Gina despertou sabendo que não estava sozinha no quarto minúsculo onde dormiu. Sua nuca arrepiou-se e cuidadosamente abriu um olho para ver Harry Potter de pé na entrada. A luz do sol entrava pela janela, penetrando pelas frestas das cortinas. A luz de alguma maneira o fez mais ameaçador como se estivesse envolto pela escuridão. Na luz, ela podia ver o quanto ele era grande. Era um retrato ameaçador, emoldurado pela porta onde estava.
— Perdoe-me a intrusão. - Harry disse em uma voz áspera. — Estava tentando localizar meu filho.
Foi então que seguiu o olhar dele e viu alguém ao lado dela. Tyler deve ter vindo para sua cama durante a noite. Estava firmemente aconchegado ao seu lado, as cobertas apertadas contra seu pescoço.
— Sinto muito. Eu não sabia… - ela começou.
— Ele também se enfiou na minha cama ontem à noite, estou certo que você não percebeu. - ele secamente disse. – Aparentemente, veio para cá durante a noite. Gina começou a se mover, mas Harry levantou uma mão. — Não, não o desperte. Você precisa descansar. Pedirei a Gertie um desjejum para você.
— Obrigada.
Gina olhou fixamente para ele, insegura do que fazer com sua generosidade súbita. Ontem ele tem sido tão feroz, sua carranca tinha sido suficiente assustar um guerreiro feroz. Depois de um pequeno aceno com a cabeça, Harry saiu do quarto e fechou a porta atrás dele.
Gina franziu o cenho. Não acreditava em tal mudança. Então olhou para o menino dormindo próximo a ela. Suavemente, tocou em seus cabelos, maravilhada com os cachos que emolduravam seu rosto. Com o tempo, ficaria como o de seu pai. Talvez o laird tenha se acalmado ao ver seu filho seguro. Talvez estivesse grato e arrependido por sua grosseria.
A esperança tomou seu peito. Ele poderia estar mais receptivo e ajudá-la com transporte e alimentos. Não tinha nenhuma ideia para onde fugir, mas sabendo que Draco Malfoy parecia ser inimigo jurado de Harry Potter, não era uma boa idéia permanecer lá.
A tristeza tomou conta de seu coração e ela abraçou Tyler. A abadia, que foi sua casa por tanto tempo, e a presença confortante das irmãs, não estavam mais disponíveis para ela. Estava sem uma casa e um porto seguro.
Fechando seus olhos, sussurrou uma fervorosa oração por misericórdia e proteção de Deus. Seguramente, Ele a ajudaria na necessidade. Quando acordou, Tyler havia desaparecido de sua cama. Ela esticou e dobrou seus dedos do pé, e imediatamente estremeceu quando a dor serpenteou por seu corpo. Nem um banho quente e uma cama confortável a libertaram de seu desconforto. Ainda assim, podia se mover consideravelmente melhor que na véspera e estava certamente bem o suficiente para montar sozinha um cavalo. Jogando de lado as mantas, ela colocou seus pés no chão de pedra e encolheu-se com o frio. Levantou-se e foi para a janela abrir as cortinas e permitir que a luz do sol entrasse. Os raios deslizaram sobre ela como âmbar líquido. Fechou seus olhos e virou seu rosto para o sol, ávida por calor. Era um dia bonito como só um dia de primavera nas Highlands podia ser. Olhou ao longo das encostas, desfrutando do conforto de ver uma casa pela primeira vez que em muitos anos. Neamh Álainn. Um dia, olharia seu legado – o legado de seu filho. A única parte de seu pai que ela teve.
Apertou as mãos.
— Eu não falharei. - sussurrou.
Sem querer desperdiçar mais tempo naquele quarto, cobriu-se com o vestido simples que uma das mulheres deixou para ela. O decote era bordado com flores, e no meio, em verde e ouro, estava o que ela presumiu ser o brasão dos Potters. Contente por estar vestindo algo diferente que as cores de Draco Malfoy, apressou-se em direção à porta. Quando se aproximou do andar inferior, hesitou, sentindo-se de repente insegura. Gina foi salva de fazer uma entrada desajeitada no salão quando uma das mulheres Potter a viu. A mulher sorriu e se apressou a saudá-la.
— Boa tarde. Está se sentindo melhor hoje? Gina estremeceu.
