Assim que cruzaram a fronteira das terras Potter, um grito ecoou através das colinas e à distância, Gina ouviu o grito ser retransmitido. Logo o laird saberia do retorno de seu filho. Ela torceu as rédeas nervosamente em seus dedos enquanto Tyler quase pulava na sela em seu entusiasmo.
— Se continuar puxando as rédeas, moça, você e o cavalo acabarão voltando para onde vieram.
Ela olhou culpada para Rony Potter, que andava à sua direita. Sua advertência havia saído como uma provocação, mas na verdade o homem dava-lhe medo. Ele parecia selvagem com seus cabelos negros longos e despenteados e as tranças penduradas em cada lado de suas têmporas. Quando ela acordou em seus braços, quase jogou os dois para fora da sela, com pressa de fugir. Ele colocou Gina e Tyler no chão, até que a coisa toda pudesse ser resolvida.
Ele não ficou contente com sua teimosia, mas Gina ficou feliz por ter Tyler solidamente ao seu lado, não quebrando a promessa de não dizer a ninguém o seu nome. Ambos ficaram mudos quando Rony exigiu respostas.
Oh, ele vociferou e acenou com seus braços. Até ameaçou sufocar a ambos. No final, murmurou blasfêmias contra mulheres e crianças antes de retomar sua jornada para levar Tyler para casa.
Rony insistiu então que ela montasse com ele pelo menos outro dia, porque seria um pecado abusar de um cavalo com Gina naquelas condições.
A viagem que normalmente duraria dois dias, levou três, graças à consideração de Rony pelo estado dela, parando freqüentemente. Ela soube que era por consideração porque ele disse a ela. Várias vezes.
Após o primeiro dia, Gina estava determinada a andar sem a ajuda de Rony, pelo menos para tirar a presunção do rosto dele. Obviamente não tinha paciência com as mulheres, e ela suspeitou, que com exceção de seu sobrinho, também não tinha paciência com crianças.
Ainda assim, considerando o fato de que ele não sabia nada sobre ela, a não ser que protegeu Tyler, a tratou muito bem, e seus homens foram educados e respeitosos.
Agora que se aproximavam da fortaleza de Laird Potter, o medo voou em sua garganta. Não seria capaz de manter-se muda. O laird exigiria respostas e ela seria obrigada a dá-las. Gina se debruçou até sussurrar perto da orelha de Tyler.
— Você se lembra da promessa que fez, Tyler?
— Sim. – ele sussurrou de volta. – Não direi a ninguém seu nome.
Ela movimentou a cabeça, sentindo-se culpada por pedir tal coisa a uma criança, mas se fingisse ser alguém sem importância, apenas alguém que salvou o menino e ajudou a trazê-lo em segurança para casa, talvez o laird ficasse grato o suficiente para lhe fornecer um cavalo e algum alimento para partir.
— Nem mesmo ao seu pai? – ela insistiu. Tyler solenemente levantou a cabeça e assentiu.
— Só direi que você me salvou. Ela apertou seu braço com sua mão livre.
— Obrigada. Não poderia ter melhor protetor. Tyler voltou-se para ela com um sorriso largo, cheio de orgulho.
— O que vocês estão sussurrando? – Rony perguntou irritado.
Gina olhou para o guerreiro, estreitando os olhos.
— Se quisessemos que você soubesse, teriamos falado mais alto. – disse calmamente.
Ele se afastou murmurando algo que ela tinha certeza de ser mais blasfêmias sobre mulheres irritantes.
— O padre deve ficar cansado em ouvir suas confissões. – ela disse.
Rony arqueou uma sobrancelha.
— Quem disse que confesso alguma coisa? Ela balançou a cabeça.
O arrogante homem provavelmente pensava que o caminho para o céu já estava assegurado e que para agir de acordo com a vontade de Deus bastava respirar.
— Olhe, lá está ele! – Tyler gritou enquanto apontava ansiosamente para frente.
Subiram a colina e olharam para o castelo de pedra aninhado na lateral da próxima colina.
A muralha estava desmoronada em diversos lugares e havia alguns homens trabalhando sem parar, substituindo as pedras. Ela pode ver que as paredes externas pareciam enegrecidas por um incêndio antigo. O lago espalhava-se à direita do castelo, a água brilhando ao sol. Um dos braços serpenteava em torno da frente da torre, proporcionando uma barreira natural para o portão da frente. A ponte sobre ele, no entanto, estava partida ao meio. Um caminho temporário foi adaptado ao lado, que permitia passar um cavalo de cada vez. Apesar do óbvio estado de abandono, a terra era bonita. Espalhadas por todo o vale à esquerda da torre, ovelhas pastavam, conduzidas por um homem mais velho ladeado por dois cachorros. Ocasionalmente, um dos cães corria para longe, trazendo o rebanho de volta para a fronteira imaginária. Então, retornava ao seu mestre e recebia um tapinha de aprovação na cabeça.
— O que aconteceu aqui? – perguntou a Rony.
