menos que Draco trapacearia naquele jogo de sedução se preciso fosse.


— Nem pensar. — E assumindo um ar mais grave, continuou: — A maldição se perpetuará por todas as gerações.


— Não entendi o que disse.


Prendendo-a com o olhar, ele tomou um gole de vinho providencial antes de mudar de assunto.


— Você acha que Peter seria capaz de matar?


Hermione foi tomada de surpresa com a pergunta e terminou por engasgar com um pedaço de galinha.


— Você quer saber se o considero um assassino? — ela perguntou, aceitando o vinho que ele lhe oferecia.


— Acredito que ele tenha assassinado Marieta Edgecombe, ou a tenha ferido bastante. Acho que ele foi o responsável por plantar o corpo, encontrado em minha propriedade esta manhã, por vingança, ou para me afastar do seu caminho.


— Mas quais as razões que ele teria para praticar algo tão horrível assim?


Draco deu de ombros.


— Você é a razão de tudo. Na certa, Peter achou que você me pediria ajuda. Ou talvez por eu ser um alvo fácil no jogo que ele próprio criou.


Hermione ficou em silêncio, considerando que as suspeitas eram de fato verdadeiras. Peter era um homem cruel, violento, mas seria também um criminoso?


— Sei que ele perde a cabeça facilmente. Mesmo assim, não consigo crer que Peter seja capaz de matar uma mulher.


— Caso eu consiga provar que seu irmão é responsável pelos dois crimes, como você reagirá?


Era difícil prever uma reação diante de fatos tão sórdidos. Ela temia pela madrasta. Se bem que a duquesa de Corvinal não estava consciente o suficiente para perceber o que se passava à sua volta. Quem poderia se machucar seria ela própria.


— Como pretende provar que Peter é culpado? Aliás, quando vamos enfrentá-lo para comunicar nosso casamento? A essa altura ele já deve ter notado minha ausência.


— Vamos encontrá-lo logo pela manhã — Draco respondeu servindo-se de mais um pedaço de pão. — E quanto ao que farei para prová-lo culpado, vou segui-lo até pegá-lo em flagrante.


O medo que a atingira quando da chegada à mansão, voltou a lhe causar arrepios pelo corpo. Embora soubesse que em algum momento teria que enfrentar Peter, estava temerosa das reações de Draco e também ao perigo que se exporia se seguisse um criminoso.


— Acho que seguir Peter é muito perigoso — ponderou.


— Se ele for tão vil a ponto de matar uma mulher, não acredito que pensará duas vezes antes de enfrentar um homem.


— Estou ciente disso. Saiba que eu menos queria naquele momento era ser covarde — ele sentenciou, delineando a borda da taça com a ponta do dedo para depois chupá-lo.


— Vejo agora que estava sendo sensato, enquanto eu não... — ela respondeu, atenta aos movimentos daquela mão forte. Hermione entendeu que ele de fato não jogaria honestamente. O jogo da sedução estava apenas começando. Na verdade, começara desde a noite em que trocaram o primeiro olhar. Havia uma forte atração física entre eles, inútil negar a resposta dos corpos sedentos. Hermione ansiava por mais, merecia muito mais. Mas como fazê-lo entender seu desejo?


— Desculpe-me interromper, lorde Wulf, mas Blaise acaba de chegar.


Perplexa, ela desviou a atenção de Draco para Snape que acabara de entrar sem se fazer notar.


— Blaise? — Draco pareceu tão surpreso quanto Hermione. — O que ele está fazendo aqui?


— Tomei a liberdade de chamar seus irmãos quando soube que tinha sido preso.


— Está certo, mande-o entrar.


Draco tomou mais um gole de vinho, enquanto ela mantinha os olhos fixos na porta da sala. Não demorou muito e ouviu o ruído surdo de botas pesadas no assoalho de madeira e um homem imponente entrou na sala. Blaise não era tão alto quanto Draco, mas era mais musculoso, dono de um físico de camponês.


Impossível manter o olhar longe da figura tão atraente de Blaise. Este, por sua vez, mostrou-se menos refinado do que o irmão mais velho. No entanto, o que faltava em refinamento era perfeitamente compensado pela beleza selvagem. O rosto marcante era delineado por escuras suíças. O maxilar era tão protuberante que parecia ter sido esculpido em granito. Os cabelos eram mais escuros que os de Draco, mas entremeado por mechas claras que pareciam douradas à luz das velas. Blaise era capaz de tirar o fôlego de uma mulher com a simples força de sua presença.


— O que diabos aconteceu esta manhã e como... — Blaise parou de falar assim que notou a presença de uma mulher na sala.


— Essa é lady Hermione, minha esposa — Draco fez as devidas apresentações. — E esse é meu irmão Blaise.


— Esposa? Você está louco?                           


— Vamos conversar no escritório — Draco instruiu o irmão. — Estarei lá daqui a pouco.


— Mas antes responda por que se casou? — Blaise insistiu, ignorando a presença de Hermione. — Em nome de Deus, por que fez uma coisa dessas? Nós combinamos que...


— BLAISE — Draco o advertiu, subindo o tom de voz. — Cumprimente minha esposa e saia daqui.


A voz imperativa do irmão foi acatada e Blaise empertigou-se, dirigindo-se à cabeceira da mesa.


— Sra. Wulf... — Uma leve reverência terminou o cumprimento.


— Pode me chamar de Hermione — ela respondeu, sorrindo para o cunhado.


— Se assim o desejar... — Blaise murmurou com expressão grave no rosto.


— Meu irmão não é dos homens mais educados — Blaise apaziguou. — Talvez seja porque passa a maior parte do tempo no interior.


— Acho melhor eu me retirar — informou ela pressentindo que seu casamento não começara bem.


— Como quiser. Snape lhe mostrará o quarto — respondeu Draco, levantando-se para puxar a cadeira para que ela fizesse o mesmo.


Quando a distância entre eles se estreitou, ele a enlaçou pela cintura, puxando-a contra si. Hermione então reparou que os olhos dele assumiam novamente aquele brilho enigmático. Ou talvez fosse apenas o efeito da luz indireta.


— Boa noite, Hermione.


Aproximou-a ainda mais, e ela limitou-se a fechar os olhos e entreabrir a boca em um convite. Talvez tenha sido pelo vinho ou quem sabe estivesse embriagada pela proximidade dos corpos. Draco deixou que seus lábios brincassem com aquela boca ansiosa por alguns segundos, antes de tomá-la em um beijo ávido. Hermione permitiu que a língua explorasse sua boca enquanto as mãos dele deslizavam por suas costas, pressionando seus quadris contra as coxas musculosas.


O desejo se materializou através da protuberante masculinidade que pressionou seu ventre. Agora tinha certeza de sua habilidade em excitá-lo, encharcando-o pelas mais primárias emoções. A fantasia, ensaiada no copo de vinho, foi aos poucos sendo realizada quando as mãos do marido percorreram as curvas de seu corpo.


Não demorou muito para que ela subisse as mãos pelo torso forte e terminasse por emaranhar os fios da vasta cabeleira loira.


— Ainda me lembro do que senti a primeira vez que a toquei Draco sussurrou-lhe ao ouvido. — Não me esqueci do seu perfume, do seu gosto... desde então você é única em meus sonhos, Hermione.


Um calor já conhecido umedeceu suas partes íntimas latentes e se fez presente na recordação da boca quente beijando seus seios, mordicando os mamilos. Ah, como era difícil controlar a vontade de implorar para que aquelas carícias extasiantes se repetissem. Doce tortura à espera por sentir novamente os lábios dominando seus sentidos, deixando em chamas a alma desprotegida.