— É tarde? Não quis dormir o dia inteiro.
— Você precisava descansar. Meu nome é Christina, a propósito. Qual é o seu ?
Gina corou, sentindo-se de repente uma tola. Perguntou-se se devia inventar um nome, mas odiou a idéia de ter que mentir.
— Não posso dizer. – ela murmurou.
Christina arqueou as sobrancelhas rapidamente, mas para sua sorte, não perguntou mais nada. Então, colocou seu braço no de Gina.
— Pois bem, Senhora. Vou levá-la à cozinha antes que Gertie dê sua refeição aos cães.
Sentindo-se aliviada porque Christina não a pressionou, deixou que a menina a levasse para a cozinha, onde uma mulher mais velha estava acendendo o fogo do fogão. Gina esperava encontrar uma mulher corpulenta, por isso não teve certeza de quem era. As mulheres encarregadas das cozinhas não deviam ser robustas?
Gertie era muito magra, seus cabelos grisalhos estavam presos com um laço apertado na nuca. Fios escapavam por todos os lados sobre seu rosto, dando a mulher um ar selvagem. Ela olhou demoradamente para Gina, desconfiada.
— Já era tempo de se levantar, moça. Ninguém aqui fica deitado por tanto tempo, a menos que esteja morrendo. Não acho que você não esteja morrendo,porque está aqui na minha frente sã e forte. Não faça disso um hábito, pois não vou guardar sua comida novamente.
Surpresa, o primeiro instinto de Gina foi rir, mas não queria ofender a mulher. Em vez disso, dobrou as mãos solenemente na frente da mulher e prometeu que nunca mais faria isso novamente. Uma promessa que cumpriria, pois não planejava passar outra noite no castelo.
— Sente-se, então. Há um banquinho no canto. Você pode tomar sua refeição lá. Não há nenhum sentindo em arrumar a mesa da sala apenas para uma pessoa. Gina humildemente obedeceu e logo ocupou a vasilha com comida. Gertie e Christina observavam enquanto comia e Gina podia ouvi-las sussurrando quando achavam que não estava olhando. — Não vai dizer seu nome, moça? – Gertie exclamou com voz alta.
Ela voltou-se em direção a Gina e articulou um hmmph.
— Quando as pessoas não dizem seu nome, é porque tem algo a esconder. Quem você é, moça? Não pense que nosso laird não descobrirá. Ele é muito correto para aceitar tal absurdo vindo de uma mulher como você.
— Então discutirei esse assunto com seu laird, e apenas com ele. – Gina disse com firmeza. Gertie revirou os olhos e retomou seu trabalho no fogo. — Você pode me levar até ele? – Gina perguntou a Christina enquanto se levantava do banquinho. – Preciso falar-lhe, imediatamente.
— É claro, senhora. – Christina respondeu com sua voz doce. – Eu tenho ordens de levá-la até ele assim que terminasse de comer.
Gina sentia náuseas, a comida se revirava em seu estômago, como cerveja azeda.
— Você está nervosa? – Christina perguntou enquanto desciam os degraus da torre. — Fique calma. O laird parece ser rude e pode ser severo quando contrariado, mas é justo e imparcial com nosso clã.
Mas Gina não era parte do clã Potter o que significava que as políticas sobre o justo e imparcial não se aplicavam a ela. Mas protegeu seu filho e estava claro que ele amava seu filho. Gina pensava nisso a medida em que chegava ao pátio.
Arregalou os olhos ao ver tantos homens treinando. O choque de espadas e escudos quase a ensurdeceu. A luz do sol refletia no metal e a fez piscar. Tentou focar seus olhos longe dos reflexos que dançavam no ar. Quando percebeu o que estava vendo, ofegou. Sua mão escorregou para seu peito e a visão ficou confusa. De repente, percebeu que parou de respirar. Inspirou profundamente, mas isso não a ajudou.
O laird estava lutando com outro soldado usando apenas suas botas e suas calças. Seu tórax nu cintilava com o brilho de suor e um filete de sangue deslizava por seu corpo. Oh, céus de misericórdia. Ela assistia fascinada, incapaz de desviar o olhar, não importando que fosse um pecado cobiçá-lo daquela forma. O laird tinha ombros largos. Seu enorme peito ostentava várias cicatrizes. Um homem não chegava à sua idade sem adquirir cicatrizes de batalha. Eram as marcas de honra de um highlander. Um homem sem elas era considerado fraco, sem coragem.