Mas ele não respondeu. Uma profunda carranca tomou seu rosto e seus olhos escureceram. Gina apertou as rédeas e estremeceu sob a intensidade de seu ódio. Sim, ódio. Não poderia haver outro termo para o que viu nos olhos de Rony.
Gina esporeou seu cavalo e ela automaticamente o seguiu. Cavalgaram colina abaixo com seus homens acompanhando protetoramente ao lado deles. Tyler estava tão inquieto na sela que ela teve que segurá-lo para não cair. Quando chegaram ao caminho improvisado, Gina parou para atendê-la.
— Irei primeiro. Você vem logo atrás de mim. Ela assentiu. De qualquer maneira, não queria ser a primeira a entrar no castelo. De certa forma, foi mais assustador chegar ali do que no castelo de Malfoy. Pelo menos, nas mãos de Malfoy, ela tinha certeza de qual era seu destino.
Assim que atravessaram, um grande grito ecoou e Gina levou um tempo para perceber que foi Rony quem o emitiu. Olhou para vê-lo ainda montado, com o punho erguido no ar. Todos ao redor dela, soldados – e havia centenas – ergueram suas espadas para alto e começaram a gritar, levantando e abaixando suas lâminas em celebração. Um homem entrou no pátio correndo, seus cabelos esvoaçando com os largos passos que dava.
— Papai! – Tyler gritou e desceu da sela antes que ela pudesse impedi-lo.
Ele tocou o chão correndo e Gina olhou fascinada para o homem que imaginou ser o pai de Tyler. Seu estômago embrulhou-se e ela se controlou para que o pânico não tomasse conta dela outra vez.
Ele não ficou contente com sua teimosia, mas Gina ficou feliz por ter Tyler solidamente ao seu lado, não quebrando a promessa de não dizer a ninguém o seu nome. Ambos ficaram mudos quando Rony exigiu respostas. Oh, ele vociferou e acenou com seus braços. Até ameaçou sufocar a ambos. No final, murmurou blasfêmias contra mulheres e crianças antes de retomar sua jornada para levar Tyler para casa.
O homem era enorme e se parecia muito com Rony.Ela não sabia dizer por que, mas mesmo com tanta alegria em seu rosto quando tomou Tyler em seus braços, ele a assustava de uma maneira que Rony não fez.
Os irmãos eram bem parecidos em musculatura e estatura. Ambos tinham cabelos escuros que caiam abaixo dos ombros, e usavam tranças. Porém, quando olhou ao redor, ficou claro que todos os homens usavam os cabelos da mesma maneira. Longos, bárbaros e selvagens.
— Estou muito feliz em vê-lo, rapaz. – seu pai murmurou.
Tyler agarrou-se ao laird com os braços pequenos.
Sobre a cabeça de Tyler, seu olhar encontrou o de Gina e seus olhos imediatamente se endureceram. Ele a olhou detalhadamente, deixando-a desconfortável com seu escrutínio.
Começou a descer de seu cavalo, porque se sentia um pouco boba, quando todos ao redor já haviam desmontado. Rony correu até ela, suas mãos a alcançando para ajudá-la a descer.
— Calma, moça. – ele a acautelou. – Seus ferimentos estão melhores, mas ainda precisa se cuidar.
Rony soou quase preocupado, mas quando olhou para ele, viu que ainda estava com a mesma expressão feroz. Irritada, Gina fez uma careta. Ele piscou, surpreso, então a empurrou em direção ao laird.
Harry Potter olhou muito mais ameaçador agora que Tyler estava longe de seus braços. Gina recuou um passo apenas para colidir com a montanha que era Rony.
Harry primeiro olhou para Rony, ignorando-a como se ela fosse invisível.
— Tem meus agradecimentos por trazer meu filho para casa. Tinha toda confiança em você e Neville.
Rony limpou a garganta e empurrou Gina para frente.
— Você tem que agradecer a esta moça pelo retorno de Tyler. Eu meramente forneci a escolta.
Harry estreitou os olhos e estudou-a ainda mais. Para o espanto dela, seus olhos não eram escuros e ferozes, mas de um estranho verde pálido. Quem poderia imaginar que os olhos dele eram tudo, menos uma negra combinação, quando ele seu rosto estavam sombrios como nuvens de uma tempestade?
Espantada com a revelação, Gina voltou-se abruptamente e olhou para Rony. Ele piscou e então a observou como se ela fosse uma perfeita idiota;
— Seus olhos são verdes, também. – ela murmurou.
A expressão de Rony tornou-se preocupada.
— Tem certeza de que não sofreu um golpe na cabeça?
— Você vai olhar para mim. – Harry rugiu.
Ela pulou e voltou-se, novamente dando instintivamente um passo para trás, mais uma vez contra Rony. Ele murmurou um palavrão e se curvou, mas Gina estava preocupada com Harry para dar atenção às maldições de Rony.
Sua coragem e sua determinação a não sentir dor tinham acabado. Suas pernas tremiam, suas mãos tremiam, a dor espetava através de seu corpo, fazendo-a ofegar suavemente a cada respiração. O suor banhou sua testa, mas ela não se permitia recuar ainda mais.
