Gina olhou exaustivamente para a fortaleza que surgia à sua frente enquanto cavalgavam pela última muralha de pedra e entravam no pátio. A ideia de fugir se enfraquecia quando olhou sem esperanças para a sólida construção. Era impenetrável.
Homens estavam em toda a parte, a grande maioria treinando, outros consertando algumas paredes e outros ainda descansando e bebendo água de um balde a poucos passos do castelo.
Como se estivesse lendo seus pensamentos, Tyler olhou para cima com seus olhos verdes brilhando de medo. Gina mantinha os braços ao redor dele e as mãos juntas na frente do menino, tentando tranqüilizá-lo. Mas na verdade, tremia por dentro.
O soldado que levava seu cavalo parou e ela teve que lutar para ficar na sela. Tyler segurou-se, agarrando a crina do cavalo.
Finn montava ao lado deles e puxou Gina de sua montaria. Tyler veio junto com ela, gritando surpreso quando caiu no chão. Finn desceu-a do cavalo com os dedos apertando seu braço. Gina conseguiu se soltar e correu até Tyler para ajudá-lo a se erguer.
Ao redor deles, toda a atividade cessou, como se todos parassem para examinar os recém-chegados. Algumas mulheres do castelo olhavam curiosamente à distância, sussurrando atrás de suas mãos.
Ela sabia que seu aspecto devia ser terrível, mas estava mais preocupada que Laird Malfoy chegasse para ver sua prisioneira. Que Deus a ajudasse. E então, ela o viu. Apareceu no topo da escada que conduzia ao castelo, com seu olhar penetrante procurando-a. Os rumores de sua ganância, de sua crueldade e ambição, levaram-na a esperar pela imagem do próprio diabo.
Para sua surpresa, era um homem extremamente bonito. Sua roupa era impecável, como se nunca tivesse visto um dia no campo de batalha. Que ela conhecia muito bem. Costurou muitos soldados que cruzaram o caminho dele. Vestia calças de couro macio, uma túnica verde e botas que pareciam novas. Ao seu lado, sua espada brilhava à luz do sol, com a lâmina afiada com uma agudez mortal.
Ela levou automaticamente suas mãos para a garganta, engolindo em seco.
— Você a encontrou? – Draco Malfoy perguntou do alto da escada.
— Sim, Laird. – Finn a empurrou para frente, como se Gina fosse uma boneca de pano. — Esta é Gina Weasley.
Draco estreitou os olhos e franziu a testa, como se tivesse se enganado no passado. Ele a tinha procurado por tanto tempo? Gina estremeceu e não deixou que o medo a dominasse.
— Mostre-me. – Dtaco vociferou.
Tyler moveu-se na direção dela quando Finn puxou-a. Ela bateu em seu peito com força suficiente para cortar sua respiração. Outro soldado apareceu ao seu lado, e para sua humilhação, levantou a barra de seu vestido até a altura de seus quadris.
Draco desceu os degraus com o rosto concentrado, aproximando-se. Algo selvagem faiscou em seus olhos, iluminando-se em triunfo. Seu dedo acariciou o contorno da marca e ele abriu um amplo sorriso.
— O brasão real de Alexander. – ele sussurrou. – Todo esse tempo pensávamos que estava morta, que Neamh Alainn havia se perdido para sempre. Agora ambos são meus.
— Nunca. – ela rosnou.
Ele pareceu surpreso por um momento e então recuou, olhando para Finn.
— Cubram-na.
Finn puxou a roupa para baixo e soltou seu braço. Tyler voltou imediatamente para seu lado.
— Quem é este? – Draco trovejou quando pôs os olhos em Tyler. – Quem é este pirralho? É dela? Não pode ser!
— Não, laird. – Finn rapidamente explicou. – A criança não é dela. Nós o pegamos tentando roubar um de nossos cavalos. Ela o defendeu. Nada mais.
— Livre-se dele.
Gina envolveu os braços em torno de Tyler e olhou para Draco com todo o seu ódio.
— Toque-o e lamentará o dia em que nasceu.
Draco olhou para ela com o rosto vermelho de surpresa e raiva.
— Você se atreve a me ameaçar?