De repente foram despertados da hipnose que os transportara para um lugar distante pela voz grave de Snape que anunciava:


— Lorde Blaise está ficando impaciente, milorde. Pediu para que eu verificasse o porquê da sua demora. O quarto da senhora já está pronto.


Hermione agradeceu silenciosamente ao mordomo por tê-la resgatado do estado de torpor em que se encontrava. Como pôde deixar que a emoção suplantasse a razão? Momentos antes, concluíra que desejava muito mais do que prazeres sexuais, mas quem sabe, havia esquecido de avisar ao próprio corpo daquelas decisões. No entanto, resistir a Draco não era tarefa fácil. Ele exalava sedução, bastava estarem na mesma sala para que a química se estabelecesse e ela se esquecesse das juras que fizera anteriormente.


— Acho melhor subir com Snape — ela anunciou já se dirigindo para a porta. — Boa noite.


Rumando em direção à saída, mesmo não olhando para trás, sentiu um olhar penetrante devastando suas costas.


Quanto mais se afastava de Draco, mais fácil ficava recobrar a consciência. E foi subindo os degraus para o segundo piso, que sentiu dissipar o calor que a deixara lânguida momentos antes, permitindo que reassumisse a lucidez.


Snape abriu a porta de folha dupla, revelando um quarto enorme muito bem mobiliado, embora um tanto antiquado.


As chamas do fogareiro relutavam em acender pelas mãos do mordomo, fazendo-a passar as mãos pelos braços, na tentativa de se esquentar.


O mordomo fez uma mesura e deixou o quarto. Somente quando a porta bateu que Hermione entendeu o que tinha acontecido: estava casada. Casada com Draco Wulf, vivendo sob o mesmo teto.


— Vou perguntar mais uma vez, você está louco? — Draco serviu um cálice de brandy e estendeu-o para o irmão. Blaise estava sentado em uma poltrona de veludo em frente à mesa de mogno de Draco, que preferiu sentar-se ao lado do irmão.


— Bem, o boato é esse mesmo, não é? — Draco respondeu seco e apoiando os cotovelos nas pernas dobradas, afundou o rosto nas mãos. — As coisas não são assim tão simples. Hermione é nossa vizinha. Eu estive em seu quarto em duas ocasiões, a noite passada foi uma delas. Passamos a noite juntos, porém eu apenas a confortei. Quando cheguei em casa hoje cedo, havia dois inspetores à porta do estábulo me aguardando. Outra mulher foi assassinada e encontrada em nossa propriedade.


— Entendi, a vizinha é seu álibi?


— Exatamente, mas ela se apresentou sem que eu tivesse pedido. Arriscou-se arruinando a própria reputação sem que tivéssemos qualquer relação mais intensa... bem, ao menos não totalmente. Não me restou outra alternativa senão pedi-la em casamento.


— Você não perde a mania de bancar o cavalheiro, não é Draco? — Blaise quis saber em tom de ironia. — E por quê? Não fará diferença alguma perante a sociedade. Aqueles que um dia foram amigos dos nossos pais, hoje ficarão felizes em nos ver pelas costas.


Apesar da triste situação, Draco riu do jeito como o irmão descreveu.


— Além do mais, tenho fortes suspeitas de que o irmão de Hermione é o culpado pela morte de Marieta Edgecombe e pela outra, encontrada hoje cedo. Peter Pettigrew tem sido violento com Hermione, sem contar que queria forçá-la a se casar com um devasso. Ela precisa da minha proteção — ele continuou o relato, endireitando o corpo na cadeira.


— Você não pode assumir esse papel — Blaise concluiu, meneando a cabeça. — Aliás, nenhum de nós pode. Não temos sequer o direito de sermos os cavalheiros que aprendemos. Você já está apaixonado por ela. Não precisa esconder. Mas... quem irá protegê-la de você?


A pergunta feriu-o como uma adaga afiada. Por que imaginara que casando-se com ele, Hermione estaria mais segura do que ao lado de outro homem? Ele não se imporia a ela, mas se por acaso viesse a se apaixonar, podia também matá-la. Isso não podia acontecer. Nunca.


— Bem, agora é tarde — finalizou ele. — Não posso desfazer o que está feito. Serei o protetor de minha esposa, nem que para isso precise usar a fúria do lobo que existe em mim. Ao menos essa inverdade ao nosso respeito conseguirei provar.


Blaise levantou-se pensativo e dirigiu-se até o móvel das bebidas para servir-se de mais uma dose.


— Temos um outro problema. Théo sumiu.


Draco presumiu que o irmão mais novo estivesse mais interessado em visitar os bordéis londrinos do que procurar saber o que acontecera no estábulo da família naquela manhã.                                                          


— Desaparecido desde quando?


— Logo depois que você saiu. Pensei que ele havia decidido acompanhá-lo e estivesse por aqui. Snape me disse que não o vê desde que você voltou para casa.


— Eu também não o vi.


Theodore era uma das preocupações de Draco. O caçula dos irmãos Wulf era o responsável pela má reputação da família. Era um mulherengo vaidoso e amigo de um bom copo, desde que voltara do exterior oito meses atrás. Théo não tinha interesse algum nas propriedades da família. Aliás, em nada além de mulheres ou bebidas.


— Não quero preocupá-lo e não direi nada antes de ter provas. Mas acredito que alguma coisa aconteceu a ele enquanto esteve no exterior.


— Você acha que ele caiu de amores por alguém? — Draco sentiu o sangue congelar.


Blaise estreitou a distância que o separava do irmão.


— Ele tem passado muito tempo embrenhado pelos bosques atrás da nossa propriedade; principalmente nas noites de lua cheia.


De repente um pensamento obscuro ocorreu a Draco. Théo estivera na cidade quando haviam encontrado o corpo de Marieta. E agora, que outro corpo fora encontrado, ele também estava por perto, apesar de andar sumido. A suspeita causou-lhe arrepios. Talvez fossem apenas estranhas coincidências, daria ao irmão o benefício da dúvida.


— Precisamos encontrá-lo. Vamos iniciar a busca logo cedo —Draco concluiu.


Blaise assentiu com um sinal de cabeça, para em seguida olhar em direção ao estábulo.


— E o que vai fazer com sua esposa? Ela não estará esperando pelo marido na cama? Que tipo de casamento é esse, Draco?


— É um casamento de conveniência e nada mais.


— Ah, sei. — Blaise soltou uma sonora gargalhada. — Reparei que ela também é convenientemente bonita, certo?


— Melhor afastar qualquer olhar em direção a ela — Draco o repreendeu, com um tom sério de voz. — Hermione é problema meu. Pode deixar que eu me encarregue desse assunto.


— Não se esqueça do que aconteceu com nosso pai, quando um casamento do mesmo tipo transformou-se em algo mais sério, mesmo depois de anos convivendo com mamãe. Você foi testemunha de como todos nós... Quer ter o mesmo triste destino?


Draco se lembrava muito bem do que havia acontecido e claro que não deixaria que o mesmo acontecesse novamente.


— Assim que encontrarmos Théo, quero que vocês dois voltem para o interior. Deixe que eu mesmo enfrente meus conflitos.


— Talvez seja esse o conflito que poderá nos salvar a todos.


Draco não havia considerado que aquela poderia ser a chave deixada em poema pelo primeiro Wulf amaldiçoado. Ele não saíra à procura do inimigo, o caminho havia sido o inverso.


O banho estava delicioso. Sabendo que Hermione não levara nenhum de seus sabonetes perfumados, Snape lhe entregara uma barra com o perfume de Draco. Tinha um toque de sândalo que remetia à masculinidade do marido.


 Teria de se conformar com o que recebera, enquanto não pudesse buscar suas coisas na casa do irmão. Só em pensar na possibilidade de encontrar com Peter, sentiu um arrepio de medo percorrer seu corpo inteiro. De qualquer forma, não sentiria saudade dos vestidos que ganhara do irmão. Eram roupas compradas apenas para exibir seu corpo escultural e assim atrair um possível casamento lucrativo.