O laird estava zangado com ela e não sabia dizer por quê. Não deveria estar grato por ter salvado seu filho? Não que ela realmente tenha feito qualquer coisa heróica, mas ele sabia disso. O pátio inteiro estava em silêncio.
— Rony? – ela murmurou, afastando o olhar do laird.
— Sim, moça.
— Você me amparará se eu desmaiar? Acho que cair no chão não será bom para minhas lesões.
Para sua surpresa, ele a segurou pelos ombros, firmemente. Suas mãos tremiam um pouco e Rony emitiu um estranho som. Estava rindo dela? Harry avançou, com aquela carranca novamente. Será que ninguém sabia sorrir no clã Potter?
— Não, nós não fazemos. – Rony disse divertido.
Ela percebeu tarde demais que pensou em voz alta e se preparou para a censura do laird. Harry parou a um passo dela, forçando-a a levantar o pescoço para olhar para ele. Era difícil ser corajosa quando estava imprensada entre dois guerreiros enormes, mas seu orgulho não permitiria que se jogasse aos seus pés e implorasse por misericórdia. Não, ela enfrentou Draco Malfoy e sobreviveu. Este guerreiro era maior e mais vil e provavelmente poderia esmagá-la como um inseto, mas ela não morreria como uma covarde.
— Você vai me dizer quem é, por que está vestindo as cores de Draco Malfoy e, como diabos, meu filho ficou com você.
Ela balançou a cabeça, apoiada contra Rony, apenas para ouvi-lo proferir outra maldição quando Gina pisou em seu pé ao recuar, para depois se lembrar de seus votos de ser corajosa.
Harry franziu a testa ainda mais.
— Você vai me desafiar?
Havia uma nota de incredulidade em sua voz que ela acharia divertido se não estivesse tomada de dor e prestes a desmaiar.
Seu estômago fervia e ela rezou para não vomitar em suas botas. Não eram tão brilhantes como as de Draco, mas ele ficaria ofendido de qualquer maneira.
— Não o estou desafiando, laird. – ela disse em uma voz que a deixou orgulhosa.
— Então, explique o que quero saber. E faça isso agora. – acrescentou com uma voz mortalmente suave.
— Eu...
Sua voz estava engasgada e engoliu a náusea que subiu pela garganta.
Foi salva por Tyler que não podia ficar mais em silêncio. Ele correu, colocando-se entre ela e seu pai e passando o braço em torno de suas pernas, enterrando o rosto em seu abdômen contundido.
Um gemido escapou e Gina abraçou Tyler, afastando-o de suas costelas. Ela teria deslizado para o chão se Rony não a firmasse pelos braços.
Tyler olhou fixamente para seu pai, que parecia estar lutando contra o choque e a impaciência.
— Deixe-a em paz! – Tyler exclamou. – Ela está ferida e eu prometi que iria protegê-la, papai. Eu prometi. E um Potter nunca quebra sua palavra. Você me disse.
Harry olhou para o filho com espanto.
— O menino está certo, Harry. A mulher precisa urgentemente de uma cama e um banho quente.
Surpresa com o apoio de Rony, mas mais agradecida do que ela poderia expressar, observou o laird apenas para vê-lo olhar incrédulo para Rony.
— Cama? Banho? Meu filho foi devolvido a mim por uma mulher vestindo as cores do homem que mais detesto nesta vida, e você me sugere para dar-lhe banho e cama?
O laird parecia perigosamente prestes a explodir. Ela recuou e desta vez Rony afastou-se para que Gina pudesse por uma distância de Harry.
— Ela salvou a vida dele. – Rony disse.
— Ela levou uma surra por mim. – Tyler gritou.
A expressão de Harry vacilou e olhou novamente para ela como se tentasse ver por si mesmo a extensão de seus ferimentos. Tyler e Rony olharam esperançosos para ele.
Seus músculos incharam em seus braços e pescoço, e respirou várias vezes como se tentasse manter a paciência. Gina sentiu pena dele. Se fosse seu filho, ela também exigiria todos os detalhes. E se fosse verdade – e Harry não tinha nenhum motivo para mentir – que Draco Malfoy era seu inimigo mortal, ela podia entender porque a olhava com tanta desconfiança e ódio. Sim entendia bem o seu dilema. Mas não significava que iria, de repente,cooperar. Reunindo toda a coragem e orgulho, encarou o laird.
— Salvei seu filho, laird. Ficaria grata se me ajudasse. Não pedirei muito. Um cavalo e talvez alguma comida. Sairei de seu caminho e não serei mais um incômodo.
Harry não olhou para ela. Não, virou o rosto para o céu como se implorasse por paciência ou libertação. Talvez os dois.
— Um cavalo. Comida. Ele disse as palavras ainda olhando para o céu. Então, lentamente baixou sua cabeça até que aqueles olhos verdes a queimassem. —Você não vai a lugar nenhum, moça.