— Vá em frente, mate-me. – ela disse calmamente. — Isso serviria bem ao seu propósito.
Ele se virou e a esbofeteou. Gina caiu por terra, levando a mão ao maxilar.
— Deixe-a em paz! – Tyler gritou. Gina lançou-se para ele, puxando-o e abraçando-o.
— Shhh. – acautelou. – Não faça nada para irritá-lo ainda mais.
— Vejo que você recuperou o bom senso. – Draco disse. – Cuide para que isso não aconteça outra vez.
Ela não disse nada, apenas ficou sentada ali no chão, segurando Tyler e fixando os olhos nas imaculadas botas de Draco. Ele nunca deve ter trabalhado, ela pensou. Até as mãos dele eram macias contra seu rosto. Como poderia um homem ter construído tanto poder com a força bruta dos outros?
— Levem-na para dentro e entreguem-na às mulheres para lavá-la. – Draco disse com desgosto.
— Fique perto de mim. – ela sussurrou para Tyler.
Não acreditava que Finn não fosse machucá-lo. Finn puxou-a e levou-a para dentro do castelo. Embora o exterior brilhasse, por dentro estava sujo e bolorento, com cheiro de cerveja inglesa velha. Os cães latiam animadamente e Gina torceu o nariz com o cheiro de fezes.
— Suba. – Finn rosnou, empurrando-a em direção às escadas. – E não tente qualquer coisa. Haverá guardas em sua porta. Seja rápida. Não vai querer deixar o laird esperando.
As duas mulheres incumbidas de dar banho em Gina olharam-na com um misto de simpatia e curiosidade.
— Você quer que o menino tome banho também? – uma delas lhe perguntou, enquanto lavava seus cabelos.
— Não! – Tyler exclamou de onde estava.
— Não. – Gina suavemente ecoou. – Deixe-o assim.
Depois de lavarem o cabelo de Gina com sabão, ajudaram a se lavar na banheira e a cobriram com um lindo vestido azul com elaborados bordados no pescoço, nas mangas e na barra.
Gina compreendeu porque estava sendo vestida com as cores de Duncan. Quão facilmente ele a considerava como sua conquista. Quando as duas mulheres se ofereceram para arrumar seus cabelos, Gina balançou a cabeça. Assim que estivesse seco, ela mesma faria uma trança.
Encolhendo os ombros, as duas mulheres saíram do quarto, deixando-a para aguardar a convocação de Draco. Ela se sentou na cama, ao lado de Tyler, aconchegando-o na curva de seu braço.
— Vou sujá-la – ele sussurrou.
— Não me importo.
— O que vamos fazer, Gina?
A voz dele demonstrava medo e Gina beijou-lhe no topo da cabeça.
— Nós pensaremos em algo, Tyler. Pensaremos em algo.
A porta se abriu e Gina instintivamente empurrou Tyler atrás dela. Finn estava ali, com um olhar triunfante.
— O laird a quer.
Ela voltou-se para Tyler e segurou seu rosto com as mãos, até que ele olhou diretamente em seus olhos.
— Fique aqui. – sussurrou. – Não saia do quarto. Prometa-me.
O menino movimentou a cabeça com os olhos arregalados de medo. Ela se levantou e foi até onde Finn estava. Quando ele segurou seu braço, Gina puxou-o de volta.
— Sou capaz de andar sem sua ajuda.
— Cadela arrogante. – ele grunhiu.
Ela o seguiu escada abaixo, com o pavor crescendo a cada segundo. Quando viu o sacerdote de pé ao lado da lareira no grande salão, soube que Draco não queria arriscar. Queria se casar, deitar-se com ela e selar o seu destino e o de Neamh Alainn.
Quando Finn a empurrou para frente, rezou para encontrar força e coragem para fazer o que devia.
— Aqui está minha noiva. – Draco disse quando a viu, dirigindo-se ao padre com quem conversava.
Seu sorriso não alcançou os olhos e ele a estudava atentamente, quase como se a advertisse das consequências caso se recusasse.
Deus, ajude-me. O padre limpou a garganta e olhou com atenção para Gina.
— Você está disposta a se casar, moça?