E por ironia do destino, percebeu que tinha atraído um casamento de conveniência de uma forma ou de outra.


Passara a primeira noite sozinha e havia acordado várias vezes com a nítida sensação de estar sendo observada, desnudada por um olhar misterioso. Embora tivesse certeza de que estava cochilando, a sensação de ter como companhia a sombra de um corpo másculo, com olhos azuis acinzentados brilhantes como brasa, fora muito real.


Mais uma vez sentiu a pele levantar em um doce arrepio, talvez pelas lembranças reais e imaginárias, ou mesmo porque a água do banho já estava fria.


Pondo de lado os pensamentos, alcançou a toalha que Snape havia providencialmente deixado ali. Ao sair da banheira, enrolada no tecido aveludado, a porta de ligação se abriu com um estrondo.


O olhar assustado deparou-se com o de Draco que sequer preocupou-se em desviar a atenção de seu corpo frágil e trêmulo.


— Desculpe se a interrompi — ele disse, estudando-lhe as pernas bem torneadas. — É melhor buscarmos suas coisas.


— Vamos sair agora? — ela perguntou esquecendo-se de sua nudez parcial.


— Eu disse a noite passada que seria a primeira coisa que faríamos hoje. Você precisa dos seus pertences.


— Fico pensando se não seria melhor vestir o mesmo vestido pelo resto da vida. Poderia dormir com as suas camisas...


Draco pegou a camisa que estava jogada sobre a cama, levou-a ao rosto e de olhos fechados sentiu o perfume que dali exalava. Em seguida, recolocou-a na cama.


— Sou um homem de bens, Hermione. Posso inclusive comprar um guarda-roupa novo, se essa for a sua vontade. Mas pensei que você quisesse pegar algumas coisas de uso particular.


— Quase nada restou que me seja realmente importante.


Lembrou-se quando meses atrás fora procurar um par de brincos de pérolas, que pertenceram à sua mãe, e descobriu que a caixa de jóias estava vazia. Não havia nada de muito valor, mas mesmo assim Peter penhorara tudo. Quando questionado, ele dera de ombros dizendo que precisava do dinheiro.


— Tenho uma escova de cabelos e um pente de prata que pertenceram à minha mãe. Gostaria de mantê-los comigo.


— Você dormiu bem?


Draco mudou de assunto tão repentinamente que a pegou de surpresa.


— Sim... — respondeu sem jeito. — Agora gostaria de me trocar, se você não se importar.


— Ora, fique à vontade — ele respondeu com um sorriso malicioso nos lábios.


— Bem, com você aqui vai ser impossível. Sei que sou sua esposa, mas espero que isso não signifique que perderei minha privacidade.


— Bem, não temos uma serva de quarto para você. Então, pensei que enquanto não arrumarmos alguém, eu poderia...


Imaginar Draco ajudando-a se vestir foi como imaginá-lo tocando sua pele.


— Obrigada, posso resolver o assunto sozinha — respondeu, virando-se para esconder o rosto corado.


Mesmo de costas para ele, sentiu o calor da respiração ofegante de encontro à pele nua do pescoço. Em um gesto sensual, Draco afastou uma mecha de cabelo que cobria um dos ombros desnudos e encaixou a boca na curva insinuante, cobrindo-a de beijos ardentes.  


— Você tem idéia do quanto é linda? Sua beleza beira a perfeição. Sabe o quanto a desejo, não?


Hermione lutou contra a vontade de se deixar apoiar naquele corpo viril. O timbre da voz de Draco era como uma carícia que a deixava enfeitiçada. No entanto, a razão sobrepujou o desejo, fazendo-a lembrar que queria mais do que prazer físico. O que desejava era uma comunhão de almas.


— Você disse que eu diria o momento exato para as carícias — ela relembrou apesar de sentir as pernas trêmulas. — Há muito tempo que não faço as minhas próprias escolhas. Além disso, quero muito mais do que você imagina me dar.


Pela reação de Draco, ela sentiu que suas palavras não o afetaram apenas fisicamente e sorriu com a pequena vitória.


— O prazer que podemos compartilhar pode ser um frágil substituto para o amor que deseja, mas é o máximo que poderemos ter. Eu avisei antes mesmo que fizéssemos nossas promessas diante da igreja.


A sinceridade poderia ser admirável em certos momentos, mas em outros tinha o poder de arrasar um coração. Foi o que sentiu Hermione ao ouvir aquelas palavras e prever um futuro sombrio para ambos.


— Presumo que então fizemos promessas falsas — concluiu, amarga. — Nada em nossa união é verdadeiro. Eu teria o mesmo destino se houvesse casado com Gaunt.


Ele surpreendeu-a ao encará-la no fundo dos olhos com a mais séria das expressões:


— Você realmente acredita no que está dizendo?


Uma onda de culpa a invadiu, pois sabia que nada poderia ser melhor do que estar ao lado de Draco.


— Não — admitiu. — Peço desculpas pelo que disse. Mas aconteceu tudo muito rápido. Preciso de tempo para me acostumar à nova realidade e saborear a idéia de tomar minhas próprias decisões novamente.


O que ela omitiu foi o fato de que havia muito tempo que não se sentia tão segura de si, mas ansiava por mais, queria ser amada. Sabia que tinha forças para enfrentar qualquer desventura, contanto que contasse com uma ligação afetiva muito forte.


— Então cabe a você decidir — Draco sentenciou, embora não estivesse satisfeito com a postura que ela acabara de tomar. E antes de sair do quarto, virou-se para acrescentar: — Encontre-me na sala de refeições quando estiver pronta. Vou pedir a Snape que prepare um generoso café da manhã.


Segurando a toalha com força, como se estivesse se protegendo, Hermione limitou-se apenas a assentir com a cabeça. Assim que ele saiu, deixou escapar um longo suspiro. A situação toda era muito estranha. Era como se houvesse pulado as fases da conquista, do noivado, para depois tornar-se a esposa de Draco. Agora portavam-se como pessoas educadas, dançando ao som de frases de cortesia e mesura.


Concluiu que era melhor ocupar-se dos percalços mais próximos. Lembrou-se da conversa que tiveram na noite anterior e o medo voltou a assombrá-la. E se Peter fosse mesmo um assassino? Apesar de tudo, não acreditava que seu irmão fosse capaz de tamanha atrocidade, mas àquela altura, já não tinha mais certeza de nada. Um homem que não tinha o menor respeito a ponto de bater em uma mulher, podia muito bem desprezá-la o suficiente para tirar-lhe a vida.


Pouco depois, já pronta, desceu as escadas e ouvindo o som de talheres batendo nos pratos, dirigiu-se para a sala de refeições. Draco e o irmão estavam à mesa, em silêncio.


Embora caminhasse sem fazer barulho, Draco levantou os olhos antes de ela entrar na sala.


— Venha, Hermione, sente-se ao meu lado — convidou, levantando-se, e, com um sinal de mão, instruiu o irmão para fazer o mesmo.


Não se preocupando em demonstrar o descontentamento, Blaise levantou e fez uma leve mesura cumprimentando-a.


— Bom dia, lorde Blaise — ela cumprimentou, enquanto Draco puxava a cadeira.


— Dia... — ele murmurou, voltando a se sentar e concentrar-se na comida.


Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente. Tudo fazia crer que conversar durante a refeição não era o forte dos irmãos Wulf. Contudo, Hermione achou importante tentar ser simpática com o cunhado, pelo bem de Draco. Mas, qual assunto que deveria abordar? Logo, lembrou-se de que ele gostava de ficar no campo, cuidando das propriedades da família.