Os cabelos estavam grudados em suas costas e suas tranças balançavam quando girava para atacar o oponente. Seus músculos eram rígidos e flexionavam-se enquanto ele balançava a pesada espada no ar. Seu oponente protegia-se com o escudo, mas não era capaz de escapar dos golpes.
O homem mais jovem foi desarmado, sua espada caindo com um estrondo no chão. Ele teve presença de espírito para proteger-se com o escudo e ficar ali parado, ofegante. O laird franziu a testa, mas estendeu a mão para ajudar o soldado mais novo.
— Você durou mais tempo desta vez, Heath, mas ainda está permitindo que suas emoções o controlem. Se não aprender, será um alvo fácil nas batalhas.
Heath fez uma careta como se não apreciasse muito a crítica do laird. Ignorou a mão estendida e se pôs de pé, com o rosto vermelho de raiva.
Foi então que o laird olhou para cima e viu Gina com Christina. Seus olhos se estreitaram e ela sentiu o peso daquele olhar.
Ele fez um sinal para que Rony jogasse a túnica. Vestiu-a às pressas, puxando-a sobre o peito nu e fez um sinal para Gina se aproximar.
Sentindo-se estranhamente desapontada por ele ter vestido a túnica, ela se aproximou arrastando os pés no chão. Que bobagem. Era uma mulher adulta e agia como uma criança na frente daquele homem.
— Venha caminhar comigo, moça. Temos muito a discutir.
Ela engoliu em seco e deu uma olhada para Christina, que fez uma reverência na frente do laird e saiu pelo mesmo caminho que vieram.
— Venha. –ele disse novamente, num lampejo de sorriso. – Não irei mordê-la.
O rasgo de humor a pegou de surpresa e ela sorriu, completamente inconsciente de seu efeito sobre os homens que viam tal cena.
— Muito bem, laird. Já que me convidou, eu assumo o risco de acompanhá-lo.
Saíram do pátio e tomaram um caminho pela encosta que dava para o lago. Lá em cima, o laird parou e olhou para as águas.
— Meu filho diz que tenho muito que lhe agradecer.
Gina cruzou as mãos na frente e juntou um pouco do tecido do vestido entre os dedos.
— Ele é um bom menino. Ajudou-me tanto quanto eu o ajudei.
O laird assentiu.
— Foi o que ele me disse. E trouxe você para mim.
Gina não gostou da maneira como ele disse isso. Havia muita posse em sua voz.
—Laird, devo partir hoje. Se não puder me arrumar um cavalo, eu entendo. Seguirei a pé, embora gostaria de receber uma escolta até a fronteira.
Harry voltou-se para ela com uma sobrancelha erguida.
— A pé? Você não deve fazer isso, moça. Seria seqüestrada por alguém assim que saísse de minhas terras. Ela franziu o cenho.
— Não, se eu me cuidar.
— Com o mesmo cuidado que teve quando foi seqüestrada pelos homens de Draco Malfoy? O calor subiu pelo rosto de Gina.
— Isso foi diferente. Eu não estava esperando...
Faíscas divertidas brilharam nos olhos dele.
—Alguém espera ser raptado?
— Sim. – ela sussurrou.
— Diga-me uma coisa, moça. Você parece acreditar nas promessas feitas. Aposto como espera que as pessoas sejam fieis à sua palavra?
— Oh, sim. – ela disse, com fervor.
— E assim fez meu filho prometer, não é mesmo? Ela olhou para baixo.
— Sim, eu fiz.
— E espera que ele cumpra a promessa, não é? Gina se contorceu desconfortavelmente, mas acenou com a cabeça cheia de culpa.
— Como vê, Tyler também me fez prometer algo.
— O que? – ela perguntou.
— Proteger você.
— Oh... Ela não soube o que dizer. De alguma maneira acabou caindo em uma armadilha. Sabia disso. — Eu diria que é difícil proteger uma mulher se ela sair correndo por todas as Highlands, você não acha? Gina fez uma careta, infeliz com o rumo que a conversa estava tomando. — Eu posso libertá-lo de sua promessa. – ela declarou. Ele balançou a cabeça, com um sorriso erguendo-se nos cantos de sua boca. Chocada, ela olhou paralisada como o gesto mudou suas feições.