O silêncio caiu enquanto todos aguardavam sua resposta. Então, lentamente ela negou com a cabeça. O padre virou-se para Draco, com um olhar de acusação.
— O que é isso, laird? Você me disse que ambos estavam ansiosos por esse casamento.
A expressão no rosto de Draco fez o padre recuar. Benzeu-se apressadamente e colocou-se a uma distância segura de Duncan.
O laird olhou para ela e seu pulso acelerou. Para um homem tão bonito, naquele momento ele parecia muito feio.
Ele foi na direção de Gina e agarrou seu braço, apertando-o até que ela sentiu que seus ossos estalariam.
— Perguntarei apenas uma vez. – disse com uma voz ilusoriamente suave. — Você está disposta?
Ela sabia. Sabia que quando expressasse sua negação, ele a retaliaria. Poderia até matá-la se seu plano para conquistar Neamh Alainn não desse certo. Mas Gina não havia ficado isolada por todos esses anos para se render no primeiro sinal de adversidade. De alguma maneira, tinha que encontrar um jeito de sair dessa confusão.
Ela endireitou os ombros, mantendo a coluna ereta como uma espada de aço. Em voz clara e distinta, ela proferiu sua negação.
— Não.
O rugido de ira dele quase ensurdeceu suas orelhas. Seu punho a mandou voando a vários metros e Gina encolheu-se, ofegante. Bateu com tanta força as costelas que era incapaz de respirar.
Ela ergueu o olhar chocado e sem foco até vê-lo elevando-se sobre ela, sua raiva transformando-se em uma coisa tangível, terrível. Naquele momento, percebeu que fez a escolha certa. Mesmo que ele a matasse em seu frenesi, o que seria de sua vida como sua esposa?
— Renda-se. - ele exigiu, com o punho erguido em advertência.
— Não.
A voz de Gina não saiu tão forte quanto antes. Parecia mais um suspiro do que qualquer outra coisa. Mas se fez ouvir.
No grande salão, os murmúrios cresceram e o rosto de Draco corou até ela pensar que ele explodiria.
A lustrosa bota chutou seu corpo. O grito de dor que ela soltou foi silenciado pelo golpe seguinte. Mais e mais ele a chutava e então, puxou-a para bater em seu rosto.
— Laird, o senhor irá matá-la.
Ela estava quase inconsciente. Não tinha ideia de quem o advertiu. Cada respiração lhe causava uma dor insuportável.
Draco a soltou, com desgosto.
— Tranque-a em seu quarto. Ninguém lhe dará comida ou água. Nem ao pirralho. Vamos ver quanto tempo leva para ceder quando o garoto começar a chorar de fome.
Novamente foi arrastada para cima sem nenhuma consideração pelo seus ferimentos. Cada passo, cada degrau, era uma agonia. A porta do quarto se abriu e Finn jogou-a para dentro. Gina bateu contra o chão, lutando para não perder a consciência.
— Gina! Crispen se debruçou sobre ela e suas pequenas mãos a seguraram dolorosamente.
— Não, não me toque... —ela sussurrou.
Se ele a tocasse, tinha certeza de que iria desmaiar.
— Você deve ir até a cama. – ele disse, desesperadamente. – Vou ajudá-la. Por favor, Gina.
Ele estava quase chorando e só o pensamento de como o menino sobreviveria a Draco se ela morresse, impediu-a de fechar os olhos. Despertou o suficiente para rastejar em direção à cama, cada movimento enviando dores à espinha. Tyler ajudou-a conforme seu tamanho o permitia e juntos conseguiram levantá-la até a cama.
Fundiu-se ao colchão de palha. Lágrimas quentes deslizavam pelo seu rosto. Tyler deitou ao seu lado, seu corpo quente e doce em busca de conforto que Gina não poderia oferecer. Em vez disso, ele a abraçou com seu pequeno corpo.
— Por favor, não morra, Gina. – ele implorou. – Estou com muito medo.
— Senhora. Minha senhora, acorde. Deve acordar.
O sussurro urgente despertou Gina e quando ela voltou-se, buscando o que a perturbou, a dor atravessou seu corpo até que ofegou.