— Fale um pouco sobre a propriedade Sonserina, lorde Blaise. Eu adorava morar nas terras do meu pai no campo. Fui muito feliz lá até precisar vir a Londres — interrompeu o que dizia ao lembrar que depois do casamento, Corvinal passaria para as mãos de Draco, porém o título de nobreza não faria parte do dote, que seria de seus filhos... mas por que se preocupar? Sabia que não teriam filhos.


— O lugar é lindo — Blaise admitiu, embora relutante. — A terra é muito boa, o pasto é ótimo para os cavalos, sem contar o espaço que eles têm para galopar.


— Eu amo cavalos — ela disse com os olhos brilhando. — Já me encantei com a égua árabe que vi no estábulo de Draco.


— Sim, ela é muito bonita. — Blaise largou o garfo. — Ela ainda não procriou. Draco acha que ela não tem estrutura para tanto e que serviria melhor como montaria de uma mulher.


— Ela é mesmo delicada e tem uma bela linhagem. Percebe-se que é um exemplar árabe, com as narinas largas e um arco de pescoço perfeito. Talvez se a cruzasse com um garanhão não muito maior do que ela, fosse possível gerar potros com a mesma linha, mas com uma estatura mais robusta.


— É exatamente isso que tenho sugerido ao meu irmão — Blaise vibrou e Hermione notou que o havia conquistado enfim. — Viu, até lady Wulf concorda comigo.


Draco pareceu confuso com a sintonia repentina entre os dois.


— Hermione gostou tanto da égua que eu já tinha decidido em presenteá-la com o animal — Draco informou. — Agora cabe a ela decidir se a égua deve procriar ou não.


— Um presente? — Hermione gostou da idéia. — Obrigada, Draco, mas não posso aceitar. É um animal muito caro.


— Claro que pode, afinal estamos casados. Não há nada de errado em um marido querer presentear a esposa.


Novamente, o silêncio se fez reinar e assim permaneceu até o final da refeição.


Snape e mais dois empregados entraram para tirar a mesa. Draco levantou-se e puxou a cadeira para que Hermione se levantasse.


— É hora de irmos buscar suas coisas.


— Você está armado? — ela perguntou, sentindo o estômago revirar com a antecipação do encontro. — Não tenho idéia do que Peter é capaz de fazer, temo que ele atire em você.


— Se quiser posso acompanhá-los — Blaise ofereceu. — Os Wulf sabem se proteger.


— Seria bom se estivesse na minha retaguarda — Draco concordou.


Os três seguiram para o hall de entrada. Quanto mais perto se aproximavam da saída, maior era a ansiedade de Hermione. Ao contrário de Draco, que não demonstrava nervosismo, mas sim determinação.


Snape abriu a porta e o sol entrou glorioso, iluminando a todos. Menos a Hermione que sentia-se nas trevas.


Mal haviam saído, quando uma carruagem parou à porta dela e saltaram Peter e Gaunt. Hermione viu o ódio estampado no rosto do irmão, quando este a viu ao lado de Draco e não hesitou em partir para cima dos dois.


— Solte minha irmã agora mesmo! — gritou. — Você não tem o direito de tirá-la de mim.


Draco sequer respondeu, apenas desferiu-lhe um soco do maxilar. Peter cambaleou e não teve tempo de se equilibrar, quando outro soco o atingiu em cheio de novo.


— Eu deveria matá-lo — Draco vociferou. — E farei isso mesmo se ousar tocá-la novamente.


— Wulf — Gaunt tentou intervir.


— O que disse, visconde? — Blaise perguntou em tom ameaçador postando-se ao lado do irmão.


O rosto gordo de Gaunt ficou vermelho e ele retrocedeu alguns passos.


— Covarde! — Peter zombou.


— Ele é tão grande quanto uma árvore, Pettigrew, você que o enfrente. — Gaunt apressou-se em voltar para dentro da carruagem, fechando a porta.


Enraivecido pela covardia do companheiro, Peter enfiou a mão dentro do casaco e sacou uma arma. Hermione quase gritou de pavor.


De repente, ela ouviu o som de uma outra arma sendo engatilhada. Virou-se e viu Snape apontando um revolver para seu irmão.


— Presumo que não seja bem-vindo aqui, senhor — disse, fazendo uso de sua linguagem formal, agravada pela expressão séria.


Peter baixou a arma, mas seus olhos frios faiscavam de raiva ao encarar a irmã:


— Você estragou tudo. Uniu-se a um assassino. Ele vai matar de novo, tenho certeza. E a próxima vítima poderá ser você, irmãzinha.


— Não dirija a palavra à minha esposa novamente — Draco ameaçou. — Não sou criminoso, mas a tentação de fazer minha primeira vítima é enorme. Não me provoque, Pettigrew.


O desafio estava lançado. peter seguiu em direção à carruagem de Gaunt e entrou sem dizer mais nada. Depois do comando do visconde, partiram em disparada.


Hermione respirou aliviada. O primeiro confronto já havia passado. Notou que a carruagem não seguiu para a propriedade vizinha, o que significava que ela poderia ir até lá e pegar suas coisas.


— Ele já foi — ela disse, vendo que Draco ainda estava parado vendo a carruagem se afastar.


— Por enquanto — ele concordou, sem desviar o olhar da estrada. — Mas não acho que isso tenha terminado. Você me odiará se eu der um fim à vida dele.


— Espero que não chegue a tanto. Quem sabe você não o tenha assustado para sempre?


— Não acredito que ele se amedronte tão facilmente. Nunca baixe a guarda quando ele estiver por perto... talvez seja melhor ficar com um pé atrás em relação a mim também — ele acrescentou, encarando-a.


Hermione estremeceu ao conhecer um outro lado de Draco. Um lado perigoso, de raiva contida, que não notara antes. Era quase palpável o desejo de matar peter e terminar o assunto de uma vez por todas.


— É aquela casa? — Blaise perguntou, apontando para a propriedade vizinha.


— Sim — Hermione respondeu. — É melhor irmos agora enquanto ele não está.


Draco virou-se para Snape e ordenou:


— Mande um coche até lá para buscar os pertences de lady Wulf. — Virando-se para Hermione, acrescentou: — Venha.


Ela concordou com um aceno de cabeça.


— Vou também — Blaise avisou. — Acho que vocês precisam de alguém para vigiar a porta.


E os três partiram com Hermione preocupada em acompanhar as largas passadas de Draco. O perigo estava evidente em cada traço do rosto marcante e, para sua surpresa, ela notou o quanto aquilo a estimulava.


Foi com enorme satisfação que viu Peter apanhar. Durante meses havia sofrido a violência calada, sem poder revidar. Mas agora tinha alguém para protegê-la. E, querendo estar ligada àquele homem pelo mais simples dos gestos, ela tomou as mãos grandes nas suas.


Draco sorriu, deixando transparecer que sua raiva fora amenizada. Durante todo o trajeto não trocaram olhares, mas, ao se aproximarem do destino, ele apertou a mão delicada como se quisesse ter certeza da sua vontade de entrar naquela casa novamente.


Com a ajuda de Papoula, Hermione embalou seus pertences, deixando de lado os vestidos que Peter a presenteara. Depois pediu que o cocheiro subisse para carregar os baús. Graças à ganância de seu irmão, saía de casa com pouquíssima coisa.


— Preciso falar com minha madrasta antes de partir — ela comunicou a Draco e seguiu para os aposentos do terceiro andar da casa.


Infelizmente a duquesa não apresentava nenhum sinal de melhora. Hermione curvou-se e tomou as mãos frias da madrasta e sussurrou-lhe ao ouvido:


— Eu me casei. Não moro mais aqui, mas prometo vir visitá-la sempre que puder.