Harry era muito bonito. Realmente belo. E parecia ser mais jovem, não tão endurecido. Por ter visto as cicatrizes, ela sabia que era tudo, menos suave. Não, ele era um guerreiro. Não havia como dizer quantos homens matou em batalha. Ora, ele provavelmente poderia tirar o pescoço de alguém com uma mão. Talvez o dela.
— Só Tyler pode me libertar desta promessa, moça. Como tenho certeza de que ele lhe disse, um Potter sempre mantém sua palavra.
Melancolicamente, lembrou-se de Tyler dizendo exatamente isso. Também se lembrou da promessa que fez a ela, que seu pai iria protegê-la.
— Você está dizendo que não posso partir? – ela sussurrou.
Harry pareceu considerar sua pergunta por um momento, sem nunca afastar o olhar dela.
— Seu soubesse que tem um lugar seguro para ir, é claro que permitirei que parta. Para sua família, talvez?
Ela não ia mentir e dizer que não tinha família. Então permaneceu em silêncio.
— Diga-me seu nome, moça. Diga-me por que Malfoy quis tanto se casar com você. Prometi a Tyler protegê-la, e quero, mas não posso fazê-lo, a menos que tenha todos os fatos.
Oh, Deus, ele ficaria furioso de novo quando ela se recusasse a obedecer a sua ordem. Esteve a ponto de estrangulá-la no dia anterior. A noite de sono não aplacou sua ira, não importando o quão paciente ele parecia estar naquele momento. Em vez de desafiá-lo como fez no dia anterior, ela permaneceu muda, apertando as mãos na sua frente.
— Veja, logo eu descobrirei. Seria melhor se você simplesmente dissesse o que quero saber agora. Não gosto de ficar esperando. Não sou um homem paciente. Principalmente quando sou desafiado por aqueles que estão sob meu comando.
—Não estou sob seu comando. – ela deixou escapar antes que pudesse pensar melhor.
— Desde o momento em que entrou em minhas terras você está sob meu comando. E prometi ao meu filho colocá-la sob minha proteção. Você me obedecerá.
Gina ergueu o queixo, olhando direto para aqueles penetrantes olhos verdes.
— Sobrevivi nas mãos de Draco Malfoy. Sobreviverei a você. Não pode me fazer dizer qualquer coisa. Bata em mim se quiser, mas eu não direi nada a você.
A indignação faiscou nos olhos de Harry e sua boca se abriu.
— Acha que eu bateria em você? Acha que eu a trataria da mesma maneira que Malfoy?
A fúria em sua voz a fez dar um passo para trás. Gina o ofendeu e a raiva tomava conta do laird. Ele quase rosnou sua resposta para ela.
— Não tive a intenção de insultá-lo. Nem sei o tipo de homem você é. Mal o conheço e tem que admitir que nossos encontros não são nada amigáveis.
O laird voltou-se, sua mão passando por seus cabelos. Gina não saberia dizer se ele estava frustrado ou se segurando para não apertar os dedos no pescoço dela. Quando ele se virou, seus olhos brilhavam com um propósito. Harry avançou, se aproximando dela. Gina rapidamente deu um passo para trás, mas ele pairou sobre ela cheio de indignação.
— Nunca, nunca tratei homem ou mulher da maneira como Malfoy a tratou. Os cães são tratados com mais consideração. Nunca cometa o engano de comparar-me com ele.
— S-sim, laird.
Ele levantou a mão e tudo o que ela poderia fazer era não vacilar. Como estava impassível, não demonstrou medo de que ele batesse nela. Em vez disso, Harry tocou um fio de seu cabelo que caia pelo rosto.
— Ninguém vai machucá-la aqui. Confie em mim.
— Não pode obrigar ninguém a confiar em você.
— Sim, posso. E você terá até amanhã para decidir se confia suficientemente em mim para dizer o
quero saber. Sou o laird e você me obedecerá como todos aqui me obedecem. Estamos entendidos?
— Isso... Isso é ridículo. – ela disse, esquecendo seu medo de irritá-lo ainda mais. – Essa é a coisa mais absurda que já ouvi.
Gina virou-lhe as costas, dizendo sem palavras o que achava de suas ordens. Quando ela se afastou,não pôde ver o sorriso divertido que se desenhou no rosto de Harry.