—Sinto muito. – disse a mulher ansiosamente. – Sei que está ferida, mas deve se apressar.
— Apressar-me?
A voz de Gina estava arrastada e seu cérebro estava confuso. Ao lado dela, Tyler se mexeu e levou um susto quando viu a sombra de pé sobre a cama.
— Sim, rápido. – a voz impaciente repetiu.
— Quem é você? – Gina conseguiu perguntar.
— Não temos tempo para conversar, senhora.O laird está dormindo bêbado. Ele acha que você está muito ferida para fugir. Temos que ir agora, se quisermos fazer isso. Ele planeja matar a criança, se não ceder.
Diante da palavra fuga, a confusão desapareceu. Tentou se sentar, mas a dor apunhalava seu corpo.
— Aqui, deixe-me ajudá-la. Você também, rapaz. – disse a mulher para Tyler. – Ajude-me com sua senhora.
Tyler se mexeu na cama e deslizou para a extremidade.
— Por que está fazendo isso? – Gina perguntou depois que conseguiu se sentar.
— O que ele fez foi uma vergonha. – a mulher murmurou. – Bater em uma moça como você. Ele é louco. Você tem sido sua obsessão. Temo que sua vida não importará, rendendo-se ou não. Ele matará o menino.
Gina apertou a mão dela com a pouca força que tinha.
— Obrigada.
— Devemos nos apressar. Existe uma passagem secreta no próximo quarto. Vocês terão que fugir sozinhos. Não posso correr riscos. Fergus estará no final, esperando-os com um cavalo. Ele porá você e o rapazinho em cima. Sim, vai doer, mas terá que suportar. É sua única saída.
Gina acenou com aceitação. Fugir em agonia ou morrer no conforto. Não parecia ser uma decisão difícil.
A mulher abriu a porta do quarto, voltou-se para Gina e pôs um dedo sobre os lábios. Ela fez sinal para a esquerda, para Gina saber que havia guardas ali.
Tyler deslizou sua mão na dela e novamente ela apertou-a, para confortá-lo. Centímetro por centímetro, sem respirar, penetraram na escuridão do corredor. Gina prendeu a respiração por todo o caminho, com medo de que o mínimo sopro pudesse alertar os guardas.
Finalmente chegaram ao próximo quarto. A poeira ergueu-se em torno de seu nariz quando entraram e Gina precisou segurar o nariz para não espirrar.
— Por aqui. – a mulher sussurrou na escuridão. Gina seguiu o som de sua voz até que sentiu o frio emanar de uma parede de pedra. — Deus esteja com vocês. – a mulher disse assim que conduziu Gina e Tyler para o pequeno túnel.
Gina parou apenas o suficiente para apertar sua mão em um rápido agradecimento e então impulsionou Tyler na passagem estreita. Cada passou enviava uma onda de agonia pelo corpo de Gina. Ela temeu que suas costelas estivessem quebradas, mas agora não existia nada que pudesse ser feito.
Apressaram-se pela escuridão, Gina arrastando Tyler atrás dela.
— Quem vem lá?
Gina deteve-se ao ouvir a voz, mas lembrou-se que a mulher disse que Fergus os aguardava.
— Fergus? – ela chamou suavemente. – Sou eu, Gina Weasley.
— Venha, senhora. – apressou.
Ela correu até o fim e pisou no chão frio e úmido, estremecendo quando seus pés descalços pisaram as pedras ásperas. Olhou ao seu redor e viu que a passagem saía atrás do castelo onde havia apenas uma muralha entre o castelo e a encosta que se projetava para o céu.
Sem dizer nada, Fergus sumiu na escuridão e Gina correu para alcançá-lo
Moveram-se ao longo da encosta até as árvores no perímetro da propriedade de Draco. Um cavalo estava amarrado em uma das árvores e Fergus rapidamente o libertou, tomando as rédeas.
— Erguerei você primeiro e depois o rapaz. – ele disse, apontando para a distância. – Daquele lado fica o norte. Deus esteja com vocês.
Sem outra palavra, ele a ergueu, lançando-a sobre a sela. Lágrimas tomavam conta de seus olhos e curvou-se de dor, lutando para não desmaiar. Ajude-me, Deus, por favor. Fergus ergueu Tyler e sentou-o na frente dela.