Não houve resposta. Hermione levantou suspirando e dirigiu-se a Papoula:


— Preciso de um favor.


A criada estava parada em um canto, enxugando as lágrimas com um lencinho de linho.


— Lamento tanto por tudo isso. A senhora forçou esse casamento com esse homem misterioso. Não ouso imaginar o que pode acontecer, milady.


— Estou bem — Hermione procurou tranqüilizá-la. — Mas preciso continuar visitando a duquesa.


— Milady pede que eu vá até aquela casa sombria?


— Pensei em outra coisa para não sujeitá-la a isso. Quando Peter não estiver em casa, estenda um lençol na varanda do quarto que eu costumava ocupar. Se ele perguntar, diga simplesmente que está colocando as roupas de cama para arejar.


— Acho que vai funcionar — Papoula concordou. — Acredito que a duquesa sabe que está aqui, mesmo que não expresse. Acho que sua presença a conforta.


Hermione colocou a mão carinhosamente sobre o ombro da madrasta.


— Espero que ela saiba o quanto a amo — disse com os olhos marejados. — Peter vem visitá-la, Papoula?


— É muito raro. A única coisa que faz é preparar o chá que ela costuma tomar diariamente.


— Só Deus sabe quanto sacrifício ela fez por ele, a começar pelo casamento com meu pai. Espero que meu irmão reconheça essa devoção de sua mãe.


— Se permite dizer, o Sr. Pettigrew não se preocupa com mais ninguém a não ser com ele mesmo. Presumo que saiba disso, não?


Hermione não precisou responder. Papoula sabia o quanto Peter a maltratava. Tudo o que se passava sob o teto da família os empregados ficavam sabendo. De repente se lembrou das suspeitas de Draco quanto à ligação de Peter no assassinato de Marieta Edgecombe.


— Papoula, alguma vez Peter trouxe mulheres para cá?


— Ele costumava receber algumas — confessou a criada. — Mas isso foi antes de a senhora vir para cá. Ele me pedia para passar a noite fora quando ia receber seus amigos.


— Quando exatamente a duquesa começou a mostrar sintomas da doença?


— Ah, já faz tempo. — Papoula franziu o cenho, tentando lembrar. — Ela começou a ficar estranha de uma hora para outra. Ficava nervosa e chateada por qualquer coisa. Nessa época, os dois brigavam muito. Acho que ela não gostava dos amigos e das festas.


— Hermione, sua bagagem já está na carruagem — gritou Draco do andar de baixo.


— Já estou descendo — anunciou e abaixando-se para beijar a testa da madrasta, murmurou: — Não a abandonarei jamais. Virei vê-la sempre que puder. Se fosse possível, eu a levaria para morar comigo — sentenciou, olhando em volta do quarto sombrio e frio.


 E ao puxar a mão para sair, teve a nítida sensação de que a duquesa apertou seus dedos levemente. Mesmo que tivesse sido só impressão, ao menos era um alento de que um dia a veria com saúde de novo.


— É melhor a senhora ir antes que o Sr. Pettigrew chegue — Papoula advertiu.


Hermione abraçou a governanta antes de sair. Draco a aguardava no pé da escada. Ao vê-lo a sua espera, soube que sua vida, a partir daquele momento, teria outro sentido e que valeria a pena. No entanto, não sabia se conseguiria conviver com o pouco sentimento que o marido estava disposto a oferecer. Gostaria muito de acreditar que o seu casamento fosse diferente dos tantos que aconteciam diariamente em Londres. Ao contrário das outras esposas que dividiam o leito matrimonial apenas por obrigação, Draco havia deixado ela escolher se o queria em sua cama ou não. Mas demandaria muito manter a opção feita, sabendo que o homem que tanto desejava estava ali ao lado, separados por apenas uma porta destrancada.


Ao deixá-la de volta em casa, Draco sabia que Hermione passaria o restante do dia desfazendo os baús. Então, instruiu Snape para não perdê-la de vista enquanto ele e Blaise saíam à procura de Théo.


— Por onde devemos começar? — Blaise perguntou ao montar em seu cavalo.


— Achei que soubesse — Draco comentou secamente.


— Quero saber por qual bordel deveremos começar.


— Sabemos que a preferência de Théo era pelo Queenie's, fora dos limites da cidade. Vamos até lá — Draco respondeu, enquanto selava o alazão castanho.


Os dois homens deixaram o estábulo, e Draco procurou não olhar para o lugar onde haviam recentemente achado uma mulher morta. Apesar de não a ter conhecido, olhar para aquele corpo lívido o deixara transtornado, com um desejo de vingança tanto por ela quanto por ele próprio. Talvez a primeira mulher que fora encontrada naquele mesmo lugar, tivesse ido para lá por achar que encontraria em sua propriedade um refúgio de um provável criminoso. Contudo, daquela vez havia sido diferente. Era certo que alguém plantara o corpo ali para incriminá-lo, aproveitando o precedente. Acreditava que Peter tinha motivos de sobra para fazer tamanha maldade. Mas por que ele fora tão descuidado em cometer um segundo crime, logo após o corpo da criada ter aparecido em sua própria casa?


— Sua mulher parece ser boa pessoa — Blaise comentou de repente. — Em outras circunstâncias eu a teria olhado com outros olhos.


— E eu a amaria se pudesse — Draco retrucou na mesma hora.


— Já o irmão não merece consideração nenhuma. Aliás, ficaria melhor com uma bala bem no meio da testa.


Blaise estava com um semblante sério. Sempre fora briguento.


Seguiram em silêncio até o centro de Londres.


— Estamos causando espanto — Blaise observou ao notar que as pessoas procuravam se esconder ao vê-los passando pela rua principal. — Mas afinal o que esperam de nós? Que deixemos à mostra as patas e os caninos afiados para persegui-los?


Draco observou as pessoas desviarem do caminho, pararem de fazer suas atividades para espreitá-los. Em meio a todos, viu uma jovem com quem Hermione conversara durante o baile dos Delacour, lady Gina. Ela e a irmã os encararam para em seguida levarem um cutucão severo da mãe preocupada. Claro, eles não mereciam sequer os olhares das mulheres de bem. 


— Quem era?


— Como? — Draco  fingiu não entender.


— A linda ruiva de olhos azuis que acabamos de passar.


— Acredito que seja uma amiga de Hermione. Eu as vi conversando quando cheguei a um dos últimos bailes da temporada.


Blaise ficou surpreso.


— Meu Deus! Não me diga que você anda freqüentando as rodas sociais. O que aconteceu? Você sabe que quanto mais reservados formos, melhor será para vivermos em paz.


— Eu andava muito sozinho. Não me diga que não sente o mesmo, Blaise.


— Não — respondeu seco. — Não me deixo abater pela solidão. Além do mais, não me envolvo com mulheres, mesmo porque não as deixo se aproximar. Você deveria ter seguido meu exemplo.


Draco sentiu-se aliviado por saírem dos limites da cidade. Logo chegariam ao Queenie's. Assim a discussão estaria encerrada. A última coisa de que precisava naquele momento era levar sermões de Blaise.


A própria Queenie atendeu a porta quando Draco e Blaise chegaram. A senhora já tinha certa idade, apesar da tentativa de disfarçar com uma maquiagem pesada.


— Voltem à noite. As meninas ainda estão dormindo.                 


A mulher estava prestes a fechar a porta quando Draco a impediu, colocando a bota entre a porta.


— Estamos procurando nosso irmão.


— Não os tenho visto aqui há muito tempo — ela respondeu, ajeitando os cabelos vermelhos. — Mas Theodore está lá em cima.


— Gostaríamos de vê-lo, é possível?


— Entrem, mas não façam barulho. Estão todos dormindo.