— Pode cuidar das rédeas? – ela sussurrou para Tyler.
— Eu protegerei você. – Tyler disse ferozmente. – Segure-se em mim, Gina. Vou levar-nos para casa, eu juro.
Ela sorriu ao ouvir a determinação em sua voz.
— Eu sei que vai.
Fergus deu um tapa no cavalo e ele seguiu adiante. Gina mordeu o lábio contra o grito de dor que ameaçava sair. Não poderia fazer isso até estarem longe.
Rony parou seu cavalo e ergueu seu punho ordenando que seus homens parassem. Eles cavalgaram durante toda a manhã buscando trilhas sem fim, rastreando pegadas em vão. Todos eram becos sem saída. Desceu da sela e caminhou adiante para ver as marcas no solo. Ajoelhado, tocou as fracas pegadas e a grama pisada. Parecia que alguém sofreu uma queda de cavalo. Recentemente.
Examinou a área ao redor, viu uma pegada em um pedaço de terra a poucos metros de distância e ergueu o olhar para a área onde a pessoa seguiu. Lentamente, levantou-se, tirou a espada e fez sinal para seus homens se espalharem pela área.
Cuidadosamente, entrou por entre as árvores, espreitando com cautela procurando qualquer sinal de emboscada. Viu o cavalo primeiro, pastando a uma distância pequena, com as rédeas suspensas e a sela retorcida. Franziu o cenho. Seguramente era um pecado tal descuido com um cavalo.
Um sussurro leve à direita chamou sua atenção e ele se viu olhando para uma pequena mulher, com as costas prensadas contra uma enorme árvore. Suas saias esvoaçavam, como se tivesse uma ninhada de gatinhos escondida debaixo delas, e seus grandes olhos azuis estavam cheios de medo e fúria.
Seus longos cabelos vermelho desciam, desordenados, até a cintura e foi quando percebeu as cores de sua túnica e o brasão bordado na barra.
A raiva temporariamente o cegou e ele avançou com a espada erguida acima de sua cabeça. Ela lançou um braço para trás, empurrando algo mais contra a árvore. Suas saias esvoaçaram novamente e Rony percebeu que ela protegia uma pessoa. Uma criança.
— Fique atrás de mim. – ela sussurrou.
— Mas Gin...
Rony congelou. Conhecia a voz. Seus dedos tremiam, pela primeira vez em sua vida a sua mão ficou instável ao redor do cabo. O inferno seria um lugar frio antes que ele permitisse que as mãos de um Malfoy tocassem alguém de sua família.
Com um grunhido de raiva, avançou, pegou a mulher pelos ombros e jogou-a de lado. Tyler permaneceu contra a árvore com a boca aberta. Então, o menino viu Rony e tudo o que fez foi cair em seus braços. A espada caiu por terra – outro pecado de negligência – mas naquele momento, Rony não se importou. Estava aliviado por encontrar o sobrinho.
— Tyler. – disse, com voz rouca, quando abraçou o menino.
Um grito agudo agrediu seus ouvidos ao mesmo tempo em que foi atingido pela mulher. Ele ficou tão surpreso que tropeçou e soltou Tyler.
Ela se colocou entre os dois e lançou um joelho na virilha de Rony. Ele se curvou, amaldiçoando enquanto a dor tomava conta de seu corpo. Caiu de joelhos e agarrou sua espada ao mesmo tempo em que assobiava para seus homens. A mulher era louca.
Pela névoa de dor, Rony a viu agarrar um resistente Tyler e tentar fugir. Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Dois de seus homens a cercaram. Ela se deteve e Tyler bateu em suas costas. Quando ela começou a correr na direção oposta, Gannon levantou um braço para detê-la. Para o espanto de Rony, ela voltou-se, pegou Tyler e se jogou no chão, com seu corpo protetoramente sobre o menino.
Gannon e Cormac congelaram e olharam para Rony, assim como o resto dos homens que apareceram através das árvores.