Draco e Blaise seguiram a senhora por um hall todo decorado com peças douradas, em forte contraste com a mobília de veludo vermelho.


— Bem, vocês conhecem o caminho. — Ela indicou a escadaria. — Batam na primeira porta à esquerda. Fiquem à vontade para sair depois — instruiu, amarrou o roupão em volta da cintura e seguiu para o quarto.


— Pode deixar que eu subo sozinho — Draco disse a Blaise. — Não vejo necessidade de os dois invadirem o quarto de supetão. Espere por mim aqui.


— Não demore — Blaise assentiu.


Draco subiu as escadas e bateu de leve na porta indicada. O ruído do ronco dava para ser ouvido do lado de fora. Ele entrou no quarto totalmente às escuras, e viu o irmão jogado na cama. Dada a situação, chegava a ser irônico encontrá-lo tão inocente e desprotegido. Havia uma mulher nua a seu lado. Ao aproximar-se um pouco mais, notou que havia outras duas mulheres enroscadas em Theodore, ressonando também.


— Théo, acorde!


De repente o irmão se mexeu languidamente e levantou para encarar Draco com os olhos nublados.


— O que está fazendo aqui?


— Eu poderia perguntar o mesmo, apesar de ser óbvio, não?—indagou, apontando as mulheres ainda adormecidas. — Já sei de onde vem a nossa fama...


Théo abriu um sorriso encantador que lhe conferia um ar de menino inocente.


— Ora, onde está o pecado em se gostar de mulheres?


— Talvez o pecado seja em estar com três mulheres na cama ao mesmo tempo. Mas, ande, vista-se. Precisamos conversar.


— Como sabia que eu estava aqui? — Théo perguntou, levantando-se cuidadosamente para não acordar as mulheres.


— Blaise está nos esperando lá embaixo. Snape o chamou a Londres para discutirmos um assunto importante. Quando Blaise chegou e não o encontrou, presumimos que estaria aqui, ou em algum outro lugar similar.


— Eu estava entediado — Théo disse ao espreguiçar-se demoradamente. — Queria me despedir de todas as mulheres e bebidas antes de partir.


— Bem, vista-se e nos encontre lá embaixo — Draco disse e deixou o quarto.


Théo demorou mais do que o esperado para descer.


— Já não era sem tempo — Blaise resmungou. — Já estávamos cansados de ficar aqui esperando.


— O dever estava me chamando — Théo respondeu só para irritar o irmão.


— Vamos embora — Draco ordenou, antes que a briga se prolongasse.


Théo passou o caminho de volta reclamando de dor de cabeça.   


Snape apressou-se em abrir a porta antes mesmo que eles terminassem de subir as escadas da frente.


— Lady Hermione está bem? — Draco perguntou.


— Acredito que esteja cochilando. Até agora está tudo em paz, lorde Wulf.


— Posso saber quem é lady Hermione? — Théo postou-se ao lado do mordomo.


— Vamos até o escritório — Draco ordenou.


— Vou arrumar um banho para o senhor imediatamente, lorde Theodore — Snape sugeriu com cara de desgosto pelo cheiro do rapaz.


Quando estavam os três reunidos no escritório, Draco trancou a porta e sentou-se na poltrona de costume. Théo seguiu direto para o armário de bebidas.


— Será que agora posso saber quem é lady Hermione e o que ela está fazendo nesta casa?


— É minha esposa — Draco sentenciou.


— Como assim? — perguntou o irmão mais novo, deixando o copo de bebida cair no chão.


Theodore ficou petrificado, encarando o irmão com os olhos arregalados. E antes que ele explodisse em perguntas, Draco começou a contar a mesma história que havia dito a Blaise na noite anterior. Não omitiu dizer também a respeito de Peter Pettigrew e sobre as suspeitas que mantinha.


Théo tomou outro copo e serviu-se de outra bebida.


— E pensar que sou eu que tem fama de se meter em encrencas. Santo Deus, Draco, até mesmo eu, que sou o mais avoado de todos, consigo manter o acordo que temos de não nos casarmos. Você não ama essa mulher, não é? Por acaso já está sentindo os efeitos da maldição?


— Não — Draco garantiu. — Mas ela não me deixou outra alternativa. Pretendo protegê-la, dar meu nome e nada além disso.


Por alguns instantes Théo ficou perdido em pensamentos, enquanto observava a bebida. Depois virou tudo em um gole só.


— Espero sinceramente, para o seu bem, que você resista a qualquer sentimento em relação a essa mulher. Acredito que seja responsável o suficiente para não cair na maldição e ficar à mercê das fases da lua.


Como Théo levantou o assunto, Draco sentiu-se confiante para perguntar:


— E quanto a você, meu irmão? Blaise anda preocupado com seu comportamento desde que chegou de viagem. Aconteceu alguma coisa em Paris?


Théo estreitou os olhos em direção a Blaise antes de responder.


— Não aconteceu nada fora do normal; jogos, mulheres e caça, não necessariamente nessa ordem.


— Conheceu alguém em especial?


— Quer saber se me apaixonei? — Théo perguntou, levantando uma das sobrancelhas. — Eu me apaixono toda noite. Não se preocupe comigo, Draco. Aliás, não fui eu quem casou — ele completou com um sorriso irônico. — Quando terei a honra de conhecer a noiva? Eu gostaria de tirar uma soneca. Talvez seja melhor eu subir, deitar com ela e já me apresentar — concluiu zombeteiro. Em vez de responder, Draco limitou-se a lançar um olhar ameaçador ao irmão, que faria tremer um desconhecido. Théo, no entanto, apenas deu de ombros.


— Já percebi que o casamento lhe tirou o bom humor. Espero que seja só isso que você tenha perdido.


— O que vamos fazer em relação ao canalha do irmão da sua esposa? — Blaise, que estava em silêncio até então, pronunciou-se. — Acho que deveríamos acabar com essa ameaça ainda esta noite.


— Preciso ir também? — Théo perguntou com ar de desdém. — Meu forte não é brigar, só amar. Mas se vocês fizerem questão da minha presença, posso dar um jeito.


— O seu problema é esse, você perde muito tempo preocupando-se com coisas sem importância — Blaise disse. — Melhor deixar que eu e Draco cuidemos disso.


Naquele momento, Draco tomou uma decisão, talvez não a mais sábia, mas a melhor como chefe da família.


—Este é um assunto meu e pretendo cuidar sozinho. Quero que os dois voltem para o campo amanhã e fiquem longe do perigo.


Os dois irmãos estavam prontos para protestar quando ele levantou a mão, pedindo silêncio:


— Tenho um pressentimento de que os assassinatos não vão parar. E enquanto eu não capturar o criminoso, sou um suspeito. Se vocês estiverem em Londres estarão na mesma posição.


— Não precisa se preocupar comigo — Théo defendeu-se. — Ao contrário do que pensam, sou muito responsável quando a hora se faz necessária.


— Blaise, se você não se importa, gostaria de conversar a sós com Théo.


A princípio Blaise não gostou da idéia, mas acabou concordando e saiu da sala. Draco indicou uma cadeira para que Théo se sentasse em frente a ele.


— Qual é o sermão agora? Ando bebendo muito? Presumo que seja verdade, mas e daí? Não tenho muitos planos para o futuro. Então, você vai me dizer que só ando com vadias. Costumo me prevenir para não pegar nenhuma doença ou mesmo para que alguma delas seja fertilizada por uma semente amaldiçoada minha. Então, está vendo? Posso ser perfeitamente responsável pelas coisas.


Por um breve momento, Draco teve vontade de acariciar a cabeça do irmão. Theó ainda era muito pequeno quando a maldição havia lhes tomado o pai. Pouco depois perderam a mãe como resultado da maldição.


— Preciso fazer uma pergunta séria — Draco sentenciou. Mesmo não acreditando que o irmão tivesse alguma coisa a ver com os assassinatos, ele precisava ter certeza. — Quero saber se você tem alguma coisa a ver com esses crimes.


— Você acha que eu matei essas mulheres?


— Bem, você estava aqui quando aconteceu a primeira morte e agora também. Blaise também está preocupado por causa de suas atitudes. Se acho que você matou essas mulheres? Não, não da forma como eu o conheço e amo. — Draco não conseguiu verbalizar seu maior temor. — Se por alguma razão de força maior você não estiver falando a verdade...


— Entendi onde você quer chegar. Um bêbado mulherengo tem o perfil de assassino, não é? — Théo vociferou e levantou-se. Naquele momento, o semblante juvenil de garoto rebelde foi substituído pelo de um homem irado. — Quer saber o que acho dessas acusações? Vá para o inferno, Draco. E leve Blaise com você.


— Theodore! — Draco gritou quando o irmão saiu da sala batendo a porta.


Decididamente aquela não tinha sido a melhor maneira de abordar o irmão. Ele tinha todo o direito de estar furioso, pois merecia a confiança ao menos daqueles com quem convivera desde criança. Quando a porta do escritório se abriu novamente foi para que Snape entrasse:


— Pelo que pude perceber, lorde Theodore não vai ficar para o banho que eu estava por preparar. Ele acaba de deixar a casa.


— Pode deixar que eu tomo no lugar dele — Draco disse, pensando que mais tarde pediria a Blaise que fosse atrás de Théo. Com sorte, o caçula teria voltado para o campo. Com os dois irmãos fora do caminho, seria mais fácil concentrar-se nos problemas. Como Hermione, por exemplo, e os problemas que o casamento trouxera para dentro de sua casa.


Hermione estava dormindo quando Draco foi vê-la. Ela havia trocado de vestido, os cabelos castanhos caíam como um rio de chocolate sobre os lençóis. Os cílios escuros contrastavam com a pele clara do rosto. Ali estava o retrato perfeito da incoerente mistura da inocência com a tentação.


Os lábios entreabertos sussurraram-lhe o nome em um convite silencioso. A vontade de beijá-la tomou-o por completo. Sem mencionar que seus dedos tiveram vontade de desabotoar os minúsculos botões que desciam do pescoço até abaixo dos seios. Ele estava quase sucumbindo ao desejo de deitar ao lado da mulher e passar o resto da tarde, e se possível, o resto dos dias fazendo amor.


E antes que a volúpia ganhasse a batalha contra a razão, Draco virou-se e seguiu para seu quarto.


Conforme prometido, Snape havia deixado o banho preparado à sua espera. Sentir a água quente envolvendo toda a tensão serviu apenas como afago diante da vontade que tinha de possui Hermione, e embriagar-se na doce temperatura entre aquelas pernas bem torneadas. Desde a manhã quando tinha vislumbrado as coxas por baixo da toalha, não conseguia pensar em outra visão mais enternecedora, tanto que a imagem tomou conta de seus pensamentos durante o dia todo.


Qual seria a sensação de ter aquelas pernas envolvendo seu quadril? Impossível não imaginar como seria dominá-la e em seus braços esquecer-se de todos os tremores que o afligiam.


De onde estava, foi possível ouvir Blaise sair atrás de Théo, que esperava, tivesse rumado para o campo.


Agora a casa seria só dele... bem quase.


Terminado o banho, ele espiou pela porta e viu que Hermione ainda dormia profundamente. Uma forte vontade de abraçá-la para protegê-la o invadiu. Naquele momento prometeu que nunca mais permitiria que qualquer homem a maltratasse.


Contudo era irônico imaginar que ela corria muito mais perigo a seu lado do que ao lado do irmão cruel. Não, aquilo não aconteceria de novo. Havia se tornado mestre no autocontrole. Ele podia impedir o amor de se apoderar do coração, garantindo que o que sentiam um pelo outro não passasse de uma forte atração física.


Mesmo sabendo que travaria um eterno conflito entre a razão e os sentimentos verdadeiros, deveria seguir daquela forma. Caso contrário, não conseguiria protegê-la das conseqüências de atos impensados.


Hermione não estava dormindo. Com os olhos ligeiramente abertos, ela observava Draco por entre os cílios. Viu quando ele tirou a camisa e a caminho do quarto ao lado, desabotoou as calças e livrou-se das botas. Jamais havia visto um homem tão perfeito quanto aquele. Era bem verdade que sua experiência em ver homens seminus não era vasta, mas algo lhe dizia que o que tinha diante dos olhos era de fato um homem único.


Quando o vira pela primeira vez, lembrou-se de tê-lo comparado a um gato selvagem: elegante e poderoso. Desde então observava os músculos bem delineados sobre o tecido fino da camisa, sempre que se encontravam, fazendo um contraste maravilhoso com a pele levemente bronzeada.


Lembrou-se também dos inúmeros suspiros de encantamento sempre que se imaginava ao lado dele. E agora, pensar que o sonho tornara-se realidade, transformando aquele deus grego em seu marido...


Mas, ao ficar mais desperta, recordou-se que Draco não lhe pertencia e para que continuasse senhora de sua razão, era melhor convencer-se do doloroso fato. Ele fora muito claro ao estabelecer que manteriam apenas contato cordial, nada de dividir emoções. Entretanto, a emoção foi a responsável por mantê-la de olhos bem abertos quando ele finalmente livrou-se das calças, deixando à mostra as pernas delineadas pelas sombras dos pêlos. Ao imaginá-lo correndo, com o sol iluminando ainda mais o corpo exuberante, ela precisou respirar fundo para conter o desejo que tomava conta do seu corpo inteiro.


Enquanto permitia-se explorar com o olhar atento cada centímetro do corpo de Draco, ele se virou exibindo as costas largas. Desejou tocar cada linha daquela musculatura, até tocar as nádegas igualmente firmes.


Ainda estudava os detalhes, quando ele virou-se de frente novamente, revelando toda a sua protuberante masculinidade. Hermione imaginou-se gemendo alto.


— Está gostando do que seus olhos vêem?


De súbito ela o encarou e percebeu que ele sabia estar sendo observado. Hermione sentiu o sangue subir-lhe às faces. Naquele instante todo o seu corpo reagia por ter sido flagrada em pleno deslumbramento. Os bicos dos seios estavam visíveis sob a fina camisola.


— Não — murmurou, envergonhada.


Não? Como dissera o oposto do que estava sentindo? Queria gritar que sim, que estava em pleno êxtase, observando o corpo perfeito e que dificilmente conseguiria desviar o olhar.


— Se for a sua vontade, posso continuar aqui parado, enquanto você me devora com os olhos. Mas terá que estar preparada para a transformação que esse seu olhar pode causar em mim.


Sabia ao que ele se referia, mesmo assim, continuou encarando-o e estranhamente achando natural que assim o fizesse.


— Eu nunca vi um homem sem roupas antes.


— E nem verá outro que não seja eu — Draco confessou sua possessividade, mas retraiu-se no momento seguinte. — Bem, se você já terminou sua expedição, vou entrar no banho antes que a água fique gelada. A não ser que deseje mais alguma coisa.


Tinha plena consciência do que desejava, porém limitou-se a dizer:


— Não, já terminei, obrigada.


Hermione virou-se e pregou os olhos no teto, pensativa. Mal podia acreditar que acabara de agradecer ao marido pela exibição. Sentiu-se a mais tola das mulheres. De onde estava podia ouvi-lo banhar-se. Oras, por que ele não fechara a porta?


Imaginando que ele fizera com o propósito de chamar a atenção, resolveu levantar. Diante do espelho, arrumou o cabelo e percebeu que dali também podia vê-lo na banheira.