Para confundir ainda mais o inferno ao redor deles, Tyler finalmente balançou a cabeça e se jogou em cima dela, olhando com cara feia o tempo todo para Gannon.
— Você não vai atingi-la. – ele gritou.
Cada um de seus homens piscou, surpresos pela ferocidade de Tyler.
— Rapaz, eu não ia bater na moça. – Gannon disse. – Estava tentando impedi-la de fugir. Com você. Por Deus, estávamos procurando-o há dias. O laird está doente de preocupação por você.
Rony caminhou até Tyler e arrancou-o de cima da mulher encolhida. Quando estendeu a mão para colocá-lo de pé, Tyler explodiu novamente, empurrando-o.
Rony olhou fixamente para o sobrinho com a boca aberta.
— Não toque nela. – Tyler disse. – Ela está muito machucada, tio Rony.
Tyler mordeu seu lábio inferior e parecia que o menino ia começar a chorar. Quem quer que fosse a mulher, era óbvio que Tyler não a temia.
— Não a machucarei, rapaz. – Rony disse suavemente.
Ele se ajoelhou, afastou os cabelos de seu rosto e percebeu que ela estava inconsciente. Havia um hematoma na face, mas fora isso, não parecia estar ferida.
— Onde ela está machucada? – perguntou a Tyler.
Lágrimas encheram os olhos de Tyler e ele limpou-as apressadamente com as costas da mão suja.
— Seu estômago e suas costas. Dói muito se alguém a toca.
Cuidadosamente, para não alarmar o menino, Rony puxou sua roupa. Quando seu abdômen e costas apareceram, ele respirou fundo. Ao redor dela, seus homens alternadamente amaldiçoaram e murmuraram sua piedade pela moça.
— Deus do céu, o que aconteceu com ela? – Rony perguntou.
Sua caixa toráxica estava toda roxa e feias contusões marcavam suas costas lisas. Ele poderia jurar que uma delas tinha a forma da bota de um homem.
— Ele bateu nela. – Tyler murmurou. – Leve-nos para casa, tio Rony. Eu quero meu papai.
Não querendo que o menino perdesse a compostura na frente dos outros homens, Rony concordou e deu um tapinha no braço de Tyler. Haveria tempo de sobra para o sobrinho contar sua história mais tarde.
Harry gostaria de ouvir tudo. Olhou fixamente para a mulher inconsciente e franziu a testa. Ela havia protegido Tyler com o próprio corpo, e ainda assim usava as cores de Draco Malfoy. Harry ficaria fora de controle se Malfoy tivesse qualquer envolvimento no desaparecimento de Tyler. Guerra. Finalmente, a guerra seria declarada.
Fez um sinal para Cormac cuidar da moça e estendeu a mão para Tyler, pretendendo que o menino viesse com ele. Havia várias perguntas que poderiam ser respondidas na volta para casa.
Tyler sacudiu sua cabeça obstinadamente.
— Não, você vai levá-la, tio Rony. Ela tem que voltar com você. Prometi a ela que papai a manteria segura, mas ele não está aqui, então você tem fazer isso. Tem que ser você.
Rony suspirou. O menino não estava sendo razoável, e justo agora que ele estava tão feliz por encontrá-lo vivo, cederia a suas exigências ridículas. Mas tarde, puxaria a orelha do pirralho por ter questionado sua autoridade.
— Eu também quero ir com você. – Tyler disse, olhando nervosamente para a mulher.
Ele avançou mais perto dela como se não pudesse suportar a ideia de ficarem separados.
Rony olhou para o céu. Harry não teve uma mão firme o suficiente com o menino. Tyler era tudo. Tudo o que sobrou para ele. E assim, Rony encontrou-se montado em seu cavalo com a mulher na sela na frente dele, seu corpo deitado na curva de seu braço, e Tyler sentado sobre sua perna, com a cabeça deitada no peito dela.
Olhou para seus homens, desafiando qualquer um que ousasse rir. Inferno, ele teve que deixar sua espada para cuidar de duas pessoas a mais, não importando se o peso deles não se igualasse a um único guerreiro. Era melhor Harry ficar agradecido. O irmão decidiria o que fazer com a mulher, tão logo Rony a deixasse em seu colo.