Foi então que pensamentos libidinosos invadiram sua mente de novo. Gotas de água desciam formando pequenos riachos nas linhas entre os músculos das costas. A pele brilhava com a umidade e o vapor subia pesado ao redor do corpo viril, fazendo-a tremer de desejo por compartilhar daquele banho. Draco estava com as pernas dobradas, deixando à mostra parte das coxas.


E pensar que estivera naquela mesma banheira...


— Já que você não consegue tirar os olhos de mim, que tal se ensaboasse minhas costas? — Draco surpreendeu-a com a pergunta.


Ora, como ele sabia que ainda o estava observando?


— Como? Eu não estava olhando, estou ajeitando minhas coisas na cômoda.


— Posso ver o que está fazendo.


Curiosa, Hermione entrou no quarto ao lado e notou que havia outro espelho, posicionado convenientemente para que ele pudesse vê-la também.


Desta vez optou por não se mostrar envergonhada e corajosamente aproximou-se da banheira.


— Onde está o sabão?


Draco não se virou, apenas estendeu a barra, aquela mesma que rescendia o perfume tão característico dele.


Hermione começou a deslizar as mãos pelas costas largas, sentindo um extremo prazer em tocá-lo.


— Qual é a sua maior curiosidade em relação ao meu corpo, Hermione?


O tom grave de voz afagou o coração inseguro, derrubando algumas reservas, mas ela ainda estava presa para poder expressar-se livremente.


— Não estou curiosa — mentiu, enquanto ensaboava os ombros.


— Mentirosa — ele acusou em um sussurro. — É natural que tenha vontade de explorar o desconhecido. Fique à vontade...


Hermione sorriu. Não, não cairia naquele truque.


— Se eu aceitar o convite estarei permitindo que faça o mesmo comigo, não é?


— Não farei nada que não seja de sua vontade. Já disse que a escolha é sua, o que não interfere na sua exploração.


Hermione respirou fundo, queria muito acreditar no que acabara de ouvir, assim poderia continuar a conhecer cada centímetro daquele corpo adorado.


— Não está certo.


— E por que não? Somos casados — Draco respondeu dando de ombros. — Nada do que fizermos entre essas quatro paredes está errado.


Por um breve momento, ela esqueceu-se de que eram marido e mulher. Àquela altura os preceitos morais não se aplicavam mais a eles. No entanto, não eram as barreiras estabelecidas que a impediam e sim as que seu coração erguera.


— Acho que não seria justo — ela arriscou. — Não estou pronta para consumar nosso casamento dessa forma. Tocá-lo pelo simples prazer de brincar ou...


— Provocar — ele completou. — Você não está pronta para os jogos do amor.


— Como assim?


Draco riu maliciosamente, deixando-a mais intrigada ainda.


— Sente-se em frente a mim que vou lhe mostrar.


Hermione duvidou que sua ousadia chegaria a tanto.


— Jura que posso fazer o que quiser e que você não exigirá nada em troca?


— Impossível. Quero fazer amor com você agora. Mas, sim, juro que refrearei meu desejo até que esteja pronta. Tenho um impressionante autocontrole, caso contrário, eu já a teria possuído naquela noite do baile de Greenley.


A lembrança de como o desejara e não fora correspondida doeu como um tapa em seu rosto delicado. No entanto, naquela noite só tinha em mente fugir de Peter e de certa forma ele havia lhe estendido a mão. Mas ajudou-a a fugir de um cárcere para outro, o de um casamento sem amor.


Além do mais, irritava-a profundamente aquela presunção de autocontrole. Era como uma ofensa, já que ela própria não continha o desejo e a paixão que a consumia.


Ao menos agora podia fazer exatamente o que tinha vontade. Por isso, levantou-se e postou-se na frente dele. Os olhares se encontraram e no mesmo instante estabeleceu-se o vínculo intenso. Pelo brilho dos olhos claros, ela percebeu que a atitude de enfrentá-lo o surpreendeu.


Com vagar, ela sentou-se na beirada da banheira e deixou as mãos curiosas ensaboarem o tórax ofegante. Aos poucos, ela permitiu que a ponta de seus dedos massageassem os mamilos dele, e com um suspiro de prazer, percebeu-o reagir ao seu toque. Os músculos do peito contraíram, evidenciando a trilha de pêlos loiros que cortava a pele bronzeada, insinuando-se para a virilha.


Hermione sucumbiu à força de seus devaneios e seguiu com mãos provocantes a trilha até onde os pêlos se tornavam mais espessos. Nesse instante o brilho do olhar de Draco ficou mais intenso, evidenciando seu desejo mais íntimo.


Ela mergulhou a mão na água, ainda titubeante sem saber se teria coragem o suficiente para tocá-lo mais intimamente. Mas a proximidade e a vontade de saber como seria a misteriosa textura que denotava o peso da masculinidade, fez com que ela se despisse de pudores e deslizasse a mão pelo membro rígido.


Fechou os olhos, deliciando-se com a pele aveludada. Percorreu a extensão toda, detendo-se na ponta macia. Draco gemeu arqueando o corpo, sem perder o contato visual.


— Estou machucando? — ela perguntou inocente, ao perceber a tensão no maxilar dele, os dentes cerrados já não expressavam mais o sorriso maroto que se divertia com sua curiosidade.


— Você me leva à loucura. Perco a razão com a sua presença... 


Aos poucos a distância que os separava foi se estreitando até que as respirações se mesclaram em um mesmo ritmo. Sem resistir à boca feminina tão próxima, Draco puxou-a pelo pescoço e tomou-lhe os lábios com paixão. O perfume do sabão cedeu lugar à essência dos corpos combinados, o desejo transcendia-se voluptuosamente.


As línguas se tocavam, enroscavam-se numa mistura de sabores. Hermione estava tão envolvida que não percebeu quando ele desabotoou os botões da camisola, puxando-a até a cintura. Só percebeu-se invadida quando mãos fortes tomaram-lhe os seios, acariciando primeiro a pele com insinuantes movimentos circulares até deter-se nos mamilos, beliscando-os delicadamente até deixá-los rijos.


A essa altura a boca quente já deixava um caminho de beijos rápidos em seu pescoço. Com a urgência dos amantes, ela arqueou o corpo, oferecendo-se, ficando nua e pronta para sentir o prazer que ele estava disposto a proporcionar.


— Adorável... — Draco disse enquanto mergulhava alternadamente em um seio e outro, sugando os mamilos.


De repente ele alcançou a mão delicada, impedindo-a de continuar o movimento alucinante que vinha fazendo em seu membro.


— O que está fazendo comigo? — perguntou, afastando-se para encará-la.


— Não entendi... — ela respondeu confusa.


— Você já aprendeu o suficiente para abalar minhas estruturas. É melhor parar agora.


O que ele queria dizer com aquilo? E por que parar quando seus seios ainda doloridos aguardavam para serem ainda mais acariciados? Doce a ilusão de achar que por estar no controle da situação, conseguiria frear as próprias emoções. Hermione percebeu que caíra na própria armadilha da sedução. Mal sabia que ao tocá-lo, sentiria também o próprio corpo ansiar por ser explorado.


Assustada, tirou as mãos da água, suspendeu a camisola, abotoando-a rapidamente:


— Desculpe-me — ela sussurrou e saiu correndo para o outro quarto.


 


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Obrigada pelas mensagens e até a próxima atualização na terça-feira...


Bjos.

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Comentários: 2

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Enviado por Diênifer Santos Granger em 10/06/2014

Amei!!!

Nota: 5

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Enviado por RiemiSam em 19/01/2014

Adorei o cavelheirismo dele só lamento que ele se engane pensando que ocasamento será de fachada porque desde o início ele é atraído por ela. Corajosa a Herms!

Nota: 1

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